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Às vésperas das eleições, Mulheres do Cerrado clamam pela defesa de seus corpos-territórios em carta pública

 Leia na íntegra a Carta do IV Encontro de Mulheres do Cerrado, realizado entre os dias 01 e 03 de setembro de 2026, em Cuiabá (MT).


CARTA FINAL DO IV ENCONTRO DE MULHERES DO CERRADO

“Somos corpos-territórios: encontrar, cuidar e resistir”.

Chegamos ao Mato Grosso, na cidade de Cuiabá, acolhidas pela FASE – Solidariedade e Educação e pelo GIAS Grupo de Intercâmbio em Agroecologia, entre os dias 01 e 03 de setembro de 2026, no IV Encontro de Mulheres do Cerrado. Trouxemos os nossos corpos-territórios, marcados por nossas histórias de resistências, por nossa ancestralidade e espiritualidade. Ao som de cantos, poesia, vivências e reflexões, refletimos sobre o cuidado como prática cotidiana coletiva e como política de resistência. 

Somos representantes dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das quebradeiras de coco babaçu, das benzedeiras e raizeiras, das comunidades tradicionais cerradeiras e pantaneiras, agricultoras familiares, assentadas da reforma agrária, organizadas em coletivos, organizações de mulheres negras, associações, sindicatos, redes e articulações. Somos Corpos-Territórios e guardiãs da Sociobiodiversidade do Cerrado.

NOSSO COMPROMISSO COM O MOMENTO HISTÓRICO DAS ELEIÇÕES

Chegamos ao nosso IV Encontro em um momento muito próximo das eleições. São tempos difíceis e desafiadores com as guerras e avanço da direita e extrema direita no plano internacional e também no Brasil. Atendemos ao chamado para o compromisso político de defesa da soberania nacional e da democracia que estão sob ameaça. Entendemos que a soberania é o poder do Brasil decidir seus caminhos, e proteger nossas terras, nossas águas, nossa biodiversidade, nossos minerais, nossa alimentação adequada e saudável e garantir os direitos dos povos, das mulheres, das meninas e das juventudes. Defendemos a nossa soberania e o aperfeiçoamento de nossa democracia. Nós, mulheres representamos 52.8% do eleitorado brasileiro e podemos fazer de nossos votos instrumentos pela defesa da vida das mulheres, meninas e juventudes, por dignidade humana, justiça racial, socioambiental e alimentar.

Trazemos a defesa dos Cerrados como território de vida e não de lucro, frente à cotidiana violação de direitos que vivenciam seus povos e a natureza. Juntamos nossas vozes aos movimentos sociais, feministas, antirracistas e agroecológicos e à articulações e redes que recomendam o voto nas candidatas e candidatos que apresentam a defesa dos direitos das mulheres contra todas as formas de violências de gênero; que afirmam a agroecologia como caminho para a soberania e segurança alimentar e nutricional e como resposta às crises ambientais, climática e alimentar; e que apoiam o fortalecimento das juventudes como sujeitos políticos, garantindo sua participação efetiva nos espaços de discussão, decisão e poder, reconhecendo seu protagonismo na construção e articulação de políticas públicas e de novas formas de organização social. Afirmamos a importância de eleger pessoas que lutem por leis e políticas públicas que defendam  nossos direitos fundamentais de acesso à terra, à água, à biodiversidade; que enfrentem o racismo ambiental e a segregação racial nos espaços urbanos e rurais; e que combatam contaminação, devastação e destruição de nossos territórios do Cerrado. Para isso, também é preciso eleger jovens, especialmente jovens do campo, das águas e das florestas que possam lutar por condições para que as juventudes possam permanecer em seus territórios, participar da vida política e comunitária e construir seus projetos de vida com autonomia, dignidade e perspectivas de futuro. Queremos aumentar a representação das mulheres comprometidas com a essas causas nos espaços de poder, em especial mulheres negras, indígenas, quilombolas e dos povos e comunidades tradicionais.

DENUNCIAMOS TODOS OS PROJETOS E AÇÕES QUE COLOCAM O BERÇO DAS ÁGUAS EM PERIGO E AMEAÇA NOSSAS VIDAS

Berço das Águas: assim é conhecido o Cerrado. Juntamente com suas áreas de transição, o Cerrado é o lugar onde nascem os rios formadores de importantes bacias hidrográficas como a Bacia Amazônica; Bacia Araguaia-Tocantins; Bacia do São Francisco; Bacia do Paraná-Paraguai. Mas, seus aquíferos estão secando. Cerca de 50% dos territórios do Cerrado estão devastados por causa da expansão da chamada fronteira agrícola com os monocultivos de soja, milho, cana de açúcar, algodão e também com a mineração. A biodiversidade com uma grande diversidade de animais e dos frutos, dos óleos, das raízes, conservados pela força da ancestralidade de nossos povos, está sob ameaça de redução e/ou extinção.  Frente a esta realidade, denunciamos o cercamento dos modos de vida e a violência contra nossos corpos com a contaminação dos agrotóxicos e do mercúrio; a destruição da natureza, o isolamento e empobrecimento de comunidades, situações que vem causando adoecimento psicológico e insegurança alimentar e nutricional. Antes era a dominação dos grandes fazendeiros, hoje são as corporações agroindustriais que vão provocando um verdadeiro eco-genocídio1,  ou seja, um crime socioambiental de larga escala que afeta diretamente a existência dos povos do Cerrado, com destaque para comunidades, juventudes e mulheres negras, que vivem uma necropolítica2 em curso. 

DEFENDEMOS OS CORPOS-TERRITÓRIOS DE VIDA 

É nesse contexto de dor e destruição e de violências contra as mulheres e meninas, que resistimos de forma coletiva, como lutadoras, e assumimos o cuidado como prática e ação coletiva de resistência, não como mais uma responsabilidade exclusiva das mulheres. Valorizamos todo o trabalho de cuidados historicamente realizado pelas mulheres, que foram responsáveis por manter a vida, a natureza e a saúde dos povos.  Mas exaustas com tanta sobrecarga: entendemos o cuidado com um direito de todas as pessoas e seres, devendo ser responsabilidade de todos os membros da família, da sociedade e do Estado. 

Colocamos na centralidade de nossas lutas, a defesa dos territórios de vida para afirmar nossos direitos à terra, à água, às sementes, às plantas medicinais, à saúde, educação e segurança para as mulheres, homens, jovens e crianças. Plantamos, coletamos, conservamos e multiplicamos as sementes, criamos animais, aplicando nossos conhecimentos ancestrais, dialogando com os princípios da agroecologia, criando regras e aplicando protocolos na defesa dos bens comuns. Reconhecemos que a natureza também tem direitos e que nós também somos natureza. Lutamos contra os agrotóxicos, formando caravanas para apresentar nossas denúncias, no plano internacional, junto às sessões do Conselho de Direitos Humanos da ONU, ao mesmo tempo que exigimos leis municipais e estaduais para cessar a pulverização de veneno por drones e aviões. Queremos o direito de permanecer em nossos territórios em paz e com uma vida digna.

REAFIRMAMOS NOSSAS PROPOSTAS 

Continuamos ecoando nossas vozes com importantes recomendações para o fortalecimento das mulheres na sociedade e nos seus territórios:

a) Priorizar, por parte dos órgãos federais e estaduais, a identificação, demarcação e titulação dos territórios indígenas, quilombolas, de povos e comunidades tradicionais, bem como a implementação da política de reforma agrária, condição fundamental para o enfrentamento à violência e para o fortalecimento da organização política das mulheres. 

b) Garantir o direito à Consulta e Consentimento previstos na Convenção 169 da OIT aos povos indígenas, quilombolas e tradicionais, reconhecendo-se os Protocolos de Consulta Livre, Prévia e Informada como instrumentos de expressão da autonomia e autodeterminação dos povos.

 c) Rever a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (Decreto no 5.813/2006), para garantir proteção e fomento para as práticas tradicionais de produção e comercialização de remédios caseiros, bem como reconhecer o ofício das raizeiras e respeitar seus protocolos comunitários bioculturais;

d) Garantir recursos e as condições necessárias de acesso das mulheres e suas comunidades no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Valorização da Sociobiodiversidade e do Extrativismo (Sociobio Mais – Decreto nº 12.539/2025).

e) Formular e efetivar política de reparação pelo uso indiscriminado da água e sua contaminação com venenos por parte do agronegócio e garantia da água de qualidade e saneamento básico, vinculado diretamente ao direito humano à saúde, à alimentação e soberania alimentar;

f) Garantir o reconhecimento, proteção e promoção, por parte do Estado, às tecnologias tradicionais de uso, gestão e aplicação de princípios da agricultura tradicional e agroecológica para a conservação do meio ambiente e produção de alimentos saudáveis;

g) Criar e fortalecer políticas públicas que assegurem condições para que as juventudes, especialmente as juventudes do campo e das águas, possam construir seus projetos de vida em seus territórios. Reconhecer as juventudes como sujeitos de direitos e agentes de renovação dos modos de vida e valorizar sua capacidade de articular saberes tradicionais e novos conhecimentos, contribui para a sucessão rural, a diversidade sociocultural, a agroecologia e a permanência digna das novas gerações em seus territórios; 

h) Efetivar a participação igualitária das mulheres nos espaços políticos de decisões das organizações da sociedade e nos espaços de gestão de políticas públicas. E incorporar medidas contra todas as formas de violências, preconceitos e discriminação para afirmar a igualdade étnico-racial  

i) Proibir a pulverização aérea por aviões e drones no Cerrado e o uso dos agrotóxicos banidos na União Europeia; declarar a inconstitucionalidade da Lei 14.785/2023 (ADI 7700); responsabilizar infratores e garantir a atenção integral à saúde das populações expostas com reparação às comunidades; implementar o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (PRONARA) com apoio à transição agroecológica.

j) Fortalecer a Política Nacional de Cuidados e garantir a implementação do Plano Nacional de Cuidados, incluindo em sua revisão, a realidade das mulheres do campo, das águas e das florestas, com destaque para mulheres negras que representam 69,9% das cuidadoras do Brasil; ampliar a instalação das lavanderias agroecológicas, cozinhas solidárias, creches e pré-escolas públicas em tempo, considerando as especificidades de cada região. 

Convocamos a sociedade para aderir à campanha pela aprovação do Decreto de Regularização Fundiária dos Territórios de Povos e Comunidades Tradicionais e implementação do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos PCTs. Convocamos a sociedade e parlamentares para aprovarem a Emenda Constitucional que reconhece o Cerrado e Caatinga como Patrimônio Nacional (PEC 504/2010).

Retornamos às nossas casas e territórios, mas seguimos em sintonia, fortalecendo a Articulação das Mulheres do Cerrado por meio de ações coletivas, da organização nas comunidades, de intercâmbios e do aprofundamento do cuidado como ação coletiva e de resistência. Seguiremos acolhendo as juventudes, as crianças e as pessoas e coletivos LGBTQIAPN+. Com nossos corpos-territórios vivos e saudáveis, continuaremos reconstruindo nossas histórias e fortalecendo a luta por nossos direitos.

Queremos que a sociedade e o Estado reafirmem o compromisso com a Justiça Climática no Cerrado, enfrentando as estruturas que sustentam o racismo ambiental e o patriarcado, que seguem violentando nossos corpos-territórios. Defendemos um futuro antirracista e anticapitalista, construído a partir dos saberes ancestrais das mulheres voltado ao Bem Viver. As mulheres cerradeiras têm experiências e práticas importantes para enfrentar os desafios do nosso tempo.

Cuiabá/MT, 03 de setembro de 2026

Articulação Mulheres do Cerrado


  1. Ver veredito da Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado do Tribunal Permanente dos Povos (TPP, 2022). ↩︎
  2. O conceito de necropolítica, desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, fala sobre o uso do poder político e social pelo Estado para decidir quem tem direito de viver e quem deve morrer. ↩︎

Foto em destaque: Ludmila Pereira