{"id":6057,"date":"2020-11-30T22:12:20","date_gmt":"2020-12-01T01:12:20","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/violencia-em-comunidade-do-cerrado-pistoleiros-atacam-no-tocantins\/"},"modified":"2020-11-30T22:12:20","modified_gmt":"2020-12-01T01:12:20","slug":"violencia-em-comunidade-do-cerrado-pistoleiros-atacam-no-tocantins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/violencia-em-comunidade-do-cerrado-pistoleiros-atacam-no-tocantins\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia em comunidade do Cerrado: pistoleiros atacam no Tocantins"},"content":{"rendered":"<pre>Por Rafael Oliveira, CPT Aragua\u00edna\/Tocantins<\/pre>\n<p>A comunidade camponesa Tau\u00e1, localizada no mun\u00edcipio de Barra do Ouro (TO), vive situa\u00e7\u00e3o de violento conflito. Nas \u00faltimas duas semanas, casas e ro\u00e7as das fam\u00edlias camponesas foram destru\u00eddas por pistoleiros supostamente a mando dos grileiros Em\u00edlio Binotto e seu filho, Edilson Binotto, empres\u00e1rios cuja fam\u00edlia tenta expulsar h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada trabalhadores e trabalhadoras da comunidade tradicional.<\/p>\n<p>Membros do grupo tamb\u00e9m foram amea\u00e7ados e intimidados pelos capangas que rondam diariamente a \u00e1rea. Em um v\u00eddeo gravado durante uma das a\u00e7\u00f5es dos pistoleiros, o l\u00edder do bando, conhecido por Fernand\u00e3o, afirma que todos os barracos constru\u00eddos recentemente seriam derrubados. Nessa ocasi\u00e3o, mesmo sendo filmados, os agressores cortaram com motosserra e jogaram ao ch\u00e3o um barraco de madeira e palha que a fam\u00edlia acabara de erguer.<\/p>\n<p>Atualmente n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ordem judicial que permita a destrui\u00e7\u00e3o de barracos ou despejo de qualquer morador da comunidade. Muito pelo contr\u00e1rio: a cria\u00e7\u00e3o de dois assentamentos foi publicada em portaria oficial do Incra no in\u00edcio deste ano, e outras 10 \u00e1reas est\u00e3o passando por processos administrativos dentro do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) para tamb\u00e9m serem criados assentamentos que atender\u00e3o \u00e0s demandas das fam\u00edlias camponesas.<\/p>\n<p>Em audi\u00eancia realizada em agosto de 2017, o juiz da Comarca de Goiatins determinou realiza\u00e7\u00e3o de per\u00edcia judicial na \u00e1rea para identificar quem de fato tem a posse das terras, quais as benfeitorias, quais s\u00e3o \u00e1reas da Uni\u00e3o entre outros quesitos. No entanto, estranhamente o requerente da a\u00e7\u00e3o \u2013 a fam\u00edlia Binotto \u2013 n\u00e3o realizou o pagamento das custas periciais dentro do prazo determinado pelo juiz.<\/p>\n<p>Os casos de viol\u00eancia s\u00e3o denunciados h\u00e1 anos pelas fam\u00edlias camponesas, por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nenhuma investiga\u00e7\u00e3o em curso pela Pol\u00edcia Civil Agr\u00e1ria. Na expectativa de que medidas urgentes fossem tomadas, no \u00faltimo dia 17 de julho, a comunidade Tau\u00e1, com apoio do regional Araguaia-Tocantins da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), denunciou a situa\u00e7\u00e3o ao Incra (Ouvidoria Agr\u00e1ria Regional e Nacional), Defensoria P\u00fablica, Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, Pol\u00edcias Militar e Civil.<\/p>\n<p>A demora do Incra e do Programa Terra Legal em darem r\u00e1pido andamento \u00e0s etapas de cria\u00e7\u00e3o dos assentamentos e regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria \u00e9 pe\u00e7a chave para o agravamento dos conflitos. Diversas audi\u00eancias p\u00fablicas e reuni\u00f5es j\u00e1 foram realizadas com esses \u00f3rg\u00e3os, por\u00e9m, a morosidade e os compromissos n\u00e3o cumpridos impedem a finaliza\u00e7\u00e3o dos processos.<\/p>\n<p><strong>Uma sistem\u00e1tica destrui\u00e7\u00e3o do Cerrado<br \/><\/strong>A gleba Tau\u00e1 tem sido o alvo constante de desmatamento realizado pelo empres\u00e1rio catarinense Emilio Binotto, o qual grilou essa \u00e1rea para plantar soja, milho e criar gado. Em maio de 2015, ao menos cinco tratores com corrent\u00f5es foram respons\u00e1veis por derrubar todo o Cerrado que encontravam pela frente.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o sojeiro pretendia desmatar uma \u00e1rea equivalente a cerca de 800 campos de futebol, mas esta estimativa j\u00e1 foi superada. A \u00e1rea total desmatada desde a chegada de Binotto pode atingir 11 mil hectares. Acompanhadas pela CPT de Aragua\u00edna (TO), cerca de 20 fam\u00edlias tradicionais (que vivem h\u00e1 mais de 50 anos nesta gleba) e outras 66 fam\u00edlias que passaram a ocupar as terras na \u00faltima d\u00e9cada, est\u00e3o ficando ilhadas e encurraladas diante da for\u00e7a brutal do desmatamento e da viol\u00eancia exercida pelos funcion\u00e1rios do sojeiro-grileiro, Sr Binotto.<\/p>\n<p>Rios, c\u00f3rregos e nascentes est\u00e3o desaparecendo devido ao assoreamento ocasionado pela devasta\u00e7\u00e3o da natureza. \u201cAntes eu andava por essas terras e sabia exatamente onde ficava cada grota d\u2019\u00e1gua, cada caminho para as casas das fam\u00edlias amigas. Hoje em dia, com esse desmatamento, eu n\u00e3o reconhe\u00e7o mais nada, n\u00e3o sei mais caminhar por a\u00ed\u201d, denuncia dona Raimunda.<\/p>\n<p>Em muitos casos, o corte desenfreado das \u00e1rvores chega a beirar as casas das fam\u00edlias, deixando o local impr\u00f3prio para desenvolver qualquer tipo de agricultura familiar. \u201cEssa pr\u00e1tica serve tamb\u00e9m como forma de pressionar as fam\u00edlias para que elas saiam dali, pois nota-se que o grileiro desmatou, mas n\u00e3o plantou nada. Mas o pior vem depois, quando a soja ou o milho s\u00e3o plantados nos arredores e s\u00e3o despejados os diversos tipos de agrot\u00f3xicos\u201d, aponta o agente e coordenador da CPT, Pedro Ribeiro.<\/p>\n<p><strong>Uma sistem\u00e1tica tentativa de expuls\u00e3o dos camponeses<br \/><\/strong>Assim, como tantos outros casos, as causas do atual conflito na gleba Tau\u00e1 remetem \u00e0 arrecada\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de 17,7 mil hectares pelo extinto Grupo Executivo de Terras do Araguaia Tocantins (GETAT), em maio de 1984, \u00e0 revelia das popula\u00e7\u00f5es que ali viviam e trabalhavam.<\/p>\n<p>Com isso, centenas de camponeses tiveram seu modo de vida tradicional alterado de forma dr\u00e1stica. Essa imensa \u00e1rea da Uni\u00e3o, a partir de 1992, passou a ser cobi\u00e7ada por especuladores do sul do Brasil. Considerando que essas terras estavam \u201csem dono\u201d, iniciaram um processo de expuls\u00e3o dos moradores tradicionais, de cercamento dos campos e de desmatamento ilegal. Toda essa viol\u00eancia foi registrada junto ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, em 2007.<\/p>\n<p>A partir de 2009, houve novas tentativas de expulsar os camponeses, com o advento do Programa Terra Legal. Uma parte da gleba foi dividida entre 14 \u201claranjas\u201d que iniciaram processos para regularizar essas terras junto ao Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA). Neste contexto ocorreram v\u00e1rios epis\u00f3dios de queima de barracos, envenenamento de rios, uso ilegal de for\u00e7a policial local em apoio aos fazendeiros, desmatamento, pistolagem, na tentativa evidente de expulsar as fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Diante da onda de viol\u00eancia que se alastra entre comunidades camponesas em luta por terra, a CPT vem expressar seu apoio e sua solidariedade \u00e0s pessoas agredidas e externar seu rep\u00fadio contra os autores e c\u00famplices dessas viol\u00eancias. Este \u00e9 um cen\u00e1rio que infelizmente constatamos tamb\u00e9m em outras regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Conflitos em 2017<br \/><\/strong>De acordo com levantamento do regional Araguaia-Tocantins da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), durante o ano de 2017, em todo o estado cerca de 550 fam\u00edlias camponesas foram despejadas dos locais onde viviam por meio de decis\u00f5es judiciais. Outras 829 fam\u00edlias foram amea\u00e7adas de despejos. Neste per\u00edodo, foram registrados 47 conflitos por terra envolvendo quase 2.500 fam\u00edlias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael Oliveira, CPT Aragua\u00edna\/Tocantins A comunidade camponesa Tau\u00e1, localizada no mun\u00edcipio de Barra do Ouro (TO), vive situa\u00e7\u00e3o de violento conflito. 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