{"id":6265,"date":"2022-06-08T05:45:21","date_gmt":"2022-06-08T08:45:21","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/mineracao-e-cercamento-das-aguas\/"},"modified":"2022-06-08T05:45:21","modified_gmt":"2022-06-08T08:45:21","slug":"mineracao-e-cercamento-das-aguas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/mineracao-e-cercamento-das-aguas\/","title":{"rendered":"Minera\u00e7\u00e3o e o cercamento das \u00e1guas do Cerrado"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por Ricardo Junior de Assis Fernandes Gon\u00e7alves*<\/strong><\/em><\/p>\n<h5><strong>\u00c1guas do Cerrado: a d\u00e1diva ferida<\/strong><\/h5>\n<p>As \u00e1guas do Cerrado est\u00e3o feridas. Nascentes, aqu\u00edferos, rios, c\u00f3rregos, veredas e bacias hidrogr\u00e1ficas est\u00e3o expostas \u00e0 voracidade do capital extrativo global. Consequentemente, feridas foram abertas e permanecem expostas diante do desmatamento, uso de agrot\u00f3xicos, constru\u00e7\u00e3o de empreendimentos hidroel\u00e9tricos, abertura de canais de irriga\u00e7\u00e3o, barragens de rejeitos, minerodutos e megaminas a c\u00e9u aberto ou subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>Minera\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio, turismo, hidroneg\u00f3cio energ\u00e9tico e ind\u00fastria farmacoqu\u00edmica mapeiam os bens comuns naturais do Cerrado e transformam esse territ\u00f3rio em fonte de <em>commodities<\/em>. Conforme Chaveiro (2019), isso representa o avan\u00e7o da \u201chegemonia predat\u00f3ria\u201d nos territ\u00f3rios do Cerrado. O autor demonstra que h\u00e1 uma economia baseada na <em>agro-minero-exporta\u00e7\u00e3o<\/em> que se torna hegem\u00f4nica. Portanto, essa hegemonia passa a exercer o dom\u00ednio econ\u00f4mico predat\u00f3rio desse Bioma-Territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nos territ\u00f3rios do Cerrado, terra, \u00e1gua e subsolo (min\u00e9rios) est\u00e3o em disputa e na centralidade dos conflitos frente \u00e0s novas fronteiras de cercamento dos bens comuns naturais. H\u00e1 no Cerrado o que o ge\u00f3grafo David Harvey (2018) denomina \u201cnovos cercamentos\u201d. Isso representa a transforma\u00e7\u00e3o das d\u00e1divas gratuitas da natureza em mercadorias que movimentam o \u201cecossistema global do capital\u201d (HARVEY, 2018).<\/p>\n<p>Desde os anos 1970 v\u00ea-se uma escalada de crescimento da economia nos territ\u00f3rios de dom\u00ednio do Cerrado, fomentando a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, a urbaniza\u00e7\u00e3o, o surgimento de novos milion\u00e1rios e o <em>hidroc\u00eddio<\/em>. Para o antrop\u00f3logo e pesquisador Altair Sales Barbosa (2022), a devasta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da vegeta\u00e7\u00e3o do Cerrado (cujas ra\u00edzes profundas s\u00e3o fundamentais para o sistema hidrol\u00f3gico do bioma), compromete as \u00e1guas subterr\u00e2neas e promove a amputa\u00e7\u00e3o de bacias hidrogr\u00e1ficas. \u201cEssa amputa\u00e7\u00e3o se inicia com a migra\u00e7\u00e3o das nascentes at\u00e9 o desaparecimento total de muitos cursos d\u2019\u00e1gua. Esse \u00e9 o in\u00edcio do fim, que se conclui com a morte do rio e de todo seu entorno, incluindo a desestrutura\u00e7\u00e3o de comunidades humanas, atrav\u00e9s da desterritorializa\u00e7\u00e3o\u201d (BARBOSA, 2022, p.1).<\/p>\n<p>Assim, o mesmo processo que transforma o territ\u00f3rio do Cerrado em territ\u00f3rio agr\u00e1rio-urbano-exportador favorece as escalas de desmatamento, insere a economia no mercado internacional de <em>commodities<\/em> e fomenta a apropria\u00e7\u00e3o de componentes como terra, \u00e1gua e min\u00e9rios. Por isso, a leitura cr\u00edtica do cercamento das \u00e1guas requer a compreens\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es territoriais. A multiplica\u00e7\u00e3o dos usos da \u00e1gua, inclusive virtuais, incide nas nascentes, nos aqu\u00edferos, na vaz\u00e3o dos canais e nas bacias hidrogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Por conseguinte, pode-se enxergar uma s\u00edntese entre o crescimento econ\u00f4mico no territ\u00f3rio do Cerrado e a dilapida\u00e7\u00e3o das \u00e1guas em v\u00e1rias escalas de intensidade e sob distintos usos. Ou seja, o modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico \u00e9 o modelo de preda\u00e7\u00e3o, cercamento ou \u201csequestro das \u00e1guas\u201d (MORAES, 2022). Aquilo que seria uma d\u00e1diva do Cerrado &#8211; as suas bacias, os seus aqu\u00edferos e a distribui\u00e7\u00e3o territorial dos canais &#8211; torna-se fonte de atra\u00e7\u00e3o e territorializa\u00e7\u00e3o dos monop\u00f3lios. A gera\u00e7\u00e3o de riquezas e a concentra\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios demandam o controle e os usos das \u00e1guas, como \u00e9 o caso da minera\u00e7\u00e3o, cujos processos de extra\u00e7\u00e3o, processamento e transporte (como por minerodutos) s\u00e3o <em>hidrointensivos<\/em> e estimulam conflitos ambientais nas comunidades locais impactadas.<\/p>\n<h5><strong>As escalas predat\u00f3rias da minera\u00e7\u00e3o no Cerrado<\/strong><\/h5>\n<p>A minera\u00e7\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseca ao capitalismo contempor\u00e2neo. A financeiriza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais como terra, \u00e1gua e min\u00e9rios est\u00e1 no centro das novas fronteiras de acumula\u00e7\u00e3o global. Ademais, os minerais s\u00e3o essenciais \u00e0s tecnologias da Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. <em>Chips<\/em>, naves espaciais, carros el\u00e9tricos, celulares, computadores, arranha-c\u00e9us, gasodutos, plataformas de petr\u00f3leo, turbinas de avi\u00f5es, armas, navios e todas as mercadorias que circulam nas redes globais de produ\u00e7\u00e3o cont\u00eam min\u00e9rios.<\/p>\n<p>Novas fronteiras de controle e explora\u00e7\u00e3o de bens naturais s\u00e3o incorporadas ao capital extrativo global, como ocorre na Amaz\u00f4nia e no Cerrado. A minera\u00e7\u00e3o nos territ\u00f3rios do Cerrado se realiza em distintas escalas de extra\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios. Em escala local\/regional, destaca-se a extra\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de quartzo, areia, \u00e1gua mineral, argila para cer\u00e2mica vermelha, brita, cascalho, calc\u00e1rio para cimento e calc\u00e1rio agr\u00edcola. O caso de calc\u00e1rio agr\u00edcola \u00e9 emblem\u00e1tico, pois representa o avan\u00e7o do <em>agro-m\u00ednero-neg\u00f3cio<\/em> neste bioma-territ\u00f3rio. Sua extra\u00e7\u00e3o nutre a demanda do agroneg\u00f3cio em regi\u00f5es e munic\u00edpios intensivos na produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os, como o Sul e Sudeste Goiano e o Oeste da Bahia.<\/p>\n<p>Em escala nacional sobressai a extra\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de \u00e1gua mineral, m\u00e1rmore, fosfato e bauxita\/alum\u00ednio. Nessa escala, a rela\u00e7\u00e3o entre agroneg\u00f3cio e minera\u00e7\u00e3o destaca-se com os projetos de explora\u00e7\u00e3o e beneficiamento de fosfato. Com o prop\u00f3sito de produzir fertilizantes, complexos mineroqu\u00edmicos foram territorializados no Cerrado desde os anos 1970. No contexto dos governos militares e dos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND\u2019s) constitui-se a \u201cmatriz espacial dos grandes projetos\u201d (MOREIRA, 2003) no Cerrado envolvendo a minera\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o de monoculturas agr\u00edcolas. Consequentemente, esse Bioma-Territ\u00f3rio foi incorporado ao capital internacional \u00e0 custa de expropria\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias da popula\u00e7\u00e3o camponesa, urbaniza\u00e7\u00e3o e implica\u00e7\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>Atualmente, empresas estrangeiras, como a americana Mosaic Fertilizantes e a chinesa CMOC Brasil (subsidi\u00e1ria da companhia China Molybdenum), possuem opera\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios do Cerrado \u2013 em munic\u00edpios como Tapira (MG), Arax\u00e1 (MG), Patroc\u00ednio (MG), Uberaba MG), Catal\u00e3o (GO) e Ouvidor (GO) &#8211; na extra\u00e7\u00e3o e beneficiamento da rocha fosf\u00e1tica. Em Catal\u00e3o e Ouvidor, a minera\u00e7\u00e3o de fosfato ocorre desde os anos 1970 e por d\u00e9cadas agudiza conflitos por terra e \u00e1gua em comunidades camponesas (GON\u00c7ALVES, 2016). Nesses munic\u00edpios goianos, a abertura de minas a c\u00e9u aberto, a constru\u00e7\u00e3o de pilhas de est\u00e9ril e barragens de rejeitos foram respons\u00e1veis pela expropria\u00e7\u00e3o de dezenas de fam\u00edlias camponesas e continuam amea\u00e7ando-os de expuls\u00e3o (MARTINS, 2020).<\/p>\n<p>Em escala internacional, a minera\u00e7\u00e3o no Cerrado ocorre mediante a explora\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de minerais como ni\u00f3bio, n\u00edquel, cobre e ouro; al\u00e9m de atua\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras como a Lundin Mining (canadense), CMOC Brasil (chinesa), Anglo American (brit\u00e2nica) e Anglogold Ashanti (sul africana). Essas empresas expandem seus neg\u00f3cios ampliando o controle corporativo de territ\u00f3rios do Cerrado.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos bens minerais explorados, o exemplo do ni\u00f3bio \u00e9 ilustrativo da minera\u00e7\u00e3o em escala internacional no Bioma-Territ\u00f3rio Cerrado. Os megaempreendimentos de extra\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de ligas de ferro-ni\u00f3bio ocorrem em Arax\u00e1 (MG), com atua\u00e7\u00e3o da Companhia Brasileira de Metalurgia e Minera\u00e7\u00e3o (CBMM), e Catal\u00e3o (GO) e Ouvidor (GO) pela CMOC Brasil. Em 2021, o Brasil exportou cerca de 92 mil toneladas de ferro-ni\u00f3bio no valor de US$ 2,1 bilh\u00f5es. Desse total, apenas Minas Gerais e Goi\u00e1s participaram, respectivamente, de 82% e 13% das exporta\u00e7\u00f5es de ferro-ni\u00f3bio brasileiro (MDIC, 2022).<\/p>\n<p>Sendo assim, a minera\u00e7\u00e3o de ni\u00f3bio contribui para demonstrar a inser\u00e7\u00e3o do Cerrado \u00e0s redes extrativas globais. Mas essa escala internacional representa impactos locais, como na Comunidade Coqueiros, Catal\u00e3o (GO), que foi fraturada por uma megamina a c\u00e9u aberto de ni\u00f3bio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/noticias\/destaque-site-coluna-ricardo-07.png\" alt=\"destaque site coluna ricardo 07\" width=\"962\" height=\"542\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 962px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 962\/542;\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"background-color: #ffffff;\">Fratura territorial da Comunidade Coqueiros, Catal\u00e3o (GO), pela extra\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto de ni\u00f3bio na Mina Boa Vista. <\/span><\/em><em><span style=\"background-color: #ffffff;\">Foto: Ricardo Gon\u00e7alves (2019).<\/span><\/em><\/p>\n<p>A abertura e a expans\u00e3o da mina Boa Vista (foto 1), da empresa CMOC Brasil, representou a expropria\u00e7\u00e3o de dezenas de fam\u00edlias camponesas que viviam na\/da terra. A minera\u00e7\u00e3o na Comunidade Coqueiros exemplifica processos de \u201cexpropria\u00e7\u00e3o ecobiopol\u00edtica\u201d (AR\u00c1OZ, 2013), ao fraturar as paisagens locais, interferir na qualidade do ar e na vaz\u00e3o dos c\u00f3rregos e nascentes, expulsar fam\u00edlias com seus modos de vida, saberes na rela\u00e7\u00e3o com a terra, as sementes e os quintais. Efetiva-se, ent\u00e3o, processos de ruptura ambiental e cultural dos lugares.<\/p>\n<p>Sendo assim, considera-se a minera\u00e7\u00e3o como uma das principais atividades extrativistas respons\u00e1veis pelo cercamento do subsolo e das \u00e1guas, o sacrif\u00edcio de ecossistemas e a amea\u00e7a aos povos e comunidade nos territ\u00f3rios do Cerrado.<\/p>\n<h5><strong>O cercamento do subsolo e das \u00e1guas do Cerrado<\/strong><\/h5>\n<p>No subsolo do Bioma-Territ\u00f3rio Cerrado, as jazidas de minerais como ni\u00f3bio, cobre, terras raras, n\u00edquel, ouro, fosfato, ferro e bauxita s\u00e3o sistematicamente mapeadas e incorporadas \u00e0s fronteiras de expans\u00e3o do \u201cimperialismo extrativo\u201d (HARVEY, 2018), como ilustrado no mapa abaixo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/noticias\/mapa-ricardo-texto.png\" alt=\"mapa ricardo texto\" width=\"1376\" height=\"1701\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1376px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1376\/1701;\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #000000; background-color: #ffffff;\">O cercamento do subsolo do Cerrado e das \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o com outros biomas-territ\u00f3rios. Cr\u00e9dito: PoEMAS<\/span><\/em><\/p>\n<p>O mapa acima revela que o subsolo nos territ\u00f3rios do Cerrado est\u00e1 em disputa. Essa disputa \u00e9 express\u00e3o do processo de cercamento atrav\u00e9s dos processos miner\u00e1rios ativos no per\u00edodo entre 2018 e 2021. Neste intervalo foram realizados 12.518 requerimentos e autoriza\u00e7\u00f5es de pesquisas, e 226 requerimentos e concess\u00f5es de lavra (ANM, 2022). Com foco nas \u00e1reas cont\u00ednuas do Cerrado, destaca-se a apropria\u00e7\u00e3o do subsolo no leste de Mato Grosso; centro, norte e nordeste de Goi\u00e1s; e sul e leste do Tocantins. Nas regi\u00f5es de Goi\u00e1s e Tocantins, ressalta-se a exist\u00eancia hist\u00f3rica de popula\u00e7\u00f5es camponesas, ribeirinhas, quilombolas e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>No nordeste goiano, ressalta-se a presen\u00e7a ancestral do povo Kalunga, distribu\u00eddo em cerca de 39 comunidades que ocupam um territ\u00f3rio de 261 mil hectares situado nos munic\u00edpios de Cavalcante (GO), Teresina de Goi\u00e1s (GO) e Monte Alegre (GO). No Territ\u00f3rio Kalunga conflitos envolvendo usos da \u00e1gua por empreendimentos hidroel\u00e9tricos (PAIVA, 2019) e minera\u00e7\u00e3o (SEMAD, 2020) amea\u00e7am a sociobiodiversidade local e os \u201cciclos hidrossociais\u201d (IMBELLONE; FELIPPE, 2020) nas comunidades.<\/p>\n<p>Ademais, comunidades quilombolas do sul do Tocantins tamb\u00e9m enfrentam problemas envolvendo a minera\u00e7\u00e3o e os usos da \u00e1gua. Em 2011, a constru\u00e7\u00e3o de barragens de rejeitos pela Itaf\u00f3s Minera\u00e7\u00e3o Ltda, em Arraias (TO), agravou os efeitos ambientais (desmatamento, compacta\u00e7\u00e3o de solo, assoreamento etc.) na bacia do rio Bezerra e comprometeu os usos locais da \u00e1gua pelas comunidades tradicionais (PEREIRA FILHO, 2018).<\/p>\n<p>Nas \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o do Cerrado com outros Biomas-Territ\u00f3rios constata-se que o interesse mineral est\u00e1 em expans\u00e3o. Os pontos de maior concentra\u00e7\u00e3o dos processos miner\u00e1rios est\u00e3o situados na transi\u00e7\u00e3o entre o Cerrado e a Amaz\u00f4nia, com foco no norte do Tocantins e sul e sudeste do Par\u00e1; e transi\u00e7\u00e3o Cerrado-Caatinga, especialmente no norte de Minas Gerais e Oeste da Bahia. Nestas regi\u00f5es, popula\u00e7\u00f5es tradicionais e camponesas, assentados, posseiros, quebradeiras de coco, geraizeiros, vazanteiros, veredeiros e catingueiros s\u00e3o amea\u00e7ados por grandes projetos extrativos.<\/p>\n<p>Povos que possuem rela\u00e7\u00f5es de pertencimento com os territ\u00f3rios de exist\u00eancia e desenvolveram e desenvolvem modos ancestrais de relacionar com as \u00e1guas, a terra, as matas e as sementes s\u00e3o amea\u00e7ados de expropria\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria no norte de Minas Gerais e no oeste da Bahia. No primeiro caso, pontua-se, por exemplo, os conflitos envolvendo a empresa Sul Americana Metais (SAM) que amea\u00e7am as comunidades geraizeiras no Territ\u00f3rio Vale das Cancelas (OLIVEIRA, 2021). Quanto ao Oeste da Bahia, a amea\u00e7a representada pelo setor extrativo mineral soma-se \u00e0 \u201cpilhagem territorial\u201d (PERPETUA, 2016) representada pelos grandes projetos do agroneg\u00f3cio que tamb\u00e9m s\u00e3o hidrointensivos e possuem focos de conflitos na regi\u00e3o (CUNHA, 2017; PORTO-GON\u00c7ALVES; CHAGAS, 2020).<\/p>\n<p>O cercamento das \u00e1guas \u00e9 indissoci\u00e1vel do cercamento do subsolo do Cerrado.&nbsp; Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1guas, a exist\u00eancia de centenas de barragens de rejeitos de minera\u00e7\u00e3o intensifica o sacrif\u00edcio de nascentes, c\u00f3rregos e rios. Al\u00e9m disso, exp\u00f5e popula\u00e7\u00f5es locais a situa\u00e7\u00f5es de \u201csofrimento ambiental\u201d (SOUZA, 2019) e \u201cterrorismo de barragens\u201d (MANUELZ\u00c3O, 2019) diante do risco de rompimentos como ocorreram em Mariana (MG) e Brumadinho (MG). S\u00e3o aproximadamente 249 barragens de rejeitos neste Bioma-Territ\u00f3rio, o que representa 33% do total desse tipo de estrutura no Brasil (BARCELOS, 2021).<\/p>\n<p>O cercamento das \u00e1guas do Cerrado tamb\u00e9m ocorre atrav\u00e9s das outorgas para os distintos tipos de atividades econ\u00f4micas, especialmente ligadas ao agroneg\u00f3cio, como a irriga\u00e7\u00e3o. O n\u00famero de outorgas emitidas pela Ag\u00eancia Nacional das \u00c1guas (ANA) no Cerrado e \u00e1reas de transi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 30.398, sendo 67% subterr\u00e2neas e 33% superficiais. Apenas a irriga\u00e7\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por 74% da vaz\u00e3o outorgada (BARCELOS, 2021).<\/p>\n<p>\u00c0 vista disso, as \u00e1guas do Cerrado, assim como as terras e os min\u00e9rios, transformam esse bioma em territ\u00f3rio em disputa. Mas povos e comunidades se levantam e constroem distintas formas de resist\u00eancias contra a preda\u00e7\u00e3o dos bens naturais e as amea\u00e7as \u00e0 cultura e aos modos de vida locais.<\/p>\n<h5><strong>As resist\u00eancias: \u00e1guas para a vida, n\u00e3o para o capital<\/strong><\/h5>\n<p>Para as comunidades e povos que lutam em defesa dos territ\u00f3rios de vida, as resist\u00eancias s\u00e3o constru\u00eddas com a consci\u00eancia de que proteger o Cerrado significa salvaguardar a d\u00e1diva das \u00e1guas. Por isso, reconhecem que a minera\u00e7\u00e3o se tornou uma amea\u00e7a aos seus modos de vida e saberes-fazeres vernaculares. O modelo de minera\u00e7\u00e3o dependente do uso intensivo de \u00e1gua, que imp\u00f5e a amputa\u00e7\u00e3o das paisagens pelos ritmos de extra\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00f5es, e representa a antinomia da exist\u00eancia dos povos do Cerrado e suas formas de conceber e relacionar com os bens naturais.<\/p>\n<p>A minera\u00e7\u00e3o interfere na autonomia h\u00eddrica dos povos do Cerrado. Impacta os usos e a fertilidade dos solos, o cultivo e a colheita de alimentos, a soberania alimentar e a sociobiodiversidade nas comunidades cerradeiras. As pr\u00e1ticas culturais dos povos do Cerrado dependem da rela\u00e7\u00e3o integrada com as \u00e1guas. Ademais, est\u00e1 expl\u00edcito para eles que \u201cmin\u00e9rio n\u00e3o se bebe\u201d. Logo, denunciam a contamina\u00e7\u00e3o e o esgotamento das \u00e1guas em seus territ\u00f3rios, prop\u00f5em modelos alternativos como a agroecologia e se \u201clevantam do ch\u00e3o\u201d em caminhadas de resist\u00eancias junto aos movimentos populares.<\/p>\n<p>Para os povos do Cerrado, as \u00e1guas s\u00e3o abundantes para a vida, n\u00e3o para o capital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>*Professor na Universidade Estadual de Goi\u00e1s (UEG). Pesquisador do Grupo de Pesquisa e Extens\u00e3o PoEMAS \u2013 Pol\u00edtica, Economia, Minera\u00e7\u00e3o, Ambiente e Sociedade.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>E-mail: <a href=\"mailto:ricardo.goncalves@ueg.br\">ricardo.goncalves@ueg.br<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>ANM \u2013 Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o. Bras\u00edlia\/DF, 2022.<\/p>\n<p>AR\u00c1OZ, H. M. <strong>Crisis ecol\u00f3gica, conflictossocioambientales y orden neocolonial<\/strong>: lasparadojas de nuestra Am\u00e9rica en las fronteras del extractivismo. <strong>REBELA<\/strong>, v. 3, n. 1, out., 2013.<\/p>\n<p>BARBOSA, Altair Sales. <strong>A morte silenciosa dos rios do Cerrado.<\/strong> Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/www.jornalopcao.com.br\/colunas-e-blogs\/gerais-colunas-e-blogs\/a-morte-silenciosa-dos-rios-do-cerrado-387851\/&gt;.\">https:\/\/www.jornalopcao.com.br\/colunas-e-blogs\/gerais-colunas-e-blogs\/a-morte-silenciosa-dos-rios-do-cerrado-387851\/&gt;.<\/a> Acesso em: 08\/04\/2022.<\/p>\n<p>BARCELOS, Eduardo. <strong>Atlas das \u00e1guas do Cerrado.<\/strong> Instituto Federal Baiano, 2021. Mimeo.<\/p>\n<p>CHAVEIRO, Eguimar F. <strong>Por uma abordagem geogr\u00e1fica do Cerrado<\/strong>: a afirma\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio, a nega\u00e7\u00e3o do bioma \u2013 Cartas de luta. 316f. Tese (livre doc\u00eancia), Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), Goi\u00e2nia, 2019.<\/p>\n<p>CUNHA, T\u00e1ssio Barreto. <strong>Do Oculto ao Vis\u00edvel:<\/strong> Terra-\u00c1gua-Trabalho e o Conglomerado Territorial do Agrohidroneg\u00f3cio no Oeste da Bahia. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia da FCT\/UNESP. Presidente Prudente\u2013 SP, 2017.<\/p>\n<p>GON\u00c7ALVES, R. J. A. F. <strong>No horizonte, a exaust\u00e3o: <\/strong>disputas pelo subsolo e efeitos socioespaciais dos grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o em Goi\u00e1s. 504f. Tese (Doutorado em Geografia) &#8211; Universidade Federal de Goi\u00e1s, Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Geografia, 2016.<\/p>\n<p>HARVEY, David. <strong>A loucura da raz\u00e3o capitalista<\/strong>: Marx e o capital no s\u00e9culo XXI. Tradu\u00e7\u00e3o de Artur Renzo. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/p>\n<p>IMBELLONI, Ana Caroline Pinheiro.; FELIPPE, Miguel Fernandes. Ciclo Hidrossocial e o Reabastecimento Social das \u00c1guas: uma experi\u00eancia na Comunidade Quilombola da Tapera (RJ).<strong> GEOgraphia<\/strong>, vol: 22, n. 48, 2020.<\/p>\n<p>MANUELZ\u00c3O. O terrorismo das barragens. <strong>Revista Manuelz\u00e3o<\/strong>, no 84. 03\/2019, p. 22.<\/p>\n<p>MARTINS, Omar. Mosaic Fertilizantes expulsa moradores de suas casas em Goi\u00e1s para armazenar rejeitos. 2020. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/observatoriodamineracao.com.br\/mosaic-fertilizantes-expulsa-moradores-de-suas-casas-em-goias-para-armazenar-rejeitos\/\"><\/a><a href=\"https:\/\/observatoriodamineracao.com.br\/mosaic-fertilizantes-expulsa-moradores-de-suas-casas-em-goias-para-armazenar-rejeitos\/\">https:\/\/observatoriodamineracao.com.br\/mosaic-fertilizantes-expulsa-moradores-de-suas-casas-em-goias-para-armazenar-rejeitos\/<\/a>&gt;. Acesso em: 12\/04\/2022.<\/p>\n<p>MDIC. <strong>S\u00e9ries hist\u00f3ricas.<\/strong> Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio Exterior e Servi\u00e7os, 2022. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.mdic.gov.br&gt;.\">http:\/\/www.mdic.gov.br&gt;.<\/a> Acesso em: 15\/04\/2022.<\/p>\n<p>MORAES, Robson de S. <strong>\u00c1guas do Cerrado<\/strong>. Cidade de Goi\u00e1s: UEG, 2022.<\/p>\n<p>MOREIRA, Ruy. Modelo industrial e meio ambiente no espa\u00e7o brasileiro. <strong>GEOgraphia<\/strong>, Rio de Janeiro, Ano V, n.9, p. 7-28, 2003.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, Bruna F. <strong>Conflitos Socioambientais e Territoriais da Minera\u00e7\u00e3o no Norte de Minas:<\/strong> Uma An\u00e1lise do Projeto Bloco 8. 91 f. TCC (Gradua\u00e7\u00e3o em Geografia), Universidade Estadual de Montes Claros, 2021.<\/p>\n<p>PAIVA, P. <strong>Constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9trica \u00e9 amea\u00e7a para comunidade kalunga que vive h\u00e1 300 anos no maior quilombo do Brasil<\/strong>. 2019. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/construcao-de-hidreletrica-e-ameaca-para-comunidade-kalunga-que-vive-ha-300-anos-no-maior-quilombo-do-brasil\/&gt;.\">https:\/\/www.geledes.org.br\/construcao-de-hidreletrica-e-ameaca-para-comunidade-kalunga-que-vive-ha-300-anos-no-maior-quilombo-do-brasil\/&gt;.<\/a>&nbsp; Acesso em: 10\/04\/2020.<\/p>\n<p>PEREIRA FILHO, Paulo. <strong>Apropria\u00e7\u00e3o e conflitos pela \u00e1gua:<\/strong> din\u00e2micas socioespaciais a partir da bacia do rio Bezerra no munic\u00edpio de Arraias \u2013 TO. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Geografia), Universidade Federal de Catal\u00e3o, Catal\u00e3o\/GO, 2019.<\/p>\n<p>PERPETUA, Guilherme M. <strong>Pilhagem territorial, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e degrada\u00e7\u00e3o do sujeito que trabalha: <\/strong>a territorializa\u00e7\u00e3o do capital arb\u00f3reo-celul\u00f3sico no Brasil contempor\u00e2neo. 307f. Tese (Doutorado em Geografia) &#8211; Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Geografia, UNESP, Presidente Prudente, 2016.<\/p>\n<p>PORTO-GON\u00c7ALVES, Carlos Walter; CHAGAS, Samuel Brito das. <strong>Os Piv\u00f4s da Disc\u00f3rdia e a Digna Raiva:<\/strong> uma an\u00e1lise dos conflitos por terra, \u00e1gua e territ\u00f3rio em Correntina \u2013 BA. Gr\u00e1fica e Editora Bom Jesus, 2020.<\/p>\n<p>SEMAD. <strong>Governo de Goi\u00e1s fecha minera\u00e7\u00e3o sem licenciamento e apreende maquin\u00e1rio em Cavalcante<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"https:\/\/www.meioambiente.go.gov.br\/noticias\/1947-governo-de-goi%C3%A1s-fecha-minera%C3%A7%C3%A3o-sem-licenciamento-e-apreende-maquin%C3%A1rio-em-cavalcante.html\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.meioambiente.go.gov.br\/noticias\/1947-governo-de-goi%C3%A1s-fecha-minera%C3%A7%C3%A3o-sem-licenciamento-e-apreende-maquin%C3%A1rio-em-cavalcante.html\">https:\/\/www.meioambiente.go.gov.br\/noticias\/1947-governo-de-goi%C3%A1s-fecha-minera%C3%A7%C3%A3o-sem-licenciamento-e-apreende-maquin%C3%A1rio-em-cavalcante.html<\/a>&gt;. Acesso em: 12\/04\/2022.<\/p>\n<p>SOUZA, M. L. <strong>Ambientes e territ\u00f3rios: <\/strong>uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 ecologia pol\u00edtica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Junior de Assis Fernandes Gon\u00e7alves* \u00c1guas do Cerrado: a d\u00e1diva ferida As \u00e1guas do Cerrado est\u00e3o feridas. Nascentes, aqu\u00edferos, rios, c\u00f3rregos, veredas e bacias hidrogr\u00e1ficas est\u00e3o expostas \u00e0 voracidade do capital extrativo global. 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