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Carta do I Encontro Nacional das Juventudes do Cerrado

Passarinho de toda cor

Gente de toda cor

Amarelo, rosa e azul

Me aceita como eu sou”

Somos milhares. Reunidos em Hidrolândia, Goiás, entre os dias 14 e 16 de dezembro de 2018, representando todos os estados do Cerrado brasileiro, somos diversos. As Juventudes do Cerrado são preta, indígena, quilombola, feminista, camponesa, sem terra, atingida por mineração e barragens, quebradeira de coco, pescadora, vazanteira, LBGTQ+, fundo e fecho de pasto, raizeira, benzedeira, agricultora familiar, geraizeira, ribeirinha, extrativista e tantas outras múltiplas identidades que viemos aqui reforçar. A riqueza da nossa diversidade é também nossa fortaleza na construção de uma unidade disposta a conservação dos nossos territórios e modos de vida. Nossos passos vêm de longe. Fortalecemos a nossa resistência também valorizando os saberes das nossas ancestralidades, usando-os para inspirar as lutas que virão. Nesse sentido, somos sujeitos políticos que querem ser ouvidos pelos movimentos e organizações sociais como uma força política consciente de que projeto de Cerrado brasileiro queremos construir, e que estamos construindo.

O rico compartilhamento de experiências que trazemos, as lutas pela valorização das Escolas Famílias Agrícolas, nossas cooperativas de beneficiamento e produção, nossa comunicação popular, nossas articulações em rede mostram que a juventude está em movimento, desconstruindo também velhos preconceitos de que os/as jovens não estão interessados/as na construção de lutas e resistências.

Nesse sentido, repudiamos a forma como somos retratados também pela mídia tradicional que insiste em criminalizar nossa resistência, ou apresenta nossos modos de vida sempre como ultrapassados e/ou miseráveis. Lutamos pela democratização da mídia, e mais, pelo fortalecimento dos nossos próprios canais de comunicação popular.

Cientes do desafio que o atual contexto brasileiro nos traz, compreendemos a nossa missão em resistir contra o avanço sobre nossos territórios e o projeto em curso de desmonte do modelo de convivência com os biomas que acreditamos. Denunciamos o MATOPIBA como um projeto de morte para o Cerrado brasileiro, para nossas águas, nossos territórios, nossos rios, nossas florestas, nossos solos e nossa gente. O avanço predatório sobre nossos territórios tem aumentado a violência no campo. Nesse mesmo sentido, somos contra os projetos de mineração, construídos sem qualquer consulta prévia a nossas comunidades, poluem nossas águas e desterritorializam nosso povo, ameaçando-o e matando nossas lideranças. Repudiamos as ameaças que sofremos diariamente e cobramos do Estado Brasileiro um posicionamento em relação ao acirramento da violência. Também nos solidarizamos com o recente assassinato de dois companheiros, José Bernardo da Silva, conhecido como Orlando, e Rodrigo Celestino, integrantes do MST Paraíba.

“Pelos nossos/as mortos/as nem um minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!”

Nós queremos permanecer em nossa terra e conservar o nosso Cerrado. Nossa luta por permanência é também uma batalha por uma Educação do e no Campo. A Educação do Campo é uma política pública para a organização do conhecimento dos povos do campo. É uma polaridade cultural dirigida pelos povos do campo dentro de seu lugar de origem, é um processo de ressignificação da teoria e da prática na superação da escola tradicional.

Denunciamos aqui o criminoso processo de fechamento das escolas do campo no país. Apenas no estado do Piauí, 317 escolas foram fechadas nos últimos anos. A desvalorização do ensino do campo é parte de um projeto maior de uma ofensiva cultural que tenta colonizar nossos saberes nos vendendo a falsa ideia de que todo o conhecimento válido é apenas o ultra tecnológico ou vindo das grandes cidades. Por isso, somos também contra o projeto da Escola Sem Partido, porque queremos um ensino libertador, descolonizador e contextualizado que dialogue com nossas realidades. Permanecer no Cerrado é também incentivar nossos modos de produção, geração de renda e conservação do nosso bioma. Por isso, também gritamos pela valorização de uma assessoria técnica voltada para a produção da juventude, investimento em Escolas Família Agrícola (EFA’s), e políticas públicas para nosso acesso ao mercado justo e de economia solidária.

“Ninguém vai morrer de sede nas margens dos nossos rios”

O avanço do capitalismo neoliberal através dos grandes projetos do hidro e agronegócio tem roubado nossas águas. O Cerrado é o berço das águas do Brasil e nele está uma das últimas e maiores reservas de água doce do mundo. Entendemos que a apropriação dos nossos mananciais aquíferos é um crime contra toda a humanidade e que a água é um bem de todos e todas. Somos contra todos os processos de privatização das águas. Nós somos o presente e o futuro dos povos do Cerrado e é a manutenção dos nossos modos de vida que será capaz de garantir a conservação das nossas riquezas naturais.

“De que adianta territórios livres com corpos presos?”

Nós, juventudes do Cerrado, compreendemos que a liberdade de existência dos nossos povos precisa ser completa. A luta pela construção de um mundo mais justo, popular, solidário e igualitário precisa estar necessariamente conectada com a valorização e respeito das mulheres. Precisamos lutar, seja enquanto jovens mulheres protagonistas dessa luta, ou enquanto homens aliados e apoiadores desse processo, contra todas as formas de violência contra a mulher em nossos territórios, bem como de negação das nossas liberdades ou prisão da nossa sexualidade. Entendemos que a auto-organização feminista é um instrumento chave para o empoderamento das mulheres nas nossas comunidades que precisa ser incentivado.

É preciso valorizar o trabalho das mulheres e das meninas jovens, batalhar por uma justa divisão do trabalho doméstico, compreender e visibilizar a contribuição essencial das mulheres na conservação dos nossos patrimônios naturais, como as águas e as sementes, assim como seu papel numa produção agroecológica que garante soberania alimentar e nutricional para as nossas famílias.

Não podemos mais permitir a exclusão das mulheres nos espaços de liderança política em nossos movimentos, organizações e comunidades. É tempo de fortalecer as lideranças jovens mulheres, dando valor às suas contribuições, e permitindo que o poder dentro e fora dos movimentos seja compartilhado.

“O afeto te afeta?”

Em nosso Cerrado brasileiro, assim como nos demais territórios, não deve haver espaço para o preconceito. Em um ambiente de vivências tão diversas, nós, da juventude, não permitiremos que companheiros e companheiras sejam discriminados e discriminadas seja por sua orientação sexual ou identidade de gênero. Para nós, é inadmissível que um dos entraves para permanência da nossa juventude no campo também seja a LGBTfobia que discrimina, mata, e violenta psicologicamente tantos e tantas de nós. Nos solidarizamos aqui com o assassinato cruel da transexual Jéssica Dias que teve seu corpo cruelmente queimado em mais um crime homofóbico.

É tempo de romper as barreiras do desamor e abrir espaço para posturas inclusivas dentro e fora dos movimentos, acolhendo as pessoas LGBTQ+, compreendo suas lutas e sabendo que elas também são parte de um Cerrado livre e para todos e todas.

Por fim, anunciamos que é tempo de união. Tempo de avançar de mãos dadas com nossos companheiros e nossas companheiras de outros biomas, das cidades, de outros países para resistir aos retrocessos. É momento de mais do que nunca, abrir caminho para a resistência da juventude, dos nossos cantos, da nossa energia e da nossa mística. O Cerrado também é sua juventude resiliente e a sua diversidade. Não temos tempo a temer, vamos juntos e juntas e respiramos luta!

A Articulação das Juventudes do Cerrado está viva, em pé e em luta!

Sem Cerrado! Sem água! Sem vida!

Hidrolândia (GO), 16 de dezembro de 2018.

Articulação Nacional das Juventudes do Cerrado.

1º Encontro Nacional das Juventudes do Cerrado: Trocar, lutar e resistir

Texto produzido por jovens do GT Comunicação Popular, do Encontro Nacional das Juventudes do Cerrado

Railson Lima

Cleide Prachata

Sabrina Gabrielly

Raniere Roseira

Nos dias 14 a 16 de dezembro de 2018 na cidade de Hidrolândia (GO) aconteceu o 1º Encontro Nacional das Juventudes Cerrado, onde estiveram presentes cerca de 100 jovens de diferentes estados do Brasil (MA, TO, MT, MS, PI, BA, RO, GO, PE, SP E MG). O evento foi organizado por vários movimentos sociais: MST, CPT, Moquibom, Cimi, Rede Cerrado são todo os movimentos que apoiam a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Nesses três dias de encontro os jovens discutiram diversos temas, divididos em oficinas e carrosséis de experiências, fazendo uma análise de conjuntura política sobre o governo que se inicia ano que vem.

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Na Romaria do Cerrado, realizada em setembro de 2017 na cidade de Balsas (MA), as juventudes escreveram uma carta política falando da importância de mais encontros entre a juventude e aí surgiu a ideia desse encontro. Rafael Oliveira, da CPT-TO, um dos organizadores do encontro, menciona que os jovens querem resgatar suas identidades, conhecer a luta da sua comunidade. “Porque uma coisa é saber e outra é saber e participar, saber como sua vó trata o ambiente no qual ela vive, qual a relação de vida que ela tem, e se isso é importante para justamente resgatar essa identidade e ser instrumento para permanência no seu território e comunidade”.

Segundo Rafael, o encontro tem vários objetivos. “De ouvir, trocar, experimentar novos sabores, novos conceitos, novas práticas, novas ações e fazer essa troca de intercambio para fortalecer essa reunião de jovens com tanta diversidade, para que isso não fique apenas nesse momento, mas que seja um processo construtivo de caminhar para frente”.

De acordo com Emília Carla, do Moquibom, uma das organizadoras do encontro, somos nós que vamos futuramente continuar defendendo o cerrado. “Já estamos defendendo o cerrado, nós enquanto movimentos sociais e nós mulheres defendemos o cerrado por que precisamos dele para sobreviver, por que o cerrado é que tem as águas, os frutos, os animais nos quais a gente precisa deles e eles necessitam da gente para viver”.

Quanto mais cedo a juventude ter essa consciência, esse protagonismo de defender o cerrado mais vida o cerrado terá, na opinião de Emília. Para ela “o encontro está superando as expectativas, pois imaginei que os jovens iriam ficar mais tímidos, e, no entanto, está todo mundo consciente do que veio fazer, cumprindo com suas responsabilidades”.

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O nome do encontro é juventudes no plural para evidenciar essa diversidade que tem na juventude do cerrado, e essa diversidade de juventude mulheres, LGBT, negras, indígena e todas essas diversidades de jovens que habitam o bioma. “Nessa perspectiva de como dá voz para os anseios das juventudes, é que pudéssemos trazer para esse encontro as experiências de auto-organização, de geração de renda, quebrando exatamente esse estereótipo de que: “juventude não quer nada com nada, que a juventude não faz nada e que ela está no território, mas não é vista”, destaca Aline Mialho, da CPT-MT, uma das organizadoras do encontro.

O encontro não acaba aqui, as e os participantes vão retornar para suas bases e comunidades e levar para aqueles jovens que não poderão vir, a importância e a necessidade de resistir e se auto organizar das mais diversas formas possíveis: coloridas, falando axé, saravá, aleluia.

#juventudesdocerrado

#emdefesadocerrado

Juventudes do Cerrado se reúnem para conectar suas vozes, resistências e culturas

1º Encontro Nacional das Juventudes do Cerrado

(Fonte: Coletivo de Comunicação do Cerrado)

Mais de cem jovens, vindos de todos os estados do bioma Cerrado, participam do 1º Encontro Nacional das Juventudes do Cerrado, que acontece entre os dias 14 e 16 de dezembro, em Hidrolândia (GO). O encontro é uma realização da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e tem como objetivo articular e valorizar os saberes dessas juventudes.

Juventude Guarani Kaiowá, da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais, Quebradeira de Coco, Sem Terra, Atingida por Barragens, Acampada, Assentada, Quilombola. Do Campo e da Cidade. Juventudes no plural porque essas jovens e esses jovens representam toda a diversidade e riqueza cultural presente no Cerrado. Os sonhos, as lutas e os desafios que enfrentam também são plurais.

O fechamento das escolas do campo, a saída do/a jovem do campo e o preconceito em relação à juventude (mito de que jovem não quer nada com a vida, não se importa com o que passa em sua comunidade) e a formação política são temas transversais – que perpassa por toda a programação do evento.

Durante o processo de mobilização para o encontro, as e os jovens ajudaram na construção desse momento e definiram temas que são fundamentais para as juventudes que estão no campo e na cidade: a memória da luta no fortalecimento da identidade dos povos e comunidades; a produção e a comercialização no campo; a comunicação popular; gênero e sexualidade; as águas do Cerrado; e feminismo.

“Se a gente luta por territórios livres, como que teremos um território livre se as mulheres não têm seus corpos livres?”, questiona Emília Carla, do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom) e da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais.

Campanha

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado surge a partir das demandas apresentadas pelos povos e comunidades do Cerrado. Seus principais objetivos são pautar e conscientizar a sociedade – nacional e internacional –, sobre a importância do Cerrado e os impactos dos grandes projetos do agronegócio, da mineração e de infraestrutura no bioma e para os povos que ali vivem. Além de dar visibilidade à realidade das comunidades e povos do Cerrado, como representantes da sociobiodiversidade, conhecedores e guardiões do patrimônio ecológico e cultural dessa região.

Depois de dois anos de atuação, a Campanha já reúne cerca de 50 organizações, movimentos sociais e pastorais de atuação nacional e internacional. Hoje, uma das ações que a Campanha é a petição que exige da Câmara dos Deputados a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 504/2010 que reconhece o Cerrado e a Caatinga como Patrimônio Nacional.

O ator Irandhir Santos, um dos apoiadores da Campanha do Cerrado, acredita que o bioma possui uma importância estratégica para o país. “Nos últimos anos, ações devastadoras veem atingindo o bioma Cerrado, o povo do Cerrado, a comunidade do Cerrado. O Cerrado que é o maior berço aquífero desse país. É praticamente a caixa d’água do Brasil”.

Petição: https://www.google.com/url?q=http://change.org/patrimonionacional&source=gmail&ust=1544788847840000&usg=AFQjCNGUgap-sTfG1_sc4byAtbWPLnYT8w”>change.org/patrimonionacional

Evento no Museu do Amanhã aproxima os cariocas do Cerrado

‘O Cerrado em toda parte’ terá presença de representantes de povos e comunidades tradicionais que
habitam o bioma

RIO DE JANEIRO – Durante toda a terça-feira, dia 09 de outubro, o Museu do Amanhã, na Praça Mauá, Centro
do Rio, se tornará uma extensão do Cerrado, a savana mais rica em biodiversidade do mundo. O evento “O
Cerrado em toda parte”, realizado em parceria com a ActionAid e a Rede Cerrado, busca sensibilizar a
população carioca para a importância do bioma e sua relação com os grandes centros urbanos de todo o
Brasil. Inscrições no site do Museu do Amanhã.

O Cerrado é considerado o “berço das águas”, dada sua riqueza hidrográfica. É nele que nascem três grandes
aquíferos do país, e preservá-lo é fundamental para garantir o acesso à água para toda a população. Mas
muito além do curso de seus rios, o bioma abriga uma enorme quantidade de espécies de flora e fauna, e
uma diversidade cultural vinda de populações tradicionais que, por viverem há gerações em harmonia com o
ambiente, são considerados seus guardiões.

Todo este patrimônio, no entanto, está sob ameaça, sendo os crescentes índices de desmatamento e dados
de conflitos rurais em territórios de Cerrado os principais termômetros de um processo silencioso de
destruição.

“Onde tem comunidade tradicional, tem Cerrado em pé, tem flora e fauna conservados, e tem rios fluindo.
Garantir a permanência dessas populações em seus territórios é a forma mais efetiva para barrar o avanço
do desmatamento e a manutenção da vegetação e da água”, diz Avanildo Duque, gestor de Programas e
Políticas da ActionAid. “O evento ‘O Cerrado em toda parte’ é um convite para que o Rio de Janeiro conheça
um pouco mais dessa história e se engaje na proteção desse bioma rico e vibrante”.

A programação está dividida em três partes. Pela manhã, um seminário mediado pela jornalista Flávia
Oliveira dará cara e voz ao Cerrado, numa mesa formada por representantes de populações tradicionais do
bioma. Uma quilombola, do estado do Tocantins, uma quebradeira de coco babaçu, do Piauí, e um
geraizeiro, de Minas Gerais, se encontrarão para trocar experiências, falar de seus modos de vida em
equilíbrio com o meio ambiente, e apontar os principais riscos que enfrentam hoje em seus territórios.
Participará desta conversa também Maria Emília Pacheco, da Fase e ex-presidente do Conselho Nacional de
Segurança Alimentar e Nutricional, para abordar a importância desses povos para o acesso à alimentação e
água no Brasil.

À tarde, serão exibidos cinco documentários de longa, média e curta metragem e cuja principal temática é o
Cerrado. As exibições serão seguidas de debate com os diretores. Durante todo o dia, atividades pedagógicas
acontecerão para as crianças, incluindo contação de histórias, oficinas e exposições. A programação
completa está abaixo.

“Houve um tempo em que os povos e comunidades tradicionais lutaram para ficar invisíveis, pois isso era
uma garantia de sobrevivência e permanência em seus territórios e manutenção dos seus modos de vida.
Atualmente, a luta é pela visibilidade, pela exposição do que está ocorrendo, como ataques e violências
sofridas. Falar sobre o Cerrado e sobre seus povos no Museu do Amanhã é trazer a discussão para as grandes
cidades, é expor a um público já acostumado a falar de Amazônia, as riquezas de outro bioma extremamente
importante para o país”, resume Katia Favilla, secretária executiva da Rede Cerrado.

“Queremos, com o evento, convidar a todos a conhecerem mais o Cerrado, que tem extrema importância
para a manutenção de um dos principais serviços ambientais brasileiros: o fornecimento de água. É importantíssimo que nossas crianças entendam, de maneira lúdica, o que é um aquífero; que compreendam que o Cerrado não é um deserto, estéril. Serão encontros para todas as idades”, destaca o editor de Conteúdo do Museu do Amanhã, Emanuel Alencar.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

Programação manhã:
Seminário “O Cerrado em toda parte”
Local: auditório do Museu do Amanhã

10h ‐ Mesa institucional de abertura
Ricardo Piquet, diretor‐presidente do Museu do Amanhã
Katia Favilla, representante da Rede Cerrado
Isolete Wichinieski, representante da Campanha Nacional pela Defesa do Cerrado
Avanildo Duque, representante da ActionAid Brasil

10h15min às 13h – Roda de conversa mediada pela jornalista Flavia Oliveira com a quebradeira de coco
babaçu Dona Socorro (MIQCB), a quilombola Fatima Barros (ANQ), o geraizeiro Samuel Caetano (Articulação
Rosalino e CAA‐NM) e a antropóloga Maria Emilia Pacheco (Fase e ex-presidente do CONSEA)

Bloco 1: O que é o Cerrado, que importância tem, quem vive nele, como vive.

Bloco 2: qual risco o Cerrado corre, como seus povos estão sendo ameaçados, como as águas e a vegetação
têm sido comprometidas pelo modelo de desenvolvimento do país.

Bloco 3: ações da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado no Brasil e no exterior, para proteger os povos
e o bioma.

Programação tarde:

Sessão de filmes
Local: auditório do Museu do Amanhã

14h ‐ Sertão Velho Cerrado
Brasil, 2018 ‐ André D’Elia
Preocupados com o fim do Cerrado no estado de Goiás, os moradores da Chapada dos Veadeiros buscam
alternativas de desenvolvimento para sua região. O diretor André D’Elia apresenta brevemente este filme
que foi o vencedor do Prêmio do Público na Competição Latinoamericana da 7ª Mostra Ecofalante de
Cinema Ambiental.

16h ‐ Guardiões do Cerrado
Brasil, 2017, 12’ – Fabio Erdos
Em três emocionantes minifilmes, povos indígenas, quilombolas e quebradeiras de coco babaçu contam
sobre seu amor pelo Cerrado, como seus modos de vida protegem o bioma e as ameaças de devastação que
vem sofrendo. O diretor Fabio Erdos apresenta brevemente os desafios que enfrentou para realizar as
filmagens em territórios sob grande pressão e violência.

16h45m ‐ Seu churrasco tem soja?
2017 – 35’ – Thomas Bauer
O Brasil é um dos maiores exportadores de soja. Mas o que significa para as populações locais o avanço do
chamado “ouro verde”? Pequenos agricultores e indígenas falam sobre as dificuldades diante da perda de suas terras e territórios e os males causados pelos agrotóxicos. Durante uma visita a um agricultor orgânico
na Alta Áustria, é possível observar como essa realidade pode ser diferente. O diretor Thomas Bauer
apresenta brevemente esse filme que circulou em festivais no Brasil e na Europa.

Programação todo o dia (10h às 17hs):
Atividades pedagógicas
Local: Terreiro de Curiosidades

Se esta Terra falasse
10h – Especialistas do Museu de Mineralogia Aitiara (MuMA) apresentam a formação do aquífero Guarini,
uma das reservas hídricas mais importantes do mundo localizada no Cerrado, e demonstram o
funcionamento do arenito Botucatu, rocha porosa do aquífero que absorve água.

11h30 – Artista plástica Marcia Porto conduz oficina de pintura coletiva com pigmentos terrosos a partir de
informações sobre o Cerrado. Ao final da oficina, os participantes montam painel com suas pinturas.
Programação Tarde
Se esta Terra falasse

14h – Especialistas do Museu de Mineralogia Aitiara (MuMA) apresentam a formação do aquífero Guarini,
aquífero Guarini, uma das reservas hídricas mais importantes do mundo localizada no Cerrado, e
demonstram o funcionamento do arenito Botucatu, rocha porosa do aquífero que absorve água.

14h45 – Apresentação das Encantadeiras, grupo musical de quebradeiras de coco babaçu, sobre sua defesa
das palmeiras que só crescem na região do Cerrado, e seu canto de trabalho na quebra do coco da palmeira,
seu meio de vida.

15h30 – Artista plástica Marcia Porto conduz oficina de pintura com pigmentos terrosos a partir de
informações sobre o Cerrado.

Sobre a ActionAid
A ActionAid é uma organização internacional de combate à pobreza, que atua em projetos de
desenvolvimento nos temas que são considerados estruturantes das desigualdades. No Brasil, desenvolve
ações em segurança alimentar, direitos das mulheres, educação, e participação democrática. Em 2016,
participou do grupo que criou a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, por entender que garantir o
direito das populações tradicionais e seus modos de vida é fundamental para um desenvolvimento justo e
sustentável.

Sobre a Rede Cerrado
Composta por mais de 50 entidades da sociedade civil associadas, a Rede Cerrado trabalha para a promoção
da sustentabilidade, em defesa da conservação do Cerrado e dos seus povos. Indiretamente, a Rede Cerrado
congrega mais de 300 organizações que se identificam com a causa socioambiental do bioma.

Sobre o Museu do Amanhã
O Museu do Amanhã é um museu de ciência que explora as oportunidades e os desafios que a humanidade
terá de enfrentar nas próximas décadas a partir das perspectivas da sustentabilidade e da convivência.
Visitado por mais de 3 milhões de visitantes desde a sua inauguração em dezembro de 2015, o Museu do
Amanhã é um exemplo de parceria público-privada, criado por iniciativa da Prefeitura do Rio de Janeiro,
gerido pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG). Com patrocínio Máster do Banco Santander e uma
ampla rede de patrocinadores que inclui empresas como Shell, IBM, IRB‐Brasil RE, Engie, Grupo Globo, CCR,
Deloitte, Intel, Cisco, Fundation Engie, JCDecaux e Suvinil, o museu foi originalmente concebido com apoio da
Fundação Roberto Marinho. Além desses, Governo do Estado, por meio da Secretaria do Ambiente, e
Governo Federal, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), apoiam a instituição

Projeto de Vida, Agricultura Familiar e Agroecologia são temas do II Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio

Evento reúne mais de 140 jovens na Comunidade Quilombola Carrapiché, no município de Esperantina (TO), entre os dias 24 e 26 de agosto

O que Agricultura Familiar e Agroecologia tem a ver com a construção de um Projeto de Vida? Para quem vive em uma realidade rural de nosso país essa combinação pode fazer muito sentido. Com o objetivo de oferecer as juventudes da região do Bico do Papagaio, Tocantins, um espaço de reflexão, formação e discussão sobre suas vocações, realidades e sonhos, será realizado o II Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio.
O evento acontecerá no município de Esperantina (TO), na Comunidade Quilombola Carrapiché, entre os dias 24 e 26 de agosto. Mais de 140 de jovens, de dez municípios da região e mais de 40 comunidades rurais, são esperados para participar desta segunda edição do Encontro, que é organizado pela Rede Bico Agroecológico – uma articulação que reúne organizações, sindicatos, movimentos e agricultores familiares que atuam no Bico do Papagaio, extremo norte do estado tocantinense.

Para a jovem quilombola Cleudiane Prachata (28), presidente da Comunidade Quilombola Prachata e integrante da COEQTO (Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins), o Encontro possui grande importância para as juventudes da região. ‘’Será possível apresentar aos jovens diferentes possibilidades para se viver e se alimentar em nosso meio’’, afirma Cleudiane. A jovem ainda destaca que espera que o encontro ‘’possibilite que a juventude encontre maneiras de se organizar e fortalecer sua integração regional’’.
Apresentando o tema ‘’Projeto de vida, Realidade das Agriculturas familiares e Agroecologia’’, a programação do evento abordará conteúdos relacionados às realidades rurais dos participantes. Agroecologia, agricultura familiar, culturas tradicionais, comunicação popular, cidadania e a luta por direitos das juventudes fazem parte do itinerário formativo do Encontro, que além do caráter formativo, também visa oferecer aos jovens um espaço de integração e celebração.

Selma Yuki, agrônoma e assessora técnica da Organização APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura do Tocantins), acredita que o evento tem o objetivo de contribuir para que as juventudes reflitam sobre suas realidades e a relação com seus projetos de vida. ‘’Como a realidade que vivemos pode influenciar nas escolhas que fazemos? Esperamos que os jovens participantes, de maneira autônoma, façam o exercício de tentar responder a essa e outras questões’’, partilhou Yuki. ‘’Estamos trabalhando para que o Encontro seja um espaço fértil de aprofundamento de ideias e discussões sobre maneiras de se transformar alguns contextos desafiadores que fazem parte, hoje, de nossa realidade rural brasileira’’, finalizou a assessora.

Ao falar sobre suas expectativas para o evento, o jovem José Araújo (20), coordenador dos jovens do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de São Sebastião, Buriti e Esperantina, alerta para o fato de que muitos jovens do Bico do Papagaio são taxados como ‘’irresponsáveis’’. Para José ‘’o encontro também contribuirá para transmitir aos jovens confiança e apoio para a melhoria da atuação em suas comunidades e organizações de origem’’. E continua: ‘’ Queremos mostrar que as juventudes são importantes e devem participar ativamente do desenvolvimento de suas comunidades, municípios e até de nosso país’’, conclui Araújo.

O evento recebeu o apoio da Misereor, da Fundação Interamericana (IAF), da COEQTO e da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria. O Encontro também conta a com a parceria da Comissão Pastoral da Terra (Regional Araguaia-Tocantins) e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), além da acolhida e organização da Comunidade Quilombola Carrapiché.

Sobre a Rede Bico Agroecológico
A Rede Bico Agroecológico contempla e articula agricultores familiares e mais de vinte organizações sociais que atuam no campo da agroecologia e da agricultura familiar no Bico do Papagaio, Tocantins. Dentre as organizações integrantes, estão a APA-TO, a Associação Regional das Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP), o Movimento Interestadual das Quebradas de Coco Babaçu (MIQCB), a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Tocantins (FETAET), Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da região, Associações, Cooperativas, entre outras instituições.

Texto: Bruno Santiago Alface/APA-TO
Informações: APA-TO/Rede Bico Agroecológico
Contato: bruno@apato.org.br | 063 3456-1407 | 011 99985-0378

Relatório Matopiba: quais os custos ambientais e sociais do negócio de terras?

Por FIAN/Brasil - Foto de destaque Rosilene Millioti/FASE

Os impactos da financeirização de terras na região do Matopiba são tema do relatório “Os Custos Ambientais e Humanos do Negócio de Terras”, que descreve e analisa os impactos ambientais e sobre os direitos humanos causados pela expansão do agronegócio e pela especulação de terras na região Norte/Nordeste do Brasil, conhecida como Matopiba, que engloba áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

“A região tem sido vítima de uma expansão agressiva do agronegócio, em particular de monoculturas de soja, que trazem consigo a expropriação de comunidades rurais e destruição ambiental. A expansão do agronegócio e a crescente especulação de terras têm sido alimentados por fundos vindos de agentes financeiros internacionais, em particular de fundos de pensão dos EUA, Coreia do Sul, Reino Unido, Alemanha, Luxemburgo, Suécia e Holanda”, destaca Flávio Valente.

O Relatório “Os Custos Ambientais e Humanos do Negócio de Terras” é fruto de duas missões de investigação realizadas em setembro de 2017 e janeiro de 2018. A primeira missão documentou as consequências das apropriações de terras para as comunidades no Estado do Piauí e reuniu-se com autoridades do governo brasileiro. A segunda missão ocorreu na Europa e concentrou-se no envolvimento de fundos de pensão da Holanda, Alemanha e Suécia na expansão do agronegócio e nas apropriações de terras na região.

Fundos de investimentos internacionais

Um dos apontamentos do documento é o processo de transformação da terra em um bem financeiro. “Agentes financeiros (como bancos, empresas de corretagem, seguradoras, fundos de pensão, fundos de investimento, agências de investimento e fundos de capital de risco), estão, cada vez mais, vendo a terra como uma boa opção de investimento. Esses agentes financeiros canalizam seus fundos para a compra de terras e para atividades relativas ao uso da terra, de forma a diversificar seus investimentos, aumentar os lucros e diminuir os riscos”, aponta Flávio Valente.

O Relatório evidencia que as monoculturas de soja começaram a adentrar na região do Matopiba no início dos anos 2000 e estão se expandindo desde então. “Devido à crise financeira de 2007/2008, o negócio com terras se tornou mais rentável que a produção agrícola. Isso levou à criação de empresas relacionadas à terra que não se envolviam diretamente com a produção, mas se dedicavam completamente à aquisição, venda, arrendamento e/ou administração de terras. A falsificação de títulos de propriedade é uma das características desse negócio. Pois é uma forma de oficializar (ou ao menos simular) a propriedade de terras adquiridas ilegalmente. Os agentes que atuam na região são apoiados por agentes financeiros internacionais que investem grandes quantias no negócio de terras, o que alimenta o atual processo de especulação e consequentemente termina e determina a expulsão violenta da população”.

A pesquisa verificou que o fundo de pensão dos EUA, TIAA, possui quase 300 mil hectares de terra no Brasil, por volta de um terço dessas terras estão nos estados da região do Matopiba. A maior parte dessas terras é administrada por dois fundos dedicados às terras agrícolas, os TIAA-CREF Global Agriculture LLC I e II (TCGA I e II), que somados valem US$ 5 bilhões. A maior parte dos que investem no TCGA I e II são investidores institucionais, fundos de pensão em particular. Dentre eles estão o Ärzteversorgung Westfalen-Lippe (ÄVWL) da Alemanha, que investiu US$ 100 milhões no TCGA I, o ABP da Holanda, que investiu US$ 200 milhões no TCGA II, e o segundo Fundo de Pensão Nacional Sueco (AP2), que investiu um total de US$ 1,2 bilhões no TCGA I e II. O TIAA e esses outros fundos se apresentam como investidores “responsáveis” e são parte de vários esquemas de responsabilidade social corporativa (CSR).

“Esses fundos de pensão operam por meio de complexas redes de investimentos, de forma a contornar as medidas previstas na lei brasileira que limitam a propriedade de terras por empresas estrangeiras”, denuncia Valente.

As violações dos direitos humanos e a destruição ambiental

A missão internacional de investigação de setembro de 2017 documentou os impactos sociais e ambientais causados pela expansão do agronegócio e pela especulação de terras na região do Matopiba em 7 comunidades no sul do Piauí. Os resultados mostraram que a população local sofre com as graves consequências do desmatamento, da perda da biodiversidade e da contaminação generalizada do solo, da água e do gado por agrotóxicos.

 

“Além disso, o uso de violência contra líderes comunitários está aumentando, assim como as disputas por água, que são agravadas pelas mudanças nos padrões de chuva devido à degradação ambiental. A população local está perdendo suas terras, o que causa a destruição de seus meios de subsistência, rupturas nas comunidades e insegurança alimentar e nutricional. Em muitos casos as pessoas se veem forçadas a migrar para as favelas nas grandes capitais.”, aponta Flávio Valente.

O documento ressalta que o Estado brasileiro – a nível federal, estadual e municipal – violou suas obrigações relativas aos direitos humanos ao promover o avanço do agronegócio na região, ao não proteger a população local das ações dos grileiros locais, das empresas do agronegócio e dos investidores, e ao não estabelecer uma prestação de contas. “Não respeitou e protegeu o direito coletivo à terra da população local e as maneiras específicas com que eles utilizam e administram seus territórios”, comenta Flávio Valente.

Para ter acesso ao relatório, clique aqui.

relatorio matopiba

Violência em comunidade do Cerrado: pistoleiros atacam no Tocantins

Por Rafael Oliveira, CPT Araguaína/Tocantins

A comunidade camponesa Tauá, localizada no munícipio de Barra do Ouro (TO), vive situação de violento conflito. Nas últimas duas semanas, casas e roças das famílias camponesas foram destruídas por pistoleiros supostamente a mando dos grileiros Emílio Binotto e seu filho, Edilson Binotto, empresários cuja família tenta expulsar há mais de uma década trabalhadores e trabalhadoras da comunidade tradicional.

Membros do grupo também foram ameaçados e intimidados pelos capangas que rondam diariamente a área. Em um vídeo gravado durante uma das ações dos pistoleiros, o líder do bando, conhecido por Fernandão, afirma que todos os barracos construídos recentemente seriam derrubados. Nessa ocasião, mesmo sendo filmados, os agressores cortaram com motosserra e jogaram ao chão um barraco de madeira e palha que a família acabara de erguer.

Atualmente não há nenhuma ordem judicial que permita a destruição de barracos ou despejo de qualquer morador da comunidade. Muito pelo contrário: a criação de dois assentamentos foi publicada em portaria oficial do Incra no início deste ano, e outras 10 áreas estão passando por processos administrativos dentro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para também serem criados assentamentos que atenderão às demandas das famílias camponesas.

Em audiência realizada em agosto de 2017, o juiz da Comarca de Goiatins determinou realização de perícia judicial na área para identificar quem de fato tem a posse das terras, quais as benfeitorias, quais são áreas da União entre outros quesitos. No entanto, estranhamente o requerente da ação – a família Binotto – não realizou o pagamento das custas periciais dentro do prazo determinado pelo juiz.

Os casos de violência são denunciados há anos pelas famílias camponesas, porém não há nenhuma investigação em curso pela Polícia Civil Agrária. Na expectativa de que medidas urgentes fossem tomadas, no último dia 17 de julho, a comunidade Tauá, com apoio do regional Araguaia-Tocantins da Comissão Pastoral da Terra (CPT), denunciou a situação ao Incra (Ouvidoria Agrária Regional e Nacional), Defensoria Pública, Ministério Público Federal, Polícias Militar e Civil.

A demora do Incra e do Programa Terra Legal em darem rápido andamento às etapas de criação dos assentamentos e regularização fundiária é peça chave para o agravamento dos conflitos. Diversas audiências públicas e reuniões já foram realizadas com esses órgãos, porém, a morosidade e os compromissos não cumpridos impedem a finalização dos processos.

Uma sistemática destruição do Cerrado
A gleba Tauá tem sido o alvo constante de desmatamento realizado pelo empresário catarinense Emilio Binotto, o qual grilou essa área para plantar soja, milho e criar gado. Em maio de 2015, ao menos cinco tratores com correntões foram responsáveis por derrubar todo o Cerrado que encontravam pela frente.

À época, o sojeiro pretendia desmatar uma área equivalente a cerca de 800 campos de futebol, mas esta estimativa já foi superada. A área total desmatada desde a chegada de Binotto pode atingir 11 mil hectares. Acompanhadas pela CPT de Araguaína (TO), cerca de 20 famílias tradicionais (que vivem há mais de 50 anos nesta gleba) e outras 66 famílias que passaram a ocupar as terras na última década, estão ficando ilhadas e encurraladas diante da força brutal do desmatamento e da violência exercida pelos funcionários do sojeiro-grileiro, Sr Binotto.

Rios, córregos e nascentes estão desaparecendo devido ao assoreamento ocasionado pela devastação da natureza. “Antes eu andava por essas terras e sabia exatamente onde ficava cada grota d’água, cada caminho para as casas das famílias amigas. Hoje em dia, com esse desmatamento, eu não reconheço mais nada, não sei mais caminhar por aí”, denuncia dona Raimunda.

Em muitos casos, o corte desenfreado das árvores chega a beirar as casas das famílias, deixando o local impróprio para desenvolver qualquer tipo de agricultura familiar. “Essa prática serve também como forma de pressionar as famílias para que elas saiam dali, pois nota-se que o grileiro desmatou, mas não plantou nada. Mas o pior vem depois, quando a soja ou o milho são plantados nos arredores e são despejados os diversos tipos de agrotóxicos”, aponta o agente e coordenador da CPT, Pedro Ribeiro.

Uma sistemática tentativa de expulsão dos camponeses
Assim, como tantos outros casos, as causas do atual conflito na gleba Tauá remetem à arrecadação de uma área de 17,7 mil hectares pelo extinto Grupo Executivo de Terras do Araguaia Tocantins (GETAT), em maio de 1984, à revelia das populações que ali viviam e trabalhavam.

Com isso, centenas de camponeses tiveram seu modo de vida tradicional alterado de forma drástica. Essa imensa área da União, a partir de 1992, passou a ser cobiçada por especuladores do sul do Brasil. Considerando que essas terras estavam “sem dono”, iniciaram um processo de expulsão dos moradores tradicionais, de cercamento dos campos e de desmatamento ilegal. Toda essa violência foi registrada junto ao Ministério Público Federal, em 2007.

A partir de 2009, houve novas tentativas de expulsar os camponeses, com o advento do Programa Terra Legal. Uma parte da gleba foi dividida entre 14 “laranjas” que iniciaram processos para regularizar essas terras junto ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Neste contexto ocorreram vários episódios de queima de barracos, envenenamento de rios, uso ilegal de força policial local em apoio aos fazendeiros, desmatamento, pistolagem, na tentativa evidente de expulsar as famílias.

Diante da onda de violência que se alastra entre comunidades camponesas em luta por terra, a CPT vem expressar seu apoio e sua solidariedade às pessoas agredidas e externar seu repúdio contra os autores e cúmplices dessas violências. Este é um cenário que infelizmente constatamos também em outras regiões do país.

Conflitos em 2017
De acordo com levantamento do regional Araguaia-Tocantins da Comissão Pastoral da Terra (CPT), durante o ano de 2017, em todo o estado cerca de 550 famílias camponesas foram despejadas dos locais onde viviam por meio de decisões judiciais. Outras 829 famílias foram ameaçadas de despejos. Neste período, foram registrados 47 conflitos por terra envolvendo quase 2.500 famílias.

Violência contra pescadores e camponeses no norte de MG, será debatida na Câmara dos Deputados

A Audiência acontecerá na CDHM da Câmara dos Deputados para discutir as violações aos Direitos Territoriais dos Povos das Águas. Conflitos agrários aumentaram 22,95% no estado

Os graves conflitos agrários no norte de Minas Gerais (MG) estarão em debate amanhã (12/07), às 9:30hs, na Audiência Pública que será realizada na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Na ocasião serão discutidos os conflitos fundiários na Região Norte de Minas Gerais, em especial as violações aos Direitos Territoriais dos Povos das Águas. Participarão da audiência, os representantes das comunidades pesqueiras e camponesas do estado de MG, além de D. Leonardo Steiner, Secretário Geral da CNBB, e representantes da Secretaria de Patrimônio da União, da Advocacia Geral da União e do Ministério Público de MG.

A audiência atende ao requerimento de autoria do Deputado Federal Padre João (PT/MG) e é resultado da sensibilização feita por pescadores e representantes das populações tradicionais de Minas Gerais, que estiveram em Brasília no mês de maio em reuniões com parlamentares , representantes do Ministério Público, do Conselho Nacional de Direitos Humanos e da CNBB para relatarem a situação de violência no norte do estado. Em levantamento feito pelo Conselho Pastoral dos Pescadores e pela Comissão Pastoral da Terra, 16 comunidades passam por conflitos parecidos, que consistem principalmente em decisões de reintegração de posse para terras públicas ocupadas por comunidades tradicionais. Em alguns casos, pescadores e agentes de pastoral têm sido alvos de processos de criminalização.

Dados da mais recente edição do Caderno de Conflitos da Comissão Pastoral da Terra, que trazem números de 2017, mostram que diferente de alguns estados que diminuíram a quantidade de conflitos registrados, os dados de violência no campo, em Minas Gerais, aumentaram. Os conflitos por terra em 2017 no estado tiveram um aumento de 22,95% em relação ao ano de 2016, totalizando 61 casos e envolvendo 5502 famílias. No ano de 2016 o estado mineiro ocupava a décima colocação, empatado com o Acre, com 47 conflitos registrados, no ranking dos estados mais violentos no campo. No ano de 2017 o aumento de casos fez com que Minas Gerais subisse sua posição nesse triste ranking para a sexta colocação no número de conflitos. Já quando se trata de conflitos por água, o estado de Minas Gerais lidera o número de conflitos no Brasil, 72 no ano de 2017. Um aumento de 19,4% em relação ao ano de 2016.

Desde quando a Comissão Pastoral da Terra passou a registrar, no ano de 2002, os conflitos por água, 2017 foi o ano que registrou o maior número de conflitos por água no Brasil, 197 no total. Ainda segundo os dados do Caderno de Conflitos da Comissão Pastoral da Terra de 2017, ribeirinhos é a categoria que esteve envolvida em 72 conflitos pela água, 37%. Pescadores e pequenos proprietários, cada uma dessas categorias esteve envolvida em 28 conflitos pela água, 14%. Como territórios pesqueiros envolvem não apenas a parte terrestre, mas também o acesso a rios e lagos, os dados de conflitos por terra e água em conjunto demonstram a gravidade da situação.

Pescadores de Canabrava são revistados por policiaisOs números comprovam o que as comunidades tradicionais do norte do estado têm experienciado no dia a dia, através de ataques realizados por jagunços e fazendeiros da região. Investigações recentes da polícia civil de Montes Claros (MG) descobriram a existência de jagunços contratados pelos latifundiários, com o objetivo de atacar e matar camponeses. Além dos ataques diretos realizados pelos fazendeiros, o próprio estado, através de decisões judiciais equivocadas, tem dado reintegração de posse à fazendeiros, em áreas que são comprovadamente da União.

Um dos exemplos dessa postura arbitrária foi a situação recente enfrentada pela comunidade quilombola pesqueira e vazanteira de Croatá, localizada no município de Januária (MG). Composta por 64 famílias, os quilombolas tem seu território tradicional localizado em área de domínio da União, às margens do rio São Francisco. A comunidade é certificada na Fundação Cultural Palmares e tem processo de titulação aberto no INCRA-MG, para o reconhecimento do território quilombola. A 1ª fase do laudo antropológico está em fase de conclusão. Apesar disso, teve decisão liminar de reintegração de posse decidida em desfavor da comunidade, no dia 23 de abril de 2018.

“Estamos no território da União. Nós não estamos em outro território. Estamos no nosso direito, de comunidade pesqueira e vazanteira e quilombola de Croatá. Cadê o meu direito? Será que o governo, juiz, deputado, prefeito, até mesmo os bispos, não podem dar apoio à nossa comunidade? Então nós estamos precisando de todos eles agora para tomar a providência”, defendeu o pescador quilombola da comunidade de Croatá, Arnaldo Vieira.

Fonte: Assessoria de Comunicação do CPP

Campanha pede doação para famílias que sofreram despejo no Tocantins

Dezenove famílias foram retiradas da área que moravam há mais de dez anos e agora vivem em situação precária

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Famílias que plantavam e colhiam seus alimentos se veem hoje em uma situação de precariedade e necessitando de doação de alimentos para poderem sobreviver. Essa é a situação da comunidade Gabriel Filho, localizada em Palmeirante (TO). Isso é consequência do despejo que as 19 famílias sofreram em abril deste ano por determinação da Justiça.

As famílias moravam há onze anos em uma área que é reclamada por Paulo de Freitas, que responde um processo criminal acusado de ter assassinado uma das lideranças dessa comunidade em 2010. As pessoas permanecem impedidas de voltar às suas casas pela Justiça. A roça plantada na última temporada está se perdendo. As famílias plantaram arroz, feijão, mandioca, milho entre outros alimentos diversificados. As criações de galinha, porcos e gado seguem o mesmo destino.

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As crianças deixaram de ir à escola porque não há condições estruturais e psicológicas de manter a frequência nas aulas. Uma das moradoras conta que passou no vestibular e iria iniciar este ano o curso de pedagogia. “Eu quero ser professora nas comunidades”, conta. O plano dela para pagar a mensalidade já estava formado: vender a farinha de puba, produzida por ela e pelo marido. Hoje, expulsa de sua casa e com os planos interrompidos, ela diz que “roubaram até a minha liberdade de sonhar”.

Processo criminal
O processo criminal que apura a morte da liderança Gabriel Filho se arrasta desde 2012. “Em suma, morte em 2010, denúncia no começo de 2012 e entre a denúncia e o dia de hoje apenas nove decisões judiciais em mais de seis anos! Sendo que até o momento a instrução da primeira fase do tribunal do júri não foi sequer concluída. São quinze meses sem qualquer decisão e praticamente sete meses sem andamento nenhum aguardando movimentação”, diz a Defensoria Pública do Tocantins, em documento oficializado em janeiro de 2018 na Promotoria de Justiça da Comarca de Filadélfia.

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Por outro lado, no que se refere à Ação Possessória requerida por Paulo de Freitas, que culminou na expulsão das famílias, segundo apuração da Defensoria Pública, a Justiça demonstrou agilidade “o processo para despejar os trabalhadores ocupantes há 10 anos recebeu desde abril de 2017 até hoje [fevereiro de 2018] 109 movimentações (…) Apenas no ano de 2018 já contamos quatorze movimentações. No dia 24 de janeiro e apenas em um dia foram dez movimentações”.

Uma campanha para arrecadação de alimentos e doação em dinheiro começou para minimizar o sofrimento das famílias. Para quem quiser fazer uma doação o depósito deve ser feito na conta institucional da Comissão Pastoral da Terra:

Banco do Brasil
Agência 0638-6
Conta Corrente 8082-9
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA
CNPJ 02.375.913/0008-94
Enviar confirmação de depósito para cpt.tocantins@gmail.com

Conheça mais sobre as comunidades geraizeiras

As comunidades tradicionais geraizeiras de fundos e fechos de pasto do Cerrado, que se encontram sobretudo na região Oeste da Bahia, são formadas por famílias que vivem e ocupam secularmente vastas extensões de terras devolutas do Estado. Preservam um modo de vida baseado na ocupação coletiva das terras, organizado em vizinhanças, têm como atividade principal a criação de gado à solta, que se alimenta da pastagem nativa. Praticam também o extrativismo dos frutos do Cerrado e utilizam as plantas medicinais para cura de diversas enfermidades. A principal luta dessas comunidades é pela preservação de seus territórios, que são ameaçados pela expropriação por parte das grandes fazendas, com o apoio da pistolagem e do aparato do Estado.

Bons conhecedores do Cerrado e das suas espécies, os geraizeiros são populações tradicionais que se adaptaram com sabedoria às características do bioma e às suas possibilidades de produção. Assim, garantem a subsistência familiar e comunitária ao longo do ano por meio do plantio de lavouras diversificadas como milho, feijão, mandioca, frutas e verduras. Os produtos que sobram são comercializados em comunidades vizinhas ou em feiras, beneficiados ou in natura. A criação de animais “na solta” também minimiza os custos e obedece a uma lógica secular que reconhece a capacidade da natureza de alimentar os seus rebanhos.

Com tal filosofia de vida e de produção, as “comunidades dos gerais” resistem à cultura das cercas, à prática da propriedade privada e da monocultura. Estes agricultores e agricultoras, em geral, vivem sobre a mesma terra que seus pais e avós.

Fontes: Cerratinga e ActionAid Brasil

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