{"id":6107,"date":"2020-12-02T17:01:32","date_gmt":"2020-12-02T20:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/jogo-dos-7-erros-da-entrevista-da-ministra-tereza-cristina\/"},"modified":"2020-12-02T17:01:32","modified_gmt":"2020-12-02T20:01:32","slug":"jogo-dos-7-erros-da-entrevista-da-ministra-tereza-cristina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/jogo-dos-7-erros-da-entrevista-da-ministra-tereza-cristina\/","title":{"rendered":"Jogo dos 7 erros da entrevista da ministra Tereza Cristina"},"content":{"rendered":"<p>A ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento Tereza Cristina (DEM) concedeu uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/estadao-conteudo\/2020\/07\/05\/o-agronegocio-nao-precisa-da-amazonia-diz-ministra-da-agricultura.htm?fbclid=IwAR2SQTvrMsB2x1zhe6cXzPQcViz_4ReF8EyrRzK5rvmEW5v0jS76a8S7uJM\">entrevista ao jornal Estad\u00e3o<\/a>, publicada no dia 05 de julho de 2020, na qual destilou um festival de ideias rasas sobre as rela\u00e7\u00f5es entre \u201csustentabilidade\u201d e agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Chamou aten\u00e7\u00e3o, em especial, a seguinte declara\u00e7\u00e3o, repleta de fal\u00e1cias e argumentos distorcidos:<\/p>\n<p>\u201c[O agroneg\u00f3cio] n\u00e3o precisa [da Amaz\u00f4nia]. Hoje, com as necessidades da popula\u00e7\u00e3o no Brasil e em todo o mundo, n\u00e3o precisa. E n\u00e3o se trata s\u00f3 disso. A Amaz\u00f4nia n\u00e3o tem log\u00edstica para tirar produ\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem que fazer estrada, aumentar porto, ferrovia. A regi\u00e3o n\u00e3o possui essa infraestrutura. Al\u00e9m disso, nossa tecnologia de agricultura foi feita para regi\u00f5es como o Cerrado, para o Sul e Sudeste. E essa tecnologia muda conforme a regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sabe reconhecer os \u201c7 erros\u201d na fala da ministra?<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.01.54-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.01.54 1024x1024\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/960;\" \/><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do agroneg\u00f3cio de se apossar dos territ\u00f3rios e ir \u201cpassando a boiada\u201d, ou seja, derrubando a floresta para colocar pastagens e, em algumas regi\u00f5es, depois entrar com a soja, ganhando com a&nbsp; venda ilegal da madeira no processo, j\u00e1 \u00e9 conhecida dos povos e das organiza\u00e7\u00f5es da Amaz\u00f4nia. Na maioria dos casos \u00e9 tamb\u00e9m o modus operandis de consolida\u00e7\u00e3o de grilagens de terras p\u00fablicas ou mesmo invas\u00e3o de posses centen\u00e1rias de comunidades tradicionais e povos ind\u00edgenas.&nbsp;<\/p>\n<p>O gado \u00e9, sem d\u00favida, uma das maiores express\u00f5es do agroneg\u00f3cio tupiniquim: temos o&nbsp; maior rebanho comercial no mundo com cerca de 221,9 milh\u00f5es de cabe\u00e7as e a Amaz\u00f4nia \u00e9 um dos locais que a grande agropecu\u00e1ria escolheu para se expandir desde as d\u00e9cadas de 1970\/80. A prova disso \u00e9 que dos 10 munic\u00edpios com maiores rebanhos, 07 est\u00e3o na Amaz\u00f4nia Legal, totalizando mais de 7 milh\u00f5es de cabe\u00e7as. Sem falar que fica na regi\u00e3o o&nbsp; campe\u00e3o melhor ranqueado em rebanho bovino nos \u00faltimos 10 anos \u2013 S\u00e3o F\u00e9lix do Xingu (PA), que possui atualmente cerca de 2,5 milh\u00f5es de cabe\u00e7as, e aumentou mais de 800% entre 1998 e 2018 (ABIEC \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias Exportadoras de Carnes). Dados do IBGE tamb\u00e9m comprovam que h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o da atividade pecu\u00e1ria nas regi\u00f5es Sul (3%), Sudeste (4%) e Centro-Oeste (1%) e aumento da regi\u00e3o Norte (8%) entre os anos de 2010 e 2016, demonstrando que a Amaz\u00f4nia \u00e9 a escolhida para a migra\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es historicamente mais fortes do setor agropecu\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n<p>Outras \u201cpistas\u201d que apontam para uma tend\u00eancia de ocupa\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio na Amaz\u00f4nia: a descaracteriza\u00e7\u00e3o da fiscaliza\u00e7\u00e3o e monitoramento ambiental com a fragiliza\u00e7\u00e3o do IBAMA, ICMBio e INPE e a recente revoga\u00e7\u00e3o do decreto 6.961\/2009 que vetava o plantio de cana-de-a\u00e7\u00facar na Amaz\u00f4nia e no Pantanal, que \u00e9 uma tentativa clara de empurrar a fronteira agr\u00edcola para a floresta, utilizando a cana para ocupar os pastos e for\u00e7ar a abertura de mais&nbsp; pastagens. Outro ind\u00edcio forte vem das tentativas de mudan\u00e7as no tamanho das reservas legais que v\u00eam sendo propostas por alguns estados que querem expandir ainda mais a agropecu\u00e1ria sobre a suas por\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas, como no Maranh\u00e3o, que quer flexibilizar a necessidade de reserva legal de 80 para 50%. Outras iniciativas v\u00eam colaborar com&nbsp; esta tentativa de diminui\u00e7\u00e3o de reserva legal na Amaz\u00f4nia e aumentar o desmatamento, como a MP 901\/2020 e o PL 551\/2019.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, est\u00e3o os \u00faltimos esfor\u00e7os de tentativa de flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o de terras e legaliza\u00e7\u00e3o da grilagem, que v\u00eam ocorrendo mais recentemente desde o Programa Terra Legal, passando pela MP 930 \/ PL 2633, al\u00e9m do suporte ao planejamento estrat\u00e9gico fornecido ao agroneg\u00f3cio com o Matopiba (que envolve \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o Cerrado-Amaz\u00f4nia) e mais recentemente com a proposta de cria\u00e7\u00e3o da Amacro (Zona Especial para o Desenvolvimento Agropecu\u00e1rio nos estados do Amazonas, Acre e Rond\u00f4nia). E tamb\u00e9m as a\u00e7\u00f5es de titulariza\u00e7\u00e3o dos assentamentos, que continuam na regi\u00e3o e s\u00e3o uma maneira clara de aquecer o mercado de terras. Tendo em vista que, segundo dados do INCRA, os assentamentos na Amaz\u00f4nia s\u00e3o os que menos receberam proporcionalmente acesso a pol\u00edticas de melhoria produtiva e de infraestrutura, com a emiss\u00e3o de t\u00edtulos individuais de propriedade, pela forte press\u00e3o e necessidade de recursos financeiros, os assentados da reforma agr\u00e1ria est\u00e3o repassando as terras adquiridas pelas nossas j\u00e1 restritas pol\u00edticas de reforma agr\u00e1ria ao agroneg\u00f3cio.&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo isso derruba a argumenta\u00e7\u00e3o de que \u201co agroneg\u00f3cio n\u00e3o precisa da Amaz\u00f4nia\u201d&nbsp; para crescer. Mas bem que gostar\u00edamos que fosse verdade!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.01.56-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.01.56 1024x1024\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/960;\" \/><\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio n\u00e3o atua a favor das necessidades de alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o brasileira e do mundo. Sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 majoritariamente destinada a commodities para exporta\u00e7\u00e3o ou como insumo para processos industriais, tais como soja, milho, cana-de-a\u00e7\u00facar, celulose e carne. O que determina se algumas dessas commodities s\u00e3o vendidas como insumos industriais, agrocombust\u00edveis ou ra\u00e7\u00e3o para animais (nos casos em que esses usos se aplicam), \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do mercado, a qualidade e o pre\u00e7o. As negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas entre as grandes corpora\u00e7\u00f5es e empresas investidoras no mercado financeiro internacional. Logo, o que motiva o agroneg\u00f3cio \u00e9 o lucro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da afirma\u00e7\u00e3o de que o agroneg\u00f3cio n\u00e3o precisa da Amaz\u00f4nia, o aumento do desmatamento e das queimadas est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola para essa regi\u00e3o, por meio das pastagens para cria\u00e7\u00e3o de gado e, indiretamente, das monoculturas de soja. \u00c9 um sistema agr\u00edcola estruturado pela elevada concentra\u00e7\u00e3o de terra, de modo que 47,6% da \u00e1rea agr\u00edcola do pa\u00eds est\u00e1 nas m\u00e3os de menos de 1% das propriedades (Censo 2017). Essa concentra\u00e7\u00e3o se intensifica com a grilagem de terras p\u00fablicas, agravando ainda mais os conflitos agr\u00e1rios e a viol\u00eancia no campo, como mostra o relat\u00f3rio&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cptnacional.org.br\/publicacoes-2\/destaque\/5167-conflitos-no-campo-brasil-2019\">\u201cConflitos no Campo Brasil\u201d da CPT referente a 2019<\/a>.&nbsp;<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o dessa l\u00f3gica, a agricultura familiar e camponesa \u00e9 respons\u00e1vel por colocar comida de verdade na mesa das fam\u00edlias brasileiras, produzindo 48% do valor da produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 e banana, 80% da mandioca, 69% do abacaxi e 42% do feij\u00e3o (Censo 2017). Toneladas de alimentos agroecol\u00f3gicos t\u00eam sido doadas para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade durante a pandemia da Covid-19, por meio de campanhas de solidariedade promovidas por organiza\u00e7\u00f5es e movimentos populares, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Quem alimenta o Brasil e o mundo com comida de verdade \u00e9 a agricultura familiar e camponesa!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.01.57-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.01.57 1024x1024\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/960;\" \/><\/p>\n<p>De acordo com dados da ANTAQ, entre 2014 e 2018, os complexos portu\u00e1rios onde mais cresceu o volume de soja exportada no pa\u00eds est\u00e3o na Amaz\u00f4nia: Barcarena e Santar\u00e9m, ambos no Par\u00e1, e Itaqui, em S\u00e3o Lu\u00eds (MA). Estes tiveram, respectivamente, 580%, 246% e 180% de crescimento no per\u00edodo. Em 2018, dos 10 principais portos em termos de volume de soja exportada no pa\u00eds, 5 estavam na Amaz\u00f4nia: Barcarena (PA), Itaqui (MA), Itacoatiara (AM), Santar\u00e9m (PA) e Porto Velho (RO).&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A soja exportada ali sai majoritariamente das fronteiras agr\u00edcolas do Cerrado (MATOPIBA) e da transi\u00e7\u00e3o Cerrado-Amaz\u00f4nia no Norte do Mato Grosso e cruza rios e estradas at\u00e9 chegar aos portos amaz\u00f4nicos onde \u00e9 embarcada para exporta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de escoar a soja do Cerrado, esses portos est\u00e3o favorecendo a amplia\u00e7\u00e3o dos monocultivos de soja na pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia, em lugares como as ilhas de cerrados em Roraima e Amap\u00e1, na transi\u00e7\u00e3o Cerrado-Amaz\u00f4nia no Norte do Mato Grosso e leste de Rond\u00f4nia, na regi\u00e3o de Humait\u00e1 no Amazonas e no planalto Santareno e Paragominas no Par\u00e1, causando conflitos agr\u00e1rios e devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, para ampliar essas rotas de exporta\u00e7\u00e3o de soja, alguns dos principais projetos log\u00edsticos previstos para serem constru\u00eddos ou concedidos a investidores privados pelo governo Bolsonaro s\u00e3o ferrovias e rodovias conectando as fronteiras da soja no Cerrado com portos da Amaz\u00f4nia, como a chamada Ferrogr\u00e3o (entre Sinop\/MT e Itaituba\/PA). Entre as rodovias j\u00e1 existentes que pretendem ampliar e conceder \u00e0 iniciativa privada est\u00e3o trechos da BR-163 (tamb\u00e9m entre Sinop e Itaituba), BR-319 (entre Rond\u00f4nia e Amazonas), BR-364 (entre MT e Porto Velho\/RO) e a BR-135 (conectando corredores de exporta\u00e7\u00e3o da soja do MATOPIBA a S\u00e3o Lu\u00eds (MA). Al\u00e9m de cruzarem territ\u00f3rios de povos ind\u00edgenas, comunidades quilombolas e povos e comunidades tradicionais, causando conflitos e viola\u00e7\u00f5es de direitos, a constru\u00e7\u00e3o das ferrovias e a duplica\u00e7\u00e3o e\/ou pavimenta\u00e7\u00e3o das rodovias promover\u00e3o o desmatamento e a chegada de outras atividades predat\u00f3rias, como explora\u00e7\u00e3o madeireira e garimpagem ilegal. E, por isso mesmo, esses povos e comunidades resistem.<\/p>\n<p>Uma faixa dos Munduruku, quando bloquearam uma Audi\u00eancia P\u00fablica da Ferrogr\u00e3o em Itaituba em 2017, diz tudo: \u201cPovo Munduruku diz: N\u00e3o a Ferrogra\u0303o! China: a soja que voc\u00ea compra tem sangue ind\u00edgena. No Tapaj\u00f3s n\u00e3o passara\u0301. \u00c1gua e\u0301 vida\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.01.57-1-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.01.57 1 1024x1024\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/960;\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma premissa inventada pela ministra. A Mata Atl\u00e2ntica vem sendo devastada desde o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o, ao ponto de exaust\u00e3o. A expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola sobre o Cerrado, sobretudo a partir da d\u00e9cada de 1970, em pleno regime militar, foi justificada pelo ent\u00e3o presidente da Campo (empresa implementadora do Prodecer \u2013 Programa Nipo-Brasileiro de Desenvolvimento dos Cerrados), Paulo Afonso Romano, como uma forma de conten\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o da fronteira sobre a Amaz\u00f4nia: \u201cO bom senso de atrair maior aten\u00e7\u00e3o para os Cerrados, enquanto se amadurece a solu\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica, deve ser considerado como uma hist\u00f3rica corre\u00e7\u00e3o de rumos na busca de novas regi\u00f5es agr\u00edcolas\u201d. Ainda hoje, a coopera\u00e7\u00e3o japonesa celebra o Prodecer como uma experi\u00eancia exitosa por transformar uma terra \u201cinf\u00e9rtil\u201d (sic) em um \u201cceleiro de commodities\u201d.<\/p>\n<p>Qualquer semelhan\u00e7a com a fala da ministra n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia: se trata de uma vis\u00e3o estrutural da \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o conservadora\u201d no campo, que persiste h\u00e1 d\u00e9cadas. Obviamente \u00e9 uma farsa, j\u00e1 que n\u00e3o impediu a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio sobre a Amaz\u00f4nia. Mas ajudou a cristalizar a ideia de que o Cerrado serviria de suposta conten\u00e7\u00e3o \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, n\u00e3o porque se preocupam com a regi\u00e3o, mas porque h\u00e1 mais press\u00e3o internacional sobre a destrui\u00e7\u00e3o da floresta, do que sobre a devasta\u00e7\u00e3o da savana brasileira.&nbsp; E tudo isso apesar do Cerrado ser a savana mais biodiversa do planeta, contendo cerca de 5% da biodiversidade mundial.<\/p>\n<p>Esse tipo de discurso fez com que cheg\u00e1ssemos ao ponto de \u00be de toda \u00e1rea plantada com commodities como soja, milho, algod\u00e3o e cana-de-a\u00e7\u00facar (PAM\/IBGE) e 80% de todos os piv\u00f4s centrais (ANA) no Brasil estejam no Cerrado e em suas \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o. Os diversos governos veem a regi\u00e3o como um vazio demogr\u00e1fico para a entrada dos monocultivos do agroneg\u00f3cio, tendo desmatado at\u00e9 hoje mais da metade das matas nativas do Cerrado cont\u00ednuo (INPE), expulsando povos e comunidades ind\u00edgenas, quilombolas e tradicionais de seus territ\u00f3rios e provocando o sacrif\u00edcio das \u00e1guas dos rios e dos aqu\u00edferos que alimentam as principais bacias hidrogr\u00e1ficas do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 ber\u00e7o das \u00e1guas e lugar de vida de diversos povos ind\u00edgenas e comunidades quilombolas e tradicionais e n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para o agroneg\u00f3cio devastar como quer a ministra!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.01.58-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.01.58 1024x1024\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/960;\" \/><\/p>\n<p>Esse tipo de \u201ct\u00edtulos verdes\u201d (green bonds) est\u00e3o em alta no mercado financeiro e s\u00e3o um caso exemplar de falsa solu\u00e7\u00e3o de mercado para as crises clim\u00e1ticas e ambiental que o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cartadebelem.org.br\/\">Grupo Carta de Bel\u00e9m<\/a>&nbsp;vem denunciando h\u00e1 mais de 10 anos. Certos setores econ\u00f4micos, em especial aqueles das commodities com base em combust\u00edveis f\u00f3sseis (petr\u00f3leo e g\u00e1s natural) ou que est\u00e3o fortemente ligadas ao desmatamento de florestas e matas nativas (como soja e carne), est\u00e3o cada vez mais pressionados para se provarem sustent\u00e1veis. A base de tudo isso \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o cada vez maior das pessoas com a crise ambiental e clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Diante disso, alguns setores do agroneg\u00f3cio t\u00eam investido em estrat\u00e9gias de \u201cesverdeamento\u201d de sua imagem, divulgando iniciativas tecnol\u00f3gicas e financeiras que, em teoria, resolveriam os problemas. Mas tudo isso sem, na pr\u00e1tica, mudar em nada as caracter\u00edsticas que fazem desse modelo produtivo intrinsecamente insustent\u00e1vel: a extrema concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria; modelo industrial de produ\u00e7\u00e3o de monoculturas animais e vegetais; e o uso intensivo de insumos com base em pacotes tecnol\u00f3gicos controlados por poucas grandes corpora\u00e7\u00f5es, promovendo a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas e solos e a eros\u00e3o da biodiversidade.<\/p>\n<p>Os t\u00edtulos verdes s\u00e3o t\u00edtulos de d\u00edvida que empresas do mercado financeiro comercializam para captar recursos, prometendo que seu destino ser\u00e1 para iniciativas \u201csustent\u00e1veis\u201d. A organiza\u00e7\u00e3o internacional Climate Bond Initiative (CBI), mencionada pela ministra, com sede em Londres, se apresenta como uma institui\u00e7\u00e3o dedicada a canalizar recursos financeiros privados para projetos que impliquem em \u201csolu\u00e7\u00f5es para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d. Na pr\u00e1tica, eles \u201ccertificam\u201d projetos que poderiam ent\u00e3o ser qualificados como \u201csustent\u00e1veis\u201d, de modo a captar recursos de investidores que queiram focar sua carteira de investimentos nesse tipo de projeto. Mas quem e com base em que crit\u00e9rios se determina que um projeto \u00e9 \u201csustent\u00e1vel\u201d?<\/p>\n<p>Um dos projetos que o governo quer certificar junto \u00e0 CBI como \u201csustent\u00e1vel\u201d para financiar com base em \u201ct\u00edtulos verdes\u201d no mercado financeiro \u00e9 a Ferrogr\u00e3o, uma ferrovia de quase mil quil\u00f4metros ligando Sinop, no Norte do Mato Grosso, a Itaituba, no Oeste do Par\u00e1, para escoar soja. Se concretizada, a ferrovia cruzaria um mosaico de \u00e1reas protegidas, territ\u00f3rios de povos ind\u00edgenas e comunidades ribeirinhas, e que j\u00e1 foi denunciada pelos ind\u00edgenas Munduruku no Congresso Nacional. Al\u00e9m disso, o projeto viabilizaria ainda mais a expans\u00e3o dos monocultivos bem no eixo do chamado \u201cArco do Desmatamento\u201d. Estimativas do Instituto Mato-Grossense de Estudos Agr\u00edcolas (Imea) em 2019 indicavam que a constru\u00e7\u00e3o da ferrovia poderia ampliar em 70% a safra de soja e milho no estado em 10 anos.&nbsp;<\/p>\n<p>Ou seja, a pr\u00f3xima vez que algu\u00e9m te disser que o mercado financeiro vai ajudar a promover \u201csolu\u00e7\u00f5es para a crise clim\u00e1tica e ambiental\u201d, desconfie de discursos vazios\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.01.59-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.01.59 1024x1024\" width=\"960\" height=\"960\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 960px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 960\/960;\" \/><\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio emprega pouco. O modelo estruturado pela mecaniza\u00e7\u00e3o e uso intensivo de insumos industriais implica justamente em concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e de riqueza nas m\u00e3os de poucos \u00e0s custas da expropria\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de muito<i>s.&nbsp;<\/i>Mesmo os setores do agroneg\u00f3cio que mais empregam, como os frigor\u00edficos, n\u00e3o oferecem dignidade aos trabalhadores e \u00e0s trabalhadoras, que n\u00e3o tiveram nem o direito de fazer quarentena, e os frigor\u00edficos se tornaram grandes focos de infec\u00e7\u00e3o por coronav\u00edrus.&nbsp;<\/p>\n<p>A Confedera\u00e7\u00e3o de Funcion\u00e1rios da Ind\u00fastria da Alimenta\u00e7\u00e3o estima pelo menos 200 mil afetados. J\u00e1 o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) tem 213 investiga\u00e7\u00f5es abertas por surtos entre funcion\u00e1rios de frigor\u00edficos em 22 estados. No Rio Grande do Sul, mais de 6 mil trabalhadores de frigor\u00edficos do interior foram confirmados com a doen\u00e7a. Conforme o MPT, o estado tem 39 unidades frigor\u00edficas, que totalizam 35.850 empregados. O percentual de infectados chegou a 17% do total.&nbsp; Cinco empregados e 12 pessoas, que tiveram contato com funcion\u00e1rios dos locais, morreram devido \u00e0 Covid-19.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Em aldeias ind\u00edgenas no Mato Grosso do Sul a Covid-19 se espalhou principalmente por meio dos frigor\u00edficos e das lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar, os quais contam com trabalhadores ind\u00edgenas, Kaiow\u00e1 e Guarani. Segundo a&nbsp;<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>, a regi\u00e3o de Dourados se tornou o epicentro da pandemia no estado, com quase 2 mil infectados,&nbsp; 136 dos quais s\u00e3o ind\u00edgenas (Sesai). Desse total de contaminados ind\u00edgenas, 33 s\u00e3o empregados do frigor\u00edfico da JBS, conforme informou o MPT. No oeste do Paran\u00e1, 35 casos foram confirmados entre os Av\u00e1-Guarani que trabalham em frigor\u00edfico na regi\u00e3o, tendo outros suspeitos e tend\u00eancia de r\u00e1pido avan\u00e7o da doen\u00e7a para outras aldeias. No Rio Grande do Sul, a maioria dos casos de Covid-19 nas comunidades ind\u00edgenas est\u00e1 vinculada aos ind\u00edgenas que trabalham em frigor\u00edficos da empresa JBS na divisa com Santa Catarina.<\/p>\n<p>Os dados mostram como o agroneg\u00f3cio ajudou a espalhar o v\u00edrus pelo pa\u00eds, sobretudo em comunidades e munic\u00edpios pequenos. Muitos empregadores se preocupam mais em n\u00e3o contaminar a carne do que em evitar a prolifera\u00e7\u00e3o da Covid-19 entre os trabalhadores.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/WhatsApp-Image-2020-08-10-at-17.02.00-1024x1024.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2020 08 10 at 17.02.00 1024x1024\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/1024;\" \/><\/p>\n<p>Nos despedimos com um convite para uma leitura sobre aquilo que a m\u00eddia corporativa se recusa a falar:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um sil\u00eancio ensurdecedor na m\u00eddia sobre as causas dos surtos recorrentes de doen\u00e7as zoon\u00f3ticas nos \u00faltimos 20 anos, tais como Covid-19, gripe avi\u00e1ria e gripe su\u00edna. No entanto, diversos estudos v\u00eam, h\u00e1 anos, mostrando como a destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade causada pela produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola industrial \u00e9 o principal vetor da eclos\u00e3o, muta\u00e7\u00e3o e prolifera\u00e7\u00e3o dos pat\u00f3genos que causam estas doen\u00e7as. E como, se nada for feito para mudar, \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo para o surgimento de novos v\u00edrus e doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da devasta\u00e7\u00e3o do Cerrado [e da Amaz\u00f4nia] re\u00fane todos os ingredientes para a potencial eclos\u00e3o da pr\u00f3xima pandemia global. E as pol\u00edticas de incentivo ao agroneg\u00f3cio e \u00e0 grilagem de terras contribuem para intensificar esse cen\u00e1rio. Por outro lado, a resist\u00eancia dos povos dos cerrados, das florestas, dos campos e das \u00e1guas em seus territ\u00f3rios \u00e9 o melhor caminho para promover a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, que \u00e9 o melhor rem\u00e9dio contra pandemias\u201d.<\/p>\n<h4>Leia mais em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/a-biodiversidade-e-o-melhor-remedio-contra-pandemias\/\">A biodiversidade \u00e9 o melhor rem\u00e9dio contra pandemias<\/a><\/h4>\n<hr \/>\n<p><em><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Grupo Carta de Bel\u00e9m<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Imagem em destaque (ministra Tereza Cristina):<\/strong><\/em>&nbsp;<em>Marcelo Camargo \/ Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ministra da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento Tereza Cristina (DEM) concedeu uma&nbsp;entrevista ao jornal Estad\u00e3o, publicada no dia 05 de julho de 2020, na qual destilou um festival de ideias rasas sobre as rela\u00e7\u00f5es entre \u201csustentabilidade\u201d e agroneg\u00f3cio. Chamou aten\u00e7\u00e3o, em especial, a seguinte declara\u00e7\u00e3o, repleta de fal\u00e1cias e argumentos distorcidos: \u201c[O agroneg\u00f3cio] n\u00e3o precisa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-6107","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6107\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}