{"id":6146,"date":"2021-02-06T17:02:24","date_gmt":"2021-02-06T20:02:24","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/plantacoes-de-soja-avancam-no-leste-maranhense-com-rastro-de-violencia-e-desrespeito-ao-meio-ambiente\/"},"modified":"2021-02-06T17:02:24","modified_gmt":"2021-02-06T20:02:24","slug":"plantacoes-de-soja-avancam-no-leste-maranhense-com-rastro-de-violencia-e-desrespeito-ao-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/plantacoes-de-soja-avancam-no-leste-maranhense-com-rastro-de-violencia-e-desrespeito-ao-meio-ambiente\/","title":{"rendered":"Planta\u00e7\u00f5es de soja avan\u00e7am no leste maranhense com rastro de viol\u00eancia e desrespeito ao meio ambiente"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA natureza se encaminhava de criar os animais, tamanha era a fartura\u201d, disse o seu Vicente de Paula Costa, de 64 anos, que cresceu em Carranca, no munic\u00edpio de Buriti, distante 400 km de S\u00e3o Lu\u00eds. A regi\u00e3o \u00e9 disputada por grandes empreendimentos oriundos do Rio Grande do Sul para a pr\u00e1tica do agroneg\u00f3cio com fins do plantio da soja no cerrado maranhense.&nbsp;<\/p>\n<p>O senhor acrescentou tristemente; \u201cagora os campos da soja s\u00f3 faltam invadir a minha casa. Na verdade, os homens respons\u00e1veis por isso j\u00e1 invadiram e me amea\u00e7aram caso eu n\u00e3o venda a minha terra\u201d, desabafou, lamentando a diminui\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores nativas como o bacuri. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil encontrar os bacurizeiros, tudo est\u00e1 acabando, sendo destru\u00eddo. Sem falar que eles comprometem tamb\u00e9m as nascentes dos rios. Espero que haja justi\u00e7a e nos deixem em paz nas nossas terras\u201d, afirmou seu Vicente que mora no territ\u00f3rio desde que nasceu.&nbsp; \u201cAl\u00e9m da devasta\u00e7\u00e3o ambiental, temos um conflito agr\u00e1rio cada dia mais intenso por conta da expans\u00e3o dessa forma de economia\u201d, afirmou, Diogo Cabral, advogado popular e Defensor dos Direitos Humanos que acompanha os processos jur\u00eddicos dos agricultores.&nbsp;<\/p>\n<p>No leste maranhense, o F\u00f3rum Caraj\u00e1s tem atuado, h\u00e1 mais de 10 anos, em defesa das comunidades tradicionais amea\u00e7adas pelo agroneg\u00f3cio da soja e do eucalipto para produ\u00e7\u00e3o de celulose. Estas monoculturas, que avan\u00e7am e pressionam as comunidades para deixarem suas propriedades, emperram a demarca\u00e7\u00e3o de terras, provocam conflitos agr\u00e1rios e amea\u00e7am a biodiversidade do cerrado maranhense. Para Mayron Borges, presidente do F\u00f3rum, a situa\u00e7\u00e3o se agrava ainda mais pela coniv\u00eancia do poder p\u00fablico em incentivar a monocultura da soja na regi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses no Leste Maranhense, em comunidades como Carranca, Brej\u00e3o e Bacuri uma onda de viol\u00eancia rural, patrocinada pelo agroneg\u00f3cio, promoveu diversas viola\u00e7\u00f5es aos direitos de povos origin\u00e1rios e de agricultores e agricultoras familiares, al\u00e9m das agress\u00f5es ambientais ao cerrado maranhense.&nbsp; Representantes de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais como o F\u00f3rum Caraj\u00e1s, o advogado popular Diogo Cabral e de movimentos sociais estiveram em v\u00e1rias comunidades rurais e quilombola dos munic\u00edpios de S\u00e3o Benedito do Rio Preto, Chapadinha e Buriti, para acompanhar de perto as den\u00fancias.<\/p>\n<p><b>Omiss\u00e3o em Brej\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Os moradores est\u00e3o assustados em Bacuri, munic\u00edpio de S\u00e3o Benedito do Rio Preto, com a matan\u00e7a de mais de 40 animais, entre porcos e bodes, promovido por invasores fortemente armados.&nbsp; De acordo com o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Bacuri dos Mois\u00e9s, Francisco das Chagas Nascimento, a comunidade j\u00e1 \u00e9 uma \u00e1rea desapropriada pelo Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) j\u00e1 definida em senten\u00e7a, faltando apenas a emiss\u00e3o de posse e o cadastro das fam\u00edlias. Em dezembro de 2020, ao constatar a matan\u00e7a dos animais, eles se deslocaram para a Delegacia de S\u00e3o Benedito do Rio Preto para denunciar o fato. De acordo com o seu Francisco, o escriv\u00e3o se negou a registrar a den\u00fancia e emitir o Boletim de Ocorr\u00eancia, devido residir na \u00e1rea da comunidade.<\/p>\n<p>A den\u00fancia foi registrada na Promotoria de Justi\u00e7a da Comarca de Urbano Santos contemplando: amea\u00e7as de morte aos moradores de Brej\u00e3o, matan\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o de animais (porcos e bodes) e derrubada ilegal de \u00e1rvores. Para seu Franscisco, essencial \u00e9 que provid\u00eancias legais sejam tomadas urgentes antes de \u201cacontecer o pior com os moradores da comunidade\u201d, alerta.&nbsp;<\/p>\n<p><b>Casas queimadas em Guarim\u00e3<\/b><\/p>\n<p>Uma grande \u00e1rea em Guarim\u00e3, tamb\u00e9m em&nbsp; S\u00e3o Benedito do Rio Preto, \u00e9 foco de disputa entre moradores da comunidade quilombola e ga\u00fachos rec\u00e9m-chegados para o plantio da soja. De janeiro at\u00e9 agora, duas casas foram queimada no povoado, de acordo com a comunidade, incentivada pelos empreendedores desse sistema de monocultura com o objetivo de amedrontar e enfraquecer a resist\u00eancia. Entre as lideran\u00e7as da regi\u00e3o, um homem e uma mulher (cujos nomes ser\u00e3o preservados por quest\u00e3o de seguran\u00e7a), pela primeira vez falaram sobre o assunto para uma r\u00e1dio na Web. \u201cN\u00e3o nos intimidamos! N\u00e3o podem tirar o que \u00e9 nosso. Vamos seguir na luta\u201d, enfatizou Am\u00e9lia (nome fict\u00edcio).&nbsp;<\/p>\n<p><b>Desmatamento predat\u00f3rio&nbsp;<\/b><\/p>\n<p>Seu Vicente, aquele senhor do in\u00edcio da mat\u00e9ria, na \u00faltima semana assistiu entristecido mais desmatamento predat\u00f3rio. \u00c1rvores frut\u00edferas como o bacuri, o pequi, o coco-baba\u00e7u, entre outros t\u00edpicos do cerrado que levaram anos pra se desenvolveram s\u00e3o derrubadas em quest\u00f5es de minutos pelos corrent\u00f5es amarrados em dois tratores. Os animais da regi\u00e3o tamb\u00e9m sofrem o impacto, muitos s\u00e3o mortos, outros ficam desnorteados com a floresta nativa destru\u00edda.&nbsp;<\/p>\n<p>Na comunidade de Brej\u00e3o, munic\u00edpio de Buriti, representantes dos movimentos sociais e ONG\u00b4s ainda sentiram o calor de quase 40\u00ba graus agravado pelo fogo colocado no que restou da floresta nativa destru\u00edda, h\u00e1 menos de uma semana. Foram quase mil hectares de cerrado dizimados para dar lugar \u00e0 monocultura da soja, destinado ao mercado internacional, deixando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o por onde passa.&nbsp;<\/p>\n<p><b>Maranh\u00e3o campe\u00e3o de desmatamento do cerrado&nbsp;<\/b><\/p>\n<p>Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam que o Maranh\u00e3o foi o estado que mais desmatou o cerrado para a agricultura, pecu\u00e1ria e o plantio de eucalipto entre agosto de 2019 e julho de 2020.<\/p>\n<p>No Brasil, o desmatamento da soja cresceu 13% nesse per\u00edodo. Foram retirados mais de 7300 km\u00b2 de mata nativa, o que equivale a quase cinco vezes a cidade de S\u00e3o Paulo. J\u00e1 no Maranh\u00e3o, a regi\u00e3o sul foi a que mais perdeu \u00e1rea de cerrado: cerca de 1800 km\u00b2.<\/p>\n<p>O cerrado \u00e9 o bioma brasileiro mais amea\u00e7ado e o segundo com o maior n\u00famero de animais em extin\u00e7\u00e3o; detentor das maiores taxas proporcionais de desmatamento e queimadas irregulares no Brasil; com perda de mais da metade de sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa em 30 anos.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Texto:<\/strong>&nbsp;Yndara Vasques e Franci Monteles,&nbsp;jornalistas facilitadoras de oficinas de comunica\u00e7\u00e3o popular pelo F\u00f3rum Caraj\u00e1s<\/p>\n<p><strong>Foto:<\/strong> Franci Monteles<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA natureza se encaminhava de criar os animais, tamanha era a fartura\u201d, disse o seu Vicente de Paula Costa, de 64 anos, que cresceu em Carranca, no munic\u00edpio de Buriti, distante 400 km de S\u00e3o Lu\u00eds. 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