{"id":6200,"date":"2021-08-12T11:20:05","date_gmt":"2021-08-12T14:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/cajueiro-resiste\/"},"modified":"2021-08-12T11:20:05","modified_gmt":"2021-08-12T14:20:05","slug":"cajueiro-resiste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/cajueiro-resiste\/","title":{"rendered":"Cajueiro: ap\u00f3s dois anos da violenta reintegra\u00e7\u00e3o de posse, comunidade segue em resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>A av\u00f3 do menino Enzo (hoje com 13 anos) nunca retornou ao Cajueiro, na zona rural de S\u00e3o Lu\u00eds, Maranh\u00e3o, ap\u00f3s o fat\u00eddico 12\/08\/2019. O trauma e o isolamento no qual o pr\u00e9-adolescente mergulhou na \u00e9poca adoeceu a alma e cora\u00e7\u00e3o da av\u00f3 (que prefere n\u00e3o ter o nome revelado). Ele, naquele dia, retornava da escola e se deparou com a sua casa sendo destru\u00edda. Foi assim com mais 21 fam\u00edlias naquela violenta e surpreendente reintegra\u00e7\u00e3o de posse, realizada de maneira ilegal, pois a comunidade n\u00e3o foi avisada.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia do Enzo, mais 21 fam\u00edlias e outros moradores do territ\u00f3rio da Resex Tau\u00e1-Mirim foram v\u00edtimas de uma quadrilha que atua com grilagem de terra p\u00fablica, dos poderes p\u00fablico e econ\u00f4mico, da press\u00e3o midi\u00e1tica praticada pelo Governo do Maranh\u00e3o, da arbitrariedade da Justi\u00e7a e da censura ao livre direito de se expressarem. Todos esses crimes e viola\u00e7\u00f5es de direitos constam em processos que tramitam morosamente na Justi\u00e7a Estadual do Maranh\u00e3o. <\/p>\n<p>As fam\u00edlias seguem resistindo e renovando a esperan\u00e7a. Reportagem do jornal <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/empresas\/noticia\/2021\/06\/30\/porto-da-cccc-no-maranhao-nao-sai-do-papel.ghtml\">Valor Econ\u00f4mico<\/a> publicada em junho desse ano informa que projeto de constru\u00e7\u00e3o do porto privado do grupo transnacional chin\u00eas CCCC (China Communications Construction Company) e da TUP S\u00e3o Lu\u00eds \u2013 antiga WPR S\u00e3o Lu\u00eds Gest\u00e3o de Portos e Terminais S\/A, do grupo WTorre \u2013, n\u00e3o saiu do papel mais de tr\u00eas anos depois de ter sua pedra fundamental lan\u00e7ada. <\/p>\n<p>Or\u00e7ada em R$ 2 bilh\u00f5es h\u00e1 tr\u00eas anos e prevista para ser constru\u00edda sobre o Territ\u00f3rio Tradicional Cajueiro, a obra nunca levantou o porto, mas j\u00e1 colocou abaixo dezenas de casas de moradores do territ\u00f3rio, provocou deslocamentos for\u00e7ados das fam\u00edlias, matou centenas de \u00e1rvores, animais, destruiu cursos d\u2019\u00e1gua e empobreceu os moradores que viviam da pesca, da agricultura e dos frutos das \u00e1rvores do Cajueiro.<\/p>\n<p>Um dos principais motivos da estagna\u00e7\u00e3o do empreendimento, segundo a reportagem, foi a falta de um financiamento de US$ 500 milh\u00f5es pleiteado, mas n\u00e3o conseguido, pela CCCC, s\u00f3cia majorit\u00e1ria do empreendimento, com 51% do neg\u00f3cio. O diretor-executivo da empresa no Brasil afirmou ao Valor que tamb\u00e9m est\u00e3o enfrentando \u201cuma s\u00e9rie de quest\u00f5es fundi\u00e1rias que atrapalham o projeto\u201d. <\/p>\n<p><strong>Contra a lei<\/strong><\/p>\n<p>Em agosto de 2019, segundo mat\u00e9rias publicadas em m\u00eddias tradicionais, o&nbsp;Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual do Maranh\u00e3o (MPE-MA) apontava fortes ind\u00edcios de que o im\u00f3vel vendido pela BC3 \u00e0 empresa portu\u00e1ria TUP (Terminal de Uso Privado) Porto S\u00e3o Lu\u00eds \u2014 antiga WPR S\u00e3o Lu\u00eds Gest\u00e3o de Portos e Terminais S\/A, comandada pelo grupo WTorre&nbsp;\u2014 \u00e9 \u201corigin\u00e1rio de um esquema de compra e venda de terra ilegal na regi\u00e3o\u201d. As investiga\u00e7\u00f5es continuaram, mas passados dois anos, nenhuma outra den\u00fancia foi apresentada \u00e0 Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O caso segue tamb\u00e9m sob investiga\u00e7\u00e3o conjunta do Gaeco (Grupo de Atua\u00e7\u00e3o Especial de Combate \u00e0s Organiza\u00e7\u00f5es Criminosas), Deca (Delegacia Especial de Conflitos Agr\u00e1rios) e 44\u00aa Promotoria de Justi\u00e7a Especializada em Conflitos Agr\u00e1rios, em inqu\u00e9rito sigiloso que apura a suspeita da pr\u00e1tica dos crimes de falsidade ideol\u00f3gica e documental, corrup\u00e7\u00e3o ativa e passiva, usurpa\u00e7\u00e3o de terras p\u00fablicas, lavagem de dinheiro e organiza\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n<p><strong>Sem nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas moradoras do Cajueiro que foram expulsas de seu territ\u00f3rio entre os anos de 2014 a 2019, at\u00e9 agora nunca receberam nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o. Muitas nem conseguirem resgatar os seus pertences ou seus animais, como foi o caso de Manoel Campos. \u201cUm absurdo que fizeram, meus cachorros n\u00e3o resistiram, foram levados para um local sem a menor condi\u00e7\u00e3o de receberem cuidados. Acabaram morrendo\u201d, afirmou. <\/p>\n<p>A av\u00f3 de Enzo, seu marido e outras 30 pessoas representando as fam\u00edlias despejadas, se reencontraram em julho de 2021 na sede do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual para dialogarem com a Promotoria Agr\u00e1ria e a Defensoria P\u00fablica do Estado. Tanto o promotor Haroldo Brito, quando o defensor Marcos Patr\u00edcio Soares Monteiro, falaram sobre a inten\u00e7\u00e3o da empresa fazer um acordo com as v\u00edtimas do despejo ilegal. O conte\u00fado da proposta do acordo n\u00e3o foi revelado, o que dificulta qualquer negocia\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 preciso que tenhamos informa\u00e7\u00f5es sobre o contexto geral do processo civil e, principalmente, na esfera criminal. N\u00e3o podemos negociar no escuro\u201d, alerta o pescador e morador do Cajueiro Cl\u00f3vis Amorim, que foi amea\u00e7ado de morte desde que passou a denunciar as viola\u00e7\u00f5es cometidas no processo de instala\u00e7\u00e3o do porto privado.<\/p>\n<p><strong>Cemit\u00e9rio das M\u00e3es Palmeiras e a paralisa\u00e7\u00e3o das obras<\/strong><\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo pand\u00eamico, o cemit\u00e9rio das M\u00e3es Palmeiras (como s\u00e3o chamadas as palmeiras de baba\u00e7u pelas quebradeiras de coco baba\u00e7u) vivenciou dias de sil\u00eancio. A \u00e1rea foi assim denominada devido \u00e0s milhares de palmeiras devastadas pelos tratores de 2015 a 2019 serem enterradas no pr\u00f3prio territ\u00f3rio. As obras de terraplanagem que preparam o terreno na tentativa de receberem um porto com investimento chin\u00eas foram paralisadas. Mas de acordo com os moradores j\u00e1 existe uma movimenta\u00e7\u00e3o para o retorno das atividades. <\/p>\n<p><strong>Press\u00e3o no Governo do Maranh\u00e3o e arbitrariedade da Justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Os anos de 2019 e 2020 foram marcados por a\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias do Governo do Maranh\u00e3o no intuito de legalizar a grilagem em terra p\u00fablica. Em 2019, a Secretaria de Estado de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio autorizou, por meio do Decreto n\u00ba 002 de 30\/04\/2019 a empresa portu\u00e1ria TUP a realizar obras no territ\u00f3rio, levando \u00e0 expuls\u00e3o dos moradores do Cajueiro com mais de 40 anos de vida no local.<\/p>\n<p>Em 2020, pressionado pela <a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2020\/02\/17\/governo-flavio-dino-china-maranhao\/\">forte repercuss\u00e3o negativa<\/a> da intensa viol\u00eancia investida no Cajueiro, e vendo amea\u00e7ado, na \u00e9poca, seu projeto de pr\u00e9-candidatura \u00e0 Presid\u00eancia em 2022, o governador Fl\u00e1vio Dino (PCdoB) recuou e decidiu anular o decreto que viabilizou a desapropria\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o de obras no Cajueiro.<\/p>\n<p>Nesse ano, por\u00e9m, o Decreto n\u00ba 002 de 30\/04\/2019 voltou a ser validado. A Justi\u00e7a determinou recentemente a desapropria\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de seu Jo\u00e3o Germano, conhecido como seu Joca. Em 1998, seu Joca e cerca de outras 110 fam\u00edlias&nbsp;foram beneficiadas com um t\u00edtulo concedido pelo Iterma (Instituto de Terras do Maranh\u00e3o), do governo do Estado, que reconheceu&nbsp;600 hectares do Cajueiro como terra p\u00fablica. Em 2014, 200 hectares dessas terras foram vendidos pela empresa BC3 Multimodal para a TUP Porto S\u00e3o Lu\u00eds. H\u00e1 fortes ind\u00edcios de grilagem de terra p\u00fablica, de acordo com o MPE. Seu Joca ingressou pedido de liminar de Nulidade do Decreto. At\u00e9 agora nada foi decidido.<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia e criminaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Cajueiro resiste e enfrenta tudo e todos de maneira legal e pac\u00edfica. Tem sido assim. Foi assim no violento 12\/08\/2019 e tamb\u00e9m em 23\/08\/2019, quando foram v\u00edtimas da militariza\u00e7\u00e3o da Secretaria de Direitos Humanos ap\u00f3s decidirem ocupar o pr\u00e9dio. Sem nenhum di\u00e1logo por parte do secret\u00e1rio Francisco Gon\u00e7alves, o Gabinete Militar do Governo, de forma autorit\u00e1ria, entrou em a\u00e7\u00e3o, e os tratou de forma desumana.<\/p>\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o dos Movimentos Sociais \u00e9 uma estrat\u00e9gia utilizada pelo Estado para enfraquecer a luta. A persegui\u00e7\u00e3o pessoal pela pr\u00e1tica do cerceamento da liberdade de express\u00e3o a profissionais que acompanham a luta do Cajueiro \u00e9 outra forma de intimida\u00e7\u00e3o. Duas a\u00e7\u00f5es do Governo correm na Justi\u00e7a contra o advogado da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) Rafael Silva. As a\u00e7\u00f5es exigem a retirada de conte\u00fado das redes sociais sobre a Militariza\u00e7\u00e3o da Secretaria em agosto de 2019.<\/p>\n<p>Contra todas as investidas das empresas, do governo do estado e do judici\u00e1rio, moradoras e moradores do Cajueiro&nbsp; seguem unidos e firmes na luta.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<em>Com informa\u00e7\u00f5es&nbsp; do coletivo <a href=\"https:\/\/raizesdocajueiro.wordpress.com\/\">Ra\u00edzes do Cajueiro<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Foto: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_ingridbarros\/\">Ingrid Barros<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A av\u00f3 do menino Enzo (hoje com 13 anos) nunca retornou ao Cajueiro, na zona rural de S\u00e3o Lu\u00eds, Maranh\u00e3o, ap\u00f3s o fat\u00eddico 12\/08\/2019. O trauma e o isolamento no qual o pr\u00e9-adolescente mergulhou na \u00e9poca adoeceu a alma e cora\u00e7\u00e3o da av\u00f3 (que prefere n\u00e3o ter o nome revelado). 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