{"id":5996,"date":"2020-11-26T17:47:06","date_gmt":"2020-11-26T20:47:06","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/mesa-sobre-conflitos-pela-agua-encerra-programacao-da-tenda-multietnica\/"},"modified":"2020-11-26T17:47:06","modified_gmt":"2020-11-26T20:47:06","slug":"mesa-sobre-conflitos-pela-agua-encerra-programacao-da-tenda-multietnica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/mesa-sobre-conflitos-pela-agua-encerra-programacao-da-tenda-multietnica\/","title":{"rendered":"Mesa sobre Conflitos pela \u00c1gua encerra programa\u00e7\u00e3o da Tenda Multi\u00e9tnica"},"content":{"rendered":"<p><em>Na noite de s\u00e1bado, 24 de junho, a mesa \u201cImpactos e conflitos socioambientais pela \u00e1gua\u201d encerrou as atividades da II Tenda Multi\u00e9tnica \u2013 Povos do Cerrado, realizada de 20 a 24 de junho durante o 19\u00ba Festival Internacional de Cinema e V\u00eddeo Ambiental (FICA), na cidade de Goi\u00e1s. Na atividade foi lida, ainda, a Carta Final da Tenda. Confira ao final da mat\u00e9ria o documento.<\/em><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o somos contra o povo ser evolu\u00eddo, mas tem que ser uma evolu\u00e7\u00e3o que respeite os povos e as florestas\u201d, analisou Juarez Rikbatsk\u00e1. \u201cQuando sa\u00ed da aldeia eu me impressionava com as lavouras gigantescas. Para n\u00f3s ind\u00edgenas a gente ainda n\u00e3o entendeu o porqu\u00ea dessa pr\u00e1tica de monocultivo do agroneg\u00f3cio. At\u00e9 porque aquilo que eles produzem n\u00e3o \u00e9 consumido aqui, \u00e9 exportado, \u00e9 usado para ra\u00e7\u00e3o animal. Quem alimenta o povo \u00e9 a agricultura familiar. 70% do que \u00e9 consumido vem dos pequenos produtores. Quis fazer o poss\u00edvel para vir nesse encontro para poder contribuir com outros povos e outras na\u00e7\u00f5es, para tentar criar uma uni\u00e3o entre n\u00f3s e ir contra esses grandes projetos\u201d, disse o ind\u00edgena.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/19400210_1492765217460266_1843449695916565536_o-1024x683.jpg\" alt=\"19400210 1492765217460266 1843449695916565536 o 1024x683\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/640;\" \/><\/p>\n<p>Juarez denunciou os impactos do uso de agrot\u00f3xicos sobre os povos ind\u00edgenas. \u201cOuvi aqui que de tudo aquilo que \u00e9 utilizado de agrot\u00f3xico no pa\u00eds, mais de 5 litros por pessoa por ano. Os meus antepassados n\u00e3o eram expostos a essa quantidade de veneno. Vemos hoje que \u00e9 dif\u00edcil um ind\u00edgena chegar a 100 ou 90 anos, pois ficam doentes antes. Quero colocar que as preocupa\u00e7\u00f5es que voc\u00eas apresentam aqui s\u00e3o as mesmas que vivemos na aldeia, \u00e9 a mesma que o meu povo vive. N\u00e3o sabemos como vai ser o futuro. A maneira que o agroneg\u00f3cio age \u00e9 para destruir o meio ambiente, a fauna, as \u00e1guas e o ser humano\u201d, finalizou.<\/p>\n<p>Paulo C\u00e9sar Moreira, da coordena\u00e7\u00e3o nacional da CPT e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, lembrou o soci\u00f3logo Fran\u00e7ois Houtart, falecido recentemente e que participaria da Tenda, \u201clembrando o Fran\u00e7ois Houtart, ele dizia que os grandes empres\u00e1rios ou os considerados grandes donos do processo de concentra\u00e7\u00e3o de renda, eles avaliaram que no mundo todo existe muita gente, e o capital n\u00e3o precisa de toda essa concentra\u00e7\u00e3o. Por isso existem tantas armadilhas e uma parte da popula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 exclu\u00edda de fato\u201d.<\/p>\n<p>O coordenador apresentou os dados de conflitos nos biomas. \u201cA soja que se consolidava no sul do pa\u00eds, passa a migrar para o cerrado. Junto a esses conflitos vemos que a conjuntura pol\u00edtica \u00e9 de grandes conglomerados econ\u00f4micos, aliados \u00e0s bancadas pol\u00edticas, voltados para o agroneg\u00f3cio e tamb\u00e9m para a grande m\u00eddia. \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o orquestrada. Todas as categorias de conflitos que a CPT registra aumentaram de 2015 para 2016. Das 61 v\u00edtimas de 2016, duas foram assassinadas em conflitos pela \u00e1gua e tr\u00eas mortes em consequ\u00eancia tamb\u00e9m em conflitos pela \u00e1gua. Todas as regi\u00f5es do pa\u00eds est\u00e3o sofrendo com conflitos pela \u00e1gua. A minera\u00e7\u00e3o tem sido a maior causa dos conflitos pela \u00e1gua. Vemos que \u00e9 a anula\u00e7\u00e3o total dos grupos que tem um modo de viver diferente do capital\u201d.<\/p>\n<p>Foi compartilhado na Tenda que o povo da comunidade do Charco, no Maranh\u00e3o, j\u00e1 falou que se a \u00e1gua deixar de existir, os seus orix\u00e1s v\u00e3o deixar de existir tamb\u00e9m. Ou seja, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental afeta tamb\u00e9m outras dimens\u00f5es, envolvendo as cren\u00e7as, a cultura a cosmovis\u00e3o de mundo desses povos.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Divino Souza, representante da Secretaria de Meio Ambiente do estado de Goi\u00e1s, limitou-se a explicar que \u201cn\u00f3s temos que seguir o que o legislador define, ent\u00e3o n\u00f3s n\u00e3o podemos ir contra isso. Se n\u00e3o houver mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o a gente fica impossibilitado de fazer algo\u201d.<\/p>\n<p>Beto Novaes, cineasta, destacou que o grande problema que vivemos hoje no mundo \u00e9 a quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. \u201cTodos os empres\u00e1rios hoje t\u00eam r\u00e1dio e outros ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. O maior problema nosso \u00e9 levar essas informa\u00e7\u00f5es para a sociedade, que est\u00e1 totalmente dominada pela m\u00eddia e longe desse pensamento. Mesmo nas escolas os professores est\u00e3o presos a um livro texto, e que reflex\u00e3o tem nesses materiais? N\u00f3s trazemos as imagens, portanto, para mostrar isso \u00e0 sociedade, a realidade. A ideia de transformar essas hist\u00f3rias em imagens \u00e9 para ter um instrumento pedag\u00f3gico a ser trabalhado nas escolas. Esse \u00e9 um problema da sociedade brasileira, n\u00e3o somente dos povos do campo. O capitalismo tamb\u00e9m se reproduz a partir da fragmenta\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Beto exemplificou a quest\u00e3o do poder da comunica\u00e7\u00e3o com o caso do document\u00e1rio que ele fez denunciando os impactos dos agrot\u00f3xicos. \u201cEm Lucas do Rio Verde (MT) entrevistei uma m\u00e9dica de posto de sa\u00fade que me falou que o perfil das doen\u00e7as mudou ao longo dos \u00faltimos 20 anos. Se antes atendiam problemas como disenteria, vermes e coisas assim, passaram a atender casos mais s\u00e9rios. E pesquisas mostram que os empres\u00e1rios encomendam pesquisas nas universidades e muito dinheiro investido para tentar mostrar o contr\u00e1rio de tudo isso, tentar mostrar que os agrot\u00f3xicos n\u00e3o t\u00eam interfer\u00eancia nas doen\u00e7as. A pesquisadora do Mato Grosso que trabalhou a quest\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o do leite materno por agrot\u00f3xicos, est\u00e1 sofrendo v\u00e1rios processos. A a\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria para tentar barrar a informa\u00e7\u00e3o para a sociedade \u00e9 muito forte\u201d.<\/p>\n<p>Moema Miranda, do Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase), retomou como os venenos foram introduzidos no mundo na produ\u00e7\u00e3o camponesa. Segundo ela, Rachel Carson, uma bi\u00f3loga norte-americana, em 1966 come\u00e7ou a receber not\u00edcias de uma amiga que morava em uma \u00e1rea que tinha muitos p\u00e1ssaros e que parou de escutar o canto deles. Ela passou, ent\u00e3o, a tentar descobrir o que estava acontecendo, e ela descobriu que a quantidade de veneno que estava sendo usada naquela regi\u00e3o estava matando toda a vida ali presente. \u201cEra uma guerra conta os insetos, para na verdade usar e gastar o veneno que sobrou da II Guerra Mundial e que eles achavam que iriam gastar na guerra do Vietn\u00e3, mas diante da derrota que sofreram nela, passaram a usar no controle de insetos. A partir disso, os norte-americanos come\u00e7aram a exportar a ideia da Revolu\u00e7\u00e3o Verde, de que a tecnologia aliada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o no campo poderia produzir mais alimento\u201d, completou Moema.<\/p>\n<p>Ela explicou, tamb\u00e9m, o real significado de desenvolvimento. \u201cDesenvolvido \u00e9 n\u00e3o ser envolvido, n\u00e3o ser conectado em algo. Ao comprar um produto, portanto, n\u00e3o estamos envolvidos na hist\u00f3ria que aquele produto tem, da mat\u00e9ria prima utilizada, do trabalho empreendido e de todas as mazelas que aquele produto traz consigo para a sociedade. Por isso nos confundimos com as coisas que compramos. Nosso planeta \u00e9 limitado e o crescimento ilimitado n\u00e3o funciona. \u00c9 o suic\u00eddio da pr\u00f3pria sociedade humana. O desenvolvimento al\u00e9m de ecocida, \u00e9 suicida. As sociedades que mais est\u00e3o resistentes ao capitalismo s\u00e3o as que existiam antes do capitalismo. Temos que aprender com elas\u201d.<\/p>\n<p>Moema compartilhou tamb\u00e9m que o capitalismo come\u00e7ou pela dizima\u00e7\u00e3o dos saberes populares e tradicionais, pois a resist\u00eancia do povo viria desse modo ancestral de viver. \u201cO capitalismo come\u00e7a com o cercamento dos campos na Inglaterra, transformando a terra em mercadoria. Tiveram que matar a sabedoria do povo que estava envolvido com a terra, para expandir esse modelo. 100 mil mulheres foram queimadas na Inglaterra acusadas de serem bruxas, porque tinham o conhecimento tradicional, o envolvimento. O assassinato dessas mulheres foi primordial no enfraquecimento das fam\u00edlias camponesas\u201d.<\/p>\n<p>Acesse a<a href=\"https:\/\/www.cptnacional.org.br\/index.php\/publicacoes-2\/destaque\/3849-mesa-sobre-conflitos-pela-agua-encerra-programacao-da-tenda-multietnica\">&nbsp;CARTA FINAL II TENDA MULTI\u00c9TNICA \u2013 POVOS DO CERRADO<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na noite de s\u00e1bado, 24 de junho, a mesa \u201cImpactos e conflitos socioambientais pela \u00e1gua\u201d encerrou as atividades da II Tenda Multi\u00e9tnica \u2013 Povos do Cerrado, realizada de 20 a 24 de junho durante o 19\u00ba Festival Internacional de Cinema e V\u00eddeo Ambiental (FICA), na cidade de Goi\u00e1s. 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