Em período de seca extrema, incêndios na Chapada dos Veadeiros acendem alerta e preocupam população
Parque Nacional registrou três ocorrências de incêndio em 2026, fogo mais recente, provocado por raio, atingiu cerca de 500 hectares e chegou próximo a áreas de visitação
Por Alcileia Torres*
O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV) registrou três ocorrências de incêndio em seu interior ao longo de 2026. O caso mais recente ocorreu na região do Mirante da Janela, foi provocado por causas naturais, ocasionado por raio e atingiu cerca de 500 hectares, segundo informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A proximidade do incêndio com áreas de visitação levou ao fechamento temporário da Trilha dos Saltos. O acesso permaneceu interditado por cerca de quatro horas como medida de segurança aos visitantes.
Segundo Sandro Borges, analista ambiental do ICMBio no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV), a previsão de dias muito quentes e ventos fortes torna o período ainda mais crítico para a ocorrência e propagação de incêndios. A preocupação, segundo ele, está principalmente nos focos que surgem no entorno do Parque e podem avançar para o interior da unidade de conservação.

“A gente tem agora, pra essa semana, uma previsão de dias muito quentes, com vento forte, então é um período bastante crítico. E o que mais nos preocupa em relação aos incêndios são principalmente as ocorrências que estão no entorno do parque.”— Sandro Borges, analista ambiental do ICMBio (PNCV)
Sandro afirma que, nos últimos anos, parte dos incêndios provocados pela ação humana tem começado fora dos limites do Parque e posteriormente atingido seu interior. Como medida de prevenção, o ICMBio realizou neste ano queimas prescritas em áreas do Parque onde há maior acúmulo de material combustível e condições que podem favorecer o avanço do fogo durante o período seco. Essa iniciativa busca criar áreas manejadas que ajudam a mitigar a propagação de incêndios por meio do uso planejado e de baixa intensidade do fogo em áreas adaptadas a ele.
Essas ações fazem parte do Manejo Integrado do Fogo (MIF), abordagem que reúne diferentes estratégias de prevenção e manejo, considerando tanto aspectos ambientais quanto os conhecimentos e práticas das comunidades tradicionais relacionados ao uso do fogo. No Cerrado, onde o fogo também faz parte da dinâmica ecológica, o MIF busca diferenciar o uso planejado e controlado do fogo das ocorrências que podem se transformar em incêndios e provocar danos.
Outra frente de atuação tem sido o fortalecimento das brigadas comunitárias. Segundo Sandro, neste ano houve formação de brigadistas no Território Quilombola Kalunga, na região do Vão do Moleque, com apoio da Associação Cerrado de Pé. Em junho, também foi elaborado um plano operativo para integrar diferentes instituições e definir atribuições durante o período mais crítico de incêndios.
Entre os brigadistas que atuam no Parque está Neucilene Costa, brigadista Kalunga do ICMBio, da comunidade Engenho II. Para ela, contar com pessoas que conhecem o território e as características da região faz diferença durante o combate aos incêndios, principalmente em áreas de difícil acesso.

“É muito importante ter brigadista da nossa região, que conhece bem o nosso bioma, que conhece bem como funcionam as coisas dentro do território, dentro do Parque. A gente precisa saber qual área que é, se dá para chegar com o carro mais próximo, se a área tem algum despenhado ou se tem que esperar o fogo descer de uma serra. Ter esse reconhecimento da área, do território, de onde tá tendo a queimada, é extremamente importante.”— Neucilene Costa, brigadista Kalunga do ICMBio, da comunidade Engenho II
Além de brigadista, Neucilene também atua como guia Kalunga no Território Quilombola Kalunga. Ela conta que os conhecimentos adquiridos no trabalho como brigadista também passam a fazer parte do que compartilha com os visitantes durante as atividades de guiagem.
“Eu já tinha algumas coisas de conhecimento, né? Agora eu tô tendo mais ainda, e durante meu serviço de guia, eu posso tar repassando a importância de preservar o Cerrado, de fazer as queimadas preventivas. Porque muitas vezes o pessoal vê um fogo e fala: “ah, tá queimando tudo”. Talvez seja uma queimada controlada. Nem todo fogo, dependendo da época, é criminoso.”— Neucilene Costa, brigadista Kalunga do ICMBio, da comunidade Engenho II
Uso tradicional do fogo
Para os próximos meses, a atenção também se volta ao período de preparo das roças de toco no Território Quilombola Kalunga. O uso tradicional do fogo na fazeção das roças pelas comunidades também integra as ações de Manejo Integrado do Fogo (MIF). Segundo Sandro, está sendo planejada uma força-tarefa coordenada pelo Ibama, com apoio do ICMBio, para acompanhar as queimas, principalmente em áreas próximas aos limites do Parque Nacional.

“A gente espera que consiga fazer esse apoio ao fogo dos roçados, para que as comunidades continuem fazendo o uso tradicional do fogo, mas que seja dentro do objetivo dela, que é fazer o fogo do roçado. A gente sabe que nenhuma comunidade quer causar incêndio.”— Sandro Borges, analista ambiental do ICMBio (PNCV)
Segundo o analista ambiental, as mudanças climáticas e as próprias condições encontradas atualmente para o manejo podem aumentar a complexidade do uso do fogo e o risco de ele sair da área planejada. A proposta da força-tarefa é apoiar as comunidades para que a prática tradicional continue sendo realizada com maior segurança durante o período crítico.
*Alcileia Torres é comunicadora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado