{"id":6245,"date":"2022-03-18T08:06:29","date_gmt":"2022-03-18T11:06:29","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/povos-denunciam-racismo-do-agronegocio\/"},"modified":"2026-09-09T22:24:39","modified_gmt":"2026-09-10T01:24:39","slug":"povos-denunciam-racismo-do-agronegocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/povos-denunciam-racismo-do-agronegocio\/","title":{"rendered":"Povos e comunidades do Cerrado denunciam racismo por tr\u00e1s de ataques qu\u00edmicos feitos pelo agroneg\u00f3cio\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEles jogam veneno l\u00e1 em cima, n\u00e3o tem mais Cerrado pra proteger, e desce para as \u00e1guas nos brejos. T\u00e1 tudo contaminado\u201d. O relato de Jovecino Pereira da Silva, do Territ\u00f3rio Ribeirinho Chup\u00e9, munic\u00edpio de Santa Filomena (PI), foi partilhado em 15 de mar\u00e7o durante o primeiro dos dois dias de Audi\u00eancia sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territ\u00f3rios do Cerrado, realizada pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.<\/p>\n<p>A fala de Jovecino se somou a depoimentos de organiza\u00e7\u00f5es, povos e comunidades tradicionais do Cerrado impactados pela a\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia do capital que opera nos territ\u00f3rios pelas m\u00e3os do agroneg\u00f3cio e da minera\u00e7\u00e3o, e que tem se refletido na paralisa\u00e7\u00e3o e anula\u00e7\u00e3o de procedimentos demarcat\u00f3rios, grilagem de terras, queimadas, desmatamento e, de modo especial, na contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos, utilizados como arma qu\u00edmica por empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio como forma de exterminar ou inviabilizar a vida dos povos da terra.<\/p>\n<h5>No pr\u00f3ximo dia 29\/03, das 14 \u00e0s 15hs (hor\u00e1rio de Bras\u00edlia), o j\u00fari far\u00e1 um pronunciamento ao vivo com considera\u00e7\u00f5es sobre esta audi\u00eancia. O pronunciamento ser\u00e1 transmitido pelo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCrQLPxOz4c-MVTIcTCBH_Mw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">YouTube<\/a> da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. <strong>At\u00e9 l\u00e1, assista aos dois dias de audi\u00eancia.<\/strong><\/h5>\n<p><strong>AUDI\u00caNCIA DIA 15\/03<\/strong><\/p>\n<p><iframe width=\"560\" height=\"315\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HvnBGqauShE\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" data-load-mode=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>AUDI\u00caNCIA DIA 16\/03<\/strong><\/p>\n<p><iframe width=\"560\" height=\"315\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8BECl09vZX8\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" data-load-mode=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<h4><strong>Sintomas de intoxica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>Ainda no dia 15\/03, Merc\u00eas Alves, ind\u00edgena e agente da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), contou como o povo Akro\u00e1 Gamela do V\u00e3o do Vico, no Piau\u00ed, tem sido afetado. \u201cTeve um per\u00edodo que por mais de dois anos n\u00e3o tinham como plantar. Quando iam no local, estavam l\u00e1 os pistoleiros sem permitir que eles se aproximassem, e quando plantavam [o plantio] era destru\u00eddo pelo trator\u201d, conta, denunciando tamb\u00e9m o uso de agrot\u00f3xicos pulverizados atrav\u00e9s de avi\u00f5es, que tem afetado as comunidades e todo ecossistema do Cerrado.<\/p>\n<p>De Lagoa da Confus\u00e3o, munic\u00edpio mais afetado pelos agrot\u00f3xicos no estado do Tocantins, os ind\u00edgenas Renato Krah\u00f4 e Davi Krah\u00f4 explicaram como os agrot\u00f3xicos t\u00eam impactado na sa\u00fade das comunidades. Davi apontou que duas das pessoas presentes no v\u00eddeo exibido instantes antes da sua fala j\u00e1 haviam falecido em decorr\u00eancia das contamina\u00e7\u00f5es. Renato Krah\u00f4 destacou que \u201cmuitas esp\u00e9cies de peixe n\u00e3o existem mais e muitas aves t\u00eam morrido no entorno das lavrouras\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>Eryleide Domingues, do Territ\u00f3rio Guyraroka (MS), trouxe em seu relato que s\u00e3o frequentes os sintomas de intoxica\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, como dor de cabe\u00e7a, diarreia, coceira na pele e nos olhos. Ela destacou que at\u00e9 o cheiro no territ\u00f3rio \u00e9 marcado pelo odor dos produtos qu\u00edmicos. &#8220;N\u00e3o conseguimos produzir alimentos para o nosso pr\u00f3prio consumo por conta dos ataques de formiga, dos animais que correm dos agrot\u00f3xicos para o alimento saud\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Outro povo que tem tido a soberania alimentar inviabilizada s\u00e3o os&nbsp; Kinikinau (MS), segundo Flaviana Fernandes, do povo Kinikinau. Ela explica que desde a guerra do Paraguai seu povo foi desterritorializado e atualmente vive no territ\u00f3rio do povo Terena. Para Matias Rempel, mission\u00e1rio do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI\/MS), o contexto vivenciado pelas comunidades \u00e9 de genocidio e etnoc\u00eddio. \u201cDesde os ataques paramilitares levados a cabo pelos fazendeiros e pistoleiros at\u00e9 os ataques que utilizam as for\u00e7as de seguran\u00e7a do estado em face da prote\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio, do latif\u00fandio: \u00e9 um genocidio intencional e planejado\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Sem soberania alimentar e com doen\u00e7as<\/strong><\/h4>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do Assentamento Roseli Nunes, do Mato Grosso, foi um dos grandes exemplos do avan\u00e7o da monocultura como respons\u00e1vel pela deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida das comunidades. Cercadas por canaviais, 330 fam\u00edlias do assentamento convivem diariamente com o veneno que \u00e9 despejado pelos grandes empreendimentos. \u201cO nosso assentamento \u00e9 pantanal, \u00e9 Cerrado, e estamos no meio desses biomas e tamb\u00e9m com o amazonas. Estamos vivendo com uma forte amea\u00e7a no territ\u00f3rio. Eu pe\u00e7o socorro e algu\u00e9m h\u00e1 de nos ouvir\u201d, denunciou Miraci Pereira, representante do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de doen\u00e7as ocasionadas pela conviv\u00eancia for\u00e7ada com os agrot\u00f3xicos e a perda da qualidade do solo e dos alimentos, trazendo inseguran\u00e7a alimentar, foi um relato comum \u00e0s comunidades. Um dos depoimentos mais contundentes e emocionados da audi\u00eancia foi o de Marli Borges, do Quilombo Guerreiro, do Maranh\u00e3o, que denunciou ainda o descaso da sa\u00fade p\u00fablica da regi\u00e3o e a omiss\u00e3o em identificar a causa das doen\u00e7as. \u201cN\u00e3o querem fazer teste pra saber se \u00e9 veneno no meu sangue. Eu n\u00e3o tenho sa\u00fade, s\u00f3 vivo doente, n\u00e3o sei se na pr\u00f3xima audi\u00eancia estarei viva\u201d, disse.<\/p>\n<p>Leandro dos Santos, do Quilombo Cocalinho, tamb\u00e9m no Maranh\u00e3o, lembrou que al\u00e9m do desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas em fun\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio, existe tamb\u00e9m a coopta\u00e7\u00e3o de pessoas da comunidade para trabalhar nos grandes empreendimentos. Lembrou ainda da perda da biodiversidade local, em especial das abelhas. \u201cEstamos nos sentindo amea\u00e7ados por essa arma do agroneg\u00f3cio aqui na regi\u00e3o\u201d, comentou.<\/p>\n<h4>Criar poder popular<\/h4>\n<p>Zenilde dos Santos, do Acampamento Viva Deus, no Maranh\u00e3o, relatou que s\u00e3o cultivados na comunidade arroz, feij\u00e3o, milho, mandioca e ab\u00f3bora. No entanto, esses alimentos j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a mesma qualidade para alimenta\u00e7\u00e3o. \u201cA gente planta uma melancia, nasce bonita e depois vai se acabando e eu acredito que \u00e9 por causa do veneno. N\u00f3s somos desassistidos pelo Incra (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria)\u201d, relata. A comunidade convive com o veneno das planta\u00e7\u00f5es de eucalipto da Suzano Papel e Celulose.&nbsp;<\/p>\n<p>F\u00e9lix Lima, popularmente conhecido por Gato F\u00e9lix, campon\u00eas e morador do Acampamento Viva Deus, fez o seu manifesto para o j\u00fari do Tribunal Permanente dos Povos enfatizando que a busca por lucro, orquestrada pelo capital, \u00e9 o que tem pressionado as comunidades e os seus modos de vida. \u201cEu quero dizer para o tribunal que a luta \u00e9 ferrenha. Que a gente n\u00e3o bata s\u00f3 no agroneg\u00f3cio, porque toda essa cadeia de agrot\u00f3xico vem de um capital. A classe trabalhadora tem que se juntar contra esse ferrenho capital. N\u00e3o tem salvador da p\u00e1tria, temos que criar o poder popular\u201d.<\/p>\n<p>As den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es feitas no primeiro dia de audi\u00eancia foram seguidas por perguntas e manifesta\u00e7\u00f5es do j\u00fari, composto pelo espanhol Antoni Pigrau Sol\u00e9, professor de direito internacional p\u00fablico; a jurista e ex-vice procuradora geral da Rep\u00fablica Deborah Duprat; o bispo da Diocese de Brejo (MA) Dom Jos\u00e9 Valdeci; a jornalista Eliane Brum; a soci\u00f3loga venezuelana Rosa Acevedo Marin; a jornalista e pesquisadora uruguaia do Grupo ETC Silvia Ribeiro; o coordenador jur\u00eddico a da APIB (Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil), Eloy Terena; e a portuguesa Teresa Almeida Cravo, professora de rela\u00e7\u00f5es internacionais. O jurista franc\u00eas Philippe Texier tamb\u00e9m comp\u00f5e o j\u00fari, e \u00e9 o atual presidente do TPP.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um grito, \u00e9 um clamor que est\u00e1 a\u00ed, que exige de n\u00f3s uma tomada de posi\u00e7\u00e3o&#8221;, apontou Dom Valdeci Mendes, bispo do Maranh\u00e3o, em sua manifesta\u00e7\u00e3o como membro do j\u00fari. Ele ressaltou ainda a necessidade de que a sociedade se sinta indignada com esses absurdos e essa cadeia de perversidade. &#8220;Temos a miss\u00e3o de fazer essas vozes chegarem nos lugares mais distantes\u201d.&nbsp;<\/p>\n<h4>Segundo dia<\/h4>\n<p>O segundo dia da Audi\u00eancia Tem\u00e1tica sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do TPP, realizado dia 16\/03, come\u00e7ou com a sauda\u00e7\u00e3o de Olga Matos, assessora da Cese, que conduziu a facilita\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o. O primeiro momento foi destinado \u00e0 intera\u00e7\u00e3o entre a relatoria de acusa\u00e7\u00e3o, representa\u00e7\u00e3o do sistema de justi\u00e7a brasileiro e o j\u00fari, com base nos casos apresentados no dia anterior e que denunciam a contamina\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios por agrot\u00f3xicos e o desmonte das pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Rosalva Gomes, artes\u00e3 do baba\u00e7u e assessora do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Baba\u00e7u (MIQCB), foi quem conduziu a m\u00edstica de abertura que fez ecoar as vozes das encantadeiras quebradeira de coco, em men\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a auto-organizativa das Mulheres do Cerrado: &#8220;Deixa essa cozinha e vamos cair na luta!&#8221;<\/p>\n<p>No processo de intera\u00e7\u00e3o, Raquel Rigotto, relatora de acusa\u00e7\u00e3o do Tribunal e membra do TRAMAS &#8211; N\u00facleo Trabalho, Ambiente e Sa\u00fade da Universidade Federal do Cear\u00e1, apresentou dados de estudos cient\u00edficos que se somam \u00e0s den\u00fancias dos povos, assim como as acusa\u00e7\u00f5es \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es da cadeia produtiva do agroneg\u00f3cio e ao estado brasileiro. &#8220;Podemos dizer que o Cerrado \u00e9 hoje uma zona de sacrif\u00edcio do agroneg\u00f3cio brasileiro. S\u00e3o quase 47 milh\u00f5es de hectares destinados a soja, cana, milho, algod\u00e3o, e 63% destinados a pastagens. S\u00e3o consumidos 941 mil litros de \u00e1gua por segundo, destru\u00eddos 52% das vegeta\u00e7\u00f5es nativas e utilizados mais de meio milh\u00e3o de agrot\u00f3xicos, que representam 75% de todos os agrot\u00f3xicos utilizados no Brasil&#8221;, alertou a pesquisadora, expondo a injusti\u00e7a e o racismo que comp\u00f5em esse sistema.<\/p>\n<p>Nesse di\u00e1logo, Marco Antonio Delfino, procurador do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal no Mato Grosso do Sul, tamb\u00e9m falou sobre o desafio do racismo estrutural do atual modelo de justi\u00e7a e a perpetua\u00e7\u00e3o de um sistema desigual. &#8220;Quando a gente fala no sistema de justi\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 como retir\u00e1-lo desse quadro de racismo estrutural que vivemos no Brasil. Importante entender que o direito \u00e9 um instrumento de manuten\u00e7\u00e3o do status quo, o direito n\u00e3o \u00e9 revolucion\u00e1rio. O que a gente pode fazer, principalmente pelo acesso dos povos tradicionais, ind\u00edgenas, comunidades perif\u00e9ricas ao sistema de justi\u00e7a, \u00e9 que uma nova vis\u00e3o seja levada. O status \u00e9 de desigualdade, ent\u00e3o esperar do sistema de justi\u00e7a o que n\u00f3s, enquanto defensores de direitos humanos e militantes esperamos, infelizmente sabemos que poucas decis\u00f5es contemplar\u00e3o isso&#8221;.<\/p>\n<h4>Manifesta\u00e7\u00e3o das mulheres<\/h4>\n<p>O segundo e \u00faltimo dia da audi\u00eancia contou, ainda, com a manifesta\u00e7\u00e3o, ao vivo e em v\u00eddeo, de mulheres Cerradeiras, que clamam pelo direito \u00e0 vida com dignidade. Trechos de uma <a href=\"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/carta-das-mulheres-do-cerrado-mulheres-do-cerrado-clamam-pelo-direito-a-vida-com-dignidade\/\" target=\"_blank\">carta-manifesto<\/a> escrita pelas mulheres foi apresentado \u00e0 audi\u00eancia, ecoando suas vozes contra o ecoc\u00eddio e o genoc\u00eddio cultural no Cerrado, contra as desigualdades estruturais produzidas pelo patriarcado racista desde a era colonial. &#8220;Externamos an\u00fancios em defesa da vida com justi\u00e7a social, com igualdade, com garantia do Direito Humano \u00e0 Alimenta\u00e7\u00e3o Adequada, com prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade e do nosso patrim\u00f4nio cultural. Por isso trazemos a este importante Tribunal Permanente dos Povos os nossos depoimentos, permeados por nossas pr\u00f3prias ideias e viv\u00eancias&#8221;, diz um dos trechos da carta-manifesto.<\/p>\n<h4>Racismo que estrutura as viola\u00e7\u00f5es<\/h4>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es do j\u00fari no \u00faltimo dia da audi\u00eancia contemplaram n\u00e3o apenas aspectos concretos das den\u00fancias, como tamb\u00e9m as estruturas que engendram e perpetuam as viol\u00eancias cometidas pelo agroneg\u00f3cio, pela minera\u00e7\u00e3o e pelo poder p\u00fablico contra povos e comunidades do Cerrado.<\/p>\n<p>A vice-procuradora-geral da Rep\u00fablica aposentada Deborah Duprat, membro do j\u00fari, destacou que o ponto principal da audi\u00eancia \u00e9 o racismo estrutural e ambiental que explica as viola\u00e7\u00f5es de direitos dos povos. &#8220;N\u00e3o existe um neoextrativismo e nem um neocolonialismo. Trata-se do velho projeto colonial&#8221;, afirmou Duprat.&nbsp;<\/p>\n<p>No mesmo sentido, o coordenador jur\u00eddico da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (APIB), Eloy Terena, tamb\u00e9m membro do j\u00fari, frisou que o racismo \u00e9 um m\u00e9todo de domina\u00e7\u00e3o, e como tal imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es e nega acesso a direitos, como o pr\u00f3prio direito \u00e0 natureza dos povos origin\u00e1rios e tradicionais.<\/p>\n<p>A jornalista e pesquisadora uruguaia Silvia Ribeiro afirmou, a partir dos depoimentos e apresenta\u00e7\u00e3o de dados sobre contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos, que existe &#8220;uma abund\u00e2ncia de elementos para estabelecer que existe uma guerra qu\u00edmica e ataques feitos aos territ\u00f3rios. &#8220;H\u00e1 a viola\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, mas tamb\u00e9m uma invas\u00e3o dos corpos, n\u00e3o apenas da terra. \u00c9 muito brutal a presen\u00e7a de agrot\u00f3xicos no leite materno, na urina, no sangue, e que a chuva mantenha esse veneno&#8221;, destacou Ribeiro.<\/p>\n<h4>A terra como fundamento de ser e existir<\/h4>\n<p>Se a raiz da viol\u00eancia denunciada \u00e9 o racismo estrutural, as ra\u00edzes da resist\u00eancia e perman\u00eancia est\u00e3o na terra e no envolvimento dos povos com ela. Lourdes Laureano, raizeira e coordenadora da Articula\u00e7\u00e3o Pacari, falou sobre o uso das plantas nativas e frutos do cerrado como fonte de alimento e rem\u00e9dio. &#8220;N\u00f3s, raizeiras, consideramos como sa\u00fade n\u00e3o apenas ter acesso aos medicamentos, mas tamb\u00e9m aos recursos da biodiversidade nos nossos territ\u00f3rios e o manejo cuidadoso das plantas e alimentos para preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e cuidado da sa\u00fade. Consideramos o cuidado da terra como condi\u00e7\u00e3o para cuidar da nossa sa\u00fade.&#8221;<\/p>\n<p>No mesmo sentido do pertencimento, Claudeilton dos Santos, do Movimento de Pequenos Agricultores da Via Campesina, lembrou que &#8220;quando falamos de soberania alimentar, estamos falando de um modo de ser, com capacidade para decidir sobre quem somos, como existimos.&#8221; Santos ressaltou que \u201ca fome \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social do sistema capitalista, e ela existe porque gera lucro, subalterniza\u00e7\u00e3o, controle dos corpos e dos territ\u00f3rios.\u201d<\/p>\n<p>Ao fim da atividade, a lideran\u00e7a Davi Krah\u00f4, do Tocantins, manifestou a esperan\u00e7a de que o j\u00fari do TPP possa endere\u00e7ar as demandas e apelos dos povos e comunidades que t\u00eam seus casos analisados. &#8220;A nossa realidade \u00e9 triste, mas a vida segue. Que possa valer a justi\u00e7a que brota da terra&#8221;, finalizou Davi Krah\u00f4.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;Imagem em destaque: CIMI GO-TO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEles jogam veneno l\u00e1 em cima, n\u00e3o tem mais Cerrado pra proteger, e desce para as \u00e1guas nos brejos. T\u00e1 tudo contaminado\u201d. 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