{"id":5967,"date":"2020-11-18T14:55:53","date_gmt":"2020-11-18T17:55:53","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/a-luta-e-a-resistencia-das-mulheres-do-cerrado\/"},"modified":"2020-11-18T14:55:53","modified_gmt":"2020-11-18T17:55:53","slug":"a-luta-e-a-resistencia-das-mulheres-do-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/a-luta-e-a-resistencia-das-mulheres-do-cerrado\/","title":{"rendered":"A luta e a resist\u00eancia das mulheres do Cerrado"},"content":{"rendered":"<p><i>II encontro foi espa\u00e7o de escuta para as mulheres que tiveram situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e empobrecimento agravadas devido \u00e0 pandemia de Covid-19<\/i><\/p>\n<p><strong>Texto por: Bianca Pyl e Andressa Zumpano<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo desses quase nove meses de pandemia do novo coronav\u00edrus, vimos em muitas reportagens que as mulheres s\u00e3o as que mais sofrem as consequ\u00eancias da crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica. Se somarmos outros marcadores sociais veremos que as opress\u00f5es s\u00e3o ainda mais sentidas por mulheres no campo, mulheres quilombolas, mulheres ind\u00edgenas, pescadoras e de outras comunidades tradicionais. Isso porque a situa\u00e7\u00e3o antes j\u00e1 n\u00e3o era f\u00e1cil devido \u00e0s press\u00f5es que seus territ\u00f3rios sofrem por conta do interesse do agroneg\u00f3cio e outros empreendimentos do capitalismo.&nbsp;<\/p>\n<p>Pensando nesse agravamento da situa\u00e7\u00e3o, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, por meio da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres do Cerrado, realizou o II Encontro de Mulheres do Cerrado. O encontro aconteceu de forma virtual nos dias 11 e 12 de novembro e contou com a participa\u00e7\u00e3o de cerca de cem mulheres de todos os estados que comp\u00f5em o Cerrado brasileiro.<\/p>\n<p>\u201c<i>Conseguimos reunir o rosto do Cerrado, que \u00e9 sobretudo de mulheres negras e ind\u00edgenas<\/i>\u201d, resumiu Val\u00e9ria Santos, da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra Regional Araguaia-Tocantins e que integra a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. A reuni\u00e3o teve a diversidade do Cerrado: quebradeiras de coco, mulheres sem-terra, atingidas por barragens, pescadoras, retireiras do Araguaia, ind\u00edgenas de todos os estados do Cerrado, mulheres de comunidades de fundo e fecho de pasto, quilombolas, camponesas, acampadas, todas de diferentes gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foram sete meses de reuni\u00f5es e planejamento para a realiza\u00e7\u00e3o do encontro. O tema escolhido foi &#8220;<i>Mulheres do cerrado construindo resist\u00eancias<\/i>&#8221; e o objetivo principal era ser um espa\u00e7o de escuta para as mulheres, segundo Val\u00e9ria. \u201c<i>Fizemos um encontro fechado justamente para que as mulheres pudessem trazer seus relatos desse momento que estamos vivendo. Em um primeiro momento t\u00ednhamos receio de elas n\u00e3o interagirem muito porque para muitas delas essa foi a primeira vez em um espa\u00e7o virtual, mas elas superaram a nossa expectativa<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>A demanda pela realiza\u00e7\u00e3o do encontro surgiu das mulheres em seus territ\u00f3rios. Os relatos ouvidos pelas diferentes organiza\u00e7\u00f5es davam conta que as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancias aumentaram, que o empobrecimento piorou devido a perda de espa\u00e7os para comercializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias. Sem contar que as pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o atendem essas mulheres.<\/p>\n<p>O encontro se dividiu em dois momentos. O primeiro com o tema \u201cCapitalismo, patriarcado e machismo, racismo e etnocentrismo como estruturante da realidade social\u201d, facilitado por Carmen Silva (SOS Corpo) e o segundo com o tema \u201cSistema Capitalista e Pandemias. O impacto na vida das mulheres e resist\u00eancias\u201d, que contou com a facilita\u00e7\u00e3o das companheiras Maria Kaz\u00e9 (MPA-PI), F\u00e1tima Barros (Quilombo S\u00e3o Vicente-TO) e Meire Diniz (CIMI-MA e Teia dos Povos-MA).<\/p>\n<p>A quilombola F\u00e1tima Barros, da Ilha de S\u00e3o Vicente, no extremo Norte do Tocantins, falou sobre as dificuldades que a pandemia imp\u00f4s na vida dos quilombolas que vivem na ilha. \u201c O quadro se agravou na pandemia, que jogou luz sobre as mazelas que j\u00e1 enfrentamos\u201d. Uma forma de fazer frente ao problema encontrado pela comunidade foi mapear as fam\u00edlias que tiveram pessoas com Covid-19 na ilha. Al\u00e9m disso, a comunidade decidiu fechar o acesso para pessoas de fora.<\/p>\n<p>Se soma \u00e0 esse cen\u00e1rio de precariza\u00e7\u00e3o a sobrecarga de trabalho. Al\u00e9m de serem respons\u00e1veis pelos servi\u00e7os dom\u00e9sticos, cuidado com os filhos, com a ro\u00e7a, elas tiveram que auxiliar os filhos nas aulas online, isso nos casos das que conseguem ter acesso \u00e0 internet. \u201c<i>Para n\u00f3s \u00e9 muito dif\u00edcil se manter na luta, n\u00e3o temos apoio para o cuidado com nossos filhos. Se eu tenho uma reuni\u00e3o virtual ningu\u00e9m quer cuidar das crian\u00e7as, mas na hora do meu marido ningu\u00e9m pode dar nenhum pio<\/i>\u201d, relatou uma participante do encontro.<\/p>\n<p>O problema foi relatado por outras mulheres no encontro. \u201cMulher n\u00e3o tem vez para gente pegar o microfone para falar da nossa situa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o temos espa\u00e7o para falar na frente e n\u00f3s abrimos nossa assembleia das mulheres para poder n\u00f3s ir na frente e falar. Os Guarani Kaiow\u00e1 sofrem muito, recebemos amea\u00e7as dos fazendeiros, as mulheres est\u00e3o lutando sempre. A gente quando ia falar na frente, j\u00e1 falam que a gente n\u00e3o entende direito e tem que ficar em casa pra fazer almo\u00e7o, janta e caf\u00e9. Passamos por preconceito e amea\u00e7as\u201d, contou Lidia Faria de Oliveira &#8211; lideran\u00e7a Guarani Kaiow\u00e1 no Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Sandra Regina lembrou que o <a href=\"https:\/\/www.miqcb.org\/sobre-nos\"><span style=\"color: #1155cc;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Baba\u00e7u<\/span><\/span><\/a> (MIQCB)<sup><a href=\"#sdfootnote1sym\" class=\"sdfootnoteanc\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup> surgiu justamente porque as quebradeiras estavam cansadas de ter suas pautas ignoradas pelos homens nos sindicatos. \u201cOs nossos assuntos eram sempre os \u00faltimos a ser discutidos, a gente n\u00e3o tinha vez ou voz\u201d, disse. Sandra finalizou sua fala com \u201ctemos que identificar o que nos oprime\u201d.<\/p>\n<h5><b>Rasgar o contrato social<\/b><\/h5>\n<p>E foi justamente na busca de identificar e nomear o que oprime os corpos e os territ\u00f3rios das mulheres do Cerrado que ao longo dos dois dias de encontro as mulheres puderam debater os impactos do capitalismo, do patriarcado, do racismo e do etnocentrismo em suas vidas.&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Carmen Silva, da ong SOS Corpo, trouxe essa reflex\u00e3o <\/span><span style=\"color: #000000;\"><i>\u201cEstamos dentro desse sistema. Ele existe, a gente n\u00e3o v\u00ea, mas sente a domina\u00e7\u00e3o que se baseia na explora\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o sexual nosso trabalho, no controle sobre o nosso corpo, no poder maior para os homens e na viol\u00eancia como uma forma de mante a mulher num lugar subordinado\u201d<\/i><\/span><span style=\"color: #000000;\">. Carmen facilitou o primeiro momento do encontro, que trouxe depoimentos as diversas viol\u00eancias de g\u00eanero produzidas pelo sistema de domina\u00e7\u00e3o patriarcal e capitalista nas mulheres que est\u00e3o nos territ\u00f3rios. <\/span><\/p>\n<p>O capitalismo n\u00e3o \u00e9 uma figura abstrata, as mulheres do Cerrado conhecem seus nomes, suas botas e suas caras, s\u00e3o as empresas que est\u00e3o instaladas no Cerrado, explica Maria Kaz\u00e9, do Movimento Pequenos Agricultores (MPA) no Piau\u00ed. <i>\u201cN\u00e3o podemos falar de um capitalismo distante, que paira no ar, mas sim do capitalismo que est\u00e1 com os p\u00e9s no nosso Cerrado. Estamos falando de empresas como a Radar, por exemplo, ela \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do capitalismo, assim como alguns pol\u00edticos e empres\u00e1rios que representam o capitalismo\u201d<\/i>, disse Maria. Ela lembrou que, apesar de eles terem um dom\u00ednio hegem\u00f4nico, eles s\u00e3o minoria.<\/p>\n<p>\u201cA Suzano Papel e Celulose \u00e9 o rosto do capitalismo pra gente, somos n\u00f3s que sentimos os impactos que uma multinacional dessa causa, seja ambientalmente, politicamente, em todos os sentidos\u201d, relatou uma das participantes, que integra o MIQCB do Maranh\u00e3o. A forma que as comunidades no munic\u00edpio de Imperatriz encontraram de fazer resist\u00eancia foi criar uma rede com organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacional para denunciar que a empresa tem arrendado terras, j\u00e1 que n\u00e3o pode mais comprar, para continuar a expans\u00e3o de sua monocultura de eucalipto.<\/p>\n<p>E s\u00e3o as mulheres que fizeram o enfrentamento dessas opress\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria. \u201cN\u00f3s aprendemos, via contrato social, quais deveriam ser as estruturas da sociedade, qual o papel da mulher e a televis\u00e3o, a igreja, etc sempre nos dizem para viver de acordo com esse contrato social, que nada mais \u00e9 do que a estrutura para manter o capitalismo, manter as coisas como est\u00e3o. Mas precisamos rasgar esse contrato social e n\u00e3o agir da forma como a sociedade quer que a gente fa\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>A fome voltou a crescer no Brasil e os dados mostram que a fome tem cor, tem regi\u00e3o e \u00e9 mais severa no meio rural. De acordo com o IBGE, 57% da popula\u00e7\u00e3o do Norte e 50% do Nordeste sofre com a inseguran\u00e7a alimentar. E 74% das casas em situa\u00e7\u00e3o de fome s\u00e3o chefiadas por pessoas negras.&nbsp;<\/p>\n<h5><b>Resist\u00eancias e esperan\u00e7as<\/b><\/h5>\n<p>As mulheres que participaram do encontro s\u00e3o de diversas comunidades e territ\u00f3rios, mas t\u00eam em comum &#8211; al\u00e9m de viverem e serem parte do bioma Cerrado &#8211; a luta para se manter em suas terras, em seus rios e a esperan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cResistir tem sido a t\u00f4nica desde que os invasores chegaram ao territ\u00f3rio que hoje \u00e9 o Brasil e colocaram as cercas do latif\u00fandio que tiraram at\u00e9 o cemit\u00e9rio das comunidades. As comunidades seguem sabendo que n\u00e3o existe baba\u00e7u livre em uma terra presa\u201d, disse Meire Diniz, da Teia dos Povos e do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi) do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso desconstruir, descolonizar toda a marca e a viol\u00eancia imposta pela coloniza\u00e7\u00e3o, pela naturaliza\u00e7\u00e3o do preconceito. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 nosso, n\u00e3o nos pertence e para nos livrar \u00e9 preciso desconstruir, olhar para si e ver onde estou sendo preconceituosa, para assim irmos tecendo o bem viver\u201d, refletiu Meire.<\/p>\n<p>A quilombola F\u00e1tima Barros lembrou da ancestralidade como um guia para a luta. \u201cN\u00f3s mulheres vanguarda desses processos de resist\u00eancias. O que ocorre no meu territ\u00f3rio ocorre no Par\u00e1, na Bahia em outros estados, precisamos de resist\u00eancia unificada, descolonizar as nossas pr\u00e1ticas de luta tamb\u00e9m. N\u00f3s resistimos tocando a canoa, na quebra do coco, cuidando do cacau, pescando, nas ro\u00e7as, o nosso caminho \u00e9 sempre da nossa ancestralidade\u201d, finalizou F\u00e1tima.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o do Encontro de Mulheres do Cerrado, mesmo que por meio virtual, foi uma fonte poderosa de energia para as mulheres que articulam suas for\u00e7as a partir dos afetos e das resist\u00eancias compartilhadas. Como refor\u00e7ou Maria Kaz\u00e9, &#8220;Temos que seguir como sementeira e seguir multiplicando, ajudando e nascendo com outras mulheres na luta. M\u00e3o e abra\u00e7os abertos sempre, para as companheiras que sofrem as opress\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\" class=\"sdfootnotesym\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a><span style=\"font-size: small;\"> O MIQCB atua desde 1991 para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e valoriza\u00e7\u00e3o das mais de 400 mil quebradeiras de coco dos estados do Par\u00e1, Maranh\u00e3o, Tocantins e Piau\u00ed.<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>II encontro foi espa\u00e7o de escuta para as mulheres que tiveram situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e empobrecimento agravadas devido \u00e0 pandemia de Covid-19 Texto por: Bianca Pyl e Andressa Zumpano&nbsp; Ao longo desses quase nove meses de pandemia do novo coronav\u00edrus, vimos em muitas reportagens que as mulheres s\u00e3o as que mais sofrem as consequ\u00eancias da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-5967","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5967"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5967\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}