{"id":6206,"date":"2021-09-09T09:56:43","date_gmt":"2021-09-09T12:56:43","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/atentado-em-formosa-do-rio-preto\/"},"modified":"2021-09-09T09:56:43","modified_gmt":"2021-09-09T12:56:43","slug":"atentado-em-formosa-do-rio-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/atentado-em-formosa-do-rio-preto\/","title":{"rendered":"Posseiros pedem puni\u00e7\u00e3o para fazendeiros ap\u00f3s atentado em Formosa do Rio Preto (BA)"},"content":{"rendered":"<p>Geraizeiros de Formosa do Rio Preto, munic\u00edpio do extremo oeste da Bahia, realizaram manifesta\u00e7\u00e3o na manh\u00e3 de quarta-feira (08\/09), exigindo puni\u00e7\u00e3o para fazendeiros respons\u00e1veis por atentado, atos de vandalismo, roubos, destrui\u00e7\u00e3o de resid\u00eancias, \u00e1rvores frut\u00edferas e de um vasto buritizal. A a\u00e7\u00e3o dos pistoleiros ocorreu na \u00faltima sexta-feira (03\/09). Os criminosos deram prazo para os posseiros deixarem o local at\u00e9 ontem (08\/09), e amea\u00e7aram voltar caso n\u00e3o fossem obedecidos.<\/p>\n<p>Os jagun\u00e7os fazem rondas na regi\u00e3o h\u00e1 dias. Encapuzados, impedem os posseiros de recolher as cria\u00e7\u00f5es de animais. H\u00e1 suspeitas de que o grupo atue a mando dos donos das fazendas interessados na expuls\u00e3o da comunidade tradicional.<\/p>\n<p>Formosa do Rio Preto est\u00e1 localizada h\u00e1 1.019 quil\u00f4metros da capital baiana (Salvador). \u00c9 o maior munic\u00edpio do estado (15.634 km\u00b2), segundo maior produtor de soja do pa\u00eds e o 11\u00ba em Valor de Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) e nota t\u00e9cnica do Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o pelo agroneg\u00f3cio se expandiu a partir da grilagem de terras. Nos \u00faltimos 20 anos, grandes fazendeiros investiram contra as terras em posse dos geraizeiros, normalmente alagadas e impr\u00f3prias para planta\u00e7\u00f5es em grande escala, mas importantes para o cumprimento da lei que determina a preserva\u00e7\u00e3o de 20% da mata nativa das propriedades.<\/p>\n<p>Sem cumprir essa exig\u00eancia, os latifundi\u00e1rios n\u00e3o conseguem obter empr\u00e9stimos, nem outros benef\u00edcios. Para cumprir a legisla\u00e7\u00e3o, empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio tentam tomar os territ\u00f3rios de povos tradicionais que desenvolveram a habilidade de cultivar \u00e0s margens de pequenos cursos de \u00e1gua e sobrevivem do extrativismo, cria\u00e7\u00e3o de animais soltos e da agricultura de subsist\u00eancia. A pr\u00e1tica \u00e9 conhecida como \u201cgrilagem verde\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEssa hist\u00f3ria vem de muito tempo. Entre 2002 e 2004 eles [os grandes fazendeiros] quiseram tirar n\u00f3s. A gente apelou \u00e0 justi\u00e7a com ajuda de uns \u00f3rg\u00e3os a\u00ed. Chegamos a fazer um acordo pra ningu\u00e9m mexer com n\u00f3s\u201d (sic) \u2013 diz uma das v\u00edtimas da a\u00e7\u00e3o de jagun\u00e7os, que estariam a servi\u00e7o dos propriet\u00e1rios da Canabrava Agropecu\u00e1ria e da fazenda Itapu\u00e3.<\/p>\n<p>\u201cEm 2012 e 2013, eles voltaram a nos atacar, queimando casas e derrubando cercas. A gente reerguia as cercas e, no outro dia, eles iam e derrubavam. Resistimos e nos sentimos seguros achando que tinham nos esquecido. Mas a tr\u00e9gua acabou agora. Quando foi na sexta-feira passada, ficamos espantados, foi uma coisa de repente\u201d, relatou o posseiro v\u00edtima do crime.<\/p>\n<p><strong>O ATENTADO<\/strong><\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia 3 de setembro, quatro caminhonetes \u2013 tr\u00eas Hilux pretas e uma S10 \u00ac invadiram as ro\u00e7as dos posseiros que moram na comunidade S\u00e3o Marcelo e plantam suas ro\u00e7as na beira do Rio Sap\u00e3o, onde vivem cerca de 80 fam\u00edlias. Nos carros estavam entre 18 e 20 homens armados e encapuzados com \u201ctudo que \u00e9 tipo de arma\u201d, de acordo com uma das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Primeiro entraram na \u00e1rea do Canto do Brej\u00e3o e atiraram em dire\u00e7\u00e3o a uma caminhonete Ford 250, fretado pelas fam\u00edlias geraizeiras a caminho das suas posses na beira do Rio Sap\u00e3o. No ve\u00edculo estavam homens, mulheres, idosos e crian\u00e7as. Oito tiros atingiram o ve\u00edculo, mas ningu\u00e9m foi atingido. Em seguida, os pistoleiros derrubaram cercas e atearam fogo nas estacas.<\/p>\n<p>Os capangas tamb\u00e9m roubaram geradores, saquearam e atearam fogo em pelo menos cinco resid\u00eancias, cortaram \u00e1rvores frut\u00edferas com motosserras e incendiaram currais. No total, a \u00e1rea destru\u00edda chega a 15 hectares. O caso foi registrado na delegacia de pol\u00edcia civil do munic\u00edpio de Barreiras. E, segundo os moradores, os principais suspeitos s\u00e3o os irm\u00e3os M\u00e1rio Renato e M\u00e1rio Fernando Palm\u00e9rio Assun\u00e7\u00e3o, herdeiros de Fernandino Jos\u00e9 Assun\u00e7\u00e3o e atuais propriet\u00e1rios da Canabrava Agropecu\u00e1ria, em cuja propriedade s\u00e3o plantados algod\u00e3o, milho e soja, e Jaci Pimentel, da Fazenda Tup\u00e3.<\/p>\n<p>Sobre o protesto do dia 08\/09, em frente ao f\u00f3rum de Formosa do Rio Preto, uma das participantes contou que inicialmente os port\u00f5es estavam fechados para impedir a entrada dos geraizeiros. \u201cA gente falou n\u00e3o haver necessidade de trancar o port\u00e3o, mas eles colocaram cadeado\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o contratempo, um grupo de posseiros e advogados foi recebido pela promotora Caroline Maronita Stange, um delegado e um juiz. Na ocasi\u00e3o, foram ouvidos e conseguiram tornar p\u00fablico o ocorrido.<\/p>\n<p><strong>HIST\u00d3RICO<\/strong><\/p>\n<p>As posses na regi\u00e3o conflagrada s\u00e3o antigas. No caso das existentes \u00e0s margens do Rio Sap\u00e3o, elas servem \u00e0s fam\u00edlias do povoado de S\u00e3o Marcelo para a cria\u00e7\u00e3o de gado e para plantios de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Entretanto, desde a instala\u00e7\u00e3o da Fazenda \u201cSanta Maria \u2013 Gleba Tapuio\u201d pela empresa Canabrava Agropecu\u00e1ria, nos anos 90, os territ\u00f3rios tradicionais dos geraizeiros s\u00e3o desrespeitados.<\/p>\n<p>O latif\u00fandio \u00e9 consequ\u00eancia de uma fabrica\u00e7\u00e3o de t\u00edtulo suspeito. E remete \u00e0 matr\u00edcula de uma gleba denominada \u201cFrutuoso da Fazenda Santa Maria\u201d, cuja extens\u00e3o encontra-se quantificada como \u201cduzentos bra\u00e7as\u201d, registrada no Livro de Registro Eclesi\u00e1sticos de Terras da Freguesia de Santa Rita de C\u00e1ssia.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano de 1980, Jos\u00e9 Raul Alkmin Le\u00e3o (que j\u00e1 tinha sido preso por grilagem de terras no Estado do Piau\u00ed) adquiriu a posse desta gleba. A aquisi\u00e7\u00e3o foi registrada no Cart\u00f3rio de Santa Rita de C\u00e1ssia. Fraudulentamente, transformou essa posse de 200 bra\u00e7as (290 hectares) em 382.354 hectares. Dois anos depois, desmembrou 143.000 hectares e os vendeu para o mineiro Fernandino Jos\u00e9 Assump\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o propriet\u00e1rio da Canabrava Agropecu\u00e1ria Ltda.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, come\u00e7ou um desenfreado processo de comercializa\u00e7\u00e3o \u2013 venda ou arrendamento&nbsp;\u2013 de glebas desmembradas do latif\u00fandio.<\/p>\n<p>O poder p\u00fablico tem conhecimento da situa\u00e7\u00e3o. Em 1999, a \u00e1rea da Canabrava Agropecu\u00e1ria entrou nos registros do \u201cLivro Branco de Grilagem de Terras no Brasil\u201d, no qual o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) reconhece casos de grilagem e corrup\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>* Atualiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os posseiros tomaram conhecimento 08\/09 que M\u00e1rio Fernando Palm\u00e9rio Assun\u00e7\u00e3o, propriet\u00e1rio da Canabrava Agropecu\u00e1ria, esteve na manh\u00e3 de 06\/09 \u2013 tr\u00eas dias ap\u00f3s o atentado no qual ele seria um dos suspeitos \u2013 na delegacia de Formosa de Rio Preto para comunicar um \u201cfato delituoso\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com M\u00e1rio Fernando, na manh\u00e3 de s\u00e1bado (04\/09), seus empregados promoveram a retirada de cercas e currais constru\u00eddos sem autoriza\u00e7\u00e3o, na \u00e1rea da Fazenda Santa Maria, pertencente \u00e0 empresa Canabrava. Ele acrescenta que as demoli\u00e7\u00f5es ocorreram de forma \u201cpac\u00edfica e ordeira\u201d, sem a presen\u00e7a de pessoas estranhas ou de terceiros.<\/p>\n<p>O fazendeiro n\u00e3o identificou os funcion\u00e1rios que teriam feito o servi\u00e7o e acusou pessoas n\u00e3o identificadas de promoverem a degrada\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o permanente do Rio Sap\u00e3o, de onde teriam sido retiradas madeiras utilizadas nas constru\u00e7\u00f5es irregulares.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Canabrava Agropecu\u00e1ria, o fazendeiro \u00e9 dono da Incorporadora Canabrava Empreendimentos Imobili\u00e1rios, da Canabrava Participa\u00e7\u00f5es, da MMA Guarda de Documentos e da Sociedade de Fomento Mercantil e Servi\u00e7os. Tr\u00eas das empresas est\u00e3o sediadas no mesmo pr\u00e9dio em que M\u00e1rio Fernando Palm\u00e9rio Assump\u00e7\u00e3o declarou como resid\u00eancia, no bairro de Abadia, em Uberaba (MG). A quarta fica localizado na cidade de Prata (MG).<\/p>\n<p><strong><em>* A reportagem foi atualizada no dia 11 de setembro de 2021, \u00e0s 10h40min. Os quatro \u00faltimos par\u00e1grafos foram inclu\u00eddos neste dia e hora.<\/em><\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><em>&nbsp;Com informa\u00e7\u00f5es e imagens de&nbsp;Paulo Oliveira e Thomas Bauer \/ Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraizeiros de Formosa do Rio Preto, munic\u00edpio do extremo oeste da Bahia, realizaram manifesta\u00e7\u00e3o na manh\u00e3 de quarta-feira (08\/09), exigindo puni\u00e7\u00e3o para fazendeiros respons\u00e1veis por atentado, atos de vandalismo, roubos, destrui\u00e7\u00e3o de resid\u00eancias, \u00e1rvores frut\u00edferas e de um vasto buritizal. A a\u00e7\u00e3o dos pistoleiros ocorreu na \u00faltima sexta-feira (03\/09). 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