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Autor: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Campanha em Defesa do Cerrado celebra 10 anos de luta, resistência e articulação

Live especial no dia 10 de setembro reunirá representantes de povos e comunidades do Cerrado, organizações e movimentos para celebrar uma década de mobilização e apresentar novas iniciativas da Campanha

Em setembro de 2026, a Campanha em Defesa do Cerrado completa 10 anos de articulação em defesa dos povos, comunidades, territórios, águas e da sociobiodiversidade do Cerrado.

Para celebrar essa trajetória, no dia 10 de setembro, às 19h (horário de Brasília), a Campanha realizará uma live especial reunindo representantes de organizações, movimentos, povos e comunidades que fazem parte dessa caminhada e que, a partir de diferentes territórios, constroem cotidianamente a resistência em defesa do Cerrado.

Mais do que relembrar uma década de atuação, o encontro será também um momento para olhar para os desafios do presente e para os próximos anos de luta. Ao longo de sua história, a Campanha se consolidou como uma articulação nacional que conecta organizações da sociedade civil, movimentos sociais, comunidades tradicionais, povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades camponesas e tantos outros grupos que defendem o Cerrado diante do avanço do desmatamento, da grilagem, da mineração, do agronegócio predatório e de grandes empreendimentos.

Durante a live, a Campanha também apresentará seu novo site, renovando seu espaço de comunicação e mobilização, e a iniciativa Vote pelo Cerrado, que busca colocar a defesa do bioma, de seus povos e de seus territórios no centro do debate político e eleitoral de 2026.

A celebração dos 10 anos é, portanto, um momento de memória, encontro e renovação de compromissos. Uma oportunidade para reconhecer as muitas vozes que construíram essa história e reafirmar que defender o Cerrado é defender a vida, as águas, os territórios e os modos de vida de seus povos e comunidades.


Serviço:

Live celebrativa – 10 anos de Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

10/09, 19h00 (horário de Brasília)

Transmissão: https://www.youtube.com/CampanhaemDefesadoCerrado

Comunidades denunciam impactos da pulverização aérea durante durante Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, em São Luís (MA)

Encontro reuniu comunidades, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores e representantes do Ministério Público para discutir estratégias de enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos sobre a saúde, o meio ambiente e os direitos das populações atingidas

por Alcileia Torres

Foto: Reprodução RAMA

A 3ª Reunião da Coordenação Ampliada do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FNCIAT) foi realizada nos dias 3 e 4 de agosto, no Auditório do Centro Cultural e Administrativo do Ministério Público do Estado do Maranhão (MPMA), em São Luís (MA). A programação contou com representantes do Ministério Público, instituições de pesquisa, universidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil e teve como objetivo fortalecer a atuação nacional no enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos, com ênfase na pulverização aérea.

Formado por 33 fóruns estaduais e regionais distribuídos pelo país, o Fórum Nacional reúne organizações, movimentos e instituições que atuam na denúncia e no enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos e transgênicos. Nesta edição, realizada no Maranhão, a pulverização aérea esteve entre os principais temas debatidos, diante do avanço dessa prática sobre comunidades quilombolas, camponesas e tradicionais.

Durante a programação, as lideranças quilombolas Marli Borges e Raimunda Nonata, das comunidades Guerreiro e Cocalinho, localizadas no município de Parnarama (MA), denunciaram as consequências da pulverização aérea nos territórios. Entre os impactos relatados estão a contaminação da água, os prejuízos às roças e à produção de alimentos, a perda de espécies nativas do Cerrado e o aumento de problemas respiratórios e de pele entre as famílias.

Para Marli Borges, liderança quilombola da comunidade Guerreiro, Parnarama (MA), que esteve presente na reunião, os impactos dos agrotóxicos ultrapassam os danos à saúde e ao meio ambiente, pois comprometem as condições de vida e de permanência das comunidades em seus territórios.

Foto: Reprodução RAMA

“Essa pulverização aérea tanto de avião como a de drone tá acabando com nós, e eles tão usando ela como uma arma química justamente pra querer expulsar a gente dos nossos territórios. Mas nós não vamos pra cidade, se a gente ir pra cidade vai só morrer lá. Nós somos igual uma árvore, aqui a gente nasceu, cresceu  e se rancar a gente daqui, a gente vai morrer”, afirma Marli Borges, em depoimento à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Somente no primeiro semestre de 2026, foram registradas 255 notificações de pulverização aérea, envolvendo 209 comunidades de 33 municípios maranhenses. Desde 2024, o estado contabiliza 608 ocorrências. Os dados foram apresentados por Ariana Gomes, da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA).

A programação também contou com a participação da geógrafa Larissa Bombardi, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). Durante o debate, ela destacou que sete dos dez ingredientes ativos mais comercializados no Brasil são proibidos na União Europeia devido aos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. A pesquisadora também alertou para o crescimento do uso do fungicida Mancozebe no Maranhão, substância banida na União Europeia desde 2021.

Representando a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Lenora Rodrigues evidenciou experiências de acompanhamento das denúncias e estratégias de enfrentamento aos casos de contaminação por agrotóxicos nos territórios rurais. 

A 3ª Reunião da Coordenação Ampliada foi encerrada com a definição de encaminhamentos para fortalecer a atuação das comunidades, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e órgãos públicos. Diante do avanço da pulverização aérea, o enfrentamento aos agrotóxicos também se reafirma como uma luta em defesa das águas, da soberania alimentar, da biodiversidade do Cerrado e do direito dos povos e comunidades de permanecerem em seus territórios.

Ofício das quebradeiras de coco babaçu é reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional 

Ofício das quebradeiras de coco babaçu é reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional 

por Alcileia Torres

Reconhecimento fortalece a luta das mulheres quebradeiras de coco babaçu e valoriza modo de vida que cultuado ao longo de gerações

 

A Lei nº 15.431/2026, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União no dia 11 de junho de 2026, reconhece o saber tradicional das quebradeiras organizadas pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que hoje está presente nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.

Para as mulheres quebradeiras de coco esse marco valoriza os saberes que são transmitidos de geração em geração nos territórios, as práticas de subsistência comunitária e fortalece a luta pela garantia de direitos. 

“Foi uma alegria muito grande pra gente que é quebradeira de coco saber que nossa matéria-prima foi reconhecida pelo governo federal. Porque é uma coisa que a gente vem lutando há muito tempo por reconhecimento. Porque a gente sabe que nós temos os nossos direitos, mas os nossos direitos não são respeitados.” Ressaltou Luzeny Oliveira, quebradeira de coco babaçu da comunidade São Domingos, em Cidelândia (MA), e coordenadora de base do MIQCB.

Embora o reconhecimento contemple as quebradeiras organizadas pelo MIQCB nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, o ofício também está presente em outros territórios do Cerrado brasileiro. É o caso do oeste da Bahia, onde mulheres seguem cultuando esse saber ancestral. Em São Desidério (BA), quebradeiras de coco babaçu preservam conhecimentos transmitidos entre avós, mães e filhas, fortalecendo os modos de vida do território. 

Filha e neta de quebradeiras, Nerilma Araújo conta que aprendeu o ofício ainda na adolescência .“Sou filha e neta de quebradeira de coco babaçu, sou quebradeira desde os 15 anos, tô com 38 anos. E quebrar coco babaçu complementa as nossas renda na casa, né?”. 

Nerilma reforça também, que o ofício segue presente na Bahia, mesmo sem o devido reconhecimento. “Aqui no oeste da Bahia tem várias quebradeiras. A gente só não é reconhecida ainda, mas somos quebradeiras sim.” Essa realidade está registrada no documentário “Babaçu Que Quebra Lá, Quebra Cá”, produzido para dar visibilidade às quebradeiras de coco babaçu do oeste baiano e reafirmar a re’existência desse modo de vida na região. 

Para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, reconhecer o ofício das quebradeiras de coco babaçu é também reconhecer mulheres que há gerações cuidam dos babaçuais, protegem a sociobiodiversidade e mantêm esses conhecimentos ancestrais construídos e fortalecidos nos territórios.

Ofício das quebradeiras de coco babaçu é reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional

Reconhecimento fortalece a luta das mulheres quebradeiras de coco babaçu e valoriza modo de vida que cultuado ao longo de gerações

por Alcileia Torres

A Lei nº 15.431/2026, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União no dia 11 de junho de 2026, reconhece o saber tradicional das quebradeiras organizadas pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que hoje está presente nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Para as mulheres quebradeiras de coco esse marco valoriza os saberes que são transmitidos de geração em geração nos territórios, as práticas de subsistência comunitária e fortalece a luta pela garantia de direitos. 

“Foi uma alegria muito grande pra gente que é quebradeira de coco saber que nossa matéria-prima foi reconhecida pelo governo federal. Porque é uma coisa que a gente vem lutando há muito tempo por reconhecimento. Porque a gente sabe que nós temos os nossos direitos, mas os nossos direitos não são respeitados.” Ressaltou Luzeny Oliveira, quebradeira de coco babaçu da comunidade São Domingos, em Cidelândia (MA), e coordenadora de base do MIQCB.

Embora o reconhecimento contemple as quebradeiras organizadas pelo MIQCB nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, o ofício também está presente em outros territórios do Cerrado brasileiro. É o caso do oeste da Bahia, onde mulheres seguem cultuando esse saber ancestral. Em São Desidério (BA), quebradeiras de coco babaçu preservam conhecimentos transmitidos entre avós, mães e filhas, fortalecendo os modos de vida do território. 

Filha e neta de quebradeiras, Nerilma Araújo conta que aprendeu o ofício ainda na adolescência .“Sou filha e neta de quebradeira de coco babaçu, sou quebradeira desde os 15 anos, tô com 38 anos. E quebrar coco babaçu complementa as nossas renda na casa, né?”. 

Nerilma reforça também, que o ofício segue presente na Bahia, mesmo sem o devido reconhecimento. “Aqui no oeste da Bahia tem várias quebradeiras. A gente só não é reconhecida ainda, mas somos quebradeiras sim.” Essa realidade está registrada no documentário “Babaçu Que Quebra Lá, Quebra Cá”, produzido para dar visibilidade às quebradeiras de coco babaçu do oeste baiano e reafirmar a re’existência desse modo de vida na região. 

Para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, reconhecer o ofício das quebradeiras de coco babaçu é também reconhecer mulheres que há gerações cuidam dos babaçuais, protegem a sociobiodiversidade e mantêm esses conhecimentos ancestrais construídos e fortalecidos nos territórios.

Cerrado ganha novo corredor ecológico e conecta áreas de preservação em cinco estados

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À margem da COP15, seminário em Corumbá denuncia impactos de megaprojetos em territórios do Cerrado e Pantanal

Em meio à realização da COP 15, a 15ª Conferência das Partes da CMS (Convenção das Nações Unidas sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres), que concentra os holofotes internacionais em Campo Grande (MS) até o dia 29 de março, um seminário em Corumbá (MS) coloca no centro do debate os impactos concretos da crise climática e dos megaprojetos sobre territórios e povos indígenas e tradicionais. 

Com o tema voltado para os impactos nocivos causados pela mineração e por projetos hidroviários como a Hidrovia do Paraguai e a Rota Bioceânica, o encontro evidencia como essas ações aprofundam processos de devastação da sociobiodiversidade e agravamento de vulnerabilidades socioambientais no Pantanal e no Cerrado, em um contexto de agravamento das mudanças climáticas.

Organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Mato Grosso do Sul, em articulação com as CPTs do Cerrado e a Diocese de Santa Cruz de Corumbá, o seminário reúne, entre os dias 26 e 27 de março, representantes da sociedade civil, movimentos sociais, povos indígenas e comunidades tradicionais para debater estratégias de fortalecimento dos territórios frente ao avanço desses empreendimentos.

Entre os objetivos do seminário estão aprofundar a compreensão sobre os significados das águas para as comunidades do Cerrado e do Pantanal, debater os impactos de grandes empreendimentos sobre essas regiões ecológicas e fortalecer a organização em defesa dos povos e territórios – especialmente comunidades tradicionais, camponesas e assentadas. 

Programação

Ao longo dos dois dias, o seminário promove rodas de conversa, debates e trocas de experiências sobre o significado das águas para os povos do Cerrado e do Pantanal, os impactos de projetos como a Rota Bioceânica e a Hidrovia Paraguai-Paraná, além dos efeitos da mineração sobre o meio ambiente e a saúde. A programação também inclui momentos de mobilização popular, intercâmbio entre territórios e construção de estratégias de resistência e defesa das águas.

Carta aponta riscos ambientais e falhas técnicas em projeto de hidrovia

Transporte de cargas pelo Rio Paraguai. (Foto: Arquivo/Semadesc)

Povos e territórios ameaçados

Em carta aberta endereçada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), organizações da sociedade civil, cientistas e lideranças comunitárias manifestam preocupação com o avanço da concessão da Hidrovia do Rio Paraguai à iniciativa privada. O documento alerta que, diante de eventos climáticos extremos, o Pantanal perdeu cerca de 61% de sua superfície de água em 30 anos, o maior índice entre os biomas brasileiros, e reivindica o cancelamento da concessão, a realização de Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) e a garantia de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas.

Já o Cerrado, conhecido como “berço das águas” do Brasil por abastecer oito das doze bacias hidrográficas do país, também enfrenta um cenário crítico. Dados do MapBiomas indicam que, nas últimas quatro décadas, 91% de suas bacias sofreram redução da superfície de água natural. A região também lidera o desmatamento recente: segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2024, perdeu mais de 650 mil hectares, com forte concentração na região do Matopiba.


Serviço 

Seminário “No Cerrado e Pantanal correm os segredos sagrados das Águas”

Data: 26 e 27 de março de 2026

Local: Instituto Federal do Mato Grosso do Sul – Campus Corumbá, situado na Rua Pedro de Medeiros, 941 – Popular Velha, Corumbá (MS) 

Contatos para Imprensa

Fátima Tertuliano – (62) 9 9831-0021

Bruno Santiago – (11) 9 9985-0378

Dia Mundial da Água: lucro para poucos, escassez e contaminação para muitos

A crise hídrica no Cerrado não é parte do curso natural de nosso planeta ou natureza. É consequência de um modelo que concentra, contamina e mercantiliza um bem essencial à vida. E essa é uma preocupação constante para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. 

Neste Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, reforçamos nosso compromisso com a proteção das águas, dos territórios e das vidas dos povos indígenas e das comunidades tradicionais que habitam o Cerrado brasileiro.

Conhecido como o “berço das águas” do Brasil, o Cerrado é essencial para a sobrevivência de nossa sociedade: abastece oito das doze bacias hidrográficas do país e mantém uma profunda conexão com outros biomas. As chuvas da Amazônia, por exemplo, estão intrinsecamente ligadas à capacidade de armazenamento de água no Cerrado.

No entanto, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias hidrográficas dessa ecorregião sofreram redução em sua superfície de água natural. Essa perda impacta diretamente a disponibilidade hídrica, agravando a escassez em mais de 300 municípios brasileiros.

É urgente reconhecer que o Cerrado vive um processo de ecogenocídio, que não apenas dizima sua sociobiodiversidade e exaure seus rios e nascentes, mas também ameaça, expulsa e vitima os povos e comunidades tradicionais que nele residem.

Quem vive com os pés no chão do Cerrado sabe que essa destruição está diretamente relacionada às mudanças climáticas e a um modelo de exploração que transforma a água em mercadoria.

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Drenos que secam brejos e plantio com maquinários – Pimenteira do Oeste (RO). Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000

Outorgas que secam territórios

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado denuncia, de forma contundente, o crescente número de outorgas de uso da água concedidas a grandes empreendimentos. Na prática, esses mecanismos têm permitido que empresas invadam territórios tradicionais, perfurem o solo e se apropriem de volumes imensos de água, o que compromete nascentes, rios e aquíferos que sustentam comunidades inteiras.

Enquanto isso, povos e comunidades tradicionais enfrentam a escassez, vendo suas fontes de água secarem ou serem contaminadas. O uso intensivo de agrotóxicos pelo agronegócio agrava ainda mais esse cenário, envenenando águas superficiais e subterrâneas e colocando em risco a saúde humana, os modos de vida e a biodiversidade do Cerrado.

Os principais responsáveis por essa devastação são empresas nacionais e internacionais ligadas ao agronegócio, à mineração e à exploração de recursos naturais – além de estados estrangeiros e do próprio Estado brasileiro, que viabiliza esse modelo por meio de políticas permissivas e da concessão dessas outorgas.

Em meio à crise climática e à crescente aposta em soluções de mercado travestidas de ações ambientais, povos indígenas e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas seguem sendo os menos ouvidos nos debates sobre o futuro do planeta. Paradoxalmente, são eles os mais impactados pelos grandes empreendimentos e pela devastação ambiental que avança sobre seus territórios.

Neste 22 de março, a Campanha reafirma: defender o Cerrado é defender nossas águas. E defender as águas é garantir o direito à vida, aos territórios e à existência de modos de vida tradicionais de povos que historicamente cuidam dessa ecorregião.

Sem Cerrado, não há água. Sem água, não há vida.

Mulheres do Cerrado na linha de frente das lutas por territórios, água e sociobiodiversidade

No Cerrado, são as mulheres que estão na linha de frente das lutas por seus territórios, pela água e pela defesa da sociobiodiversidade. Também são elas as primeiras a sentir os impactos da crise climática agravada pela devastação de seus territórios – consequência direta do avanço do agronegócio e da expansão de grandes monocultivos.

Em comunidades camponesas e territórios de povos e comunidades tradicionais, são as mulheres que sustentam redes de cuidado, produção de alimentos, preservação de sementes e transmissão de saberes ancestrais. Ao mesmo tempo, enfrentam diariamente as pressões de um modelo de “desenvolvimento” que avança sobre seus territórios por meio do desmatamento, da contaminação por agrotóxicos e da apropriação da água, afetando diretamente a vida, a saúde e a autonomia de suas comunidades.

Mesmo diante dessas ameaças, mulheres cerradeiras seguem organizando resistências, defendendo seus modos de vida e afirmando que a proteção do Cerrado também é uma luta por justiça climática, por soberania alimentar e por direitos territoriais.

Neste 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, convidamos você a conhecer a série “Mulheres do Cerrado: diálogos sobre clima e sistemas alimentares”, um especial do podcast Guilhotina realizado em parceria com a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), a Articulação de Mulheres do Cerrado e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

A série apresenta reflexões, vivências e experiências de mulheres que vivem e lutam nos territórios do Cerrado, trazendo perspectivas fundamentais para os debates sobre mudanças climáticas, justiça social e sistemas alimentares.

Episódio 1: Crise climática e a armadilha das falsas soluções

No primeiro episódio, a conversa reúne Letícia Rangel Tura, da FASE, Maryellen Crisóstomo, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), e Juvana Xakriabá, da Articulação de Juventude Xakriabá.

As convidadas analisam como o agronegócio e as mudanças climáticas aprofundam desigualdades e denunciam as chamadas “falsas soluções climáticas”: iniciativas apresentadas como respostas ao aquecimento global, mas que muitas vezes se transformam em novos negócios que mantêm as estruturas responsáveis pela própria crise.

Ouça o episódio 1:
https://diplomatique.org.br/guilhotina/mulheres-do-cerrado-1-crise-climatica-e-a-armadilha-das-falsas-solucoes/

Episódio 2: Clima, racismo ambiental e agronegócio

O segundo episódio aborda como a crise climática, o racismo ambiental e o agronegócio atravessam os corpos e os territórios das mulheres.

Participam da conversa Joice Silva, educadora popular e dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Tocantins, Arilene Martins, da Coletiva Pretas de Angola, de Goiás, e Elionice Sacramento, da Articulação Nacional de Pescadoras.

Ouça o episódio 2:
https://diplomatique.org.br/guilhotina/mulheres-do-cerrado-2-interseccoes-entre-clima-racismo-e-agronegocio/

Episódio 3: Sistemas alimentares e a conexão campo-cidade

No terceiro e último episódio, o debate se volta para os impactos da produção no campo sobre a vida nas cidades e para o papel do Cerrado na construção de sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Participam Emília Costa, do Movimento Quilombola do Maranhão e da coordenação executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, e Maria Emília Pacheco, assessora da FASE e integrante da Articulação Nacional de Agroecologia.

A conversa destaca como as experiências e saberes dos territórios podem apontar caminhos para garantir alimentação saudável, justiça ambiental e proteção do Cerrado — beneficiando não apenas quem vive no campo, mas toda a população.

Ouça o episódio 3:
https://diplomatique.org.br/guilhotina/mulheres-do-cerrado-3-campo-e-cidade-dialogos-sobre-seguranca-alimentar-e-agroecologia-no-cerrado/ 

Neste 8 de março, celebramos a força, os saberes e a resistência das mulheres do Cerrado, protagonistas na defesa dos territórios, das águas e da sociobiodiversidade. Ouvir suas vozes é fundamental para compreender os desafios do presente e construir caminhos de justiça climática e social para o futuro. 

Grilagem, desmatamento e roubo das águas no Cerrado

por Bruno Santiago

Texto publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

Comunidade Grinalda do Ouro sofre com pacote da devastação imposto por invasores no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina

Já imaginou acordar pela manhã, em sua própria casa, onde você vive com sua família, com o barulho de tratores e árvores sendo derrubadas? 

Ao correr para a janela, você percebe máquinas enormes destruindo a mata a poucos metros do seu quintal – o mesmo lugar em que você cresceu e que seus filhos e netos brincam. Aquela árvore que você conhece desde pequena ou pequeno, que abrigou ninhos de passarinhos e da qual você colheu frutos para saciar a fome tantas vezes, já não está mais lá. Foi derrubada por invasores que nunca pisaram naquele território onde sua família vive há gerações, desde o tempo dos bisavós. 

Essa é a realidade vivida neste mês pela Comunidade Tradicional Grinalda do Ouro, no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina. 

Desde o início de fevereiro, a comunidade sofre com a ação ilegal de grileiros que estão desmatando a vegetação nativa do território com o uso de tratores de esteira para a produção agrícola e para a construção de piscinões de captação de água para irrigação. Parte das famílias acordou, na última quarta-feira (11/02), com o barulho de árvores sendo derrubadas e das máquinas operando a poucos metros de suas casas. 

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

“Já tem tempo que eles estão desmatando aqui dentro, muita árvore já foi derrubada, mas essa semana foi quase no quintal de casa. Eu tomei um susto com o barulho do trator e corri para ver o que era”, relata uma das moradoras da comunidade que prefere não se identificar por motivos de segurança. 

Uma das lideranças da comunidade, que está gestante, tentou dialogar com os invasores para impedir a destruição, mas não obteve sucesso. “Disseram que só vão parar com uma liminar da justiça”, explica a moradora. 

“Ele me disse que mandava nisso tudo, que se ele quisesse ele derrubava até a nossa roça e que o trator ia passar por cima se eu entrasse na frente”, conta a liderança comunitária, que explicou que esse tipo de intimidação faz parte do diálogo com os funcionários da Fazenda. 

O empreendimento responsável pela ação é a Fazenda Ouro, de Pedro Lustosa do Amaral Hidasi. A empresa possui licença de operação concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) do Estado do Piauí para o desmatamento, produção agrícola e outorga para captação subterrânea de água. 

Ilegalidade da ação 

Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Coletivo de Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, entidades que acompanham o caso, no entanto, a existência da licença ambiental não afasta a ilegalidade da ação. As organizações afirmam que a invasão e o desmatamento ameaçam diretamente a vida de mais de vinte famílias que vivem tradicionalmente no território há gerações e que não foram consultadas ou sequer notificadas sobre a intervenção. 

Em requerimento enviado para o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) em outubro de 2025, as entidades afirmam que “as intervenções em curso vêm sendo realizadas com licenças concedidas pela SEMARH sem o preenchimento dos mais básicos requisitos legais, comprometendo gravemente a segurança jurídica, o ecossistema local e o modo de vida tradicional da comunidade”.  

Segundo a argumentação jurídica apresentada pela comunidade e por entidades que acompanham o caso, a autorização ambiental não supre exigências previstas na legislação fundiária estadual. Para as organizações, ao autorizar o desmatamento em área ocupada secularmente e tradicionalmente por mais de vinte famílias, o Estado teria ignorado requisitos legais básicos, colocando em xeque a própria validade do procedimento e ampliando o risco de danos socioambientais irreversíveis. 

“A Lei Estadual nº 7.294/2019 determina que a destinação de terras públicas deve priorizar a regularização de territórios tradicionais. O texto é explícito ao estabelecer que áreas públicas e devolutas ocupadas coletivamente por comunidades tradicionais devem ser destinadas a esses grupos e que, em caso de conflito entre comunidades locais e particulares, o Estado deve priorizar a regularização em favor das comunidades”, explica Mauricio Correia, pesquisador e advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 

A mesma norma reconhece como povos e comunidades tradicionais aqueles que ocupam e utilizam seus territórios como condição de reprodução cultural, social e econômica – exatamente a situação descrita na Grinalda do Ouro. Ainda assim, segundo a denúncia, não houve mediação do conflito fundiário antes da liberação da atividade. 

Segundo a assessoria jurídica da comunidade, a Fazenda Ouro apresentou a órgãos públicos uma documentação de registro de posse da área datada de cerca de sessenta anos. No entanto, esse documento não consta nos registros oficiais do patrimônio público, o que pode indicar que não haja comprovação de que tenha sido emitido por um órgão competente nem de que a área tenha sido regularmente destacada de terras públicas para uso privado – requisito fundamental para a validade jurídica de títulos fundiários no Brasil. 

Essa ausência de origem pública nos registros suscita em uma contradição com a memória histórica da própria comunidade. A pessoa mais velha viva na Grinalda do Ouro tem mais de 70 anos, e tanto ela quanto seus pais nasceram e viveram naquele território desde sempre – muito antes, portanto, de qualquer suposto título datado de sessenta anos atrás. Esse desencontro entre a presença secular da comunidade e a suposta data de registro da área levanta dúvidas sobre a legitimidade do documento apresentado pela Fazenda. 

“A Lei Complementar nº 244/2019 estabelece critérios objetivos para que o Estado reconheça domínio privado sobre imóveis rurais cuja cadeia dominial não comprove o destaque regular do patrimônio público para o privado. Entre as exigências estão a comprovação de boa-fé, a inexistência de disputa judicial e, de forma expressa, que o imóvel não se sobreponha a territórios tradicionais”, afirma Mauricio. 

Em novembro de 2025, o próprio Interpi publicou despacho favorável à denúncia apresentada pela comunidade. No documento, a Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais reconhece que o processo tramitou sem a devida consideração da sobreposição com o território tradicional da Comunidade Grinalda do Ouro e opinou pela suspensão da Certidão de Regularidade Dominial emitida com base no Decreto nº 23.692/2025. “O despacho aponta que a certidão não levou em conta a área do território tradicional indicado em processo específico, comprometendo sua validade e exigindo reanálise imediata para registro formal da sobreposição existente”, ressalta o advogado. 

Para Correia, a existência de sobreposição e conflito fundiário ativo tornaria incompatível o reconhecimento pleno do domínio particular e, consequentemente, fragilizaria qualquer autorização ou licença baseada nesse título.  

Diante disso, as entidades defendem a intervenção imediata do Interpi para apurar a situação fundiária e evitar que a devastação avance sobre um território cuja regularização deveria, por lei, ser prioridade do próprio Estado. 

Roubo das águas 

Outra ameaça iminente provocada pelos invasores diz respeito à preservação dos rios, nascentes e cachoeiras presentes no território da comunidade e adjacências. Com piscinões sendo construídos às margens da BR 335, dentro do perímetro da comunidade, o objetivo da Fazenda Ouro é a captação de água para irrigação de sua produção agrícola.  

Apesar das irregularidades legais e da fragilidade da situação fundiária do empreendimento, a SEMARH concedeu outorgas para perfuração de poço e captação em níveis subterrâneos e superficiais do curso de água. “O ponto de captação da água, de acordo com a lei, precisa estar dentro da propriedade do fazendeiro, não no território da comunidade, como está acontecendo”, destaca Maurício. 

A captação afeta diretamente as bacias dos Rios Alto Parnaíba e Uruçuí Preto, ambas situadas no Cerrado, que cumprem importante função para a subsistência da comunidade Grinalda do Ouro e de tantos outros territórios de populações ribeirinhas e tradicionais da região, além de abastecer o sistema hídrico de municípios do sul do estado, chegando até Teresina.  

Para Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí, a captação das águas em comunidades tradicionais é uma prática sistemática do agronegócio da região. “Já aconteceu isso na comunidade de Melancias, também em Gilbués, onde tentaram fechar o rio Uruçuí Preto com uma barragem, mas a comunidade se mobilizou e impediu a ação do empreendimento naquele período”. 

“Grinalda do Ouro é conhecida por ser um paraíso natural, numa região de brejo, pois se encontra entres as nascentes dos rios Uruçuí Preto e Uruçuí Vermelho, além de estar muito próxima da nascente do Rio Parnaíba, que são fundamentais para a vida da comunidade, para o Piauí, e agora estão em risco”, conta o agente da Pastoral.  

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

Vidas envenenadas 

Além do desmatamento, das intimidações e do roubo deliberado das águas do território tradicional, a comunidade sofre, há anos, com o uso abusivo de agrotóxicos nos monocultivos da região, especialmente a soja. 

“A gente sabe que as águas de nossos brejos não estão mais puras, não podemos mais beber, como fazíamos antes. Tem gente que adoeceu, que passou mal, mas tem muitas famílias que não têm alternativa, que só têm aquela água contaminada para beber”, relata uma das moradoras da comunidade. 

Com o avanço do desmatamento e a licença para a produção agrícola, a comunidade sabe que os monocultivos poderão ser produzidos a poucos metros de distância de suas casas, afetando ainda mais a saúde das famílias de Grinalda do Ouro. “Temos crianças, idosos, mulheres grávidas. Como vamos ficar se o veneno for despejado em cima de nossas cabeças?”, enfatiza a liderança comunitária. 

Reivindicações 

A SEMARH foi procurada pela reportagem para se posicionar a respeito das licenças e outorga expedidas, mas alegou que questões fundiárias são de responsabilidade do Interpi. Insistimos com o pedido de posicionamento por se tratar de licenças concedidas pela Secretaria e não por outro órgão, mas até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno. 

Em entrevista para a Rádio Jornal Teresina, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Feliphe Araújo, informou que o governo do estado irá deslocar equipes de fiscalização ao território da Comunidade Grinalda do Ouro para apurar as denúncias e verificar o cumprimento das condicionantes da licença concedida à Fazenda Ouro.  

Enquanto aguardam a atuação dos órgãos estaduais, as famílias da comunidade e as entidades que acompanham o caso reivindicam a suspensão imediata e a anulação permanente das licenças concedidas para o desmatamento na área, além da revisão da situação fundiária e do reconhecimento formal da sobreposição com território tradicional.  

Também cobram a intervenção do Interpi para garantir a regularização do território em favor da comunidade, a paralisação definitiva das atividades que impactam a área e o respeito ao direito à consulta prévia, livre e informada.  

Para as famílias da comunidade, mais do que uma disputa jurídica, trata-se da defesa de suas vidas, de seu território, das águas e da própria permanência das famílias na terra onde vivem há gerações.  


Bruno Santiago é pesquisador e coordenador de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Mulheres do Cerrado lutam por segurança hídrica e alimentar no bioma mais ameaçado do Brasil

por Ludmila Pereira

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

“Às vezes, a gente tem comida, mas não tem água para preparar. Como vamos plantar uma hortinha na nossa casa se não há água para regar? Se não tiver água, como é que vamos viver? Como vamos fazer o café para nossas crianças, para o nosso povo? Como é que vamos criar os animais? Não dá para criar, porque não tem água. Também temos os canteiros de ervas medicinais que usamos e que precisamos plantar para nos manter.” 

Encontro de Mulheres pelo Cerrado do Oeste Baiano. Foto: Bia Silva / MAB

O relato de Célia Valdemar, mulher indígena Xakriabá, raizeira, liderança na comunidade do Prata, em Minas Gerais, expõe a contradição que mulheres cerratenses vivem no bioma que é o “berço das águas” do Brasil: no Cerrado, oito das doze principais bacias hidrográficas do país nascem, mas hoje nem todas as suas filhas têm acesso a esse recurso fundamental.  

O Cerrado passa por transformações profundas. As razões não são naturais, e sim atribuídas à expansão do uso industrial da terra, especialmente atividades ligadas ao agronegócio, que por sua vez, aceleram as mudanças climáticas e reforçam alterações regionais. Esse ciclo maléfico provoca seca e ameaça populações já vulnerabilizadas, em especial as mulheres. 

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Nature Communication, mostra que o meio do Brasil – onde fica o Cerrado – passa pela seca mais severa dos últimos 700 anos. Outra análise, realizada por um grupo de pesquisadores do Instituto Cerrados e da Agência Nacional de Águas (ANA), mostra que o Cerrado pode sofrer redução de 34% de seu volume de água até 2050  – e a tendência é ainda pior. Devido a expansão agrícola, 90% das bacias hidrográficas do Cerrado podem diminuir o seu fluxo de água.  

Os efeitos já são sentidos no campo e na cidade. Ligar a torneira e não encontrar o principal ingrediente para a primeira refeição do dia é desolador. Em casos como esse, as mulheres são as mais impactadas, pois, devido à sobrecarga do cuidado com a casa, precisam estar atentas aos desafios para garantir a água, tornando-se reféns do adoecimento e da preocupação constante, especialmente, as mães solos, em relação a alimentação de suas filhas e seus filhos, como conta a quilombola Emília Costa durante um dos encontros da Articulação de Mulheres do Cerrado. 

“O primeiro impacto que a gente sente das violações do Cerrado são em nossos corpos, justamente porque nós mulheres temos relação direta de cuidado e uma sensibilidade melhor para sentir as coisas benéficas e, infelizmente, também as mazelas que chegam até nós, em nossos territórios”, relata Costa, do Quilombo Santo Antônio do Costa, no Maranhão. Ela também integra o grupo Mulheres Guerreiras da Resistência, do Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM). 

Em sua caminhada de luta e andanças, Emília reafirma que as encantarias, as rezadeiras, a espiritualidade, os alimentos sem agrotóxicos produzidos no quilombo e as plantas medicinais são elementos de resistência. Para ela, o enfrentamento à insegurança alimentar é também o enfrentamento à eliminação dos saberes.  

Água para comer 

O Cerrado é o primeiro bioma do planeta, com data de nascimento em torno de 65 milhões de anos. É onde se concentra cerca de 5% de toda a biodiversidade do mundo, bioma de “floresta invertida” devido às longas raízes que fortalecem o lençol freático.  

Mas a devida importância do Cerrado, quase tido como o “patinho feio”, carece de ser reconhecida nos grandes debates nacionais e internacionais sobre meio ambiente, em especial, naqueles que dizem respeito a acordos internacionais que protegem a Amazônia e esquecem, ou melhor, “vendem”, o Cerrado e seus povos. 

O acesso à água como direito humano fundamental é elemento que sintetiza a luta das mulheres pela vida. A atenção à insegurança alimentar está diretamente ligada a insegurança hídrica, pois a situação diz respeito não apenas ao consumo direto da água, mas também à sua qualidade, por ser primordial na produção de alimentos. E o Cerrado, apesar de fundamental no fornecimento deste recurso, conta com pouca proteção contra sua destruição. 

Isso é o que explica Franciléia Paula, engenheira agrônoma e liderança da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) no Mato Grosso.

“Sem água não tem alimentação. Um tempo atrás, a sociedade imaginava que a falta da água era um problema só do semiárido brasileiro ou, então, da questão da escassez hídrica, pela permanência de falta de chuvas. Hoje, o problema da água é de disponibilidade, mas também de acesso”, explica Franciléia. 

Colocar a água no centro do debate dá uma dimensão dos impactos socioambientais e do agravamento das mudanças climáticas que afetam a fome no campo, ressalta a educadora. Como as mulheres estão à frente da defesa de seus territórios, são também elas que, pela observação cotidiana, conseguem mensurar a falta de algum alimento ou a mudança nas águas da região. 

“A fome tem gênero e cor. Pensar em água como alimento para o corpo humano é uma questão fisiológica, o corpo humano é composto por cerca de 75% de água”, explica a nutricionista Maísa Gomes, mestranda pela Universidade de Brasília e integrante daRede de Mulheres Negras para Soberania Segurança Alimentar e Nutricional. 

“E a água, do ponto de vista metabólico, ajuda a fazer todo o transporte de nutrientes, nosso organismo não funciona sem água. Então, tratar a água como um alimento é fundamental para a garantia da segurança alimentar, do ponto de vista que sem água, sem os minerais que existem na água, a gente não sobrevive”, pontua. A nutricionista ainda desenvolve estudo sobre a relação da insegurança alimentar de pessoas negras, o aumento do consumo dos ultraprocessados e a deficiência de nutrientes. 

Cachoeira em Cavalcante, região do Quilombo Kalunga, Goiás. Crédito: Michelle Granato

Em meio a disputa hídrica

A situação se agrava quando a água se torna inacessível e privatizada por cercas que foram colocadas por fazendeiros locais. Esse e outros problemas provocados pela expansão do agronegócio se somam à escassez hídrica: consumir água ou mesmo ver seu filho ou filha brincar num rio viram preocupação para as mães.

O Cerrado concentra mais de 74% dos agrotóxicos consumidos no Brasil, segundo o dossiê Vivendo em territórios contaminados: dossiê sobre agrotóxicos nas águas de Cerrado, organizado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pela Fiocruz. Composto por análises de amostras de águas de comunidades tradicionais, o documento mostra como a presença de agrotóxicos e a imposição de seu consumo são altamente tóxicas à saúde e perigosa para o meio ambiente.

De acordo com o documento, em todo o país, somente a soja é responsável pelo uso de mais de 52% dos agrotóxicos. Só o Cerrado concentra 75% da produção nacional deste grão, e seu cultivo avança sobre mais de 30 milhões de hectares de terra.

O dossiê ainda diz que são despejados 600 milhões de litros de agrotóxicos no Cerrado todos os anos. Esses produtos possuem uso autorizado para a soja no Brasil, mas muitos não têm uso autorizado na União Europeia (UE), por exemplo. O mais usado é o glifosato, substância cancerígena que pode causar até mal de Alzheimer.

“A contaminação das águas do Cerrado é a contaminação das águas do Brasil todo. Para mim, uma das principais violências no Cerrado tem sido a contaminação por agrotóxico, mercúrio e outros metais pesados nas águas do bioma. E o agrotóxico simplesmente não desaparece da água; seus efeitos vão muito além do bioma, contaminando não apenas a população de peixes e a biodiversidade do Cerrado, mas impactando, a transição com outros biomas”, ressalta Franciléia Paula, que também é mestre em saúde pela Fiocruz.

Alimento apodrecido após pulverização de agrotóxicos no Quilombo Cocalinho, Maranhão, um dos locais do estudo da Fiocruz onde foram identificados, no total, 13 venenos diferentes nas amostras de água coletadas. Crédito: Arquivo pessoal

Em território indígena do Cerrado Sul Matogrossensse, o terceiro estado com a maior população indígena no Brasil, a situação se repete de forma grave. Segundo Erileide Domigues, mulher indígena do povo Guarani Kaiowá, e que já foi inclusive à ONU denunciar as violações de direitos nas terras, relata que a insegurança alimentar é uma das causas da guerra por território.

A presença de grandes lavouras do agronegócio cerca a terra indígena, ainda não demarcada, e ao lançar e pulverizar agrotóxicos, os fazendeiros invadem as comunidades, contaminam as pessoas, o lençol freático e ainda desviam o curso das águas dos rios para as monoculturas.

Lideranças do povo Guarani Kaiowá, de forma persistente, já denunciaram o governo brasileiro no Tribunal Penal Internacional, em Haia (Holanda). Empresas transnacionais e agropecuaristas vinculados ao agronegócio local, o governo de Mato Grosso e o governo federal foram condenados pelo júri internacional do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Povos do Cerrado. A relatora do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) esteve nos territórios indígenas do Mato Grosso do Sul e nas incidências da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ambas cobrando do governo brasileiro.

Pulverização aérea de agrotóxicos afeta as comunidades próximas às grandes fazendas. Crédito: Reprodução

“A mandioca está bonita, mas quando arrancamos para consumir, vemos que a mandioca está podre, cheia de cupim. As mulheres acabam não gerando mais filhos, e quando ficam grávidas, o bebê acaba nascendo com algum problema de saúde e os médicos falam que nasceu com peso baixo, está desnutrido”, relata a liderança indígena, diante do aumento, inclusive de problemas de saúde das mulheres com diabetes e hipertensão.

Veneno e defensor agrícola, são, segundo Erileide, outros nomes que o agronegócio usa, em vez de “agrotóxico”, para amenizar o problema e conseguir passar pelas autorizações legais. Além disso, essa também é uma arma para expulsar os povos indígenas e comunidades tradicionais de suas casas. “Então ele (agrotóxico) mata, mata o que não convém aos produtores, mata aquilo que não tem preço, vamos dizer assim, que não tem a sua importância, né? Como vidas. Como as nossas vidas. A garantia da terra, sua demarcação, é a saída para tais violações de direitos”, afirma Erileide.

Conviver em meio aos conflitos pelo território é sinônimo de ser linha de frente em que as ameaças à vida de quem denuncia e o medo, de quem luta pela terra, se tornam cotidianos, como também ocorre no território quilombola de Seis Maria dos Jardins (MA).

“Hoje, aqui na minha comunidade, eu vivo presa; quem comete as injustiças está solto: os fazendeiros. Eu vivo dentro da minha própria casa como se fosse numa comunidade murada. Já cheguei, por conta da luta pela terra, a ficar fora da minha comunidade, sob proteção do MIQCB e da Sociedade de Direitos Humanos. Porque, tirando [a gente], acaba esse ‘furdunço de negócio de quilombo’, esse negócio de regularização de terra”, nos conta a mulher negra quilombola, mãe, quebradeira de coco babaçu, integrante do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e liderança no território quilombola Seis Maria dos Jardins, situado no município de Matinha, na Baixada Maranhense.

No território Quilombola Seis Maria dos Jardins, ocorre outra forma de contaminação das águas, mas com os mesmos efeitos violentos. “Essa falta da água tem nos afetado de uma forma cruel. Principalmente através da poluição da dada aos búfalos, porque esses animais são de água”, relata a liderança. Ela ainda denuncia que durante os anos, os fazendeiros foram chegando, aterrando os rios, matando os peixes nativos, envenenado as palmeiras e contaminando os rios.

Presença de Búfalos próximo as casas quilombolas. Os animais, que não são naturais do local, devastam o meio ambiente e trazem doenças. Crédito: Arquivo Pessoal.

Com angústia, lembra do dia em que seu filho, ainda criança, ao brincar em um dos rios da comunidade, um hábito comum, acabou sendo uma das vítimas da verminose de búfalo. Sem assistência médica local, teve que ir para São Luís, a cerca de quatro horas de distância e carregar ainda hoje, aos 30 anos, as sequelas. “Ele é bem negro, é preto, meu filho. Mas ele ficou com o rosto praticamente assim, ó [mostrando um pedaço de folha de chamex]. Todo manchado de branco. E a unha ficou igual a unha dos búfalos. As unhas dele não caiu, mas foi enrolando, foi enrolando, todas para debaixo dessa carne do dedo”, relata.

Antigo rio que foi devastado e privatizado pelo fazendeiro local próximo ao Quilombola Seis Maria dos Jardins. Foto: Arquivo Pessoal.

Como se não bastasse o impacto na saúde, os alimentos e a transformação tradicional do babaçu, que traz subsistência para as mulheres, também são comprometidos. A comunidade tem duas unidades de produção com capacidade para produzir 15 mil litros de azeite do babaçu por mês, além do mesocarpo e do biscoito. Mas estão paradas porque cercas elétricas e arame farpado, hoje isolam os poucos babaçuais existentes do território.

Quebradeira de coco atravessa cerca de fazenda para coletar coco babaçu para seu sustento. Crédito: Arquivo Pessoal

O envenenamento das águas e da terra, o aumento da preocupação em relação à qualidade de vida e o sustento afeta também a vida das mulheres da região do Bico do Papagaio, como a Maria Conceição Barbosa, quebradeira de coco babaçu, agricultora familiar e integrante do MIQCB.

Para as conhecedoras da arte de quebrar coco e transformá-lo em alimento, a palmeira significa tanto a subsistência das famílias do Cerrado quanto um saber passado de geração a geração entre as mulheres. A palmeira de pé e viva é fundamental para romper com o ciclo de insegurança alimentar. E nasce, geralmente, em zonas de transição entre Cerrado e Amazônia.

“O que nós, quebradeiras de coco, mais precisamos é de respeito daquelas autoridades constituídas dos governantes”, diz Maria Conceição. A ausência de políticas públicas, intensifica a falta de autonomia alimentar das mulheres. Mesmo com a Lei do Babaçu livre, sua fiscalização não é efetiva e muito menos prevê punição para o uso de agrotóxicos.

Muitos fazendeiros passam o correntão – uma forma de desmatar usando enormes correntes presas em dois tratores, que derrubam fauna e flora à medida que passam –, levando flora e fauna abaixo, matando as nascentes, para plantar soja e usar veneno que infiltra na terra, contaminando os recursos naturais de todos ao redor, apodrecendo os cocos e matando as palmeiras.

Quebradeira de Coco segurando o coco de Babaçu. Crédito: Ingrid Barros

Agronegócio versus tradição

O Bico do Papagaio é parte do Matopiba, região composta pelo Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia onde vem se intensificando a expansão da agropecuária com aval dos governos. É onde o projeto de devastação do bioma se consolida, como afirmou o Tribunal Permanente dos Povos do Cerrado em seu veredito final, em uma zona de sacrifício.

Como bioma estratégico para o agronegócio, o Cerrado é hoje responsável por 60% de toda a produção agrícola do Brasil, incluindo monoculturas como soja, milho e algodão – 14% de toda a soja do mundo e 16% da carne são produzidas no Cerrado, conforme dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

O preço é alto. Pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado apresenta a maior área desmatada entre todos os biomas, com mais da metade do total (52,5%). Só o Matopiba, nas últimas duas décadas, concentrou cerca de 42% de toda a perda de vegetação nativa no país.

Isso faz jus aos dados do Relatório Anual de Desmatamento (RAD) de 2024, do MapBiomas: quase 96% do desmatamento no Brasil tem na agropecuária o principal vetor. As atividades agropecuárias já ocupam metade do Cerrado, bioma que mais perdeu vegetação nativa nos últimos 38 anos, em relação ao uso e cobertura da terra, atividade que interfere diretamente na quantidade de água e outros recursos naturais disponíveis, e que são a base da alimentação e do bem-viver de populações tradicionais.

No Cerrado maranhense, vive Vanessa Cristina. Herdeira de uma família matriarcal, ela é quebradeira de coco babaçu, assim como sua mãe e sua avó. Além de falar com muito orgulho desses saberes, ainda mostra o dedo “rachado no machado” ao quebrar coco. Aliás, é uma cicatriz bem comum nas mãos das quebradeiras de coco.

“É luta todo dia, quando uma termina de falar, já tem a outra, mais outra bomba para segurar no peito. Porque nós mulheres seguramos no peito mesmo. É derrubada de palmeiras, é veneno nas palmeiras. A pulverização aérea está sendo usada como forma de nos calar e de nos afastar de nossos territórios.”

Vanessa Cristina é assistente de projetos na Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (Acesa). Socióloga formada pela Universidade Federal do Maranhão, ela vem da comunidade Aldeia do Odino, no município de Bacabal (MA).  Muitas cópias de livros e trabalhos universitários foram tiradas com o dinheiro da quebra do coco babaçu.

Em suas andanças e experiências, lida diretamente com a situação de várias mulheres do Cerrado e da zona de transição para a Amazônia, e percebe que os problemas que afetam as quebradeiras de coco babaçu crescem à medida que as cercas do agronegócio aumentam. Há comunidades com somente um poço e as mulheres precisam fazer “milagre” com a pouca água que tem para a família, as plantas e as hortas.

Quebradeiras de coco. Crédito: Thomas Bauer/CPT Bahia

Antigamente, menciona Vanessa, quando os períodos de seca e chuva estavam equilibrados, as mulheres conseguiam se organizar para ter o tempo da colheita do babaçu. Agora, com a aceleração das mudanças climáticas, essas estratégias estão ameaçadas, o tempo chuvoso diminuiu, o tempo da seca se tornou maior, o desmatamento e as queimadas aumentaram.

Com isso, cresce o sofrimento das mulheres em seus modos de subsistência e de relação de saber com o território. Para tentar minimizar isso, as mulheres tentam acessar programas de sistemas agroflorestais (SAFs), projetos de cisterna e colocar sombrites nas hortas, para o sol não incidir diretamente nas plantas.

Nesta hora, outra vertente da vulnerabilidade feminina negra no campo se impõe. Mesmo próximas à terra, as mulheres do campo não conseguem garantir o acesso ao plantar e colher. É o que mostra os dados do estudo da FIAN Brasil. A insegurança alimentar persiste com maior incidência no meio rural do que no meio urbano. São as casas chefiadas pelas mulheres negras na zona rural onde estão 60% da proporção de domicílios em insegurança alimentar do país.

“Percebemos um adoecimento psíquico dessas mulheres diante das agressões aos territórios, diante da perda das áreas de produção de alimentos. De forma geral, as mulheres sofrem com o próprio modelo que vai impossibilitando as suas práticas de vida. E aí o adoecimento será de diversas formas, desde o físico até o confronto com o fazendeiro”, conta Franciléia Paula.

Direitos e racismos

A falta de acesso à água, sua contaminação e sua ausência no Cerrado, impondo um cenário de fome e insegurança para mulheres negras e indígenas da região, são um retrato de um país que impede o acesso de pessoas racializadas aos direitos humanos básicos.

“Não há sustentabilidade alimentar, não há justiça alimentar, sem garantia do direito à água, ao direito hídrico”, ressalta a nutricionista Bruna Crioula. Bruna é nutricionista, mestre em ciências sociais e matrigestora da Crioula Curadoria Alimentar – uma organização afrorreferenciada, é um afronegócio, que tem como principal objetivo desenvolver soluções ecológicas e ancestrais para sistemas alimentares por meio de uma educação alimentar racializada.

“A insegurança alimentar é um produto desse sistema socioeconômico em que o racismo é a base, o fundamento. Então a gente tem uma exploração da vida no seu significado mais essencial, a vida dos nossos rios, a vida dos nossos biomas, dos nossos ecossistemas, das pessoas e dos animais.”

Bruna destaca que, ao se pensar em água e segurança alimentar, ‘é preciso dialogar com dois conceitos de opressão: o racismo ambiental, pela contaminação proveniente de atividades mineradoras, industriais do agronegócio sem responsabilidade socioambiental e limpeza adequada das águas antes do descarte, e o racismo alimentar,  caracterizado por uma barreira de produção de comida. “Por fim, mas não menos importante: sem água a gente não cozinha!”

A injustiça climática está tanto na ausência de políticas públicas efetivas para proteção do Cerrado, quanto no avanço desmedido do agronegócio, sem a contenção efetiva de impactos socioambientais e sem nenhuma barreira dos governos.  Enquanto o setor visa a exportação de monocultura para o exterior, os problemas decorrentes da exploração dos recursos naturais recaem sobre territórios onde povos e comunidades tradicionais habitam.

Neste cenário, outra desigualdade se apresenta: o direito à água ainda é para poucas e poucos. A agropecuária junto à produção florestal, pesca e aquicultura consomem 58,2% da água retirada de fontes superficiais e subterrâneas no país, apontam os últimos dados publicados em 2020 das contas econômicas ambientais da água, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desmatamento de vegetação nativa do Cerrado para dar lugar à soja em Confresa (MT). Crédito: Thomas Bauer/CPT-H3000

“Cerca de 50% do total de outorgas hídricas feitas pela Agência Nacional das Águas (ANA) e do total da vazão de água outorgada foi também no Cerrado e suas zonas de transição. Cerca de 60% dessa água foi utilizada na agricultura irrigada”, ressalta o veredito final do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em sua Sessão Especial sobre o Cerrado. Outorgas são licenças para captação de recursos hídricos.

O veredito do TPP, além de condenar o Estado brasileiro pelo ecocídio e genocídio dos povos do Cerrado, ainda destaca a morte e diminuição da vazão de diversos rios, o que causa ainda o estresse hídrico, ou seja, o consumo de água é maior que sua oferta em regiões onde há mais desmatamento.

Danos ambientais causados pelo agronegócio e pela monocultura; os povos Krahô, Krahô-Kanela e Krahô Takaywrá dependem do Rio Formoso, Tocantins, na Ilha do Bananal, conhecida como “a maior ilha fluvial do mundo”. Crédito: Arquivo Cimi Regional Goiás/Tocantins

Outro fator que intensifica os problemas com água no Cerrado são as queimadas, que podem assorear rios e matar nascentes. De acordo com MapBiomas, o Cerrado possui a maior média anual de área queimada do país entre 1985 e 2024. Em 40 anos, 45% dele foi queimado pelo menos uma vez, sendo quase 90 milhões de hectares consumidos, totalizando 43% da área queimada nacional. É o bioma com maior área de recorrência de fogo no Brasil.

Insistir em existir

A contraposição ao modelo deploratório do agronegócio são suas vítimas, as mulheres cerratenses, que aplicam estratégias de vivência para garantir o bioma vivo.

“O Cerrado é um hotspot global, um centro de biodiversidade”, lembra Bruna Crioula, o que significa diversidade de alimentos, como frutas, vegetais, plantas alimentícias não colonizadas e que geralmente não estão no rol de alimentos amplamente conhecidos, mercantilizados e domesticados. “O Cerrado tem a capacidade de nutrir, de alimentar o Brasil com a sua sociobiodiversidade própria”

No Maranhão, Ivanessa Mariano articula projetos que potencializam a produtividade da terra. A agricultora conta do trabalho junto ao grupo de trabalho de juventudes com o “Projeto plante uma árvore”, que estimula o resgate das espécies nativas ameaçadas de extinção. Já são quatro anos de projeto e quase 4 mil mudas doadas para as comunidades.

Ivanessa mora na comunidade do município de Peritoró, a quase 240 quilômetros de São Luís, no Quilombo de São Bento do Juvenal. Ela é agrônoma pelo Programa da Reforma Agrária (Pronera) e integra a Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA). Por onde ela anda para falar do Cerrado, nunca deixou de mencionar a força da ancestralidade que compõe esse bioma, advogando pelo futuro de um dos biomas mais antigos do mundo e pela permanência das pessoas no campo. “É reconhecer a terra como mãe porque a terra alimenta. Então, se ela alimenta, a gente cuida.”

Ivanessa mostra a produção agroecológica de café e açaí em seu território. Crédito: Arquivo Pessoal.

“A gente não vai sobreviver na cidade. Porque na cidade não tem como você plantar. De amanhecer o dia, plantar uma semente e saber que a produção vai ser o nosso alimento durante todo o ano, porque nós fazemos a programação de tudo que plantamos e guardamos a semente para o próximo ano. A nossa alimentação dura o ano e na cidade não tem como, você não tem espaço para produzir”, explica a quilombola.

A maioria das mulheres no campo, segundo a agricultora, são mães solos e não concluíram os estudos.

Em um mundo em que o dinheiro é cada vez mais valorizado – e acessado sobretudo por quem tem melhores níveis de escolaridade e vive na cidade –, afirma Ivanessa, quem está no campo acaba sendo esquecido. Por isso, a autonomia alimentar das mulheres, assim como suas articulações e trocas, é fundamental para garantir o alimento e a diversidade na mesa.

“Vamos se ajudando, porque quando uma não tem a outra tem, a gente sempre tem essa certeza, pouco ou muito, mas alguém vai ter. E aí elas precisaram de semente de outros lugares. E lá, nas comunidades, elas também fazem a questão da memória afetiva das sementes, de onde veio as sementes, quem deu as sementes, a quantidade de ano que essas sementes existem”, conta Ivanessa sobre a relação de cuidado com as sementes e plantações de mudas, pois são elementos de continuidade do sistema alimentar e são, em sua maioria, atividades realizadas pelas mulheres.

Contra a ideia de um bioma subdesenvolvido, vazio de gente, de estética ambiental árida e aparentemente sem vida, são as mulheres que reforçam a luta por um Cerrado de pé e vivo. A multiplicidade de violências que recaem sobre elas ainda as impede de produzir alimentos em seus roçados.

Sem acesso adequado à água, isso traz consequências na saúde, tanto física quanto mental das mulheres que lidam no dia a dia com a preocupação de coordenar a sustentabilidade alimentar. “Mesmo em contexto de adversidades, estão presentes, porque é possível ainda estão aqui e asseguram a continuidade desse bioma”, completa a quilombola e mestra em saúde Franciléia Paula.


Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras  do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.

Ludmila Pereira é jornalista, mestra em Comunicação e doutora em Linguística pela UFG. Também formada em Letras e com especialização em Estudos Afro Latinoamericanos e Caribenhos (CLACSO). Integra a Coletiva Pretas de Angola e a Articulação de Mulheres do Cerrado. Colabora na Rádio e TV Quilombo e Rádio Kalungueira.

Juventudes do Cerrado assumem protagonismo na 2ª Feira da Reforma Agrária em Goiás

Desde os preparativos do evento, juventude toma frente da principal ação de diálogo do MST com a cidade, em Goiânia (GO)

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Da direita para a esquerda: Sadraque, Riquelme, Bruno e Ranyelle (e seu irmão mais novo) (Foto: Marília da Silva)


A 2ª Feira Estadual da Reforma Agrária Popular, realizada pelo Movimento Sem Terra – Goiás, em Goiânia (GO) entre os dias 13 e 14 de dezembro de 2025, na Praça Universitária, mostrou que as juventudes do Cerrado estão presentes e ativas no campo e nas lutas em todo o estado. Para quem esteve na feira, foi notório como eles e elas movimentaram diversos espaços e atividades, em um evento no qual tudo fluiu de forma organizada e alegre, do início ao fim.

Taynara Franz, do Projeto de Assentamento Dom Tomás Balduíno, em Formosa (GO), conta que o trabalho da juventude começou dias antes da feira, na Brigada de Agitação e Propaganda.  “Com um grande protagonismo da juventude, a Brigada confeccionou toda a ornamentação, fez o planejamento e execução das místicas, construiu paródias para intervenções e fez apresentações musicais e dois momentos de panfletagem em Goiânia”, conta.

As brigadas, como propostas pelo MST, são grandes processos de formação, especialmente para juventude. Nelas, é possível que cada um(a) compreenda como exercer seu papel, de forma ativa, na transformação da realidade do campo e da cidade, articulando cultura, agroecologia, educação popular e comunicação como instrumentos de resistência.

O resultado se vê na prática, com jovens à frente dos coletivos de comunicação e de cultura da Feira, por exemplo, como linha de frente do diálogo mais que necessário entre campo e cidade e construindo a luta com as gerações mais velhas. Nas comunidades, eles também assumem tarefas na produção de alimentos para subsistência e comercialização, atentos aos desafios e necessidades do presente.

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Composição intergeracional em mesa do debate: Manoel Calaça, Raiany, Bárbara Loureiro e Lyra Dias (Foto: Janelson)

Da imersão no Cerrado para o diálogo com a cidade

Na véspera da feira, outro encontro de juventudes do campo se iniciava em Goiânia (GO): uma imersão de jovens das comunidades acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás). A atividade abordava o pertencimento ao Cerrado, a identidade e os sonhos dos(as) jovens no campo, com objetivo de construir coletivamente um calendário de atividades para ano de 2026, que se conecte com as lutas vivenciadas nos territórios.

Após o encontro, jovens participantes foram para a 2ª Feira da Reforma Agrária. Ranyelle Victorya e Bruno Almeida são vizinhos e namorados. Moram no Assentamento Paulo Gomes, no município de Itapuranga. A vivência no encontro de jovens veio, para eles, reafirmar uma série de princípios que eles já vivem, na comunidade onde vivem, e que dão orgulho, diante da beleza do que estava exposto na feira. “Diferente do que você encontra no mercado, aqui tem uma variedade de produtos feitos de forma artesanal, sem agrotóxicos, sem poluição. Açafrão, pimenta, abóbora, farinha, são coisas naturais da terra”, descreve Ranyelle.

Ela e Bruno já produzem junto com as suas famílias e vêm, na feira, os resultados das lutas travadas pelos mais velhos, e também o seu próprio futuro. “Os produtos que têm aqui são fruto de saberes ancestrais, do que aprendemos com nossos avós, sobre como plantar de forma saudável, sem prejudicar o meio ambiente. Produzimos milho, arroz, frutíferas, temos a produção coletiva também, tudo natural, sem agrotóxico, tiramos nosso dinheirinho”, diz Bruno.

Riquelme Pereira, do Projeto de Assentamento Chê Guevara, em Piranhas (GO), participou pela primeira vez de um encontro com jovens em Goiânia. “Eu moro no Cerrado, mas tem muita coisa que a gente ainda precisa aprender”, disse. Após a imersão, a chegada à feira ganhou novos sentidos. “A gente falou muito lá sobre agroecologia, no encontro, e ao chegar aqui a gente encontra provas de que sim, é possível produzir sem agrotóxicos”.

Riquelme, e seu irmão, Sadraque Pereira, vivem com a família em luta por terra desde a infância. Neste ano, a comunidade deu alguns passos rumo à vitória: o recurso para a compra da terra pelo INCRA já foi destinado pelo Governo Federal. Apesar de alguns entraves, espera-se que em 2026 o assentamento seja concluído.

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Performance do Coletivo de Juventude MST-GO (Foto: Tatiane Maria)

O jovem, que hoje precisa trabalhar para terceiros, comemora a perspectiva de, em breve, poder também viver da produção de alimentos. “A gente trabalha na terra, planta, mas não supre as necessidades, então preciso trabalhar fora. É muito bom ver o semblante dos meus pais. Eles estão lutando há mais de 10 anos e vêm a vitória próxima. Eu quero que o ano que vem chegue, pra gente investir dentro da terra, pra gente acessar os direitos que a Reforma Agrária garante, e poder produzir”, disse Riquelme.

Assim, como a experiência da brigada, como espaço de cooperação e organização coletiva onde se constrói espaço de unidade do campo e com a cidade, os espaços de organização entre jovens de diferentes regiões, comunidades e movimentos também fortalecem seu protagonismo na luta por justiça social e pelo direito à terra.

Foto extra gravação das entrevistas entre os jovens

Gravação de entrevistas entre os jovens durante a Feira (Foto: Marília da Silva)


Texto:

Camila Alves
Dirigente Estadual do Setor de Comunicação e Juventude do  MST-GO


Marilia da Silva
Comunicadora Popular – CPT Goiás

Entrevistas

Camila, Bruno, Marilia, Ranielly, Riquelme e Sadraque

Mulheres do Cerrado realizam encontro estadual e feira aberta ao público em Goiânia

V Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado inclui atividades de formação, articulação, autocuidado e troca de saberes tradicionais entre as participantes, além da divulgação e comercialização de suas produções

destaque site Campanha 960x540px MULHERES GO

Entre os dias 3 e 5 de dezembro, mulheres das comunidades camponesas e quilombolas do estado de Goiás se reúnem em Goiânia (GO) para a quinta edição do Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado, um espaço de articulação para construção de bem-viver, em defesa de seus modos de vida tradicionais e do bioma Cerrado.

Desde 2021, a atividade é realizada anualmente e promove o intercâmbio e a articulação entre os grupos de mulheres organizados nas comunidades acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás), em diversas regiões do estado.

As atividades incluem momentos de trocas de saberes, espaços de autocuidado coletivo, momentos de formação e articulação social.

Neste ano, o encontro promoverá ainda o intercâmbio entre mulheres de Goiás e de outros estados do Cerrado, recebendo como convidadas mulheres do Tocantins e Piauí. Juntas, elas irão apresentar ao encontro o Protocolo de Segurança de Gênero que está sendo elaborado por elas por meio do projeto Gênero e Biodiversidade, da Articulação das CPTs do Cerrado.

Com objetivo de fortalecer a busca por autonomia econômica das mulheres do campo, o Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado promove, pela primeira vez, a Feira das Mulheres do Cerrado, para divulgar e comercialização de produtos da agricultura familiar, produtos artesanais e da sociobiodiversidade do Cerrado produzidos por elas. A feira será no dia 4, quinta-feira, na Praça da Juventude (Jardim das Aroeiras), a partir das 16 horas.


Serviço:

5º Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado

Data: 3 a 5/12/25

Local: Centro Pastoral Dom Fernando – Av. Anápolis, 2020 – Jardim das Aroeiras, Goiânia – GO

Contato: Marilia da Silva – Comunicação CPT Goiás – Fone/whatzapp – 62 999404656

Feira das Mulheres do Cerrado – Aberta ao público

Data: 04/12/25 | Horário: 16hs às 21hs

Local: Praça da Juventude – Rua JDA Oito, 2146 – Jardim das Aroeiras, Goiânia – GO

Organização da 5ª Semana Nacional do Cerrado publica Carta de Repúdio ao Eco-Genocídio que enfrenta a região

CARTA ABERTA – Carta de Goiânia

Carta de Repúdio ao Eco-Genocídio do Cerrado

Organizadores e Organizadoras da 5ª Semana Nacional do Cerrado

O Cerrado pulsa como coração biogeográfico do Brasil. É o berço das águas, guardião da sociobiodiversidade e território de inúmeros povos que, há séculos, cultivam modos de vida que sustentam a terra e a coletividade. No entanto, esse mesmo coração está sendo arrancado a golpes de fogo, veneno e ganância. Diante do agravamento da destruição ambiental e humana que atinge este bioma, nós, organizadores e organizadoras da 5ª Semana Nacional do Cerrado (V SENACER), reunidos no mês de setembro de 2025, manifestamos repúdio público ao eco-genocídio em curso no Cerrado e à violação sistemática dos direitos de seus povos e comunidades tradicionais.

1. Um crime contra a vida, a natureza e os povos

O eco-genocídio – conceito reafirmado pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP) na Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado (Roma/Goiânia, 2022) – designa a destruição deliberada e articulada do bioma e o extermínio físico, cultural e simbólico de seus povos. É a face contemporânea de um processo histórico de colonização e usurpação territorial iniciado com a ocupação dos “sertões” no século XX e intensificado pela chamada Revolução Verde, que transformou o Cerrado em fronteira do agronegócio e laboratório de um modelo agroexportador devastador.

Hoje, mais de 50% da cobertura vegetal original do Cerrado já foi suprimida. Rios secam, nascentes morrem, espécies desaparecem. O ar e o solo são contaminados por milhões de litros de agrotóxicos despejados anualmente por aviões que envenenam plantações, animais e pessoas. Os incêndios criminosos se multiplicam, convertendo florestas em cinzas e expulsando comunidades inteiras.

Mas o Cerrado não morre sozinho: com ele morrem os povos que o protegem – indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco-babaçu, geraizeiros, veredeiros, ribeirinhos, agricultores familiares e tantos outros que há séculos cuidam desse território com sabedoria e afeto.

2. O veredito da terra: denúncia e justiça

Em 2022, o Júri Internacional do TPP condenou o Estado brasileiro, Estados estrangeiros e corporações nacionais e internacionais pelos crimes de ecocídio e genocídio contra o Cerrado e seus povos. O veredito reconheceu que tais práticas configuram crimes de sistema, alimentados pela grilagem, mineração predatória, expansão de monocultivos e uso intensivo de agrotóxicos – políticas que violam direitos humanos, territoriais e ambientais, e ameaçam o equilíbrio climático global.

Nós, signatários desta Carta, reiteramos o teor dessa condenação. Repudiamos a negligência histórica e institucional do Estado brasileiro, que continua a permitir e incentivar a destruição do Cerrado em nome de interesses econômicos e do lucro de poucos, em detrimento da vida de milhões.Rechaçamos também a violência cotidiana contra defensores ambientais, lideranças comunitárias e povos originários, que têm sido perseguidos, criminalizados e assassinados por protegerem o que é de todos: a vida.

3. Pela resistência dos povos e pela justiça climática

O Cerrado resiste porque resistem seus povos. A força das quebradeiras de coco, dos guardiões das veredas, dos jovens educadores, das mulheres quilombolas e indígenas, dos agricultores e pesquisadoras que integram a V SENACER, é o que mantém viva a esperança de um futuro sustentável.Inspirados pela Pedagogia Freireana, reafirmamos a importância do diálogo entre saberes científicos e tradicionais, e reconhecemos o papel transformador da educação pública e da extensão na formação de uma consciência crítica frente à crise climática. A V SENACER é, assim, um ato político-pedagógico de resistência, em defesa do Cerrado como território de vida e não de mercadoria.

4. Inclusão da Semana do Cerrado no calendário letivo

Exortamos os estados e municípios inseridos no território do Cerrado e em suas áreas de transição a instituírem, em seus calendários escolares, a Semana do Cerrado, como política pública de educação ambiental e valorização identitária. Tal medida, a exemplo do que já ocorre no Distrito Federal, onde a Lei nº 7.053, publicada no Diário Oficial do DF de 06 de janeiro de 2022, inclui a Semana do Cerrado no calendário letivo da rede de ensino – realizada anualmente de 5 a 11 de setembro –, constitui importante instrumento de mobilização social, formação cidadã e defesa do bioma.

5. Nossas reivindicações

À luz do legado do TPP e das recomendações de sua sentença, exigimos:

1. Reconhecimento constitucional do Cerrado e da Caatinga como patrimôniosnacionais, mediante aprovação imediata da PEC 504/2010, sob o lema “Riqueza presente, herança futura”;

2. Demarcação e titulação imediata dos territórios indígenas, quilombolas etradicionais;

3. Fim das políticas de incentivo ao agronegócio destrutivo, à mineração e aosmegaprojetos que violam direitos humanos e ambientais;

4. Proibição da pulverização aérea de agrotóxicos e revisão urgente da legislação quefavorece o uso indiscriminado de venenos;

5. Proteção das águas do Cerrado, garantindo acesso prioritário e sustentável àscomunidades locais;

6. Criação de políticas públicas permanentes de soberania alimentar, agroecologia etecnologias sociais que respeitem os modos de vida cerradeiros;

7. Investigação e responsabilização de empresas, agentes públicos e privadosenvolvidos em crimes ambientais e violências no campo;

8. Investimentos contínuos em educação ambiental crítica e a reestruturação doscurrículos para incluir saberes tradicionais, valorização do Cerrado e formaçãodocente voltada à sustentabilidade, promovendo consciência ecológica ecompromisso com a preservação do bioma.

9. Inclusão da Semana do Cerrado nos calendários letivos de redes de ensinomunicipal e estadual dos municípios e estados inseridos no bioma e em suas áreasde transição.

6. Chamado aos poderes e à sociedade

Encaminhamos esta Carta de Repúdio ao Eco-Genocídio do Cerrado aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, à Coordenação da COP 30, e às instituições nacionais e internacionais de direitos humanos e meio ambiente.

Convocamos ainda toda a sociedade brasileira a reconhecer que não há justiça climática sem Cerrado vivo.

Sem suas águas, seus povos e sua biodiversidade, não há futuro possível

Que esta Carta seja mais do que denúncia: que seja semente.

Semente de esperança, de mobilização e de justiça – que floresça em cada escola, comunidade, universidade e território do Cerrado, e que faça ecoar, em todo o país e além dele, a voz que clama:

“Parem o eco-genocídio! O Cerrado é vida, e a vida não se negocia.”

Goiânia, 31 de outubro de 2025.


Assinam,

Membros(as) da Comissão Organizadora da V Semana Nacional do Cerrado – “Povos, saberes e natureza do Cerrado: resistência à crise climática”

1. Adeilton Oliveira de Souza, Instituto Federal de Brasília – IFB (E-mail: adeilton.souza@ifb.edu.br).
2. Adriano Antonio Brito Darosci, Instituto Federal Goiano – IF Goiano (E-mail: adriano.darosci@ifgoiano.edu.br).
3. Alba Pedreira Vieira, Universidade Federal de Viçosa – UFV, (E-mail: apvieira@ufv.br).
4. Alcineia Pereira do Nascimento, Secretaria de Estado da Educação de Goiás –
SEDUC-GO (E-mail: alcineiap2@gmail.com).
5. Aline de Fátima Marques, Universidade Federal de Jataí – UFJ (E-mail: aline.marques@discente.ufj.edu.br).
6. Ana Carolina de Oliveira Motta, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: ana.motta@ifg.edu.br).
7. Ana Katharina Pereira Navarro, Instituto Federal de Brasília – IFB (E-mail: anaa.kathw@gmail.com).
8. Ana Maria Mapeli, Universidade Federal do Oeste da Bahia – UFOB (E-mail: mmapeli@ufob.edu.br).
9. Anderson Ernane de Souza Nascimento, Centro Universitário Unifatecie (E-mail: anderson.hernane@gmail.com).10. André Luiz Silva Oliveira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: andreluiz@ufg.br).
11. Bruna Vieira Nunes, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (E-mail: brunavieiranuunes@gmail.com).
12. Bruno Fiorese Fernandes, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: bruno.fiorese@ifg.edu.br).
13. Camila Aoki, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS (E-mail: camila.aoki@ufms.br).
14. Clesio Barbosa Lemos Júnior, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
(E-mail: clesio.junior@uemg.br).
15. Daisy Luzia do Nascimento Silva Caetano, Instituto Federal de Goiás – IFG, e Associação dos Geógrafos Brasileiros-Seção Goiânia – AGB-Seção Goiânia (Email: daisy.caetano@ifg.edu.br).
16. Daniela Pereira da Silva Carvalho, Universidade Estadual de Campinas –
UNICAMP (E-mail: d272517@dac.unicamp.br).
17. Davi Silva Fagundes, Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal –
SEDF, e Programa Decarbonize Brasília (E-mail: decarbonize.brasilia@gmail.com).
18. Deise Katiuscia Xavier Kaisa Oliveira, Centro Universitário de Mineiros – UNIFIMES
(E-mail: deise@unifimes.edu.br).
19. Divina Aparecida Leonel Lunas, Universidade Estadual de Goiás – UEG (E-mail:
divina.lunas@ueg.br / teccer@ueg.br).
20. Diorny da Silva Reis, Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – IFNMG (E-mail: diorny.reis@ifnmg.edu.br).
21. Djane Victoria Pessoa Ferreira, Universidade de Brasília – UnB (E-mail: victoriapessoa13@gmail.com).
22. Edna Lopes Miranda, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS (Email: edna.miranda@ufms.br).
23. Enio Rodovalho dos Santos, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: eniorodovalho@ufg.br).
24. Ereni Maria de Jesus, Associação de Moradores do Bairro Jardim Inconfidência de
Uberlândia/MG – AMJI-Uberlândia/MG (E-mail: ereni1965@yahoo.com.br).
25. Fausto Makishi, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (E-mail: faustomakishi@gmail.com).26. Fernanda Keley Silva Pereira Navarro, Instituto Federal de Brasília – IFB (E-mail: fernanda.navarro@ifb.edu.br)
27. Flomar Ambrosina Oliveira Chagas, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: flomarchagas@gmail.com).
28. Gabriel Pereira Lopes, Instituto Federal do Triângulo Mineiro – IFTM (E-mail: gabriellopes@iftm.edu.br).
29. Giseli Gomes Dalla Nora, Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT (E-mail: giseli.nora@gmail.com).
30. Giselle Alves Dias de Sousa, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: giselle.dias@ifg.edu.br).
31. Gislene Auxiliadora Ferreira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: gislene_ferreira@ufg.br).
32. Gustavo Rodrigues Morgado, Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – IFNMG
(E-mail: gustavo.morgado@ifnmg.edu.br).
33. Isabela Cristina Gomes Honório, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
(E-mail: isabela.honorio@uemg.br).
34. Jefferson Rabal, AGA Brasil e Associação Brota Cerrado de Certificação
Participativa (E-mail: jefferson@agabrasil.org.br).
35. José Elizaldo Araujo da Silva, Universidade Federal do Maranhão – UFMA (E-mail:
josehhelizaldo@gmail.com).
36. Juliana Marzinek, Universidade Federal de Uberlândia – UFU (E-mail: jmarzinek@ufu.br).
37. Juliana Ramalho Barros, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: juliana@ufg.br).
38. Juliano André Bogoni, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (E-mail: bogoni.ja@gmail.com).
39. Katia Alcione Kopp, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: kakopp@ufg.br).
40. Kênia Gonçalves Costa, Universidade Federal do Norte do Tocantins – UFNT (Email: kenia.costa@ufnt.edu.br).
41. Larissa Cristina Dias Limírio, Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade – ICMBio (E-mail: larissa.limirio@icmbio.gov.br).
42. Larissa de Mello Evangelista, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
larissa.evangelista@ufg.br).

43. Leide Dayanne Silva de Sousa, Universidade Estadual de Goiás – UEG (E mail: leide.sousa@ueg.br).
44. Leonora Malheiro Ferreira, Escola Municipal de Educação Integral Retiro do Bosque
– Secretária Municipal de Educação de Aparecida de Goiânia/GO – SME-Aparecida
de Goiânia/GO (E-mail: mestrado.malheiro@gmail.com).
45. Leticia de Almeida Nogueira e Moura, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
leticia.moura@ifg.edu.br).
46. Luciana Alves de Oliveira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
lucianaicb@ufg.br).
47. Manuel Eduardo Ferreira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
manuel@ufg.br).
48. Marcelo Bruno Araújo Queiroz, Instituto Federal do Piauí – IFPI (E-mail:
marcelobrunoqueiroz@gmail.com).
49. Marcelo Kuhlmann Peres, Universidade de Brasília – UnB (E-mail:
biom.fg21@gmail.com).
50. Márcia de Negreiros Viana, Instituto Federal do Ceará – IFCE (E-mail:
marcia.viana@ifce.edu.br).
51. Marco Antônio Gomes de Carvalho, Instituto Federal de Goiás – IFG, e Sociedade
Porto das Antas (E-mail: marco.carvalho@ifg.edu.br).
52. Marco Aurélio Cardoso, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
aureliocardoso@ufg.br).
53. Maria Aparecida de Sá Xavier, Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro
– SME-Rio de Janeiro/RJ e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro –
UNIRIO (E-mail: airamxavier@yahoo.com.br).
54. Maria Cristina Sanches, Universidade Federal de Uberlândia – UFU (E-mail:
sanchesmc@ufu.br).
55. Marjorie Karoline Duarte Araujo do Couto, Centro Universitário Adventista de São
Paulo – UNASP (E-mail: mkplan.arquitetura@gmail.com).
56. Marluce Silva Sousa, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
marluce.sousa@ifg.edu.br).
57. Mauricio Vieira Gomes da Silva, Universidade Federal do ABC – UFABC (E-mail:
mauricio.vieira@ufabc.edu.br).
58. Mayra Vannessa Lizcano Toledo, Universidade Estadual Paulista – UNESP (E-mail:
mayra.lizcano@unesp.br).59. Michel Mendes, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
michel.mendes@ufg.br).
60. Milena Muniz de Sousa Alves, Universidade de Brasília – UnB (E-mail:
milenamunizpidf@gmail.com).
61. Miriam Antonia Soares Filha, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
miriam.soares@ifg.edu.br).
62. Murilo Mendonça Oliveira de Souza, Universidade Estadual de Goiás – UEG (Email: murilo.souza@ueg.br).
63. Nayara da Silva Ribeiro, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (Email: nayara.ribeiro1@unemat.br).
64. Natália Tolêdo Sacchetto, Universidade Federal de Viçosa – UFV (E-mail:
natalia.sacchetto@ufv.br).
65. Octaviano Khalil Axcar, Instituto Fruto Brasil (E-mail: khalil@frutourbano.org.br).
66. Pablo Martins Bernadi Coelho, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
(E-mail: pablo.coelho@uemg.br).
67. Paula Benevides de Morais, Universidade Federal do Tocantins – UFT (E-mail:
moraispb@mail.uft.edu.br).
68. Pedro Neves da Rocha, Universidade Estadual Paulista – UNESP (E-mail:
pedro.n.rocha@unesp.br).
69. Plínio Alexandre dos Santos Caetano, Instituto Federal de São Paulo – IFSP (Email: plinio@ifsp.edu.br).
70. Rafael Amaral Shayani, Universidade de Brasília – UnB (E-mail: shayani@unb.br).
71. Rafael Costa Leite, Universidade Estadual do Maranhão – UEMA (E-mail:
rafael.loreto12@gmail.com).
72. Rafael Gustavo Capinzaiki Ottonicar, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
de Bauru/SP – SENAI-Bauru/SP (E-mail: rafael.gcottonicar@sp.senac.br).
73. Raíza Dias Amaral, Escola Estadual Professor Henrique de Matos, Secretaria de
Estado da Educação de Minas Gerais – SEE-MG (E-mail: raizamaral@gmail.com).
74. Renata Alves de Paiva Fortes, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
renata_alves@discente.ufg.br).
75. Renato Fonseca de Arruda, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT
(E-mail: fonsecaarruda@gmail.com).
76. Ricardo Takayuki Tadokoro, Instituto Federal Goiano – IF Goiano (E-mail:
ricardo.tadokoro@ifgoiano.edu.br).77. Rodrigo Marciel Soares Dutra, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
rodrigo.dutra@ifg.edu.br).
78. Rosa Maria de Brito Steckelberg, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
rosagoianesia2@gmail.com).
79. Rosângela Azevedo Corrêa, Museu do Cerrado / Faculdade de Educação /
Universidade de Brasília – UnB (E-mail: museudocerrado.unb@gmail.com).
80. Rúbia Cristina Diógenes Pinheiro, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
rubia.pinheiro@ifg.edu.br).
81. Sérgio Willians de Oliveira Rodrigues, Universidade Federal de Goiás – UFG (Email: swor@ufg.br).
82. Silvana Afonso Costa, Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Álvares de
Azevedo – Secretária de Estado da Educação de Rondônia – SEDUC-RO (E-mail:
p.sil.geo@gmail.com).
83. Solange Ikeda Castrillon, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (Email: solangeikeda@unemat.br).
84. Stephanni Gabriella Silva Sudré, Universidade Federal do Norte do Tocantins –
UFNT (E-mail: stephanni.sudre@ufnt.edu.br).
85. Sula Salani Mota, Universidade do Distrito Federal – UnDF (E-mail: sula.salani@undf.edu.br).
86. Taciane Schröder Jorge, Universidade Federal de Uberlândia – UFU (E-mail: taci.jorge@gmail.com).
87. Thamyris Carvalho Andrade, Universidade Federal do Tocantins – UFT (E-mail: thamyris.andrade@mail.uft.edu.br).
88. Thiago Ruiz Zimmer, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: thiago.zimmer@ifg.edu.br).
89. Thomas Leonardo Marques de Castro Leal, Instituto Federal de Goiás – IFG (Email: thomas.leal@ifg.edu.br).
90. Valdivino Domingos de Oliveira Júnior, Universidade Federal de Viçosa – UFV (Email: valdivino.junior@ufv.br).
91. Vladia Correchel, Universidade Federal de Goiás – UFG, (E-mail: vladiaea@ufg.br).
92. Wanessa Silva Rocha, Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás –
CREA-GO (E-mail: wrochaamb@gmail.com).
93. Wéltima Teixeira Cunha, Instituto Federal da Bahia – IFBA (E-mail:
weltimacunha@gmail.com).94. Yule Roberta Ferreira Nunes, Universidade Estadual de Montes Claros –UNIMONTES (E-mail: yule.nunes@unimontes.br).


 Foto em destaque: Thomas Bauer/CPT-H3000

COP 30 e Cerrado: Ato simbólico na Agrizone denuncia contaminação por agrotóxicos

70% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são despejados no Cerrado; manifestação acontece na entrada da Agrizone durante a manhã de hoje (20)

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Foto: Oliver/Mídia Ninja

Agentes pulverizadores com faixas que mencionam empresas como Bayer e Nestlé integram manifestação pacífica na porta da Agrizone na manhã desta quinta-feira (20). Escanteado do centro dos debates sobre soluções climáticas e das negociações da COP 30, a Conferência das Partes que acontece em Belém (PA), o Cerrado é a pauta da iniciativa a fim de chamar atenção para a contaminação por agrotóxicos que ocorre na região e afeta a saúde de seus povos, a sua sociobiodiversidade e a população brasileira.

As faixas denunciam o uso abusivo de agrotóxicos no Brasil e seus impactos principalmente no Cerrado. Também reivindicam regulação internacional do uso de agrotóxicos, já que diversas substâncias nocivas já proibidas na União Europeia continuam sendo utilizadas no Brasil sem nenhum tipo de restrição. Manifestantes trajados e paramentados com equipamentos de pulverização representam os trabalhadores rurais responsáveis pela aplicação dos produtos químicos nas lavouras – os mais afetados em casos de intoxicação por pesticidas.

Agrizone é a área dedicada ao agronegócio na COP 30 e reúne as principais lideranças do setor. Para funcionar como uma vitrine do agro, o espaço é financiado por grandes empresas como Bayer e Nestlé, além de entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A iniciativa tem o apoio do governo federal por meio da  Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a anfitriã do evento, e mira no debate da chamada Agenda Positiva do Agro 2025, visando influenciar nas negociações climáticas.

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Contaminação no Cerrado

Apenas em 2024 foram registrados 27 casos de contaminação por agrotóxico no Cerrado, sendo 20 ocorrências apenas no Maranhão, conforme aponta o Relatório Conflitos no Campo Brasil, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O Centro de Documentação da CPT entende, porém, que o número real de casos é maior do que o registrado, já que é difícil sistematizar esse tipo de ocorrência em áreas rurais onde há pouca ou nenhuma estrutura de políticas públicas de atendimento e notificação de saúde nas proximidades.

“As grandes monoculturas do agronegócio afetam diretamente as comunidades e os povos do Cerrado na essência de seus modos de vida tradicionais, baseados na produção de alimentos saudáveis e na relação harmônica com as florestas, com as águas e com a biodiversidade. Lutar contra os agrotóxicos é lutar por essas vidas, pelas nossas vidas e pela defesa do Cerrado em pé”, destaca Isolete Wichinieski, coordenadora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam que, em média, são despejados 600 milhões de litros de agrotóxicos anualmente no Cerrado, o que corresponde a mais de 70% do total consumido no país. Dossiê elaborado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado em parceria com a Fiocruz identificou 9 tipos de agrotóxicos em pesquisa que analisou a qualidade da água em comunidades de 7 estados do Cerrado.

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Coleta de água contaminada em comunidade do Cerrado no Mato Grosso do Sul, um dos 7 estados participantes da pesquisa “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado” (Foto: Bruno Santiago/Campanha Cerrado)

“Na Europa é proibido e no Brasil vale tudo?”

Do ponto de vista global, a principal reivindicação é pela padronização da regulação internacional dos agrotóxicos, como explica Jakeline Pivato, da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. “É mais que urgente a necessidade de uma padronização internacional. Hoje, países e corporações do norte global, como a própria União Europeia, possuem legislações restritivas mas vendem substâncias proibidas em seus próprios territórios para nações do Sul, como o Brasil. Dos 10 agrotóxicos mais consumidos em nosso país, sete são banidos na Europa”, relata.

De acordo com levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil, mais de 1.800 agrotóxicos foram aprovados para uso durante o governo Bolsonaro (2019-2022) e cerca de metade desses produtos é proibida na Europa atualmente. A pesquisa também revela que mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil entre janeiro 2019 a março 2022, o que ocasionou 439 mortes neste período.

Apesar da herança catastrófica, pouco ou quase nada foi feito pelo atual governo brasileiro visando a melhora do cenário de contaminação. No dia 11 de novembro, um dia após o início da COP 30, o Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa) aprovou 30 novos agrotóxicos que contêm substâncias proibidas na União Europeia.

Entre elas estão azoxistrobina e trifloxistrobina, ligadas a má-formação fetal e danos neurológicos, além de um novo tipo de glifosato, associado a riscos cancerígenos, reprodutivos e hormonais. De acordo com apuração do Brasil de Fato e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, a lista inclui ainda clocernapir, S-metolacloro, protioconazol e outras substâncias já conhecidas por causar toxicidade a peixes e aves, contaminar águas subterrâneas, gerar resistência de fungos e oferecer riscos diretos à saúde humana. 

Bahia tem a maior taxa de desmatamento do Cerrado, aponta relatório inédito

Agronegócio estimula a grilagem de terras, o desmatamento e a violência contra comunidades rurais no Oeste da Bahia

Por Paulo Oliveira (Meus Sertões) e Thomas Bauer (CPT-BA e H-3000) 

Relatório produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos [1], Amigos da Terra [2] e ActionAid [3] revela como empresas financeiras e do agronegócio especulam com terras agrícolas e estimulam destruição ambiental no Cerrado. A publicação “Especulação financeira e impactos socioambientais do agronegócio no Cerrado da Bahia” detalha casos de violação de direitos territoriais de comunidades rurais e impactos ambientais.

Clique aqui para acessar o Relatório na íntegra.

O estado da Bahia registra a maior taxa de desmatamento, principalmente, pela expansão de monocultivos de soja. O Cerrado abriga 5% da biodiversidade de espécies vegetais e animais do mundo e representa uma fonte crucial de água para todo o continente. A preservação do bioma é fundamental para evitar os efeitos da crise climática.

Os responsáveis pelo trabalho investigaram grilagem de terras, especulação financeira e destruição ambiental.

“O relatório mostra como as corporações financeiras ligadas ao agronegócio estão destruindo o Cerrado” – declarou Fabio Pitta, coordenador da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

O levantamento se baseia na análise da atuação da Radar, empresa constituída a partir de um acordo firmado entre a Cosan S.A e o fundo de pensão norte-americano TIAA (Teachers Insurance Annuity Association), investidor, sócio e parceiro estratégico do conglomerado brasileiro.

A Radar foi uma das primeiras a atuar com especulação de terras no meio rural no Brasil. Outra empresa pesquisada foi a SLC, parceira da Radar Propriedades Agrícolas S.A. Ela é apresentada no site da Cosan como “referência em gestão de propriedades agrícolas (…) com alto potencial de valorização, compreendendo cerca de 306 mil hectares estrategicamente posicionados em oito estados brasileiros”.

Na Bahia, o levantamento ocorreu nas cidades de Formosa do Rio Preto e Correntina. O trabalho abrangeu a Radar, SLC Agrícola [4], SLC LandCo, a SLC-MIT, Bunge, Cargill, ADM, Mitsui & Co e AZL Grãos (uma joint venture entre Amaggi, Louis Dreyfus Company/LDC e a subsidiária brasileira do grupo japonês Zen-Noh Grain).

Para se ter uma ideia do avanço do agronegócio em terras do oeste baiano, segundo o IBGE, entre 2004 e 2022, a área de produção de soja pulou de 98.325 para 193.100 hectares, em Correntina; e de 95.266 para 427.500, em Formosa do Rio Preto. Um crescimento de 195% e 448%, respectivamente.

No relatório da Rede, Amigos da Terra e Action Aid constam recomendações para que as empresas abandonem as práticas destrutivas. Elas incluem a suspensão das operações especulativas em terras agrícolas, a paralisação definitiva do desmatamento no Cerrado, o respeito ao direito à terra das comunidades rurais e o pagamento de indenizações por grilagem e destruição ambiental.

“O agro é a principal causa da destruição de florestas no Sul Global. Empresas financeiras internacionais estimulam esta destruição. Isso significa grilagem e ecocídio” – disse Jeff Conant, da ONG Amigos da Terra.

GRILAGEM E DANOS

O Cerrado baiano é habitado tradicionalmente por comunidades rurais. Esse território virou alvo de grileiros a partir da década de 1960. Nos últimos anos, empresas do agronegócio se instalaram na região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), ampliando as consequências desastrosas.

A Rede Social de Justiça e Direitos Humanos publica uma série de relatórios sobre os negócios de empresas nacionais e transnacionais, financeiras e imobiliárias agrícolas, localizadas na região de expansão da soja, desde 2011. Três das maiores comercializadoras de commodities estão instaladas na região: Bunge, Cargill e ADM.

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Ranchos e benfeitorias foram destruídas por pistoleiros. Foto: Arquivo da Associação de Fundo e Fecho de Pasto 

A Cosan é um conglomerado que atua como uma holding de investimentos em empresas nos setores de energia, óleo e gás natural, lubrificantes, gestão de terras agrícolas, mineração e logística. Entre 2009 e 2010, ela foi incluída na lista de empresas que exploravam o trabalho análogo à escravidão em usinas de açúcar e álcool.

Fiscais do Ministério do Trabalho encontraram 42 trabalhadores em condições precárias, em Igarapava, São Paulo. O episódio causou a queda nas ações da empresa e a suspensão de financiamentos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

A empresa conseguiu sair da “lista suja do trabalho escravo” ao obter uma liminar na justiça. Depois, fechou um acordo com o governo federal para aprimorar o sistema de fiscalização interna e se submeter a controles externos.

Em 2017, a Rumo Logística, do grupo Cosan, foi condenada por trabalho análogo à escravidão. Na primeira vez, pagou 15 milhões por danos morais coletivos, em função de obrigar motoristas de caminhão a trabalharem 34 horas seguidas, de acordo com o Ministério do Trabalho, em Campinas (SP).

A TIAA (Associação de Seguros para Professores da América) é uma organização de serviços financeiros, que oferece aposentadoria para funcionários da área acadêmica, científica, médica, cultural e governamental. Ela atende mais de 5 milhões de funcionários de 15 mil instituições. Tem investimentos de um trilhão de dólares em 50 países e é a 98ª maior empresa do EUA por receita.

O fundo de pensão, segundo dados de 2017, é a maior investidora global em agricultura, a segunda maior produtora de viníferas nos Estados Unidos e a terceira maior administradora de imóveis comerciais do mundo.

Em 19 de outubro de 2022, clientes da organização apresentaram queixa, baseados nos Princípios para o Investimento Responsável (PRI), apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Eles solicitaram a retirada da TIAA da lista de investidores sustentáveis porque ela é uma das maiores investidoras em combustíveis fósseis e a quinta maior detentora de títulos de carvão do mundo. A PRI rejeitou a queixa.

IMPACTOS NO OESTE 

A expansão do agronegócio no Cerrado, de acordo com o relatório, está associada à especulação com terras agrícolas, fomentadas pelas empresas financeiras transnacionais e firmas de comercialização articuladas com grileiros da região. Comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto, geraizeiras e brejeiras têm sido as mais atingidas.

Relatos e boletins de ocorrência dão conta que os moradores são expulsos das áreas comuns e denunciaram casos de violência de fazendeiros que buscam tomar suas terras. A apropriação de terras pelo agronegócio está relacionada ao desmatamento, à contaminação por agrotóxicos, a ameaças e ataques contra a comunidades, usando pistoleiros e milicianos armados. O relatório chega a citar a matéria “Pistoleiros abrem fogo contra fecheiros e ferem três”, publicada em Meus Sertões, no dia 11 de abril de 2023.

Apesar de as informações terem sido confirmadas por várias fontes, o governo da Bahia concedeu outorgas de milhares de metros cúbicos de água para os fazendeiros do agronegócio através do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). O órgão foi recentemente citado na operação Ceres do Ministério Público, que tornou réus oito pessoas que integravam um esquema de fraude em licenças ambientais no oeste baiano,

Além disso, a morosidade do estado em proteger o território das comunidades tradicionais contribui para a violação de direitos humanos e para a destruição ambiental.

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Picape que transportava geraizeiros foi atingida por tiros disparados por pistoleiros. Foto cedida pela comunidade 

O relatório cita o depoimento de Elisete (nome fictício por questões de segurança), da localidade de Brejão, em Formosa do Rio Preto. Segundo ela, fazendeiros se apropriam de terras e fontes de água para utilizar em pivôs de água e perfuração de poços. A ação diminui a vazão do rio Sapão, que abastece a comunidade. Além disso, rios menores secaram e o agrotóxico contamina as águas, plantas e alimentos cultivados pelos fecheiros.

Elisete e a mãe dela são artesãs e trabalham com buriti e capim dourado. Como consequência das ações predatórias secou boa parte do brejo, inutilizou árvores e as plantas utilizadas no trabalho delas. A trabalhadora rural conta ainda que em 2022 houve um grande desmatamento na região. E, no ano seguinte, a irrigação de soja, na Serra de Coaceral, em Formosa do Rio Preto, deixou o rio Sapão e Sassafrás turvo.

A família da agricultora sempre viveu ali. Há alguns anos, ela sofre ameaças de grileiros e empresas de agronegócio, que tentam usar o local como reserva legal. A legislação ambiental prevê que os imóveis rurais devem manter mata nativa equivalente a 35% da área das propriedades. O texto da lei, por pressão da bancada do agronegócio, permite que a área preservada possa estar em qualquer outra propriedade, sem a necessidade de ser nas fazendas de soja, algodão e milho, onde a vegetação é totalmente desmatada. Daí o ataque aos fecheiros que mantém as áreas intactas há dois séculos .

Embora Elisete e os parentes tenham colocado um grupo de grileiros para correr, ela admite viver com medo constante porque mais de uma vez apareceram pessoas estranhas. Os pistoleiros disseram para ela ir embora porque a terra pertencia a eles. A trabalhadora rural, porém, permanece no local.

O relatório revela ainda que duas comunidades em Formosa do Rio Preto, Mato Grosso e São Marcelo, moradores também denunciam contaminação das águas, diminuição da vazão dos rios e ameaças (clique aqui para ver reportagem publicada em 2021, em Meus Sertões – “Posseiros pedem punição para fazendeiros após atentado em Formosa do Rio Preto) . Os dois locais foram atingidos pela grilagem feita pela Canabrava Agropecuária, cuja fazenda Santa Maria consta no Livro Branco da Grilagem do Incra (1999), com 139 mil hectares de terras devolutas tomadas de forma ilegal.

Fecheiros de Mato Grosso contam que a chapada, usada como área comum de pastoreio, foi invadida pela soja do agronegócio. Embora isso tenha causado a redução das áreas para as criações, as veredas também se transformaram em alvo de grilagem para várias fazendas interessadas em torná-las reservas legais.

A Canabrava tem sido acusada de contratar pistoleiros para expulsar as famílias das comunidades tradicionais. A ação impede o acesso aos chapadões, o que leva famílias de fecheiros a passar necessidade, de acordo com o documento divulgado.

Um dos moradores de Correntina explica com mais detalhes como se dá o impacto no modo de vida das comunidades tradicionais:

“Os Gerais são chapadões centrais. Nós chamamos o Cerrado de Gerais, que sempre foram espaço de liberdade e de economia comunitária. Correntina tinha mais de 150 mil cabeças de gado. Esse número caiu para 30 mil porque as comunidades perderam territórios para os grileiros e para o agronegócio”. Outra perda foi a produção de pequi, de buriti e de caju. Os animais nativos (tatu, cutia, paca, anta, veado, ema, porco do mato, capivara, onça) sumiram” – revelou.

Em Correntina, parcerias entre a SLC e Radar;  e SLC e Mitsui (Xingu S.A) possuem reservas legais averbadas, de acordo com o relatório, sobre os Fechos Vereda da Felicidade e Capão do Modesto. Esse processo de ocupação de áreas preservadas pelos povos tradicionais é chamado de “grilagem verde”.

Enquanto isso, o desmatamento do Cerrado avança. A derrubada da vegetação na bacia do rio Corrente, entre 2001 e 2020 foi maior do que todo o estrago feito até o ano 2000, em função da expansão do monocultivo de commodities,

DESTRUIÇÃO

Em 2003, a destruição da vegetação nativa, divulgada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), chegou a 11.011 quilômetros quadrados, um aumento de 3% em relação ao ano anterior. Entre os 11 estados por onde o Cerrado se distribui, a região do Matopiba registrou 75% do total.

O INPE divulgou ainda que entre 2001 e 2020, foram derrubados 26.956,23 quilômetros quadrados de vegetação na Bahia. Em Correntina, a destruição atingiu 3.178,25 km² (12% do total); e em Formosa do Rio Preto, 5.565,14 km² (12% do total).

O relatório das ONGs ressalta que o desmatamento ocorreu graças à conivência do governo do estado. O fomento das derrubadas se deu através da concessão de licenças, sem se preocupar com os impactos socioambientais.

No oeste da Bahia, as grilagens de terra também estão associadas à apropriação de água. As chapadas, onde os territórios são tomados, são as principais áreas de recarga do aquífero Urucuia, um dos maiores do Brasil. Bilhões de litros d’água são captados diariamente pelo agronegócio em detrimento das comunidades ribeirinhas e camponesas. As licenças, mesmo que a água não seja captada, servem para valorizar as fazendas

Uma das outorgas investigadas pela Agência Pública de jornalismo investigativo foi concedida a Paulo Almeida Schmidt, que obteve autorização para captar 33,4 milhões de litros de água para a Fazenda Rio de Janeiro, em Barreiras. Paulo é o primeiro vice-presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Ele arrendou dez mil hectares da propriedade a uma subsidiária da Radar.

Levando em conta que no Brasil uma pessoa utiliza 150 litros de água para atender as necessidades básicas de consumo e higiene, O volume previsto na outorga daria para abastecer uma cidade com cerca de 220 mil habitantes.

Outro beneficiado pelo licenciamento do Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) foi o presidente da Abapa e conselheiro da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Luiz Carlos Bergamaschi. A autorização concedida a ele permite a retirada de 44,7 milhões de litros de água para quatro fazendas em Correntina, uma delas, segundo os autores do relatório, sobreposta sobre o fecho de pasto Capão do Modesto.

MILÍCIAS RURAIS

Quanto à violência registrada contra as comunidades tradicionais, estão documentadas no relatório intimidações, tentativas de homicídio, destruição de cercas e ranchos, ameaças e fechamento de acessos. Os crimes são cometidos por “empresas de segurança, que atuam como milícias armadas”.

A pesquisa feita pelas ONGs cita a Estrela Guia, que atua em diversas cidades da região e tem como clientes a Cargill, o Condomínio Cachoeira do Estrondo (envolvida em casos de pistolagem em Formosa do Rio Preto), e a Bergamaschi Agro, suspeita de intimidar moradores do Capão do Modesto.

A denúncia engloba ainda graves impactos causados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. O veneno contamina rios, lençóis freáticos e mata animais diversos. Além disso, impregna nos alimentos e aumenta a incidência de graves doenças, inclusive o câncer.

O relatório conclui que as autoridades precisam garantir o direito à terra para os povos tradicionais e promover políticas de incentivo à agroecologia e à soberania alimentar.


[1] A Rede Social de Justiça e Direitos Humanos foi criada em 1999 com o objetivo de articular organizações e movimentos sociais no Brasil para defender o direito à terra, alimentação, agroecologia, biodiversidade, justiça social e ambiental. Ela engloba cerca de 250 organizações, movimentos sociais e universidades.

[2] ONG que atua na área socioambiental, visando o desmatamento zero nos habitats naturais do Brasil.

[3] Fundada em 1972 no Reino Unido, a ActionAid é uma ONG internacional sediada atualmente na África do Sul. A organização trabalha por justiça social, equidade de gênero e étnico-racial e pelo fim da pobreza. Ela está presente em 75 países e alcança mais de 32 milhões de pessoas no mundo. A ONG se estabeleceu no Brasil em 1999. Ela atua em 2.400 comunidades de 13 estados em parceria com 18 iniciativas de educação antirracista, agroecologia e clima, direitos de mulheres e meninas, resposta humanitária e participação democrática.

[4] Fundada em 1977, a SLC Agrícola é uma das maiores produtoras de commodities agrícolas do país. Possui cerca de 733 mil hectares de área plantada em 23 unidades de produção localizadas em sete estados brasileiros, na região do Cerrado, e matriz em Porto Alegre (RS). Produz algodão, milho e soja e se dedica à criação de gado no modelo integração lavoura-pecuária (ILP). Também produz e comercializa sementes de soja e algodão sob a marca SLC Sementes. Fonte: https://www.slcagricola.com.br/quem-somos/ . Visto em 13/11/2025


Legenda da foto principal: Fazenda desmatada para plantação de soja e algodão. Crédito: Thomas Bauer