{"id":6310,"date":"2023-04-11T10:34:30","date_gmt":"2023-04-11T13:34:30","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/catoles-o-paraiso-ameacado\/"},"modified":"2023-04-11T10:34:30","modified_gmt":"2023-04-11T13:34:30","slug":"catoles-o-paraiso-ameacado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/catoles-o-paraiso-ameacado\/","title":{"rendered":"Catol\u00e9s, o para\u00edso amea\u00e7ado pelo agro e por grileiros no oeste da Bahia"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Voc\u00ea deixaria o agroneg\u00f3cio tomar as terras que sua fam\u00edlia ocupa h\u00e1 mais de um s\u00e9culo?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Paulo Oliveira e Thomas Bauer (**)<\/em><\/p>\n<p>Os catol\u00e9s ou cocos-bab\u00f5es s\u00e3o pequenos frutos comest\u00edveis de palmeiras do g\u00eanero Syagrus. Eles nascem em cachos com cerca de 50 unidades, t\u00eam polpa amarela e adocicada. Os coquinhos tamb\u00e9m emprestam o nome \u00e0 comunidade de fecho de pasto <a href=\"#heading=h.gjdgxs\">[1]<\/a> que preserva a vegeta\u00e7\u00e3o nativa h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, em Correntina, no oeste baiano, e hoje est\u00e1 na mira do agroneg\u00f3cio e de grileiros. A \u00e1rea que serve para a solta de pequenos rebanhos de gado, base da economia dos fecheiros, nos per\u00edodos de estiagem, \u00e9 um o\u00e1sis que contrasta com o desmatamento feito pelos empres\u00e1rios da regi\u00e3o para aumentar a \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Catol\u00e9s existem pelo menos sete nascentes: Catol\u00e9, Aldeinha, Aldeona, Sumidor Grande, Sumidorzinho, Vereda do Rancho e Galho Grande. A \u00e1gua \u00e9 cobi\u00e7ada. Atualmente, a Agropecu\u00e1ria Vereda do Rancho, cujo administrador \u00e9 o empres\u00e1rio e m\u00e9dico Leandro Celso Grilo, disputa as terras utilizadas pelas comunidades de Catol\u00e9s e Brejo Verde.<\/p>\n<p>Trinta e quatro dias depois da Secretaria Estadual de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (Sepromi) lavrar a certid\u00e3o de autorreconhecimento de comunidade tradicional de fecho de pasto, em 20 de setembro de 2018, Grilo se apresentou como propriet\u00e1rio da fazenda localizada no povoado. Em seguida, determinou que prepostos proibissem o acesso ao local.<\/p>\n<p>Indignados com a atitude do empres\u00e1rio, um grupo de pequenos criadores de gado e lavradores bloqueou a sa\u00edda da Vereda do Rancho, no dia 27 de junho de 2019, at\u00e9 que obtivessem explica\u00e7\u00f5es sobre o porqu\u00ea da proibi\u00e7\u00e3o. Os fecheiros chamaram o presidente da associa\u00e7\u00e3o local para conversar com Grilo e seus convidados. Sem maiores esclarecimentos, souberam, posteriormente, que a inten\u00e7\u00e3o do s\u00f3cio administrador \u00e9 produzir sementes forrageiras, criar gado para corte e explorar piscicultura e carcinicultura <a href=\"#heading=h.30j0zll\">[2]<\/a>, al\u00e9m de plantar soja, milho, feij\u00e3o e frutas. Pelo menos \u00e9 o que consta no rol de atividades do Cadastro Nacional de Pessoas Jur\u00eddicas (CNPJ) 28.891.601\/0001-50, inscrito na Receita Federal.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/Fecho_de_pasto_Catole\u0301s_em_Correntina_BA._Foto-_Thomas_Bauer_-_H3000-CPT_Bahia-2.jpg\" alt=\"Fecho de pasto Catole\u0301s em Correntina BA. Foto Thomas Bauer H3000 CPT Bahia 2\" width=\"1920\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p><em>Fecho de pasto Catole\u0301s, em Correntina (BA). Foto: Thomas Bauer\/H3000\/CPT Bahia<\/em><\/p>\n<p>A discuss\u00e3o entre as duas partes permitiu que o grupo que estava com o latifundi\u00e1rio difundisse a narrativa de que foi v\u00edtima de amea\u00e7as e que correu risco de morte. O caso acabou se transformando na a\u00e7\u00e3o de interdito provis\u00f3rio <a href=\"#heading=h.1fob9te\">[3]<\/a> 8000500-38.2019.8.05.0069. A inicial feita pelo advogado Leandro Andrade e defendida por Jeremias da Fran\u00e7a e Silva, ambos defensores not\u00f3rios de latifundi\u00e1rios, inclui entre os supostos l\u00edderes do bloqueio, D1 (*) <a href=\"#heading=h.3znysh7\">[4]<\/a>, acamado e sem mobilidade desde 16 de setembro de 2017, quando caiu de um cavalo.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s pedidos e comprova\u00e7\u00f5es de seus familiares, a pol\u00edcia de Correntina e os advogados do empres\u00e1rio mantiveram a den\u00fancia de que ele teria feito amea\u00e7as ao latifundi\u00e1rio e seus convidados.<\/p>\n<p>Falando com dificuldade, D1 contou que era vaqueiro e contador de gado. Aos 66 anos, ele fica agitado ao falar sobre o processo. Ele recorda que a primeira vez que foi intimado, seus familiares disseram para um policial que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es dele ir prestar depoimento. Ouviu como resposta \u201cvai de ambul\u00e2ncia\u201d. D1 toma medicamentos para dor neurop\u00e1tica causada por les\u00f5es nos nervos e convuls\u00f5es; para aliviar rigidez excessiva e espasmos musculares causados por les\u00f5es na medula \u00f3ssea; e para incontin\u00eancia urin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Segundo vizinhos e amigos, o nome do ex-vaqueiro foi apontado por um homem conhecido por Cristino. A den\u00fancia teria ocorrido como retalia\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ter sido aceito na associa\u00e7\u00e3o de fecheiros de Catol\u00e9s, devido \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m com empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio. O denunciante seria amigo de Raimundo Ferreira do Santos, vulgo C\u00f4nsul, gerente de Leandro Grilo. C\u00f4nsul, embora n\u00e3o tenha carteira assinada, diz ter a fun\u00e7\u00e3o de corrigir, cuidar e monitorar o local.<\/p>\n<p><strong>QUEM \u00c9 LEANDRO GRILO?<\/strong><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo o nome da pessoa que teria vendido cerca de 5.100 hectares de terra para o m\u00e9dico hematologista Leandro Grilo. A advogada dos pequenos agricultores, Liliane Campos, obteve a informa\u00e7\u00e3o que foi uma pessoa identificada como Carlos da Silva, desconhecido na regi\u00e3o, e que se tornou s\u00f3cio de Grilo em seguida.<\/p>\n<p>Liliane observa que o cart\u00f3rio da cidade instaurou um procedimento de d\u00favida (2000198\/43.2018) porque outra pessoa, Eduardo Vieira Rios, pediu a transfer\u00eancia da mesma propriedade de Santa Maria da Vit\u00f3ria para Correntina. Rios \u00e9 minerador em Santa Maria da Vit\u00f3ria, foi corretor de im\u00f3veis e candidato a vereador, em 2016, em S\u00e3o F\u00e9lix do Coribe.<\/p>\n<p>\u201cO caso foi arquivado porque as partes fizeram um suposto acordo. No entanto, a instala\u00e7\u00e3o do procedimento por si s\u00f3 representa o quanto h\u00e1 de duvidoso nessa documenta\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 diz Liliane<\/p>\n<p>O m\u00e9dico-empres\u00e1rio Leandro Grilo est\u00e1 registrado no Conselho Regional de Medicina de S\u00e3o Paulo desde 1977. Em 1996, se inscreveu em Goi\u00e1s, mas depois cancelou o registro, mantendo apenas a primeira licen\u00e7a.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/Leandro_Grilo.png\" alt=\"Leandro Grilo\" width=\"920\" height=\"636\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 920px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 920\/636;\" \/><\/p>\n<p><em>Leandro Grilo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Levantamento feito por <strong>Meus Sert\u00f5es<\/strong> atrav\u00e9s de ferramenta gr\u00e1fica de software livre para verifica\u00e7\u00f5es cruzadas e investiga\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas de dados CruzaGrafos, no site da Receita Federal e outras fontes, revela que o hematologista \u00e9 dono e\/ou s\u00f3cio de 13 empresas matrizes e nove filiais nos estados da Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, S\u00e3o Paulo e Tocantins.<\/p>\n<p>S\u00e3o elas:<\/p>\n<ol>\n<li aria-level=\"1\">Agropecu\u00e1ria Vereda do Rancho Correntina, no Povoado de Catol\u00e9s, Correntina (BA)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">SPI &#8211; Sociedade Pousoalegrense de Investimentos e Constru\u00e7\u00e3o Civil Ltda, em Pouso Alegre (MG).<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Hope MG Administra\u00e7\u00e3o de Bens, em Pouso Alegre (MG)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Buriti Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio de Peixes, no assentamento Paulo Freire, em Dois Irm\u00e3os dos Buritis (MS)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Grilo Empreendimentos e Participa\u00e7\u00f5es, sediada em Cambu\u00ed, Campinas (SP).<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Hope Administradora de Bens Pr\u00f3prios (Cl\u00ednica Hope), em Cambu\u00ed, Campinas (SP)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Hirondelle Hotel e Conven\u00e7\u00f5es, em Cambu\u00ed, Campinas (SP). Possui 20 andares e 80 quartos.<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Centro de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular. Tem sede na Vila Industrial e filial na Cidade Universit\u00e1ria, Campinas (SP)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Hemoterapia Ltda. Possui sede no bairro Guanabara, em Campinas (SP) e oito filiais em Cambu\u00ed, Ipaussurama, Jardim Yeda e Ponte Preta, em Campinas (SP); Cidade Nova, Valinhos (SP); Parque Cidade Nova, Mogi Gua\u00e7u (SP); Santa Rosa, Vinhedo (SP); e Lagoa Seca, em Santa B\u00e1rbara d\u2019 Oeste (SP). A filial do bairro Cidade Universit\u00e1ria, tamb\u00e9m em Campinas, foi desativada.<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Associa\u00e7\u00e3o Civil Jardim Europa, em Ribeir\u00e3o Preto (SP)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Medicina Transfusional e Medicina Celular, em Cambu\u00ed, Campinas (SP)<\/li>\n<li aria-level=\"1\">LCG Agropecu\u00e1ria (Fazenda Santa Maria), em Ja\u00fa do Tocantins (TO). Um de seus s\u00f3cios no empreendimento \u00e9 Walter Caetano, o mesmo que visitou as terras de Correntina no dia do bloqueio.<\/li>\n<li aria-level=\"1\">Agropecu\u00e1ria Rio Bonito 02, em Concei\u00e7\u00e3o do Tocantins (TO).<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>BOLETIM DE OCORR\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro encontro entre D2(*), outro posseiro apontado por C\u00f4nsul como um dos participantes do bloqueio \u00e0 fazenda, aconteceu em 26 de janeiro de 2019, seis meses antes dos fecheiros pedirem para que fosse mantida a solta do gado em Catol\u00e9s. De acordo com o pequeno criador de gado, lavrador e raizeiro, o m\u00e9dico lhe agrediu verbalmente quando ele recusou proposta para vender a propriedade na qual sua fam\u00edlia vive h\u00e1 mais de 100 anos. O av\u00f4 e o pai do fecheiro est\u00e3o sepultados na propriedade.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o conhecia esse homem. Ele chegou em minha casa, acompanhado de C\u00f4nsul e mais dois indiv\u00edduos desconhecidos. Como n\u00e3o quis vender minha \u00e1rea, o m\u00e9dico disse que me levaria, assim como os outros moradores que n\u00e3o concordassem em vender as terras para ele, \u201cde foguete para a lua\u201d. Para mim foi uma amea\u00e7a de morte. Ele tinha oferecido dinheiro e um loteamento em outro local, mas falei que tinha documenta\u00e7\u00e3o de propriedade e n\u00e3o faria neg\u00f3cio\u201d \u2013 conta o fecheiro, que registrou boletim de ocorr\u00eancia na delegacia.<\/p>\n<p>D2 explicou o motivo da solta do gado: quando vem a \u00e9poca de chuva os pastos dos posseiros est\u00e3o exauridos. Ent\u00e3o \u00e9 preciso levar os animais para os \u201cgerais\u201d enquanto o capim cresce nas pequenas propriedades. Normalmente, os animais s\u00e3o trazidos de volta ap\u00f3s dois ou tr\u00eas meses. Quanto aos grileiros, acrescenta que pensam que por ser uma regi\u00e3o de pessoas pobres, muitas vezes sem conhecimento e desprotegida das leis, podem manipular as autoridades e tomar as propriedades, utilizando documenta\u00e7\u00e3o falsa.<\/p>\n<p>\u201cEles s\u00e3o bandidos. Querem tomar o que restou das terras nativas e preservadas. Eu vou fazer aqui uma coloca\u00e7\u00e3o: \u00e9 como se aqui fosse uma cascalheira para tirar o ouro. Eles pegam o ouro e deixam o cascalho. Eles querem pegar dinheiro p\u00fablico, secar as nascentes, jogar veneno nas nossas \u00e1guas e destruir vida. Querem acabar com a renda do povo, que \u00e9 o gado. Por onde passam \u00e9 s\u00f3 destrui\u00e7\u00e3o. Eles matam os minadouros para tirar o interesse da gente permanecer aqui\u201d, explica.<\/p>\n<p>Perguntado sobre como os fecheiros conseguem dormir diante das amea\u00e7as e das retalia\u00e7\u00f5es, a resposta \u00e9 imediata:<\/p>\n<p>\u201cAcredito que s\u00f3 com rem\u00e9dios\u201d<\/p>\n<p>D3 (*), vizinho do criador e raizeiro, denuncia que desde setembro do ano passado, diante da iminente derrota de Jair Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, a a\u00e7\u00e3o de pistoleiros e grileiros se intensificou na regi\u00e3o. Ele relata que os marginais bloqueiam os acessos aos fechos e n\u00e3o permitem a passagem dos bois. Muitas vezes d\u00e3o tiros e mandam os pequenos criadores voltarem sem os animais.<\/p>\n<p>\u201cQuando levo o gado para os fechos minha mulher e minhas filhas ficam preocupadas e com dores de cabe\u00e7a porque sabem que a gente vai se deparar com esse povo. Minha fam\u00edlia teve na base de 50 animas, hoje s\u00f3 temos 15. Muita gente desistiu das cria\u00e7\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<p>Apesar da press\u00e3o dos latifundi\u00e1rios, o pequeno criador tem esperan\u00e7a de que um dia Catol\u00e9s passe a viver em paz. H\u00e1 tempos, ele deixa o local para trabalhar na safrinha do milho e soja, em Goi\u00e1s. L\u00e1, ganha o suficiente para manter a fam\u00edlia, sem correr o risco de ser tocaiado por pistoleiros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/A_solta_do_gado_no_fecho_e\u0301_feita_tradicionalmente_no_peri\u0301odo_da_seca._Foto-_Thomas_Bauer_-_H3000-CPT-BA.jpg\" alt=\"A solta do gado no fecho e\u0301 feita tradicionalmente no peri\u0301odo da seca. Foto Thomas Bauer H3000 CPT BA\" width=\"1920\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p><em>A solta do gado no fecho e\u0301 feita, tradicionalmente, no peri\u0301odo da seca. Foto: Thomas Bauer\/H3000\/CPT-BA<\/em><\/p>\n<p><strong>LIMINAR NEGADA<\/strong><\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de interdito proibit\u00f3rio foi ajuizada pela empresa de Grilo em agosto de 2019. Nela, o latifundi\u00e1rio acusa oito agricultores e pequenos criadores de gado \u2013 dois deles faleceram durante o processo: A1 e J1 (*) &#8211; de amea\u00e7arem invadir a fazenda Vereda do Rancho para fazer a solta do gado. Diz ainda que o grupo manteve ele e cinco acompanhantes, incluindo Walter Caetano, seu s\u00f3cio em outro empreendimento; o \u201cgerente\u201d Raimundo Ferreira, o C\u00f4nsul; e Hugo de Lorenzo Porto, que transportou o grupo que planeja construir um criat\u00f3rio de peixes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na inicial, a narrativa \u00e9 que os fecheiros usavam armas brancas e estavam propensos a um ato de viol\u00eancia. E que havia outras pessoas n\u00e3o identificadas com o mesmo objetivo. Diante disso, os advogados solicitam que seja concedido liminarmente uma pena pecuni\u00e1ria no valor de R$ 5 mil por dia, caso o preceito proibit\u00f3rio n\u00e3o seja cumprido.<\/p>\n<p>Na audi\u00eancia marcada a seguir foram ouvidas duas testemunhas do empres\u00e1rio. O primeiro, Hugo de Lorenzo, dono da empresa Lorenzo Florestal, que atua no cultivo de eucalipto e na extra\u00e7\u00e3o de madeiras em florestas plantadas. Hugo, responde ao processo 02029.001671\/2018-32 no Ibama por desmatamento. Segundo consta no documento, ele cometeu infra\u00e7\u00e3o administrativa ambiental, pass\u00edvel de multa e embargo de obra, al\u00e9m de infringir o artigo 52 do decreto 6.514, de 22 de julho de 2008, por \u201cdesmatar, a corte raso, florestas ou demais forma\u00e7\u00f5es nativas, fora da reserva legal, sem autoriza\u00e7\u00e3o\u201d. A penalidade no caso \u00e9 multa de R$ 1 mil reais por hectare. Foi aplicada san\u00e7\u00e3o de R$ 71 mil reais no total.<\/p>\n<p>O ex-servidor p\u00fablico de Goi\u00e1s, agora empres\u00e1rio residente em Tocantins, declarou que presta servi\u00e7os e tem v\u00ednculo de parentesco com Walter Caetano, e que levou o grupo de Leandro Grilo at\u00e9 Correntina em seu carro. Hugo falou que n\u00e3o h\u00e1 benfeitorias na terra em lit\u00edgio, apenas vegeta\u00e7\u00e3o nativa, e que desconhece quem seria o dono anterior da propriedade.<\/p>\n<p>Em seguida, foi a vez de Raimundo Ferreira, o C\u00f4nsul, testemunhar. Ele disse que os acusados moram com as fam\u00edlias na regi\u00e3o, criam gado e plantam arroz, milho e feij\u00e3o. Confirmou que antes da chegada de Grilo, o local era usado para solta de gado em \u00e1rea equivalente a cerca de 4% da fazenda Vereda do Rancho. Acrescentou que o presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Fecho de Pasto de Catol\u00e9s pacificou a discuss\u00e3o que houve entre os posseiros e o grupo do latifundi\u00e1rio, que tinha conhecimento de que a \u00e1rea em disputa pertenceria ao estado da Bahia.<\/p>\n<p>Em decis\u00e3o publicada no Di\u00e1rio Oficial do dia 23 de mar\u00e7o de 2023, o juiz Matheus Agenor Alves Santos, da 1\u00aa Vara dos Feitos Relativos \u00e0s Rela\u00e7\u00f5es de Consumo, C\u00edveis, Comerciais de Correntina, indeferiu a liminar pedida por Grilo, por n\u00e3o estarem presentes na a\u00e7\u00e3o os requisitos descritos no artigo 561 do C\u00f3digo de Processo Civil. Ou seja, a parte autora deveria provar a sua posse, a turba\u00e7\u00e3o <a href=\"#heading=h.2et92p0\">[5]<\/a> ou esbulho <a href=\"#heading=h.tyjcwt\">[6]<\/a> praticado pelos r\u00e9us; a data da turba\u00e7\u00e3o ou esbulho; a continua\u00e7\u00e3o da posse ou a perda dela.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise dos autos, o juiz assinala que \u201ca pr\u00f3pria prova no que se refere ao atentado \u00e0 posse n\u00e3o \u00e9 robusta\u201d. Al\u00e9m disso, diz n\u00e3o ter vislumbrado a presen\u00e7a da amea\u00e7a atual, uma vez que foi informado que os fecheiros j\u00e1 estavam na localidade e exerciam posse pret\u00e9rita para solta de gado no local, conforme afirmaram as testemunhas do empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>A partir da decis\u00e3o, concedeu \u00e0 defesa dos r\u00e9us 15 dias para apresentar contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de mais 15 dias para Grilo informar se quer produzir outras provas ou se deseja o julgamento antecipado da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E AGORA?<\/strong><\/p>\n<p>A advogada Liliane Campos, defensora dos integrantes do Fecho Catol\u00e9s, antecipou que ir\u00e1 apontar na contesta\u00e7\u00e3o as fragilidades testemunhais e documentais, sobretudo as contidas na certid\u00e3o de im\u00f3vel confeccionada pelo cart\u00f3rio, al\u00e9m de refor\u00e7ar que os fecheiros possuem posse tradicional, secular, reconhecida pela Secretaria Estadual de Promo\u00e7\u00e3o e Igualdade Racial. O entendimento \u00e9 que a posse prevalece sobre a propriedade e que a Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho garante o direito das comunidades tradicionais permanecerem em seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>De acordo Liliane, h\u00e1 s\u00e9rios e fortes ind\u00edcios de grilagem de terras p\u00fablicas tradicionalmente ocupadas pelos fecheiros, sendo que o lit\u00edgio atual atinge tamb\u00e9m a comunidade de Brejo Verde. Existe ainda a possibilidade de outras oito coletividades&nbsp;\u2013 Arrojado do Grilo, Grilo, Jatob\u00e1, Barra das Lajes, Buriti, Busca Vida, Bom Sucesso e Vereda Seca \u2013 do cont\u00edguo Fecho de Tarto terem sido prejudicadas.<\/p>\n<p>_____________________________________________<\/p>\n<p><em>1- Em \u201cFundos e Fechos de Pasto: territorialidades espec\u00edficas, lutas e alguns desafios\u201d, o engenheiro agr\u00f4nomo e doutor em antropologia Franklin Plessmann de Carvalho explica que nos fundos de pasto os animais circulam livremente e as fam\u00edlias s\u00f3 cercam as \u00e1reas nas quais os animais n\u00e3o devem entrar: planta\u00e7\u00f5es, quintais, certas aguadas ou junto a unidades residenciais. Os espa\u00e7os livres s\u00e3o considerados \u00e1reas comuns.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 os fechos de pasto possuem a casa, o quintal, a ro\u00e7a e o local de pastagem s\u00e3o cont\u00ednuos, organizados a partir de um canal de \u00e1gua retirado de um rio. Mais afastado das casas est\u00e1 a \u00e1rea de uso comum, chamada de \u201cgerais\u201d. Elas s\u00e3o ricas em frutos, plantas medicinais, aguadas e madeiras, a cria\u00e7\u00e3o, basicamente bovina, \u00e9 solta em determinadas \u00e9pocas do ano. Em ambos os casos, os posseiros cercaram os limites para proteger a terra contra a a\u00e7\u00e3o de grileiros, iniciada nos anos 1970. Essas pessoas possuem bom relacionamento com autoridades que legitimavam suas a\u00e7\u00f5es, permitindo que terras alheias sejam apossadas, mediante falsas escrituras de propriedade.<\/em><\/p>\n<p><em>Em Correntina, os \u201cgerais\u201d foram sendo fragmentados em v\u00e1rios fechos. Atualmente o uso comum se estabelece na \u00e1rea destinada \u00e0s associa\u00e7\u00f5es de fecheiros. Dispon\u00edvel em <\/em><a href=\"https:\/\/geografar.ufba.br\/sites\/geografar.ufba.br\/files\/2016_carvalho.pdf\"><em><\/em><\/a><em><a href=\"https:\/\/geografar.ufba.br\/sites\/geografar.ufba.br\/files\/2016_carvalho.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/geografar.ufba.br\/sites\/geografar.ufba.br\/files\/2016_carvalho.pdf<\/a><\/em><em>. Consultado em 03\/04\/2023.<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 a cartilha &#8220;Comunidade tradicionais de fechos de pasto e seu modo pr\u00f3prio de conviv\u00eancia com o Cerrado: hist\u00f3ria, direitos e desafios&#8221;, elaborada pela associa\u00e7\u00e3o dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto do Clemente (ACCFC), acrescenta que os seus integrantes agregam em seu modo secular de produ\u00e7\u00e3o e de vida o uso de terras comunais, coletivas, para cria\u00e7\u00e3o de gado bovino e extrativismo de plantas medicinais e aliment\u00edcias.&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Na forma\u00e7\u00e3o desses grupos de camponeses tradicionais, localizados nas barrancas dos rios e riachos, nos &#8220;gerais&#8221;, principalmente no bioma Cerrado, alguns dos seus moradores trabalhavam na lida do gado dos coron\u00e9is. Com o fim do deste ciclo econ\u00f4mico, eles foram formando seus pr\u00f3prios rebanhos e dos demais componentes do grupo. Os bovinos se adaptaram \u00e0 regi\u00e3o e em algumas d\u00e9cadas ganharam dimens\u00e3o., enquanto as pequenas cria\u00e7\u00f5es de outros animais desapareceram completamente das \u00e1reas de cria\u00e7\u00e3o coletiva.&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Vale ressaltar que a cria\u00e7\u00e3o de gado n\u00e3o se inicia pelas comunidades, mas que elas se apropriaram da atividade fazendo o enfrentamento aos coron\u00e9is desenvolvendo os seus rebanhos pr\u00f3prios (&#8230;). Dispon\u00edvel em <\/em><a href=\"http:\/\/www.ispn.org.br\/arquivos\/cartilha-fecho-de-pasto-WEB.pdf\"><em><\/em><\/a><em><a href=\"http:\/\/www.ispn.org.br\/arquivos\/cartilha-fecho-de-pasto-WEB.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.ispn.org.br\/arquivos\/cartilha-fecho-de-pasto-WEB.pdf<\/a><\/em><em> &nbsp;Acesso em 23 de janeiro de 2023.<\/em><\/p>\n<p><em>2- Carcinicultura \u00e9 a t\u00e9cnica de camar\u00f5es em cativeiro. Segundo o Instituto de Ci\u00eancias do Mar, da Universidade Federal do Cear\u00e1, O tema carcinicultura tem suscitado controvertidos debates entre ambientalistas e a classe produtora. Como principiais danos, a carcinicultura pode causar a destrui\u00e7\u00e3o de manguezais, saliniza\u00e7\u00e3o de aqu\u00edferos, polui\u00e7\u00e3o das \u00e1reas adjacentes pelos efluentes das fazendas, perda da biodiversidade durante a coleta de p\u00f3s-larvas e escape de esp\u00e9cies ex\u00f3ticas para o ambiente natural. Todos estes pontos podem ser mitigados, mas dependem de investimentos. <\/em><a href=\"http:\/\/www.periodicos.ufc.br\/arquivosdecienciadomar\/article\/view\/6487\"><em><\/em><\/a><em><a href=\"http:\/\/www.periodicos.ufc.br\/arquivosdecienciadomar\/article\/view\/6487\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.periodicos.ufc.br\/arquivosdecienciadomar\/article\/view\/6487<\/a><\/em><em> Consultado em 03\/04\/2023, \u00e0s 7h08min.<\/em><\/p>\n<p><em>3 &#8211; A a\u00e7\u00e3o de interdito proibit\u00f3rio destina-se \u00e0 prote\u00e7\u00e3o preventiva da posse que se acha imin\u00eancia, ou sob amea\u00e7a<\/em><\/p>\n<p><em>4 &#8211; Iniciais associadas a um n\u00famero aleat\u00f3rio para preservar a seguran\u00e7a dos integrantes das comunidades de Fecho de Pasto<\/em><\/p>\n<p><em>5- Ato que impede o livre exerc\u00edcio da posse sem que o leg\u00edtimo possuidor a perca integralmente<\/em><\/p>\n<p><em>6 &#8211; Esbulho significa retirar de uma pessoa algo que est\u00e1 em sua posse ou \u00e9 sua propriedade. A express\u00e3o \u00e9 muito usada na \u00e1rea jur\u00eddica e se refere \u00e0 retirada de um bem de algu\u00e9m, como um im\u00f3vel ou uma propriedade rural. O esbulho pode acontecer de maneira clandestina (sem que o propriet\u00e1rio ou possuidor perceba), por abuso de confian\u00e7a ou de forma violenta.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Leia a s\u00e9rie completa:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/11\/10\/pistoleiros-aterrorizam-fecheiros-de-correntina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Pistoleiros aterrorizam fecheiros de Correntina<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/11\/10\/estado-demora-a-tomar-providencias-e-agrava-conflitos-no-oeste-baiano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Estado demora a tomar provid\u00eancias e agrava conflitos no oeste da Bahia<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/tribunaldocerrado.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/TPP_Senteca_Final_Cerrado_29_9_22.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Senten\u00e7a e recomenda\u00e7\u00f5es do Tribunal Permanente dos Povos (TPP)<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/11\/11\/disputa-por-area-preservada-no-cerrado-se-arrasta-na-justica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Disputa por \u00e1rea preservada no cerrado se arrasta na Justi\u00e7a<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2022\/12\/27\/maguila-nao-tenho-forca-para-enfrentar-o-poder-do-agronegocio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Maguila:\u2019N\u00e3o tenho for\u00e7a para enfrentar o poder do agroneg\u00f3cio\u2019<\/strong><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><em>(**) Mat\u00e9ria feita por <a href=\"https:\/\/www.meussertoes.com.br\/2023\/04\/11\/catoles-o-paraiso-ameacado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Sert\u00f5es<\/a> em parceria com a CPT-BA<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea deixaria o agroneg\u00f3cio tomar as terras que sua fam\u00edlia ocupa h\u00e1 mais de um s\u00e9culo? Paulo Oliveira e Thomas Bauer (**) Os catol\u00e9s ou cocos-bab\u00f5es s\u00e3o pequenos frutos comest\u00edveis de palmeiras do g\u00eanero Syagrus. Eles nascem em cachos com cerca de 50 unidades, t\u00eam polpa amarela e adocicada. Os coquinhos tamb\u00e9m emprestam o nome [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-6310","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6310","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6310"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6310\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}