Skip to main content

Autor: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Movimentos sociais denunciam irregularidades no Programa de REDD+ Jurisdicional do Tocantins ao MPF e CONAREDD+

Documento pede a paralisação imediata do programa até que haja a garantia plena dos direitos territoriais das comunidades

A Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA) denunciou ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Comitê Nacional de Salvaguardas do REDD+ (CONAREDD+) uma série de irregularidades no Programa de REDD+ Jurisdicional do Tocantins, incluindo a violação do direito à Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) das comunidades tradicionais, quilombolas e quebradeiras de coco babaçu do estado.

O documento foi protocolado nesta segunda-feira (7), durante reunião com o MPF, que contou com a presença da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO).

Segundo o documento, o programa de REDD+ promovido pelo Governo do Estado tem descumprido a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao não garantir um processo transparente de acesso à informação e de consulta aos povos e comunidades envolvidas. De acordo com a denúncia, o Estado tem promovido consultas apenas em relação aos subprogramas de repartição de benefícios — voltados para Povos Indígenas, Povos e Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares (PIPCTAF) — no âmbito do Fundo Clima, e não sobre o programa como um todo.

A principal crítica se refere à Instrução Normativa nº 1, de 12 de fevereiro de 2025, que estabelece as regras do processo de CLPI no Tocantins. Para os movimentos sociais, é necessário revogar essa norma e reformular o objeto de consulta, de modo que abranja o programa de REDD+ em sua totalidade, assegurando que os grupos envolvidos compreendam todos os riscos e impactos associados.

Outro ponto destacado na denúncia é o descumprimento das Salvaguardas de Cancún, especialmente no que diz respeito à garantia da regularização fundiária dos territórios.

Diante dos fatos, a ATA solicita que o CONAREDD+ e o MPF intervenham no processo de implantação do Programa REDD+ Jurisdicional no Tocantins, recomendando sua suspensão imediata até que o Governo do Estado elabore e implemente legislações, decretos ou normativas que assegurem a regularização fundiária dos territórios quilombolas e a efetividade da Lei Estadual do Babaçu Livre (Lei nº 1.959, de 14 de agosto de 2008), que protege os modos de vida e os territórios das quebradeiras de coco babaçu.

A ATA também reivindica a revogação da Lei Estadual nº 3.525/2019, de 8 de agosto de 2019, que reconhece e convalida registros imobiliários irregulares, violando os direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais. A constitucionalidade dessa lei está atualmente sendo julgada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em março deste ano, a COEQTO já havia cobrado transparência do Governo do Estado em relação ao programa, exigindo o respeito ao protocolo de consulta elaborado pelas comunidades quilombolas e o cancelamento das oficinas realizadas em seus territórios, até que fossem garantidas informações claras, acessíveis e completas sobre os impactos do REDD+.

Segundo as organizações, até o momento, o programa segue sendo conduzido sem garantir o amplo acesso à informação ou prazos que permitam a devida compreensão das comunidades.

A denúncia reforça a urgência de um processo de consulta seguro, transparente e participativo. A ATA exige a paralisação imediata do programa até que haja a garantia plena dos direitos territoriais das comunidades. O documento foi assinado por um conjunto de movimentos e organizações da sociedade civil que integram a Articulação Tocantinense de Agroecologia:

Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins/COEQTO

Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu/MIQCB

Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins/APA-TO

Comissão Pastoral da Terra/CPT

Sindicato Regional dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de São Sebastião do Tocantins, Buriti do Tocantins e Esperantina/STTR Regional

Movimento Sem Terra/MST – Tocantins

Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio/ASMUBIP

Movimento Estadual de Direitos Humanos do Estado do Tocantins/MEDH-TO

União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Estado do Tocantins/UNICAFES-TO

Cooperativa de Produção e Comercialização dos Agricultores Familiares Agroextrativistas e Pescadores Artesanais de Esperantina/COOAF-Bico

Instituto Terra, Direito e Cidadania/ITDC

Núcleo de Pesquisa e Extensão em Saberes e práticas Agroecológicas/NEUZA-UFNT


Texto e Foto: Assessoria de Comunicação ATA

Nova tecnologia permite monitorar áreas de desmatamento em tempo real

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer feugiat, sapien at tincidunt consequat, justo neque efficitur massa, vitae tincidunt lorem nisl sed magna. Aenean consectetur, purus sed consequat volutpat, nibh justo faucibus nisl, vel tincidunt neque lorem vitae libero.

Mais de 145 organizações da pesca artesanal e aliadas lançam nota contra o PL da Devastação

Por Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)*

Instituições da pesca artesanal, entidades ambientais, pastorais, grupos de pesquisa, campanhas, coletivos e movimentos sociais lançam documento exigindo o arquivamento imediato do PL 2159/2021, que ameaça o licenciamento ambiental no Brasil

Mais de 145 organizações da pesca artesanal, entidades de apoio e movimentos sociais de todas as regiões do Brasil tornaram público, na última sexta-feira (13), um forte posicionamento contra o Projeto de Lei nº 2.159/2021, conhecido como PL da Devastação.

A Nota Pública, assinada por colônias de pescadores, associações, coletivos, sindicatos, pastorais sociais, universidades, grupos de pesquisa e mandatos parlamentares, alerta para os riscos que o projeto representa ao meio ambiente, aos povos das águas e ao futuro dos territórios tradicionais pesqueiros.

CLIQUE AQUI e leia a nota na íntegra

O documento foi articulado pelas seguintes organizações: Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), a Campanha Mar de Luta, o Coletivo Caiçara, a Comissão Nacional para o  Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM), o Conselho Pastoral dos Pescadores e das Pescadoras (CPP), Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (FEMAPAM), o Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR). Ele denuncia que o PL, já aprovado no Senado e agora em tramitação na Câmara dos Deputados, desmonta o sistema nacional de licenciamento ambiental, fragiliza a fiscalização, exclui povos e comunidades tradicionais do processo de decisão e pode acelerar a degradação de ecossistemas como mangues, rios, mares e lagoas, essenciais para a pesca artesanal.

“A proposta legislativa permite que empreendimentos como portos, rodovias, exploração de petróleo, mineração, hidrelétricas, parques eólicos offshore e grandes empreendimentos turísticos sejam licenciados sem a devida análise dos impactos ambientais”, afirma a nota.

Entre os principais pontos criticados estão a criação da chamada Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que dispensa avaliação técnica de órgãos ambientais; a possibilidade de descentralizar as regras para estados e municípios, muitas vezes mais vulneráveis às pressões de grandes empresas; e a completa omissão quanto ao direito de Consulta Livre, Prévia e Informada, previsto na Convenção 169 da OIT.

A nota também destaca que, ao contrário do que sugere o discurso de simplificação, o PL serve aos interesses do agronegócio, da mineração, e do setor portuário, permitindo retrocessos socioambientais inaceitáveis em meio à crise climática e à crescente violência contra comunidades tradicionais.

“A proposta legislativa também opera a completa invisibilização de povos e comunidades tradicionais (PCT’s) pois não prevê a realização da consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho”, aponta a nota.

Na linha de frente: os povos das águas alertam sobre os impactos do PL

A pescadora artesanal e militante do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), Norma Borges, reforçou a mobilização nacional das comunidades pesqueiras contra o Projeto de Lei 2.159/2021. Segundo ela, os riscos impostos pelo PL vão muito além do meio ambiente, atingindo diretamente a vida, os direitos e a autonomia das comunidades tradicionais. “Nós, pescadores e pescadoras do Brasil, estamos unidos contra o PL da devastação, porque sabemos que, com esse retrocesso e a facilitação dos licenciamentos para os empreendimentos, os territórios estarão correndo sério risco de perder a sua autonomia”, afirmou. Para Norma, o território não é apenas espaço físico, mas parte fundamental da identidade dos povos das águas. “Estão em jogo os direitos já conquistados e o desrespeito aos nossos modos de vida, nossa cultura, nosso ambiente preservado e, acima de tudo, nosso território, que é parte de nossas vidas. Digo não a esse PL da devastação”, declarou.

Para o pescador artesanal Claudio Nunes, integrante do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR), há desigualdade no acesso aos processos de licenciamento no Brasil. Ele destacou que, enquanto empreendimentos que destroem manguezais e ecossistemas conseguem autorização com facilidade, as comunidades tradicionais enfrentam dificuldades até para obter licenças básicas, como para acesso à energia elétrica. “No século XXI, a gente tem aqui 9, 10 comunidades sem energia elétrica, às escuras. Mas licenciamento para construir portos, aeroportos, isso é muito fácil para eles. Licenciamento para destruir manguezais, destruir a base das comunidades, fazer dragagem, isso é muito fácil para eles liberarem”, denunciou. Claudio agradeceu o apoio dos movimentos sociais e reforçou que a luta contra o PL da Devastação é coletiva e necessária: “ninguém larga a mão de ninguém até derrubar esse projeto”, ponderou Nunes.

O pescador artesanal Lucas Lipe, integrante do Coletivo Caiçara de São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba, alertou para os impactos diretos que o PL 2.159/2021 pode causar às comunidades tradicionais pesqueiras do litoral norte de São Paulo. Segundo ele, o projeto facilita a especulação imobiliária, um processo comum e violento na região: “A especulação acaba invadindo territórios tradicionais de forma violenta, às vezes silenciosa, e vai ocupando os espaços, grilando terrenos e terras. Então, a liberação e a facilitação de construção, de licenciamento, acaba sendo uma via de acesso à expulsão das comunidades tradicionais dos seus próprios territórios”.

Lucas também chamou atenção para as chamadas políticas de desenvolvimento que, com o argumento da infraestrutura e transporte de matérias-primas, acabam se sobrepondo aos modos de vida dos povos das águas. Em São Sebastião, ele citou como exemplo o maior terminal aquaviário da América Latina, da Petrobras, e o porto da cidade, que está em vias de ser privatizado e ampliado. Para o pescador, a flexibilização do licenciamento, como prevê o PL, acaba “colocando em risco a facilidade de ampliação do porto sobre manguezais e, não só isso, também os efeitos em outros territórios próximos. Então, é o principal problema relacionado à pesca artesanal e a importância dos mangues para a pesca artesanal mundialmente”, diz Lippi.

Para Andréa Rocha, secretária de Território e Meio Ambiente do CPP, o PL 2159/2021 aprofunda injustiças já vividas pelas comunidades tradicionais e representa uma grave ameaça socioambiental. Segundo ela, “os conflitos socioambientais ameaçam a manutenção dos ecossistemas, da biodiversidade, do modo de vida dos povos e comunidades tradicionais no Brasil, como as comunidades tradicionais pesqueiras, e também contribuem para o que nós estamos vendo em relação à crise climática”. A secretária afirma que é justamente por isso que o licenciamento ambiental precisa ser fortalecido, e não enfraquecido, como propõe o projeto. “Esse PL representa o agravamento das violações às comunidades tradicionais e também da crise climática que estamos vivenciando”, destaca.

A nota pública assinada pelas organizações da pesca artesanal e seus aliados rompe o silenciamento imposto aos territórios das águas e é um instrumento político importante para a preservação da vida, da biodiversidade e dos ecossistemas. “Que essa nota pública dos movimentos coletivos, organizações da pesca artesanal e de seus aliados e parceiros, possa quebrar o silenciamento imposto às comunidades e contribuir para a preservação dos ecossistemas, da biodiversidade, manutenção da vida no nosso planeta”, finaliza Rocha.

A íntegra da nota pública e a lista completa de signatários estão disponíveis no arquivo em anexo. A expectativa agora é pressionar os(as) deputados(as) federais a barrar esse projeto na Câmara e abrir um debate real, amplo e democrático sobre a legislação ambiental brasileira.


* O CPP é uma entidade integrante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Precisamos falar sobre o Cerrado e o PL da Devastação

No dia 21 de maio, por 54 votos a favor e 13 contra, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 2.159/2021, que ficou popularmente conhecido como o “PL da Devastação” por propor a flexibilização de regras de licenciamento ambiental no Brasil. O projeto agora retornará para a Câmara dos Deputados e, se aprovado, passará pela última instância: a aprovação ou veto do presidente Lula.

O que muda com o PL da Devastação?

O Projeto é focado no processo de licenciamento ambiental no país, propondo alterações que flexibilizam e fragilizam ainda mais a forma como são obtidas as licenças por parte dos empreendimentos solicitantes.

Uma das alterações mais drásticas é a proposta de obtenção de licença por meio da autodeclaração do empreendedor, chamada de “Licença por Adesão e Compromisso (LAC)”, que retira a necessidade de análise técnica prévia de qualquer órgão de fiscalização competente, com exceção para os casos categorizados como de “alto risco ambiental”.

Nessa suposta “desburocratização” são eliminadas as necessidades de estudos prévios de impacto ambiental e a definição de medidas compensatórias, além do enfraquecimento dos órgãos técnicos ambientais que fazem esse tipo de avaliação de risco.

A “burocratização” virou chavão na boca de parlamentares favoráveis ao PL da Devastação, ligados ao agronegócio, que alegam que o processo de licenciamento ambiental no Brasil é moroso e “atrapalha” o desenvolvimento econômico.

Um levantamento recente feito pela Agência Lupa contesta esse tipo de argumento. A organização contabilizou as licenças ambientais que foram emitidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nos últimos 10 anos e o total chegou a 6.100 licenças, o que se traduz em uma média de 560 licenças por ano, 49 por mês e 2 licenças por dia útil.

A pesquisa aponta que os setores mais beneficiados foram o de petróleo e gás, mineração e hidrelétricas, que concentraram, ao menos, 68% dos licenciamentos.

E como isso pode afetar o Cerrado e seus povos?

O Cerrado, conhecido como o “berço das águas” do Brasil, enfrenta há décadas um processo de ecogenocídio que está acabando com a sua sociobiodiversidade. Em 2024, de acordo com o Relatório anual do MapBiomas, a região continuou a liderar em área desmatada no país, com 652.197 hectares perdidos — mais da metade do total nacional.

A região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) concentrou 75% desse desmatamento, impactando diretamente territórios indígenas e quilombolas, que registraram perdas significativas de vegetação nativa, além das ameaças às vidas e territórios tradicionais destes povos.

“Ano passado a SEMA [Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão] deu a licença para os fazendeiros, mas a gente entrou com uma ação no Ministério Público, foi suspensa a licença, não conseguiram desmatar o território de Cocalinho, mas desmataram o território de Guerreiro.”

O depoimento de Raimunda Nonata, liderança e agricultora da Comunidade Quilombola Cocalinho, situada no leste do Maranhão, nos ajuda a compreender a fragilidade atual do processo de licenciamento ambiental nos estados brasileiros, onde costumeiramente órgãos fiscalizadores atuam em prol de interesses dos grandes produtores de commodities e desconsideram milhares de vidas em territórios que são secularmente ocupados e protegidos por povos tradicionais.

Nonata conta que o desmatamento na Comunidade Guerreiro, localizada ao lado da Comunidade Cocalinho, trouxe severos impactos ao seu território. “Os lavradores perderam as suas roças na primeira chuva após o desmatamento, que trouxe a água de veneno [agrotóxico] e de óleo, os plantios de arroz, mandioca e milho foram todos consumidos”.

Quem vive com os pés no chão dos territórios não hesita em afirmar que a destruição da vegetação e da sociobiodiversidade tem relação concreta com as mudanças climáticas. “Moradores do Quilombo perderam suas lavouras por conta da mudança climática. Não choveu o suficiente para segurar as lavouras esse ano, nossos alimentos não foram o suficiente”, conta Nonata.

Essa degradação tem impacto direto sobre as bacias hidrográficas do Cerrado, essenciais para o abastecimento de água em diversas regiões do Brasil. Segundo mapeamento da iniciativa MapBiomas Água, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias hidrográficas da eco-região perderam a superfície de água natural, afetando a disponibilidade hídrica e agravando a escassez em mais de 300 municípios do país.

Esse cenário de devastação compromete a subsistência de comunidades tradicionais e povos indígenas, pois acarreta a redução de recursos naturais, como água, terra fértil para plantio e a vegetação nativa, e a intensificação de conflitos territoriais, conforme explica Raimundo Siri, pescador artesanal e membro do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP).

“Fazemos defesa de nossos territórios todos os dias. Em defesa de um território limpo, desimpedido, para que a gente continue produzindo uma alimentação saudável para este país, mas são muitos absurdos que acontecem em nossos territórios tradicionais pesqueiros. Além do óleo derramado nas praias do nordeste, além da contaminação nos mangues, além das Off-Shores, agora temos também esse PL da Devastação”, enfatiza Raimundo.

É preciso destacar que a aprovação do “PL da Devastação” representa uma ameaça ainda maior à preservação da sociobiodiversidade e da vida dos povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado e de todo o país, podendo resultar em um aumento do desmatamento, poluição e violações dos direitos humanos e ambientais, especialmente em áreas já vulneráveis e em franco processo de destruição.

Além disso, o PL 2.159/2021 pode afetar a integridade territorial de comunidades tradicionais e povos indígenas, ao permitir que obras de infraestrutura, atividades minerárias e empreendimentos do agronegócio avancem sem uma análise efetiva de seus impactos sociais e culturais.

“O pior de tudo é essa morosidade dos órgãos em fazer essa demarcação, essa questão fundiária e a garantia dos territórios dessas comunidades. Do jeito que as coisas estão, além de impactadas, as nossas vidas estão em jogo. Nós colocamos o nosso corpo para defender o território”, partilha o pescador.

No Cerrado, onde já se verifica o maior índice de desmatamento legalizado, pressão sobre territórios coletivos e a falta da execução de políticas de regularização fundiária por conta da negligência do estado, este tipo de flexibilização tende a acirrar conflitos e agravar ainda mais estes processos de destruição.

Campanha em Defesa do Cerrado participa da 1ª oficina do Plano Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais

destaque site Campanha 960x540px

Integrantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado participam da oficina de construção do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, que acontece nesta semana, entre os dias 2 e 6 de junho, em Luziânia (GO).

O encontro, coordenado pela Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (SNPCT/MMA), reúne representantes de todas as regiões do país para debater e construir coletivamente políticas públicas para indígenas, quilombolas, extrativistas, pantaneiros, quebradeiras de coco, entre outros segmentos que serão contemplados.

Estes povos sofrem na pele diversos tipos de violência por conta da ausência e da fragilidade de políticas de regularização e proteção de seus territórios e modos de vida tradicionais. “Esse plano é a realização de um sonho antigo. Queremos que ele ancore a política nacional e se torne ferramenta real de luta e garantia de direitos. A oficina é só o começo de um grande mutirão”, afirma Samuel Leite Caetano, presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) e geraizeiro do norte de Minas Gerais

O documento tem previsão de lançamento para novembro de 2025, durante a COP30, em Belém (PA).


Foto: Renata Fortes/Campanha Cerrado

Nota de denúncia: DESDE 1970, O OESTE DA BAHIA NÃO TEM UM DIA DE PAZ

As Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto do Oeste Baiano enfrentam, há quase duas semanas, um cenário de tensão e tristeza. A prisão injusta de Solange e Vanderlei, Fecheiros (a) e militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, somada à emissão de mandados de prisão contra outros cinco Fecheiros, tem provocado profunda indignação. Esses (a) cidadãos(ã) estão sendo privados(a) de sua liberdade e tratados(a) de forma criminalizada, sem sequer terem sido ouvidos(a) pelas autoridades competentes.

Diante disso, o povo tem se manifestado nas ruas e nas redes sociais para afirmar: LUTAR PELOS TERRITÓRIOS DE FUNDO E FECHO DE PASTO, POR DIREITOS E POR JUSTIÇA NÃO É CRIME. Pelo contrário, trata-se de um ato legítimo e necessário diante das desigualdades históricas e das constantes ataques  ao Cerrado e aos povos que dele dependem para sobreviver.

A história da região é marcada por perseguições e tentativas de expulsão das comunidades tradicionais. Quase todo o Cerrado já foi devastado; restam apenas as áreas protegidas pelos Fecheiros, que são os verdadeiros guardiões do bioma e das poucas nascentes vivas que ainda resistem. Em Brejo Verde os Fecheiros preservam cinco importantes nascentes, que abastecem os municípios de Correntina, Jaborandi e Coribe, o avanço da grilagem coloca estas nascentes em risco de desaparecimento.

Conforme estudo realizado pela CPT e parceiros, ao longo de 2023 e 2024, foi identificado nas sub-bacias hidrográficas dos rios Corrente e Carinhanha, 3.050 trechos de águas já secas, entre córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios, num total de 7.120 km de extensão de águas mortas, uma distância equivalente à distância entre Brasil e México. Além das águas mortas, o estudo apresenta outros 580 trechos de águas classificadas como em estado crítico, o que corresponde a 3.837 km de extensão, com destaque às calhas dos rios das bacias apresentadas em um mapa. A convivência com o desaparecimento dessas fontes de água é motivo de grande preocupação, não apenas para as populações rurais, mas também para as urbanas, que dependem desses recursos hídricos para sua sobrevivência.

É essencial que o Sistema de Justiça e Segurança Pública reconheça as arbitrariedades que vêm sendo praticadas no Oeste da Bahia. As autoridades precisam conhecer  as áreas ocupadas e preservadas há séculos por essas populações, reconhecer os verdadeiros moradores(as) dessas comunidades e quem são os grileiros, bem como, promover celeridade aos procedimentos de regularização fundiária dos mais diversos territórios tradicionais.

Continuaremos  ao lado das comunidades, fortalecendo a resistência e as lutas por justiça e clamamos  pela  imediata liberdade de Solange, Vanderlei e dos demais Fecheiros injustamente perseguidos(as). Não é admissível que esses(a) cidadãos(ã) sejam tratados(a) como criminosos(a) enquanto seus territórios tradicionais estão sendo saqueados por grileiros.

Mais do que isso, é urgente a regularização fundiária dos Territórios Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto — uma reivindicação histórica que se arrasta há anos sem providências efetivas por parte do Estado da Bahia, responsável legal segundo a legislação estadual.

Em abril de 2023, um grupo de Fecheiros do Fecho de Cupim, no município de Correntina, foi emboscado. Três Homens foram baleados, e uma das vítimas ainda carrega uma bala alojada no corpo. Até hoje, não houve conclusão das investigações, tampouco responsabilização dos agressores.

Há dezenas de registros de ocorrências em delegacias locais. Um único Fecho de Pasto reúne mais de 30 boletins de ocorrência, além de inúmeras audiências públicas, oitivas e reuniões. Contudo, não se observa uma atuação efetiva do Estado — ou, ao menos, não em defesa dos povos e comunidades do Oeste baiano.

Nem mesmo diante de um cenário como este os grileiros cessam os ataques violentos. O Fecho de Pasto de Entre Morros e Morrinhos está tomado por  uma empresa de segurança e tratores, soterrando nascentes, retirando a vegetação nativa,  inibindo os Fecheiros de acessar parte do seu território. Nesta semana, expulsaram o gado da área, empurrando-o rumo ao município vizinho. Os(as) Fecheiros(as) temem os prejuízos e pela própria vida. 

Em locais como Brejo Verde, a grilagem já avança até os quintais das casas, no dia 15 de maio o rancho do Fecho foi totalmente destruído. Enquanto trabalhadores honestos estão presos ou privados da liberdade, há invasores no território afrontando  à comunidade. É neste momento que o Sistema de Justiça e Segurança Pública deve agir com firmeza, realizando uma investigação séria para identificar a origem desses grileiros e  especuladores imobiliários que se valem de documentos fraudulentos. 

Foram protocolados pedidos de habeas corpus no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, em favor dos(a) companheiros(a) detidos(a) no estado do Rio de Janeiro, no dia 16 de maio, bem como para os demais Fecheiros que permanecem privados de liberdade. Reiteramos a expectativa de que haja uma reparação célere e justa, possibilitando o retorno desses companheiros (a)  ao convívio  famíliar.

Ressaltamos ainda a urgência de que o Estado da Bahia promova, de forma imediata, a regularização fundiária dos territórios tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto, garantindo os direitos territoriais e a dignidade dessas comunidades.

É necessário que o Governador Jerônimo Rodrigues e demais autoridades adotem medidas urgentes contra esse avanço que ameaça a existência desses povos e seus modos de vida.

Articulação de Mulheres pelo Cerrado do Oeste da Bahia 

Associação de Advogados(as) de Trabalhadores(as) Rurais

Associação Comunitária Da Escola Família Agrícola Rural De Correntina e Arredores – ACEFARCA

Agência 10envolvimento 

Articulação das CPTs do Cerrado

Associação dos Pescadores Artesanais da Bacia do Rio Grande – APARIOGRANDE 

Associação Comunitária de Preservação Ambiental dos Pequenos Criadores de Fecho de Pasto de Cupim, Sumidor e Cabresto – ACPAC

Associação Comunitária de Preservação Ambiental dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Tarto

Associação de Desenvolvimento Comunitário do Tatu – ASTAC

Associação de Pequenos Agricultores de Silvânia

Associação dos pequenos agricultores da comunidade Pedra Branca – APACPB

Associação Comunitária de Defesa do Meio Ambiente dos Criadores do Fecho Gado Bravo, Galho da Cruz a Lodo

Associação Comunitária das Comunidades de Barreiro Preto, Porco Branco, Cacheiro, Olho D’Água do Barro e Brejo da Gameleira.

Associação Comunitária Agropastoril e de Proteção Ambiental de Boi a Rib´ Abaixo – Boi a Rib´ Abaixo e Associação Comunitária Agropastoril e de Proteção Ambiental do Vale do Capão Grosso – ASAA

Associação dos Trabalhadores Rurais do Salto – ATRS

Associação Comunitária dos Agricultores de Fundo e Fecho de Pasto da Comunidade de Salobro

Associação comunitária de defesa do meio ambiente dos criadores do fecho morrinho entre morros Ribeiro a gado bravo -ACFEM

Associação dos Moradores da Agrovila 2 e Rio do Meio – AMAR 

Fecho de Pasto de Clemente 

Comissão Pastoral da Terra – CPT

Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE 

Coletivo de Fundo e Fecho de Pasto da Bacia do Rio Corrente 

Coletivo Águas do Oeste 

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Campanha Nacional Contra Violência no Campo

Movimento Ambientalista Grande Sertão Veredas

Deputado Estadual Hilton Coelho – PSOL-BA 

Deputado Federal Glauber Braga – PSOL-RJ

Deputada Federal Célia Xakriabá – PSOL/MG

Deputado Federal Tarcísio Motta- PSOL- RJ 

Deputado Estadual Renato Roseno- PSOL- CE

Escola de Ativismo

Justiça Global 

Observatório do Matopiba 

Observatório de conflitos Agrosocioambientais do Oeste da Bahia (UFOB)

Observatório Socioterritorial do Baixo Sul – OBSUL / IFBaiano-Valença

Mandato Iza Lourença -Vereadora PSOL -BH 

Mandato Cida Falabella -Vereadora PSOL- BH

Mandato Professor Hamilton Assis – Vereador PSOL – Salvador

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM

Movimento de Mulheres Unidas na Caminhada  – MMUC

Mato Grosso do Sul é o 5º estado com mais conflitos no campo em 2024, aponta relatório 

Publicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 132 casos de violências ocorridas em territórios camponeses no estado sul-mato-grossense

Na próxima sexta-feira, 30 de maio, às 18h (horário de MS), a Comissão Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul (CPT-MS) lança regionalmente a publicação Conflitos no Campo Brasil 2024, denunciando casos de violências registrados no campo no estado em 2024. O evento acontece na sede do Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino do MS (SISTA-MS), em Campo Grande (MS). 

A atividade é gratuita, não sendo necessária inscrição prévia, e será transmitida pela internet no canal da CPT no Youtube (acesse aqui). Participam das mesas de exposição e debate representantes de povos indígenas e comunidades camponesas do estado, lideranças de movimentos sociais e de organizações da sociedade civil, pesquisadores, além de integrantes da coordenação nacional e regional da CPT e da Campanha Contra a Violência no Campo.

O Mato Grosso do Sul ocupa o 5º lugar no ranking de estados com mais conflitos no campo em 2024, tendo registrado 132 ocorrências. Foram 99 conflitos por terra que impactaram mais de 13 mil famílias camponesas e indígenas. De acordo com o relatório da CPT, mais de 260 pessoas sofreram algum tipo de violência em áreas rurais, em sua maioria em territórios indígenas dos povos Guarani e Kaiowá, incluindo agressões, ameaças, contaminação por agrotóxicos, atos de violência contra a mulher, tentativas de assassinato, entre outras ocorrências.

Duas pessoas foram assassinadas no campo no ano passado no estado sul-mato-grossense: o jovem Neri Ramos (23), do povo Guarani e Kaiowá, em 18 de setembro, na Terra Indígena (TI) Nhanderu Marangatu, situada em Antônio João (MS); e o rezador, também do povo Guarani e Kaiowá, Argemiro da Silva Escalante (74), que vivia na Aldeia Pirakuá, no município de Bela Vista (MS).

Brasil

A nível nacional, a partir dos registros do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (Cedoc-CPT), é possível observar uma queda de quase 3% dos conflitos no campo em relação a 2023, com 2.185 conflitos em 2024 contra 2.250 no ano anterior, conforme dados atualizados do Cedoc-CPT. O ano de 2023 registrou um recorde no número de registros desde o início da publicação e, apesar da pequena queda em 2024, o ano passado ainda apresenta o 2º maior número de conflitos da série histórica da CPT. 

A manutenção dos conflitos em patamares altos se relaciona com o aumento de conflitos por água, além da persistência do aumento dos conflitos por terra, impactados pelo crescente número de violências contra a ocupação e a posse. Houve ainda uma redução nos casos de trabalho escravo e nas resistências, o que contribuiu para que os dados gerais de conflitos no campo de 2024 fossem menores em comparação a 2023. 

A maioria dos registros prosseguem sendo de violência no eixo terra, com 1.680 casos, representando 78% do total. Em seguida vem o eixo água, com 266, depois o eixo trabalho, com 151 casos, e as resistências, com 88 registros.

Fonte: Cedoc-CPT

Divulgada anualmente pela CPT, a publicação apresenta os dados de conflitos no campo no Brasil registrados no último ano, além do comparativo com os números da série histórica, trazendo análises e sistematizações elaboradas por pesquisadores, agentes da Pastoral e da equipe do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (CEDOC-CPT).


Serviço:

Lançamento do Relatório Conflitos no Campo 2024 no MS (entrada franca)

Data e horário: 30/05/25, às 18h00 (horário de MS)

Local: SISTA-MS – Rua Portuguesa, 331, Vila Albuquerque – Campo Grande-MS

Transmissão virtual: https://www.youtube.com/watch?v=om71p27IVhk 

Informações e contato para imprensa: 

Bruno Santiago (11 99985 0378 – comunicacerrado@gmail.com)

Nota Técnica – Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil

Acessar a Nota Técnica em PDF

A Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil – Balanço do governo Lula 3” é resultado de um esforço coletivo de sistematização e análise crítica, construído a partir de debates entre movimentos sociais e organizações que lutam pelo direito ao território, em articulação com a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. O documento centra-se numa questão fundamental: a concentração fundiária, a violência no campo, o desmatamento e a alteração dos ciclos das águas. Essas problemáticas são analisadas à luz de um balanço das políticas territoriais e ambientais desenvolvidas na primeira metade do atual governo Lula. Com esta reflexão, a nota técnica pretende fortalecer as lutas pelo reconhecimento e garantia dos territórios como um direito essencial para os povos e comunidades tradicionais.

Nota Técnica – Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil

Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil – Balanço do governo Lula 3” é resultado de um esforço coletivo de sistematização e análise crítica, construído a partir de debates entre movimentos sociais e organizações que lutam pelo direito ao território, em articulação com a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. O documento centra-se numa questão fundamental: a concentração fundiária, a violência no campo, o desmatamento e a alteração dos ciclos das águas. Essas problemáticas são analisadas à luz de um balanço das políticas territoriais e ambientais desenvolvidas na primeira metade do atual governo Lula. Com esta reflexão, a nota técnica pretende fortalecer as lutas pelo reconhecimento e garantia dos territórios como um direito essencial para os povos e comunidades tradicionais.

Nota Técnica com balanço parcial das políticas fundiárias, territoriais e ambientais do governo federal é lançada

Produzida pela Campanha em Defesa do Cerrado e pela Via Campesina, publicação será divulgada e entregue para representantes do governo durante Seminário sobre Políticas Fundiárias em Brasília (DF) 

Organizações da sociedade civil integrantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Via Campesina lançam nesta quinta-feira (22), em Brasília, a Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil: Balanço do governo Lula 3”. A publicação será apresentada e entregue para representantes do governo federal durante Seminário sobre políticas fundiárias realizado no Centro Cultural de Brasília (CCB), no mesmo dia 22, e também disponibilizada para download gratuito no site da Campanha em Defesa do Cerrado, a partir das 8h (horário de Brasília). 

BAIXE gratuitamente A PUBLICAÇÃO CLICANDO AQUI

A programação do evento conta com delegados dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA), do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), além de outras representações de órgãos governamentais, lideranças comunitárias, entidades e movimentos da sociedade civil.

O documento apresenta um balanço das políticas territoriais, fundiárias e ambientais da primeira metade do governo federal atual (2023-2024). O intuito das entidades organizadoras do material é que a produção e a sistematização de reflexões e dados apresentados possam contribuir para o fortalecimento das lutas em torno do direito fundamental de acesso à terra e da garantia da posse e integridade dos territórios tradicionais.

De acordo com a Nota Técnica são diversos os problemas oriundos da concentração fundiária no país. Os dados apresentados mostram ser incontestável a relação entre o avanço das mudanças climáticas e problemas estruturais territoriais e ambientais que ameaçam cotidianamente as vidas de povos e comunidades do campo como a grilagem de terras, a violência em terras e indígenas, o desmatamento, os incêndios criminosos, a contaminação por agrotóxicos e a seca de rios e nascentes.

“A gradual perda da soberania alimentar e da biodiversidade, a contaminação das águas por agrotóxicos e o desmatamento em larga escala resultam diretamente de políticas fundiárias, agrárias e agrícolas que estimulam uma agropecuária predatória”, aponta a publicação.

Para além da análise contextual e crítica, o material também apresenta propostas concretas para provocar mudanças e alterar a rota do cenário de “caos e injustiça fundiária e ambiental” que o Brasil se encontra. Para André Sacramento, membro da coordenação da Campanha em Defesa do Cerrado e advogado da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Bahia (AATR), “as recomendações apresentadas na Nota são proposições objetivas e exequíveis para o próximo biênio do governo (2025-26)”.

“Os principais fatores que identificamos para que as ações do governo nos próximos anos possam ter um impacto real na garantia do direito à terra e ao território são a efetiva participação dos movimentos sociais nos espaços de decisão, com a priorização do que eles indicam como pautas prioritárias, além de uma melhor comunicação, coordenação e articulação entre os diferentes órgãos e esferas de governo, que hoje ainda atuam de forma isolada e às vezes contraditória”, destaca Sacramento.


Serviço:

Seminário e Lançamento da Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil: Balanço do governo Lula 3”

Data e horário: 22 de maio, a partir das 8h, em formato virtual

Transmissão ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=pHxCtEqHqpE

Programação completa do Seminário clicando aqui

Inscrições para cobertura de imprensa e solicitação de entrevistas:

comunicacerrado@gmail.com | 11 99985 0378 – Bruno/Campanha em Defesa do Cerrado

Nota de denúncia e repúdio: Fecheiros e militantes do MAB são presos e criminalizados injustamente no município de Correntina (BA)

O Coletivo dos Fundos e Fechos de Pasto da Bacia do Rio Corrente, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT-BA), a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR/BA), Campanha Nacional contra a Violência no Campo, Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) e a Escola de Ativismo vêm a público denunciar o processo de criminalização de militantes do MAB e comunidades tradicionais de fundo fecho de pasto em curso no oeste da Bahia. 

Na última sexta-feira, dia 16 de maio de 2025, dois trabalhadores da comunidade tradicional de Fundo e Fecho de Pasto de Brejo Verde em  Correntina – BA foram presos no Rio de Janeiro – RJ de forma arbitrária. Solange Moreira Barreto e Silva, camponesa, fecheira, militante do MAB e agente comunitária de saúde e seu esposo, Vanderlei Moreira e Silva, camponês e fecheiro estavam viajando a passeio, depois de 3 anos planejando a viagem e com pacotes comprados desde 2024 foram detidos no aeroporto do Rio de Janeiro sem informações sobre acusação contra eles. 

Outros 04 trabalhadores, estão com mandados de prisão em aberto e não sabem a razão das acusações. As advogadas, desde sexta-feira (16 de maio), estão requerendo ao judiciário, Comarca de Coribe, habilitação no processo, pedido que vem sendo negado, tendo sido realizada a Audiência de Custódia sem que os representantes legais dos Fecheiros tivessem acesso aos autos dos processos o que configura violação de direitos fundamentais à ampla defesa, contraditório e informação. 

Todas essas pessoas são reconhecidas historicamente na região pelo compromisso com a defesa dos territórios tradicionais, das águas, dos direitos humanos e da vida. Trata-se de uma prisão política e de criminalização das comunidades que lutam contra a grilagem de terras e expropriação dos territórios na região oeste da Bahia. 

Além dos mandados de prisão, só na última semana, na madrugada de quinta para sexta, o rancho do Fecho de Pasto Brejo Verde foi destruído e queimado, variantes foram abertas no Fecho de Entre Morros com a presença de segurança armada para intimidar os trabalhadores e impedir o manejo do gado na área coletiva. 

O terror orquestrado contra as comunidades da região do Vale do Rio Arrojado continua. Hoje (19 de maio de 2025) cerca de 08 viaturas com policiais militares e civis invadiram o território da comunidade de Brejo Verde e Aparecida do Oeste e arrombaram casas sem mandado de busca ou qualquer comunicação com os moradores. Realizaram diversas ameaças aos familiares dos fecheiros criminalizados e promoveram violência psicológica contra os moradores locais que estão com medo de circular em sua própria comunidade. 

Desde 1970 os povos e comunidades tradicionais denunciam as violências, os ataques e invasões de seus territórios por empresas do agronegócio aos órgãos públicos, sem que haja ações efetivas de regularização dos territórios tradicionais. A região do Oeste da Bahia é marcada por casos de grilagem de terras públicas em territórios tradicionais de Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto. Fazendeiros e empresas por meio de violência e pistolagem tentam expulsar as comunidades de seus territórios limitando direitos fundamentais de centenas de pessoas, ao impedir que estas exerçam seu modo de vida. Segundo dados do Caderno de Conflitos no Campo da CPT, o município de  Correntina se destaca no Estado da Bahia, como o mais conflitivo com registro de 132 ocorrências de 1985 a 2023. E estes números só se agravaram em 2024 e 2025. Neste mesmo período, ranchos foram queimados e destruídos, cercas e pontes derrubadas, idosos ameaçados, tentativa de homicídios com 03 trabalhadores baleados, ameaças, cerceamento, pistolagem, coerção e abertura de valetas nas estradas impedindo o acesso às áreas de uso coletivo. 

O terror orquestrado pelo aparato policial da Bahia juntamente com o judiciário, por meio da criminalização dos trabalhadores e da negativa do acesso das advogadas ao processo, é uma evidente violação de Direitos Humanos e Territoriais das comunidades tradicionais. Por essa razão, EXIGIMOS:

  • a LIBERDADE dos Fecheiros que estão detidos injustamente;
  • a HABILITAÇÃO das advogadas no processo criminal;
  • a SUSPENSÃO das invasões policiais nas comunidades tradicionais.

Bahia, 19 de maio de 2025

Coletivo dos Fundos e Fechos de Pasto da Bacia do Rio Corrente
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
Comissão Pastoral da Terra (CPT-BA)
Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR/BA), Campanha Nacional contra a Violência no Campo
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP)
Escola de Ativismo
Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Campanha em Defesa do Cerrado promove Seminário e lança Nota Técnica sobre política territorial e fundiária no Brasil

Restam poucas vagas para participar presencialmente do Seminário sobre Política Territorial e Fundiária no Brasil, que será realizado no Centro Cultural de Brasília (CCB) no dia 22 de maio, das 8h às 17h, em Brasília (DF). A atividade visa debater temas relacionados ao panorama das políticas territoriais e fundiárias no Brasil, além de marcar o lançamento público de Nota Técnica que discute temas centrais relacionados às questões fundiárias no país e apresenta um balanço parcial das políticas do setor no governo atual (2023/2024).

Para participar do formato presencial é necessário realizar sua inscrição através do preenchimento do formulário de inscrição (acesse clicando aqui). A programação também será transmitida virtualmente pelo canal da Campanha em Defesa do Cerrado no Youtube (acesse aqui).

O evento e a elaboração da Nota são iniciativas de organizações e movimentos vinculados à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, por meio de seu Grupo de Trabalho sobre Políticas Fundiárias, e à Via Campesina. O espaço contará com a participação de representantes de povos e comunidades tradicionais, entidades da sociedade civil, pesquisadores e representantes do poder público para que sejam realizadas escutas e debates. Durante o Seminário a Nota Técnica será entregue para representantes do governo e da sociedade civil presentes, além de ser lançada em formato digital e disponibilizada no site da Campanha em Defesa do Cerrado.

Confira a programação* do Seminário e Lançamento:

Horário  

Atividade

Participantes

08h30

Abertura | Saudações e mística inicial

Representantes de Povos e Comunidades Tradicionais e de entidades da Campanha em Defesa do Cerrado e da Via Campesina

09h00

Mesa 1: Contextualização sobre a Nota Técnica e Balanço das Políticas Fundiárias no governo atual

Mediação: Juliana de Athayde – Associação de Advogados de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Bahia (AATR)

Participantes da mesa:

  • Edmilson Costa – Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG)
  • Denildo Moraes – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)  
  • Valcelio terena – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) 
  • José Oliveira – Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) 
  • Raimunda Nonata – Comunidade Quilombola Cocalinho/Moquibom
  • Maurício Correia – GT Fundiário/Campanha em Defesa do Cerrado

10h30

Intervalo

10h50

Mesa 2: Construção da Política Nacional de Territórios Tradicionais

Mediação: Ana Ilda – Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP)

Participantes da mesa:

  • Marcelo Trevisan – Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)
  • Isabela Cruz – Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA)
  • Samuel Caetano – Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT)/CAA Norte de Minas
  • Renata dos Reis – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)

12h15

Almoço

14h00

Fila do Povo: Recepção de perguntas, proposições e questionamentos para as representações do Poder Público

Mediação: André Sacramento – Associação de Advogados de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Bahia (AATR)

Participantes da mesa:

  • Gustavo Souto – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)
  • José Dumont Teixeira – Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA)
  • Hayla Ximenes – Secretaria do Patrimônio da União (SPU)

16h00

Encerramento: Ato de entrega da Nota Técnica e da Carta Política para o poder público

Representantes de Povos e Comunidades Tradicionais e de entidades da Campanha em Defesa do Cerrado e da Via Campesina

 

Serviço:

Seminário e Lançamento de Nota Técnica sobre Política Territorial e Fundiária no Brasil

Inscrições clicando aqui | Transmissão ao vivo clicando aqui

Data e horário: 22 de maio, das 8h às 17h | Local: Centro Cultural de Brasília (CCB)

Endereço: SGAN 601 Módulo D – Asa Norte, Brasília – DF

Mais informações: comunicacerrado@gmail.com

*Programação sujeita a atualizações

Povos e comunidades tradicionais cobram urgência na definição de marco legal para regularização fundiária de territórios

Próximo de 600 representantes de organizações da sociedade civil e movimentos sociais assinam Carta Aberta à ministra Marina Silva (MMA) e ao ministro Paulo Teixeira (MDA) cobrando urgência na aprovação de Decreto Federal sobre o tema

Texto: Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN

Brasília – Uma mobilização nacional de organizações da sociedade civil, representantes de povos e comunidades tradicionais (PCTs), parlamentares e entidades aliadas, divulgou, nesta terça-feira (29) uma Carta Aberta à ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA); e ao ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). As organizações cobram urgência, transparência e compromisso político na tramitação da proposta de Decreto Federal para o reconhecimento e a regularização fundiária de territórios tradicionalmente ocupados.

A Carta, que já conta com a assinatura de cerca de 600 instituições de referência e aliadas à essa temática, destaca a morosidade e os entraves que têm marcado a construção desse normativo, apesar de décadas de acúmulo de conhecimento técnico, de mobilizações e das diretrizes já existentes na Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos PCTs (Decreto nº 6.040/2007). 

O documento solicita uma audiência conjunta com os ministros, além da definição de um cronograma público e de mecanismos efetivos de consulta às comunidades, conforme previsto na Convenção 169 da OIT.

“Sem uma normativa clara e aplicável, milhares de comunidades como quebradeiras de coco babaçu, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, pantaneiros, entre outros, seguem invisibilizadas diante do Estado e vulneráveis a processos de grilagem, desmatamento e conflitos fundiários”, afirmam os signatários.

A expectativa é de que o Decreto Federal seja assinado ainda em 2025, tendo como marco simbólico a realização da COP 30, em Belém, onde o Brasil pretende apresentar avanços concretos em suas políticas ambientais e de justiça socioambiental. Os articuladores da Carta ressaltam, no entanto, que “sem a participação direta dos povos e comunidades e um compromisso real entre os ministérios, não haverá decreto legítimo ou eficaz”.

“Nós povos e comunidades tradicionais do Brasil, que estamos espalhados por diversos biomas, ambientes e ecossistemas do país, temos ciência que sabemos manejar os ambientes com maestria, pois compreendemos a terra como mãe e não como mercadoria. Ecoamos nossas vozes para pedir o básico, queremos ser ouvidos, queremos apoio e solidariedade política para colocar de pé o decreto que reconhece e regulariza os territórios PCTS em todo país”, conclama o atual presidente do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), Samuel Leite Caetano.

Entre os signatários da Carta Aberta aos ministros Marina Silva e Paulo Teixeira, constam movimentos sociais, como da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP), Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Movimento Sem Terra (MST), a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Também constam organizações da sociedade civil, como a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas  e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS); universidades e núcleos pesquisa, como o Programa de Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Comunidades Tradicionais da Universidade de Brasília (MESPT/UNB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Pará  (UFPA); Programa de Ordenamento e Governança Territorial; o Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB); Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS);  International Rivers; Instituto EcoVida; Terra de Direitos, Rede Cerrado; conselhos de políticas públicas e entidades classistas, como a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE);  Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG); e articulações ambientais e agroecológicas, como Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) e Rede Maniva.

A Carta e a lista de signatários completa podem ser acessadas no link abaixo:

CARTA ABERTA AOS MINISTROS DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA E DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO E AGRICULTURA FAMILIAR

Pesquisa identifica espécies nativas com potencial para recuperação de áreas degradadas

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Integer feugiat, sapien at tincidunt consequat, justo neque efficitur massa, vitae tincidunt lorem nisl sed magna. Aenean consectetur, purus sed consequat volutpat, nibh justo faucibus nisl, vel tincidunt neque lorem vitae libero.

Jornada contra os agrotóxicos e pela vida em Goiás

Este informe reúne as principais informações sobre a Jornada Contra os Agrotóxicos e em Defesa da Vida em Goiás, realizada em novembro de 2024. A iniciativa foca no enfrentamento dos impactos dos agrotóxicos no Cerrado, destacando o protagonismo e as potencialidades das comunidades e organizações locais na defesa dos seus territórios.

Além disso, aborda as ações e propostas de articulação com os poderes públicos. A sistematização e elaboração da publicação é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Povo Guarani Kaiowá replanta a própria vida em terra devastada pelo agro no Mato Grosso do Sul

Sobre a terra devastada por monocultivos tóxicos de soja e milho transgênico, indígenas Guarani Kaiowá – mulheres, crianças, homens, jovens e idosos – montam barracas de lona e iniciam mais uma retomada de parte da Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina, Mato Grosso do Sul. Desde 2011, a TI foi identificada e delimitada pela Funai (Fundação Nacional do Índio) em 12 mil hectares, mas a demarcação foi barrada por ações judiciais, em um estado que protagoniza escândalos na venda de sentenças judiciais

Crédito Rebeca Bastos Ascom AATR
Na retomada Yvy Ajhere, lideranças Guarani Kaiowá recebem jornalistas para uma conversa sobre a luta por terra e território. Crédito: Rebeca Bastos – Ascom AATR

Falta tudo na retomada: água potável, alimento, remédios, cuidado médico para quem precisa, falta segurança – jagunços a serviço de fazendeiros rondam dia e noite o local. Sobra a violência do Estado, que se faz presente pela ausência, no total desamparo ao povo que, desde 1500, tenta recuperar seus territórios invadidos e saqueados por Europeus e, agora, por fazendeiros do agronegócio que exportam grãos à China e países da Europa.

É por causa dessa ausência estatal, ancorada no racismo histórico e colonial que estrutura a sociedade brasileira, que os Guarani Kaiowá, segundo maior povo indígena do Brasil, com mais de 64 mil habitantes no Mato Grosso do Sul, entendem que nenhuma demarcação de suas terras será feita, mesmo sendo lei, e que a única forma de estar em seu tekoha (lugar em que se é, na língua guarani) é por meio das retomadas. A demarcação tem sido feita pelos próprios indígenas, com seus pés, rezas e cânticos.

2 Encontro jornalistas MS Crédito Tales Damascena Kalunga Comunicações
Barracas de lona da retomada são instaladas sobre os campos de soja e milho de fazendas do agronegócio exportador. Falta água e comida nas retomadas, e o solo está contaminado com agrotóxicos. Crédito: Tales Damascena – Kalunga Comunicações

Ao todo, o povo Guarani Kaiowá demanda como suas terras ancestrais 700 mil hectares em todo o Mato Grosso do Sul, cerca de 2% da área do estado, que tem 35 milhões de hectares. No entanto, há décadas eles têm sido obrigados a viver em reservas diminutas, que confinam milhares de pessoas em espaços insuficientes para a manutenção de seus modos de vida. 

As mais recentes retomadas aconteceram em julho desse ano, na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina. Ao todo existem, hoje, sete retomadas nessa TI. Os ataques de fazendeiros, jagunços e policiais militares aos indígenas em seus territórios reocupados são virulentos. Atropelamentos, tiros com armas de fogo e bala de borracha, espancamentos, perseguição, tortura, tentativas de assassinato. São inúmeros os relatos de violência contra as pessoas acampadas noticiados pela imprensa.

A Força Nacional foi enviada em julho pelo governo federal para garantir alguma segurança aos indígenas diante do aumento da violência de ruralistas contra eles. Ainda assim, houve denúncias de que policiais da Força Nacional estavam interagindo amistosamente com jagunços que cercavam as retomadas para atacar os Guarani Kaiowá. Em agosto, as equipes da Força se retiraram de uma das regiões sem prévio aviso – mesmo com a tensão instalada –, deixando o caminho livre para novos ataques. Jagunços fortemente armados avançaram contra os Guarani Kaiowá, atirando com armas de fogo e balas de borracha; 10 indígenas foram feridos.

3 Encontro jornalistas MS Crédito Tales Damascena Kalunga Comunicações
Reunião do povo Guarani Kawioá com jornalistas na retomada Yvy Ajhere, na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, na zona rural de Douradina, Mato Grosso do Sul. Crédito: Tales Damascena – Kalunga Comunicações

Um deles, um jovem de 20 anos, levou um tiro na cabeça, e até hoje segue com a bala alojada no crânio. O atendimento inicial recebido por ele no hospital público de Dourados, capital do Mato Grosso do Sul, a 40km do local do ataque, foi marcado por mais violência. “O jovem contou que ouviu de um policial militar, que estava no hospital, que o tiro deveria ter sido para matar. ‘Ele disse que o tiro foi errado. Que deveria ter atingido no meio do peito. ‘Que assim matava logo o vagabundo'”, afirma reportagem sobre o caso.

No Mato Grosso do Sul, estado dominado por monocultivos de grãos do agronegócio exportador, a sanha contra os povos originários é histórica. Há pelo menos 20 anos, a violência que se vê hoje contra as retomadas da Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica já se enraizava no estado, degenerando em expulsões, torturas, sequestros, assassinatos e massacres. Em 2016, o Conselho Aty Guasu Guarani Kaiowá e entidades apoiadoras da causa indígena, protocolou junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) uma denúncia contra o Estado brasileiro “por violações aos direitos previstos na Convenção Americana de Direitos Humanos, no Protocolo de San Salvador e na Convenção de Belém do Pará”.

4 Encontro jornalistas MS Crédito Júlia Barbosa CPT Nacional
Lideranças indígenas falaram a jornalistas sobre sua espiritualidade e sobre a força das nhandesi e nhanderu para a permanência no território. Crédito: Júlia Barbosa – CPT Nacional

Atualmente, a instabilidade jurídica das demarcações e a violência de ruralistas e latifundiários contra os povos indígenas em todo o Brasil, e em especial no Mato Grosso do Sul, se intensificou com a lei do marco temporal, aprovada pelo Congresso em outubro de 2023, determinando que os indígenas somente têm direito à demarcação das terras que estavam ocupadas por eles na data da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988.

Um mês antes da aprovação da lei pelo Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inconstitucional a tese do marco temporal. Agora, porém, além da lei – inconstitucional – já aprovada, está em discussão o Projeto de Emenda à Constituição (PEC) número 48, que pretende incluir na carta magna a tese do marco temporal.

Visita de jornalistas e comunicadoras populares

Diante de todo este cenário de violência colonial, especialmente em territórios ocupados pelos Guarani Kaiowá no Cerrado sul-matogrossense, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR), a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e a Articulação Agro é Fogo, em parceria com entidades e movimentos da sociedade civil que trabalham na defesa do Cerrado e dos povos e comunidades tradicionais que o coabitam, realizaram em Dourados, entre os dias 13 e 16 de outubro, o “I Encontro de Comunicadoras/es Populares e Jornalistas: o Cerrado e seus Povos”.

O encontro reuniu 20 jornalistas do sul, sudeste e centro-oeste do país, além de comunicadoras e comunicadores populares quilombolas, indígenas e de comunidades tradicionais de diferentes territórios do Cerrado, com o objetivo de ampliar a difusão das informações sobre este bioma, seus povos e comunidades, e os desafios na defesa dessa região ecológica.

5 Encontro jornalistas MS Crédito Rebeca Bastos Ascom AATR
Encontro entre indígenas Guarani Kaiowá e jornalistas aconteceu em outubro, e contou com a presença de profissionais do sul, sudeste e centro-oeste do país. Crédito: Rebeca Bastos – Ascom AATR

De modo especial, o encontro propiciou às pessoas participantes um contato mais próximo com a luta dos Guarani Kaiowá por meio de visitas às retomadas Laranjeira Nhanderu II, na  Terra Indígena Brilhantepeguá, no município de Rio Brilhante, e à retomada Yvy Ajhere, na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina, tendo no horizonte possibilidades de denúncia sobre as violações sofridas, considerando que as dinâmicas que se desenham nesta localidade têm se configurado como modelo a ser projetado para todo o Cerrado.

Jornalistas e comunicadoras foram recebidas com cantos e danças rituais e puderam ouvir, por horas, relatos em primeira pessoa das violências sofridas, perpetradas ao longo de décadas pelo estado brasileiro e latifundiários, mas também estratégias de resistência baseadas na força espiritual das nhandesy e nhanderu – rezadoras e rezadores –, no respeito à ancestralidade, na coletividade e na soberania alimentar ancorada nos modos de vida tradicionais. Na retomada Laranjeira Nhanderu II, a produção agroecológica dos Guarani Kaiowá é escoada para instituições de ensino locais, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que é federal.

As visitantes foram estimuladas pelas lideranças a fazer denúncias, mas também anúncios sobre as conquistas do povo, como o destaque de jovens Guarani Kaiowá que se dedicam aos esportes e participam de competições oficiais, o ingresso em universidades, a formação de mestras e doutoras indígenas na academia, a manutenção da cultura, a força da sabedoria de anciãs e anciãos, o protagonismo das mulheres Guarani Kaiowá nas lutas e a força ancestral do povo e sua disposição em retomar e permanecer em seu tekoha.