{"id":6243,"date":"2022-03-09T18:24:35","date_gmt":"2022-03-09T21:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/comunidades-quilombolas-contaminadas-por-agrotoxicos-lutam-pela-preservacao-da-ancestralidade\/"},"modified":"2022-03-09T18:24:35","modified_gmt":"2022-03-09T21:24:35","slug":"comunidades-quilombolas-contaminadas-por-agrotoxicos-lutam-pela-preservacao-da-ancestralidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/comunidades-quilombolas-contaminadas-por-agrotoxicos-lutam-pela-preservacao-da-ancestralidade\/","title":{"rendered":"Comunidades quilombolas contaminadas por agrot\u00f3xicos lutam pela preserva\u00e7\u00e3o da ancestralidade"},"content":{"rendered":"<p>Por Rafael Oliveira*<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/03\/02\/comunidades-quilombolas-contaminadas-por-agrotoxicos-lutam-pela-preservacao-da-ancestralidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>(Conte\u00fado publicado originalmente no portal Brasil de Fato)<\/em><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 quase um ano, em mar\u00e7o de 2021, uma estranha tempestade de poeira invadiu as comunidades quilombolas Chumbo e Jejum, em Pocon\u00e9 (MT), munic\u00edpio pantaneiro localizado a 100 km da capital Cuiab\u00e1. Nos dias seguintes a esse epis\u00f3dio, dezenas de pessoas &#8211; entre elas crian\u00e7as, mulheres gr\u00e1vidas e idosos &#8211; come\u00e7aram a sentir alguns sintomas, como forte irrita\u00e7\u00e3o na pele, n\u00e1useas, dor de cabe\u00e7a e nos olhos.&nbsp;<\/p>\n<p>O que aquelas pessoas estavam sentindo, inicialmente, poderia ser confundido com enfermidades triviais, como enxaqueca ou resfriado, mas, na verdade, era intoxica\u00e7\u00e3o por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/02\/27\/chuva-de-agrotoxicos-envenena-reduto-de-agricultura-familiar-cercado-por-pecuaria-na-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">agrot\u00f3xicos<\/a>. &#8220;As fam\u00edlias das comunidades Chumbo e Jejum est\u00e3o cercadas pelos latif\u00fandios de soja e pecu\u00e1ria, que a cada ano v\u00e3o invadindo mais seus territ\u00f3rios. O fazendeiro aplicou o veneno na soja, passou uns tr\u00eas dias e foi fazer a colheita. A partir desse manejo e com a for\u00e7a do vento, o res\u00edduo daquela poeira envenenada contaminou as fam\u00edlias&#8221;, relata Francileia Paula, engenheira agr\u00f4noma e educadora da ONG Fase (Federa\u00e7\u00e3o de \u00d3rg\u00e3os para Assist\u00eancia Social e Educacional) no Mato Grosso.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, a Secretaria de Sa\u00fade do munic\u00edpio foi notificada e pressionada a fazer um acompanhamento \u00e0quelas pessoas atingidas. De acordo com Francileia, que tamb\u00e9m \u00e9 integrante da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/02\/18\/folha-abre-espaco-para-negacionista-apoiar-pl-do-veneno-e-compara-ambientalistas-a-antivacinas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida<\/a>, o caso exp\u00f4s a fragilidade dos \u00f3rg\u00e3os municipais em lidar com uma quest\u00e3o grave como essa. &#8220;Muitas vezes n\u00f3s tivemos que capacitar os agentes p\u00fablicos sobre o que fazer. As equipes de vigil\u00e2ncia e sa\u00fade abertamente se posicionaram afirmando que n\u00e3o tinham par\u00e2metro para poder lidar com casos de contamina\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia ocasionada pelo uso de veneno nas pr\u00e1ticas do agroneg\u00f3cio, al\u00e9m de envenenar \u00e1gua e adoecer corpos, tamb\u00e9m extermina modos de vida ancestrais, segundo Laura Ferreira da Silva, quilombola e coordenadora estadual da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/12\/26\/apos-vitoria-historica-no-stf-quilombolas-tem-vacinacao-lenta-contra-covid\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas<\/a>&nbsp;(Conaq)&nbsp;no Mato Grosso. &#8220;Hoje em dia \u00e9 dif\u00edcil produzir como antigamente, devido ao excesso de veneno jogado nas lavouras pr\u00f3ximas \u00e0s nossas comunidades. As fam\u00edlias n\u00e3o conseguem mais produzir hortali\u00e7a agroecol\u00f3gica, em fun\u00e7\u00e3o do veneno pulverizado nas lavouras, por exemplo. Por mais que a gente fa\u00e7a o trabalho de resgate das sementes crioulas, essa viol\u00eancia tem colocado em jogo essa cultura tradicional que ainda resiste na comunidade. O pouco que conseguem produzir, ainda acaba sendo contaminado por agrot\u00f3xico&#8221;, protesta a lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mesmo diante de uma onda de ataques de diversas frentes, a luta por uma produ\u00e7\u00e3o baseada na agroecologia, por soberania alimentar e pelo direito \u00e0 vida segue pautando os trabalhos, aponta Francileia. &#8220;Junto com as fam\u00edlias, n\u00f3s temos incidido em espa\u00e7os de combate ao agrot\u00f3xico no estado, para denunciar e cobrar dos \u00f3rg\u00e3os pol\u00edticas p\u00fablicas de preserva\u00e7\u00e3o da vida. Nossa pauta inclui cobrar implementa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios livres de agrot\u00f3xicos nas regi\u00f5es do Pantanal e mostrar como isso impacta o modo de vida dessas fam\u00edlias afetadas&#8221;, conclui.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/ZS1xAhgGiPKbgOXUDVJQjj5uPYY-SW-TvEqY3PFv3pUiKlF4OrJArSajBj46R9M4U-NvKpizJxX0hcMON1J_3gSey4oLXn4Ao67nMTjPNc6e6-Wuedd-DyOqJ23OnMi_-ZR4yR8K\" alt=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><em>Pesquisadoras\/es da FASE e NEAST coletam amostras de \u00e1gua nas comunidades Chumbo e Jejum, em Pocon\u00e9 (MT). Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/NEAST<\/em><\/p>\n<p>Em meio a casos t\u00e3o urgentes, um grupo foi formado para aprofundar o debate sobre os malef\u00edcios causados pelo uso de agrot\u00f3xicos nas atividades do&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/03\/01\/livro-reune-investigacoes-sobre-dinamica-do-capitalismo-na-tragedia-do-agronegocio-brasileiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">agroneg\u00f3cio<\/a>. Uma pesquisa conduzida, entre maio e junho de 2021, pela ONG Fase e pelo N\u00facleo de Estudos Ambientais e Sa\u00fade do Trabalhador (NEAST), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), constatou a presen\u00e7a de oito tipos de agrot\u00f3xicos nas \u00e1guas que abastecem as comunidades Chumbo, Jejum e outras. Dos agrot\u00f3xicos identificados, cinco est\u00e3o banidos em pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, no Canad\u00e1 e na Austr\u00e1lia por serem uma amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade humana e ao meio ambiente.<\/p>\n<p>&#8220;Encontramos os agrot\u00f3xicos em tanques de piscicultura das comunidades &#8211; que est\u00e3o a menos de 10 metros do plantio de soja -, na \u00e1gua do po\u00e7o artesiano e, at\u00e9 mesmo, na \u00e1gua da chuva. Isso demonstra uma exposi\u00e7\u00e3o ampla a essas subst\u00e2ncias e uma contamina\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio sistema como um todo&#8221;, alerta a professora Marcia Montanari, integrante do NEAST e do Instituto de Sa\u00fade Coletiva da UFMT.<\/p>\n<p>A professora Marcia j\u00e1 realiza o monitoramento das \u00e1guas do Mato Grosso h\u00e1 mais de 10 anos e, segundo ela, os dados t\u00eam sido cada vez mais alarmantes. &#8220;A gente sempre constatou a presen\u00e7a de componentes qu\u00edmicos, mas nunca encontramos tanto quanto agora. Todas as vezes que vamos fazer essas amostras, encontramos uma quantidade maior&#8221;, relata a pesquisadora.&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/RMhkPlvzVgvyw10rd_cc0VoBh79Ae4muPDywLnKObJr84Dp4VcrGYip3AEuU06dyDAVreZ-3z-VEUAYqPz19p0e9TelADImaNms176TTgHXaJwXJtp8_4L4Cyl6r3RsgM6VW6u61\" alt=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><em>Equipe de pesquisa coletou amostras das \u00e1guas de rios que banham comunidades quilombolas Chumbo e Jejum. Foto: Arquivo\/FASE<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que casos como o das comunidades Chumbo e Jejum e o relato da professora Marcia estejam acontecendo com maior frequ\u00eancia. O Brasil fechou o ano de 2021 com 562 aprova\u00e7\u00f5es de agrot\u00f3xicos: o maior n\u00famero j\u00e1 registrado desde o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada em 2000. Nos tr\u00eas anos do governo do presidente&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/02\/23\/caetano-veloso-confirma-presenca-e-convoca-para-ato-em-brasilia-contra-retrocessos-ambientais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jair Bolsonaro<\/a>&nbsp;j\u00e1 foram liberados 1.529 agrot\u00f3xicos.&nbsp;<\/p>\n<p>Recentemente, a ofensiva do agroneg\u00f3cio pela libera\u00e7\u00e3o ainda mais ampla de veneno ganhou um novo cap\u00edtulo m\u00f3rbido. Em 9 de fevereiro deste ano, a C\u00e2mara dos Deputados, em car\u00e1ter de urg\u00eancia, aprovou o Pacote do Veneno (Projeto de Lei &#8211; PL 6.299\/2002). Agora, o projeto segue para aprecia\u00e7\u00e3o do Senado.<\/p>\n<p>O que j\u00e1 estava fragilizado,&nbsp; encaminha-se para um cen\u00e1rio ainda mais preocupante. Em nota oficial, a Campanha Permanente Contra os Agrot\u00f3xicos e Pela Vida afirma que o Pacote do Veneno &#8220;flexibiliza ainda mais o uso de agrot\u00f3xicos no pa\u00eds e substitui o atual marco legal (Lei 7.802), vigente desde 1989. Com viola\u00e7\u00e3o a diversos artigos da Constitui\u00e7\u00e3o e acordos e tratados que o Brasil ratificou, o projeto prev\u00ea a libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos cancer\u00edgenos; maior poder ao Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (Mapa), e desautoriza\u00e7\u00e3o da Anvisa e Ibama; e abre espa\u00e7o para uma \u2018ind\u00fastria\u2019 de Registros Tempor\u00e1rios&#8221;.&nbsp;<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), refer\u00eancia nacional nessa tem\u00e1tica, lan\u00e7ou forte posicionamento em manifesto direcionado ao Senado Federal: &#8220;A Fiocruz atua na tem\u00e1tica de Agrot\u00f3xicos e Sa\u00fade h\u00e1 muitas d\u00e9cadas, seja na pesquisa, na forma\u00e7\u00e3o, na vigil\u00e2ncia e no monitoramento laboratorial dessas subst\u00e2ncias na \u00e1gua, alimentos e nos ambientes, incluindo o do trabalho. A expertise acumulada ao longo de d\u00e9cadas de atua\u00e7\u00e3o nos permite afirmar que o PL ir\u00e1 impor graves retrocessos \u00e0 sociedade, ampliando a contamina\u00e7\u00e3o ambiental e a exposi\u00e7\u00e3o humana aos agrot\u00f3xicos, e que podem se materializar em adoecimento e morte da popula\u00e7\u00e3o, em especial daqueles em maior situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade&#8221;.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>*Rafael Oliveira \u00e9 comunicador popular da Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA).<\/em><\/p>\n<p class=\"editor\" itemprop=\"editor\">Foto em destaque: Rafael Oliveira | Edi\u00e7\u00e3o: Vivian Virissimo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael Oliveira* (Conte\u00fado publicado originalmente no portal Brasil de Fato) H\u00e1 quase um ano, em mar\u00e7o de 2021, uma estranha tempestade de poeira invadiu as comunidades quilombolas Chumbo e Jejum, em Pocon\u00e9 (MT), munic\u00edpio pantaneiro localizado a 100 km da capital Cuiab\u00e1. 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