{"id":6063,"date":"2020-11-30T22:28:50","date_gmt":"2020-12-01T01:28:50","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/carta-do-i-encontro-nacional-das-juventudes-do-cerrado\/"},"modified":"2020-11-30T22:28:50","modified_gmt":"2020-12-01T01:28:50","slug":"carta-do-i-encontro-nacional-das-juventudes-do-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/carta-do-i-encontro-nacional-das-juventudes-do-cerrado\/","title":{"rendered":"Carta do I Encontro Nacional das Juventudes do Cerrado"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<i>Passarinho de toda cor<\/i><\/p>\n<p><i>Gente de toda cor<\/i><\/p>\n<p><i>Amarelo, rosa e azul<\/i><\/p>\n<p><i>Me aceita como eu sou\u201d<\/i><\/p>\n<p>Somos milhares. Reunidos em Hidrol\u00e2ndia, Goi\u00e1s, entre os dias 14 e 16 de dezembro de 2018, representando todos os estados do Cerrado brasileiro, somos diversos. As Juventudes do Cerrado s\u00e3o preta, ind\u00edgena, quilombola, feminista, camponesa, sem terra, atingida por minera\u00e7\u00e3o e barragens, quebradeira de coco, pescadora, vazanteira, LBGTQ+, fundo e fecho de pasto, raizeira, benzedeira, agricultora familiar, geraizeira, ribeirinha, extrativista e tantas outras m\u00faltiplas identidades que viemos aqui refor\u00e7ar. A riqueza da nossa diversidade \u00e9 tamb\u00e9m nossa fortaleza na constru\u00e7\u00e3o de uma unidade disposta a conserva\u00e7\u00e3o dos nossos territ\u00f3rios e modos de vida. Nossos passos v\u00eam de longe. Fortalecemos a nossa resist\u00eancia tamb\u00e9m valorizando os saberes das nossas ancestralidades, usando-os para inspirar as lutas que vir\u00e3o. Nesse sentido, somos sujeitos pol\u00edticos que querem ser ouvidos pelos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais como uma for\u00e7a pol\u00edtica consciente de que projeto de Cerrado brasileiro queremos construir, e que estamos construindo.<\/p>\n<p>O rico compartilhamento de experi\u00eancias que trazemos, as lutas pela valoriza\u00e7\u00e3o das Escolas Fam\u00edlias Agr\u00edcolas, nossas cooperativas de beneficiamento e produ\u00e7\u00e3o, nossa comunica\u00e7\u00e3o popular, nossas articula\u00e7\u00f5es em rede mostram que a juventude est\u00e1 em movimento, desconstruindo tamb\u00e9m velhos preconceitos de que os\/as jovens n\u00e3o est\u00e3o interessados\/as na constru\u00e7\u00e3o de lutas e resist\u00eancias.<\/p>\n<p>Nesse sentido, repudiamos a forma como somos retratados tamb\u00e9m pela m\u00eddia tradicional que insiste em criminalizar nossa resist\u00eancia, ou apresenta nossos modos de vida sempre como ultrapassados e\/ou miser\u00e1veis. Lutamos pela democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, e mais, pelo fortalecimento dos nossos pr\u00f3prios canais de comunica\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Cientes do desafio que o atual contexto brasileiro nos traz, compreendemos a nossa miss\u00e3o em resistir contra o avan\u00e7o sobre nossos territ\u00f3rios e o projeto em curso de desmonte do modelo de conviv\u00eancia com os biomas que acreditamos. Denunciamos o MATOPIBA como um projeto de morte para o Cerrado brasileiro, para nossas \u00e1guas, nossos territ\u00f3rios, nossos rios, nossas florestas, nossos solos e nossa gente. O avan\u00e7o predat\u00f3rio sobre nossos territ\u00f3rios tem aumentado a viol\u00eancia no campo. Nesse mesmo sentido, somos contra os projetos de minera\u00e7\u00e3o, constru\u00eddos sem qualquer consulta pr\u00e9via a nossas comunidades, poluem nossas \u00e1guas e desterritorializam nosso povo, amea\u00e7ando-o e matando nossas lideran\u00e7as. Repudiamos as amea\u00e7as que sofremos diariamente e cobramos do Estado Brasileiro um posicionamento em rela\u00e7\u00e3o ao acirramento da viol\u00eancia. Tamb\u00e9m nos solidarizamos com o recente assassinato de dois companheiros, Jos\u00e9 Bernardo da Silva, conhecido como Orlando, e Rodrigo Celestino, integrantes do MST Para\u00edba.<\/p>\n<p><b>\u201cPelos nossos\/as mortos\/as nem um minuto de sil\u00eancio, mas toda uma vida de luta!\u201d<\/b><\/p>\n<p>N\u00f3s queremos permanecer em nossa terra e conservar o nosso Cerrado. Nossa luta por perman\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m uma batalha por uma Educa\u00e7\u00e3o do e no Campo. A Educa\u00e7\u00e3o do Campo \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica para a organiza\u00e7\u00e3o do conhecimento dos povos do campo. \u00c9 uma polaridade cultural dirigida pelos povos do campo dentro de seu lugar de origem, \u00e9 um processo de ressignifica\u00e7\u00e3o da teoria e da pr\u00e1tica na supera\u00e7\u00e3o da escola tradicional.<\/p>\n<p>Denunciamos aqui o criminoso processo de fechamento das escolas do campo no pa\u00eds. Apenas no estado do Piau\u00ed, 317 escolas foram fechadas nos \u00faltimos anos. A desvaloriza\u00e7\u00e3o do ensino do campo \u00e9 parte de um projeto maior de uma ofensiva cultural que tenta colonizar nossos saberes nos vendendo a falsa ideia de que todo o conhecimento v\u00e1lido \u00e9 apenas o ultra tecnol\u00f3gico ou vindo das grandes cidades. Por isso, somos tamb\u00e9m contra o projeto da Escola Sem Partido, porque queremos um ensino libertador, descolonizador e contextualizado que dialogue com nossas realidades. Permanecer no Cerrado \u00e9 tamb\u00e9m incentivar nossos modos de produ\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de renda e conserva\u00e7\u00e3o do nosso bioma. Por isso, tamb\u00e9m gritamos pela valoriza\u00e7\u00e3o de uma assessoria t\u00e9cnica voltada para a produ\u00e7\u00e3o da juventude, investimento em Escolas Fam\u00edlia Agr\u00edcola (EFA\u2019s), e pol\u00edticas p\u00fablicas para nosso acesso ao mercado justo e de economia solid\u00e1ria.<\/p>\n<p><b>\u201cNingu\u00e9m vai morrer de sede nas margens dos nossos rios\u201d<\/b><\/p>\n<p>O avan\u00e7o do capitalismo neoliberal atrav\u00e9s dos grandes projetos do hidro e agroneg\u00f3cio tem roubado nossas \u00e1guas. O Cerrado \u00e9 o ber\u00e7o das \u00e1guas do Brasil e nele est\u00e1 uma das \u00faltimas e maiores reservas de \u00e1gua doce do mundo. Entendemos que a apropria\u00e7\u00e3o dos nossos mananciais aqu\u00edferos \u00e9 um crime contra toda a humanidade e que a \u00e1gua \u00e9 um bem de todos e todas. Somos contra todos os processos de privatiza\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. N\u00f3s somos o presente e o futuro dos povos do Cerrado e \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o dos nossos modos de vida que ser\u00e1 capaz de garantir a conserva\u00e7\u00e3o das nossas riquezas naturais.<\/p>\n<p><b>\u201cDe que adianta territ\u00f3rios livres com corpos presos?\u201d<\/b><\/p>\n<p>N\u00f3s, juventudes do Cerrado, compreendemos que a liberdade de exist\u00eancia dos nossos povos precisa ser completa. A luta pela constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo, popular, solid\u00e1rio e igualit\u00e1rio precisa estar necessariamente conectada com a valoriza\u00e7\u00e3o e respeito das mulheres. Precisamos lutar, seja enquanto jovens mulheres protagonistas dessa luta, ou enquanto homens aliados e apoiadores desse processo, contra todas as formas de viol\u00eancia contra a mulher em nossos territ\u00f3rios, bem como de nega\u00e7\u00e3o das nossas liberdades ou pris\u00e3o da nossa sexualidade. Entendemos que a auto-organiza\u00e7\u00e3o feminista \u00e9 um instrumento chave para o empoderamento das mulheres nas nossas comunidades que precisa ser incentivado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso valorizar o trabalho das mulheres e das meninas jovens, batalhar por uma justa divis\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico, compreender e visibilizar a contribui\u00e7\u00e3o essencial das mulheres na conserva\u00e7\u00e3o dos nossos patrim\u00f4nios naturais, como as \u00e1guas e as sementes, assim como seu papel numa produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica que garante soberania alimentar e nutricional para as nossas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos mais permitir a exclus\u00e3o das mulheres nos espa\u00e7os de lideran\u00e7a pol\u00edtica em nossos movimentos, organiza\u00e7\u00f5es e comunidades. \u00c9 tempo de fortalecer as lideran\u00e7as jovens mulheres, dando valor \u00e0s suas contribui\u00e7\u00f5es, e permitindo que o poder dentro e fora dos movimentos seja compartilhado.<\/p>\n<p><b>\u201cO afeto te afeta?\u201d<\/b><\/p>\n<p>Em nosso Cerrado brasileiro, assim como nos demais territ\u00f3rios, n\u00e3o deve haver espa\u00e7o para o preconceito. Em um ambiente de viv\u00eancias t\u00e3o diversas, n\u00f3s, da juventude, n\u00e3o permitiremos que companheiros e companheiras sejam discriminados e discriminadas seja por sua orienta\u00e7\u00e3o sexual ou identidade de g\u00eanero. Para n\u00f3s, \u00e9 inadmiss\u00edvel que um dos entraves para perman\u00eancia da nossa juventude no campo tamb\u00e9m seja a LGBTfobia que discrimina, mata, e violenta psicologicamente tantos e tantas de n\u00f3s. Nos solidarizamos aqui com o assassinato cruel da transexual J\u00e9ssica Dias que teve seu corpo cruelmente queimado em mais um crime homof\u00f3bico.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de romper as barreiras do desamor e abrir espa\u00e7o para posturas inclusivas dentro e fora dos movimentos, acolhendo as pessoas LGBTQ+, compreendo suas lutas e sabendo que elas tamb\u00e9m s\u00e3o parte de um Cerrado livre e para todos e todas.<\/p>\n<p>Por fim, anunciamos que \u00e9 tempo de uni\u00e3o. Tempo de avan\u00e7ar de m\u00e3os dadas com nossos companheiros e nossas companheiras de outros biomas, das cidades, de outros pa\u00edses para resistir aos retrocessos. \u00c9 momento de mais do que nunca, abrir caminho para a resist\u00eancia da juventude, dos nossos cantos, da nossa energia e da nossa m\u00edstica. O Cerrado tamb\u00e9m \u00e9 sua juventude resiliente e a sua diversidade. N\u00e3o temos tempo a temer, vamos juntos e juntas e respiramos luta!<\/p>\n<p><b>A Articula\u00e7\u00e3o das Juventudes do Cerrado est\u00e1 viva, em p\u00e9 e em luta!<\/b><\/p>\n<p><b>Sem Cerrado! Sem \u00e1gua! Sem vida!<\/b><\/p>\n<p>Hidrol\u00e2ndia (GO), 16 de dezembro de 2018.<\/p>\n<p>Articula\u00e7\u00e3o Nacional das Juventudes do Cerrado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPassarinho de toda cor Gente de toda cor Amarelo, rosa e azul Me aceita como eu sou\u201d Somos milhares. 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