{"id":6375,"date":"2025-11-19T21:48:21","date_gmt":"2025-11-20T00:48:21","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/bahia-tem-a-maior-taxa-de-desmatamento-do-cerrado-aponta-relatorio-inedito\/"},"modified":"2025-11-19T21:48:21","modified_gmt":"2025-11-20T00:48:21","slug":"bahia-tem-a-maior-taxa-de-desmatamento-do-cerrado-aponta-relatorio-inedito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/bahia-tem-a-maior-taxa-de-desmatamento-do-cerrado-aponta-relatorio-inedito\/","title":{"rendered":"Bahia tem a maior taxa de desmatamento do Cerrado, aponta relat\u00f3rio in\u00e9dito"},"content":{"rendered":"<p><em>Agroneg\u00f3cio estimula a grilagem de terras, o desmatamento e a viol\u00eancia contra comunidades rurais no Oeste da Bahia<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Por Paulo Oliveira (Meus Sert\u00f5es) e Thomas Bauer (CPT-BA e H-3000)&nbsp;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Relat\u00f3rio produzido pela Rede Social de Justi\u00e7a e Direitos Humanos <a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftn1\">[1]<\/a>, Amigos da Terra<a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftn2\"> [2]<\/a> e ActionAid <a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftn3\">[3]<\/a> revela como empresas financeiras e do agroneg\u00f3cio especulam com terras agr\u00edcolas e estimulam destrui\u00e7\u00e3o ambiental no Cerrado. A publica\u00e7\u00e3o \u201cEspecula\u00e7\u00e3o financeira e impactos socioambientais do agroneg\u00f3cio no Cerrado da Bahia\u201d detalha casos de viola\u00e7\u00e3o de direitos territoriais de comunidades rurais e impactos ambientais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/social.org.br\/documento\/especulacao-financeira-e-impactos-socioambientais-do-agronegocio-no-cerrado-da-bahia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Clique aqui para acessar o Relat\u00f3rio na \u00edntegra.<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O estado da Bahia registra a maior taxa de desmatamento, principalmente, pela expans\u00e3o de monocultivos de soja. O Cerrado abriga 5% da biodiversidade de esp\u00e9cies vegetais e animais do mundo e representa uma fonte crucial de \u00e1gua para todo o continente. A preserva\u00e7\u00e3o do bioma \u00e9 fundamental para evitar os efeitos da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os respons\u00e1veis pelo trabalho investigaram grilagem de terras, especula\u00e7\u00e3o financeira e destrui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>\u201cO relat\u00f3rio mostra como as corpora\u00e7\u00f5es financeiras ligadas ao agroneg\u00f3cio est\u00e3o destruindo o Cerrado\u201d \u2013 declarou Fabio Pitta, coordenador da Rede Social de Justi\u00e7a e Direitos Humanos.<\/p>\n<p>O levantamento se baseia na an\u00e1lise da atua\u00e7\u00e3o da Radar, empresa constitu\u00edda a partir de um acordo firmado entre a Cosan S.A e o fundo de pens\u00e3o norte-americano TIAA (Teachers Insurance Annuity Association), investidor, s\u00f3cio e parceiro estrat\u00e9gico do conglomerado brasileiro.<\/p>\n<p>A Radar foi uma das primeiras a atuar com especula\u00e7\u00e3o de terras no meio rural no Brasil. Outra empresa pesquisada foi a SLC, parceira da Radar Propriedades Agr\u00edcolas S.A. Ela \u00e9 apresentada no site da Cosan como \u201crefer\u00eancia em gest\u00e3o de propriedades agr\u00edcolas (\u2026) com alto potencial de valoriza\u00e7\u00e3o, compreendendo cerca de 306 mil hectares estrategicamente posicionados em oito estados brasileiros\u201d.<\/p>\n<p>Na Bahia, o levantamento ocorreu nas cidades de Formosa do Rio Preto e Correntina. O trabalho abrangeu a Radar, SLC Agr\u00edcola <a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftn4\">[4]<\/a>, SLC LandCo, a SLC-MIT, Bunge, Cargill, ADM, Mitsui &amp; Co e AZL Gr\u00e3os (uma joint venture entre Amaggi, Louis Dreyfus Company\/LDC e a subsidi\u00e1ria brasileira do grupo japon\u00eas Zen-Noh Grain).<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia do avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio em terras do oeste baiano, segundo o IBGE, entre 2004 e 2022, a \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o de soja pulou de 98.325 para 193.100 hectares, em Correntina; e de 95.266 para 427.500, em Formosa do Rio Preto. Um crescimento de 195% e 448%, respectivamente.<\/p>\n<p>No relat\u00f3rio da Rede, Amigos da Terra e Action Aid constam recomenda\u00e7\u00f5es para que as empresas abandonem as pr\u00e1ticas destrutivas. Elas incluem a suspens\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es especulativas em terras agr\u00edcolas, a paralisa\u00e7\u00e3o definitiva do desmatamento no Cerrado, o respeito ao direito \u00e0 terra das comunidades rurais e o pagamento de indeniza\u00e7\u00f5es por grilagem e destrui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>\u201cO agro \u00e9 a principal causa da destrui\u00e7\u00e3o de florestas no Sul Global. Empresas financeiras internacionais estimulam esta destrui\u00e7\u00e3o. Isso significa grilagem e ecoc\u00eddio\u201d \u2013 disse Jeff Conant, da ONG Amigos da Terra.<\/p>\n<p><strong>GRILAGEM E DANOS<\/strong><\/p>\n<p>O Cerrado baiano \u00e9 habitado tradicionalmente por comunidades rurais. Esse territ\u00f3rio virou alvo de grileiros a partir da d\u00e9cada de 1960. Nos \u00faltimos anos, empresas do agroneg\u00f3cio se instalaram na regi\u00e3o conhecida como Matopiba (Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia), ampliando as consequ\u00eancias desastrosas.<\/p>\n<p>A Rede Social de Justi\u00e7a e Direitos Humanos publica uma s\u00e9rie de relat\u00f3rios sobre os neg\u00f3cios de empresas nacionais e transnacionais, financeiras e imobili\u00e1rias agr\u00edcolas, localizadas na regi\u00e3o de expans\u00e3o da soja, desde 2011. Tr\u00eas das maiores comercializadoras de commodities est\u00e3o instaladas na regi\u00e3o: Bunge, Cargill e ADM.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/creditoThomasB.png\" alt=\"creditoThomasB.png\" width=\"557\" height=\"411\" style=\"--smush-placeholder-width: 557px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 557\/411;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ranchos e benfeitorias foram destru\u00eddas por pistoleiros. Foto: Arquivo da Associa\u00e7\u00e3o de Fundo e Fecho de Pasto&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>A Cosan \u00e9 um conglomerado que atua como uma holding de investimentos em empresas nos setores de energia, \u00f3leo e g\u00e1s natural, lubrificantes, gest\u00e3o de terras agr\u00edcolas, minera\u00e7\u00e3o e log\u00edstica. Entre 2009 e 2010, ela foi inclu\u00edda na lista de empresas que exploravam o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o em usinas de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Fiscais do Minist\u00e9rio do Trabalho encontraram 42 trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, em Igarapava, S\u00e3o Paulo. O epis\u00f3dio causou a queda nas a\u00e7\u00f5es da empresa e a suspens\u00e3o de financiamentos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).<\/p>\n<p>A empresa conseguiu sair da \u201clista suja do trabalho escravo\u201d ao obter uma liminar na justi\u00e7a. Depois, fechou um acordo com o governo federal para aprimorar o sistema de fiscaliza\u00e7\u00e3o interna e se submeter a controles externos.<\/p>\n<p>Em 2017, a Rumo Log\u00edstica, do grupo Cosan, foi condenada por trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o. Na primeira vez, pagou 15 milh\u00f5es por danos morais coletivos, em fun\u00e7\u00e3o de obrigar motoristas de caminh\u00e3o a trabalharem 34 horas seguidas, de acordo com o Minist\u00e9rio do Trabalho, em Campinas (SP).<\/p>\n<p>A TIAA (Associa\u00e7\u00e3o de Seguros para Professores da Am\u00e9rica) \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os financeiros, que oferece aposentadoria para funcion\u00e1rios da \u00e1rea acad\u00eamica, cient\u00edfica, m\u00e9dica, cultural e governamental. Ela atende mais de 5 milh\u00f5es de funcion\u00e1rios de 15 mil institui\u00e7\u00f5es. Tem investimentos de um trilh\u00e3o de d\u00f3lares em 50 pa\u00edses e \u00e9 a 98\u00aa maior empresa do EUA por receita.<\/p>\n<p>O fundo de pens\u00e3o, segundo dados de 2017, \u00e9 a maior investidora global em agricultura, a segunda maior produtora de vin\u00edferas nos Estados Unidos e a terceira maior administradora de im\u00f3veis comerciais do mundo.<\/p>\n<p>Em 19 de outubro de 2022, clientes da organiza\u00e7\u00e3o apresentaram queixa, baseados nos Princ\u00edpios para o Investimento Respons\u00e1vel (PRI), apoiado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Eles solicitaram a retirada da TIAA da lista de investidores sustent\u00e1veis porque ela \u00e9 uma das maiores investidoras em combust\u00edveis f\u00f3sseis e a quinta maior detentora de t\u00edtulos de carv\u00e3o do mundo. A PRI rejeitou a queixa.<\/p>\n<p><strong>IMPACTOS NO OESTE&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p>A expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio no Cerrado, de acordo com o relat\u00f3rio, est\u00e1 associada \u00e0 especula\u00e7\u00e3o com terras agr\u00edcolas, fomentadas pelas empresas financeiras transnacionais e firmas de comercializa\u00e7\u00e3o articuladas com grileiros da regi\u00e3o. Comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto, geraizeiras e brejeiras t\u00eam sido as mais atingidas.<\/p>\n<p>Relatos e boletins de ocorr\u00eancia d\u00e3o conta que os moradores s\u00e3o expulsos das \u00e1reas comuns e denunciaram casos de viol\u00eancia de fazendeiros que buscam tomar suas terras. A apropria\u00e7\u00e3o de terras pelo agroneg\u00f3cio est\u00e1 relacionada ao desmatamento, \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos, a amea\u00e7as e ataques contra a comunidades, usando pistoleiros e milicianos armados. O relat\u00f3rio chega a citar a mat\u00e9ria \u201cPistoleiros abrem fogo contra fecheiros e ferem tr\u00eas\u201d, publicada em Meus Sert\u00f5es, no dia 11 de abril de 2023.<\/p>\n<p>Apesar de as informa\u00e7\u00f5es terem sido confirmadas por v\u00e1rias fontes, o governo da Bahia concedeu outorgas de milhares de metros c\u00fabicos de \u00e1gua para os fazendeiros do agroneg\u00f3cio atrav\u00e9s do Instituto do Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (Inema). O \u00f3rg\u00e3o foi recentemente citado na opera\u00e7\u00e3o Ceres do Minist\u00e9rio P\u00fablico, que tornou r\u00e9us oito pessoas que integravam um esquema de fraude em licen\u00e7as ambientais no oeste baiano,<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a morosidade do estado em proteger o territ\u00f3rio das comunidades tradicionais contribui para a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos e para a destrui\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"images\/noticias\/destaque-FORMOSA-05.png\" alt=\"destaque FORMOSA 05\" width=\"961\" height=\"541\" style=\"--smush-placeholder-width: 961px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 961\/541;display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Picape que transportava geraizeiros foi atingida por tiros disparados por pistoleiros. Foto cedida pela comunidade&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio cita o depoimento de Elisete (nome fict\u00edcio por quest\u00f5es de seguran\u00e7a), da localidade de Brej\u00e3o, em Formosa do Rio Preto. Segundo ela, fazendeiros se apropriam de terras e fontes de \u00e1gua para utilizar em piv\u00f4s de \u00e1gua e perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os. A a\u00e7\u00e3o diminui a vaz\u00e3o do rio Sap\u00e3o, que abastece a comunidade. Al\u00e9m disso, rios menores secaram e o agrot\u00f3xico contamina as \u00e1guas, plantas e alimentos cultivados pelos fecheiros.<\/p>\n<p>Elisete e a m\u00e3e dela s\u00e3o artes\u00e3s e trabalham com buriti e capim dourado. Como consequ\u00eancia das a\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias secou boa parte do brejo, inutilizou \u00e1rvores e as plantas utilizadas no trabalho delas. A trabalhadora rural conta ainda que em 2022 houve um grande desmatamento na regi\u00e3o. E, no ano seguinte, a irriga\u00e7\u00e3o de soja, na Serra de Coaceral, em Formosa do Rio Preto, deixou o rio Sap\u00e3o e Sassafr\u00e1s turvo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia da agricultora sempre viveu ali. H\u00e1 alguns anos, ela sofre amea\u00e7as de grileiros e empresas de agroneg\u00f3cio, que tentam usar o local como reserva legal. A legisla\u00e7\u00e3o ambiental prev\u00ea que os im\u00f3veis rurais devem manter mata nativa equivalente a 35% da \u00e1rea das propriedades. O texto da lei, por press\u00e3o da bancada do agroneg\u00f3cio, permite que a \u00e1rea preservada possa estar em qualquer outra propriedade, sem a necessidade de ser nas fazendas de soja, algod\u00e3o e milho, onde a vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente desmatada. Da\u00ed o ataque aos fecheiros que mant\u00e9m as \u00e1reas intactas h\u00e1 dois s\u00e9culos .<\/p>\n<p>Embora Elisete e os parentes tenham colocado um grupo de grileiros para correr, ela admite viver com medo constante porque mais de uma vez apareceram pessoas estranhas. Os pistoleiros disseram para ela ir embora porque a terra pertencia a eles. A trabalhadora rural, por\u00e9m, permanece no local.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio revela ainda que duas comunidades em Formosa do Rio Preto, Mato Grosso e S\u00e3o Marcelo, moradores tamb\u00e9m denunciam contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, diminui\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o dos rios e amea\u00e7as <a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/2021\/09\/08\/posseiros-pedem-punicao-para-fazendeiros-apos-atentado-em-formosa-do-rio-preto\/\">(clique aqui para ver reportagem publicada em 2021, em Meus Sert\u00f5es \u2013 \u201cPosseiros pedem puni\u00e7\u00e3o para fazendeiros ap\u00f3s atentado em Formosa do Rio Preto)<\/a> . Os dois locais foram atingidos pela grilagem feita pela Canabrava Agropecu\u00e1ria, cuja fazenda Santa Maria consta no Livro Branco da Grilagem do Incra (1999), com 139 mil hectares de terras devolutas tomadas de forma ilegal.<\/p>\n<p>Fecheiros de Mato Grosso contam que a chapada, usada como \u00e1rea comum de pastoreio, foi invadida pela soja do agroneg\u00f3cio. Embora isso tenha causado a redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas para as cria\u00e7\u00f5es, as veredas tamb\u00e9m se transformaram em alvo de grilagem para v\u00e1rias fazendas interessadas em torn\u00e1-las reservas legais.<\/p>\n<p>A Canabrava tem sido acusada de contratar pistoleiros para expulsar as fam\u00edlias das comunidades tradicionais. A a\u00e7\u00e3o impede o acesso aos chapad\u00f5es, o que leva fam\u00edlias de fecheiros a passar necessidade, de acordo com o documento divulgado.<\/p>\n<p>Um dos moradores de Correntina explica com mais detalhes como se d\u00e1 o impacto no modo de vida das comunidades tradicionais:<\/p>\n<p>\u201cOs Gerais s\u00e3o chapad\u00f5es centrais. N\u00f3s chamamos o Cerrado de Gerais, que sempre foram espa\u00e7o de liberdade e de economia comunit\u00e1ria. Correntina tinha mais de 150 mil cabe\u00e7as de gado. Esse n\u00famero caiu para 30 mil porque as comunidades perderam territ\u00f3rios para os grileiros e para o agroneg\u00f3cio\u201d. Outra perda foi a produ\u00e7\u00e3o de pequi, de buriti e de caju. Os animais nativos (tatu, cutia, paca, anta, veado, ema, porco do mato, capivara, on\u00e7a) sumiram\u201d \u2013 revelou.<\/p>\n<p>Em Correntina, parcerias entre a SLC e Radar;&nbsp; e SLC e Mitsui (Xingu S.A) possuem reservas legais averbadas, de acordo com o relat\u00f3rio, sobre os Fechos Vereda da Felicidade e Cap\u00e3o do Modesto. Esse processo de ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas preservadas pelos povos tradicionais \u00e9 chamado de \u201cgrilagem verde\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o desmatamento do Cerrado avan\u00e7a. A derrubada da vegeta\u00e7\u00e3o na bacia do rio Corrente, entre 2001 e 2020 foi maior do que todo o estrago feito at\u00e9 o ano 2000, em fun\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do monocultivo de commodities,<\/p>\n<p><strong>DESTRUI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Em 2003, a destrui\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa, divulgada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), chegou a 11.011 quil\u00f4metros quadrados, um aumento de 3% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Entre os 11 estados por onde o Cerrado se distribui, a regi\u00e3o do Matopiba registrou 75% do total.<\/p>\n<p>O INPE divulgou ainda que entre 2001 e 2020, foram derrubados 26.956,23 quil\u00f4metros quadrados de vegeta\u00e7\u00e3o na Bahia. Em Correntina, a destrui\u00e7\u00e3o atingiu 3.178,25 km\u00b2 (12% do total); e em Formosa do Rio Preto, 5.565,14 km\u00b2 (12% do total).<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio das ONGs ressalta que o desmatamento ocorreu gra\u00e7as \u00e0 coniv\u00eancia do governo do estado. O fomento das derrubadas se deu atrav\u00e9s da concess\u00e3o de licen\u00e7as, sem se preocupar com os impactos socioambientais.<\/p>\n<p>No oeste da Bahia, as grilagens de terra tamb\u00e9m est\u00e3o associadas \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. As chapadas, onde os territ\u00f3rios s\u00e3o tomados, s\u00e3o as principais \u00e1reas de recarga do aqu\u00edfero Urucuia, um dos maiores do Brasil. Bilh\u00f5es de litros d\u2019\u00e1gua s\u00e3o captados diariamente pelo agroneg\u00f3cio em detrimento das comunidades ribeirinhas e camponesas. As licen\u00e7as, mesmo que a \u00e1gua n\u00e3o seja captada, servem para valorizar as fazendas<\/p>\n<p>Uma das outorgas investigadas pela Ag\u00eancia P\u00fablica de jornalismo investigativo foi concedida a Paulo Almeida Schmidt, que obteve autoriza\u00e7\u00e3o para captar 33,4 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua para a Fazenda Rio de Janeiro, em Barreiras. Paulo \u00e9 o primeiro vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Baiana dos Produtores de Algod\u00e3o (Abapa). Ele arrendou dez mil hectares da propriedade a uma subsidi\u00e1ria da Radar.<\/p>\n<p>Levando em conta que no Brasil uma pessoa utiliza 150 litros de \u00e1gua para atender as necessidades b\u00e1sicas de consumo e higiene, O volume previsto na outorga daria para abastecer uma cidade com cerca de 220 mil habitantes.<\/p>\n<p>Outro beneficiado pelo licenciamento do Instituto de Meio Ambiente e Recursos H\u00eddricos (Inema) foi o presidente da Abapa e conselheiro da Associa\u00e7\u00e3o de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Luiz Carlos Bergamaschi. A autoriza\u00e7\u00e3o concedida a ele permite a retirada de 44,7 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua para quatro fazendas em Correntina, uma delas, segundo os autores do relat\u00f3rio, sobreposta sobre o fecho de pasto Cap\u00e3o do Modesto.<\/p>\n<p><strong>MIL\u00cdCIAS RURAIS<\/strong><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 viol\u00eancia registrada contra as comunidades tradicionais, est\u00e3o documentadas no relat\u00f3rio intimida\u00e7\u00f5es, tentativas de homic\u00eddio, destrui\u00e7\u00e3o de cercas e ranchos, amea\u00e7as e fechamento de acessos. Os crimes s\u00e3o cometidos por \u201cempresas de seguran\u00e7a, que atuam como mil\u00edcias armadas\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa feita pelas ONGs cita a Estrela Guia, que atua em diversas cidades da regi\u00e3o e tem como clientes a Cargill, o Condom\u00ednio Cachoeira do Estrondo (envolvida em casos de pistolagem em Formosa do Rio Preto), e a Bergamaschi Agro, suspeita de intimidar moradores do Cap\u00e3o do Modesto.<\/p>\n<p>A den\u00fancia engloba ainda graves impactos causados pelo uso indiscriminado de agrot\u00f3xicos. O veneno contamina rios, len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e mata animais diversos. Al\u00e9m disso, impregna nos alimentos e aumenta a incid\u00eancia de graves doen\u00e7as, inclusive o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio conclui que as autoridades precisam garantir o direito \u00e0 terra para os povos tradicionais e promover pol\u00edticas de incentivo \u00e0 agroecologia e \u00e0 soberania alimentar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em><a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftnref1\">[1]<\/a> A Rede Social de Justi\u00e7a e Direitos Humanos foi criada em 1999 com o objetivo de articular organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais no Brasil para defender o direito \u00e0 terra, alimenta\u00e7\u00e3o, agroecologia, biodiversidade, justi\u00e7a social e ambiental. Ela engloba cerca de 250 organiza\u00e7\u00f5es, movimentos sociais e universidades.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftnref2\">[2]<\/a> ONG que atua na \u00e1rea socioambiental, visando o desmatamento zero nos habitats naturais do Brasil.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftnref2\">[3]<\/a> Fundada em 1972 no Reino Unido, a ActionAid \u00e9 uma ONG internacional sediada atualmente na \u00c1frica do Sul. A organiza\u00e7\u00e3o trabalha por justi\u00e7a social, equidade de g\u00eanero e \u00e9tnico-racial e pelo fim da pobreza. Ela est\u00e1 presente em 75 pa\u00edses e alcan\u00e7a mais de 32 milh\u00f5es de pessoas no mundo. A ONG se estabeleceu no Brasil em 1999. Ela atua em 2.400 comunidades de 13 estados em parceria com 18 iniciativas de educa\u00e7\u00e3o antirracista, agroecologia e clima, direitos de mulheres e meninas, resposta humanit\u00e1ria e participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/meussertoes.com.br\/?p=25365&amp;preview_id=25365&amp;preview_nonce=73acf44f27&amp;_thumbnail_id=25370&amp;preview=true#_ftnref4\">[4]<\/a> Fundada em 1977, a SLC Agr\u00edcola \u00e9 uma das maiores produtoras de commodities agr\u00edcolas do pa\u00eds. Possui cerca de 733 mil hectares de \u00e1rea plantada em 23 unidades de produ\u00e7\u00e3o localizadas em sete estados brasileiros, na regi\u00e3o do Cerrado, e matriz em Porto Alegre (RS). Produz algod\u00e3o, milho e soja e se dedica \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de gado no modelo integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria (ILP). Tamb\u00e9m produz e comercializa sementes de soja e algod\u00e3o sob a marca SLC Sementes. Fonte: <a href=\"https:\/\/www.slcagricola.com.br\/quem-somos\/\">https:\/\/www.slcagricola.com.br\/quem-somos\/<\/a> . Visto em 13\/11\/2025<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Legenda da foto principal: Fazenda desmatada para planta\u00e7\u00e3o de soja e algod\u00e3o. Cr\u00e9dito: Thomas Bauer<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agroneg\u00f3cio estimula a grilagem de terras, o desmatamento e a viol\u00eancia contra comunidades rurais no Oeste da Bahia Por Paulo Oliveira (Meus Sert\u00f5es) e Thomas Bauer (CPT-BA e H-3000)&nbsp; Relat\u00f3rio produzido pela Rede Social de Justi\u00e7a e Direitos Humanos [1], Amigos da Terra [2] e ActionAid [3] revela como empresas financeiras e do agroneg\u00f3cio especulam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-6375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6375\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}