{"id":6305,"date":"2023-03-13T11:43:23","date_gmt":"2023-03-13T14:43:23","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/aresistenciademaria\/"},"modified":"2023-03-13T11:43:23","modified_gmt":"2023-03-13T14:43:23","slug":"aresistenciademaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/aresistenciademaria\/","title":{"rendered":"A resist\u00eancia de Maria"},"content":{"rendered":"<p><strong><i>Paulo Oliveira e Thomas Bauer (*)<\/i><\/strong><\/p>\n<p>No Dia Internacional da Mulher, <a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2023\/03\/08\/19563\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Meus Sert\u00f5es<\/strong><\/a> mostrou como Maria (**), 55 anos, resiste \u00e0 press\u00e3o dos latifundi\u00e1rios do agroneg\u00f3cio e \u00e0 viol\u00eancia de pistoleiros contratados para expulsar os integrantes das comunidades de fecho de pasto. Os fecheiros, como s\u00e3o chamados, h\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos vivem e preservam \u00e1reas do cerrado baiano cobi\u00e7adas por grileiros e pelo empresariado, que desmata totalmente as suas propriedades para aumentar a produtividade e depois tenta tomar a terra ocupada por posseiros para transform\u00e1-las em reservas legais e cumprir o que prev\u00ea o C\u00f3digo Florestal. O n\u00e3o cumprimento da lei prev\u00ea autua\u00e7\u00e3o, multa e processo e impede a concess\u00e3o de cr\u00e9dito e a comercializa\u00e7\u00e3o de produtos.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o desenfreado do agroneg\u00f3cio, com apoio de autoridades estaduais, em um estado governado h\u00e1 16 anos pelo Partido dos Trabalhadores (PT) atinge principalmente as mulheres. \u00c9 o caso de Maria, moradora de um dos distritos de Correntina, na regi\u00e3o oeste da Bahia. Ela n\u00e3o esquece do dia em que o filho mais velho, ex-aluno da escola agr\u00edcola, decidiu ir embora de casa porque a a\u00e7\u00e3o dos grileiros, pistoleiros e empres\u00e1rios acabou com as \u00e1reas de fecho de pasto onde o gado era solto nos per\u00edodos de estiagem e de recupera\u00e7\u00e3o do pasto, al\u00e9m de tomar terras \u00e0 base da press\u00e3o e da viol\u00eancia, reduzindo o espa\u00e7o das hortas.<\/p>\n<p>\u201cFoi meu filho mais velho que nos incentivou a fazer a horta que a gente tem hoje para sobreviver, depois que fomos obrigados a deixar de criar gado. No dia em que ele ia viajar para se estabelecer em outro estado, bateu um desespero. Ele ia no viveiro de mudas que criou, e voltava chorando, gritava. Eu tamb\u00e9m fiquei desesperada. At\u00e9 hoje me emociono quando lembro disso\u201d \u2013 diz.<\/p>\n<p>Assim como Jos\u00e9 (**), os jovens est\u00e3o deixando Correntina, criando um abismo geracional entre os agricultores familiares e pequenos criadores de gado, cujo conhecimento e as t\u00e9cnicas de preserva\u00e7\u00e3o da natureza s\u00e3o repassados oralmente. A tend\u00eancia \u00e9 que estes saberes se percam.<\/p>\n<p>Na entrevista concedida ao site <strong>Meus Sert\u00f5es<\/strong>, a agricultora revela o sofrimento e a preocupa\u00e7\u00e3o pelo pai, pelo marido e por todos os homens da fam\u00edlia e amigos, que saem para a lida. Maria lembra do tempo em que os latifundi\u00e1rios n\u00e3o tinham se instalado na regi\u00e3o e havia fartura.<\/p>\n<p>Conta como as associa\u00e7\u00f5es de agroneg\u00f3cios, os grileiros e os pistoleiros se instalaram e passaram a agir para tomarem as terras das comunidades tradicionais. Nos \u00faltimos 30 anos, ela constatou que os \u201cpin\u00f3quios v\u00e9ios\u201d, como o cantor e compositor Chico C\u00e9sar define a bancada ruralista, escondem que o agro traz consigo a grilagem, a pistolagem, a mis\u00e9ria e a fome por n\u00e3o permitir que os fecheiros criem gado nos gerais e por reduzir o espa\u00e7o das pequenas propriedades e o volume das \u00e1guas dos rios e do len\u00e7ol fre\u00e1tico, al\u00e9m de contamin\u00e1-las com agrot\u00f3xico.<\/p>\n<p>A tamb\u00e9m feirante relaciona ainda uma s\u00e9rie de outras mentiras e diz que enquanto no marketing e na publicidade das emissoras de televis\u00e3o, o agro \u00e9 pop, na verdade, \u201co agro \u00e9 morte\u201d. Est\u00e3o l\u00e1 os pistoleiros, incluindo um ex-policial militar, para provar isso.<\/p>\n<p>Este quadro desolador n\u00e3o impede que ela mantenha a luta para se manter na terra de seus antepassados. Na horta familiar, ela produz cerca de 700 quilos de alimentos org\u00e2nicos<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><a id=\"_ftnref1\"><\/a>, fornecidos para o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE). O restante da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 vendido em duas feiras da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A maior alegria da agricultora \u00e9 quando alunos da rede municipal<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><a id=\"_ftnref2\"><\/a> dizem que os alimentos s\u00e3o gostosos. Al\u00e9m disso, Maria e o marido produzem salsa, berduega, tanchagem, mastruz, pimenta, tomate, jambu e milho.<\/p>\n<p>\u201cA couve \u00e9 rica em prote\u00ednas, a berduega tem alto teor de \u00f4mega 3, a tanchagem cura inflama\u00e7\u00f5es e os mastruz \u00e9 um poderosos antibi\u00f3tico\u201d \u2013 ensina.<\/p>\n<p><strong>Leia a seguir a \u00edntegra da entrevista:<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A senhora poderia se apresentar, dizer quais s\u00e3o as suas atividades profissionais e h\u00e1 quanto tempo a senhora mora aqui? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Maria (**). Eu moro aqui desde que nasci. Estou com 55 anos, me criei aqui. S\u00f3 mudei de uma casa para outra depois que eu casei. Eu tive tr\u00eas filhos, que n\u00e3o moram mais comigo. Sou agricultora e trabalho com a horticultura. A gente planta milho, alho, cebola, feij\u00e3o, arroz, mandioca, laranja, caju. S\u00f3 que agora, no momento, n\u00f3s n\u00e3o estamos plantando nem o feij\u00e3o e arroz, porque meu marido est\u00e1 fazendo um tratamento m\u00e9dico e n\u00e3o pode fazer o plantio. Eu me criei sem comprar feij\u00e3o e arroz.<\/p>\n<p><strong><em>O que a senhora cultiva hoje?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Aqui a gente planta alface, couve, r\u00facula, cheiro verde, coentro, pimenta.<\/p>\n<p><strong><em>Para quem voc\u00eas fornecem esse alimento?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s vendemos em feiras de dois munic\u00edpios e fornecemos alimentos para o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE). \u00c9 a merenda escolar.<\/p>\n<p><strong><em>Como era a vida aqui antes da chegada do agroneg\u00f3cio?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nossa vida era bem tranquila. Para come\u00e7ar, a \u00e1gua era abundante. Era \u00e1gua que a gente n\u00e3o dava conta da dimens\u00e3o. Quando o agroneg\u00f3cio chegou, as \u00e1guas foram acabando, muitas nascentes e riachos secaram e os rios principais perderam volume. O agro trouxe as sementes transg\u00eanicas e as nativas sumiram. As coisas come\u00e7aram a mudar.<\/p>\n<p><strong><em>Os latifundi\u00e1rios queriam se apossar das propriedades daqui, dos fechos de pasto, desde essa \u00e9poca?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A grilagem de terra aqui no oeste da Bahia se intensificou a partir dos anos 1980. A\u00ed, a cada dia que passa a coisa fica mais violenta e os grileiros mais fortes.<\/p>\n<p><strong><em>A senhora criou gado aqui no passado?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tinha. Agora s\u00f3 tenho umas duas cabe\u00e7as, s\u00f3 para n\u00e3o ficar sem. Mas a gente vivia do gado. Do gado e da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Do feij\u00e3o, do arroz, da mandioca, do milho e da cana para fazer rapadura, cacha\u00e7a e a\u00e7ucar. O gado era como se fosse um dinheiro que eu tinha no banco. O banco da gente era um boi, uma vaca. Quando tinha uma necessidade maior, a gente vendia o gado.<\/p>\n<p><strong><em>Por que a cria\u00e7\u00e3o de gado na regi\u00e3o foi diminuindo?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Por causa da grilagem. A gente utilizava os gerais, o cerrado, para soltar o gado enquanto o pasto nas propriedades se recuperava. Era assim o manejo. A\u00ed com a grilagem<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><a id=\"_ftnref3\"><\/a> tivemos que acabar com o gado.<\/p>\n<p><strong><em>Ent\u00e3o o agroneg\u00f3cio diminuiu a quantidade da \u00e1gua e trouxe a grilagem e a pistolagem?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Trouxe tudo<strong>.<\/strong> Eu diria que tamb\u00e9m trouxe a mis\u00e9ria e at\u00e9 um pouco da fome. Porque a partir do momento em que a gente n\u00e3o pode levar o gado para o cerrado e o volume das \u00e1guas diminui para o plantio, a fome gera fome.<\/p>\n<p><strong><em>Alguma vez os latifundi\u00e1rios fizeram alguma oferta para comprar as posses daqui? Ou eles s\u00f3 tentam tom\u00e1-las? Como \u00e9 que \u00e9 a estrat\u00e9gia para se apropriar das terras?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Meu sogro e o meu esposo tinham uma \u00e1rea nos gerais, que era o fecho de pasto. Eles levavam o gado pra l\u00e1. A\u00ed veio um grileiro e tomou aquela \u00e1rea. Eles tiveram que parar de levar os animais para l\u00e1. Havia outro fecho da mesma comunidade. Meu marido passou a levar os animais para este lugar. S\u00f3 que o agro e o grileiro foram tomando aos poucos. O espa\u00e7o diminuiu. Onde dava para criar 30 cabe\u00e7as de gado, agora s\u00f3 cabiam cinco. A press\u00e3o fez o pessoal vender a posse do que restou.<\/p>\n<p><strong><em>A chegada do agro tamb\u00e9m provocou um racha nas associa\u00e7\u00f5es, nos sindicatos? <\/em><\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 hoje eles oferecem um projeto qualquer para uma associa\u00e7\u00e3o para ser custeado com o dinheiro do agroneg\u00f3cio. Eles constroem, por exemplo, a sede de uma associa\u00e7\u00e3o e colocam uma placa com o nome de uma entidade de empres\u00e1rios. Com isso, passam a controlar as pessoas. \u00c0s vezes eles oferecem empregos para os componentes de alguma fam\u00edlia. Eles v\u00e3o na escola agr\u00edcola, aplicam uma prova e contratam algumas pessoas. A\u00ed dizem que o agro \u00e9 importante para a agricultura familiar e geram um desconforto para a comunidade. Quando a gente tenta correr atr\u00e1s da retomada dos territ\u00f3rios, muita gente n\u00e3o quer bater de frente com o patr\u00e3o do filho porque ele pode ficar desempregado.<\/p>\n<p><strong><em>Quantos empregos s\u00e3o criados? Os latifundi\u00e1rios costumam dizer que s\u00e3o muitos.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na verdade o agro n\u00e3o gera muitos empregos. Ele s\u00f3 traz mis\u00e9ria e agrot\u00f3xicos, que contaminam o solo e as \u00e1guas de Correntina. Eles usam avi\u00f5es para aplicar veneno nas lavouras, poluem o ar tamb\u00e9m. S\u00f3 trazem coisa ruim. Quanto aos empregos \u00e9 uma estrat\u00e9gia para desarticular as comunidades. Eles oferecem poucos empregos bra\u00e7ais. Para os cargos com melhor remunera\u00e7\u00e3o, como a opera\u00e7\u00e3o de maquin\u00e1rio de primeiro mundo, trazem pessoas de fora, dizem que n\u00e3o h\u00e1 m\u00e3o de obra qualificada na cidade. Quem foi contratado para arrancar ra\u00edzes \u00e9 dispensado quando o servi\u00e7o \u00e9 conclu\u00eddo.<\/p>\n<p><strong><em>Como est\u00e1 a quest\u00e3o da viol\u00eancia no campo?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>No final do ano passado, ela ficou acirrada. Eles tiraram as cercas do \u00faltimo espa\u00e7o de fecho de pasto que t\u00ednhamos. Colocaram a cerca deles e tiraram a placa com o nome de nossa associa\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o pode mais entrar. A \u00faltima vez que o pessoal foi l\u00e1, tinha policiais, homens e mulheres, que nos pressionaram a n\u00e3o entrar.<\/p>\n<p><strong><em>Quem est\u00e1 a frente desse grupo?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Na verdade \u00e9 um ex-cabo de pol\u00edcia <a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a><a id=\"_ftnref4\"><\/a>. Inclusive ele chegou, procurou alguns diretores da associa\u00e7\u00e3o e pressionou para vender a \u00e1rea. Esse policial ofereceu uma quantia, mas ningu\u00e9m quis vender. A\u00ed ele tirou nossa cerca e colocou a do fazendeiro. O grupo dele tamb\u00e9m derrubou alguns ranchos da gente. Agora a gente n\u00e3o consegue mais entrar no fundo de pasto. \u00c9 s\u00f3 a gente chegar perto, que vem o seguran\u00e7a, vem a pol\u00edcia. Eles at\u00e9 colocaram uma torre de comunica\u00e7\u00e3o bem pr\u00f3xima para avisar quando algu\u00e9m se aproxima.<\/p>\n<p><strong><em>A senhora costumava levar o gado at\u00e9 o fecho?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. As mulheres n\u00e3o levavam o gado porque \u00e9 uma dist\u00e2ncia muito grande at\u00e9 os gerais. \u00c0s vezes n\u00e3o vamos porque n\u00e3o aguentamos. Outras vezes porque n\u00e3o temos com quem deixar os filhos. Ent\u00e3o a gente participa indiretamente: cuidando da propriedade; preparando comida para o marido e os filhos levarem; separando as roupas e o material que \u00e9 usado durante a estadia no campo; preparando rem\u00e9dios caseiros.<\/p>\n<p><strong><em>Quanto tempo os homens costumavam passar nos gerais?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Antes de levar o gado, eles v\u00e3o l\u00e1 e preparam o local. Consertam cercas, limpam bebedouros dos animais e d\u00e3o uma olhada para ver se tem on\u00e7a rondando por l\u00e1. Essa prepara\u00e7\u00e3o dura uns tr\u00eas dias. S\u00f3 depois, eles levavam o gado. A\u00ed passavam at\u00e9 uma semana para ver se os animais iam para o bebedor certo. Os bois e as vacas passavam dois meses nos gerais, soltos. Nesse per\u00edodo, os homens se revezavam e iam olhar os bichos pelo menos umas tr\u00eas vezes. Quando o pasto estava recuperado nas comunidades, o grupo voltava para trazer o gado de volta.<\/p>\n<p><strong><em>Antes dos pistoleiros e dos grileiros, qual era a preocupa\u00e7\u00e3o das mulheres com rela\u00e7\u00e3o aos seus maridos e filhos que iam para os gerais?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A gente ficava preocupada com as cobras, com a on\u00e7a ou uma sucuri na beira do rio. Ficava com medo desses animais. Depois o medo maior era com os grileiros porque dos animais voc\u00ea tem como voc\u00ea se prevenir. Do pistoleiro, n\u00e3o. De noite a gente acorda assustada depois de sonhar que aconteceu alguma coisa. Ent\u00e3o a gente come\u00e7a a fazer ora\u00e7\u00e3o. Muitas vezes fiz a ora\u00e7\u00e3o preocupada de estar acontecendo alguma coisa. Enquanto esse povo n\u00e3o chegava a gente n\u00e3o sossegava. Se a combina\u00e7\u00e3o era pra eles voltarem com tr\u00eas dias n\u00e3o era cumprida, eu ficava aflita sem saber se algu\u00e9m tinha adoecido ou se tinha sido atacado por uma cobra. Ou pior: ferido ou morto por um pistoleiro.<\/p>\n<p><strong><em>A senhora rezava para algum santo ou santa espec\u00edfico?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ah, isso \u00e9 certeza. Sempre tem um santo que a gente pede, n\u00e9. Eu pedia muito para Nossa Senhora Aparecida e Santa Luzia. Mas cada pessoa tem o seu santo de devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Algum dos seus tr\u00eas filhos manifestou vontade de trabalhar com a horta ou com cria\u00e7\u00e3o de animais?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Meus filhos hoje moram em outro estado. O mais velho estudou em col\u00e9gio agr\u00edcola. Eles falam em retornar, s\u00f3 que a propriedade \u00e9 pequena e n\u00e3o tem mais espa\u00e7o no fecho para criar um gado. Essa \u00e9 a maior dificuldade. A maior parte dos jovens foi embora por n\u00e3o ter mais como criar gado. Ent\u00e3o outra consequ\u00eancia da chegada do agroneg\u00f3cio e da pistolagem \u00e9 os jovens deixarem as comunidades, deixando de dar prosseguimento a algo que acontece h\u00e1 100, 200 anos.<\/p>\n<p><strong><em>Como foi que a senhora viu a partida dos seus filhos?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com a continuidade do crescimento do agroneg\u00f3cio, eu fico me perguntando: os empres\u00e1rios falaram que trariam sustentabilidade. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 verdade porque os jovens acabam indo embora por n\u00e3o ter como produzir em \u00e1reas pequenas. Ou seja, n\u00e3o ter como sobreviver. Uns tamb\u00e9m partiram por op\u00e7\u00e3o de estudo. Eu me lembro at\u00e9 hoje quando o meu filho mais velho saiu. Ele foi aluno da escola agr\u00edcola. Foi ele quem incentivou a gente a fazer a horta que temos hoje. Ele tinha um viveiro de mudas e foi muito dif\u00edcil se desfazer dele. No dia da viagem dele, bateu um desespero. Ele ia no viveiro e voltava chorando. \u00c0s vezes gritava. Ele n\u00e3o queria deixar a profiss\u00e3o que aprendeu. N\u00e3o queria, mas foi obrigado a sair. Eu tamb\u00e9m fiquei desesperada. E me emociono toda vez que falo nisso.<\/p>\n<p><strong><em>A forma\u00e7\u00e3o de novas lideran\u00e7as campesinas tamb\u00e9m fica prejudicada?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com o afastamento dos jovens, voc\u00ea chega em muitas casas e s\u00f3 tem duas pessoas. \u00c9 a mulher e o esposo. Ent\u00e3o hoje tem essa dificuldade. Aqui mesmo tinha dois grupos de jovens, um mais novo e outro mais amadurecido. Uns casaram e foram embora; outros sa\u00edram para estudar e n\u00e3o voltaram. Os grupos se desfizeram. A comunidade, na quest\u00e3o de lideran\u00e7a e de pessoas para dar continuidade \u00e0 luta, est\u00e3o sem ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong><em>A senhora acha que tem solu\u00e7\u00e3o para os problemas de Correntina?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com certeza tem. S\u00f3 que at\u00e9 agora a gente n\u00e3o sabe como que vai ser essa solu\u00e7\u00e3o. O problema maior \u00e9 que as nossas terras que s\u00e3o invadidas por pessoas de outros estados e de outros pa\u00edses, que devastam a natureza, sem se preocupar com o que acontecer\u00e1 no futuro. O povo vem, n\u00e3o \u00e9 de hoje, cobrando responsabilidade do estado e do munic\u00edpio. Os governantes t\u00eam o conhecimento do que acontece no oeste da Bahia: a grilagem, a viol\u00eancia, o envenenamento das \u00e1guas. S\u00f3 que nenhuma provid\u00eancia \u00e9 tomada.<\/p>\n<p><strong>Na publicidade, na propaganda que a gente v\u00ea na televis\u00e3o diz que o agro \u00e9 pop, que o agro e tec, que o agro \u00e9 \u00f3timo. Para a senhora o agro \u00e9 o qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Quando eles passa l\u00e1 na televis\u00e3o diz: \u201cAgro \u00e9 pop\u201d. E eu fico de c\u00e1: \u201cAgro \u00e9 morte\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a><a id=\"_ftn1\"><\/a> S\u00e3o 300 quilos de alface, 150 kg de r\u00facula, 150 kg de couve, 50 kg de cheiro verde, entrega entre mar\u00e7o e abril<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a><a id=\"_ftn2\"><\/a> Segundo a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o 34 escolas de ensino fundamental I e II \u2013 10 na sede e 24 na zona rural -, cinco unidades de pr\u00e9-escolar e uma creche.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a><a id=\"_ftn3\"><\/a> Obten\u00e7\u00e3o de posse ou propriedade da terra por meio il\u00edcito. A forma mais conhecida \u00e9 pela falsifica\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos de terra que foram registrados em cart\u00f3rio. Outra forma \u00e9 o desmatamento ilegal de terras p\u00fablicas para simular uma ocupa\u00e7\u00e3o e obter um t\u00edtulo do governo ou lucrar com a venda da terra mesmo antes de obter um t\u00edtulo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a><a id=\"_ftn4\"><\/a> Meus Sert\u00f5es apurou que o cabo se apresenta como Erlani ou Ernandes. V\u00e1rios posseiros j\u00e1 o denunciaram, mas nenhuma provid\u00eancia foi tomada pelas autoridades. Segundo fontes da pol\u00edcia, o ex-PM teria criado uma empresa de seguran\u00e7a para prestar servi\u00e7o aos latifundi\u00e1rios. Consta ainda que, certa vez, um grupo de trabalhadores rurais o detiveram e o levaram para a delegacia, mas o suspeito foi liberado.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leia a s\u00e9rie completa<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/11\/10\/pistoleiros-aterrorizam-fecheiros-de-correntina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pistoleiros aterrorizam fecheiros de Correntina<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/11\/10\/estado-demora-a-tomar-providencias-e-agrava-conflitos-no-oeste-baiano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Estado demora a tomar provid\u00eancias e agrava conflitos no oeste da Bahia<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/tribunaldocerrado.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/TPP_Senteca_Final_Cerrado_29_9_22.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Senten\u00e7a e recomenda\u00e7\u00f5es do Tribunal Permanente dos Povos (TPP)<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/11\/11\/disputa-por-area-preservada-no-cerrado-se-arrasta-na-justica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Disputa por \u00e1rea preservada no cerrado se arrasta na Justi\u00e7a<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/12\/05\/pistoleiros-driblam-pms-do-cerrado-e-mantem-terror-em-correntina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pistoleiros driblam PM do Cerrado e mant\u00eam terror em Correntina<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>(*) Mat\u00e9ria feita por Meus Sert\u00f5es em parceria com a CPT-BA<\/strong><\/p>\n<p><strong>(**) Nome fict\u00edcio para preservar a seguran\u00e7as dos personagens<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto: Thomas Bauer<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Oliveira e Thomas Bauer (*) No Dia Internacional da Mulher, Meus Sert\u00f5es mostrou como Maria (**), 55 anos, resiste \u00e0 press\u00e3o dos latifundi\u00e1rios do agroneg\u00f3cio e \u00e0 viol\u00eancia de pistoleiros contratados para expulsar os integrantes das comunidades de fecho de pasto. Os fecheiros, como s\u00e3o chamados, h\u00e1 cerca de dois s\u00e9culos vivem e preservam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-6305","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6305","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6305"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6305\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6305"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6305"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6305"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}