{"id":6380,"date":"2026-02-12T12:04:33","date_gmt":"2026-02-12T15:04:33","guid":{"rendered":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/mulheres-do-cerrado-lutam-por-seguranca-hidrica-e-alimentar-no-bioma-mais-ameacado-do-brasil\/"},"modified":"2026-02-12T12:04:33","modified_gmt":"2026-02-12T15:04:33","slug":"mulheres-do-cerrado-lutam-por-seguranca-hidrica-e-alimentar-no-bioma-mais-ameacado-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/mulheres-do-cerrado-lutam-por-seguranca-hidrica-e-alimentar-no-bioma-mais-ameacado-do-brasil\/","title":{"rendered":"Mulheres do Cerrado lutam por seguran\u00e7a h\u00eddrica e alimentar no bioma mais amea\u00e7ado do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Ludmila Pereira<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/mulheres-do-cerrado-lutam-por-seguranca-hidrica-e-alimentar-no-bioma-mais-ameacado-do-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" style=\"color: #000000;\">Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil<\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c0s vezes, a gente tem comida, mas n\u00e3o tem \u00e1gua para preparar. Como vamos plantar uma hortinha na nossa casa se n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua para regar? Se n\u00e3o tiver \u00e1gua, como \u00e9 que vamos viver? Como vamos fazer o caf\u00e9 para nossas crian\u00e7as, para o nosso povo? Como \u00e9 que vamos criar os animais? N\u00e3o d\u00e1 para criar, porque n\u00e3o tem \u00e1gua. Tamb\u00e9m temos os canteiros de ervas medicinais que usamos e que precisamos plantar para nos manter.\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/oeste-baiano.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 702px) 100vw, 702px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/oeste-baiano.jpg 702w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" oeste-baiano-300x200.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Encontro de Mulheres pelo Cerrado do Oeste Baiano. Foto: Bia Silva \/ MAB<\/em><\/p>\n<p>O relato de&nbsp;C\u00e9lia Valdemar, mulher ind\u00edgena Xakriab\u00e1, raizeira, lideran\u00e7a na comunidade do Prata, em Minas Gerais, exp\u00f5e a contradi\u00e7\u00e3o que mulheres&nbsp;cerratenses&nbsp;vivem no bioma que \u00e9 o \u201cber\u00e7o das \u00e1guas\u201d do Brasil: no Cerrado,&nbsp;oito das doze principais bacias hidrogr\u00e1ficas do pa\u00eds nascem, mas hoje nem todas as suas filhas t\u00eam acesso a esse recurso fundamental.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>O Cerrado passa por transforma\u00e7\u00f5es profundas. As raz\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o naturais, e sim atribu\u00eddas \u00e0 expans\u00e3o do uso industrial da terra, especialmente atividades ligadas ao agroneg\u00f3cio, que por sua vez,&nbsp;aceleram as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e refor\u00e7am altera\u00e7\u00f5es regionais. Esse ciclo mal\u00e9fico provoca seca e amea\u00e7a popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 vulnerabilizadas, em especial as mulheres.&nbsp;<\/p>\n<p>Um estudo publicado em 2024 na revista cient\u00edfica&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-024-45469-8\"><em>Nature Communication<\/em><\/a>,&nbsp;mostra que&nbsp;o meio do Brasil&nbsp;\u2013&nbsp;onde fica o Cerrado&nbsp;\u2013&nbsp;passa pela seca mais severa dos \u00faltimos 700 anos. Outra&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2071-1050\/15\/5\/4251#fig_body_display_sustainability-15-04251-f011\">an\u00e1lise<\/a>, realizada por um grupo de pesquisadores do Instituto Cerrados e da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas (ANA), mostra que&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-03\/dia-mundial-da-agua-cerrado-pode-perder-quase-34-da-agua-ate-2050\">o Cerrado pode sofrer redu\u00e7\u00e3o de 34% de seu volume de \u00e1gua at\u00e9 2050<\/a>&nbsp;&nbsp;\u2013&nbsp;e a tend\u00eancia \u00e9 ainda pior. Devido a expans\u00e3o agr\u00edcola, 90% das bacias hidrogr\u00e1ficas do Cerrado podem diminuir o seu fluxo de \u00e1gua.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Os efeitos j\u00e1 s\u00e3o sentidos no campo&nbsp;e&nbsp;na cidade.&nbsp;Ligar a torneira e n\u00e3o encontrar o principal ingrediente para a primeira refei\u00e7\u00e3o do dia \u00e9 desolador. Em casos&nbsp;como esse, as mulheres&nbsp;s\u00e3o&nbsp;as mais impactadas, pois, devido&nbsp;\u00e0&nbsp;sobrecarga do cuidado&nbsp;com a&nbsp;casa, precisam estar atentas aos desafios&nbsp;para&nbsp;garantir a \u00e1gua,&nbsp;tornando-se&nbsp;ref\u00e9ns do adoecimento e&nbsp;da&nbsp;preocupa\u00e7\u00e3o constante, especialmente, as m\u00e3es solos, em rela\u00e7\u00e3o a alimenta\u00e7\u00e3o de suas filhas e seus filhos, como conta a quilombola Em\u00edlia Costa&nbsp;durante um dos encontros da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres do Cerrado.&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO primeiro impacto que a gente sente das viola\u00e7\u00f5es do Cerrado s\u00e3o em nossos corpos, justamente porque&nbsp;n\u00f3s mulheres&nbsp;temos&nbsp;rela\u00e7\u00e3o direta de cuidado e uma sensibilidade melhor para sentir as coisas ben\u00e9ficas e, infelizmente, tamb\u00e9m as mazelas que chegam at\u00e9 n\u00f3s, em nossos territ\u00f3rios\u201d, relata Costa, do Quilombo Santo Ant\u00f4nio do Costa, no Maranh\u00e3o. Ela tamb\u00e9m integra o grupo&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/guerreiras_moquibom\/\">Mulheres Guerreiras da Resist\u00eancia, do Movimento Quilombola do Maranh\u00e3o (MOQUIBOM).&nbsp;<\/a><\/p>\n<p>Em sua caminhada de luta e andan\u00e7as, Em\u00edlia reafirma que as encantarias, as rezadeiras, a espiritualidade, os alimentos sem agrot\u00f3xicos produzidos no quilombo e as plantas medicinais s\u00e3o elementos de resist\u00eancia. Para ela, o enfrentamento \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 tamb\u00e9m o enfrentamento \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o dos saberes.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00c1gua para comer<\/strong>&nbsp;<\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 o primeiro bioma do planeta, com data de nascimento em torno de 65 milh\u00f5es de anos.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.wwf.org.br\/nossosconteudos\/biomas\/cerrado\/\">\u00c9 onde se concentra cerca de 5% de toda a biodiversidade do mundo<\/a>, bioma de \u201cfloresta invertida\u201d devido \u00e0s longas ra\u00edzes que fortalecem o len\u00e7ol fre\u00e1tico.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a devida import\u00e2ncia do Cerrado, quase tido como o \u201cpatinho feio\u201d, carece de ser reconhecida nos grandes debates nacionais e internacionais sobre meio ambiente, em especial, naqueles que dizem respeito a acordos internacionais que protegem a Amaz\u00f4nia e esquecem, ou melhor, \u201cvendem\u201d, o Cerrado e seus povos.&nbsp;<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 \u00e1gua como direito humano fundamental \u00e9 elemento que sintetiza a luta das mulheres pela vida. A aten\u00e7\u00e3o \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar est\u00e1 diretamente ligada&nbsp;a&nbsp;inseguran\u00e7a h\u00eddrica, pois a situa\u00e7\u00e3o diz respeito n\u00e3o apenas ao consumo direto da&nbsp;\u00e1gua,&nbsp;mas tamb\u00e9m&nbsp;\u00e0&nbsp;sua qualidade, por ser primordial na produ\u00e7\u00e3o de alimentos. E o Cerrado, apesar de fundamental no fornecimento deste recurso, conta com pouca prote\u00e7\u00e3o contra sua destrui\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que explica&nbsp;Francil\u00e9ia&nbsp;Paula,&nbsp;engenheira agr\u00f4noma e lideran\u00e7a da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o das Comunidades Negras Rurais Quilombolas<strong>&nbsp;<\/strong>(CONAQ) no Mato Grosso.<\/p>\n<p>\u201cSem \u00e1gua n\u00e3o tem alimenta\u00e7\u00e3o. Um tempo atr\u00e1s, a sociedade imaginava que a falta da&nbsp;\u00e1gua&nbsp;era um problema s\u00f3 do semi\u00e1rido brasileiro ou, ent\u00e3o, da quest\u00e3o da escassez h\u00eddrica, pela perman\u00eancia de falta de chuvas. Hoje, o problema da&nbsp;\u00e1gua&nbsp;\u00e9 de&nbsp;disponibilidade, mas tamb\u00e9m de acesso\u201d, explica&nbsp;Francil\u00e9ia.&nbsp;<\/p>\n<p>Colocar a \u00e1gua no centro do debate d\u00e1 uma dimens\u00e3o dos impactos socioambientais e do agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que afetam a fome no campo, ressalta a educadora. Como as mulheres est\u00e3o \u00e0 frente da defesa de seus territ\u00f3rios, s\u00e3o tamb\u00e9m elas que, pela observa\u00e7\u00e3o cotidiana, conseguem mensurar a falta de algum alimento ou a mudan\u00e7a nas \u00e1guas da regi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA fome tem g\u00eanero e cor. Pensar em \u00e1gua como alimento para o corpo humano \u00e9 uma quest\u00e3o fisiol\u00f3gica, o corpo humano \u00e9 composto por cerca de 75% de \u00e1gua\u201d, explica a nutricionista Ma\u00edsa Gomes, mestranda pela Universidade de Bras\u00edlia e integrante da<a href=\"https:\/\/mulheresnegrassan.wixsite.com\/mnssan\"><\/a>Rede de Mulheres Negras para Soberania Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional.&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cE a \u00e1gua, do ponto de vista metab\u00f3lico, ajuda a fazer todo o transporte de nutrientes, nosso organismo n\u00e3o funciona sem \u00e1gua. Ent\u00e3o, tratar a \u00e1gua como um alimento \u00e9 fundamental para a garantia da seguran\u00e7a alimentar, do ponto de vista que sem \u00e1gua, sem os minerais que existem na \u00e1gua, a gente n\u00e3o sobrevive\u201d, pontua. A nutricionista ainda desenvolve estudo sobre a rela\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a alimentar de pessoas negras, o aumento do consumo dos ultraprocessados e a defici\u00eancia de nutrientes.&nbsp;<\/p>\n<p><em><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/quilombo.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 596px) 100vw, 596px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/quilombo.jpg 596w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" quilombo-245x300.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Cachoeira em Cavalcante, regi\u00e3o do Quilombo Kalunga, Goi\u00e1s. Cr\u00e9dito: Michelle Granato<\/em><\/p>\n<p>Em meio a disputa h\u00eddrica<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se agrava quando a \u00e1gua se torna inacess\u00edvel e privatizada por cercas que foram colocadas por fazendeiros locais. Esse e outros problemas provocados pela expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio se somam \u00e0 escassez h\u00eddrica: consumir \u00e1gua ou mesmo ver seu filho ou filha brincar num rio viram preocupa\u00e7\u00e3o para as m\u00e3es.<\/p>\n<p>O Cerrado concentra mais de 74% dos agrot\u00f3xicos consumidos no Brasil, segundo o dossi\u00ea&nbsp;<a href=\"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/images\/biblioteca\/dossie-agrotoxicos-aguas-cerrado.pdf\"><em>Vivendo em territ\u00f3rios contaminados: dossi\u00ea sobre agrot\u00f3xicos nas \u00e1guas de Cerrado<\/em><\/a>, organizado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pela Fiocruz. Composto por an\u00e1lises de amostras de \u00e1guas de comunidades tradicionais, o documento mostra como a presen\u00e7a de agrot\u00f3xicos e a imposi\u00e7\u00e3o de seu consumo s\u00e3o altamente t\u00f3xicas \u00e0 sa\u00fade e perigosa para o meio ambiente.<\/p>\n<p>De acordo com o documento, em todo o pa\u00eds, somente a soja \u00e9 respons\u00e1vel pelo uso de mais de 52% dos agrot\u00f3xicos. S\u00f3 o Cerrado concentra 75% da produ\u00e7\u00e3o nacional deste gr\u00e3o, e seu cultivo avan\u00e7a sobre mais de 30 milh\u00f5es de hectares de terra.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea ainda diz que s\u00e3o despejados 600 milh\u00f5es de litros de agrot\u00f3xicos no Cerrado todos os anos. Esses produtos possuem uso autorizado para a soja no Brasil, mas muitos n\u00e3o t\u00eam uso autorizado na Uni\u00e3o Europeia (UE), por exemplo. O mais usado \u00e9 o glifosato, subst\u00e2ncia cancer\u00edgena que pode causar at\u00e9 mal de Alzheimer.<\/p>\n<p>\u201cA contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Cerrado \u00e9 a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Brasil todo. Para mim, uma das principais viol\u00eancias no Cerrado tem sido a contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico, merc\u00fario e outros metais pesados nas \u00e1guas do bioma. E o agrot\u00f3xico simplesmente n\u00e3o desaparece da \u00e1gua; seus efeitos v\u00e3o muito al\u00e9m do bioma, contaminando n\u00e3o apenas a popula\u00e7\u00e3o de peixes e a biodiversidade do Cerrado, mas impactando, a transi\u00e7\u00e3o com outros biomas\u201d, ressalta Francil\u00e9ia Paula, que tamb\u00e9m \u00e9 mestre em sa\u00fade pela Fiocruz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/pulverizacao.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 540px) 100vw, 540px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/pulverizacao.jpg 540w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" pulverizacao-300x197.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Alimento apodrecido ap\u00f3s pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos no Quilombo Cocalinho, Maranh\u00e3o, um dos locais do estudo da Fiocruz onde foram identificados, no total, 13 venenos diferentes nas amostras de \u00e1gua coletadas. Cr\u00e9dito: Arquivo pessoal<\/em><\/p>\n<p>Em territ\u00f3rio ind\u00edgena do Cerrado Sul Matogrossensse, o terceiro estado com a maior popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no Brasil, a situa\u00e7\u00e3o se repete de forma grave. Segundo Erileide Domigues, mulher ind\u00edgena do povo Guarani Kaiow\u00e1, e que j\u00e1 foi inclusive \u00e0 ONU denunciar as viola\u00e7\u00f5es de direitos nas terras, relata que a inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 uma das causas da guerra por territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de grandes lavouras do agroneg\u00f3cio cerca a terra ind\u00edgena, ainda n\u00e3o demarcada, e ao lan\u00e7ar e pulverizar agrot\u00f3xicos, os fazendeiros invadem as comunidades, contaminam as pessoas, o len\u00e7ol fre\u00e1tico e ainda desviam o curso das \u00e1guas dos rios para as monoculturas.<\/p>\n<p>Lideran\u00e7as do povo Guarani Kaiow\u00e1, de forma persistente, j\u00e1 denunciaram o governo brasileiro no Tribunal Penal Internacional, em Haia (Holanda).&nbsp;<a href=\"https:\/\/marcozero.org\/estado-brasileiro-e-empresas-de-agronegocios-sofrem-condenacao-simbolica-por-destruicao-do-cerrado\/\">Empresas transnacionais e agropecuaristas vinculados ao agroneg\u00f3cio local, o governo de Mato Grosso e o governo federal foram condenados pelo j\u00fari internacional do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Povos do Cerrado.<\/a>&nbsp;A relatora do Conselho de Direitos Humanos da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) esteve nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas do Mato Grosso do Sul e nas incid\u00eancias da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos, ambas cobrando do governo brasileiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/reprod.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 823px) 100vw, 823px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/reprod.jpg 823w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" reprod-300x213.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos afeta as comunidades pr\u00f3ximas \u00e0s grandes fazendas. Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>\u201cA mandioca est\u00e1 bonita, mas quando arrancamos para consumir, vemos que a mandioca est\u00e1 podre, cheia de cupim. As mulheres acabam n\u00e3o gerando mais filhos, e quando ficam gr\u00e1vidas, o beb\u00ea acaba nascendo com algum problema de sa\u00fade e os m\u00e9dicos falam que nasceu com peso baixo, est\u00e1 desnutrido\u201d, relata a lideran\u00e7a ind\u00edgena, diante do aumento, inclusive de problemas de sa\u00fade das mulheres com diabetes e hipertens\u00e3o.<\/p>\n<p>Veneno e defensor agr\u00edcola, s\u00e3o, segundo Erileide, outros nomes que o agroneg\u00f3cio usa, em vez de \u201cagrot\u00f3xico\u201d, para amenizar o problema e conseguir passar pelas autoriza\u00e7\u00f5es legais. Al\u00e9m disso, essa tamb\u00e9m \u00e9 uma arma para expulsar os povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais de suas casas. \u201cEnt\u00e3o ele (agrot\u00f3xico) mata, mata o que n\u00e3o conv\u00e9m aos produtores, mata aquilo que n\u00e3o tem pre\u00e7o, vamos dizer assim, que n\u00e3o tem a sua import\u00e2ncia, n\u00e9? Como vidas. Como as nossas vidas. A garantia da terra, sua demarca\u00e7\u00e3o, \u00e9 a sa\u00edda para tais viola\u00e7\u00f5es de direitos\u201d, afirma Erileide.<\/p>\n<p>Conviver em meio aos conflitos pelo territ\u00f3rio \u00e9 sin\u00f4nimo de ser linha de frente em que as amea\u00e7as \u00e0 vida de quem denuncia e o medo, de quem luta pela terra, se tornam cotidianos, como tamb\u00e9m ocorre no territ\u00f3rio quilombola de Seis Maria dos Jardins (MA).<\/p>\n<p>\u201cHoje, aqui na minha comunidade, eu vivo presa; quem comete as injusti\u00e7as est\u00e1 solto: os fazendeiros. Eu vivo dentro da minha pr\u00f3pria casa como se fosse numa comunidade murada. J\u00e1 cheguei, por conta da luta pela terra, a ficar fora da minha comunidade, sob prote\u00e7\u00e3o do MIQCB e da Sociedade de Direitos Humanos. Porque, tirando [a gente], acaba esse \u2018furdun\u00e7o de neg\u00f3cio de quilombo\u2019, esse neg\u00f3cio de regulariza\u00e7\u00e3o de terra\u201d, nos conta a mulher negra quilombola, m\u00e3e, quebradeira de coco baba\u00e7u, integrante do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Baba\u00e7u (MIQCB) e lideran\u00e7a no territ\u00f3rio quilombola Seis Maria dos Jardins, situado no munic\u00edpio de Matinha, na Baixada Maranhense.<\/p>\n<p>No territ\u00f3rio Quilombola Seis Maria dos Jardins, ocorre outra forma de contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, mas com os mesmos efeitos violentos. \u201cEssa falta da \u00e1gua tem nos afetado de uma forma cruel. Principalmente atrav\u00e9s da polui\u00e7\u00e3o da dada aos b\u00fafalos, porque esses animais s\u00e3o de \u00e1gua\u201d, relata a lideran\u00e7a. Ela ainda denuncia que durante os anos, os fazendeiros foram chegando, aterrando os rios, matando os peixes nativos, envenenado as palmeiras e contaminando os rios.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bufalos.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 831px) 100vw, 831px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/bufalos.jpg 831w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" bufalos-300x181.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Presen\u00e7a de B\u00fafalos pr\u00f3ximo as casas quilombolas. Os animais, que n\u00e3o s\u00e3o naturais do local, devastam o meio ambiente e trazem doen\u00e7as. Cr\u00e9dito: Arquivo Pessoal.<\/em><\/p>\n<p>Com ang\u00fastia, lembra do dia em que seu filho, ainda crian\u00e7a, ao brincar em um dos rios da comunidade, um h\u00e1bito comum, acabou sendo uma das v\u00edtimas da verminose de b\u00fafalo. Sem assist\u00eancia m\u00e9dica local, teve que ir para S\u00e3o Lu\u00eds, a cerca de quatro horas de dist\u00e2ncia e carregar ainda hoje, aos 30 anos, as sequelas. \u201cEle \u00e9 bem negro, \u00e9 preto, meu filho. Mas ele ficou com o rosto praticamente assim, \u00f3 [mostrando um peda\u00e7o de folha de chamex]. Todo manchado de branco. E a unha ficou igual a unha dos b\u00fafalos. As unhas dele n\u00e3o caiu, mas foi enrolando, foi enrolando, todas para debaixo dessa carne do dedo\u201d, relata.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/seis-maria.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 830px) 100vw, 830px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/seis-maria.jpg 830w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" seis-maria-300x213.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Antigo rio que foi devastado e privatizado pelo fazendeiro local pr\u00f3ximo ao Quilombola Seis Maria dos Jardins. Foto: Arquivo Pessoal.<\/em><\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse o impacto na sa\u00fade, os alimentos e a transforma\u00e7\u00e3o tradicional do baba\u00e7u, que traz subsist\u00eancia para as mulheres, tamb\u00e9m s\u00e3o comprometidos. A comunidade tem duas unidades de produ\u00e7\u00e3o com capacidade para produzir 15 mil litros de azeite do baba\u00e7u por m\u00eas, al\u00e9m do mesocarpo e do biscoito. Mas est\u00e3o paradas porque cercas el\u00e9tricas e arame farpado, hoje isolam os poucos baba\u00e7uais existentes do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagetica.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 702px) 100vw, 702px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagetica.jpg 702w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" imagetica-300x168.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Quebradeira de coco atravessa cerca de fazenda para coletar coco baba\u00e7u para seu sustento. Cr\u00e9dito: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>O envenenamento das \u00e1guas e da terra, o aumento da preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade de vida e o sustento afeta tamb\u00e9m a vida das mulheres da regi\u00e3o do Bico do Papagaio, como a Maria Concei\u00e7\u00e3o Barbosa, quebradeira de coco baba\u00e7u, agricultora familiar e integrante do MIQCB.<\/p>\n<p>Para as conhecedoras da arte de quebrar coco e transform\u00e1-lo em alimento, a palmeira significa tanto a subsist\u00eancia das fam\u00edlias do Cerrado quanto um saber passado de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o entre as mulheres. A palmeira de p\u00e9 e viva \u00e9 fundamental para romper com o ciclo de inseguran\u00e7a alimentar. E nasce, geralmente, em zonas de transi\u00e7\u00e3o entre Cerrado e Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00f3s, quebradeiras de coco, mais precisamos \u00e9 de respeito daquelas autoridades constitu\u00eddas dos governantes\u201d, diz Maria Concei\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, intensifica a falta de autonomia alimentar das mulheres. Mesmo com a&nbsp;<a href=\"https:\/\/central3.to.gov.br\/arquivo\/345116\/\">Lei do Baba\u00e7u livre<\/a>, sua fiscaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 efetiva e muito menos prev\u00ea puni\u00e7\u00e3o para o uso de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Muitos fazendeiros passam o corrent\u00e3o \u2013 uma forma de desmatar usando enormes correntes presas em dois tratores, que derrubam fauna e flora \u00e0 medida que passam \u2013, levando flora e fauna abaixo, matando as nascentes, para plantar soja e usar veneno que infiltra na terra, contaminando os recursos naturais de todos ao redor, apodrecendo os cocos e matando as palmeiras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/palmeiras.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 835px) 100vw, 835px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/palmeiras.jpg 835w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" palmeiras-300x259.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Quebradeira de Coco segurando o coco de Baba\u00e7u. Cr\u00e9dito: Ingrid Barros<\/em><\/p>\n<p>Agroneg\u00f3cio versus tradi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O Bico do Papagaio \u00e9 parte do Matopiba, regi\u00e3o composta pelo Cerrado nos estados do Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia onde vem se intensificando a expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria com aval dos governos. \u00c9 onde o projeto de devasta\u00e7\u00e3o do bioma se consolida, como afirmou o Tribunal Permanente dos Povos do Cerrado em seu veredito final, em uma zona de sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Como bioma estrat\u00e9gico para o agroneg\u00f3cio, o Cerrado \u00e9 hoje respons\u00e1vel por 60% de toda a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do Brasil, incluindo monoculturas como soja, milho e algod\u00e3o \u2013 14% de toda a soja do mundo e 16% da carne s\u00e3o produzidas no Cerrado, conforme dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (IPAM).<\/p>\n<p>O pre\u00e7o \u00e9 alto. Pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado apresenta a maior \u00e1rea desmatada entre todos os biomas, com mais da metade do total (52,5%). S\u00f3 o Matopiba, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, concentrou cerca de 42% de toda a perda de vegeta\u00e7\u00e3o nativa no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso faz jus aos dados do&nbsp;<a href=\"https:\/\/alerta.mapbiomas.org\/wp-content\/uploads\/sites\/17\/2025\/05\/RAD2024_15.05.pdf\">Relat\u00f3rio Anual de Desmatamento (RAD) de 2024<\/a>, do MapBiomas: quase 96% do desmatamento no Brasil tem na agropecu\u00e1ria o principal vetor. As atividades agropecu\u00e1rias j\u00e1 ocupam metade do Cerrado, bioma que mais perdeu vegeta\u00e7\u00e3o nativa nos \u00faltimos 38 anos, em rela\u00e7\u00e3o ao uso e cobertura da terra, atividade que interfere diretamente na quantidade de \u00e1gua e outros recursos naturais dispon\u00edveis, e que s\u00e3o a base da alimenta\u00e7\u00e3o e do bem-viver de popula\u00e7\u00f5es tradicionais.<\/p>\n<p>No Cerrado maranhense, vive Vanessa Cristina. Herdeira de uma fam\u00edlia matriarcal, ela \u00e9 quebradeira de coco baba\u00e7u, assim como sua m\u00e3e e sua av\u00f3. Al\u00e9m de falar com muito orgulho desses saberes, ainda mostra o dedo \u201crachado no machado\u201d ao quebrar coco. Ali\u00e1s, \u00e9 uma cicatriz bem comum nas m\u00e3os das quebradeiras de coco.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 luta todo dia, quando uma termina de falar, j\u00e1 tem a outra, mais outra bomba para segurar no peito. Porque n\u00f3s mulheres seguramos no peito mesmo. \u00c9 derrubada de palmeiras, \u00e9 veneno nas palmeiras. A pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea est\u00e1 sendo usada como forma de nos calar e de nos afastar de nossos territ\u00f3rios.\u201d<\/p>\n<p>Vanessa Cristina \u00e9 assistente de projetos na Associa\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade e Agricultura (Acesa). Soci\u00f3loga formada pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o, ela vem da comunidade Aldeia do Odino, no munic\u00edpio de Bacabal (MA).&nbsp; Muitas c\u00f3pias de livros e trabalhos universit\u00e1rios foram tiradas com o dinheiro da quebra do coco baba\u00e7u.<\/p>\n<p>Em suas andan\u00e7as e experi\u00eancias, lida diretamente com a situa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias mulheres do Cerrado e da zona de transi\u00e7\u00e3o para a Amaz\u00f4nia, e percebe que os problemas que afetam as quebradeiras de coco baba\u00e7u crescem \u00e0 medida que as cercas do agroneg\u00f3cio aumentam. H\u00e1 comunidades com somente um po\u00e7o e as mulheres precisam fazer \u201cmilagre\u201d com a pouca \u00e1gua que tem para a fam\u00edlia, as plantas e as hortas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/quebra.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 663px) 100vw, 663px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/quebra.jpg 663w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" quebra-300x198.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Quebradeiras de coco. Cr\u00e9dito: Thomas Bauer\/CPT Bahia<\/em><\/p>\n<p>Antigamente, menciona Vanessa, quando os per\u00edodos de seca e chuva estavam equilibrados, as mulheres conseguiam se organizar para ter o tempo da colheita do baba\u00e7u. Agora, com a acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, essas estrat\u00e9gias est\u00e3o amea\u00e7adas, o tempo chuvoso diminuiu, o tempo da seca se tornou maior, o desmatamento e as queimadas aumentaram.<\/p>\n<p>Com isso, cresce o sofrimento das mulheres em seus modos de subsist\u00eancia e de rela\u00e7\u00e3o de saber com o territ\u00f3rio. Para tentar minimizar isso, as mulheres tentam acessar programas de sistemas agroflorestais (SAFs), projetos de cisterna e colocar sombrites nas hortas, para o sol n\u00e3o incidir diretamente nas plantas.<\/p>\n<p>Nesta hora, outra vertente da vulnerabilidade feminina negra no campo se imp\u00f5e. Mesmo pr\u00f3ximas \u00e0 terra, as mulheres do campo n\u00e3o conseguem garantir o acesso ao plantar e colher. \u00c9 o que mostra os dados do estudo da&nbsp;<a href=\"https:\/\/fianbrasil.org.br\/\">FIAN Brasil<\/a>. A inseguran\u00e7a alimentar persiste com maior incid\u00eancia no meio rural do que no meio urbano. S\u00e3o as casas chefiadas pelas mulheres negras na zona rural onde est\u00e3o 60% da propor\u00e7\u00e3o de domic\u00edlios em inseguran\u00e7a alimentar do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cPercebemos um adoecimento ps\u00edquico dessas mulheres diante das agress\u00f5es aos territ\u00f3rios, diante da perda das \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o de alimentos. De forma geral, as mulheres sofrem com o pr\u00f3prio modelo que vai impossibilitando as suas pr\u00e1ticas de vida. E a\u00ed o adoecimento ser\u00e1 de diversas formas, desde o f\u00edsico at\u00e9 o confronto com o fazendeiro\u201d, conta Francil\u00e9ia Paula.<\/p>\n<p>Direitos e racismos<\/p>\n<p>A falta de acesso \u00e0 \u00e1gua, sua contamina\u00e7\u00e3o e sua aus\u00eancia no Cerrado, impondo um cen\u00e1rio de fome e inseguran\u00e7a para mulheres negras e ind\u00edgenas da regi\u00e3o, s\u00e3o um retrato de um pa\u00eds que impede o acesso de pessoas racializadas aos direitos humanos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 sustentabilidade alimentar, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a alimentar, sem garantia do direito \u00e0 \u00e1gua, ao direito h\u00eddrico\u201d, ressalta a nutricionista Bruna Crioula. Bruna \u00e9 nutricionista, mestre em ci\u00eancias sociais e matrigestora da Crioula Curadoria Alimentar \u2013 uma organiza\u00e7\u00e3o afrorreferenciada, \u00e9 um afroneg\u00f3cio, que tem como principal objetivo desenvolver solu\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e ancestrais para sistemas alimentares por meio de uma educa\u00e7\u00e3o alimentar racializada.<\/p>\n<p>\u201cA inseguran\u00e7a alimentar \u00e9 um produto desse sistema socioecon\u00f4mico em que o racismo \u00e9 a base, o fundamento. Ent\u00e3o a gente tem uma explora\u00e7\u00e3o da vida no seu significado mais essencial, a vida dos nossos rios, a vida dos nossos biomas, dos nossos ecossistemas, das pessoas e dos animais.\u201d<\/p>\n<p>Bruna destaca que, ao se pensar em \u00e1gua e seguran\u00e7a alimentar, \u2018\u00e9 preciso dialogar com dois conceitos de opress\u00e3o: o racismo ambiental, pela contamina\u00e7\u00e3o proveniente de atividades mineradoras, industriais do agroneg\u00f3cio sem responsabilidade socioambiental e limpeza adequada das \u00e1guas antes do descarte, e o racismo alimentar,&nbsp; caracterizado por uma barreira de produ\u00e7\u00e3o de comida. \u201cPor fim, mas n\u00e3o menos importante: sem \u00e1gua a gente n\u00e3o cozinha!\u201d<\/p>\n<p>A injusti\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 tanto na aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas para prote\u00e7\u00e3o do Cerrado, quanto no avan\u00e7o desmedido do agroneg\u00f3cio, sem a conten\u00e7\u00e3o efetiva de impactos socioambientais e sem nenhuma barreira dos governos.&nbsp; Enquanto o setor visa a exporta\u00e7\u00e3o de monocultura para o exterior, os problemas decorrentes da explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais recaem sobre territ\u00f3rios onde povos e comunidades tradicionais habitam.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, outra desigualdade se apresenta: o direito \u00e0 \u00e1gua ainda \u00e9 para poucas e poucos. A agropecu\u00e1ria junto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o florestal, pesca e aquicultura consomem 58,2% da \u00e1gua retirada de fontes superficiais e subterr\u00e2neas no pa\u00eds, apontam os \u00faltimos dados publicados em 2020 das c<a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv102001_informativo.pdf\">ontas econ\u00f4micas ambientais da \u00e1gua<\/a>, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/mato-grosso.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 835px) 100vw, 835px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/mato-grosso.jpg 835w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" mato-grosso-300x207.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Desmatamento de vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado para dar lugar \u00e0 soja em Confresa (MT). Cr\u00e9dito: Thomas Bauer\/CPT-H3000<\/em><\/p>\n<p>\u201cCerca de 50% do total de outorgas h\u00eddricas feitas pela Ag\u00eancia Nacional das \u00c1guas (ANA) e do total da vaz\u00e3o de \u00e1gua outorgada foi tamb\u00e9m no Cerrado e suas zonas de transi\u00e7\u00e3o. Cerca de 60% dessa \u00e1gua foi utilizada na agricultura irrigada\u201d, ressalta o&nbsp;<a href=\"https:\/\/tribunaldocerrado.org.br\/\">veredito final<\/a>&nbsp;do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em sua Sess\u00e3o Especial sobre o Cerrado. Outorgas s\u00e3o licen\u00e7as para capta\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>O veredito do TPP, al\u00e9m de condenar o Estado brasileiro pelo ecoc\u00eddio e genoc\u00eddio dos povos do Cerrado, ainda destaca a morte e diminui\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o de diversos rios, o que causa ainda o estresse h\u00eddrico, ou seja, o consumo de \u00e1gua \u00e9 maior que sua oferta em regi\u00f5es onde h\u00e1 mais desmatamento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/cerrado.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 838px) 100vw, 838px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/cerrado.jpg 838w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" cerrado-300x236.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Danos ambientais causados pelo agroneg\u00f3cio e pela monocultura; os povos Krah\u00f4, Krah\u00f4-Kanela e Krah\u00f4 Takaywr\u00e1 dependem do Rio Formoso, Tocantins, na Ilha do Bananal, conhecida como \u201ca maior ilha fluvial do mundo\u201d. Cr\u00e9dito: Arquivo Cimi Regional Goi\u00e1s\/Tocantins<\/em><\/p>\n<p>Outro fator que intensifica os problemas com \u00e1gua no Cerrado s\u00e3o as queimadas, que podem assorear rios e matar nascentes. De acordo com MapBiomas, o Cerrado possui a maior m\u00e9dia anual de \u00e1rea queimada do pa\u00eds entre 1985 e 2024. Em 40 anos, 45% dele foi queimado pelo menos uma vez, sendo quase 90 milh\u00f5es de hectares consumidos, totalizando 43% da \u00e1rea queimada nacional. \u00c9 o bioma com maior \u00e1rea de recorr\u00eancia de fogo no Brasil.<\/p>\n<p>Insistir em existir<\/p>\n<p>A contraposi\u00e7\u00e3o ao modelo deplorat\u00f3rio do agroneg\u00f3cio s\u00e3o suas v\u00edtimas, as mulheres cerratenses, que aplicam estrat\u00e9gias de viv\u00eancia para garantir o bioma vivo.<\/p>\n<p>\u201cO Cerrado \u00e9 um&nbsp;<em>hotspot<\/em>&nbsp;global, um centro de biodiversidade\u201d, lembra Bruna Crioula, o que significa diversidade de alimentos, como frutas, vegetais, plantas aliment\u00edcias n\u00e3o colonizadas e que geralmente n\u00e3o est\u00e3o no rol de alimentos amplamente conhecidos, mercantilizados e domesticados. \u201cO Cerrado tem a capacidade de nutrir, de alimentar o Brasil com a sua sociobiodiversidade pr\u00f3pria\u201d<\/p>\n<p>No Maranh\u00e3o, Ivanessa Mariano articula projetos que potencializam a produtividade da terra. A agricultora conta do trabalho junto ao grupo de trabalho de juventudes com o \u201cProjeto plante uma \u00e1rvore\u201d, que estimula o resgate das esp\u00e9cies nativas amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. J\u00e1 s\u00e3o quatro anos de projeto e quase 4 mil mudas doadas para as comunidades.<\/p>\n<p>Ivanessa mora na comunidade do munic\u00edpio de Peritor\u00f3, a quase 240 quil\u00f4metros de S\u00e3o Lu\u00eds, no Quilombo de S\u00e3o Bento do Juvenal. Ela \u00e9 agr\u00f4noma pelo Programa da Reforma Agr\u00e1ria (Pronera) e integra a Rede de Agroecologia do Maranh\u00e3o (RAMA). Por onde ela anda para falar do Cerrado, nunca deixou de mencionar a for\u00e7a da ancestralidade que comp\u00f5e esse bioma, advogando pelo futuro de um dos biomas mais antigos do mundo e pela perman\u00eancia das pessoas no campo. \u201c\u00c9 reconhecer a terra como m\u00e3e porque a terra alimenta. Ent\u00e3o, se ela alimenta, a gente cuida.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" data-src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/da.jpg\" data-sizes=\"(max-width: 758px) 100vw, 758px\" data-srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/da.jpg 758w, &lt;a href=\" alt=\"\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" wp-content=\"\" da-300x157.jpg\"=\"\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ivanessa mostra a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica de caf\u00e9 e a\u00e7a\u00ed em seu territ\u00f3rio. Cr\u00e9dito: Arquivo Pessoal.<\/em><\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o vai sobreviver na cidade. Porque na cidade n\u00e3o tem como voc\u00ea plantar. De amanhecer o dia, plantar uma semente e saber que a produ\u00e7\u00e3o vai ser o nosso alimento durante todo o ano, porque n\u00f3s fazemos a programa\u00e7\u00e3o de tudo que plantamos e guardamos a semente para o pr\u00f3ximo ano. A nossa alimenta\u00e7\u00e3o dura o ano e na cidade n\u00e3o tem como, voc\u00ea n\u00e3o tem espa\u00e7o para produzir\u201d, explica a quilombola.<\/p>\n<p>A maioria das mulheres no campo, segundo a agricultora, s\u00e3o m\u00e3es solos e n\u00e3o conclu\u00edram os estudos.<\/p>\n<p>Em um mundo em que o dinheiro \u00e9 cada vez mais valorizado \u2013 e acessado sobretudo por quem tem melhores n\u00edveis de escolaridade e vive na cidade \u2013, afirma Ivanessa, quem est\u00e1 no campo acaba sendo esquecido. Por isso, a autonomia alimentar das mulheres, assim como suas articula\u00e7\u00f5es e trocas, \u00e9 fundamental para garantir o alimento e a diversidade na mesa.<\/p>\n<p>\u201cVamos se ajudando, porque quando uma n\u00e3o tem a outra tem, a gente sempre tem essa certeza, pouco ou muito, mas algu\u00e9m vai ter. E a\u00ed elas precisaram de semente de outros lugares. E l\u00e1, nas comunidades, elas tamb\u00e9m fazem a quest\u00e3o da mem\u00f3ria afetiva das sementes, de onde veio as sementes, quem deu as sementes, a quantidade de ano que essas sementes existem\u201d, conta Ivanessa sobre a rela\u00e7\u00e3o de cuidado com as sementes e planta\u00e7\u00f5es de mudas, pois s\u00e3o elementos de continuidade do sistema alimentar e s\u00e3o, em sua maioria, atividades realizadas pelas mulheres.<\/p>\n<p>Contra a ideia de um bioma subdesenvolvido, vazio de gente, de est\u00e9tica ambiental \u00e1rida e aparentemente sem vida, s\u00e3o as mulheres que refor\u00e7am a luta por um Cerrado de p\u00e9 e vivo. A multiplicidade de viol\u00eancias que recaem sobre elas ainda as impede de produzir alimentos em seus ro\u00e7ados.<\/p>\n<p>Sem acesso adequado \u00e0 \u00e1gua, isso traz consequ\u00eancias na sa\u00fade, tanto f\u00edsica quanto mental das mulheres que lidam no dia a dia com a preocupa\u00e7\u00e3o de coordenar a sustentabilidade alimentar. \u201cMesmo em contexto de adversidades, est\u00e3o presentes, porque \u00e9 poss\u00edvel ainda est\u00e3o aqui e asseguram a continuidade desse bioma\u201d, completa a quilombola e mestra em sa\u00fade Francil\u00e9ia Paula.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Esta reportagem foi produzida no \u00e2mbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras&nbsp; do Centro Brasileiro de Justi\u00e7a Clim\u00e1tica (CBJC) \u2014 iniciativa que fortalece a cobertura jornal\u00edstica antirracista sobre justi\u00e7a clim\u00e1tica e popula\u00e7\u00f5es negras no Brasil.<\/em><\/p>\n<p>Ludmila Pereira&nbsp;\u00e9 jornalista, mestra em Comunica\u00e7\u00e3o e doutora em Lingu\u00edstica pela UFG. Tamb\u00e9m formada em Letras e com especializa\u00e7\u00e3o em Estudos Afro Latinoamericanos e Caribenhos (CLACSO). Integra a Coletiva Pretas de Angola e a Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres do Cerrado. Colabora na R\u00e1dio e TV Quilombo e R\u00e1dio Kalungueira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ludmila Pereira Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil \u201c\u00c0s vezes, a gente tem comida, mas n\u00e3o tem \u00e1gua para preparar. Como vamos plantar uma hortinha na nossa casa se n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua para regar? Se n\u00e3o tiver \u00e1gua, como \u00e9 que vamos viver? Como vamos fazer o caf\u00e9 para nossas crian\u00e7as, para o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":10901,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-6380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6380\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/campanhacerrado.org.br\/campanha2026\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}