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Campanha em Defesa do Cerrado celebra 10 anos de luta, resistência e articulação

Live especial no dia 10 de setembro reunirá representantes de povos e comunidades do Cerrado, organizações e movimentos para celebrar uma década de mobilização e apresentar novas iniciativas da Campanha

Em setembro de 2026, a Campanha em Defesa do Cerrado completa 10 anos de articulação em defesa dos povos, comunidades, territórios, águas e da sociobiodiversidade do Cerrado.

Para celebrar essa trajetória, no dia 10 de setembro, às 19h (horário de Brasília), a Campanha realizará uma live especial reunindo representantes de organizações, movimentos, povos e comunidades que fazem parte dessa caminhada e que, a partir de diferentes territórios, constroem cotidianamente a resistência em defesa do Cerrado.

Mais do que relembrar uma década de atuação, o encontro será também um momento para olhar para os desafios do presente e para os próximos anos de luta. Ao longo de sua história, a Campanha se consolidou como uma articulação nacional que conecta organizações da sociedade civil, movimentos sociais, comunidades tradicionais, povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades camponesas e tantos outros grupos que defendem o Cerrado diante do avanço do desmatamento, da grilagem, da mineração, do agronegócio predatório e de grandes empreendimentos.

Durante a live, a Campanha também apresentará seu novo site, renovando seu espaço de comunicação e mobilização, e a iniciativa Vote pelo Cerrado, que busca colocar a defesa do bioma, de seus povos e de seus territórios no centro do debate político e eleitoral de 2026.

A celebração dos 10 anos é, portanto, um momento de memória, encontro e renovação de compromissos. Uma oportunidade para reconhecer as muitas vozes que construíram essa história e reafirmar que defender o Cerrado é defender a vida, as águas, os territórios e os modos de vida de seus povos e comunidades.


Serviço:

Live celebrativa – 10 anos de Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

10/09, 19h00 (horário de Brasília)

Transmissão: https://www.youtube.com/CampanhaemDefesadoCerrado

Comunidades denunciam impactos da pulverização aérea durante durante Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, em São Luís (MA)

Encontro reuniu comunidades, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, pesquisadores e representantes do Ministério Público para discutir estratégias de enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos sobre a saúde, o meio ambiente e os direitos das populações atingidas

por Alcileia Torres

Foto: Reprodução RAMA

A 3ª Reunião da Coordenação Ampliada do Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FNCIAT) foi realizada nos dias 3 e 4 de agosto, no Auditório do Centro Cultural e Administrativo do Ministério Público do Estado do Maranhão (MPMA), em São Luís (MA). A programação contou com representantes do Ministério Público, instituições de pesquisa, universidades, movimentos sociais e organizações da sociedade civil e teve como objetivo fortalecer a atuação nacional no enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos, com ênfase na pulverização aérea.

Formado por 33 fóruns estaduais e regionais distribuídos pelo país, o Fórum Nacional reúne organizações, movimentos e instituições que atuam na denúncia e no enfrentamento aos impactos dos agrotóxicos e transgênicos. Nesta edição, realizada no Maranhão, a pulverização aérea esteve entre os principais temas debatidos, diante do avanço dessa prática sobre comunidades quilombolas, camponesas e tradicionais.

Durante a programação, as lideranças quilombolas Marli Borges e Raimunda Nonata, das comunidades Guerreiro e Cocalinho, localizadas no município de Parnarama (MA), denunciaram as consequências da pulverização aérea nos territórios. Entre os impactos relatados estão a contaminação da água, os prejuízos às roças e à produção de alimentos, a perda de espécies nativas do Cerrado e o aumento de problemas respiratórios e de pele entre as famílias.

Para Marli Borges, liderança quilombola da comunidade Guerreiro, Parnarama (MA), que esteve presente na reunião, os impactos dos agrotóxicos ultrapassam os danos à saúde e ao meio ambiente, pois comprometem as condições de vida e de permanência das comunidades em seus territórios.

Foto: Reprodução RAMA

“Essa pulverização aérea tanto de avião como a de drone tá acabando com nós, e eles tão usando ela como uma arma química justamente pra querer expulsar a gente dos nossos territórios. Mas nós não vamos pra cidade, se a gente ir pra cidade vai só morrer lá. Nós somos igual uma árvore, aqui a gente nasceu, cresceu  e se rancar a gente daqui, a gente vai morrer”, afirma Marli Borges, em depoimento à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Somente no primeiro semestre de 2026, foram registradas 255 notificações de pulverização aérea, envolvendo 209 comunidades de 33 municípios maranhenses. Desde 2024, o estado contabiliza 608 ocorrências. Os dados foram apresentados por Ariana Gomes, da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA).

A programação também contou com a participação da geógrafa Larissa Bombardi, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). Durante o debate, ela destacou que sete dos dez ingredientes ativos mais comercializados no Brasil são proibidos na União Europeia devido aos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. A pesquisadora também alertou para o crescimento do uso do fungicida Mancozebe no Maranhão, substância banida na União Europeia desde 2021.

Representando a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Lenora Rodrigues evidenciou experiências de acompanhamento das denúncias e estratégias de enfrentamento aos casos de contaminação por agrotóxicos nos territórios rurais. 

A 3ª Reunião da Coordenação Ampliada foi encerrada com a definição de encaminhamentos para fortalecer a atuação das comunidades, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa e órgãos públicos. Diante do avanço da pulverização aérea, o enfrentamento aos agrotóxicos também se reafirma como uma luta em defesa das águas, da soberania alimentar, da biodiversidade do Cerrado e do direito dos povos e comunidades de permanecerem em seus territórios.

Ofício das quebradeiras de coco babaçu é reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional

Reconhecimento fortalece a luta das mulheres quebradeiras de coco babaçu e valoriza modo de vida que cultuado ao longo de gerações

por Alcileia Torres

A Lei nº 15.431/2026, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União no dia 11 de junho de 2026, reconhece o saber tradicional das quebradeiras organizadas pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que hoje está presente nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Para as mulheres quebradeiras de coco esse marco valoriza os saberes que são transmitidos de geração em geração nos territórios, as práticas de subsistência comunitária e fortalece a luta pela garantia de direitos. 

“Foi uma alegria muito grande pra gente que é quebradeira de coco saber que nossa matéria-prima foi reconhecida pelo governo federal. Porque é uma coisa que a gente vem lutando há muito tempo por reconhecimento. Porque a gente sabe que nós temos os nossos direitos, mas os nossos direitos não são respeitados.” Ressaltou Luzeny Oliveira, quebradeira de coco babaçu da comunidade São Domingos, em Cidelândia (MA), e coordenadora de base do MIQCB.

Embora o reconhecimento contemple as quebradeiras organizadas pelo MIQCB nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, o ofício também está presente em outros territórios do Cerrado brasileiro. É o caso do oeste da Bahia, onde mulheres seguem cultuando esse saber ancestral. Em São Desidério (BA), quebradeiras de coco babaçu preservam conhecimentos transmitidos entre avós, mães e filhas, fortalecendo os modos de vida do território. 

Filha e neta de quebradeiras, Nerilma Araújo conta que aprendeu o ofício ainda na adolescência .“Sou filha e neta de quebradeira de coco babaçu, sou quebradeira desde os 15 anos, tô com 38 anos. E quebrar coco babaçu complementa as nossas renda na casa, né?”. 

Nerilma reforça também, que o ofício segue presente na Bahia, mesmo sem o devido reconhecimento. “Aqui no oeste da Bahia tem várias quebradeiras. A gente só não é reconhecida ainda, mas somos quebradeiras sim.” Essa realidade está registrada no documentário “Babaçu Que Quebra Lá, Quebra Cá”, produzido para dar visibilidade às quebradeiras de coco babaçu do oeste baiano e reafirmar a re’existência desse modo de vida na região. 

Para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, reconhecer o ofício das quebradeiras de coco babaçu é também reconhecer mulheres que há gerações cuidam dos babaçuais, protegem a sociobiodiversidade e mantêm esses conhecimentos ancestrais construídos e fortalecidos nos territórios.

À margem da COP15, seminário em Corumbá denuncia impactos de megaprojetos em territórios do Cerrado e Pantanal

Em meio à realização da COP 15, a 15ª Conferência das Partes da CMS (Convenção das Nações Unidas sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres), que concentra os holofotes internacionais em Campo Grande (MS) até o dia 29 de março, um seminário em Corumbá (MS) coloca no centro do debate os impactos concretos da crise climática e dos megaprojetos sobre territórios e povos indígenas e tradicionais. 

Com o tema voltado para os impactos nocivos causados pela mineração e por projetos hidroviários como a Hidrovia do Paraguai e a Rota Bioceânica, o encontro evidencia como essas ações aprofundam processos de devastação da sociobiodiversidade e agravamento de vulnerabilidades socioambientais no Pantanal e no Cerrado, em um contexto de agravamento das mudanças climáticas.

Organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Mato Grosso do Sul, em articulação com as CPTs do Cerrado e a Diocese de Santa Cruz de Corumbá, o seminário reúne, entre os dias 26 e 27 de março, representantes da sociedade civil, movimentos sociais, povos indígenas e comunidades tradicionais para debater estratégias de fortalecimento dos territórios frente ao avanço desses empreendimentos.

Entre os objetivos do seminário estão aprofundar a compreensão sobre os significados das águas para as comunidades do Cerrado e do Pantanal, debater os impactos de grandes empreendimentos sobre essas regiões ecológicas e fortalecer a organização em defesa dos povos e territórios – especialmente comunidades tradicionais, camponesas e assentadas. 

Programação

Ao longo dos dois dias, o seminário promove rodas de conversa, debates e trocas de experiências sobre o significado das águas para os povos do Cerrado e do Pantanal, os impactos de projetos como a Rota Bioceânica e a Hidrovia Paraguai-Paraná, além dos efeitos da mineração sobre o meio ambiente e a saúde. A programação também inclui momentos de mobilização popular, intercâmbio entre territórios e construção de estratégias de resistência e defesa das águas.

Carta aponta riscos ambientais e falhas técnicas em projeto de hidrovia

Transporte de cargas pelo Rio Paraguai. (Foto: Arquivo/Semadesc)

Povos e territórios ameaçados

Em carta aberta endereçada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), organizações da sociedade civil, cientistas e lideranças comunitárias manifestam preocupação com o avanço da concessão da Hidrovia do Rio Paraguai à iniciativa privada. O documento alerta que, diante de eventos climáticos extremos, o Pantanal perdeu cerca de 61% de sua superfície de água em 30 anos, o maior índice entre os biomas brasileiros, e reivindica o cancelamento da concessão, a realização de Avaliação Ambiental Estratégica (AAE) e a garantia de consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas.

Já o Cerrado, conhecido como “berço das águas” do Brasil por abastecer oito das doze bacias hidrográficas do país, também enfrenta um cenário crítico. Dados do MapBiomas indicam que, nas últimas quatro décadas, 91% de suas bacias sofreram redução da superfície de água natural. A região também lidera o desmatamento recente: segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2024, perdeu mais de 650 mil hectares, com forte concentração na região do Matopiba.


Serviço 

Seminário “No Cerrado e Pantanal correm os segredos sagrados das Águas”

Data: 26 e 27 de março de 2026

Local: Instituto Federal do Mato Grosso do Sul – Campus Corumbá, situado na Rua Pedro de Medeiros, 941 – Popular Velha, Corumbá (MS) 

Contatos para Imprensa

Fátima Tertuliano – (62) 9 9831-0021

Bruno Santiago – (11) 9 9985-0378

Dia Mundial da Água: lucro para poucos, escassez e contaminação para muitos

A crise hídrica no Cerrado não é parte do curso natural de nosso planeta ou natureza. É consequência de um modelo que concentra, contamina e mercantiliza um bem essencial à vida. E essa é uma preocupação constante para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. 

Neste Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, reforçamos nosso compromisso com a proteção das águas, dos territórios e das vidas dos povos indígenas e das comunidades tradicionais que habitam o Cerrado brasileiro.

Conhecido como o “berço das águas” do Brasil, o Cerrado é essencial para a sobrevivência de nossa sociedade: abastece oito das doze bacias hidrográficas do país e mantém uma profunda conexão com outros biomas. As chuvas da Amazônia, por exemplo, estão intrinsecamente ligadas à capacidade de armazenamento de água no Cerrado.

No entanto, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias hidrográficas dessa ecorregião sofreram redução em sua superfície de água natural. Essa perda impacta diretamente a disponibilidade hídrica, agravando a escassez em mais de 300 municípios brasileiros.

É urgente reconhecer que o Cerrado vive um processo de ecogenocídio, que não apenas dizima sua sociobiodiversidade e exaure seus rios e nascentes, mas também ameaça, expulsa e vitima os povos e comunidades tradicionais que nele residem.

Quem vive com os pés no chão do Cerrado sabe que essa destruição está diretamente relacionada às mudanças climáticas e a um modelo de exploração que transforma a água em mercadoria.

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Drenos que secam brejos e plantio com maquinários – Pimenteira do Oeste (RO). Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000

Outorgas que secam territórios

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado denuncia, de forma contundente, o crescente número de outorgas de uso da água concedidas a grandes empreendimentos. Na prática, esses mecanismos têm permitido que empresas invadam territórios tradicionais, perfurem o solo e se apropriem de volumes imensos de água, o que compromete nascentes, rios e aquíferos que sustentam comunidades inteiras.

Enquanto isso, povos e comunidades tradicionais enfrentam a escassez, vendo suas fontes de água secarem ou serem contaminadas. O uso intensivo de agrotóxicos pelo agronegócio agrava ainda mais esse cenário, envenenando águas superficiais e subterrâneas e colocando em risco a saúde humana, os modos de vida e a biodiversidade do Cerrado.

Os principais responsáveis por essa devastação são empresas nacionais e internacionais ligadas ao agronegócio, à mineração e à exploração de recursos naturais – além de estados estrangeiros e do próprio Estado brasileiro, que viabiliza esse modelo por meio de políticas permissivas e da concessão dessas outorgas.

Em meio à crise climática e à crescente aposta em soluções de mercado travestidas de ações ambientais, povos indígenas e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas seguem sendo os menos ouvidos nos debates sobre o futuro do planeta. Paradoxalmente, são eles os mais impactados pelos grandes empreendimentos e pela devastação ambiental que avança sobre seus territórios.

Neste 22 de março, a Campanha reafirma: defender o Cerrado é defender nossas águas. E defender as águas é garantir o direito à vida, aos territórios e à existência de modos de vida tradicionais de povos que historicamente cuidam dessa ecorregião.

Sem Cerrado, não há água. Sem água, não há vida.

Mulheres do Cerrado na linha de frente das lutas por territórios, água e sociobiodiversidade

No Cerrado, são as mulheres que estão na linha de frente das lutas por seus territórios, pela água e pela defesa da sociobiodiversidade. Também são elas as primeiras a sentir os impactos da crise climática agravada pela devastação de seus territórios – consequência direta do avanço do agronegócio e da expansão de grandes monocultivos.

Em comunidades camponesas e territórios de povos e comunidades tradicionais, são as mulheres que sustentam redes de cuidado, produção de alimentos, preservação de sementes e transmissão de saberes ancestrais. Ao mesmo tempo, enfrentam diariamente as pressões de um modelo de “desenvolvimento” que avança sobre seus territórios por meio do desmatamento, da contaminação por agrotóxicos e da apropriação da água, afetando diretamente a vida, a saúde e a autonomia de suas comunidades.

Mesmo diante dessas ameaças, mulheres cerradeiras seguem organizando resistências, defendendo seus modos de vida e afirmando que a proteção do Cerrado também é uma luta por justiça climática, por soberania alimentar e por direitos territoriais.

Neste 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, convidamos você a conhecer a série “Mulheres do Cerrado: diálogos sobre clima e sistemas alimentares”, um especial do podcast Guilhotina realizado em parceria com a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), a Articulação de Mulheres do Cerrado e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

A série apresenta reflexões, vivências e experiências de mulheres que vivem e lutam nos territórios do Cerrado, trazendo perspectivas fundamentais para os debates sobre mudanças climáticas, justiça social e sistemas alimentares.

Episódio 1: Crise climática e a armadilha das falsas soluções

No primeiro episódio, a conversa reúne Letícia Rangel Tura, da FASE, Maryellen Crisóstomo, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), e Juvana Xakriabá, da Articulação de Juventude Xakriabá.

As convidadas analisam como o agronegócio e as mudanças climáticas aprofundam desigualdades e denunciam as chamadas “falsas soluções climáticas”: iniciativas apresentadas como respostas ao aquecimento global, mas que muitas vezes se transformam em novos negócios que mantêm as estruturas responsáveis pela própria crise.

Ouça o episódio 1:
https://diplomatique.org.br/guilhotina/mulheres-do-cerrado-1-crise-climatica-e-a-armadilha-das-falsas-solucoes/

Episódio 2: Clima, racismo ambiental e agronegócio

O segundo episódio aborda como a crise climática, o racismo ambiental e o agronegócio atravessam os corpos e os territórios das mulheres.

Participam da conversa Joice Silva, educadora popular e dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Tocantins, Arilene Martins, da Coletiva Pretas de Angola, de Goiás, e Elionice Sacramento, da Articulação Nacional de Pescadoras.

Ouça o episódio 2:
https://diplomatique.org.br/guilhotina/mulheres-do-cerrado-2-interseccoes-entre-clima-racismo-e-agronegocio/

Episódio 3: Sistemas alimentares e a conexão campo-cidade

No terceiro e último episódio, o debate se volta para os impactos da produção no campo sobre a vida nas cidades e para o papel do Cerrado na construção de sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Participam Emília Costa, do Movimento Quilombola do Maranhão e da coordenação executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, e Maria Emília Pacheco, assessora da FASE e integrante da Articulação Nacional de Agroecologia.

A conversa destaca como as experiências e saberes dos territórios podem apontar caminhos para garantir alimentação saudável, justiça ambiental e proteção do Cerrado — beneficiando não apenas quem vive no campo, mas toda a população.

Ouça o episódio 3:
https://diplomatique.org.br/guilhotina/mulheres-do-cerrado-3-campo-e-cidade-dialogos-sobre-seguranca-alimentar-e-agroecologia-no-cerrado/ 

Neste 8 de março, celebramos a força, os saberes e a resistência das mulheres do Cerrado, protagonistas na defesa dos territórios, das águas e da sociobiodiversidade. Ouvir suas vozes é fundamental para compreender os desafios do presente e construir caminhos de justiça climática e social para o futuro. 

Grilagem, desmatamento e roubo das águas no Cerrado

por Bruno Santiago

Texto publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

Comunidade Grinalda do Ouro sofre com pacote da devastação imposto por invasores no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina

Já imaginou acordar pela manhã, em sua própria casa, onde você vive com sua família, com o barulho de tratores e árvores sendo derrubadas? 

Ao correr para a janela, você percebe máquinas enormes destruindo a mata a poucos metros do seu quintal – o mesmo lugar em que você cresceu e que seus filhos e netos brincam. Aquela árvore que você conhece desde pequena ou pequeno, que abrigou ninhos de passarinhos e da qual você colheu frutos para saciar a fome tantas vezes, já não está mais lá. Foi derrubada por invasores que nunca pisaram naquele território onde sua família vive há gerações, desde o tempo dos bisavós. 

Essa é a realidade vivida neste mês pela Comunidade Tradicional Grinalda do Ouro, no município de Gilbués (PI), a 830 quilômetros de Teresina. 

Desde o início de fevereiro, a comunidade sofre com a ação ilegal de grileiros que estão desmatando a vegetação nativa do território com o uso de tratores de esteira para a produção agrícola e para a construção de piscinões de captação de água para irrigação. Parte das famílias acordou, na última quarta-feira (11/02), com o barulho de árvores sendo derrubadas e das máquinas operando a poucos metros de suas casas. 

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

“Já tem tempo que eles estão desmatando aqui dentro, muita árvore já foi derrubada, mas essa semana foi quase no quintal de casa. Eu tomei um susto com o barulho do trator e corri para ver o que era”, relata uma das moradoras da comunidade que prefere não se identificar por motivos de segurança. 

Uma das lideranças da comunidade, que está gestante, tentou dialogar com os invasores para impedir a destruição, mas não obteve sucesso. “Disseram que só vão parar com uma liminar da justiça”, explica a moradora. 

“Ele me disse que mandava nisso tudo, que se ele quisesse ele derrubava até a nossa roça e que o trator ia passar por cima se eu entrasse na frente”, conta a liderança comunitária, que explicou que esse tipo de intimidação faz parte do diálogo com os funcionários da Fazenda. 

O empreendimento responsável pela ação é a Fazenda Ouro, de Pedro Lustosa do Amaral Hidasi. A empresa possui licença de operação concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH) do Estado do Piauí para o desmatamento, produção agrícola e outorga para captação subterrânea de água. 

Ilegalidade da ação 

Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Coletivo de Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, entidades que acompanham o caso, no entanto, a existência da licença ambiental não afasta a ilegalidade da ação. As organizações afirmam que a invasão e o desmatamento ameaçam diretamente a vida de mais de vinte famílias que vivem tradicionalmente no território há gerações e que não foram consultadas ou sequer notificadas sobre a intervenção. 

Em requerimento enviado para o Instituto de Terras do Piauí (Interpi) em outubro de 2025, as entidades afirmam que “as intervenções em curso vêm sendo realizadas com licenças concedidas pela SEMARH sem o preenchimento dos mais básicos requisitos legais, comprometendo gravemente a segurança jurídica, o ecossistema local e o modo de vida tradicional da comunidade”.  

Segundo a argumentação jurídica apresentada pela comunidade e por entidades que acompanham o caso, a autorização ambiental não supre exigências previstas na legislação fundiária estadual. Para as organizações, ao autorizar o desmatamento em área ocupada secularmente e tradicionalmente por mais de vinte famílias, o Estado teria ignorado requisitos legais básicos, colocando em xeque a própria validade do procedimento e ampliando o risco de danos socioambientais irreversíveis. 

“A Lei Estadual nº 7.294/2019 determina que a destinação de terras públicas deve priorizar a regularização de territórios tradicionais. O texto é explícito ao estabelecer que áreas públicas e devolutas ocupadas coletivamente por comunidades tradicionais devem ser destinadas a esses grupos e que, em caso de conflito entre comunidades locais e particulares, o Estado deve priorizar a regularização em favor das comunidades”, explica Mauricio Correia, pesquisador e advogado da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. 

A mesma norma reconhece como povos e comunidades tradicionais aqueles que ocupam e utilizam seus territórios como condição de reprodução cultural, social e econômica – exatamente a situação descrita na Grinalda do Ouro. Ainda assim, segundo a denúncia, não houve mediação do conflito fundiário antes da liberação da atividade. 

Segundo a assessoria jurídica da comunidade, a Fazenda Ouro apresentou a órgãos públicos uma documentação de registro de posse da área datada de cerca de sessenta anos. No entanto, esse documento não consta nos registros oficiais do patrimônio público, o que pode indicar que não haja comprovação de que tenha sido emitido por um órgão competente nem de que a área tenha sido regularmente destacada de terras públicas para uso privado – requisito fundamental para a validade jurídica de títulos fundiários no Brasil. 

Essa ausência de origem pública nos registros suscita em uma contradição com a memória histórica da própria comunidade. A pessoa mais velha viva na Grinalda do Ouro tem mais de 70 anos, e tanto ela quanto seus pais nasceram e viveram naquele território desde sempre – muito antes, portanto, de qualquer suposto título datado de sessenta anos atrás. Esse desencontro entre a presença secular da comunidade e a suposta data de registro da área levanta dúvidas sobre a legitimidade do documento apresentado pela Fazenda. 

“A Lei Complementar nº 244/2019 estabelece critérios objetivos para que o Estado reconheça domínio privado sobre imóveis rurais cuja cadeia dominial não comprove o destaque regular do patrimônio público para o privado. Entre as exigências estão a comprovação de boa-fé, a inexistência de disputa judicial e, de forma expressa, que o imóvel não se sobreponha a territórios tradicionais”, afirma Mauricio. 

Em novembro de 2025, o próprio Interpi publicou despacho favorável à denúncia apresentada pela comunidade. No documento, a Diretoria de Povos e Comunidades Tradicionais reconhece que o processo tramitou sem a devida consideração da sobreposição com o território tradicional da Comunidade Grinalda do Ouro e opinou pela suspensão da Certidão de Regularidade Dominial emitida com base no Decreto nº 23.692/2025. “O despacho aponta que a certidão não levou em conta a área do território tradicional indicado em processo específico, comprometendo sua validade e exigindo reanálise imediata para registro formal da sobreposição existente”, ressalta o advogado. 

Para Correia, a existência de sobreposição e conflito fundiário ativo tornaria incompatível o reconhecimento pleno do domínio particular e, consequentemente, fragilizaria qualquer autorização ou licença baseada nesse título.  

Diante disso, as entidades defendem a intervenção imediata do Interpi para apurar a situação fundiária e evitar que a devastação avance sobre um território cuja regularização deveria, por lei, ser prioridade do próprio Estado. 

Roubo das águas 

Outra ameaça iminente provocada pelos invasores diz respeito à preservação dos rios, nascentes e cachoeiras presentes no território da comunidade e adjacências. Com piscinões sendo construídos às margens da BR 335, dentro do perímetro da comunidade, o objetivo da Fazenda Ouro é a captação de água para irrigação de sua produção agrícola.  

Apesar das irregularidades legais e da fragilidade da situação fundiária do empreendimento, a SEMARH concedeu outorgas para perfuração de poço e captação em níveis subterrâneos e superficiais do curso de água. “O ponto de captação da água, de acordo com a lei, precisa estar dentro da propriedade do fazendeiro, não no território da comunidade, como está acontecendo”, destaca Maurício. 

A captação afeta diretamente as bacias dos Rios Alto Parnaíba e Uruçuí Preto, ambas situadas no Cerrado, que cumprem importante função para a subsistência da comunidade Grinalda do Ouro e de tantos outros territórios de populações ribeirinhas e tradicionais da região, além de abastecer o sistema hídrico de municípios do sul do estado, chegando até Teresina.  

Para Altamiran Ribeiro, agente da CPT no Piauí, a captação das águas em comunidades tradicionais é uma prática sistemática do agronegócio da região. “Já aconteceu isso na comunidade de Melancias, também em Gilbués, onde tentaram fechar o rio Uruçuí Preto com uma barragem, mas a comunidade se mobilizou e impediu a ação do empreendimento naquele período”. 

“Grinalda do Ouro é conhecida por ser um paraíso natural, numa região de brejo, pois se encontra entres as nascentes dos rios Uruçuí Preto e Uruçuí Vermelho, além de estar muito próxima da nascente do Rio Parnaíba, que são fundamentais para a vida da comunidade, para o Piauí, e agora estão em risco”, conta o agente da Pastoral.  

Crédito: Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí

Vidas envenenadas 

Além do desmatamento, das intimidações e do roubo deliberado das águas do território tradicional, a comunidade sofre, há anos, com o uso abusivo de agrotóxicos nos monocultivos da região, especialmente a soja. 

“A gente sabe que as águas de nossos brejos não estão mais puras, não podemos mais beber, como fazíamos antes. Tem gente que adoeceu, que passou mal, mas tem muitas famílias que não têm alternativa, que só têm aquela água contaminada para beber”, relata uma das moradoras da comunidade. 

Com o avanço do desmatamento e a licença para a produção agrícola, a comunidade sabe que os monocultivos poderão ser produzidos a poucos metros de distância de suas casas, afetando ainda mais a saúde das famílias de Grinalda do Ouro. “Temos crianças, idosos, mulheres grávidas. Como vamos ficar se o veneno for despejado em cima de nossas cabeças?”, enfatiza a liderança comunitária. 

Reivindicações 

A SEMARH foi procurada pela reportagem para se posicionar a respeito das licenças e outorga expedidas, mas alegou que questões fundiárias são de responsabilidade do Interpi. Insistimos com o pedido de posicionamento por se tratar de licenças concedidas pela Secretaria e não por outro órgão, mas até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno. 

Em entrevista para a Rádio Jornal Teresina, o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí, Feliphe Araújo, informou que o governo do estado irá deslocar equipes de fiscalização ao território da Comunidade Grinalda do Ouro para apurar as denúncias e verificar o cumprimento das condicionantes da licença concedida à Fazenda Ouro.  

Enquanto aguardam a atuação dos órgãos estaduais, as famílias da comunidade e as entidades que acompanham o caso reivindicam a suspensão imediata e a anulação permanente das licenças concedidas para o desmatamento na área, além da revisão da situação fundiária e do reconhecimento formal da sobreposição com território tradicional.  

Também cobram a intervenção do Interpi para garantir a regularização do território em favor da comunidade, a paralisação definitiva das atividades que impactam a área e o respeito ao direito à consulta prévia, livre e informada.  

Para as famílias da comunidade, mais do que uma disputa jurídica, trata-se da defesa de suas vidas, de seu território, das águas e da própria permanência das famílias na terra onde vivem há gerações.  


Bruno Santiago é pesquisador e coordenador de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Mulheres do Cerrado lutam por segurança hídrica e alimentar no bioma mais ameaçado do Brasil

por Ludmila Pereira

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

“Às vezes, a gente tem comida, mas não tem água para preparar. Como vamos plantar uma hortinha na nossa casa se não há água para regar? Se não tiver água, como é que vamos viver? Como vamos fazer o café para nossas crianças, para o nosso povo? Como é que vamos criar os animais? Não dá para criar, porque não tem água. Também temos os canteiros de ervas medicinais que usamos e que precisamos plantar para nos manter.” 

Encontro de Mulheres pelo Cerrado do Oeste Baiano. Foto: Bia Silva / MAB

O relato de Célia Valdemar, mulher indígena Xakriabá, raizeira, liderança na comunidade do Prata, em Minas Gerais, expõe a contradição que mulheres cerratenses vivem no bioma que é o “berço das águas” do Brasil: no Cerrado, oito das doze principais bacias hidrográficas do país nascem, mas hoje nem todas as suas filhas têm acesso a esse recurso fundamental.  

O Cerrado passa por transformações profundas. As razões não são naturais, e sim atribuídas à expansão do uso industrial da terra, especialmente atividades ligadas ao agronegócio, que por sua vez, aceleram as mudanças climáticas e reforçam alterações regionais. Esse ciclo maléfico provoca seca e ameaça populações já vulnerabilizadas, em especial as mulheres. 

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Nature Communication, mostra que o meio do Brasil – onde fica o Cerrado – passa pela seca mais severa dos últimos 700 anos. Outra análise, realizada por um grupo de pesquisadores do Instituto Cerrados e da Agência Nacional de Águas (ANA), mostra que o Cerrado pode sofrer redução de 34% de seu volume de água até 2050  – e a tendência é ainda pior. Devido a expansão agrícola, 90% das bacias hidrográficas do Cerrado podem diminuir o seu fluxo de água.  

Os efeitos já são sentidos no campo e na cidade. Ligar a torneira e não encontrar o principal ingrediente para a primeira refeição do dia é desolador. Em casos como esse, as mulheres são as mais impactadas, pois, devido à sobrecarga do cuidado com a casa, precisam estar atentas aos desafios para garantir a água, tornando-se reféns do adoecimento e da preocupação constante, especialmente, as mães solos, em relação a alimentação de suas filhas e seus filhos, como conta a quilombola Emília Costa durante um dos encontros da Articulação de Mulheres do Cerrado. 

“O primeiro impacto que a gente sente das violações do Cerrado são em nossos corpos, justamente porque nós mulheres temos relação direta de cuidado e uma sensibilidade melhor para sentir as coisas benéficas e, infelizmente, também as mazelas que chegam até nós, em nossos territórios”, relata Costa, do Quilombo Santo Antônio do Costa, no Maranhão. Ela também integra o grupo Mulheres Guerreiras da Resistência, do Movimento Quilombola do Maranhão (MOQUIBOM). 

Em sua caminhada de luta e andanças, Emília reafirma que as encantarias, as rezadeiras, a espiritualidade, os alimentos sem agrotóxicos produzidos no quilombo e as plantas medicinais são elementos de resistência. Para ela, o enfrentamento à insegurança alimentar é também o enfrentamento à eliminação dos saberes.  

Água para comer 

O Cerrado é o primeiro bioma do planeta, com data de nascimento em torno de 65 milhões de anos. É onde se concentra cerca de 5% de toda a biodiversidade do mundo, bioma de “floresta invertida” devido às longas raízes que fortalecem o lençol freático.  

Mas a devida importância do Cerrado, quase tido como o “patinho feio”, carece de ser reconhecida nos grandes debates nacionais e internacionais sobre meio ambiente, em especial, naqueles que dizem respeito a acordos internacionais que protegem a Amazônia e esquecem, ou melhor, “vendem”, o Cerrado e seus povos. 

O acesso à água como direito humano fundamental é elemento que sintetiza a luta das mulheres pela vida. A atenção à insegurança alimentar está diretamente ligada a insegurança hídrica, pois a situação diz respeito não apenas ao consumo direto da água, mas também à sua qualidade, por ser primordial na produção de alimentos. E o Cerrado, apesar de fundamental no fornecimento deste recurso, conta com pouca proteção contra sua destruição. 

Isso é o que explica Franciléia Paula, engenheira agrônoma e liderança da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) no Mato Grosso.

“Sem água não tem alimentação. Um tempo atrás, a sociedade imaginava que a falta da água era um problema só do semiárido brasileiro ou, então, da questão da escassez hídrica, pela permanência de falta de chuvas. Hoje, o problema da água é de disponibilidade, mas também de acesso”, explica Franciléia. 

Colocar a água no centro do debate dá uma dimensão dos impactos socioambientais e do agravamento das mudanças climáticas que afetam a fome no campo, ressalta a educadora. Como as mulheres estão à frente da defesa de seus territórios, são também elas que, pela observação cotidiana, conseguem mensurar a falta de algum alimento ou a mudança nas águas da região. 

“A fome tem gênero e cor. Pensar em água como alimento para o corpo humano é uma questão fisiológica, o corpo humano é composto por cerca de 75% de água”, explica a nutricionista Maísa Gomes, mestranda pela Universidade de Brasília e integrante daRede de Mulheres Negras para Soberania Segurança Alimentar e Nutricional. 

“E a água, do ponto de vista metabólico, ajuda a fazer todo o transporte de nutrientes, nosso organismo não funciona sem água. Então, tratar a água como um alimento é fundamental para a garantia da segurança alimentar, do ponto de vista que sem água, sem os minerais que existem na água, a gente não sobrevive”, pontua. A nutricionista ainda desenvolve estudo sobre a relação da insegurança alimentar de pessoas negras, o aumento do consumo dos ultraprocessados e a deficiência de nutrientes. 

Cachoeira em Cavalcante, região do Quilombo Kalunga, Goiás. Crédito: Michelle Granato

Em meio a disputa hídrica

A situação se agrava quando a água se torna inacessível e privatizada por cercas que foram colocadas por fazendeiros locais. Esse e outros problemas provocados pela expansão do agronegócio se somam à escassez hídrica: consumir água ou mesmo ver seu filho ou filha brincar num rio viram preocupação para as mães.

O Cerrado concentra mais de 74% dos agrotóxicos consumidos no Brasil, segundo o dossiê Vivendo em territórios contaminados: dossiê sobre agrotóxicos nas águas de Cerrado, organizado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pela Fiocruz. Composto por análises de amostras de águas de comunidades tradicionais, o documento mostra como a presença de agrotóxicos e a imposição de seu consumo são altamente tóxicas à saúde e perigosa para o meio ambiente.

De acordo com o documento, em todo o país, somente a soja é responsável pelo uso de mais de 52% dos agrotóxicos. Só o Cerrado concentra 75% da produção nacional deste grão, e seu cultivo avança sobre mais de 30 milhões de hectares de terra.

O dossiê ainda diz que são despejados 600 milhões de litros de agrotóxicos no Cerrado todos os anos. Esses produtos possuem uso autorizado para a soja no Brasil, mas muitos não têm uso autorizado na União Europeia (UE), por exemplo. O mais usado é o glifosato, substância cancerígena que pode causar até mal de Alzheimer.

“A contaminação das águas do Cerrado é a contaminação das águas do Brasil todo. Para mim, uma das principais violências no Cerrado tem sido a contaminação por agrotóxico, mercúrio e outros metais pesados nas águas do bioma. E o agrotóxico simplesmente não desaparece da água; seus efeitos vão muito além do bioma, contaminando não apenas a população de peixes e a biodiversidade do Cerrado, mas impactando, a transição com outros biomas”, ressalta Franciléia Paula, que também é mestre em saúde pela Fiocruz.

Alimento apodrecido após pulverização de agrotóxicos no Quilombo Cocalinho, Maranhão, um dos locais do estudo da Fiocruz onde foram identificados, no total, 13 venenos diferentes nas amostras de água coletadas. Crédito: Arquivo pessoal

Em território indígena do Cerrado Sul Matogrossensse, o terceiro estado com a maior população indígena no Brasil, a situação se repete de forma grave. Segundo Erileide Domigues, mulher indígena do povo Guarani Kaiowá, e que já foi inclusive à ONU denunciar as violações de direitos nas terras, relata que a insegurança alimentar é uma das causas da guerra por território.

A presença de grandes lavouras do agronegócio cerca a terra indígena, ainda não demarcada, e ao lançar e pulverizar agrotóxicos, os fazendeiros invadem as comunidades, contaminam as pessoas, o lençol freático e ainda desviam o curso das águas dos rios para as monoculturas.

Lideranças do povo Guarani Kaiowá, de forma persistente, já denunciaram o governo brasileiro no Tribunal Penal Internacional, em Haia (Holanda). Empresas transnacionais e agropecuaristas vinculados ao agronegócio local, o governo de Mato Grosso e o governo federal foram condenados pelo júri internacional do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Povos do Cerrado. A relatora do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) esteve nos territórios indígenas do Mato Grosso do Sul e nas incidências da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ambas cobrando do governo brasileiro.

Pulverização aérea de agrotóxicos afeta as comunidades próximas às grandes fazendas. Crédito: Reprodução

“A mandioca está bonita, mas quando arrancamos para consumir, vemos que a mandioca está podre, cheia de cupim. As mulheres acabam não gerando mais filhos, e quando ficam grávidas, o bebê acaba nascendo com algum problema de saúde e os médicos falam que nasceu com peso baixo, está desnutrido”, relata a liderança indígena, diante do aumento, inclusive de problemas de saúde das mulheres com diabetes e hipertensão.

Veneno e defensor agrícola, são, segundo Erileide, outros nomes que o agronegócio usa, em vez de “agrotóxico”, para amenizar o problema e conseguir passar pelas autorizações legais. Além disso, essa também é uma arma para expulsar os povos indígenas e comunidades tradicionais de suas casas. “Então ele (agrotóxico) mata, mata o que não convém aos produtores, mata aquilo que não tem preço, vamos dizer assim, que não tem a sua importância, né? Como vidas. Como as nossas vidas. A garantia da terra, sua demarcação, é a saída para tais violações de direitos”, afirma Erileide.

Conviver em meio aos conflitos pelo território é sinônimo de ser linha de frente em que as ameaças à vida de quem denuncia e o medo, de quem luta pela terra, se tornam cotidianos, como também ocorre no território quilombola de Seis Maria dos Jardins (MA).

“Hoje, aqui na minha comunidade, eu vivo presa; quem comete as injustiças está solto: os fazendeiros. Eu vivo dentro da minha própria casa como se fosse numa comunidade murada. Já cheguei, por conta da luta pela terra, a ficar fora da minha comunidade, sob proteção do MIQCB e da Sociedade de Direitos Humanos. Porque, tirando [a gente], acaba esse ‘furdunço de negócio de quilombo’, esse negócio de regularização de terra”, nos conta a mulher negra quilombola, mãe, quebradeira de coco babaçu, integrante do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e liderança no território quilombola Seis Maria dos Jardins, situado no município de Matinha, na Baixada Maranhense.

No território Quilombola Seis Maria dos Jardins, ocorre outra forma de contaminação das águas, mas com os mesmos efeitos violentos. “Essa falta da água tem nos afetado de uma forma cruel. Principalmente através da poluição da dada aos búfalos, porque esses animais são de água”, relata a liderança. Ela ainda denuncia que durante os anos, os fazendeiros foram chegando, aterrando os rios, matando os peixes nativos, envenenado as palmeiras e contaminando os rios.

Presença de Búfalos próximo as casas quilombolas. Os animais, que não são naturais do local, devastam o meio ambiente e trazem doenças. Crédito: Arquivo Pessoal.

Com angústia, lembra do dia em que seu filho, ainda criança, ao brincar em um dos rios da comunidade, um hábito comum, acabou sendo uma das vítimas da verminose de búfalo. Sem assistência médica local, teve que ir para São Luís, a cerca de quatro horas de distância e carregar ainda hoje, aos 30 anos, as sequelas. “Ele é bem negro, é preto, meu filho. Mas ele ficou com o rosto praticamente assim, ó [mostrando um pedaço de folha de chamex]. Todo manchado de branco. E a unha ficou igual a unha dos búfalos. As unhas dele não caiu, mas foi enrolando, foi enrolando, todas para debaixo dessa carne do dedo”, relata.

Antigo rio que foi devastado e privatizado pelo fazendeiro local próximo ao Quilombola Seis Maria dos Jardins. Foto: Arquivo Pessoal.

Como se não bastasse o impacto na saúde, os alimentos e a transformação tradicional do babaçu, que traz subsistência para as mulheres, também são comprometidos. A comunidade tem duas unidades de produção com capacidade para produzir 15 mil litros de azeite do babaçu por mês, além do mesocarpo e do biscoito. Mas estão paradas porque cercas elétricas e arame farpado, hoje isolam os poucos babaçuais existentes do território.

Quebradeira de coco atravessa cerca de fazenda para coletar coco babaçu para seu sustento. Crédito: Arquivo Pessoal

O envenenamento das águas e da terra, o aumento da preocupação em relação à qualidade de vida e o sustento afeta também a vida das mulheres da região do Bico do Papagaio, como a Maria Conceição Barbosa, quebradeira de coco babaçu, agricultora familiar e integrante do MIQCB.

Para as conhecedoras da arte de quebrar coco e transformá-lo em alimento, a palmeira significa tanto a subsistência das famílias do Cerrado quanto um saber passado de geração a geração entre as mulheres. A palmeira de pé e viva é fundamental para romper com o ciclo de insegurança alimentar. E nasce, geralmente, em zonas de transição entre Cerrado e Amazônia.

“O que nós, quebradeiras de coco, mais precisamos é de respeito daquelas autoridades constituídas dos governantes”, diz Maria Conceição. A ausência de políticas públicas, intensifica a falta de autonomia alimentar das mulheres. Mesmo com a Lei do Babaçu livre, sua fiscalização não é efetiva e muito menos prevê punição para o uso de agrotóxicos.

Muitos fazendeiros passam o correntão – uma forma de desmatar usando enormes correntes presas em dois tratores, que derrubam fauna e flora à medida que passam –, levando flora e fauna abaixo, matando as nascentes, para plantar soja e usar veneno que infiltra na terra, contaminando os recursos naturais de todos ao redor, apodrecendo os cocos e matando as palmeiras.

Quebradeira de Coco segurando o coco de Babaçu. Crédito: Ingrid Barros

Agronegócio versus tradição

O Bico do Papagaio é parte do Matopiba, região composta pelo Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia onde vem se intensificando a expansão da agropecuária com aval dos governos. É onde o projeto de devastação do bioma se consolida, como afirmou o Tribunal Permanente dos Povos do Cerrado em seu veredito final, em uma zona de sacrifício.

Como bioma estratégico para o agronegócio, o Cerrado é hoje responsável por 60% de toda a produção agrícola do Brasil, incluindo monoculturas como soja, milho e algodão – 14% de toda a soja do mundo e 16% da carne são produzidas no Cerrado, conforme dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

O preço é alto. Pelo segundo ano consecutivo, o Cerrado apresenta a maior área desmatada entre todos os biomas, com mais da metade do total (52,5%). Só o Matopiba, nas últimas duas décadas, concentrou cerca de 42% de toda a perda de vegetação nativa no país.

Isso faz jus aos dados do Relatório Anual de Desmatamento (RAD) de 2024, do MapBiomas: quase 96% do desmatamento no Brasil tem na agropecuária o principal vetor. As atividades agropecuárias já ocupam metade do Cerrado, bioma que mais perdeu vegetação nativa nos últimos 38 anos, em relação ao uso e cobertura da terra, atividade que interfere diretamente na quantidade de água e outros recursos naturais disponíveis, e que são a base da alimentação e do bem-viver de populações tradicionais.

No Cerrado maranhense, vive Vanessa Cristina. Herdeira de uma família matriarcal, ela é quebradeira de coco babaçu, assim como sua mãe e sua avó. Além de falar com muito orgulho desses saberes, ainda mostra o dedo “rachado no machado” ao quebrar coco. Aliás, é uma cicatriz bem comum nas mãos das quebradeiras de coco.

“É luta todo dia, quando uma termina de falar, já tem a outra, mais outra bomba para segurar no peito. Porque nós mulheres seguramos no peito mesmo. É derrubada de palmeiras, é veneno nas palmeiras. A pulverização aérea está sendo usada como forma de nos calar e de nos afastar de nossos territórios.”

Vanessa Cristina é assistente de projetos na Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (Acesa). Socióloga formada pela Universidade Federal do Maranhão, ela vem da comunidade Aldeia do Odino, no município de Bacabal (MA).  Muitas cópias de livros e trabalhos universitários foram tiradas com o dinheiro da quebra do coco babaçu.

Em suas andanças e experiências, lida diretamente com a situação de várias mulheres do Cerrado e da zona de transição para a Amazônia, e percebe que os problemas que afetam as quebradeiras de coco babaçu crescem à medida que as cercas do agronegócio aumentam. Há comunidades com somente um poço e as mulheres precisam fazer “milagre” com a pouca água que tem para a família, as plantas e as hortas.

Quebradeiras de coco. Crédito: Thomas Bauer/CPT Bahia

Antigamente, menciona Vanessa, quando os períodos de seca e chuva estavam equilibrados, as mulheres conseguiam se organizar para ter o tempo da colheita do babaçu. Agora, com a aceleração das mudanças climáticas, essas estratégias estão ameaçadas, o tempo chuvoso diminuiu, o tempo da seca se tornou maior, o desmatamento e as queimadas aumentaram.

Com isso, cresce o sofrimento das mulheres em seus modos de subsistência e de relação de saber com o território. Para tentar minimizar isso, as mulheres tentam acessar programas de sistemas agroflorestais (SAFs), projetos de cisterna e colocar sombrites nas hortas, para o sol não incidir diretamente nas plantas.

Nesta hora, outra vertente da vulnerabilidade feminina negra no campo se impõe. Mesmo próximas à terra, as mulheres do campo não conseguem garantir o acesso ao plantar e colher. É o que mostra os dados do estudo da FIAN Brasil. A insegurança alimentar persiste com maior incidência no meio rural do que no meio urbano. São as casas chefiadas pelas mulheres negras na zona rural onde estão 60% da proporção de domicílios em insegurança alimentar do país.

“Percebemos um adoecimento psíquico dessas mulheres diante das agressões aos territórios, diante da perda das áreas de produção de alimentos. De forma geral, as mulheres sofrem com o próprio modelo que vai impossibilitando as suas práticas de vida. E aí o adoecimento será de diversas formas, desde o físico até o confronto com o fazendeiro”, conta Franciléia Paula.

Direitos e racismos

A falta de acesso à água, sua contaminação e sua ausência no Cerrado, impondo um cenário de fome e insegurança para mulheres negras e indígenas da região, são um retrato de um país que impede o acesso de pessoas racializadas aos direitos humanos básicos.

“Não há sustentabilidade alimentar, não há justiça alimentar, sem garantia do direito à água, ao direito hídrico”, ressalta a nutricionista Bruna Crioula. Bruna é nutricionista, mestre em ciências sociais e matrigestora da Crioula Curadoria Alimentar – uma organização afrorreferenciada, é um afronegócio, que tem como principal objetivo desenvolver soluções ecológicas e ancestrais para sistemas alimentares por meio de uma educação alimentar racializada.

“A insegurança alimentar é um produto desse sistema socioeconômico em que o racismo é a base, o fundamento. Então a gente tem uma exploração da vida no seu significado mais essencial, a vida dos nossos rios, a vida dos nossos biomas, dos nossos ecossistemas, das pessoas e dos animais.”

Bruna destaca que, ao se pensar em água e segurança alimentar, ‘é preciso dialogar com dois conceitos de opressão: o racismo ambiental, pela contaminação proveniente de atividades mineradoras, industriais do agronegócio sem responsabilidade socioambiental e limpeza adequada das águas antes do descarte, e o racismo alimentar,  caracterizado por uma barreira de produção de comida. “Por fim, mas não menos importante: sem água a gente não cozinha!”

A injustiça climática está tanto na ausência de políticas públicas efetivas para proteção do Cerrado, quanto no avanço desmedido do agronegócio, sem a contenção efetiva de impactos socioambientais e sem nenhuma barreira dos governos.  Enquanto o setor visa a exportação de monocultura para o exterior, os problemas decorrentes da exploração dos recursos naturais recaem sobre territórios onde povos e comunidades tradicionais habitam.

Neste cenário, outra desigualdade se apresenta: o direito à água ainda é para poucas e poucos. A agropecuária junto à produção florestal, pesca e aquicultura consomem 58,2% da água retirada de fontes superficiais e subterrâneas no país, apontam os últimos dados publicados em 2020 das contas econômicas ambientais da água, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desmatamento de vegetação nativa do Cerrado para dar lugar à soja em Confresa (MT). Crédito: Thomas Bauer/CPT-H3000

“Cerca de 50% do total de outorgas hídricas feitas pela Agência Nacional das Águas (ANA) e do total da vazão de água outorgada foi também no Cerrado e suas zonas de transição. Cerca de 60% dessa água foi utilizada na agricultura irrigada”, ressalta o veredito final do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em sua Sessão Especial sobre o Cerrado. Outorgas são licenças para captação de recursos hídricos.

O veredito do TPP, além de condenar o Estado brasileiro pelo ecocídio e genocídio dos povos do Cerrado, ainda destaca a morte e diminuição da vazão de diversos rios, o que causa ainda o estresse hídrico, ou seja, o consumo de água é maior que sua oferta em regiões onde há mais desmatamento.

Danos ambientais causados pelo agronegócio e pela monocultura; os povos Krahô, Krahô-Kanela e Krahô Takaywrá dependem do Rio Formoso, Tocantins, na Ilha do Bananal, conhecida como “a maior ilha fluvial do mundo”. Crédito: Arquivo Cimi Regional Goiás/Tocantins

Outro fator que intensifica os problemas com água no Cerrado são as queimadas, que podem assorear rios e matar nascentes. De acordo com MapBiomas, o Cerrado possui a maior média anual de área queimada do país entre 1985 e 2024. Em 40 anos, 45% dele foi queimado pelo menos uma vez, sendo quase 90 milhões de hectares consumidos, totalizando 43% da área queimada nacional. É o bioma com maior área de recorrência de fogo no Brasil.

Insistir em existir

A contraposição ao modelo deploratório do agronegócio são suas vítimas, as mulheres cerratenses, que aplicam estratégias de vivência para garantir o bioma vivo.

“O Cerrado é um hotspot global, um centro de biodiversidade”, lembra Bruna Crioula, o que significa diversidade de alimentos, como frutas, vegetais, plantas alimentícias não colonizadas e que geralmente não estão no rol de alimentos amplamente conhecidos, mercantilizados e domesticados. “O Cerrado tem a capacidade de nutrir, de alimentar o Brasil com a sua sociobiodiversidade própria”

No Maranhão, Ivanessa Mariano articula projetos que potencializam a produtividade da terra. A agricultora conta do trabalho junto ao grupo de trabalho de juventudes com o “Projeto plante uma árvore”, que estimula o resgate das espécies nativas ameaçadas de extinção. Já são quatro anos de projeto e quase 4 mil mudas doadas para as comunidades.

Ivanessa mora na comunidade do município de Peritoró, a quase 240 quilômetros de São Luís, no Quilombo de São Bento do Juvenal. Ela é agrônoma pelo Programa da Reforma Agrária (Pronera) e integra a Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA). Por onde ela anda para falar do Cerrado, nunca deixou de mencionar a força da ancestralidade que compõe esse bioma, advogando pelo futuro de um dos biomas mais antigos do mundo e pela permanência das pessoas no campo. “É reconhecer a terra como mãe porque a terra alimenta. Então, se ela alimenta, a gente cuida.”

Ivanessa mostra a produção agroecológica de café e açaí em seu território. Crédito: Arquivo Pessoal.

“A gente não vai sobreviver na cidade. Porque na cidade não tem como você plantar. De amanhecer o dia, plantar uma semente e saber que a produção vai ser o nosso alimento durante todo o ano, porque nós fazemos a programação de tudo que plantamos e guardamos a semente para o próximo ano. A nossa alimentação dura o ano e na cidade não tem como, você não tem espaço para produzir”, explica a quilombola.

A maioria das mulheres no campo, segundo a agricultora, são mães solos e não concluíram os estudos.

Em um mundo em que o dinheiro é cada vez mais valorizado – e acessado sobretudo por quem tem melhores níveis de escolaridade e vive na cidade –, afirma Ivanessa, quem está no campo acaba sendo esquecido. Por isso, a autonomia alimentar das mulheres, assim como suas articulações e trocas, é fundamental para garantir o alimento e a diversidade na mesa.

“Vamos se ajudando, porque quando uma não tem a outra tem, a gente sempre tem essa certeza, pouco ou muito, mas alguém vai ter. E aí elas precisaram de semente de outros lugares. E lá, nas comunidades, elas também fazem a questão da memória afetiva das sementes, de onde veio as sementes, quem deu as sementes, a quantidade de ano que essas sementes existem”, conta Ivanessa sobre a relação de cuidado com as sementes e plantações de mudas, pois são elementos de continuidade do sistema alimentar e são, em sua maioria, atividades realizadas pelas mulheres.

Contra a ideia de um bioma subdesenvolvido, vazio de gente, de estética ambiental árida e aparentemente sem vida, são as mulheres que reforçam a luta por um Cerrado de pé e vivo. A multiplicidade de violências que recaem sobre elas ainda as impede de produzir alimentos em seus roçados.

Sem acesso adequado à água, isso traz consequências na saúde, tanto física quanto mental das mulheres que lidam no dia a dia com a preocupação de coordenar a sustentabilidade alimentar. “Mesmo em contexto de adversidades, estão presentes, porque é possível ainda estão aqui e asseguram a continuidade desse bioma”, completa a quilombola e mestra em saúde Franciléia Paula.


Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras  do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.

Ludmila Pereira é jornalista, mestra em Comunicação e doutora em Linguística pela UFG. Também formada em Letras e com especialização em Estudos Afro Latinoamericanos e Caribenhos (CLACSO). Integra a Coletiva Pretas de Angola e a Articulação de Mulheres do Cerrado. Colabora na Rádio e TV Quilombo e Rádio Kalungueira.

Juventudes do Cerrado assumem protagonismo na 2ª Feira da Reforma Agrária em Goiás

Desde os preparativos do evento, juventude toma frente da principal ação de diálogo do MST com a cidade, em Goiânia (GO)

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Da direita para a esquerda: Sadraque, Riquelme, Bruno e Ranyelle (e seu irmão mais novo) (Foto: Marília da Silva)


A 2ª Feira Estadual da Reforma Agrária Popular, realizada pelo Movimento Sem Terra – Goiás, em Goiânia (GO) entre os dias 13 e 14 de dezembro de 2025, na Praça Universitária, mostrou que as juventudes do Cerrado estão presentes e ativas no campo e nas lutas em todo o estado. Para quem esteve na feira, foi notório como eles e elas movimentaram diversos espaços e atividades, em um evento no qual tudo fluiu de forma organizada e alegre, do início ao fim.

Taynara Franz, do Projeto de Assentamento Dom Tomás Balduíno, em Formosa (GO), conta que o trabalho da juventude começou dias antes da feira, na Brigada de Agitação e Propaganda.  “Com um grande protagonismo da juventude, a Brigada confeccionou toda a ornamentação, fez o planejamento e execução das místicas, construiu paródias para intervenções e fez apresentações musicais e dois momentos de panfletagem em Goiânia”, conta.

As brigadas, como propostas pelo MST, são grandes processos de formação, especialmente para juventude. Nelas, é possível que cada um(a) compreenda como exercer seu papel, de forma ativa, na transformação da realidade do campo e da cidade, articulando cultura, agroecologia, educação popular e comunicação como instrumentos de resistência.

O resultado se vê na prática, com jovens à frente dos coletivos de comunicação e de cultura da Feira, por exemplo, como linha de frente do diálogo mais que necessário entre campo e cidade e construindo a luta com as gerações mais velhas. Nas comunidades, eles também assumem tarefas na produção de alimentos para subsistência e comercialização, atentos aos desafios e necessidades do presente.

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Composição intergeracional em mesa do debate: Manoel Calaça, Raiany, Bárbara Loureiro e Lyra Dias (Foto: Janelson)

Da imersão no Cerrado para o diálogo com a cidade

Na véspera da feira, outro encontro de juventudes do campo se iniciava em Goiânia (GO): uma imersão de jovens das comunidades acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás). A atividade abordava o pertencimento ao Cerrado, a identidade e os sonhos dos(as) jovens no campo, com objetivo de construir coletivamente um calendário de atividades para ano de 2026, que se conecte com as lutas vivenciadas nos territórios.

Após o encontro, jovens participantes foram para a 2ª Feira da Reforma Agrária. Ranyelle Victorya e Bruno Almeida são vizinhos e namorados. Moram no Assentamento Paulo Gomes, no município de Itapuranga. A vivência no encontro de jovens veio, para eles, reafirmar uma série de princípios que eles já vivem, na comunidade onde vivem, e que dão orgulho, diante da beleza do que estava exposto na feira. “Diferente do que você encontra no mercado, aqui tem uma variedade de produtos feitos de forma artesanal, sem agrotóxicos, sem poluição. Açafrão, pimenta, abóbora, farinha, são coisas naturais da terra”, descreve Ranyelle.

Ela e Bruno já produzem junto com as suas famílias e vêm, na feira, os resultados das lutas travadas pelos mais velhos, e também o seu próprio futuro. “Os produtos que têm aqui são fruto de saberes ancestrais, do que aprendemos com nossos avós, sobre como plantar de forma saudável, sem prejudicar o meio ambiente. Produzimos milho, arroz, frutíferas, temos a produção coletiva também, tudo natural, sem agrotóxico, tiramos nosso dinheirinho”, diz Bruno.

Riquelme Pereira, do Projeto de Assentamento Chê Guevara, em Piranhas (GO), participou pela primeira vez de um encontro com jovens em Goiânia. “Eu moro no Cerrado, mas tem muita coisa que a gente ainda precisa aprender”, disse. Após a imersão, a chegada à feira ganhou novos sentidos. “A gente falou muito lá sobre agroecologia, no encontro, e ao chegar aqui a gente encontra provas de que sim, é possível produzir sem agrotóxicos”.

Riquelme, e seu irmão, Sadraque Pereira, vivem com a família em luta por terra desde a infância. Neste ano, a comunidade deu alguns passos rumo à vitória: o recurso para a compra da terra pelo INCRA já foi destinado pelo Governo Federal. Apesar de alguns entraves, espera-se que em 2026 o assentamento seja concluído.

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Performance do Coletivo de Juventude MST-GO (Foto: Tatiane Maria)

O jovem, que hoje precisa trabalhar para terceiros, comemora a perspectiva de, em breve, poder também viver da produção de alimentos. “A gente trabalha na terra, planta, mas não supre as necessidades, então preciso trabalhar fora. É muito bom ver o semblante dos meus pais. Eles estão lutando há mais de 10 anos e vêm a vitória próxima. Eu quero que o ano que vem chegue, pra gente investir dentro da terra, pra gente acessar os direitos que a Reforma Agrária garante, e poder produzir”, disse Riquelme.

Assim, como a experiência da brigada, como espaço de cooperação e organização coletiva onde se constrói espaço de unidade do campo e com a cidade, os espaços de organização entre jovens de diferentes regiões, comunidades e movimentos também fortalecem seu protagonismo na luta por justiça social e pelo direito à terra.

Foto extra gravação das entrevistas entre os jovens

Gravação de entrevistas entre os jovens durante a Feira (Foto: Marília da Silva)


Texto:

Camila Alves
Dirigente Estadual do Setor de Comunicação e Juventude do  MST-GO


Marilia da Silva
Comunicadora Popular – CPT Goiás

Entrevistas

Camila, Bruno, Marilia, Ranielly, Riquelme e Sadraque

Mulheres do Cerrado realizam encontro estadual e feira aberta ao público em Goiânia

V Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado inclui atividades de formação, articulação, autocuidado e troca de saberes tradicionais entre as participantes, além da divulgação e comercialização de suas produções

destaque site Campanha 960x540px MULHERES GO

Entre os dias 3 e 5 de dezembro, mulheres das comunidades camponesas e quilombolas do estado de Goiás se reúnem em Goiânia (GO) para a quinta edição do Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado, um espaço de articulação para construção de bem-viver, em defesa de seus modos de vida tradicionais e do bioma Cerrado.

Desde 2021, a atividade é realizada anualmente e promove o intercâmbio e a articulação entre os grupos de mulheres organizados nas comunidades acompanhadas pela Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás), em diversas regiões do estado.

As atividades incluem momentos de trocas de saberes, espaços de autocuidado coletivo, momentos de formação e articulação social.

Neste ano, o encontro promoverá ainda o intercâmbio entre mulheres de Goiás e de outros estados do Cerrado, recebendo como convidadas mulheres do Tocantins e Piauí. Juntas, elas irão apresentar ao encontro o Protocolo de Segurança de Gênero que está sendo elaborado por elas por meio do projeto Gênero e Biodiversidade, da Articulação das CPTs do Cerrado.

Com objetivo de fortalecer a busca por autonomia econômica das mulheres do campo, o Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado promove, pela primeira vez, a Feira das Mulheres do Cerrado, para divulgar e comercialização de produtos da agricultura familiar, produtos artesanais e da sociobiodiversidade do Cerrado produzidos por elas. A feira será no dia 4, quinta-feira, na Praça da Juventude (Jardim das Aroeiras), a partir das 16 horas.


Serviço:

5º Encontro Estadual de Mulheres do Cerrado

Data: 3 a 5/12/25

Local: Centro Pastoral Dom Fernando – Av. Anápolis, 2020 – Jardim das Aroeiras, Goiânia – GO

Contato: Marilia da Silva – Comunicação CPT Goiás – Fone/whatzapp – 62 999404656

Feira das Mulheres do Cerrado – Aberta ao público

Data: 04/12/25 | Horário: 16hs às 21hs

Local: Praça da Juventude – Rua JDA Oito, 2146 – Jardim das Aroeiras, Goiânia – GO

Organização da 5ª Semana Nacional do Cerrado publica Carta de Repúdio ao Eco-Genocídio que enfrenta a região

CARTA ABERTA – Carta de Goiânia

Carta de Repúdio ao Eco-Genocídio do Cerrado

Organizadores e Organizadoras da 5ª Semana Nacional do Cerrado

O Cerrado pulsa como coração biogeográfico do Brasil. É o berço das águas, guardião da sociobiodiversidade e território de inúmeros povos que, há séculos, cultivam modos de vida que sustentam a terra e a coletividade. No entanto, esse mesmo coração está sendo arrancado a golpes de fogo, veneno e ganância. Diante do agravamento da destruição ambiental e humana que atinge este bioma, nós, organizadores e organizadoras da 5ª Semana Nacional do Cerrado (V SENACER), reunidos no mês de setembro de 2025, manifestamos repúdio público ao eco-genocídio em curso no Cerrado e à violação sistemática dos direitos de seus povos e comunidades tradicionais.

1. Um crime contra a vida, a natureza e os povos

O eco-genocídio – conceito reafirmado pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP) na Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado (Roma/Goiânia, 2022) – designa a destruição deliberada e articulada do bioma e o extermínio físico, cultural e simbólico de seus povos. É a face contemporânea de um processo histórico de colonização e usurpação territorial iniciado com a ocupação dos “sertões” no século XX e intensificado pela chamada Revolução Verde, que transformou o Cerrado em fronteira do agronegócio e laboratório de um modelo agroexportador devastador.

Hoje, mais de 50% da cobertura vegetal original do Cerrado já foi suprimida. Rios secam, nascentes morrem, espécies desaparecem. O ar e o solo são contaminados por milhões de litros de agrotóxicos despejados anualmente por aviões que envenenam plantações, animais e pessoas. Os incêndios criminosos se multiplicam, convertendo florestas em cinzas e expulsando comunidades inteiras.

Mas o Cerrado não morre sozinho: com ele morrem os povos que o protegem – indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco-babaçu, geraizeiros, veredeiros, ribeirinhos, agricultores familiares e tantos outros que há séculos cuidam desse território com sabedoria e afeto.

2. O veredito da terra: denúncia e justiça

Em 2022, o Júri Internacional do TPP condenou o Estado brasileiro, Estados estrangeiros e corporações nacionais e internacionais pelos crimes de ecocídio e genocídio contra o Cerrado e seus povos. O veredito reconheceu que tais práticas configuram crimes de sistema, alimentados pela grilagem, mineração predatória, expansão de monocultivos e uso intensivo de agrotóxicos – políticas que violam direitos humanos, territoriais e ambientais, e ameaçam o equilíbrio climático global.

Nós, signatários desta Carta, reiteramos o teor dessa condenação. Repudiamos a negligência histórica e institucional do Estado brasileiro, que continua a permitir e incentivar a destruição do Cerrado em nome de interesses econômicos e do lucro de poucos, em detrimento da vida de milhões.Rechaçamos também a violência cotidiana contra defensores ambientais, lideranças comunitárias e povos originários, que têm sido perseguidos, criminalizados e assassinados por protegerem o que é de todos: a vida.

3. Pela resistência dos povos e pela justiça climática

O Cerrado resiste porque resistem seus povos. A força das quebradeiras de coco, dos guardiões das veredas, dos jovens educadores, das mulheres quilombolas e indígenas, dos agricultores e pesquisadoras que integram a V SENACER, é o que mantém viva a esperança de um futuro sustentável.Inspirados pela Pedagogia Freireana, reafirmamos a importância do diálogo entre saberes científicos e tradicionais, e reconhecemos o papel transformador da educação pública e da extensão na formação de uma consciência crítica frente à crise climática. A V SENACER é, assim, um ato político-pedagógico de resistência, em defesa do Cerrado como território de vida e não de mercadoria.

4. Inclusão da Semana do Cerrado no calendário letivo

Exortamos os estados e municípios inseridos no território do Cerrado e em suas áreas de transição a instituírem, em seus calendários escolares, a Semana do Cerrado, como política pública de educação ambiental e valorização identitária. Tal medida, a exemplo do que já ocorre no Distrito Federal, onde a Lei nº 7.053, publicada no Diário Oficial do DF de 06 de janeiro de 2022, inclui a Semana do Cerrado no calendário letivo da rede de ensino – realizada anualmente de 5 a 11 de setembro –, constitui importante instrumento de mobilização social, formação cidadã e defesa do bioma.

5. Nossas reivindicações

À luz do legado do TPP e das recomendações de sua sentença, exigimos:

1. Reconhecimento constitucional do Cerrado e da Caatinga como patrimôniosnacionais, mediante aprovação imediata da PEC 504/2010, sob o lema “Riqueza presente, herança futura”;

2. Demarcação e titulação imediata dos territórios indígenas, quilombolas etradicionais;

3. Fim das políticas de incentivo ao agronegócio destrutivo, à mineração e aosmegaprojetos que violam direitos humanos e ambientais;

4. Proibição da pulverização aérea de agrotóxicos e revisão urgente da legislação quefavorece o uso indiscriminado de venenos;

5. Proteção das águas do Cerrado, garantindo acesso prioritário e sustentável àscomunidades locais;

6. Criação de políticas públicas permanentes de soberania alimentar, agroecologia etecnologias sociais que respeitem os modos de vida cerradeiros;

7. Investigação e responsabilização de empresas, agentes públicos e privadosenvolvidos em crimes ambientais e violências no campo;

8. Investimentos contínuos em educação ambiental crítica e a reestruturação doscurrículos para incluir saberes tradicionais, valorização do Cerrado e formaçãodocente voltada à sustentabilidade, promovendo consciência ecológica ecompromisso com a preservação do bioma.

9. Inclusão da Semana do Cerrado nos calendários letivos de redes de ensinomunicipal e estadual dos municípios e estados inseridos no bioma e em suas áreasde transição.

6. Chamado aos poderes e à sociedade

Encaminhamos esta Carta de Repúdio ao Eco-Genocídio do Cerrado aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, à Coordenação da COP 30, e às instituições nacionais e internacionais de direitos humanos e meio ambiente.

Convocamos ainda toda a sociedade brasileira a reconhecer que não há justiça climática sem Cerrado vivo.

Sem suas águas, seus povos e sua biodiversidade, não há futuro possível

Que esta Carta seja mais do que denúncia: que seja semente.

Semente de esperança, de mobilização e de justiça – que floresça em cada escola, comunidade, universidade e território do Cerrado, e que faça ecoar, em todo o país e além dele, a voz que clama:

“Parem o eco-genocídio! O Cerrado é vida, e a vida não se negocia.”

Goiânia, 31 de outubro de 2025.


Assinam,

Membros(as) da Comissão Organizadora da V Semana Nacional do Cerrado – “Povos, saberes e natureza do Cerrado: resistência à crise climática”

1. Adeilton Oliveira de Souza, Instituto Federal de Brasília – IFB (E-mail: adeilton.souza@ifb.edu.br).
2. Adriano Antonio Brito Darosci, Instituto Federal Goiano – IF Goiano (E-mail: adriano.darosci@ifgoiano.edu.br).
3. Alba Pedreira Vieira, Universidade Federal de Viçosa – UFV, (E-mail: apvieira@ufv.br).
4. Alcineia Pereira do Nascimento, Secretaria de Estado da Educação de Goiás –
SEDUC-GO (E-mail: alcineiap2@gmail.com).
5. Aline de Fátima Marques, Universidade Federal de Jataí – UFJ (E-mail: aline.marques@discente.ufj.edu.br).
6. Ana Carolina de Oliveira Motta, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: ana.motta@ifg.edu.br).
7. Ana Katharina Pereira Navarro, Instituto Federal de Brasília – IFB (E-mail: anaa.kathw@gmail.com).
8. Ana Maria Mapeli, Universidade Federal do Oeste da Bahia – UFOB (E-mail: mmapeli@ufob.edu.br).
9. Anderson Ernane de Souza Nascimento, Centro Universitário Unifatecie (E-mail: anderson.hernane@gmail.com).10. André Luiz Silva Oliveira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: andreluiz@ufg.br).
11. Bruna Vieira Nunes, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (E-mail: brunavieiranuunes@gmail.com).
12. Bruno Fiorese Fernandes, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: bruno.fiorese@ifg.edu.br).
13. Camila Aoki, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS (E-mail: camila.aoki@ufms.br).
14. Clesio Barbosa Lemos Júnior, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
(E-mail: clesio.junior@uemg.br).
15. Daisy Luzia do Nascimento Silva Caetano, Instituto Federal de Goiás – IFG, e Associação dos Geógrafos Brasileiros-Seção Goiânia – AGB-Seção Goiânia (Email: daisy.caetano@ifg.edu.br).
16. Daniela Pereira da Silva Carvalho, Universidade Estadual de Campinas –
UNICAMP (E-mail: d272517@dac.unicamp.br).
17. Davi Silva Fagundes, Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal –
SEDF, e Programa Decarbonize Brasília (E-mail: decarbonize.brasilia@gmail.com).
18. Deise Katiuscia Xavier Kaisa Oliveira, Centro Universitário de Mineiros – UNIFIMES
(E-mail: deise@unifimes.edu.br).
19. Divina Aparecida Leonel Lunas, Universidade Estadual de Goiás – UEG (E-mail:
divina.lunas@ueg.br / teccer@ueg.br).
20. Diorny da Silva Reis, Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – IFNMG (E-mail: diorny.reis@ifnmg.edu.br).
21. Djane Victoria Pessoa Ferreira, Universidade de Brasília – UnB (E-mail: victoriapessoa13@gmail.com).
22. Edna Lopes Miranda, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS (Email: edna.miranda@ufms.br).
23. Enio Rodovalho dos Santos, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: eniorodovalho@ufg.br).
24. Ereni Maria de Jesus, Associação de Moradores do Bairro Jardim Inconfidência de
Uberlândia/MG – AMJI-Uberlândia/MG (E-mail: ereni1965@yahoo.com.br).
25. Fausto Makishi, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (E-mail: faustomakishi@gmail.com).26. Fernanda Keley Silva Pereira Navarro, Instituto Federal de Brasília – IFB (E-mail: fernanda.navarro@ifb.edu.br)
27. Flomar Ambrosina Oliveira Chagas, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: flomarchagas@gmail.com).
28. Gabriel Pereira Lopes, Instituto Federal do Triângulo Mineiro – IFTM (E-mail: gabriellopes@iftm.edu.br).
29. Giseli Gomes Dalla Nora, Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT (E-mail: giseli.nora@gmail.com).
30. Giselle Alves Dias de Sousa, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: giselle.dias@ifg.edu.br).
31. Gislene Auxiliadora Ferreira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: gislene_ferreira@ufg.br).
32. Gustavo Rodrigues Morgado, Instituto Federal do Norte de Minas Gerais – IFNMG
(E-mail: gustavo.morgado@ifnmg.edu.br).
33. Isabela Cristina Gomes Honório, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
(E-mail: isabela.honorio@uemg.br).
34. Jefferson Rabal, AGA Brasil e Associação Brota Cerrado de Certificação
Participativa (E-mail: jefferson@agabrasil.org.br).
35. José Elizaldo Araujo da Silva, Universidade Federal do Maranhão – UFMA (E-mail:
josehhelizaldo@gmail.com).
36. Juliana Marzinek, Universidade Federal de Uberlândia – UFU (E-mail: jmarzinek@ufu.br).
37. Juliana Ramalho Barros, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: juliana@ufg.br).
38. Juliano André Bogoni, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (E-mail: bogoni.ja@gmail.com).
39. Katia Alcione Kopp, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail: kakopp@ufg.br).
40. Kênia Gonçalves Costa, Universidade Federal do Norte do Tocantins – UFNT (Email: kenia.costa@ufnt.edu.br).
41. Larissa Cristina Dias Limírio, Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade – ICMBio (E-mail: larissa.limirio@icmbio.gov.br).
42. Larissa de Mello Evangelista, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
larissa.evangelista@ufg.br).

43. Leide Dayanne Silva de Sousa, Universidade Estadual de Goiás – UEG (E mail: leide.sousa@ueg.br).
44. Leonora Malheiro Ferreira, Escola Municipal de Educação Integral Retiro do Bosque
– Secretária Municipal de Educação de Aparecida de Goiânia/GO – SME-Aparecida
de Goiânia/GO (E-mail: mestrado.malheiro@gmail.com).
45. Leticia de Almeida Nogueira e Moura, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
leticia.moura@ifg.edu.br).
46. Luciana Alves de Oliveira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
lucianaicb@ufg.br).
47. Manuel Eduardo Ferreira, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
manuel@ufg.br).
48. Marcelo Bruno Araújo Queiroz, Instituto Federal do Piauí – IFPI (E-mail:
marcelobrunoqueiroz@gmail.com).
49. Marcelo Kuhlmann Peres, Universidade de Brasília – UnB (E-mail:
biom.fg21@gmail.com).
50. Márcia de Negreiros Viana, Instituto Federal do Ceará – IFCE (E-mail:
marcia.viana@ifce.edu.br).
51. Marco Antônio Gomes de Carvalho, Instituto Federal de Goiás – IFG, e Sociedade
Porto das Antas (E-mail: marco.carvalho@ifg.edu.br).
52. Marco Aurélio Cardoso, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
aureliocardoso@ufg.br).
53. Maria Aparecida de Sá Xavier, Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro
– SME-Rio de Janeiro/RJ e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro –
UNIRIO (E-mail: airamxavier@yahoo.com.br).
54. Maria Cristina Sanches, Universidade Federal de Uberlândia – UFU (E-mail:
sanchesmc@ufu.br).
55. Marjorie Karoline Duarte Araujo do Couto, Centro Universitário Adventista de São
Paulo – UNASP (E-mail: mkplan.arquitetura@gmail.com).
56. Marluce Silva Sousa, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
marluce.sousa@ifg.edu.br).
57. Mauricio Vieira Gomes da Silva, Universidade Federal do ABC – UFABC (E-mail:
mauricio.vieira@ufabc.edu.br).
58. Mayra Vannessa Lizcano Toledo, Universidade Estadual Paulista – UNESP (E-mail:
mayra.lizcano@unesp.br).59. Michel Mendes, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
michel.mendes@ufg.br).
60. Milena Muniz de Sousa Alves, Universidade de Brasília – UnB (E-mail:
milenamunizpidf@gmail.com).
61. Miriam Antonia Soares Filha, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
miriam.soares@ifg.edu.br).
62. Murilo Mendonça Oliveira de Souza, Universidade Estadual de Goiás – UEG (Email: murilo.souza@ueg.br).
63. Nayara da Silva Ribeiro, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (Email: nayara.ribeiro1@unemat.br).
64. Natália Tolêdo Sacchetto, Universidade Federal de Viçosa – UFV (E-mail:
natalia.sacchetto@ufv.br).
65. Octaviano Khalil Axcar, Instituto Fruto Brasil (E-mail: khalil@frutourbano.org.br).
66. Pablo Martins Bernadi Coelho, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
(E-mail: pablo.coelho@uemg.br).
67. Paula Benevides de Morais, Universidade Federal do Tocantins – UFT (E-mail:
moraispb@mail.uft.edu.br).
68. Pedro Neves da Rocha, Universidade Estadual Paulista – UNESP (E-mail:
pedro.n.rocha@unesp.br).
69. Plínio Alexandre dos Santos Caetano, Instituto Federal de São Paulo – IFSP (Email: plinio@ifsp.edu.br).
70. Rafael Amaral Shayani, Universidade de Brasília – UnB (E-mail: shayani@unb.br).
71. Rafael Costa Leite, Universidade Estadual do Maranhão – UEMA (E-mail:
rafael.loreto12@gmail.com).
72. Rafael Gustavo Capinzaiki Ottonicar, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
de Bauru/SP – SENAI-Bauru/SP (E-mail: rafael.gcottonicar@sp.senac.br).
73. Raíza Dias Amaral, Escola Estadual Professor Henrique de Matos, Secretaria de
Estado da Educação de Minas Gerais – SEE-MG (E-mail: raizamaral@gmail.com).
74. Renata Alves de Paiva Fortes, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
renata_alves@discente.ufg.br).
75. Renato Fonseca de Arruda, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT
(E-mail: fonsecaarruda@gmail.com).
76. Ricardo Takayuki Tadokoro, Instituto Federal Goiano – IF Goiano (E-mail:
ricardo.tadokoro@ifgoiano.edu.br).77. Rodrigo Marciel Soares Dutra, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
rodrigo.dutra@ifg.edu.br).
78. Rosa Maria de Brito Steckelberg, Universidade Federal de Goiás – UFG (E-mail:
rosagoianesia2@gmail.com).
79. Rosângela Azevedo Corrêa, Museu do Cerrado / Faculdade de Educação /
Universidade de Brasília – UnB (E-mail: museudocerrado.unb@gmail.com).
80. Rúbia Cristina Diógenes Pinheiro, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail:
rubia.pinheiro@ifg.edu.br).
81. Sérgio Willians de Oliveira Rodrigues, Universidade Federal de Goiás – UFG (Email: swor@ufg.br).
82. Silvana Afonso Costa, Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Álvares de
Azevedo – Secretária de Estado da Educação de Rondônia – SEDUC-RO (E-mail:
p.sil.geo@gmail.com).
83. Solange Ikeda Castrillon, Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT (Email: solangeikeda@unemat.br).
84. Stephanni Gabriella Silva Sudré, Universidade Federal do Norte do Tocantins –
UFNT (E-mail: stephanni.sudre@ufnt.edu.br).
85. Sula Salani Mota, Universidade do Distrito Federal – UnDF (E-mail: sula.salani@undf.edu.br).
86. Taciane Schröder Jorge, Universidade Federal de Uberlândia – UFU (E-mail: taci.jorge@gmail.com).
87. Thamyris Carvalho Andrade, Universidade Federal do Tocantins – UFT (E-mail: thamyris.andrade@mail.uft.edu.br).
88. Thiago Ruiz Zimmer, Instituto Federal de Goiás – IFG (E-mail: thiago.zimmer@ifg.edu.br).
89. Thomas Leonardo Marques de Castro Leal, Instituto Federal de Goiás – IFG (Email: thomas.leal@ifg.edu.br).
90. Valdivino Domingos de Oliveira Júnior, Universidade Federal de Viçosa – UFV (Email: valdivino.junior@ufv.br).
91. Vladia Correchel, Universidade Federal de Goiás – UFG, (E-mail: vladiaea@ufg.br).
92. Wanessa Silva Rocha, Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás –
CREA-GO (E-mail: wrochaamb@gmail.com).
93. Wéltima Teixeira Cunha, Instituto Federal da Bahia – IFBA (E-mail:
weltimacunha@gmail.com).94. Yule Roberta Ferreira Nunes, Universidade Estadual de Montes Claros –UNIMONTES (E-mail: yule.nunes@unimontes.br).


 Foto em destaque: Thomas Bauer/CPT-H3000

COP 30 e Cerrado: Ato simbólico na Agrizone denuncia contaminação por agrotóxicos

70% dos agrotóxicos consumidos no Brasil são despejados no Cerrado; manifestação acontece na entrada da Agrizone durante a manhã de hoje (20)

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Foto: Oliver/Mídia Ninja

Agentes pulverizadores com faixas que mencionam empresas como Bayer e Nestlé integram manifestação pacífica na porta da Agrizone na manhã desta quinta-feira (20). Escanteado do centro dos debates sobre soluções climáticas e das negociações da COP 30, a Conferência das Partes que acontece em Belém (PA), o Cerrado é a pauta da iniciativa a fim de chamar atenção para a contaminação por agrotóxicos que ocorre na região e afeta a saúde de seus povos, a sua sociobiodiversidade e a população brasileira.

As faixas denunciam o uso abusivo de agrotóxicos no Brasil e seus impactos principalmente no Cerrado. Também reivindicam regulação internacional do uso de agrotóxicos, já que diversas substâncias nocivas já proibidas na União Europeia continuam sendo utilizadas no Brasil sem nenhum tipo de restrição. Manifestantes trajados e paramentados com equipamentos de pulverização representam os trabalhadores rurais responsáveis pela aplicação dos produtos químicos nas lavouras – os mais afetados em casos de intoxicação por pesticidas.

Agrizone é a área dedicada ao agronegócio na COP 30 e reúne as principais lideranças do setor. Para funcionar como uma vitrine do agro, o espaço é financiado por grandes empresas como Bayer e Nestlé, além de entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A iniciativa tem o apoio do governo federal por meio da  Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a anfitriã do evento, e mira no debate da chamada Agenda Positiva do Agro 2025, visando influenciar nas negociações climáticas.

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Contaminação no Cerrado

Apenas em 2024 foram registrados 27 casos de contaminação por agrotóxico no Cerrado, sendo 20 ocorrências apenas no Maranhão, conforme aponta o Relatório Conflitos no Campo Brasil, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O Centro de Documentação da CPT entende, porém, que o número real de casos é maior do que o registrado, já que é difícil sistematizar esse tipo de ocorrência em áreas rurais onde há pouca ou nenhuma estrutura de políticas públicas de atendimento e notificação de saúde nas proximidades.

“As grandes monoculturas do agronegócio afetam diretamente as comunidades e os povos do Cerrado na essência de seus modos de vida tradicionais, baseados na produção de alimentos saudáveis e na relação harmônica com as florestas, com as águas e com a biodiversidade. Lutar contra os agrotóxicos é lutar por essas vidas, pelas nossas vidas e pela defesa do Cerrado em pé”, destaca Isolete Wichinieski, coordenadora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam que, em média, são despejados 600 milhões de litros de agrotóxicos anualmente no Cerrado, o que corresponde a mais de 70% do total consumido no país. Dossiê elaborado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado em parceria com a Fiocruz identificou 9 tipos de agrotóxicos em pesquisa que analisou a qualidade da água em comunidades de 7 estados do Cerrado.

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Coleta de água contaminada em comunidade do Cerrado no Mato Grosso do Sul, um dos 7 estados participantes da pesquisa “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado” (Foto: Bruno Santiago/Campanha Cerrado)

“Na Europa é proibido e no Brasil vale tudo?”

Do ponto de vista global, a principal reivindicação é pela padronização da regulação internacional dos agrotóxicos, como explica Jakeline Pivato, da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. “É mais que urgente a necessidade de uma padronização internacional. Hoje, países e corporações do norte global, como a própria União Europeia, possuem legislações restritivas mas vendem substâncias proibidas em seus próprios territórios para nações do Sul, como o Brasil. Dos 10 agrotóxicos mais consumidos em nosso país, sete são banidos na Europa”, relata.

De acordo com levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil, mais de 1.800 agrotóxicos foram aprovados para uso durante o governo Bolsonaro (2019-2022) e cerca de metade desses produtos é proibida na Europa atualmente. A pesquisa também revela que mais de 14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos no Brasil entre janeiro 2019 a março 2022, o que ocasionou 439 mortes neste período.

Apesar da herança catastrófica, pouco ou quase nada foi feito pelo atual governo brasileiro visando a melhora do cenário de contaminação. No dia 11 de novembro, um dia após o início da COP 30, o Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa) aprovou 30 novos agrotóxicos que contêm substâncias proibidas na União Europeia.

Entre elas estão azoxistrobina e trifloxistrobina, ligadas a má-formação fetal e danos neurológicos, além de um novo tipo de glifosato, associado a riscos cancerígenos, reprodutivos e hormonais. De acordo com apuração do Brasil de Fato e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, a lista inclui ainda clocernapir, S-metolacloro, protioconazol e outras substâncias já conhecidas por causar toxicidade a peixes e aves, contaminar águas subterrâneas, gerar resistência de fungos e oferecer riscos diretos à saúde humana. 

Bahia tem a maior taxa de desmatamento do Cerrado, aponta relatório inédito

Agronegócio estimula a grilagem de terras, o desmatamento e a violência contra comunidades rurais no Oeste da Bahia

Por Paulo Oliveira (Meus Sertões) e Thomas Bauer (CPT-BA e H-3000) 

Relatório produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos [1], Amigos da Terra [2] e ActionAid [3] revela como empresas financeiras e do agronegócio especulam com terras agrícolas e estimulam destruição ambiental no Cerrado. A publicação “Especulação financeira e impactos socioambientais do agronegócio no Cerrado da Bahia” detalha casos de violação de direitos territoriais de comunidades rurais e impactos ambientais.

Clique aqui para acessar o Relatório na íntegra.

O estado da Bahia registra a maior taxa de desmatamento, principalmente, pela expansão de monocultivos de soja. O Cerrado abriga 5% da biodiversidade de espécies vegetais e animais do mundo e representa uma fonte crucial de água para todo o continente. A preservação do bioma é fundamental para evitar os efeitos da crise climática.

Os responsáveis pelo trabalho investigaram grilagem de terras, especulação financeira e destruição ambiental.

“O relatório mostra como as corporações financeiras ligadas ao agronegócio estão destruindo o Cerrado” – declarou Fabio Pitta, coordenador da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

O levantamento se baseia na análise da atuação da Radar, empresa constituída a partir de um acordo firmado entre a Cosan S.A e o fundo de pensão norte-americano TIAA (Teachers Insurance Annuity Association), investidor, sócio e parceiro estratégico do conglomerado brasileiro.

A Radar foi uma das primeiras a atuar com especulação de terras no meio rural no Brasil. Outra empresa pesquisada foi a SLC, parceira da Radar Propriedades Agrícolas S.A. Ela é apresentada no site da Cosan como “referência em gestão de propriedades agrícolas (…) com alto potencial de valorização, compreendendo cerca de 306 mil hectares estrategicamente posicionados em oito estados brasileiros”.

Na Bahia, o levantamento ocorreu nas cidades de Formosa do Rio Preto e Correntina. O trabalho abrangeu a Radar, SLC Agrícola [4], SLC LandCo, a SLC-MIT, Bunge, Cargill, ADM, Mitsui & Co e AZL Grãos (uma joint venture entre Amaggi, Louis Dreyfus Company/LDC e a subsidiária brasileira do grupo japonês Zen-Noh Grain).

Para se ter uma ideia do avanço do agronegócio em terras do oeste baiano, segundo o IBGE, entre 2004 e 2022, a área de produção de soja pulou de 98.325 para 193.100 hectares, em Correntina; e de 95.266 para 427.500, em Formosa do Rio Preto. Um crescimento de 195% e 448%, respectivamente.

No relatório da Rede, Amigos da Terra e Action Aid constam recomendações para que as empresas abandonem as práticas destrutivas. Elas incluem a suspensão das operações especulativas em terras agrícolas, a paralisação definitiva do desmatamento no Cerrado, o respeito ao direito à terra das comunidades rurais e o pagamento de indenizações por grilagem e destruição ambiental.

“O agro é a principal causa da destruição de florestas no Sul Global. Empresas financeiras internacionais estimulam esta destruição. Isso significa grilagem e ecocídio” – disse Jeff Conant, da ONG Amigos da Terra.

GRILAGEM E DANOS

O Cerrado baiano é habitado tradicionalmente por comunidades rurais. Esse território virou alvo de grileiros a partir da década de 1960. Nos últimos anos, empresas do agronegócio se instalaram na região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), ampliando as consequências desastrosas.

A Rede Social de Justiça e Direitos Humanos publica uma série de relatórios sobre os negócios de empresas nacionais e transnacionais, financeiras e imobiliárias agrícolas, localizadas na região de expansão da soja, desde 2011. Três das maiores comercializadoras de commodities estão instaladas na região: Bunge, Cargill e ADM.

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Ranchos e benfeitorias foram destruídas por pistoleiros. Foto: Arquivo da Associação de Fundo e Fecho de Pasto 

A Cosan é um conglomerado que atua como uma holding de investimentos em empresas nos setores de energia, óleo e gás natural, lubrificantes, gestão de terras agrícolas, mineração e logística. Entre 2009 e 2010, ela foi incluída na lista de empresas que exploravam o trabalho análogo à escravidão em usinas de açúcar e álcool.

Fiscais do Ministério do Trabalho encontraram 42 trabalhadores em condições precárias, em Igarapava, São Paulo. O episódio causou a queda nas ações da empresa e a suspensão de financiamentos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

A empresa conseguiu sair da “lista suja do trabalho escravo” ao obter uma liminar na justiça. Depois, fechou um acordo com o governo federal para aprimorar o sistema de fiscalização interna e se submeter a controles externos.

Em 2017, a Rumo Logística, do grupo Cosan, foi condenada por trabalho análogo à escravidão. Na primeira vez, pagou 15 milhões por danos morais coletivos, em função de obrigar motoristas de caminhão a trabalharem 34 horas seguidas, de acordo com o Ministério do Trabalho, em Campinas (SP).

A TIAA (Associação de Seguros para Professores da América) é uma organização de serviços financeiros, que oferece aposentadoria para funcionários da área acadêmica, científica, médica, cultural e governamental. Ela atende mais de 5 milhões de funcionários de 15 mil instituições. Tem investimentos de um trilhão de dólares em 50 países e é a 98ª maior empresa do EUA por receita.

O fundo de pensão, segundo dados de 2017, é a maior investidora global em agricultura, a segunda maior produtora de viníferas nos Estados Unidos e a terceira maior administradora de imóveis comerciais do mundo.

Em 19 de outubro de 2022, clientes da organização apresentaram queixa, baseados nos Princípios para o Investimento Responsável (PRI), apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Eles solicitaram a retirada da TIAA da lista de investidores sustentáveis porque ela é uma das maiores investidoras em combustíveis fósseis e a quinta maior detentora de títulos de carvão do mundo. A PRI rejeitou a queixa.

IMPACTOS NO OESTE 

A expansão do agronegócio no Cerrado, de acordo com o relatório, está associada à especulação com terras agrícolas, fomentadas pelas empresas financeiras transnacionais e firmas de comercialização articuladas com grileiros da região. Comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto, geraizeiras e brejeiras têm sido as mais atingidas.

Relatos e boletins de ocorrência dão conta que os moradores são expulsos das áreas comuns e denunciaram casos de violência de fazendeiros que buscam tomar suas terras. A apropriação de terras pelo agronegócio está relacionada ao desmatamento, à contaminação por agrotóxicos, a ameaças e ataques contra a comunidades, usando pistoleiros e milicianos armados. O relatório chega a citar a matéria “Pistoleiros abrem fogo contra fecheiros e ferem três”, publicada em Meus Sertões, no dia 11 de abril de 2023.

Apesar de as informações terem sido confirmadas por várias fontes, o governo da Bahia concedeu outorgas de milhares de metros cúbicos de água para os fazendeiros do agronegócio através do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). O órgão foi recentemente citado na operação Ceres do Ministério Público, que tornou réus oito pessoas que integravam um esquema de fraude em licenças ambientais no oeste baiano,

Além disso, a morosidade do estado em proteger o território das comunidades tradicionais contribui para a violação de direitos humanos e para a destruição ambiental.

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Picape que transportava geraizeiros foi atingida por tiros disparados por pistoleiros. Foto cedida pela comunidade 

O relatório cita o depoimento de Elisete (nome fictício por questões de segurança), da localidade de Brejão, em Formosa do Rio Preto. Segundo ela, fazendeiros se apropriam de terras e fontes de água para utilizar em pivôs de água e perfuração de poços. A ação diminui a vazão do rio Sapão, que abastece a comunidade. Além disso, rios menores secaram e o agrotóxico contamina as águas, plantas e alimentos cultivados pelos fecheiros.

Elisete e a mãe dela são artesãs e trabalham com buriti e capim dourado. Como consequência das ações predatórias secou boa parte do brejo, inutilizou árvores e as plantas utilizadas no trabalho delas. A trabalhadora rural conta ainda que em 2022 houve um grande desmatamento na região. E, no ano seguinte, a irrigação de soja, na Serra de Coaceral, em Formosa do Rio Preto, deixou o rio Sapão e Sassafrás turvo.

A família da agricultora sempre viveu ali. Há alguns anos, ela sofre ameaças de grileiros e empresas de agronegócio, que tentam usar o local como reserva legal. A legislação ambiental prevê que os imóveis rurais devem manter mata nativa equivalente a 35% da área das propriedades. O texto da lei, por pressão da bancada do agronegócio, permite que a área preservada possa estar em qualquer outra propriedade, sem a necessidade de ser nas fazendas de soja, algodão e milho, onde a vegetação é totalmente desmatada. Daí o ataque aos fecheiros que mantém as áreas intactas há dois séculos .

Embora Elisete e os parentes tenham colocado um grupo de grileiros para correr, ela admite viver com medo constante porque mais de uma vez apareceram pessoas estranhas. Os pistoleiros disseram para ela ir embora porque a terra pertencia a eles. A trabalhadora rural, porém, permanece no local.

O relatório revela ainda que duas comunidades em Formosa do Rio Preto, Mato Grosso e São Marcelo, moradores também denunciam contaminação das águas, diminuição da vazão dos rios e ameaças (clique aqui para ver reportagem publicada em 2021, em Meus Sertões – “Posseiros pedem punição para fazendeiros após atentado em Formosa do Rio Preto) . Os dois locais foram atingidos pela grilagem feita pela Canabrava Agropecuária, cuja fazenda Santa Maria consta no Livro Branco da Grilagem do Incra (1999), com 139 mil hectares de terras devolutas tomadas de forma ilegal.

Fecheiros de Mato Grosso contam que a chapada, usada como área comum de pastoreio, foi invadida pela soja do agronegócio. Embora isso tenha causado a redução das áreas para as criações, as veredas também se transformaram em alvo de grilagem para várias fazendas interessadas em torná-las reservas legais.

A Canabrava tem sido acusada de contratar pistoleiros para expulsar as famílias das comunidades tradicionais. A ação impede o acesso aos chapadões, o que leva famílias de fecheiros a passar necessidade, de acordo com o documento divulgado.

Um dos moradores de Correntina explica com mais detalhes como se dá o impacto no modo de vida das comunidades tradicionais:

“Os Gerais são chapadões centrais. Nós chamamos o Cerrado de Gerais, que sempre foram espaço de liberdade e de economia comunitária. Correntina tinha mais de 150 mil cabeças de gado. Esse número caiu para 30 mil porque as comunidades perderam territórios para os grileiros e para o agronegócio”. Outra perda foi a produção de pequi, de buriti e de caju. Os animais nativos (tatu, cutia, paca, anta, veado, ema, porco do mato, capivara, onça) sumiram” – revelou.

Em Correntina, parcerias entre a SLC e Radar;  e SLC e Mitsui (Xingu S.A) possuem reservas legais averbadas, de acordo com o relatório, sobre os Fechos Vereda da Felicidade e Capão do Modesto. Esse processo de ocupação de áreas preservadas pelos povos tradicionais é chamado de “grilagem verde”.

Enquanto isso, o desmatamento do Cerrado avança. A derrubada da vegetação na bacia do rio Corrente, entre 2001 e 2020 foi maior do que todo o estrago feito até o ano 2000, em função da expansão do monocultivo de commodities,

DESTRUIÇÃO

Em 2003, a destruição da vegetação nativa, divulgada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), chegou a 11.011 quilômetros quadrados, um aumento de 3% em relação ao ano anterior. Entre os 11 estados por onde o Cerrado se distribui, a região do Matopiba registrou 75% do total.

O INPE divulgou ainda que entre 2001 e 2020, foram derrubados 26.956,23 quilômetros quadrados de vegetação na Bahia. Em Correntina, a destruição atingiu 3.178,25 km² (12% do total); e em Formosa do Rio Preto, 5.565,14 km² (12% do total).

O relatório das ONGs ressalta que o desmatamento ocorreu graças à conivência do governo do estado. O fomento das derrubadas se deu através da concessão de licenças, sem se preocupar com os impactos socioambientais.

No oeste da Bahia, as grilagens de terra também estão associadas à apropriação de água. As chapadas, onde os territórios são tomados, são as principais áreas de recarga do aquífero Urucuia, um dos maiores do Brasil. Bilhões de litros d’água são captados diariamente pelo agronegócio em detrimento das comunidades ribeirinhas e camponesas. As licenças, mesmo que a água não seja captada, servem para valorizar as fazendas

Uma das outorgas investigadas pela Agência Pública de jornalismo investigativo foi concedida a Paulo Almeida Schmidt, que obteve autorização para captar 33,4 milhões de litros de água para a Fazenda Rio de Janeiro, em Barreiras. Paulo é o primeiro vice-presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Ele arrendou dez mil hectares da propriedade a uma subsidiária da Radar.

Levando em conta que no Brasil uma pessoa utiliza 150 litros de água para atender as necessidades básicas de consumo e higiene, O volume previsto na outorga daria para abastecer uma cidade com cerca de 220 mil habitantes.

Outro beneficiado pelo licenciamento do Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) foi o presidente da Abapa e conselheiro da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Luiz Carlos Bergamaschi. A autorização concedida a ele permite a retirada de 44,7 milhões de litros de água para quatro fazendas em Correntina, uma delas, segundo os autores do relatório, sobreposta sobre o fecho de pasto Capão do Modesto.

MILÍCIAS RURAIS

Quanto à violência registrada contra as comunidades tradicionais, estão documentadas no relatório intimidações, tentativas de homicídio, destruição de cercas e ranchos, ameaças e fechamento de acessos. Os crimes são cometidos por “empresas de segurança, que atuam como milícias armadas”.

A pesquisa feita pelas ONGs cita a Estrela Guia, que atua em diversas cidades da região e tem como clientes a Cargill, o Condomínio Cachoeira do Estrondo (envolvida em casos de pistolagem em Formosa do Rio Preto), e a Bergamaschi Agro, suspeita de intimidar moradores do Capão do Modesto.

A denúncia engloba ainda graves impactos causados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. O veneno contamina rios, lençóis freáticos e mata animais diversos. Além disso, impregna nos alimentos e aumenta a incidência de graves doenças, inclusive o câncer.

O relatório conclui que as autoridades precisam garantir o direito à terra para os povos tradicionais e promover políticas de incentivo à agroecologia e à soberania alimentar.


[1] A Rede Social de Justiça e Direitos Humanos foi criada em 1999 com o objetivo de articular organizações e movimentos sociais no Brasil para defender o direito à terra, alimentação, agroecologia, biodiversidade, justiça social e ambiental. Ela engloba cerca de 250 organizações, movimentos sociais e universidades.

[2] ONG que atua na área socioambiental, visando o desmatamento zero nos habitats naturais do Brasil.

[3] Fundada em 1972 no Reino Unido, a ActionAid é uma ONG internacional sediada atualmente na África do Sul. A organização trabalha por justiça social, equidade de gênero e étnico-racial e pelo fim da pobreza. Ela está presente em 75 países e alcança mais de 32 milhões de pessoas no mundo. A ONG se estabeleceu no Brasil em 1999. Ela atua em 2.400 comunidades de 13 estados em parceria com 18 iniciativas de educação antirracista, agroecologia e clima, direitos de mulheres e meninas, resposta humanitária e participação democrática.

[4] Fundada em 1977, a SLC Agrícola é uma das maiores produtoras de commodities agrícolas do país. Possui cerca de 733 mil hectares de área plantada em 23 unidades de produção localizadas em sete estados brasileiros, na região do Cerrado, e matriz em Porto Alegre (RS). Produz algodão, milho e soja e se dedica à criação de gado no modelo integração lavoura-pecuária (ILP). Também produz e comercializa sementes de soja e algodão sob a marca SLC Sementes. Fonte: https://www.slcagricola.com.br/quem-somos/ . Visto em 13/11/2025


Legenda da foto principal: Fazenda desmatada para plantação de soja e algodão. Crédito: Thomas Bauer

 

 

Vozes da Terra na COP 30: Campanha em Defesa do Cerrado, Articulação Agro é Fogo e Comissão Pastoral da Terra marcam presença em Belém (PA)

Programação das entidades será aberta ao público e acontece entre os dias 11 e 15 de novembro na capital paraense

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Em meio à crise climática e à alarmante aposta em falsas soluções de mercado travestidas de ações em prol do clima e meio ambiente, povos indígenas e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas continuam sendo os menos ouvidos nos espaços de debate sobre o futuro do planeta. Paradoxalmente, são estes povos os mais impactados pelos grandes empreendimentos e pelo processo de devastação ambiental que avança sobre seus territórios e destrói a nossa sociobiodiversidade.

Na COP 30, que acontece de 10 a 21 de novembro de 2025 em Belém (PA), esse cenário tende a se repetir. Para confrontar essa exclusão e disputar espaços e narrativas, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, a Articulação Agro é Fogo e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) marcam presença em terras paraenses promovendo uma intensa programação de atividades abertas ao público em diversos espaços organizados pela sociedade civil, como a Cúpula dos Povos, a Casa COP do Povo e a Casa do Jornalismo Socioambiental.

Incêndios criminosos, crise hídrica, desmatamento e violência no campo são alguns dos temas que irão pautar as rodas de conversa e mesas de debate que fazem parte da lista de atividades. Os espaços contarão com a participação de representantes de povos e comunidades tradicionais das regiões do Cerrado e da Amazônia, além de pesquisadores, agentes pastorais e integrantes das entidades.

Confira a programação completa:

10 de novembro

→ 8h30 ao 12h

Exposição “Presença e Resistência: Acervo da Comissão Pastoral da Terra”

Local: Casa COP do Povo

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Organização: UFPA, CPT

11 de novembro

→ 8h30 às 10h

Lançamento do manual de prevenção e combate a incêndios elaborado pelas brigadas comunitárias de combate aos incêndios do Cerrado

Local: Casa COP do Povo

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realização: Articulação Agro é Fogo (Atividade da programação da COP do Povo)

→ 8h30 às 10h

Roda de Conversa sobre Trabalho Escravo e Mudanças Climáticas

Local: Sala 01, Térreo

Organização: CPT

→ 14h às 16h

Roda de Conversa “Eco-Genocídio em pauta: No rastro do fogo e da seca no Cerrado, Amazônia e Pantanal”

Local: Casa do Jornalismo Socioambiental 

Endereço: Casa Carmina – Rua Arcipreste Manoel Teodoro, 864, próximo à Praça da República – Belém (PA)

Realização: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado (Atividade da programação da Casa do Jornalismo Socioambiental)

12 de novembro

→ 8h00 às 10h

Apresentação dos Dados Parciais de Conflitos no Campo 2025

Local: Centro Alternativo de Cultura, Aud. São Luís Gonzaga. 1º andar do Centro Santo Inácio – Prédio anexo à Capela de Lourdes.

Organização: CPT-PA

→ 8h30 às 10h

Mesa de debate: COP 30 na Amazônia: Caminhos para proteção de territórios e enfrentamento às mudanças do clima

Local: Casa COP do Povo – Área externa coberta (Térreo)

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realização: Articulação Agro é Fogo, Rede MTI, FGVCES, GEMTI/COIAB e Coalização Florestas e Finanças (Atividade da programação da COP do Povo)

*Haverá transmissão online: bit.ly/cop30-amz 

→ 13h30 às 15h

Oficina e debate sobre a Cartografia das águas mortas do Oeste da Bahia

Local: Casa COP do Povo 

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realização: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado (Atividade da programação da COP do Povo)

13 de novembro

→ 8h às 18h

Participação no Tribunal dos Povos com apresentação de um caso representativo das comunidades TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) e Quilombo Grotão (TO)

Local: Ministério Público Federal

Endereço: Auditório – Ministério Público Federal, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Realização: COP do Povo

Participação: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

14/11

→ 8h às 14h30

Participação no Tribunal dos Povos com apresentação de caso representativo das comunidades TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) e Quilombo Grotão (TO)

Local: Ministério Público Federal

Endereço: Auditório – Ministério Público Federal, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Realização: COP do Povo

Participação: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

14 e 15 de novembro

→ 14h às 16h

Participação na programação da Cúpula dos Povos (atividades no Eixo 1)*

Local: Cúpula dos Povos – Universidade Federal do Pará (UFPA)

Endereço: R. Augusto Corrêa, 01 – Guamá, Belém (PA)

→ Roda de Conversa “Crise climática e injustiça hídrica: alternativas para enfrentar o desmatamento, os incêndios e a morte das águas” (Enlace 2)

Realização: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado + FASE + MapBiomas + Ibon International

→ Mesa “Alimentando a vida: povos tradicionais lutando pela soberania climática e segurança alimentar” (Enlace 18) 

Realização: Articulação Agro é Fogo, Rede das Águas de Coari e MPA

*As atividades na Cúpula dos Povos acontecerão nos dias 14 e 15/11, entre 14h e 16h. Assim que a confirmação do dia e horário exatos da atividade forem disponibilizadas pela organização do evento, atualizaremos essa notícia.

20 de novembro

→ 8h30 às 12h45

Exposição “Presença e Resistência: Acervo da Comissão Pastoral da Terra”

Local: Sala 01, Térreo

Organização: UFPA, CPT

→ 10h15 às 12h45

Lançamento do Livro: Assassinatos e Impunidade no Campo no Pará

Local: Área externa coberta – Térreo

Organização: José Batista Afonso,Professor Airton Pereira, CPT de Marabá e Regional Belém

21 de novembro

→ 18h15 às 21h15

Lançamento do Documentário “Antonina: Negra de Sangue Revoltoso”

Local: Área externa coberta – Térreo

Organização: UFPA, CPT


Mais informações:

Articulação Agro é Fogo – agroefogo@gmail.com

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado – comunicacerrado@gmail.com

Comissão Pastoral da Terra (CPT) – comunicacaocpt@gmail.com 

Desde el corazón de Brasil al mundo: durante la COP 30, campaña denuncia la crisis socioambiental que enfrentan los pueblos del Cerrado

 ¿Alguna vez ha imaginado un futuro en el que el agua sea un artículo de lujo, un recuerdo de un pasado lejano? ¿Un escenario en el que incluso el agua para saciar nuestra sed tenga que racionarse?

 Esta es una preocupación constante para la Campaña Nacional en Defensa del Cerrado. Por eso, dedicamos nuestros esfuerzos a la protección de las aguas, los territorios y las vidas de los pueblos indígenas y las comunidades tradicionales que habitan el Cerrado brasileño.

 Conocido como la “cuna de las aguas” de Brasil, el Cerrado es crucial para la supervivencia de nuestra sociedad, ya que abastece a 8 de las 12 cuencas hidrográficas del país y mantiene una profunda conexión con otras regiones ecológicas. Las lluvias del Amazonas, por ejemplo, están intrínsecamente ligadas a la capacidad de almacenamiento de agua del Cerrado.

 Sin embargo, en las últimas cuatro décadas, el 91 % de las cuencas hidrográficas de esta ecorregión han sufrido una disminución de su superficie de agua natural. Esta pérdida repercute directamente en la disponibilidad de agua, intensificando la escasez en más de 300 municipios brasileños.

 Es urgente reconocer que el Cerrado está inmerso en un proceso de ecogenocidio, que no solo diezma su sociobiodiversidad y agota sus ríos y manantiales, sino que también amenaza, expulsa y victimiza a los pueblos y comunidades tradicionales que residen en él.

En 2024, la región volvió a encabezar el ranking de deforestación en Brasil, con una pérdida de 652 197 hectáreas, más de la mitad del total nacional. De esta superficie, el 75 % de la devastación se concentró en Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí y Bahía).

Y quienes viven con los pies en la tierra del Cerrado saben que esta destrucción está directamente relacionada con el cambio climático.

Los principales responsables de esta devastación son las empresas nacionales e internacionales que operan en los sectores de la agroindustria, la minería y la explotación de recursos naturales, además de los Estados extranjeros y el propio Estado brasileño. Paradójicamente, todos estos actores están presentes en la COP 30, promoviendo discursos sobre un supuesto desarrollo sostenible y falsas «soluciones verdes».

En medio de la crisis climática y la alarmante apuesta por falsas soluciones de mercado disfrazadas de acciones en favor del clima y el medio ambiente, los pueblos indígenas y las comunidades tradicionales del campo, las aguas y los bosques siguen siendo los menos escuchados en los espacios de debate sobre el futuro del planeta. Paradójicamente, son estos pueblos los más afectados por los grandes proyectos y por el proceso de devastación ambiental que avanza sobre sus territorios y destruye nuestra sociobiodiversidad.

Los incendios provocados, la crisis hídrica, la deforestación y la violencia en el campo son algunos de los temas que se tratarán en las rondas de conversación y mesas de debate que forman parte de la lista de actividades. En estos espacios participarán representantes de pueblos y comunidades tradicionales de las regiones del Cerrado y la Amazonia, además de investigadores, agentes pastorales y miembros de las entidades.

Consulte la programación completa:

11/11

→ 8:30 a 10:00

Lanzamiento del manual de prevención y combate de incendios elaborado por las brigadas comunitarias de combate a incendios del Cerrado.

Lugar: Casa COP do Povo.

Dirección: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA).

Organización: Articulação Agro é Fogo (Actividad del programa de la COP del Pueblo)

→ 14:00 a 16:00

Ronda de conversaciones «El ecogenocidio en la agenda: Tras el rastro del fuego y la sequía en el Cerrado, la Amazonia y el Pantanal»

Lugar: Casa del Periodismo Socioambiental

Dirección: Casa Carmina – Rua Arcipreste Manoel Teodoro, 864, cerca de la Praça da República – Belém (PA)

Organización: Articulação Agro é Fogo + Campaña Nacional en Defensa del Cerrado (Actividad del programa de la Casa del Periodismo Socioambiental)

12/11

→ 8:00 a 10:00 h.

Presentación de los datos parciales sobre conflictos en el campo 2025.

Lugar: Centro Alternativo de Cultura, Auditorio São Luís Gonzaga. 1.ª planta del Centro Santo Inácio, edificio anexo a la Capilla de Lourdes.

Organización: CPT-PA

→ 8:30 a 10:00 

Mesa redonda: COP 30 en la Amazonía: Caminos para la protección de los territorios y la lucha contra el cambio climático.

Lugar: Casa COP del Pueblo – Área exterior cubierta (planta baja)

Dirección: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realización: Articulação Agro é Fogo, Rede MTI, FGVCES, GEMTI/COIAB y Coalición Bosques y Finanzas (Actividad del programa de la COP del Pueblo)

*Habrá transmisión en línea: bit.ly/cop30-amz

→ 13:30 a 15:00

Taller y debate sobre la cartografía de las aguas muertas del oeste de Bahía

Lugar: Casa COP del Pueblo

Dirección: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Organización: Campaña Nacional en Defensa del Cerrado (Actividad del programa de la COP del Pueblo)

13/11

→ 8:00 a 18:00 

Participación en el Tribunal de los Pueblos con la presentación de un caso representativo de las comunidades TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) y Quilombo Grotão (TO)

Lugar: Ministerio Público Federal

Dirección: Auditorio – Ministerio Público Federal, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Organización: COP do Povo

Participación: Articulação Agro é Fogo + Campaña Nacional en Defensa del Cerrado

14/11

→ 8:00 a 14:30

Participación en el Tribunal de los Pueblos con la presentación de un caso representativo de las comunidades TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) y Quilombo Grotão (TO)

Lugar: Ministerio Público Federal

Dirección: Auditorio – Ministerio Público Federal, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Organización: COP do Povo (COP del Pueblo)

Participación: Articulação Agro é Fogo (Articulación Agro es Fuego) + Campaña Nacional en Defensa del Cerrado

14/11 y 15/11

→ 14:00 a 16:00 

Participación en la programación de la Cumbre de los Pueblos (actividades del Eje 1)*

Lugar: Cumbre de los Pueblos – Universidad Federal de Pará (UFPA).

Dirección: R. Augusto Corrêa, 01 – Guamá, Belém (PA)

→ Ronda de conversaciones «Crisis climática e injusticia hídrica: alternativas para hacer frente a la deforestación, los incendios y la muerte de las aguas» (Enlace 2)

Organización: Articulação Agro é Fogo + Campaña Nacional en Defensa del Cerrado + FASE + MapBiomas + Ibon International

→ Mesa “Alimentando la vida: pueblos tradicionales luchando por la soberanía climática y la seguridad alimentaria” (Enlace 18)

Organización: Articulação Agro é Fogo, Rede das Águas de Coari y MPA

*Las actividades de la Cumbre de los Pueblos tendrán lugar los días 14 y 15 de noviembre, entre las 14:00 y las 16:00 horas. Tan pronto como la organización del evento confirme la fecha y la hora exactas de la actividad, actualizaremos esta noticia.


Más información:

comunicacerrado@gmail.com – 55 11 99985 0378 (Bruno)

 

 

 

From the heart of Brazil to the world: During COP 30, campaign denounces the socio-environmental crisis facing the peoples of the Cerrado

Have you ever imagined a future where water is a luxury item, a memory of a distant past? A scenario where even the water to quench our thirst needs to be rationed?

This is a constant concern for the National Campaign in Defense of the Cerrado. That is why we dedicate our efforts to protecting the waters, territories, and lives of the indigenous peoples and traditional communities that inhabit the Brazilian Cerrado.

Known as the “cradle of waters” of Brazil, the Cerrado is crucial to the survival of our society, supplying 8 of the country’s 12 river basins and maintaining a deep connection with other ecological regions. Rainfall in the Amazon, for example, is intrinsically linked to the Cerrado’s water storage capacity.

However, over the last four decades, 91% of the watersheds in this ecoregion have suffered a decrease in their natural water surface area. This loss directly impacts water availability, intensifying shortages in more than 300 Brazilian municipalities.

It is urgent to recognize that the Cerrado is immersed in a process of ecocide, which not only decimates its socio-biodiversity and exhausts its rivers and springs, but also threatens, expels, and victimizes the traditional peoples and communities that reside there.

In 2024, the region once again topped Brazil’s deforestation rankings, losing 652,197 hectares—more than half of the national total. Of this amount, 75% of the devastation was concentrated in Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí, and Bahia).

And those who live with their feet on the ground in the Cerrado know that this destruction is directly related to climate change.

The main culprits responsible for this devastation are national and international companies operating in agribusiness, mining, and natural resource exploitation, as well as foreign states and the Brazilian state itself. Paradoxically, all of these actors are present at COP 30, promoting discourses of supposed sustainable development and false “green solutions.”

Amid the climate crisis and the alarming reliance on false market solutions disguised as actions in favor of the climate and the environment, indigenous peoples and traditional communities from the countryside, waters, and forests continue to be the least heard in debates about the future of the planet. Paradoxically, these are the peoples most impacted by large-scale projects and the process of environmental devastation that is advancing on their territories and destroying our socio-biodiversity.

At COP 30, which will take place from November 10 to 21, 2025, in Belém (PA), this scenario of invisibility is likely to repeat itself. To confront this exclusion and compete for space and narratives, the National Campaign in Defense of the Cerrado will be present in Pará, promoting an intense program of activities open to the public in various spaces organized by civil society, such as the People’s Summit, the People’s COP House, and the House of Socio-Environmental Journalism.

Arson, water crisis, deforestation, and violence in rural areas are some of the topics that will be discussed in the conversation circles and debate tables that are part of the list of activities. The spaces will feature the participation of representatives of traditional peoples and communities from the Cerrado and Amazon regions, as well as researchers, pastoral agents, and members of the entities.

Check out the complete schedule:

11/11

→ 8:30 a.m. to 10 a.m.

Launch of the fire prevention and fighting manual prepared by the Cerrado community firefighting brigades.

Location: Casa COP do Povo (People’s COP House)

Address: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Organized by: Articulação Agro é Fogo (Activity of the COP do Povo program)

→ 2:00 p.m. to 4:00 p.m.

Roundtable discussion “Eco-Genocide on the agenda: In the wake of fire and drought in the Cerrado, Amazon, and Pantanal”

Location: Casa do Jornalismo Socioambiental (House of Socio-Environmental Journalism)

Address: Casa Carmina – Rua Arcipreste Manoel Teodoro, 864, near Praça da República – Belém (PA)

Organized by: Articulação Agro é Fogo + National Campaign in Defense of the Cerrado (Activity included in the Casa do Jornalismo Socioambiental program)

12/11

→ 8:00 a.m. to 10:00 a.m.

Presentation of Partial Data on Conflicts in the Countryside 2025

Location: Alternative Culture Center, São Luís Gonzaga Auditorium. 1st floor of the Santo Inácio Center – Building adjacent to the Lourdes Chapel.

Organization: CPT-PA

→ 8:30 a.m. to 10:00 a.m.

Panel discussion: COP 30 in the Amazon: Paths to protecting territories and tackling climate change

Location: Casa COP do Povo – Covered outdoor area (Ground floor)

Address: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Organized by: Articulação Agro é Fogo, Rede MTI, FGVCES, GEMTI/COIAB, and Coalizão Florestas e Finanças (Activity from the People’s COP program)

*There will be an online broadcast: bit.ly/cop30-amz 

→ 1:30 p.m. to 3 p.m.

Workshop and debate on the Cartography of Dead Waters in Western Bahia

Location: People’s COP House

Address: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Organized by: National Campaign in Defense of the Cerrado (People’s COP program activity)

13/11

→ 8am to 6pm

Participation in the People’s Tribunal with presentation of a case representing the Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI), and Quilombo Grotão (TO) indigenous communities

Location: Federal Public Prosecutor’s Office

Address: Auditorium – Federal Public Prosecutor’s Office, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Organized by: COP do Povo

Participation: Articulação Agro é Fogo + National Campaign in Defense of the Cerrado

14/11

→ 8am to 2:30pm

Participation in the People’s Tribunal with presentation of a case representing the communities of TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) and Quilombo Grotão (TO)

Location: Federal Public Prosecutor’s Office

Address: Auditorium – Federal Public Prosecutor’s Office, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Organized by: COP do Povo

Participation: Articulação Agro é Fogo + National Campaign in Defense of the Cerrado

November 14 and 15

→ 2:00 p.m. to 4:00 p.m.

Participation in the Cúpula dos Povos (activities in Axis 1)*

Location: Cúpula dos Povos – Federal University of Pará (UFPA)

Address: R. Augusto Corrêa, 01 – Guamá, Belém (PA)

→ Roundtable Discussion “Climate crisis and water injustice: alternatives to tackle deforestation, fires, and the death of waters” (Link 2)

Organized by: Articulação Agro é Fogo + National Campaign in Defense of the Cerrado + FASE + MapBiomas + Ibon International

→ Panel “Feeding life: traditional peoples fighting for climate sovereignty and food security” (Link 18)

Organized by: Articulação Agro é Fogo, Rede das Águas de Coari, and MPA

*The activities at the People’s Summit will take place on November 14 and 15, between 2:00 p.m. and 4:00 p.m. As soon as the exact date and time of the activity are confirmed by the event organizers, we will update this news item.


More information:

comunicacerrado@gmail.com – 11 99985 0378 (Bruno)

 

 

 

 

Do coração do Brasil para o mundo: Durante COP 30, Campanha denuncia crise socioambiental que enfrentam os povos do Cerrado

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Você já imaginou um futuro onde a água seja um artigo de luxo, uma lembrança de um passado distante? Um cenário onde até a água para saciar a nossa sede precisa ser racionada?

Essa é uma preocupação constante para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Por isso, dedicamos nossos esforços à proteção das águas, dos territórios e das vidas dos povos indígenas e comunidades tradicionais que habitam o Cerrado brasileiro.

Conhecido como o “berço das águas” do Brasil, o Cerrado é crucial para a sobrevivência de nossa sociedade, abastecendo 8 das 12 bacias hidrográficas do país e mantendo uma profunda conexão com outras regiões ecológicas. As chuvas da Amazônia, por exemplo, estão intrinsecamente ligadas à capacidade de armazenamento de água no Cerrado.

No entanto, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias hidrográficas dessa ecorregião sofreram uma diminuição em sua superfície de água natural. Essa perda impacta diretamente a disponibilidade hídrica, intensificando a escassez em mais de 300 municípios brasileiros.

É urgente reconhecer que o Cerrado está imerso em um processo de Ecogenocídio, que não só dizima sua sociobiodiversidade e exaure seus rios e nascentes, mas também ameaça, expulsa e vitima povos e comunidades tradicionais que nele residem.

Em 2024, a região novamente liderou o ranking de desmatamento no Brasil, perdendo 652.197 hectares – mais da metade do total nacional. Desse montante, 75% da devastação concentrou-se no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

E quem vive com os pés no chão do Cerrado sabe que essa destruição tem relação direta com as mudanças climáticas. 

Os principais responsáveis por essa devastação são empresas nacionais e internacionais atuantes no agronegócio, mineração e exploração de recursos naturais, além de estados estrangeiros e o próprio estado brasileiro. Paradoxalmente, todos esses atores marcam presença na COP 30, promovendo discursos de um suposto desenvolvimento sustentável e de falsas “soluções verdes”.

Em meio à crise climática e à alarmante aposta em falsas soluções de mercado travestidas de ações em prol do clima e meio ambiente, povos indígenas e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas continuam sendo os menos ouvidos nos espaços de debate sobre o futuro do planeta. Paradoxalmente, são estes povos os mais impactados pelos grandes empreendimentos e pelo processo de devastação ambiental que avança sobre seus territórios e destrói a nossa sociobiodiversidade.

Na COP 30, que acontece de 10 a 21 de novembro de 2025 em Belém (PA), esse cenário de invisibilidade tende a se repetir. Para confrontar essa exclusão e disputar espaços e narrativas, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado marca presença em terras paraenses promovendo uma intensa programação de atividades abertas ao público em diversos espaços organizados pela sociedade civil, como a Cúpula dos Povos, a Casa COP do Povo e a Casa do Jornalismo Socioambiental.

Incêndios criminosos, crise hídrica, desmatamento e violência no campo são alguns dos temas que irão pautar as rodas de conversa e mesas de debate que fazem parte da lista de atividades. Os espaços contarão com a participação de representantes de povos e comunidades tradicionais das regiões do Cerrado e da Amazônia, além de pesquisadores, agentes pastorais e integrantes das entidades.

Confira a programação completa:

11/11

→ 8h30 às 10h

Lançamento do manual de prevenção e combate a incêndios elaborado pelas brigadas comunitárias de combate aos incêndios do Cerrado

Local: Casa COP do Povo

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realização: Articulação Agro é Fogo (Atividade da programação da COP do Povo)

→ 14h às 16h

Roda de Conversa “Eco-Genocídio em pauta: No rastro do fogo e da seca no Cerrado, Amazônia e Pantanal”

Local: Casa do Jornalismo Socioambiental 

Endereço: Casa Carmina – Rua Arcipreste Manoel Teodoro, 864, próximo à Praça da República – Belém (PA)

Realização: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado (Atividade da programação da Casa do Jornalismo Socioambiental)

12/11

→ 8h00 às 10h

Apresentação dos Dados Parciais de Conflitos no Campo 2025

Local: Centro Alternativo de Cultura, Aud. São Luís Gonzaga. 1º andar do Centro Santo Inácio – Prédio anexo à Capela de Lourdes.

Organização: CPT-PA

→ 8h30 às 10h

Mesa de debate: COP 30 na Amazônia: Caminhos para proteção de territórios e enfrentamento às mudanças do clima

Local: Casa COP do Povo – Área externa coberta (Térreo)

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realização: Articulação Agro é Fogo, Rede MTI, FGVCES, GEMTI/COIAB e Coalização Florestas e Finanças (Atividade da programação da COP do Povo)

*Haverá transmissão online: bit.ly/cop30-amz 

→ 13h30 às 15h

Oficina e debate sobre a Cartografia das águas mortas do Oeste da Bahia 

Local: Casa COP do Povo 

Endereço: Travessa Piedade, 426, 66053-210, Reduto – Belém (PA)

Realização: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado (Atividade da programação da COP do Povo)

13/11

→ 8h às 18h

Participação no Tribunal dos Povos com apresentação de um caso representativo das comunidades TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) e Quilombo Grotão (TO)

Local: Ministério Público Federal

Endereço: Auditório – Ministério Público Federal, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Realização: COP do Povo

Participação: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

14/11

→ 8h às 14h30

Participação no Tribunal dos Povos com apresentação de caso representativo das comunidades TI Karipuna (RO), Barra da Lagoa (PI) e Quilombo Grotão (TO)

Local: Ministério Público Federal

Endereço: Auditório – Ministério Público Federal, R. Domingos Marreiros, 690 – Umarizal, Belém (PA)

Realização: COP do Povo

Participação: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

14/11 e 15/11

→ 14h às 16h

Participação na programação da Cúpula dos Povos (atividades no Eixo 1)*

Local: Cúpula dos Povos – Universidade Federal do Pará (UFPA)

Endereço: R. Augusto Corrêa, 01 – Guamá, Belém (PA)

→ Roda de Conversa “Crise climática e injustiça hídrica: alternativas para enfrentar o desmatamento, os incêndios e a morte das águas” (Enlace 2)

Realização: Articulação Agro é Fogo + Campanha Nacional em Defesa do Cerrado + FASE + MapBiomas + Ibon International

→ Mesa “Alimentando a vida: povos tradicionais lutando pela soberania climática e segurança alimentar” (Enlace 18) 

Realização: Articulação Agro é Fogo, Rede das Águas de Coari e MPA

*As atividades na Cúpula dos Povos acontecerão nos dias 14 e 15/11, entre 14h e 16h. Assim que a confirmação do dia e horário exatos da atividade forem disponibilizadas pela organização do evento, atualizaremos essa notícia.


 Mais informações:

comunicacerrado@gmail.com – 11 99985 0378 (Bruno) 

 

Guia didático que convoca a sociedade a “redescobrir os Cerrados” será lançado no Dia dos Professores (15)

Material pedagógico da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado será disponibilizado gratuitamente no site campanhacerrado.org.br

No próximo dia 15 de outubro, em sintonia com o Dia dos Professores, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança o livro educativo “Trieiro de Saberes dos Cerrados – Um Guia Didático sobre o Cerrado e seus povos”. A obra chega com o objetivo de subsidiar pedagogicamente professores e educadores para trabalhar temas relacionados ao Cerrado e seus povos em escolas e espaços formativos da educação formal e não formal.

O material educativo, que será disponibilizado gratuitamente para download no site da Campanha em Defesa do Cerrado a partir do dia 15, convoca professores e educadores para “redescobrir os Cerrados no século XXI”, apresentando uma abordagem integral sobre a região. 

De acordo com a publicação, o “guia nasce da necessidade de olhar para o Cerrado não apenas como território de recursos”, propondo uma compreensão que conecta saberes e modos de vida tradicionais, territorialidades e aspectos socioambientais do ecossistema cerratense.

A edição impressa do livro será lançada oficialmente no dia seguinte, em 16 de outubro, às 14h (horário de Brasília), durante o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), que acontece na Universidade Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) em Juazeiro (BA). A Mesa de lançamento ocorre na Tenda Rachel Carson.

O guia apresenta cinco trieiros temáticos, que se configuram como caminhos pedagógicos a serem percorridos por educadores e educandos. O livro reúne textos inéditos, subsídios teóricos, indicações de materiais para estudos em uma vasta bibliografia, além de exercícios práticos que nos convocam a colocar as “mãos na massa” para absorver os conteúdos. 

Nesta primeira edição do Trieiro de Saberes dos Cerrados, os temas abordados incluem uma abordagem sobre a conformação histórica e socioambiental do Cerrado, de sua sociobiodiversidade, de suas águas e do modo como a região é retratada pela mídia. O livro também conta com um glossário da diversidade de povos e comunidades tradicionais do bioma.

Redescobrir e defender os Cerrados e seus povos

Em 2024, segundo o Relatório Anual do MapBiomas, o Cerrado liderou o ranking de desmatamento no país, com 652.197 hectares devastados, mais da metade do total nacional. A região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) concentrou 75% dessas perdas, afetando diretamente territórios indígenas e quilombolas, que viram sua vegetação nativa desaparecer e suas formas de vida tradicionais ameaçadas.

Essa degradação também compromete as bacias hidrográficas que abastecem grande parte do Brasil. Ainda de acordo com o MapBiomas, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias do Cerrado perderam superfície de água natural, agravando a escassez hídrica em mais de 300 municípios do país.

Amone Inácia Alves, doutora em Educação e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), é uma das autoras e coordenadoras da publicação. Diante do cenário de devastação do Cerrado, a docente explica que o projeto do Trieiro de Saberes é uma construção coletiva, feita a muitas mãos, com viés educativo e propósito social e transformador.

“O Trieiro busca educar as pessoas para que compreendam a necessidade de defender o Cerrado e as pessoas que aqui vivem. Tem uma finalidade bem definida: mostrar que há outros modos de vida, saberes e práticas além do agronegócio, do urbanocentrismo e do consumo destruidor”, destaca a professora.

“Pretendemos levar o debate para os educadores para que empreendam essa luta de defesa do Cerrado e das suas gentes! Desejo que o nosso material colabore com a conscientização e que tenhamos próximas gerações menos consumistas e mais defensoras do lugar onde vivemos!”, enfatiza a educadora.


Serviço: Lançamento do Trieiro de Saberes dos Cerrados – Um Guia Didático sobre o Cerrado e seus povos

Versão digital:  

15/10, a partir das 7h (horário de Brasília), no site campanhacerrador.org.br

Edição impressa: 

Mesa de Lançamento durante o Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA)

16/10, às 14h (horário de Brasília), na Tenda Rachel Carson

Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) – Juazeiro, BA

Mais informações: comunicacerrado@gmail.com | 11 99985 0378 (Bruno)

 

Dossiê Terra e Território no Cerrado

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A apropriação privada da terra quiçá seja a exclusão originária de todas as exclusões, em um país por elas tão marcado. Apropriar-se e, a partir desse ato, privar os outros do acesso à terra constitui-se, ao mesmo tempo, na principal forma de demarcar quais os seus usos sancionados (exploração monocultural) e os sujeitos legitimados ao direito de sua posse e propriedade (homens, brancos, das elites). Contar a história do Eco-Genocídio do Cerrado a partir desse fio condutor, revelando a persistente r-existência das territorialidades tradicionais, é o objetivo deste Dossiê Terra e Território no Cerrado.

Lembramos os ensinamentos de nosso amigo e mestre Carlos Walter Porto- -Gonçalves, naquilo que chamou de tríade relacional território-territorialidade- -territorialização. A apropriação material e simbólica do espaço geográfico por povos e grupos sociais equivale a seu processo de territorialização, por meio do qual se desenvolvem identidades (territorialidades) dinâmicas, resultando em seu território, como condição de sua r-existência.

Deriva disso o entendimento, desenvolvido pela Campanha em Defesa do Cerrado no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos, de que o Ecocídio do Cerrado – que inviabiliza as bases da (re)produção social dos povos cerradeiros (seus territórios) como povos culturalmente diferenciados (com territorialidades próprias) – consiste, intrinsecamente, em seu Genocídio.

Os povos indígenas Guarani e Kaiowá sabem essa verdade profundamente. Nas diversas retomadas de seu território ancestral, frequentemente invadido, um de seus primeiros atos é o cultivo do milho saboró branco, alimento sagrado ancestral, demarcando sua reapropriação material e simbólica pelo povo. Cabe ao Estado reconhecer o território que o povo demarcou e demarca cotidianamente por meio de suas territorialidades. Em encontro recente, lideranças Guarani e Kaiowá diziam: “Peço a vocês pra fazer o papel falar”. Esperamos que este papel, que apresentamos em formato de dossiê, fale longe e alcance interlocutores atentos.

CLIQUE AQUI PARA ACESSAR O DOSSIÊ TERRA E TERRITÓRIO NO CERRADO

 

Dia Nacional do Cerrado: Campanha lança Dossiê inédito, Podcast protagonizado por mulheres e integra programação do XI Encontro e Feira dos Povos

Dossiê Terra e Território no Cerrado será disponibilizado gratuitamente para download no site da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado no sábado (13) a partir das 8h

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A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado celebra o Dia Nacional da região ecológica, comemorado em 11 de setembro, com uma programação especial que se estende de quarta-feira (11) a sábado (13), em Brasília (DF).

Entre as atividades, destacam-se o lançamento do Dossiê Terra e Território no Cerrado, no dia 13 de setembro, às 10h30, na Funarte, durante o XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, promovido pela Rede Cerrado, e a estreia da série especial do podcast Guilhotina, intitulada “Mulheres do Cerrado: diálogos sobre clima e sistemas alimentares”, realizada em parceria com o Le Monde Diplomatique Brasil, com a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e com a Articulação das Mulheres do Cerrado.

A Campanha também promoverá, dentro da programação do XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, a atividade “Vidas, Raízes e Rios: Terra, Território e Águas do Cerrado”, no dia 13, das 10h30 às 12h, que marcará oficialmente o lançamento do Dossiê e contará com a presença da jurista e ex-Procuradora Geral da República Deborah Duprat, além de pesquisadores e representantes de povos e comunidades tradicionais do Cerrado. 

Ainda no mesmo evento, participará da mesa “Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro e a atual conjuntura política”, das 14h às 15h30, apresentando dados recentes sobre violências e conflitos no campo que impactam comunidades do Cerrado, e contará com uma barraca na Feira da Sociobiodiversidade, que estará disponível no evento de 10 a 13/09, das 16h às 22h.

Dossiê Terra e Território no Cerrado

Parte da série Eco-Genocídio no Cerrado, o Dossiê foi elaborado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado a partir de denúncias e dados levantados durante o Tribunal dos Povos do Cerrado – tribuna popular realizada entre 2021 e 2022, e protagonizada por povos indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais e entidades da região.

Na Audiência Final do Tribunal, em setembro de 2022, uma coalizão formada por mais de 60 organizações, movimentos e representantes do Cerrado alertou durante a acusação que se nada fosse feito, o bioma estaria a caminho de um ecocídio irreversível e, junto com ele, do genocídio de seus povos.

Três anos depois, o Dossiê Terra e Território reforça esse clamor ao revelar o estado crítico em que se encontra o Cerrado – conhecido como Berço das Águas do Brasil por alimentar as principais bacias hidrográficas do país, mas que já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa para o desmatamento.

A jurista Deborah Duprat, que integrou o Júri multidisciplinar do Tribunal do Cerrado, ressaltou a relevância dos dados sistematizados na publicação. “O júri ficou especialmente surpreendido com a quantidade e qualidade das informações reunidas pela Campanha, muitas delas sequer disponíveis em bases públicas, e que permitiram enxergar com nitidez o quadro de desmonte de conquistas sociais históricas traduzidas na Constituição de 1988”, afirmou. 

Entre os retrocessos destacados pela jurista estão a ausência de políticas efetivas para identificação e titulação de terras indígenas, quilombolas e de povos e comunidades tradicionais; o desmonte da política de reforma agrária; a fragilização da política ambiental que deveria monitorar o desmatamento; e o uso abusivo e sem controle de agrotóxicos. Para Duprat, a obra “representa a batalha, a um só tempo política, epistemológica e simbólica, travada em favor do Cerrado e de seus povos”.

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Serviço:

→ Lançamento do Dossiê Terra e Território no Cerrado – Mesa “Vidas, Raízes e Rios: Terra, Território e Águas do Cerrado” (Tenda Veredas)

Local: XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado – Funarte, Brasília (DF) 

Data: 13/09, sexta-feira | Horário: 10h30

Será disponibilizado gratuitamente para download no site campanhacerrado.org.br 

→ Mesa “Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro e a atual conjuntura política” (Tenda Veredas)

Local: XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado – Funarte, Brasília (DF) 

Data: 13/09, sábado | Horário: 14h às 15h30

→ Feira da Sociobiodiversidade – Venda de produtos e exposição de materiais 

Local: XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado – Funarte, Brasília (DF) 

Data: 10 a 13/09 | Horário: das 16h às 22h

→ Série especial do Podcast Guilhotina – “Mulheres do Cerrado: diálogos sobre clima e sistemas alimentares”

Realização: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Le Monde Diplomatique Brasil, CESE e Articulação das Mulheres do Cerrado

Disponível a partir de 11/09 nos principais tocadores de podcast

Atendimento à imprensa: Bruno Santiago | comunicacerrado@gmail.com | 011 99985-0378

 

Cerrado em chamas: Quilombo Grotão luta contra incêndio há 5 dias; COEQTO e CPT cobram ação das autoridades

Contatos foram feitos com o Naturatins, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, mas nenhuma ação concreta foi tomada. Chamas seguem ativas, ameaçando moradias, roçados e áreas de vegetação nativa

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Texto e informações: CPT – Regional Araguaia-Tocantins e COEQTO

A Comunidade Quilombola Grotão, localizada na zona rural de Filadélfia (TO), enfrenta há cinco dias incêndios que tiveram início no dia 1º de setembro. O fogo teria começado após a queda de um fio da rede elétrica que atravessa a região. Até hoje, as chamas seguem ativas, ameaçando moradias, roçados e áreas de vegetação nativa, sem qualquer assistência dos órgãos competentes — situação que causa grande preocupação e prejuízos às famílias quilombolas.

De acordo com os moradores, o incêndio começou quando uma árvore caiu sobre a rede elétrica. Desde então, pelo menos outras três árvores já atingiram a rede, e várias permanecem sob risco de queda devido ao avanço das chamas, agravando ainda mais a situação.

A comunidade denuncia que, há anos, a concessionária responsável não realiza as podas preventivas da vegetação próxima à rede, limitando-se a intervenções emergenciais apenas após acidentes. Animais já sofreram choques e o fornecimento de energia elétrica tem sido constantemente interrompido. Essa negligência, segundo os moradores, explica a rápida propagação do fogo, que só não destruiu casas e plantações graças à mobilização da própria comunidade.

Apesar dos esforços coletivos, focos de incêndio ainda permanecem ativos, colocando em risco tanto o Cerrado quanto as famílias quilombolas. Uma das áreas mais atingidas foi o “Brejo da Maria Viúva”, considerado estratégico por ser fonte de água fundamental para o território. O espaço foi arrasado pelas chamas, comprometendo a biodiversidade e a segurança hídrica da comunidade.

Os moradores também denunciam a ausência de apoio dos órgãos públicos. Contatos foram feitos com o Naturatins, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, mas, até o momento, nenhuma ação concreta foi realizada. Diante da gravidade, a comunidade registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil, buscando garantir a apuração das responsabilidades e providências cabíveis.

“Hoje estamos sozinhos enfrentando o fogo. Estamos fazendo a nossa parte, mas precisamos de apoio imediato antes que a tragédia seja ainda maior”, declarou uma liderança da comunidade. Ela também destacou que muitas famílias quilombolas seguem sem acesso à energia elétrica — um direito já reivindicado há anos. O Programa Luz para Todos ainda não atendeu a comunidade: “o que chegou na nossa porta foi o medo e a destruição causada pelo fogo”, lamentou.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Regional Araguaia-Tocantins, que historicamente acompanha as famílias, e a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) cobram das autoridades competentes medidas urgentes para conter o incêndio, responsabilizar os agentes envolvidos e implementar ações preventivas que evitem novas tragédias.

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado participa do 16º Encontrão da Teia dos Povos no Maranhão

Evento contou com o pré-lançamento do Dossiê Terra e Território no Cerrado, entregue a entidades e representantes de povos e comunidades tradicionais do estado

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Encontrão da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão (Foto: Moquibom)

Entre os dias 20 e 25 de agosto, o Território Indígena Taquaritiua, do povo Akroá Gamella, em Viana (MA), sediou o 16º Encontrão da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão. Com o tema “Retomar Territórios para Tecer o Bem Conviver”, o evento reuniu centenas de pessoas em uma intensa programação de debates, formações e momentos de espiritualidade ancestral.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado esteve presente através da participação de Emília Costa (Moquibom) e Gilderlan Rodrigues (Cimi-MA), da coordenação da Campanha, e de sua secretária executiva, Iarinma de Morais, além de entidades, movimentos e comunidades que integram a iniciativa no Maranhão. O encontro foi marcado pela partilha de experiências e de clamores das lutas dos povos indígenas e comunidades tradicionais por terra, território e pela garantia de seus direitos.

Pré-lançamento do Dossiê Terra e Território no Cerrado

Durante o Encontrão, foi realizado o pré-lançamento do Dossiê Terra e Território no Cerrado. O material será lançado oficialmente em setembro, durante o XI Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, promovido pela Rede Cerrado em Brasília (DF), que marca a Semana do Dia Nacional do Cerrado.

Os participantes do evento em Viana tiveram acesso antecipado a exemplares da primeira tiragem impressa da publicação, que reúne denúncias e análises sistematizadas a partir da Sessão Especial em Defesa dos Territórios do Cerrado, realizada em 2022 pelo Tribunal dos Povos do Cerrado (TPP).

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Vitória Soares e Edmar Alves, da Comunidade Quilombola Cocalinho, de Parnarama (MA), recebem exemplares do Dossiê Terra e Território no Cerrado (Foto: Campanha Cerrado)

O Tribunal dos Povos denunciou o ecocídio do Cerrado e o genocídio de seus povos, condenando o Estado brasileiro, governos estrangeiros e empresas nacionais e transnacionais pelos crimes. São apresentados 15 casos representativos que reúnem graves violações de direitos, três deles ocorridos no Maranhão.

“Nosso trabalho é amplificar as denúncias de violações que atingem povos e comunidades tradicionais do Cerrado. Por isso, viemos apresentar este novo instrumento político: o Dossiê Terra e Território no Cerrado”, afirmou Iarinma durante apresentação do material no evento.

Na denúncia ao Tribunal dos Povos, a Campanha alertou que, sem medidas urgentes para conter a devastação, o Cerrado pode caminhar para uma destruição irreversível — com a extinção da região ecológica e, junto a ela, a base material e cultural que sustenta a vida de povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais.

Após anos de violência, Comunidade ribeirinha em Minas Gerais tem direito ao território adiado mais uma vez 

Pescadores artesanais e vazanteiros que sofrem com violência e criminalização há décadas foram surpreendidos pelo adiamento da entrega do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS)

Por Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)

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Foto: Comunidade Canabrava/MG – CPP

A Comunidade Tradicional Pesqueira e Vazanteira de Canabrava, situada em Canabrava, no Norte de Minas Gerais, foi surpreendida com o adiamento da entrega do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS), marcado para o dia 19 de agosto, documento aguardado há anos como forma de garantir segurança jurídica ao seu território. A decisão, tomada após parecer do jurídico da União em Minas Gerais, desconsiderando o histórico de violência, expulsões e vulnerabilidade da comunidade, que desde 2005 resiste às margens do rio São Francisco.

Uma história de luta invisibilizada

Desde meados dos anos 2000, a Comunidade de Canabrava, localizada às margens do rio São Francisco, em Buritizeiro (MG), enfrenta uma trajetória marcada por perseguições, criminalização e violência. Organizada coletivamente para reivindicar o direito ao território tradicional, a comunidade viu seu modo de vida ser ameaçado por grileiros, fazendeiros e grandes empreendimentos. Em 2017, mesmo com decisão judicial favorável, sofreu um despejo violento que resultou na destruição de casas e pertences, além de ameaças armadas e criminalização de lideranças e agentes pastorais. Desde então, as famílias vivem sob constante insegurança, sofrendo pressões para abandonar a área.

Apesar da mobilização constante e de diversas denúncias públicas, inclusive em instâncias internacionais, a situação permanece crítica. Em 2023, a comunidade enfrentou nova tentativa de despejo, suspensa após forte articulação. No início de 2025, mais um episódio de violência ocorreu com a invasão do território por gado, que destruiu plantações e a sede comunitária. A negativa repetida da emissão do TAUS por parte do Estado agrava ainda mais o cenário. Mesmo diante de tantas violações, a comunidade segue resistindo com coragem, reafirmando seu vínculo com o território e o direito de viver do rio e da terra.

Em 6 de maio de 2025, a Comunidade realizou a ocupação da sede da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) em MG para exigir a emissão imediata do TAUS. A ação, articulada com o Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP), comunidades quilombolas e vazanteiras da região, sindicatos, do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP/MG-ES), e organizações de direitos humanos, foi uma resposta ao longo histórico de omissão do Estado e violência contra os povos das águas. Com três gerações presentes na ocupação, a comunidade reafirmou seu direito ao território tradicional e cobrou providências concretas frente às recorrentes ameaças, despejos e tentativas de expulsão que enfrentam há quase duas décadas.

Após a ocupação, a Comunidade permaneceu em Belo Horizonte e participou de uma reunião pública articulada junto à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de MG. Como resultado da mobilização, a SPU/MG assumiu publicamente o compromisso de publicar até 31 de maio o relatório final de demarcação das áreas da União no Norte de Minas e, em seguida, processar e outorgar o TAUS para Canabrava.

Comunidade cobra resposta do Estado após novo adiamento do TAUS

O pescador artesanal Clarindo dos Santos, morador da Comunidade de Canabrava, expressou indignação com o recente adiamento da entrega do TAUS, prevista para 19 de agosto. “A comunidade está revoltada, indignada por mais uma vez a SPU nos enrolar e adiar a entrega do nosso TAUS”, afirmou. Ele destacou que a expectativa era grande e que todos estavam organizados para receber o documento que garantiria segurança jurídica e dignidade às famílias. Segundo Clarindo, a decisão da SPU pode ter sido influenciada pelos interesses dos latifundiários. “A SPU, com certeza seguindo os apelos do latifundiário, adiou a entrega desse TAUS, e sem data determinada para que fosse tratada a outra entrega”, denunciou.

Clarindo relatou que a comunidade vive há quase 20 anos em situação de extrema vulnerabilidade às margens do rio São Francisco, resistindo em um espaço reduzido e precário. “A comunidade já não resiste mais tanta violência”, lamentou o pescador. Ele ressaltou que o TAUS representa autonomia para defender os recursos naturais dos quais dependem para viver. “Precisamos dessa regularização fundiária para ter mais autoridade para preservar, para tirar dos ataques dos latifundiários esses recursos naturais, pois eles são a nossa fonte de vida”, explicou. Diante do descaso, ele foi enfático: “Seguimos indignados, repudiando, mais uma vez, a negativa da SPU de entregar o nosso TAUS”. Ao cobrar respeito aos direitos tradicionais garantidos por lei, Clarindo reafirmou o compromisso da comunidade: “Vamos continuar na luta, lutando pela regularização fundiária do nosso território. Precisamos da nossa liberdade territorial”, concluiu.

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Foto: Comunidade Canabrava/MG – CPP

Esperança frustrada: pescadora denuncia insegurança e cobra regularização do território

A pescadora e vazanteira Rosimeire Santos, da Comunidade de Canabrava, expressou sua profunda indignação diante do novo adiamento da entrega do TAUS. “A gente só quer trabalhar, viver em paz, poder deitar, no outro dia levantar e saber que a gente tem segurança, que a gente não vai ser exposto mais uma vez”, salientou. Rosimeire destacou o desejo de garantir às futuras gerações o direito de viver no território onde seus antepassados viveram, sem o medo constante de novos despejos.

Para Santos, o que está em jogo é o direito básico à tranquilidade. “Só quero isso, é isso que a gente pede. A gente não quer nada mais, a gente quer viver em paz, quer viver em segurança, quer viver cheio de esperança que amanhã vai ser melhor”, desabafou. No entanto, a repetição das negativas por parte da SPU tem aprofundado o sentimento de frustração. “É muito triste saber que todo mundo estava aqui esperançoso. É muito, muito ruim mesmo a gente não poder viver em paz”, finalizou a pescadora. 

Apesar de decisões judiciais anteriores e de um processo ativo na 3ª Vara Federal de Montes Claros (MG), a SPU-MG continua prorrogando prazos e agora alega que o TAUS só pode ser concedido para quem “ocupa de fato” o território, ignorando o deslocamento forçado da comunidade e a impossibilidade de permanência plena por conta das ameaças e violências históricas.

TAUS: instrumento de justiça travado por burocracias e pressões políticas

O TAUS é o principal instrumento que pode assegurar o direito à permanência e à reprodução do modo de vida tradicional de Canabrava. No entanto, mesmo com todos os elementos favoráveis e com apoio de diversos órgãos, como o Ministério Público Federal, o parecer jurídico atual da União em MG se mostra, pelo que parece, alinhado com interesses do latifúndio e grandes empreendimentos, travando o processo.

Indignação diante da morosidade e dos interesses do capital

Para o CPP, regional MG e ES, é inadmissível que, enquanto a SPU adia indefinidamente a regularização fundiária da Comunidade de Canabrava, áreas públicas sigam sendo negociadas com o capital privado. A morosidade do Estado em garantir o direito das famílias contrasta com a celeridade das transações econômicas: parte do território reivindicado pela comunidade, pertencente à União, foi vendido por mais de R$ 12 milhões, segundo as agentes de pastoral. A última parcela dessa negociação foi quitada no dia 25 de maio, aprofundando ainda mais a situação de injustiça e vulnerabilidade vivida pelas famílias pesqueiras e vazanteiras.

Documentário intensifica revela urgência por justiça territorial

Lançado nesta quinta-feira (21), o documentário “Povos da Beira D’água – Comunidade de Canabrava” retrata com sensibilidade a vida, a cultura e a resistência das famílias que, há mais de duas décadas, enfrentam despejos, perseguições e o risco constante de perder seu território tradicional às margens do rio São Francisco. O filme revela o cotidiano de um povo que constrói sua existência a partir da pesca, da agricultura de vazante e da relação espiritual com o território que chamam de sagrado. Em meio a barracos de lona e ameaças recorrentes, a comunidade reafirma seu direito de permanecer em paz no lugar onde gera vida, alimento e pertencimento. Assista aqui.

A obra é também uma homenagem à luta coletiva, apoiada por pastorais e organizações como o CPP, que acompanham e fortalecem a caminhada da comunidade, sobretudo ao legado de Ir. Neusa Francisca que dedicou sua vida junto com o povo de Canabrava. A comunidade segue unida e em luta por dignidade, aguardando uma resposta definitiva do Estado brasileiro, que reconheça o território tradicional e ponha fim às violências sistemáticas enfrentadas.


Serviço

Denúncia sobre o adiamento da entrega do TAUS (Termo de Autorização de Uso Sustentável) à Comunidade Tradicional Pesqueira e Vazanteira de Canabrava (MG), que aguarda há anos pela regularização fundiária de seu território tradicional às margens do rio São Francisco.

Situação atual: A entrega do TAUS, prevista para o dia 19 de agosto de 2025, foi adiada após parecer jurídico da União em Minas Gerais, que desconsidera o histórico de expulsões, ameaças e deslocamentos forçados sofridos pela comunidade.

Contato para entrevistas e informações: 

Comunidade de Canabrava – canabravaburitizeiro@gmail.com;

Agentes do CPP Regional MG e ES – cppminasgerais@gmail.com;

Assessoria de Comunicação do CPP Nacional: comunicacao@cppnacional.org.br. 

V Congresso Nacional da CPT acontece na próxima semana (21), em São Luís (MA)

Em seu Ano Jubilar, a Pastoral da Terra celebra 50 anos de serviço profético e caminhada junto aos povos e comunidades do campo, das águas e das florestas, com evento que reunirá mais de mil participantes, entre lideranças, agentes pastorais e camponeses e camponesas de todo o Brasil. 

Cartaz V Congresso banner site

Na próxima semana, entre os dias 21 e 25 de julho de 2025, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) se reunirá nacionalmente em Congresso, em São Luís, capital do Maranhão, quando celebrará seus 50 anos de missão profética e acompanhamento dos trabalhadores e trabalhadoras do campo em seus processos de lutas e resistências. 

Animados e animadas pelo tema “CPT 50 anos – Presença, Resistência e Profecia” e o lema “Romper Cercas e Tecer Teias: A Terra a Deus Pertence! (cf. Lv 25)”, agentes da CPT, povos, comunidades e trabalhadores do campo, das águas e das florestas de todo o país, irão se encontrar para recordar a caminhada percorrida e projetar a que se apresenta para os próximos anos. Com os desafios, conquistas e aprendizagens, ao longo dessas cinco décadas de vida e luta, a CPT irá olhar para o futuro, com novos e velhos enfrentamentos que se colocam no caminho à frente, e traçar novos horizontes de luta. 

Programação 

21/07 – Na manhã do primeiro dia (21), a Celebração de Abertura contará com as falas de Dom José Ionilton Lisboa, presidente da CPT e bispo da Prelazia do Marajó, e de Dom Gilberto

Pastana, Arcebispo de São Luís. A programação da tarde continua com a mesa “O Chão da realidade dos povos e comunidades que a CPT atua”, integrada por lideranças camponesas em sua diversidade, com representantes dos povos do campo e das águas. 

Ainda na tarde do primeiro dia, haverá o lançamento e apresentação do “Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro”, documento inédito que traz uma radiografia do campo no Brasil por meio da análise de 39 anos de conflitos registrados pela CPT. A programação do dia se encerra com a Celebração da Espiritualidade Ancestral. 

22/07 – O segundo dia de Congresso se inicia com a Celebração Eucarística. O período da manhã então se volta para o momento de Análise de Conjuntura, que terá as contribuições de Moema de Miranda, secretária da Rede Igrejas e Mineração, de Jean Marc von der Weid, fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA), e de Alessandra Munduruku, liderança originária e coordenadora da Associação Indígena Pariri – Médio Tapajós (PA). 

Pela tarde, com participantes distribuídos entre pequenas tendas, cada espaço terá a apresentação e discussão das experiências de “Romper Cercas”, vivenciadas nas lutas dos povos em enfrentamento ao latifúndio e à exploração e expropriação pelo capital no campo. Ainda no segundo dia, durante a noite, haverá a Plenária das Juventudes. 

23/07 – A manhã do terceiro dia se concentra nas apresentações das sínteses das discussões feitas nas pequenas tendas, no eixo “Romper Cercas”. Após as provocações da assessoria, terá início a Fila do Povo. Pela tarde, as pequenas tendas apresentam e discutem as experiências de “Tecer Teias”. 

À noite, o terceiro dia se encerra com a Romaria e Celebração dos Mártires e dos Defensores e Defensoras da Vida, momento que será aberto ao público e se iniciará às 19h30, na Praça Deodoro. A romaria celebrará a memória daqueles e daquelas que tombaram pelas causas dos povos do campo, das histórias e testemunhos de vidas dedicadas, até o fim, à concretização do sonho da Terra Sem Males. 

24/07 – A manhã do quarto dia se concentra nas apresentações das sínteses das discussões feitas nas pequenas tendas, no eixo “Tecer Teias”. À tarde, com base nas conclusões das Tendas e

Plenárias, serão discutidas as linhas de ação da CPT junto aos povos do campo, das águas e das florestas. A tarde finaliza com o momento de avaliação do V Congresso e a noite haverá a Festa das Comunidades. 

25/07 – O quinto e último dia se concentra na apresentação das Linhas de Ação e na leitura da proposta de Carta Final do V Congresso Nacional da CPT. O V Congresso se encerra, então com a Celebração de Envio. 

CPT 50 Anos – Presença, Resistência e Profecia 

Com as reflexões propostas a partir do tema e lema do V Congresso, seguindo a programação proposta, a CPT irá trabalhar sobre a presença da Pastoral ao lado dos povos e comunidades tradicionais do país, colaborando com instrumentos para o fortalecimento do seu protagonismo. Ainda, a resistência insurgente dos povos diante das violências empreendidas pelos capitalistas do campo, levantando um grito de profecia, com a denúncia das injustiças e o anúncio do bem viver nas comunidades. A Pastoral propõe, também, refletir sobre as cercas, velhas e novas, a serem rompidas, e sobre as teias de resistências e possibilidades a serem tecidas coletivamente, rumo à Terra Sem Males. 


SERVIÇO 

V Congresso Nacional: CPT 50 anos – Presença, Resistência e Profecia Data: 21 a 25 de julho de 2025 

Local: São Luís – Maranhão 

Assessoria de comunicação da CPT 

Carlos Henrique Silva – comunicacao@cptnacional.org.br – (62) 99453-9629

Heloisa Sousa – heloisa@cptnacional.org.br – (62) 99252-7437 

Renata Albuquerque – comunicacao@cptne2.org.br – (81) 99663-2716

Articulação das Mulheres do Cerrado realiza Roda de Saberes sobre Clima e Sistemas Alimentares

A Articulação das Mulheres do Cerrado, em parceria com a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), convida as mulheres cerradeiras para a Roda de Saberes das Mulheres do Cerrado, propondo um bate-papo sobre Clima e Sistemas Alimentares.

O espaço acontecerá nos dias 28 e 29 de julho, das 9h às 12h (horário de Brasília), em formato virtual (plataforma Zoom). Venham juntar vozes, saberes e lutas em torno da defesa do Cerrado e de suas mulheres!

Inscreva-se clicando aqui.

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Realização: Articulação das Mulheres do Cerrado e Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) | Apoio: HEKS EPER

Imagem: Articulação das Mulheres do Cerrado

 

Fiocruz e Campanha Contra os Agrotóxicos lançam nota técnica sobre implementação do Pronara

Foi lançada nesta terça (8), durante a 28ª Reunião Ordinária da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO), Nota Técnica elaborada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, sobre a implementação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (PRONARA). Acesse aqui o documento na íntegra.

Após uma espera de mais de dez anos, o decreto que institui o PRONARA foi finalmente assinado pelo presidente Lula no último dia 30 de junho, durante o lançamento do Plano Safra. Embora a assinatura do Programa Nacional seja um marco à proteção da vida e do ambiente frente à exposição aos agrotóxicos, o decreto deixa em aberto ações estruturantes para a sua efetividade.

Nesse contexto, a nota aponta a urgência de ações imediatas, como a provação um plano com base nas propostas de ações já desenvolvidas no processo de construção do Pronara, em que cada ministério se comprometa com ações concretas, prazos e indicadores buscando o objetivo principal do Pronara, que é reduzir o uso de agrotóxicos no Brasil.

Foto: Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Além disso, o texto ressalta a importância da definição de mecanismos que garantam a perenidade do programa, como orçamento assegurado, fortalecimento institucional, participação e controle social, e autonomia frente aos interesses privados. O material destaca ainda que a redução do uso de agrotóxicos cabe às três esferas de governo, e que a implementação do Pronara deve promover a articulação intersetorial e federativa, envolvendo os governos municipais e estaduais.

“Essa abordagem é principalmente relevante diante das fragilidades impostas pela nova legislação de agrotóxicos, que imprime ao MAPA um caráter decisório em assuntos que não são de sua competência e também enfraquece a capacidade regulatória de estados e municípios sobre a circulação de agrotóxicos em seus territórios. A construção de uma governança tripartite é, portanto, fundamental para garantir a efetividade territorializada do programa”, aponta a publicação.

Outro ponto refere-se ao termo “uso racional” dos agrotóxicos. Para as organizações, a expressão é, no mínimo, inadequada, pois não expressa objetivamente metas de redução. “Esse é um conceito absolutamente vago, que não exprime realmente o que é esse uso e quanto significa em termos de redução e limitação. Evitar a ambiguidade nesse campo é fundamental para garantir a transparência e o controle social”. 


 Texto: Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Movimentos sociais denunciam irregularidades no Programa de REDD+ Jurisdicional do Tocantins ao MPF e CONAREDD+

Documento pede a paralisação imediata do programa até que haja a garantia plena dos direitos territoriais das comunidades

A Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA) denunciou ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Comitê Nacional de Salvaguardas do REDD+ (CONAREDD+) uma série de irregularidades no Programa de REDD+ Jurisdicional do Tocantins, incluindo a violação do direito à Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) das comunidades tradicionais, quilombolas e quebradeiras de coco babaçu do estado.

O documento foi protocolado nesta segunda-feira (7), durante reunião com o MPF, que contou com a presença da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO), Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO).

Segundo o documento, o programa de REDD+ promovido pelo Governo do Estado tem descumprido a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao não garantir um processo transparente de acesso à informação e de consulta aos povos e comunidades envolvidas. De acordo com a denúncia, o Estado tem promovido consultas apenas em relação aos subprogramas de repartição de benefícios — voltados para Povos Indígenas, Povos e Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares (PIPCTAF) — no âmbito do Fundo Clima, e não sobre o programa como um todo.

A principal crítica se refere à Instrução Normativa nº 1, de 12 de fevereiro de 2025, que estabelece as regras do processo de CLPI no Tocantins. Para os movimentos sociais, é necessário revogar essa norma e reformular o objeto de consulta, de modo que abranja o programa de REDD+ em sua totalidade, assegurando que os grupos envolvidos compreendam todos os riscos e impactos associados.

Outro ponto destacado na denúncia é o descumprimento das Salvaguardas de Cancún, especialmente no que diz respeito à garantia da regularização fundiária dos territórios.

Diante dos fatos, a ATA solicita que o CONAREDD+ e o MPF intervenham no processo de implantação do Programa REDD+ Jurisdicional no Tocantins, recomendando sua suspensão imediata até que o Governo do Estado elabore e implemente legislações, decretos ou normativas que assegurem a regularização fundiária dos territórios quilombolas e a efetividade da Lei Estadual do Babaçu Livre (Lei nº 1.959, de 14 de agosto de 2008), que protege os modos de vida e os territórios das quebradeiras de coco babaçu.

A ATA também reivindica a revogação da Lei Estadual nº 3.525/2019, de 8 de agosto de 2019, que reconhece e convalida registros imobiliários irregulares, violando os direitos territoriais de povos e comunidades tradicionais. A constitucionalidade dessa lei está atualmente sendo julgada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em março deste ano, a COEQTO já havia cobrado transparência do Governo do Estado em relação ao programa, exigindo o respeito ao protocolo de consulta elaborado pelas comunidades quilombolas e o cancelamento das oficinas realizadas em seus territórios, até que fossem garantidas informações claras, acessíveis e completas sobre os impactos do REDD+.

Segundo as organizações, até o momento, o programa segue sendo conduzido sem garantir o amplo acesso à informação ou prazos que permitam a devida compreensão das comunidades.

A denúncia reforça a urgência de um processo de consulta seguro, transparente e participativo. A ATA exige a paralisação imediata do programa até que haja a garantia plena dos direitos territoriais das comunidades. O documento foi assinado por um conjunto de movimentos e organizações da sociedade civil que integram a Articulação Tocantinense de Agroecologia:

Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins/COEQTO

Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu/MIQCB

Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins/APA-TO

Comissão Pastoral da Terra/CPT

Sindicato Regional dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares de São Sebastião do Tocantins, Buriti do Tocantins e Esperantina/STTR Regional

Movimento Sem Terra/MST – Tocantins

Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio/ASMUBIP

Movimento Estadual de Direitos Humanos do Estado do Tocantins/MEDH-TO

União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Estado do Tocantins/UNICAFES-TO

Cooperativa de Produção e Comercialização dos Agricultores Familiares Agroextrativistas e Pescadores Artesanais de Esperantina/COOAF-Bico

Instituto Terra, Direito e Cidadania/ITDC

Núcleo de Pesquisa e Extensão em Saberes e práticas Agroecológicas/NEUZA-UFNT


Texto e Foto: Assessoria de Comunicação ATA

Mais de 145 organizações da pesca artesanal e aliadas lançam nota contra o PL da Devastação

Por Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP)*

Instituições da pesca artesanal, entidades ambientais, pastorais, grupos de pesquisa, campanhas, coletivos e movimentos sociais lançam documento exigindo o arquivamento imediato do PL 2159/2021, que ameaça o licenciamento ambiental no Brasil

Mais de 145 organizações da pesca artesanal, entidades de apoio e movimentos sociais de todas as regiões do Brasil tornaram público, na última sexta-feira (13), um forte posicionamento contra o Projeto de Lei nº 2.159/2021, conhecido como PL da Devastação.

A Nota Pública, assinada por colônias de pescadores, associações, coletivos, sindicatos, pastorais sociais, universidades, grupos de pesquisa e mandatos parlamentares, alerta para os riscos que o projeto representa ao meio ambiente, aos povos das águas e ao futuro dos territórios tradicionais pesqueiros.

CLIQUE AQUI e leia a nota na íntegra

O documento foi articulado pelas seguintes organizações: Articulação Nacional das Pescadoras (ANP), a Campanha Mar de Luta, o Coletivo Caiçara, a Comissão Nacional para o  Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM), o Conselho Pastoral dos Pescadores e das Pescadoras (CPP), Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (FEMAPAM), o Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR). Ele denuncia que o PL, já aprovado no Senado e agora em tramitação na Câmara dos Deputados, desmonta o sistema nacional de licenciamento ambiental, fragiliza a fiscalização, exclui povos e comunidades tradicionais do processo de decisão e pode acelerar a degradação de ecossistemas como mangues, rios, mares e lagoas, essenciais para a pesca artesanal.

“A proposta legislativa permite que empreendimentos como portos, rodovias, exploração de petróleo, mineração, hidrelétricas, parques eólicos offshore e grandes empreendimentos turísticos sejam licenciados sem a devida análise dos impactos ambientais”, afirma a nota.

Entre os principais pontos criticados estão a criação da chamada Licença por Adesão e Compromisso (LAC), que dispensa avaliação técnica de órgãos ambientais; a possibilidade de descentralizar as regras para estados e municípios, muitas vezes mais vulneráveis às pressões de grandes empresas; e a completa omissão quanto ao direito de Consulta Livre, Prévia e Informada, previsto na Convenção 169 da OIT.

A nota também destaca que, ao contrário do que sugere o discurso de simplificação, o PL serve aos interesses do agronegócio, da mineração, e do setor portuário, permitindo retrocessos socioambientais inaceitáveis em meio à crise climática e à crescente violência contra comunidades tradicionais.

“A proposta legislativa também opera a completa invisibilização de povos e comunidades tradicionais (PCT’s) pois não prevê a realização da consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho”, aponta a nota.

Na linha de frente: os povos das águas alertam sobre os impactos do PL

A pescadora artesanal e militante do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), Norma Borges, reforçou a mobilização nacional das comunidades pesqueiras contra o Projeto de Lei 2.159/2021. Segundo ela, os riscos impostos pelo PL vão muito além do meio ambiente, atingindo diretamente a vida, os direitos e a autonomia das comunidades tradicionais. “Nós, pescadores e pescadoras do Brasil, estamos unidos contra o PL da devastação, porque sabemos que, com esse retrocesso e a facilitação dos licenciamentos para os empreendimentos, os territórios estarão correndo sério risco de perder a sua autonomia”, afirmou. Para Norma, o território não é apenas espaço físico, mas parte fundamental da identidade dos povos das águas. “Estão em jogo os direitos já conquistados e o desrespeito aos nossos modos de vida, nossa cultura, nosso ambiente preservado e, acima de tudo, nosso território, que é parte de nossas vidas. Digo não a esse PL da devastação”, declarou.

Para o pescador artesanal Claudio Nunes, integrante do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Litoral do Paraná (MOPEAR), há desigualdade no acesso aos processos de licenciamento no Brasil. Ele destacou que, enquanto empreendimentos que destroem manguezais e ecossistemas conseguem autorização com facilidade, as comunidades tradicionais enfrentam dificuldades até para obter licenças básicas, como para acesso à energia elétrica. “No século XXI, a gente tem aqui 9, 10 comunidades sem energia elétrica, às escuras. Mas licenciamento para construir portos, aeroportos, isso é muito fácil para eles. Licenciamento para destruir manguezais, destruir a base das comunidades, fazer dragagem, isso é muito fácil para eles liberarem”, denunciou. Claudio agradeceu o apoio dos movimentos sociais e reforçou que a luta contra o PL da Devastação é coletiva e necessária: “ninguém larga a mão de ninguém até derrubar esse projeto”, ponderou Nunes.

O pescador artesanal Lucas Lipe, integrante do Coletivo Caiçara de São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba, alertou para os impactos diretos que o PL 2.159/2021 pode causar às comunidades tradicionais pesqueiras do litoral norte de São Paulo. Segundo ele, o projeto facilita a especulação imobiliária, um processo comum e violento na região: “A especulação acaba invadindo territórios tradicionais de forma violenta, às vezes silenciosa, e vai ocupando os espaços, grilando terrenos e terras. Então, a liberação e a facilitação de construção, de licenciamento, acaba sendo uma via de acesso à expulsão das comunidades tradicionais dos seus próprios territórios”.

Lucas também chamou atenção para as chamadas políticas de desenvolvimento que, com o argumento da infraestrutura e transporte de matérias-primas, acabam se sobrepondo aos modos de vida dos povos das águas. Em São Sebastião, ele citou como exemplo o maior terminal aquaviário da América Latina, da Petrobras, e o porto da cidade, que está em vias de ser privatizado e ampliado. Para o pescador, a flexibilização do licenciamento, como prevê o PL, acaba “colocando em risco a facilidade de ampliação do porto sobre manguezais e, não só isso, também os efeitos em outros territórios próximos. Então, é o principal problema relacionado à pesca artesanal e a importância dos mangues para a pesca artesanal mundialmente”, diz Lippi.

Para Andréa Rocha, secretária de Território e Meio Ambiente do CPP, o PL 2159/2021 aprofunda injustiças já vividas pelas comunidades tradicionais e representa uma grave ameaça socioambiental. Segundo ela, “os conflitos socioambientais ameaçam a manutenção dos ecossistemas, da biodiversidade, do modo de vida dos povos e comunidades tradicionais no Brasil, como as comunidades tradicionais pesqueiras, e também contribuem para o que nós estamos vendo em relação à crise climática”. A secretária afirma que é justamente por isso que o licenciamento ambiental precisa ser fortalecido, e não enfraquecido, como propõe o projeto. “Esse PL representa o agravamento das violações às comunidades tradicionais e também da crise climática que estamos vivenciando”, destaca.

A nota pública assinada pelas organizações da pesca artesanal e seus aliados rompe o silenciamento imposto aos territórios das águas e é um instrumento político importante para a preservação da vida, da biodiversidade e dos ecossistemas. “Que essa nota pública dos movimentos coletivos, organizações da pesca artesanal e de seus aliados e parceiros, possa quebrar o silenciamento imposto às comunidades e contribuir para a preservação dos ecossistemas, da biodiversidade, manutenção da vida no nosso planeta”, finaliza Rocha.

A íntegra da nota pública e a lista completa de signatários estão disponíveis no arquivo em anexo. A expectativa agora é pressionar os(as) deputados(as) federais a barrar esse projeto na Câmara e abrir um debate real, amplo e democrático sobre a legislação ambiental brasileira.


* O CPP é uma entidade integrante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Precisamos falar sobre o Cerrado e o PL da Devastação

No dia 21 de maio, por 54 votos a favor e 13 contra, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 2.159/2021, que ficou popularmente conhecido como o “PL da Devastação” por propor a flexibilização de regras de licenciamento ambiental no Brasil. O projeto agora retornará para a Câmara dos Deputados e, se aprovado, passará pela última instância: a aprovação ou veto do presidente Lula.

O que muda com o PL da Devastação?

O Projeto é focado no processo de licenciamento ambiental no país, propondo alterações que flexibilizam e fragilizam ainda mais a forma como são obtidas as licenças por parte dos empreendimentos solicitantes.

Uma das alterações mais drásticas é a proposta de obtenção de licença por meio da autodeclaração do empreendedor, chamada de “Licença por Adesão e Compromisso (LAC)”, que retira a necessidade de análise técnica prévia de qualquer órgão de fiscalização competente, com exceção para os casos categorizados como de “alto risco ambiental”.

Nessa suposta “desburocratização” são eliminadas as necessidades de estudos prévios de impacto ambiental e a definição de medidas compensatórias, além do enfraquecimento dos órgãos técnicos ambientais que fazem esse tipo de avaliação de risco.

A “burocratização” virou chavão na boca de parlamentares favoráveis ao PL da Devastação, ligados ao agronegócio, que alegam que o processo de licenciamento ambiental no Brasil é moroso e “atrapalha” o desenvolvimento econômico.

Um levantamento recente feito pela Agência Lupa contesta esse tipo de argumento. A organização contabilizou as licenças ambientais que foram emitidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nos últimos 10 anos e o total chegou a 6.100 licenças, o que se traduz em uma média de 560 licenças por ano, 49 por mês e 2 licenças por dia útil.

A pesquisa aponta que os setores mais beneficiados foram o de petróleo e gás, mineração e hidrelétricas, que concentraram, ao menos, 68% dos licenciamentos.

E como isso pode afetar o Cerrado e seus povos?

O Cerrado, conhecido como o “berço das águas” do Brasil, enfrenta há décadas um processo de ecogenocídio que está acabando com a sua sociobiodiversidade. Em 2024, de acordo com o Relatório anual do MapBiomas, a região continuou a liderar em área desmatada no país, com 652.197 hectares perdidos — mais da metade do total nacional.

A região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) concentrou 75% desse desmatamento, impactando diretamente territórios indígenas e quilombolas, que registraram perdas significativas de vegetação nativa, além das ameaças às vidas e territórios tradicionais destes povos.

“Ano passado a SEMA [Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão] deu a licença para os fazendeiros, mas a gente entrou com uma ação no Ministério Público, foi suspensa a licença, não conseguiram desmatar o território de Cocalinho, mas desmataram o território de Guerreiro.”

O depoimento de Raimunda Nonata, liderança e agricultora da Comunidade Quilombola Cocalinho, situada no leste do Maranhão, nos ajuda a compreender a fragilidade atual do processo de licenciamento ambiental nos estados brasileiros, onde costumeiramente órgãos fiscalizadores atuam em prol de interesses dos grandes produtores de commodities e desconsideram milhares de vidas em territórios que são secularmente ocupados e protegidos por povos tradicionais.

Nonata conta que o desmatamento na Comunidade Guerreiro, localizada ao lado da Comunidade Cocalinho, trouxe severos impactos ao seu território. “Os lavradores perderam as suas roças na primeira chuva após o desmatamento, que trouxe a água de veneno [agrotóxico] e de óleo, os plantios de arroz, mandioca e milho foram todos consumidos”.

Quem vive com os pés no chão dos territórios não hesita em afirmar que a destruição da vegetação e da sociobiodiversidade tem relação concreta com as mudanças climáticas. “Moradores do Quilombo perderam suas lavouras por conta da mudança climática. Não choveu o suficiente para segurar as lavouras esse ano, nossos alimentos não foram o suficiente”, conta Nonata.

Essa degradação tem impacto direto sobre as bacias hidrográficas do Cerrado, essenciais para o abastecimento de água em diversas regiões do Brasil. Segundo mapeamento da iniciativa MapBiomas Água, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias hidrográficas da eco-região perderam a superfície de água natural, afetando a disponibilidade hídrica e agravando a escassez em mais de 300 municípios do país.

Esse cenário de devastação compromete a subsistência de comunidades tradicionais e povos indígenas, pois acarreta a redução de recursos naturais, como água, terra fértil para plantio e a vegetação nativa, e a intensificação de conflitos territoriais, conforme explica Raimundo Siri, pescador artesanal e membro do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP).

“Fazemos defesa de nossos territórios todos os dias. Em defesa de um território limpo, desimpedido, para que a gente continue produzindo uma alimentação saudável para este país, mas são muitos absurdos que acontecem em nossos territórios tradicionais pesqueiros. Além do óleo derramado nas praias do nordeste, além da contaminação nos mangues, além das Off-Shores, agora temos também esse PL da Devastação”, enfatiza Raimundo.

É preciso destacar que a aprovação do “PL da Devastação” representa uma ameaça ainda maior à preservação da sociobiodiversidade e da vida dos povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado e de todo o país, podendo resultar em um aumento do desmatamento, poluição e violações dos direitos humanos e ambientais, especialmente em áreas já vulneráveis e em franco processo de destruição.

Além disso, o PL 2.159/2021 pode afetar a integridade territorial de comunidades tradicionais e povos indígenas, ao permitir que obras de infraestrutura, atividades minerárias e empreendimentos do agronegócio avancem sem uma análise efetiva de seus impactos sociais e culturais.

“O pior de tudo é essa morosidade dos órgãos em fazer essa demarcação, essa questão fundiária e a garantia dos territórios dessas comunidades. Do jeito que as coisas estão, além de impactadas, as nossas vidas estão em jogo. Nós colocamos o nosso corpo para defender o território”, partilha o pescador.

No Cerrado, onde já se verifica o maior índice de desmatamento legalizado, pressão sobre territórios coletivos e a falta da execução de políticas de regularização fundiária por conta da negligência do estado, este tipo de flexibilização tende a acirrar conflitos e agravar ainda mais estes processos de destruição.

Campanha em Defesa do Cerrado participa da 1ª oficina do Plano Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais

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Integrantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado participam da oficina de construção do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, que acontece nesta semana, entre os dias 2 e 6 de junho, em Luziânia (GO).

O encontro, coordenado pela Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (SNPCT/MMA), reúne representantes de todas as regiões do país para debater e construir coletivamente políticas públicas para indígenas, quilombolas, extrativistas, pantaneiros, quebradeiras de coco, entre outros segmentos que serão contemplados.

Estes povos sofrem na pele diversos tipos de violência por conta da ausência e da fragilidade de políticas de regularização e proteção de seus territórios e modos de vida tradicionais. “Esse plano é a realização de um sonho antigo. Queremos que ele ancore a política nacional e se torne ferramenta real de luta e garantia de direitos. A oficina é só o começo de um grande mutirão”, afirma Samuel Leite Caetano, presidente do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) e geraizeiro do norte de Minas Gerais

O documento tem previsão de lançamento para novembro de 2025, durante a COP30, em Belém (PA).


Foto: Renata Fortes/Campanha Cerrado

Nota de denúncia: DESDE 1970, O OESTE DA BAHIA NÃO TEM UM DIA DE PAZ

As Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto do Oeste Baiano enfrentam, há quase duas semanas, um cenário de tensão e tristeza. A prisão injusta de Solange e Vanderlei, Fecheiros (a) e militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB, somada à emissão de mandados de prisão contra outros cinco Fecheiros, tem provocado profunda indignação. Esses (a) cidadãos(ã) estão sendo privados(a) de sua liberdade e tratados(a) de forma criminalizada, sem sequer terem sido ouvidos(a) pelas autoridades competentes.

Diante disso, o povo tem se manifestado nas ruas e nas redes sociais para afirmar: LUTAR PELOS TERRITÓRIOS DE FUNDO E FECHO DE PASTO, POR DIREITOS E POR JUSTIÇA NÃO É CRIME. Pelo contrário, trata-se de um ato legítimo e necessário diante das desigualdades históricas e das constantes ataques  ao Cerrado e aos povos que dele dependem para sobreviver.

A história da região é marcada por perseguições e tentativas de expulsão das comunidades tradicionais. Quase todo o Cerrado já foi devastado; restam apenas as áreas protegidas pelos Fecheiros, que são os verdadeiros guardiões do bioma e das poucas nascentes vivas que ainda resistem. Em Brejo Verde os Fecheiros preservam cinco importantes nascentes, que abastecem os municípios de Correntina, Jaborandi e Coribe, o avanço da grilagem coloca estas nascentes em risco de desaparecimento.

Conforme estudo realizado pela CPT e parceiros, ao longo de 2023 e 2024, foi identificado nas sub-bacias hidrográficas dos rios Corrente e Carinhanha, 3.050 trechos de águas já secas, entre córregos, riachos, nascentes e cabeceiras de rios, num total de 7.120 km de extensão de águas mortas, uma distância equivalente à distância entre Brasil e México. Além das águas mortas, o estudo apresenta outros 580 trechos de águas classificadas como em estado crítico, o que corresponde a 3.837 km de extensão, com destaque às calhas dos rios das bacias apresentadas em um mapa. A convivência com o desaparecimento dessas fontes de água é motivo de grande preocupação, não apenas para as populações rurais, mas também para as urbanas, que dependem desses recursos hídricos para sua sobrevivência.

É essencial que o Sistema de Justiça e Segurança Pública reconheça as arbitrariedades que vêm sendo praticadas no Oeste da Bahia. As autoridades precisam conhecer  as áreas ocupadas e preservadas há séculos por essas populações, reconhecer os verdadeiros moradores(as) dessas comunidades e quem são os grileiros, bem como, promover celeridade aos procedimentos de regularização fundiária dos mais diversos territórios tradicionais.

Continuaremos  ao lado das comunidades, fortalecendo a resistência e as lutas por justiça e clamamos  pela  imediata liberdade de Solange, Vanderlei e dos demais Fecheiros injustamente perseguidos(as). Não é admissível que esses(a) cidadãos(ã) sejam tratados(a) como criminosos(a) enquanto seus territórios tradicionais estão sendo saqueados por grileiros.

Mais do que isso, é urgente a regularização fundiária dos Territórios Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto — uma reivindicação histórica que se arrasta há anos sem providências efetivas por parte do Estado da Bahia, responsável legal segundo a legislação estadual.

Em abril de 2023, um grupo de Fecheiros do Fecho de Cupim, no município de Correntina, foi emboscado. Três Homens foram baleados, e uma das vítimas ainda carrega uma bala alojada no corpo. Até hoje, não houve conclusão das investigações, tampouco responsabilização dos agressores.

Há dezenas de registros de ocorrências em delegacias locais. Um único Fecho de Pasto reúne mais de 30 boletins de ocorrência, além de inúmeras audiências públicas, oitivas e reuniões. Contudo, não se observa uma atuação efetiva do Estado — ou, ao menos, não em defesa dos povos e comunidades do Oeste baiano.

Nem mesmo diante de um cenário como este os grileiros cessam os ataques violentos. O Fecho de Pasto de Entre Morros e Morrinhos está tomado por  uma empresa de segurança e tratores, soterrando nascentes, retirando a vegetação nativa,  inibindo os Fecheiros de acessar parte do seu território. Nesta semana, expulsaram o gado da área, empurrando-o rumo ao município vizinho. Os(as) Fecheiros(as) temem os prejuízos e pela própria vida. 

Em locais como Brejo Verde, a grilagem já avança até os quintais das casas, no dia 15 de maio o rancho do Fecho foi totalmente destruído. Enquanto trabalhadores honestos estão presos ou privados da liberdade, há invasores no território afrontando  à comunidade. É neste momento que o Sistema de Justiça e Segurança Pública deve agir com firmeza, realizando uma investigação séria para identificar a origem desses grileiros e  especuladores imobiliários que se valem de documentos fraudulentos. 

Foram protocolados pedidos de habeas corpus no Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, em favor dos(a) companheiros(a) detidos(a) no estado do Rio de Janeiro, no dia 16 de maio, bem como para os demais Fecheiros que permanecem privados de liberdade. Reiteramos a expectativa de que haja uma reparação célere e justa, possibilitando o retorno desses companheiros (a)  ao convívio  famíliar.

Ressaltamos ainda a urgência de que o Estado da Bahia promova, de forma imediata, a regularização fundiária dos territórios tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto, garantindo os direitos territoriais e a dignidade dessas comunidades.

É necessário que o Governador Jerônimo Rodrigues e demais autoridades adotem medidas urgentes contra esse avanço que ameaça a existência desses povos e seus modos de vida.

Articulação de Mulheres pelo Cerrado do Oeste da Bahia 

Associação de Advogados(as) de Trabalhadores(as) Rurais

Associação Comunitária Da Escola Família Agrícola Rural De Correntina e Arredores – ACEFARCA

Agência 10envolvimento 

Articulação das CPTs do Cerrado

Associação dos Pescadores Artesanais da Bacia do Rio Grande – APARIOGRANDE 

Associação Comunitária de Preservação Ambiental dos Pequenos Criadores de Fecho de Pasto de Cupim, Sumidor e Cabresto – ACPAC

Associação Comunitária de Preservação Ambiental dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Tarto

Associação de Desenvolvimento Comunitário do Tatu – ASTAC

Associação de Pequenos Agricultores de Silvânia

Associação dos pequenos agricultores da comunidade Pedra Branca – APACPB

Associação Comunitária de Defesa do Meio Ambiente dos Criadores do Fecho Gado Bravo, Galho da Cruz a Lodo

Associação Comunitária das Comunidades de Barreiro Preto, Porco Branco, Cacheiro, Olho D’Água do Barro e Brejo da Gameleira.

Associação Comunitária Agropastoril e de Proteção Ambiental de Boi a Rib´ Abaixo – Boi a Rib´ Abaixo e Associação Comunitária Agropastoril e de Proteção Ambiental do Vale do Capão Grosso – ASAA

Associação dos Trabalhadores Rurais do Salto – ATRS

Associação Comunitária dos Agricultores de Fundo e Fecho de Pasto da Comunidade de Salobro

Associação comunitária de defesa do meio ambiente dos criadores do fecho morrinho entre morros Ribeiro a gado bravo -ACFEM

Associação dos Moradores da Agrovila 2 e Rio do Meio – AMAR 

Fecho de Pasto de Clemente 

Comissão Pastoral da Terra – CPT

Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE 

Coletivo de Fundo e Fecho de Pasto da Bacia do Rio Corrente 

Coletivo Águas do Oeste 

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Campanha Nacional Contra Violência no Campo

Movimento Ambientalista Grande Sertão Veredas

Deputado Estadual Hilton Coelho – PSOL-BA 

Deputado Federal Glauber Braga – PSOL-RJ

Deputada Federal Célia Xakriabá – PSOL/MG

Deputado Federal Tarcísio Motta- PSOL- RJ 

Deputado Estadual Renato Roseno- PSOL- CE

Escola de Ativismo

Justiça Global 

Observatório do Matopiba 

Observatório de conflitos Agrosocioambientais do Oeste da Bahia (UFOB)

Observatório Socioterritorial do Baixo Sul – OBSUL / IFBaiano-Valença

Mandato Iza Lourença -Vereadora PSOL -BH 

Mandato Cida Falabella -Vereadora PSOL- BH

Mandato Professor Hamilton Assis – Vereador PSOL – Salvador

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM

Movimento de Mulheres Unidas na Caminhada  – MMUC

Mato Grosso do Sul é o 5º estado com mais conflitos no campo em 2024, aponta relatório 

Publicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 132 casos de violências ocorridas em territórios camponeses no estado sul-mato-grossense

Na próxima sexta-feira, 30 de maio, às 18h (horário de MS), a Comissão Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul (CPT-MS) lança regionalmente a publicação Conflitos no Campo Brasil 2024, denunciando casos de violências registrados no campo no estado em 2024. O evento acontece na sede do Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino do MS (SISTA-MS), em Campo Grande (MS). 

A atividade é gratuita, não sendo necessária inscrição prévia, e será transmitida pela internet no canal da CPT no Youtube (acesse aqui). Participam das mesas de exposição e debate representantes de povos indígenas e comunidades camponesas do estado, lideranças de movimentos sociais e de organizações da sociedade civil, pesquisadores, além de integrantes da coordenação nacional e regional da CPT e da Campanha Contra a Violência no Campo.

O Mato Grosso do Sul ocupa o 5º lugar no ranking de estados com mais conflitos no campo em 2024, tendo registrado 132 ocorrências. Foram 99 conflitos por terra que impactaram mais de 13 mil famílias camponesas e indígenas. De acordo com o relatório da CPT, mais de 260 pessoas sofreram algum tipo de violência em áreas rurais, em sua maioria em territórios indígenas dos povos Guarani e Kaiowá, incluindo agressões, ameaças, contaminação por agrotóxicos, atos de violência contra a mulher, tentativas de assassinato, entre outras ocorrências.

Duas pessoas foram assassinadas no campo no ano passado no estado sul-mato-grossense: o jovem Neri Ramos (23), do povo Guarani e Kaiowá, em 18 de setembro, na Terra Indígena (TI) Nhanderu Marangatu, situada em Antônio João (MS); e o rezador, também do povo Guarani e Kaiowá, Argemiro da Silva Escalante (74), que vivia na Aldeia Pirakuá, no município de Bela Vista (MS).

Brasil

A nível nacional, a partir dos registros do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (Cedoc-CPT), é possível observar uma queda de quase 3% dos conflitos no campo em relação a 2023, com 2.185 conflitos em 2024 contra 2.250 no ano anterior, conforme dados atualizados do Cedoc-CPT. O ano de 2023 registrou um recorde no número de registros desde o início da publicação e, apesar da pequena queda em 2024, o ano passado ainda apresenta o 2º maior número de conflitos da série histórica da CPT. 

A manutenção dos conflitos em patamares altos se relaciona com o aumento de conflitos por água, além da persistência do aumento dos conflitos por terra, impactados pelo crescente número de violências contra a ocupação e a posse. Houve ainda uma redução nos casos de trabalho escravo e nas resistências, o que contribuiu para que os dados gerais de conflitos no campo de 2024 fossem menores em comparação a 2023. 

A maioria dos registros prosseguem sendo de violência no eixo terra, com 1.680 casos, representando 78% do total. Em seguida vem o eixo água, com 266, depois o eixo trabalho, com 151 casos, e as resistências, com 88 registros.

Fonte: Cedoc-CPT

Divulgada anualmente pela CPT, a publicação apresenta os dados de conflitos no campo no Brasil registrados no último ano, além do comparativo com os números da série histórica, trazendo análises e sistematizações elaboradas por pesquisadores, agentes da Pastoral e da equipe do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (CEDOC-CPT).


Serviço:

Lançamento do Relatório Conflitos no Campo 2024 no MS (entrada franca)

Data e horário: 30/05/25, às 18h00 (horário de MS)

Local: SISTA-MS – Rua Portuguesa, 331, Vila Albuquerque – Campo Grande-MS

Transmissão virtual: https://www.youtube.com/watch?v=om71p27IVhk 

Informações e contato para imprensa: 

Bruno Santiago (11 99985 0378 – comunicacerrado@gmail.com)

Nota Técnica com balanço parcial das políticas fundiárias, territoriais e ambientais do governo federal é lançada

Produzida pela Campanha em Defesa do Cerrado e pela Via Campesina, publicação será divulgada e entregue para representantes do governo durante Seminário sobre Políticas Fundiárias em Brasília (DF) 

Organizações da sociedade civil integrantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Via Campesina lançam nesta quinta-feira (22), em Brasília, a Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil: Balanço do governo Lula 3”. A publicação será apresentada e entregue para representantes do governo federal durante Seminário sobre políticas fundiárias realizado no Centro Cultural de Brasília (CCB), no mesmo dia 22, e também disponibilizada para download gratuito no site da Campanha em Defesa do Cerrado, a partir das 8h (horário de Brasília). 

BAIXE gratuitamente A PUBLICAÇÃO CLICANDO AQUI

A programação do evento conta com delegados dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário (MDA), do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), além de outras representações de órgãos governamentais, lideranças comunitárias, entidades e movimentos da sociedade civil.

O documento apresenta um balanço das políticas territoriais, fundiárias e ambientais da primeira metade do governo federal atual (2023-2024). O intuito das entidades organizadoras do material é que a produção e a sistematização de reflexões e dados apresentados possam contribuir para o fortalecimento das lutas em torno do direito fundamental de acesso à terra e da garantia da posse e integridade dos territórios tradicionais.

De acordo com a Nota Técnica são diversos os problemas oriundos da concentração fundiária no país. Os dados apresentados mostram ser incontestável a relação entre o avanço das mudanças climáticas e problemas estruturais territoriais e ambientais que ameaçam cotidianamente as vidas de povos e comunidades do campo como a grilagem de terras, a violência em terras e indígenas, o desmatamento, os incêndios criminosos, a contaminação por agrotóxicos e a seca de rios e nascentes.

“A gradual perda da soberania alimentar e da biodiversidade, a contaminação das águas por agrotóxicos e o desmatamento em larga escala resultam diretamente de políticas fundiárias, agrárias e agrícolas que estimulam uma agropecuária predatória”, aponta a publicação.

Para além da análise contextual e crítica, o material também apresenta propostas concretas para provocar mudanças e alterar a rota do cenário de “caos e injustiça fundiária e ambiental” que o Brasil se encontra. Para André Sacramento, membro da coordenação da Campanha em Defesa do Cerrado e advogado da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Bahia (AATR), “as recomendações apresentadas na Nota são proposições objetivas e exequíveis para o próximo biênio do governo (2025-26)”.

“Os principais fatores que identificamos para que as ações do governo nos próximos anos possam ter um impacto real na garantia do direito à terra e ao território são a efetiva participação dos movimentos sociais nos espaços de decisão, com a priorização do que eles indicam como pautas prioritárias, além de uma melhor comunicação, coordenação e articulação entre os diferentes órgãos e esferas de governo, que hoje ainda atuam de forma isolada e às vezes contraditória”, destaca Sacramento.


Serviço:

Seminário e Lançamento da Nota Técnica “Política Territorial, Fundiária e Ambiental no Brasil: Balanço do governo Lula 3”

Data e horário: 22 de maio, a partir das 8h, em formato virtual

Transmissão ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=pHxCtEqHqpE

Programação completa do Seminário clicando aqui

Inscrições para cobertura de imprensa e solicitação de entrevistas:

comunicacerrado@gmail.com | 11 99985 0378 – Bruno/Campanha em Defesa do Cerrado

Nota de denúncia e repúdio: Fecheiros e militantes do MAB são presos e criminalizados injustamente no município de Correntina (BA)

O Coletivo dos Fundos e Fechos de Pasto da Bacia do Rio Corrente, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT-BA), a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR/BA), Campanha Nacional contra a Violência no Campo, Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP) e a Escola de Ativismo vêm a público denunciar o processo de criminalização de militantes do MAB e comunidades tradicionais de fundo fecho de pasto em curso no oeste da Bahia. 

Na última sexta-feira, dia 16 de maio de 2025, dois trabalhadores da comunidade tradicional de Fundo e Fecho de Pasto de Brejo Verde em  Correntina – BA foram presos no Rio de Janeiro – RJ de forma arbitrária. Solange Moreira Barreto e Silva, camponesa, fecheira, militante do MAB e agente comunitária de saúde e seu esposo, Vanderlei Moreira e Silva, camponês e fecheiro estavam viajando a passeio, depois de 3 anos planejando a viagem e com pacotes comprados desde 2024 foram detidos no aeroporto do Rio de Janeiro sem informações sobre acusação contra eles. 

Outros 04 trabalhadores, estão com mandados de prisão em aberto e não sabem a razão das acusações. As advogadas, desde sexta-feira (16 de maio), estão requerendo ao judiciário, Comarca de Coribe, habilitação no processo, pedido que vem sendo negado, tendo sido realizada a Audiência de Custódia sem que os representantes legais dos Fecheiros tivessem acesso aos autos dos processos o que configura violação de direitos fundamentais à ampla defesa, contraditório e informação. 

Todas essas pessoas são reconhecidas historicamente na região pelo compromisso com a defesa dos territórios tradicionais, das águas, dos direitos humanos e da vida. Trata-se de uma prisão política e de criminalização das comunidades que lutam contra a grilagem de terras e expropriação dos territórios na região oeste da Bahia. 

Além dos mandados de prisão, só na última semana, na madrugada de quinta para sexta, o rancho do Fecho de Pasto Brejo Verde foi destruído e queimado, variantes foram abertas no Fecho de Entre Morros com a presença de segurança armada para intimidar os trabalhadores e impedir o manejo do gado na área coletiva. 

O terror orquestrado contra as comunidades da região do Vale do Rio Arrojado continua. Hoje (19 de maio de 2025) cerca de 08 viaturas com policiais militares e civis invadiram o território da comunidade de Brejo Verde e Aparecida do Oeste e arrombaram casas sem mandado de busca ou qualquer comunicação com os moradores. Realizaram diversas ameaças aos familiares dos fecheiros criminalizados e promoveram violência psicológica contra os moradores locais que estão com medo de circular em sua própria comunidade. 

Desde 1970 os povos e comunidades tradicionais denunciam as violências, os ataques e invasões de seus territórios por empresas do agronegócio aos órgãos públicos, sem que haja ações efetivas de regularização dos territórios tradicionais. A região do Oeste da Bahia é marcada por casos de grilagem de terras públicas em territórios tradicionais de Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto. Fazendeiros e empresas por meio de violência e pistolagem tentam expulsar as comunidades de seus territórios limitando direitos fundamentais de centenas de pessoas, ao impedir que estas exerçam seu modo de vida. Segundo dados do Caderno de Conflitos no Campo da CPT, o município de  Correntina se destaca no Estado da Bahia, como o mais conflitivo com registro de 132 ocorrências de 1985 a 2023. E estes números só se agravaram em 2024 e 2025. Neste mesmo período, ranchos foram queimados e destruídos, cercas e pontes derrubadas, idosos ameaçados, tentativa de homicídios com 03 trabalhadores baleados, ameaças, cerceamento, pistolagem, coerção e abertura de valetas nas estradas impedindo o acesso às áreas de uso coletivo. 

O terror orquestrado pelo aparato policial da Bahia juntamente com o judiciário, por meio da criminalização dos trabalhadores e da negativa do acesso das advogadas ao processo, é uma evidente violação de Direitos Humanos e Territoriais das comunidades tradicionais. Por essa razão, EXIGIMOS:

  • a LIBERDADE dos Fecheiros que estão detidos injustamente;
  • a HABILITAÇÃO das advogadas no processo criminal;
  • a SUSPENSÃO das invasões policiais nas comunidades tradicionais.

Bahia, 19 de maio de 2025

Coletivo dos Fundos e Fechos de Pasto da Bacia do Rio Corrente
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
Comissão Pastoral da Terra (CPT-BA)
Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia (AATR/BA), Campanha Nacional contra a Violência no Campo
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP)
Escola de Ativismo
Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Campanha em Defesa do Cerrado promove Seminário e lança Nota Técnica sobre política territorial e fundiária no Brasil

Restam poucas vagas para participar presencialmente do Seminário sobre Política Territorial e Fundiária no Brasil, que será realizado no Centro Cultural de Brasília (CCB) no dia 22 de maio, das 8h às 17h, em Brasília (DF). A atividade visa debater temas relacionados ao panorama das políticas territoriais e fundiárias no Brasil, além de marcar o lançamento público de Nota Técnica que discute temas centrais relacionados às questões fundiárias no país e apresenta um balanço parcial das políticas do setor no governo atual (2023/2024).

Para participar do formato presencial é necessário realizar sua inscrição através do preenchimento do formulário de inscrição (acesse clicando aqui). A programação também será transmitida virtualmente pelo canal da Campanha em Defesa do Cerrado no Youtube (acesse aqui).

O evento e a elaboração da Nota são iniciativas de organizações e movimentos vinculados à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, por meio de seu Grupo de Trabalho sobre Políticas Fundiárias, e à Via Campesina. O espaço contará com a participação de representantes de povos e comunidades tradicionais, entidades da sociedade civil, pesquisadores e representantes do poder público para que sejam realizadas escutas e debates. Durante o Seminário a Nota Técnica será entregue para representantes do governo e da sociedade civil presentes, além de ser lançada em formato digital e disponibilizada no site da Campanha em Defesa do Cerrado.

Confira a programação* do Seminário e Lançamento:

Horário  

Atividade

Participantes

08h30

Abertura | Saudações e mística inicial

Representantes de Povos e Comunidades Tradicionais e de entidades da Campanha em Defesa do Cerrado e da Via Campesina

09h00

Mesa 1: Contextualização sobre a Nota Técnica e Balanço das Políticas Fundiárias no governo atual

Mediação: Juliana de Athayde – Associação de Advogados de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Bahia (AATR)

Participantes da mesa:

  • Edmilson Costa – Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG)
  • Denildo Moraes – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)  
  • Valcelio terena – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) 
  • José Oliveira – Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) 
  • Raimunda Nonata – Comunidade Quilombola Cocalinho/Moquibom
  • Maurício Correia – GT Fundiário/Campanha em Defesa do Cerrado

10h30

Intervalo

10h50

Mesa 2: Construção da Política Nacional de Territórios Tradicionais

Mediação: Ana Ilda – Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP)

Participantes da mesa:

  • Marcelo Trevisan – Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)
  • Isabela Cruz – Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA)
  • Samuel Caetano – Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT)/CAA Norte de Minas
  • Renata dos Reis – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)

12h15

Almoço

14h00

Fila do Povo: Recepção de perguntas, proposições e questionamentos para as representações do Poder Público

Mediação: André Sacramento – Associação de Advogados de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da Bahia (AATR)

Participantes da mesa:

  • Gustavo Souto – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)
  • José Dumont Teixeira – Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA)
  • Hayla Ximenes – Secretaria do Patrimônio da União (SPU)

16h00

Encerramento: Ato de entrega da Nota Técnica e da Carta Política para o poder público

Representantes de Povos e Comunidades Tradicionais e de entidades da Campanha em Defesa do Cerrado e da Via Campesina

 

Serviço:

Seminário e Lançamento de Nota Técnica sobre Política Territorial e Fundiária no Brasil

Inscrições clicando aqui | Transmissão ao vivo clicando aqui

Data e horário: 22 de maio, das 8h às 17h | Local: Centro Cultural de Brasília (CCB)

Endereço: SGAN 601 Módulo D – Asa Norte, Brasília – DF

Mais informações: comunicacerrado@gmail.com

*Programação sujeita a atualizações

Povos e comunidades tradicionais cobram urgência na definição de marco legal para regularização fundiária de territórios

Próximo de 600 representantes de organizações da sociedade civil e movimentos sociais assinam Carta Aberta à ministra Marina Silva (MMA) e ao ministro Paulo Teixeira (MDA) cobrando urgência na aprovação de Decreto Federal sobre o tema

Texto: Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN

Brasília – Uma mobilização nacional de organizações da sociedade civil, representantes de povos e comunidades tradicionais (PCTs), parlamentares e entidades aliadas, divulgou, nesta terça-feira (29) uma Carta Aberta à ministra Marina Silva, do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA); e ao ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). As organizações cobram urgência, transparência e compromisso político na tramitação da proposta de Decreto Federal para o reconhecimento e a regularização fundiária de territórios tradicionalmente ocupados.

A Carta, que já conta com a assinatura de cerca de 600 instituições de referência e aliadas à essa temática, destaca a morosidade e os entraves que têm marcado a construção desse normativo, apesar de décadas de acúmulo de conhecimento técnico, de mobilizações e das diretrizes já existentes na Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos PCTs (Decreto nº 6.040/2007). 

O documento solicita uma audiência conjunta com os ministros, além da definição de um cronograma público e de mecanismos efetivos de consulta às comunidades, conforme previsto na Convenção 169 da OIT.

“Sem uma normativa clara e aplicável, milhares de comunidades como quebradeiras de coco babaçu, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, pantaneiros, entre outros, seguem invisibilizadas diante do Estado e vulneráveis a processos de grilagem, desmatamento e conflitos fundiários”, afirmam os signatários.

A expectativa é de que o Decreto Federal seja assinado ainda em 2025, tendo como marco simbólico a realização da COP 30, em Belém, onde o Brasil pretende apresentar avanços concretos em suas políticas ambientais e de justiça socioambiental. Os articuladores da Carta ressaltam, no entanto, que “sem a participação direta dos povos e comunidades e um compromisso real entre os ministérios, não haverá decreto legítimo ou eficaz”.

“Nós povos e comunidades tradicionais do Brasil, que estamos espalhados por diversos biomas, ambientes e ecossistemas do país, temos ciência que sabemos manejar os ambientes com maestria, pois compreendemos a terra como mãe e não como mercadoria. Ecoamos nossas vozes para pedir o básico, queremos ser ouvidos, queremos apoio e solidariedade política para colocar de pé o decreto que reconhece e regulariza os territórios PCTS em todo país”, conclama o atual presidente do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), Samuel Leite Caetano.

Entre os signatários da Carta Aberta aos ministros Marina Silva e Paulo Teixeira, constam movimentos sociais, como da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP), Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), Movimento Sem Terra (MST), a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

Também constam organizações da sociedade civil, como a Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas  e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (CONFREM), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS); universidades e núcleos pesquisa, como o Programa de Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Comunidades Tradicionais da Universidade de Brasília (MESPT/UNB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Pará  (UFPA); Programa de Ordenamento e Governança Territorial; o Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB); Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS);  International Rivers; Instituto EcoVida; Terra de Direitos, Rede Cerrado; conselhos de políticas públicas e entidades classistas, como a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE);  Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG); e articulações ambientais e agroecológicas, como Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) e Rede Maniva.

A Carta e a lista de signatários completa podem ser acessadas no link abaixo:

CARTA ABERTA AOS MINISTROS DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA E DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO E AGRICULTURA FAMILIAR

Dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado é apresentado no Mato Grosso do Sul

Publicação foi entregue para organizações sociais, povos indígenas e comunidades camponesas entre os dias 17 e 21 de julho em Sidrolândia (MS)

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 Foto: André Gouveia/Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

A publicação “Vivendo em territórios contaminados: um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado” ganhou vida e provocou debates entre os mais de cinquenta participantes do curso “Agrotóxicos, Saúde e Agroecologia”, promovido pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida no Mato Grosso do Sul. 

A formação aconteceu de 17 a 21 de julho no Centro de Capacitação e Pesquisa Geraldo Garcia (CEPEGE), espaço do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST) no Assentamento Geraldo Garcia, em Sidrolândia (MS). O encerramento do curso ocorreu no município de Juti (MS), marcado pela participação dos cursistas na tradicional feira de sementes nativas e crioulas e produtos agroecológicos da região.

O espaço formativo reuniu representantes de movimentos sociais, comunidades tradicionais e camponesas, povos indígenas, estudantes, pesquisadores e colaboradores de organizações da sociedade civil para debater e refletir, de maneira ampla e crítica, sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana, em territórios rurais e urbanos, e na sociobiodiversidade. 

Além dos temas relacionados aos malefícios e impactos destrutivos dos agroquímicos na vida humana, a programação contou com palestras e atividades educativas sobre assuntos que possuem interfaces com a temática do enfrentamento ao consumo abusivo de agrotóxicos no Brasil, como a agroecologia, cartografia social, comunicação popular, vigilância popular em saúde, racismo ambiental e conflitos no campo.

Aline de Souza, do povo Guarani do Mato Grosso do Sul, foi uma das integrantes da semana formativa. Para ela a vivência trouxe informações valiosas para o seguimento dos processos de resistência em seu território. “Nós defendemos a vida e não a morte. Sabemos como os agrotóxicos estão impactando as vidas em nossos territórios, por isso participar de um curso como esse é fundamental”, destaca a liderança Guarani.

Agrotóxicos nas águas do Cerrado

O dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado foi apresentado e distribuído  ao público participante do curso pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pela CPT durante o espaço formativo “Impactos dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente”, coordenado por Fernanda Savicki de Almeida, pesquisadora em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e presidenta da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). 

A publicação apresenta dados alarmantes sobre a contaminação de águas em sete territórios tradicionais do Cerrado. A “pesquisa-ação” identificou agrotóxicos em todos os territórios analisados e contabilizou a presença de treze ingredientes ativos (IAs) nas águas dos territórios nos estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Destes produtos, metade não possui uso autorizado na União Europeia.

Coleta de água realizada para o dossiê no Mato Grosso do Sul. Foto: Bruno Santiago

Entre os agrotóxicos encontrados nos sete territórios, destaca-se a presença do Glifosato, Atrazina e 2,4-D nas águas que famílias das comunidades usam rotineiramente para beber, tomar banho, irrigar plantações, pescar e para o trato com animais. Estes três ingredientes ativos foram justamente os componentes identificados nas águas analisadas no Assentamento Eldorado II, também situado em Sidrolândia (MS), território sul-mato-grossense que participou da pesquisa do dossiê.

Tabelas extraídas da publicação “Vivendo em territórios contaminados: um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”

Para Fernanda, que colaborou com a pesquisa realizada no Mato Grosso do Sul, os resultados encontrados apontam para um grave cenário quando se trata do impacto para a saúde das famílias que vivem na comunidade e nos arredores do assentamento. “Nós percebemos o adoecimento destas populações; estamos falando de moléculas que são cancerígenas, que são desreguladoras metabólico-hormonais, que podem causar infertilidade, abortamentos, malformações fetais”, enfatiza a pesquisadora.

“Sabemos que os agrotóxicos são usados para além dos sistemas produtivos como verdadeiras armas químicas de repressão e dominação, que provocam não só o adoecimento crônico, mas a morte, inviabilizam os modos de vida, a reprodução social, as atividades econômicas e expulsam esses povos de seus territórios”, denuncia a presidenta da ABA, que discorreu sobre o impacto sistêmico do modelo de produção do agronegócio brasileiro calcado no consumo abusivo de agrotóxicos.

Coleta de água realizada para o dossiê no Mato Grosso do Sul. Foto: Bruno Santiago

Caminhos de esperança

O fortalecimento da agricultura familiar agroecológica e a luta por políticas públicas estão entre os fatores inegociáveis quando o assunto é o caminho para a superação deste cenário de contaminação e destruição causado pelos agrotóxicos no Brasil. É o que explica Fernanda Savicki.

“Estamos falando de uma questão essencialmente política e o caminho é o da agroecologia. Temos que garantir a permanência das comunidades tradicionais em seus territórios, pautando a reforma agrária popular que considera as demarcações de terra e o respeito aos modos de vida ancestrais. É preciso também viabilizar políticas de incentivo financeiro, de geração de renda, de comercialização para a agricultura familiar”, finaliza a pesquisadora.

O dossiê sobre agrotóxicos no Cerrado apresenta propostas concretas para a superação deste cenário de violações e contaminação em seu último capítulo. De acordo com a publicação, “o uso intensivo de agrotóxicos no Cerrado é expressão da política de morte dos seus povos, e, por isso, da evidência do crime de Eco-Genocídio” na região. As 19 recomendações enumeradas pelas autoras e organizadoras do dossiê anunciam a “justiça que brota da terra” a partir de orientações concretas do que pode ser feito aqui e agora para transformar essa realidade.

Baixe a publicação gratuitamente no site da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

 

Audiência Pública debaterá impactos dos agrotóxicos em comunidades tradicionais do Cerrado

Mais de 600 milhões de litros de agrotóxicos recaem sobre todas as vidas humanas anualmente no Brasil. Só em 2018, 73,5% destes agroquímicos consumidos no país foram aplicados no Cerrado (fonte: UFPR). Esses produtos são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Essa conjuntura de devastação será a pauta da Audiência Pública sobre os “Impactos dos Agrotóxicos em povos e comunidades tradicionais do Cerrado”, que acontecerá no dia 1º de junho, às 10h, na Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, em Brasília (DF). A atividade será recebida pela Comissão de Meio Ambiente de Desenvolvimento Sustentável, sendo requerida pelo deputado Nilto Natto (PT-SP). 

Durante a programação serão apresentados os resultados da pesquisa “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, implementada em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades.

A Audiência é fruto de uma mobilização de entidades e comunidades que atuam pela defesa das vidas no Cerrado, dentre elas estão a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), além da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).


Foto: Bruno Santiago/CPT-MS

“Chuva de veneno não!”: Entidades exigem defesa da lei que proíbe pulverização aérea de agrotóxicos

Será retomado entre os dias 19 e 26 de maio, no Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento sobre a constitucionalidade da Lei “Zé Maria do Tomé”, aprovada em 2018, que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará. A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 6.137/2019) é movida pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

Mais de 160 entidades da sociedade civil, além de mandatos políticos e movimentos sociais, assinaram o abaixo-assinado que exige a defesa da Lei que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará. De acordo com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o resultado do julgamento é de extrema relevância pois afetará não somente o estado cearense, mas todo o Brasil, já que pode influenciar “outros estados a proibirem legislações similares sobre agrotóxicos”. De acordo com apuração do jornal Brasil de Fato, dezoito estados hoje possuem Projetos de Lei (PL) sobre o tema que tramitam a nível estadual.

Lucro acima da vida

A CNA, órgão de defesa dos interesses políticos dos grandes produtores rurais e dos setores do agronegócio brasileiro, afirma que a proibição da pulverização aérea atrapalha os objetivos do desenvolvimento agrícola do país, além de violar a livre iniciativa. De acordo com a coalizão de entidades que se manifestam em defesa da Lei, esse argumento é falacioso e irresponsável.

“Essa decisão é de fundamental relevância, pois temos presentes as evidências científicas que comprovam os impactos nocivos da exposição das populações humanas e da contaminação do ambiente decorrentes da pulverização aérea de agrotóxicos”, explica a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). 

A Campanha Contra os Agrotóxicos ressalta que a lei é uma conquista dos movimentos ambientais e de defesa da saúde coletiva. “É importante defendê-la. Diversas instituições ligadas à saúde e à luta ambiental se manifestaram reconhecendo sua importância como instrumento de defesa do meio ambiente e da saúde pública”, destaca.

Cerrado 

Como fronteira agrícola do agronegócio brasileiro que já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa para dar lugar a latifúndios de monoculturas de commodities para exportação, o Cerrado pode ser drasticamente impactado pelo resultado do julgamento do STF. Não faltam casos de violação e contaminações com danos graves à saúde humana causados pela prática da pulverização aérea de agrotóxicos na região.

No Mato Grosso do Sul, por exemplo, famílias* de assentamentos em Sidrolândia, município localizado a cerca de uma hora da capital Campo Grande, contam que após um episódio de pulverização aérea de agrotóxicos em lotes do território, ocorrido há cerca de cinco anos, sofrem com sintomas de ardência nos olhos e rosto, inchaço na pele, dores de cabeça e vermelhidão na face.

“Um dia passou um aviãozinho amarelo aqui, eu não sei o que ele despejou, mas onde ele passou matou um monte de coisa que a gente tinha plantado. Matou mamão, matou remédio, matou as florezinhas, as frutas. O pasto ficou amarelado, perdeu força, prejudicou a criação dos animais”, relatou uma das moradoras do assentamento sobre mais um episódio de pulverização aérea, desta vez ocorrido no segundo semestre de 2022. 

O julgamento do STF começou em 2021 e ficou suspenso por dois anos após o pedido de vistas do ministro Gilmar Mendes. Para saber como participar da mobilização em defesa da Lei “Zé Maria do Tomé” acesse o site http://chuvadevenenonao.com.br/ e acompanhe as redes sociais da Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.


*A identidade das famílias que concederam seus depoimentos não será revelada por questões de segurança

Campanha lança dossiê que identificou a presença de agrotóxicos na água de sete comunidades tradicionais do Cerrado

Iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a publicação conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e será disponibilizada em formato digital no dia 30 de maio de 2023

O Brasil não é mais o país do futebol, como convencionou-se dizer. Em realidade, o nosso país pode ser considerado o campeão dos agrotóxicos, do veneno e da morte da sociobiodiversidade. Essa mudança aconteceu não somente pelos recentes fracassos da seleção brasileira nas últimas copas do mundo, mas por fatores como a liberação do estrondoso número de mais de 1.800 agrotóxicos nos últimos quatro anos (entre 2019 e 2022). E não para por aí.

Cerca de metade dos agroquímicos aprovados no Brasil não são autorizados para uso na Europa por oferecerem riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Hoje esses produtos, comumente combinados com a utilização de sementes transgênicas, são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, camponeses, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Todos esses povos – que resistem em seus territórios há séculos – lutam para sobreviver em uma verdadeira guerra química promovida pelo agronegócio e pelos grandes latifúndios de monoculturas de produção de commodities para exportação. No Cerrado este cenário é ainda mais violento: mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no país são consumidos na região, de acordo com o estudo “Ecocídio nos Cerrados: agronegócio, espoliação das águas e contaminação por agrotóxicos”, publicado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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 Coleta de água em comunidade tradicional no Mato Grosso do Sul (Crédito: Bruno Santiago/CPT-MS)

Vivendo em territórios contaminados

É com o olhar voltado para essa conjuntura que a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançará, no próximo dia 30 de maio, a publicação “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”. O material apresentará os resultados da “pesquisa-ação” implementada em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades.

Mariana Pontes, assessora da Campanha e uma das organizadoras da publicação, explica que o dossiê combina diferentes movimentos metodológicos. “Foram realizadas a revisão de literatura especializada sobre agrotóxicos e as análises laboratoriais, além da contribuição dos conhecimentos tradicionais das comunidades que estão, cotidianamente, enfrentando os impactos dos agrotóxicos que poluem às suas águas e envenenam os seus roçados”, explica.

Na maioria dos casos, as amostras de águas coletadas e analisadas pela pesquisa são oriundas de nascentes, córregos e rios que abastecem as comunidades, sendo utilizadas para a irrigação de plantações, consumo animal e, em algumas situações, também para o consumo humano. As comunidades que fizeram parte da pesquisa situam-se nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em regiões do Cerrado e de zonas de transição com a Amazônia e o Pantanal.

Os resultados apresentados no dossiê são alarmantes, aponta Mariana. “Mais de 10 tipos de agrotóxicos foram identificados nas análises de coleta de água, um dado que não nos surpreende, mas preocupa muito, uma vez que milhares de pessoas, das sete comunidades que participaram da construção da pesquisa, possuem suas vidas diretamente impactadas por estes produtos que são extremamente tóxicos para a saúde humana”, destaca a assessora.

O material é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz  (Fiocruz). A pesquisa em campo contou com o apoio de agentes da CPT de Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí e Mato Grosso do Sul, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e da Agência 10envolvimento, na Bahia.

A publicação será disponibilizada gratuitamente, em formato digital, no site da Campanha em Defesa do Cerrado a partir do dia 30 de maio.


Arte da capa do dossiê: Estúdio Massa

Tribunal Permanente dos Povos (TPP) cobra ações de proteção e responsabilização do estado brasileiro diante das violências contra comunidades de Fundo e Fecho de Pasto do oeste da Bahia

Em nota encaminhada no dia 25 de janeiro, TPP reconhece a gravidade do cenário de repressão e se compromete a colaborar com a visibilização internacional do caso

Diante das graves e crescentes violações de direitos que sofrem as comunidades rurais tradicionais de Fundo e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia, o Tribunal Permanente Permanente dos Povos (TPP), em nota divulgada no dia 25 de janeiro, reconhece o cenário de repressão sistemática e cobra ao estado brasileiro medidas cabíveis para proteção das vidas e dos territórios destas populações.

Uma coalizão de organizações da sociedade civil, junto com as comunidades tradicionais da região, encaminhou ao TPP documentos, notas e relatos que comprovam o dramático estado de violações de direitos em que se encontram as comunidades do oeste baiano. De acordo com o Tribunal, “as violações denunciadas com a participação também de grupos armados exigem uma responsabilização clara, urgente e efetiva por parte dos poderes públicos responsáveis”.

O TPP também reconhece o “cenário de negação e repressão sistemática dos direitos das populações em questão e de seus territórios”. A escalada de violência no Oeste da Bahia acontece desde setembro de 2022, sobretudo contra comunidades de Fundo e Fecho de Pasto na região dos municípios de Correntina e Santa Maria da Vitória. 

Histórico de violência

Diante dos indícios e, por fim, da concretização da derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, diversas violências sucederam-se nestes territórios, entre elas ameaças de morte, disparo de tiros, abertura de trincheiras na estrada, destruição de ranchos, pontes e cercas, além de veredas queimadas, em novas ofensivas realizadas a mando de fazendeiros. A disputa se dá por áreas de vegetação nativa do Cerrado, repleta de veredas com nascentes conservadas pelas comunidades que há mais de dois séculos se estabeleceram na região.

No dia 12 de dezembro de 2022, diferentes entidades e associações comunitárias solicitaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a realização de Audiência Temática sobre o caso, solicitada para acontecer durante o 186º Período de Sessões da CIDH, de 6 a 10 de março de 2023.  A manifestação do TPP também é direcionada à CIDH, reforçando e ratificando o pedido de Audiência.  “Encaminharemos esta preocupante notificação à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para denunciar a permanência e, portanto, o agravamento de uma situação de crimes que ameaçam o próprio direito à existência de comunidades inteiras”, destaca o documento.

Solicitada pela Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais (AATR), Articulação Estadual de comunidades de Fundos e Fechos de Pasto, Articulação Estadual de Fundos e Fechos de Pasto da Bahia, Coletivo de Fechos de Pasto do Oeste da Bahia, Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e pela Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA/TO), a audiência tem como objetivo apresentar e discutir não somente as violências cometidas contra comunidades tradicionais, mas também o contexto de forte expansão do desmatamento, apropriação ilegal de terras de uso comum das comunidades, secamento de nascentes e rios, e violência contra lideranças comunitárias organizadas em associações que resistem a esse processo.

Leia abaixo a nota encaminhada pelo TPP em suas versões em inglês e português. Clique aqui para baixar o documento na íntegra com seus anexos.


[Inglês]

Dear Sirs and Madams,

This Tribunal has received and carefully evaluated the enclosed document (Annex1) forwarded to our attention by a wide spectrum of well-known and highly representative organisms of the Brazilian society with whom we have been in close interaction over the last several years in the context of the Session of the Permanent Peoples Tribunal (PPT) promoted by the Campanha Nacional em Defensa do Cerrado.

The verdict pronounced by the international panel of Judges of the PPT (Annexe 2) has recognised — on the basis of an amazingly detailed and robust series of reports, analysis, as well as direct witnesses — the gravity of the violations of the fundamental rights of the peoples of the Cerrado, the clear criminal responsibility of the private and public actors, the situation of impunity assured to the collective and individual crimes.

The above-mentioned report received on the Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto dramatically confirms the scenario of systematic denial and repression of the rights of the concerned populations and their territories. The evidences of the violations which are denounced with also the participation of armed groups require clear, urgent, effective accountability by the responsible public powers.

It is clear that the PPT will make more broadly known the prolongation of a situation, which was already qualified as specifically dramatic because also its impact on one of the most critical areas of the whole national and continental biodiversity.

We shall in this sense also forward this very worried notification to the Interamerican Commission of Human Rights, to denounce the permanence and therefore the worsening of a situation of crimes which threaten the right itself to the existence of entire communities.

The recommendations included in the Verdict of Annexe 2 are a clear guide to what should be possible and mandatory for making decisions coherent with your mandate’s institutional and human responsibilities.

 

Rome, 25 January 2023.

Philippe Texier

Président

Gianni Tognoni

Secrétaire général


[Português]

Caros senhores e senhoras,

Este Tribunal recebeu e avaliou criteriosamente o documento anexo (Anexo 1) encaminhado ao nosso conhecimento por um amplo espectro de organismos notórios e altamente representativos da sociedade brasileira com os quais temos mantido estreita interação ao longo dos últimos anos no contexto da Sessão do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) promovida pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

O veredito proferido pelo painel internacional de juízes do TPP (Anexo 2) avaliou — com base em uma série incrivelmente detalhada e robusta de relatórios, análises e testemunhas diretas — a gravidade das violações dos direitos fundamentais dos povos do Cerrado, a clara responsabilidade criminal dos atores privados e públicos, a situação de impunidade relacionada aos crimes coletivos e individuais.

O referido relatório das Comunidades de Fundo e Fecho de Pasto confirma dramaticamente o cenário de negação e repressão sistemática dos direitos das populações em questão e de seus territórios. As evidências das violações denunciadas, com a participação também de grupos armados, exigem uma responsabilização clara, urgente e efetiva por parte dos poderes públicos responsáveis.

É claro que o TPP tornará amplamente conhecido o desenrolar do caso, que já foi qualificado como especificamente dramático pelo seu impacto numa das áreas mais críticas de toda a biodiversidade nacional e continental.

Nesse sentido, também encaminharemos esta preocupante notificação à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para denunciar a permanência e, portanto, o agravamento de uma situação de crimes que ameaçam o próprio direito à existência de comunidades inteiras.

As recomendações constantes da Sentença do Anexo 2 são um guia claro do que deve ser possível e obrigatório para a tomada de decisões coerentes com as responsabilidades institucionais e humanas do seu mandato.

 

Roma, 25 de janeiro de 2023

Philippe Texier

Presidente do TPP

Gianni Tognoni

Secretário Geral do TPP


 Foto: Associação de Fundo e Fecho de Pasto | Informações: CPT-BA

Dia Internacional dos Direitos Humanos: Conheça a Agenda Jurídico-Política para a defesa do Cerrado e seus povos

No Dia Internacional dos Direitos Humanos, celebrado hoje, 10 de dezembro, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado disponibiliza digitalmente a Agenda Jurídico-Política para frear o ecocídio do Cerrado e o genocídio de seus povos. O material pode ser acessado aqui no site da Campanha.

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Baixe aqui a Agenda

 A Agenda Jurídico-Política da Campanha apresenta as recomendações da sentença do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, que em julho de 2022 realizou sua audiência final e condenou o estado brasileiro, estados estrangeiros e empresas pelos crimes de Ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos.

Construída de forma participativa, a Agenda reúne propostas concretas para frear a destruição das vidas e dos territórios do Cerrado. A publicação é referendada por povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado que participaram ativamente da construção do TPP com a apresentação dos casos concretos que foram denunciados ao Tribunal. Além dos povos e comunidades, mais de 50 organizações da sociedade civil, integradas à Campanha em Defesa do Cerrado, também legitimam o documento.

De acordo com a publicação, algumas das recomendações “sinalizam ao sistema de justiça, mas também ao poder público, algumas obrigações concretas para fazer valer direitos já instituídos no marco legal de nosso país, mas que seguem sendo violados, diminuídos à condição de letra morta em códigos que existem no papel e não no cotidiano da luta por justiça dos povos e comunidades do Cerrado”.

Na última quinta-feira (8), a Agenda foi entregue à representantes do governo de transição do presidente Lula durante a Plenária da Sociedade Civil Socioambiental e Climática, promovida pelo Grupo Técnico (GT) de Meio Ambiente. Geraldo Alckmin (vice-presidente eleito), Marina Silva (deputada federal/GT Meio Ambiente), Célia Xakriabá (deputada federal e representante dos povos indígenas na plenária) e Silvio Almeida (professor, filósofo e advogado) receberam o documento em mãos.

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Célia Xakriabá e Silvio Almeida. Foto: Campanha em Defesa do Cerrado

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Geraldo Alckmin e Marina Silva. Foto: Campanha em Defesa do Cerrado

 

Agenda Jurídico-Política em defesa do Cerrado e de seus povos é entregue para representantes do governo de transição

Ontem (8/12), representantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado participaram da Plenária da Sociedade Civil Socioambiental e Climática, promovida pelo Grupo Técnico (GT) de Meio Ambiente do Gabinete de transição presidencial do governo Lula.

Maureen Santos e Mariana Pontes, representando a Campanha, aproveitaram a oportunidade para entregar a Agenda Jurídico-Política para frear o Ecocídio do Cerrado e o Genocídio de seus povos para Geraldo Alckmin (vice-presidente eleito), Marina Silva (GT Meio Ambiente), Célia Xakriabá (deputada federal e representante dos povos indígenas na plenária) e Silvio Almeida (professor, filósofo e advogado).

A Agenda Jurídico-Política da Campanha apresenta as recomendações do veredito do Tribunal dos Povos do Cerrado. Construídas de forma participativa e referendadas por mais de 50 organizações da sociedade civil, além de povos indígenas e comunidades tradicionais, as recomendações apresentam propostas concretas para frearmos a destruição das vidas e dos territórios do Cerrado. Amanhã (10) o documento será disponibilizado para acesso nos canais de comunicação da Campanha.

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Vice-presidente Geraldo Alckmin e a deputada federal Marina Silva recebem Agenda Jurídico-Política da Campanha

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Agenda entregue para a Deputada Célia Xakriabá e para o professor Silvio Almeida

Audiência Pública discute danos socioambientais do Projeto Matopiba

No dia 22 de novembro, às 15h30 (horário de Brasília), será realizada Audiência Pública sobre os danos socioambientais do Projeto Matopiba. Os trabalhos acontecerão no Plenário 03 (Anexo II) do Congresso Nacional, em Brasília (DF). A Audiência é uma iniciativa da Articulação de Resistência ao Matopiba, formada por organizações que integram a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

O Matopiba é a região formada por áreas majoritariamente de Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde o agronegócio se expandiu a partir da segunda metade dos anos 1980. A deputada Luiza Erundina (PSOL-SP), que solicitou a audiência, explica que, além dos impactos socioeconômicos e ecológicos do Projeto, será debatida também a inconstitucionalidade de legislações estaduais que facilitam a grilagem de terras na região.

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Imagem: AATR

Erundina é também presidente do Tribubal Permanente dos Povos (TPP) no Brasil, tribuna que condenou o estado brasileiro, estados estrangeiros e empresas pelos crimes de ecocídio do Cerrado e genocídio dos seus povos na Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado, cuja audiência final ocorreu em julho de 2022.

Oito dos quinze casos apresentados pelo TPP ocorrem na região do Matopiba, envolvendo povos indígenas e comunidades tradicionais de regiões do Cerrado e de transição com o bioma amazônico. A sentença completa do Tribunal pode ser conferida no site do Tribunal e da Campanha em Defesa do Cerrado.

Expositores convidados

A Audiência possui as presenças confirmadas do Subprocurador-geral da República e Procurador Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), Carlos Alberto Vilhena, do Diretor da Diretoria de Desenvolvimento e Consolidação de Projeto de Assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Giuseppe Serra Seca Vieira, do Coordenador do Projeto Matopiba/GITE da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), Evaristo Eduardo de Miranda, do representante da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – AATR e da Articulação de Resistência ao Matopiba, Maurício Correa, do defensor dos povos indígenas e das comunidades tradicionais e morador do território tradicional de Melancias (Piauí), Juarez Celestino de Souza, e da defensora dos povos indígenas e das comunidades tradicionais e moradora da comunidade tradicional da Travessia do Mirador (Maranhão), Isaura Lima de Sousa.

Informações:

Audiência Pública sobre danos socioambientais do Projeto Matopiba

Local: Anexo II, Plenário 03 | Horário de início: 22/11/2022 às 15:30

Origem: Req. 18/22 – de autoria da Dep. Luiza Erundina e do dep. Padre João


Com informações da AATR e da Agência Câmara de Notícias

Nota da APIB e da CONAQ: “Sobre a proteção urgente do Cerrado e outros ecossistemas naturais”

Nós da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (CONAQ) ressaltamos a nossa posição em defesa de todos os ecossistemas naturais do Brasil. É de extrema relevância que as negociações climáticas levem em conta florestas, mas também savanas, campos, áreas úmidas e todas as diversas expressões da natureza ao redor do mundo. Essas paisagens também contribuem para a luta contra a mudança do clima e fazem parte de soluções para um mundo com mais sustentabilidade, inclusão e justiça social.

Nós instamos à União Europeia a tomar as medidas necessárias urgentes para prevenir o desmatamento importado a partir de florestas, e também o desmatamento importado de outras áreas arbóreas nativas. Isso é crucial no contexto do Cerrado, uma vez que a maior parte da soja exportada para a União Europeia é produzida neste bioma tão ameaçado.

O Cerrado não é área degradada, é a savana mais rica do Planeta. É casa de centenas de povos, culturas e territórios indígenas, quilombolas, geraizeiros* e outras populações e culturas tradicionais. Também é a maior fronteira agrícola do mundo e de maior impacto da soja importada na Europa. Ferramentas de monitoramento já estão disponíveis para garantir a proteção do Cerrado – é só ter vontade política! O mesmo vale para todos os outros ecossistemas naturais que não são florestas: Pampa, Pantanal, Caatinga e também Mata Atlântica.

Se a regulação europeia contra o desmatamento se restringir apenas a proteger florestas, ela terá um impacto muito limitado, já que cerca de 75% do Cerrado continuariam desprotegidos. Também 76% do Pantanal e dos Pampas e quase 90% da Caatinga. Além disso, a regulação europeia ainda teria um efeito perverso, pois aumentaria a pressão de destruição sobre esses ecossistemas e seus povos. Em última instância, ao restringir-se a florestas, a regulação europeia contra o desmatamento teria o efeito contrário do seu objetivo original. Portanto, essa lei precisa também incluir áreas de “outras áreas arbóreas nativas” (savanas primárias), e não apenas florestas nativas.

Isso permitiria aumentar a proteção do Cerrado de 26% para 82%, do Pantanal de 24% para 42% e da Caatinga de 11% para 93%. O Cerrado brasileiro está perdendo quase um milhão de hectares a cada ano, e essa destruição está aumentando. Uma eventual revisão da lei a ser discutida daqui a 2 anos não vai evitar a perda de milhões de hectares de ecossistemas valiosos, a emissão de milhões de toneladas de carbono, nem as agressões violentas a centenas de territórios e povos tradicionais. Por isso, reiteramos o nosso pleito:

A LEGISLAÇÃO EUROPEIA SOBRE DESMATAMENTO DEVE GARANTIR OS DIREITOS HUMANOS DE TODOS OS POVOS INDÍGENAS, QUILOMBOLAS E TRADICIONAIS E CONTEMPLAR TODO O CERRADO E OUTROS ECOSSISTEMAS NATURAIS DESDE JÁ, INCLUINDO “OUTRAS ÁREAS ARBÓREAS” NATIVAS E PRIMÁRIAS NO ESCOPO DO TEXTO DE LEI A SER APROVADO AINDA NESTE ANO.

Para detalhes técnicos sobre esse tema, acesse os seguintes documentos:

● Nota APIB 09/07/22
https://apiboficial.org/2022/09/09/apib-pede-garantia-dos-direitos-indigenas-e-inclusao-de-todosos-biomas-na-lei-anti-desmatamento-da-ue/   
● WWF call for a more ambitious EU legislation, including Other Wooded Lands
https://www.wwf.org.br/?82870/Call-for-a-more-ambitious-EU-regulation-on-deforestation-free-products-including-other-wooded-lands
● Manifesto para o fim imediato do desmatamento para o nosso futuro de 1,5o:
https://www.oc.eco.br/wp-content/uploads/2022/11/Manifesto-DCF-PT-1.pdf
● Carta dos Povos do Cerrado à União Europeia:
https://ispn.org.br/uniao-europeia-pode-vetar-importacoes-ligadas-ao-desmatamento/
● Nota Técnica da Rede Mapbiomas sobre Impactos Potenciais do Critério de Devida Vigilância da
União Europeia sobre ecossistemas não florestais (versão atualizada 07.07.2022)
https://mapbiomas-br-site.s3.amazonaws.com/Nota%20T%C3%A9cnica/Nota_T%C3%A9cnica_UE_07.07.2022.pdf
● Grande Sertão Ameaçado: quem são os geraizeiros que defendem o Cerrado
https://www.brasildefato.com.br/2020/12/11/grande-sertao-ameacado-quem-sao-os-geraizeiros-que-defendem-o-cerrado
● COP27: cerrado desmatado pode reduzir águas nos rios em 1/3 e afetar geração de energia, indica estudo https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63562381
● Cerrado pode perder um terço da água, aponta estudo
https://ispn.org.br/cerrado-pode-perder-um-terco-da-agua-aponta-estudo/


Egito, Sharm el Sheikh, 15 de Novembro de 2022

ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB

COORDENAÇÃO NACIONAL DE ARTICULAÇÃO DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS E QUILOMBOLAS (CONAQ)

Pistoleiros aterrorizam fecheiros de Correntina (BA)

Por Paulo Oliveira e Thomas Bauer

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Pistoleiros arrumam as armas de longo alcance e a munição que utilizam em escopetas e armas curtas (Foto: Reprodução)

Fotos de pistoleiros em torno de uma mesa com armas longas e munição circularam pelas redes digitais de moradores de Correntina e região, cidade do oeste baiano a 918 quilômetros de distância da capital (Salvador). Desde setembro a violência recrudesceu na região, diante da possibilidade da derrota eleitoral do presidente Jair Bolsonaro (PL)[1].

O motivo da sucessão de ameaças de morte, disparo de tiros, abertura de trincheiras em estradas, destruição de ranchos e cercas é a disputa de fazendeiros por áreas de vegetação nativa do cerrado e repleta de veredas com suas nascentes preservadas pelas comunidades de fecho de pasto, que há mais de dois séculos se estabeleceram na região.

Os fecheiros são um povo tradicional que cria gado e sobrevive do extrativismo e da agricultura de subsistência. Embora reconhecidos oficialmente pelo governo estadual, praticamente não são tomadas providências para preservar o modo de vida e a segurança das comunidades.

O atentado mais recente ocorreu no último domingo (6/11), às 10 horas da manhã. Dois idosos voltavam de campear[2]  as 10 cabeças de gado que soltaram há dias no fecho do Capão do Modesto. Seu João, 81 anos, viu um motoqueiro se afastar e outro homem, moreno e alto, cortando o arame e destruindo a cerca instalada para os animais da comunidade não fugirem.

Este pistoleiro tinha uma arma de cano curto na cintura e uma de cano longo, encostada no guidão da motocicleta.

“De quem é o gado que está aqui?” – gritou o criminoso.

Diante da resposta de João*, 81 anos, confirmando ser o proprietário dos animais, o jagunço disse que ia matar tudo, animais e seus donos, caso os bois não fossem retirados do local. Falou ainda que veio do Mato Grosso para resolver a situação e que já tinha abatido uma rês para comer.

“Vocês deram sorte de estar fora do fecho. Seu velho safado”, berrou, enquanto se dirigia em direção a João, que estava montado em uma mula. O pistoleiro com um pedaço de pau retirado da cerca na mão. Em seguida, arremessou a madeira em direção ao idoso que apenas não foi atingido porque o animal em que estava mudou de posição e recebeu a violenta pancada destinada ao vaqueiro. Tudo isso foi testemunhado por Pedro*, 69 anos, que acompanhava o vizinho.

Ainda aos berros, o bandido mandou os dois se retirarem. A essa altura, apontava o rifle para o fecheiro mais idoso.

“Não falei nada, sai devagar porque velho não corre. Minha pressão subiu e passei o resto do dia assustado. Não consegui dormir porque toda hora lembrava da arma apontada para mim” – relatou o pequeno criador.

No dia seguinte, ao ir a Correntina registrar a ocorrência, João se deparou com a burocracia, a morosidade das autoridades e a falta de estrutura para lidar com a violência recorrente no campo, fatores que favorecem a impunidade. No distrito policial, o delegado Marcelo Calçado não estava presente.

O escrivão informou à vítima que o procedimento para entrega de cópia do B.O foi alterado. Ele só pode ser entregue ao comunicante da ocorrência depois que Calçado assinar. O penúltimo boletim de ameaça a um fecheiro, lavrado no dia 16 de outubro, até hoje, 25 dias depois, não tem a assinatura do delegado.

João foi da delegacia ao Ministério Público Estadual (MPE) para ser ouvido pelo promotor Vítor César Meira Matias, que assumiu o cargo em Correntina há pouco mais de três meses. Matias orientou João a pedir apoio ao tenente-coronel Luiz Augusto Normanha de Carvalho, comandante regional da PM, em Santa Maria da Vitória, a 55 quilômetros de distância.

Recém empossado e ainda buscando se inteirar sobre os conflitos na região, o promotor disse que Normanha se comprometeu, verbalmente, a apoiar os fecheiros quando eles precisarem se deslocar para as áreas preservadas. No entanto, o promotor soube que a Polícia Militar não tem veículos suficientes para garantir a segurança dos povos tradicionais. Para resolver a questão, o MPE conseguiu obter a promessa da Câmara de Vereadores, de que uma viatura será cedida para a função.

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Mensagem deixada pelos pistoleiros na cinta de couro que prende o cincerro no pescoço do animal que vai à frente da manada (Arquivo da Associação)

A estiagem característica neste período que antecede às chuvas na região faz com que as comunidades levem o gado para as áreas preservadas que funcionam como reserva alimentar. Os animais ficam soltos durante três ou quatro meses, enquanto os pastos das comunidades se recuperam. Segundo as associações, há cerca de 120 cabeças no fecho de Capão do Modesto hoje, incluindo as que pertencem ao pessoal do povoado de Matão.

Na última semana, além do atentado a João, foram registradas várias ocorrências de destruição de cercas e de abertura de valas e trincheiras para impedir a passagem dos fecheiros e do gado pelas veredas. A previsão é que o número de casos de ameaça e até de crimes mais graves aumente. No mesmo local onde João foi ameaçado, pistoleiros deixaram uma mensagem na cinta de couro que prendia o cincerro ao pescoço de uma vaca que estava mojando[3]: “-1 SE NÃO TIRA VAI MORRE MAIS VACA (sic) OK”.


(*) Nome fictício usado para preservar a identidade da vítima.

[1] “Comunidades na Bahia associam conflitos por terra a eleições” – https://www.dw.com/pt-br/comunidades-tradicionais-na-bahia-associam-conflitos-por-terra-%C3%A0s-elei%C3%A7%C3%B5es/a-63570341. Matéria publicada pela Deutsche Welle (DW), empresa pública de radiodifusão alemã, que transmite programas de rádio, programação televisiva e notícias online para 30 países, incluindo o Brasil.

[2] Procurar o gado.

[3] Prestes a parir

É preciso pautar o Ecocídio do Cerrado e o genocídio de seus povos na COP 27

Entre os dias 6 e 18 de novembro de 2022 acontece a COP 27 – a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU). O evento será sediado em Sharm el-Sheikh, no Egito, e contará com a presença do presidente recém-eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A deputada federal e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (REDE), também integrará a comitiva brasileira com Lula.

Durante o evento, serão debatidos temas como a implementação do Acordo de Paris, cujo principal objetivo é reduzir a emissão de gases de efeito estufa; o impacto climático sobre a economia dos países, metas de redução do aquecimento global e cooperação – inclusive financeira – entre os países para que essas metas sejam atingidas.

Após a derrota de Bolsonaro nas urnas no último domingo (30), a expectativa é de que o Brasil volte a protagonizar e incidir sobre os debates relacionados à agenda climática global – foco do evento das Nações Unidas –, e a reconstruir a política externa sobre meio ambiente desarticulada nos últimos quatro anos pelo atual presidente.

Em agosto de 2022, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, formada por mais de 50 organizações, movimentos sociais, povos indígenas e comunidades tradicionais, dirigiu ao então candidato à presidência da república, Lula, uma carta pública que alerta para o cenário de devastação e morte que assola o Cerrado e seus povos.

O documento destaca, dentre outros pontos, o veredito da Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado do Tribunal Permanente dos Povos (TPP), proferido em julho de 2022, que reconhece o fato de estarmos diante do ecocídio do Cerrado e do genocídio de seus povos. Na ocasião, a tribuna de opinião condenou o estado brasileiro, estados estrangeiros e empresas por estes crimes.

Outro dado alarmante apresentado na carta é o aumento do índice de desmatamento na região, que em 2020 e 2021, durante a gestão bolsonarista, sofreu “o incremento de 20% a mais de área desmatada, conforme dados do MapBiomas, especialmente na região conhecida como Matopiba” – informação que não pode ser negligenciada em qualquer tipo de fórum sobre a agenda climática global.

O lema da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado é “Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida”. Trata-se de uma síntese do que a articulação vislumbra para um futuro próximo, caso não haja uma mudança de rumo nas políticas públicas relacionadas à demarcação e titulação dos territórios indígenas e tradicionais, à política ambiental e do uso das águas, e mesmo da política econômica fortemente dependente da produção de commodities, com o sacrifício da savana mais biodiversa do planeta.

Confira, abaixo, a carta dirigida ao presidente Lula:


Prezado presidente Lula,

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, integrada por 56 organizações e movimentos sociais, comunidades indígenas, quilombolas e povos tradicionais, deseja lhe dirigir algumas palavras neste momento tão crucial para o país e suas gerações futuras. Sabemos que a missão de reconstrução a ser liderada pelo próximo presidente será imensa diante do legado nefasto deixado por este governo genocida. 

Desde 2016, quando foi instituída nossa Campanha, temos denunciado o aumento da violência no campo, da grilagem de terras, do desmatamento desenfreado, do uso abusivo e contaminação das águas, especialmente pelos setores do agronegócio e mineração. 

O Cerrado, berço das águas que sustenta doze bacias hidrográficas que figuram entre as principais do país, agoniza com o avanço da fronteira agrícola e a conversão anual de milhares de quilômetros quadrados de vegetação nativa em pasto ou plantações de soja e outros grãos voltados para o mercado externo. Em apenas 50 anos, metade da sua cobertura original foi destruída, em velocidade e dimensão ainda maiores que a Mata Atlântica e Amazônia, como demonstram os dados do INPE/PRODES. 

Este processo, embora tenha raízes estruturais e históricas em escolhas que foram feitas por empresas e governantes no passado, aumentou significativamente durante o governo Jair Bolsonaro – somente entre 2020 e 2021 houve incremento de 20% a mais de área desmatada, conforme dados do MapBiomas, especialmente na região conhecida como Matopiba. 

Entre os dias 08 e 10 de julho de 2022, a Campanha realizou a Audiência Final do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado (49ª Sessão), no qual foram denunciados 15 casos de violações de direitos de comunidades indígenas e camponesas, incluindo as que foram atingidas pelos crimes ambientais resultantes do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. O júri do TPP reconheceu o crime de Ecocídio contra o Cerrado, praticado por empresas nacionais e estrangeiras, com o apoio e incentivo histórico do Estado Brasileiro.

Estamos ainda na alvorada do século XXI e a nossa convicção é que precisamos mudar o paradigma de desenvolvimento herdado do período da Ditadura Empresarial-Militar, que sempre excluiu a maioria do povo brasileiro das benesses econômicas resultantes da exploração sem precedentes dos bens da natureza tão abundantes em nosso país. 

O lema da nossa Campanha é “Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida”. 

Esta é a síntese do que vislumbramos para um futuro próximo, caso não haja uma mudança de rumo nas políticas públicas relacionadas à demarcação e titulação dos territórios indígenas e tradicionais, à política ambiental e do uso das águas, e mesmo da política econômica fortemente dependente da produção de commodities, com o sacrifício da savana mais biodiversa do planeta! 

Se nada for feito pelos próximos governos, em menos de três décadas as novas gerações não conhecerão o pequi, buriti, a cagaita, o coco babaçu, rios, nascentes, brejos, veredas, e tantas outras riquezas presentes nessa região tão esquecida, mas de grande importância estratégica para o país, onde estão localizados dois dos principais aquíferos brasileiros – o Urucuia e o Guarani.

Encaminhamos junto a esta Carta a sentença proferida pelo TPP, assim como outros documentos e referências que possam contribuir para que você e sua equipe se aprofundem e reflitam sobre como poderemos construir juntos esse novo caminho.

Sabemos que temos ainda uma acirrada eleição – e campanha – pela frente, mas a esperança em um país melhor para futuras gerações, a fé na luta e na sabedoria do povo, nos leva a crer que você estará à frente de um novo governo a partir de 2023. Nos colocamos desde já à disposição para o diálogo sobre propostas para reconstruir este país dilacerado pela extrema-direita – a começar pelas dezenas de recomendações elaboradas pela Campanha e acatadas pelo júri do TPP.

Nossa esperança é que esses novos paradigmas trazidos pelos povos originários e tradicionais possam ser incorporados e transformados em políticas públicas em um novo governo atento às mudanças climáticas. Contando desde já com seu apoio e compreensão, nos despedimos por aqui.

São Paulo, 26 de agosto de 2022

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

O que as candidaturas comprometidas com o Cerrado podem fazer se forem eleitas?

No dia 6 de setembro, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançou a carta-compromisso com o Cerrado e seus povos nas eleições, dirigida a candidatas e candidatos do âmbito legislativo e executivo do país em 2022. Trata-se de um esforço para levar ao debate político questões cruciais para reverter o processo em curso de ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos. Mais de 60 candidatos e candidatas assinaram a carta até a publicação deste post.

Confira aqui a lista de assinaturas atualizada.

O documento foi construído coletivamente a partir de uma coalizão de mais de cinquenta organizações da sociedade civil, movimentos sociais, representantes de comunidades tradicionais e povos indígenas do Cerrado. Em sintonia com o veredito do Tribunal dos Povos do Cerrado, a Carta apresenta 6 compromissos urgentes a serem assumidos por candidatas e candidatos e reúne propostas concretas para a defesa das vidas e dos territórios do Cerrado, incorporando as recomendações gerais para frear o Ecocídio do Cerrado, documento complementar da ação de incidência política.

Mas qual a importância de eleger candidaturas comprometidas com o Cerrado? E o que ELAS podem fazer se eleitas?

Apresentamos a seguir propostas concretas que podem ser encampadas por candidatas e candidatos que assinaram a carta e que eventualmente ganhem as eleições.

  • Atuar para garantir a identificação, demarcação e titulação dos territórios indígenas, quilombolas, de povos e comunidades tradicionais, e a implementação da política de reforma agrária; 
  • Construir uma força tarefa para impedir a aprovação de projetos de Lei que ferem direitos territoriais e socioambientais de povos indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses, a exemplo do PL 191/2020, que autoriza a exploração de terras indígenas por grandes projetos de infraestrutura e mineração; do PL 6.299/2002, também conhecido como “PL do Veneno”, que visa a flexibilizar ainda mais o uso de agrotóxicos no país; dos PLs 2633/20 e 510/21, que facilitam os processos de grilagem de terras, anistiando as ações históricas de invasão ilegal de terras públicas na Amazônia Legal e também fora dela; do PL 2159/2021, que desmonta e flexibiliza integralmente o processo de licenciamento e proteção ambiental em todo o país e muitos outros projetos que violam os direitos dos povos;
  • Definir e implementar uma agenda para acabar com o desmatamento no Cerrado;
  • Trabalhar para a construção de territórios livres de agrotóxicos, transgênicos e outras biotecnologias como parte de um processo de resistência, transição e ampliação crescente da proteção do patrimônio genético e cultural associado à agrobiodiversidade;
  • Garantir o Direito à Alimentação Adequada e a estruturação de sistemas sustentáveis agroecológicos de produção, processamento e distribuição de alimentos – Combater a FOME!

COMO PARTICIPAR

O candidato ou candidata que quiser assinar a carta-compromisso com o Cerrado e seus povos pode baixar o documento e o anexo com as Recomendações Gerais para frear o Ecocídio do Cerrado clicando nos links abaixo:

A assinatura também pode ser feita de maneira digital, a partir do preenchimento de um formulário on-line disponível neste link.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado solicita aos candidatos e candidatas que assinarem – de forma digital ou impressa – enviem uma foto, vídeo ou o documento digitalizado comprovando a assinatura da carta para o endereço de e-mail comunicacerrado@gmail.com.

Parlamento Europeu vota regras para barrar desmatamento ligado a produtos do agronegócio

O Parlamento Europeu votou hoje, 13 de setembro, a proposta de Regramento sobre a Importação de Produtos Livres de Desmatamento. A proposta foi apresentada em novembro de 2021 pela Comissão Europeia, e pretende regular a exportação e entrada no mercado da União Europeia (UE) de determinados produtos básicos e produtos associados ao desmatamento e degradação florestal.
 
Por 453 votos a favor, 57 contra e 123 abstenções, o Parlamento Europeu aprovou a proposta, que é uma reivindicação histórica da sociedade civil organizada, e também uma demanda da população europeia. Segundo pesquisa online realizada com nove mil pessoas em nove países da UE, 81% dos entrevistados são contra a venda de produtos que prejudicam as florestas.
 
A UE é atualmente responsável por 16% do desmatamento tropical ligado ao comércio internacional de produtos básicos como soja ou óleo de palma. Nesse sentido, aproximadamente 20% das exportações de soja e pelo menos 17% das exportações de carne bovina do Brasil para a UE podem estar ligadas ao desmatamento ilegal. A proposta tenta conter o efeito que o consumo de determinados produtos produz no desmatamento global e, para tanto, impõe requisitos à importação, exportação, produção e comercialização desses produtos na UE.
 
A articulação Ecologistas em Ação, formada por mais de 300 grupos ecologistas ao redor da Espanha, publicou um texto comentando os avanços e desafios da votação de hoje. Entre os avanços, destacam a inclusão da carne suína, ovina e caprina, aves, milho, borracha, carvão vegetal, couro e produtos de papel impresso no escopo do Regramento. Outro destaque é a obrigatoriedade de que as instituições financeiras estejam sujeitas a requisitos adicionais para garantir que suas atividades não contribuam para o desmatamento. Também foi classificado como avanço pela articulação o reforço, no texto, da dimensão dos direitos humanos e direitos específicos dos povos indígenas, exigindo o cumprimento das normas internacionais dos direitos humanos, e não apenas das leis estatais sobre os direitos da terra.
 
Em sua coluna no site UOL, o jornalista Jamil Chade, que acompanha a política internacional, classificou a votação de hoje como um sinal verde inédito da Europa a sanções ambientais, e também como uma derrota diplomática do governo Bolsonaro, que encabeçou uma ofensiva para evitar que a Europa aplique medidas protecionistas.
 
Desafios
 
Como desafio evidenciado na votação de hoje, a articulação Ecologistas em Ação apontou que a posição adotada pelo Parlamento Europeu, de proteger apenas áreas e regiões definidas como “floresta”, deixa de fora a proteção de outros ecossistemas naturais, como zonas úmidas, alagadas, pastagens ou savanas – estas últimas seriam o caso do Cerrado, que teria 74% de sua área desprotegida com o atual texto do Regramento. A inclusão dessas áreas e regiões, diz a articulação, teria melhorado significativamente o regramento, e precisarão ser incluídas o mais rápido possível.
 
Também foi destacado como desafio o fato de que a proposta aprovada hoje não preveja – por enquanto – um mecanismo de responsabilidade civil ou a possibilidade de reparação e compensação por parte das empresas.
 
Após a votação de hoje terão início as negociações do texto final entre a Comissão, Conselho e Parlamento europeu. “Tais negociações podem ser difíceis, pois a posição do Conselho é muito conservadora e, de acordo com as atas confidenciais de julho às quais essas organizações [da articulação] tiveram acesso, ele não parece estar disposto a melhorar sua posição”, diz o texto dos Ecologistas em Ação.
 
Carta ao Parlamento Europeu
Com o objetivo de incidir sobre a votação de hoje, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado enviou uma carta ao Parlamento Europeuressaltando que a proposta em pauta tem sérias limitações que afetam diretamente o Cerrado e seus povos. Na carta, a Campanha lembrou ao Parlamento que durante o julgamento realizado pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado em julho deste ano, a União Europeia (UE) foi uma condenadas pelo júri, pois suas compras massivas de produtos agrícolas, especialmente a soja, contribuem para promover o Ecocídio do Cerrado e o genocídio de seus povos.
 
 
 


 
Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000 
 

Conheça as candidaturas comprometidas com o Cerrado nas Eleições

Mais de cinquenta candidatas e candidatos, de diversas regiões do país, já assinaram a carta-compromisso com o Cerrado e seus Povos, lançada no dia 6 de setembro pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado para as eleições de 2022. Trata-se de um esforço para levar ao debate político questões cruciais para reverter o processo em curso de ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos.

Conheça as candidaturas que já assinaram o compromisso clicando aqui


Compromissos urgentes

O documento foi construído coletivamente a partir de uma coalizão de mais de cinquenta organizações da sociedade civil, movimentos sociais, representantes de comunidades tradicionais e povos indígenas do Cerrado. Em sintonia com o veredito do Tribunal dos Povos do Cerrado, a Carta apresenta 6 compromissos urgentes a serem assumidos por candidatas e candidatos e reúne propostas concretas para a defesa das vidas e dos territórios do Cerrado, incorporando as recomendações gerais para frear o Ecocídio do Cerrado, documento complementar da ação de incidência política.

“A ação é fruto de um esforço para levar ao debate político questões cruciais para reverter o processo em curso de ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos, que ficou evidenciado depois da sentença do Tribunal dos Povos do Cerrado”, explica Joice Bonfim, secretária executiva da Campanha. Lançada no dia 6 de setembro, a Carta-compromisso pode ser assinada até dia 30 de setembro por qualquer candidato ou candidata ao pleito no âmbito legislativo e executivo, a nível estadual ou federal.

Como participar

O candidato ou candidata que quiser assinar a carta-compromisso com o Cerrado e seus povos pode baixar o documento e o anexo com as Recomendações Gerais para frear o Ecocídio do Cerrado clicando nos links abaixo:

CARTA-COMPROMISSO COM O CERRADO E SEUS POVOS

RECOMENDAÇÕES PARA FREAR O ECOCÍDIO DO CERRADO

A assinatura também pode ser feita de maneira digital, a partir do preenchimento de um formulário on-line disponível neste link.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado solicita aos candidatos e candidatas que assinarem – de forma digital ou impressa – enviem uma foto, vídeo ou o documento digitalizado comprovando a assinatura da carta para o endereço de e-mail comunicacerrado@gmail.com.

Atividades temáticas e festivais marcam celebração do Dia do Cerrado

Programação gratuita acontece de 12 a 17 de setembro de 2022, de maneira híbrida e presencial, em diversas regiões do Cerrado

Universidades públicas, Institutos federais e organizações da sociedade civil realizam, entre os dias 12 e 17 de setembro, atividades gratuitas em sintonia com o dia nacional do Cerrado, celebrado no dia 11 de setembro. As ações, de cunho educativo, cultural e político, visam difundir informações e experiências sobre a região e sobre os povos indígenas e comunidades tradicionais que nela vivem.

Apesar da sua importância ecológica, o Cerrado agoniza com o avanço da fronteira agrícola e a conversão anual de milhares de quilômetros quadrados de vegetação nativa em pasto ou plantações de soja e outros grãos voltados para o mercado externo. Em apenas 50 anos, metade da sua cobertura original foi destruída, em velocidade e dimensão ainda maiores que a Mata Atlântica e a Amazônia, como demonstram os dados do INPE/PRODES, Instituto brasileiro que monitora por satélite o desmatamento do Cerrado e Amazônia.

Confira, abaixo, algumas destas atividades:


II Festival do Cerrado do Cerrado – Universidade Federal de Rondonópolis (UFR)

Data: 12 a 15 de setembro de 2022 (formato híbrido)

A Diretoria de Extensão, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Estudantis (PROEXA), da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), realizará na próxima semana, entre os dias 12 e 15 de setembro de 2022, o II Festival do Cerrado. A finalidade do evento é a propagação de exposições culturais e mesas de diálogo sobre a regionalidade do Cerrado, saudando sua importância para a nossa região e para o mundo.

A programação do festival ocorrerá de forma HÍBRIDA e haverá transmissão pelo canal do YouTube da UFR. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo website do evento até o dia 11 de setembro de 2022. A programação completa encontra-se no mesmo endereço eletrônico.

Clique aqui para conferir a programação.

Mais informações: https://ufr.edu.br/noticia/inscricoes-abertas-para-o-ii-festival-do-cerrado/


II Semana Integrada do Cerrado

Data: 12 a 17 de setembro de 2022 (formato híbrido)

A II Semana Integrada do Cerrado é um evento interinstitucional que tem o intuito de realçar a importância deste bioma, refletindo sobre sua biodiversidade, impactos socioambientais, história e cultura de comunidades tradicionais e a integração de ações socioambientais, buscando a conservação do Cerrado brasileiro. O evento é organizado por instituições de ensino e pesquisa, públicas e privadas, e por organizações da sociedade civil dos Estados de Goiás, Tocantins e Maranhão e, também, do Distrito Federal.

A edição deste ano será regida pelo tema “Cerrado: saberes, usos e abusos” e ocorrerá entre os dias 12 e 17 de setembro de 2022, no formato híbrido (contando com atividades online e presenciais). Além disso, no âmbito deste evento, será comemorado o VII Dia Nacional do Cerrado do Instituto Federal de Goiás (IFG), o III Dia Nacional do Biólogo do IFG e II Encontro Regional dos Programas de Pós-Graduação com Foco no Cerrado.

As atividades on-line serão transmitidas pelo Canal no YouTube da Semana Integrada do Cerrado e, também, do IFG Comunidade. As inscrições no evento são gratuitas e haverá emissão de certificado de participação.

As inscrições podem ser realizadas no Sistema Unificado de Gestão de Extensão e Pesquisa (Sugep) do IFG, por meio do link: bit.ly/semanacerrado2022 

Links de transmissão: 

https://www.youtube.com/results?search_query=semana+integrada+do+cerrado 

 https://www.youtube.com/c/IFGComunidade

Mais informações: https://www.ufg.br/e/32919-ii-semana-integrada-do-cerrado


II Festival das Comunidades Apanhadoras de Flores Sempre Vivas

Data e local: 14 e 15 de setembro (formato presencial – Diamantina, MG)

Com o objetivo de valorizar a identidade e modo de vida das comunidades Apanhadoras de Flores e celebrar o reconhecimento pela FAO/ONU do seu sistema agrícola tradicional como patrimônio agrícola mundial, será realizado nos dias 14 e 15 de setembro, o 2º FESTIVAL DAS COMUNIDADES APANHADORES DE FLORES SEMPRE-VIVAS. O evento ocorrerá no Mercado Velho, Centro de Diamantina, Minas Gerais.

Durante o 2º Festival, são esperados cerca de 300 apanhadores de flores de toda a região da Serra do Espinhaço Meridional de Minas Gerais. Haverá o lançamento público de documentos relacionados ao Sistema Agrícola Tradicional das comunidades Apanhadoras de Flores Sempre Vivas, como sistematização do SAT Tradicional através de livros e outras publicações, Protocolos Comunitários, vídeos, documentário e exposição de fotografias, feira com produtos artesanais das comunidades e uma série de apresentações culturais.

O Festival é uma realização da CODECEX e Prefeitura Municipal de Diamantina, apoiado pelas Prefeituras Municipais de Presidente Kubitschek e Buenópolis, HEKs-Eper e gestores do Plano de Conservação Dinâmica do primeiro SIPAM brasileiro.

Mais informações:

https://www.facebook.com/Codecex/

https://www.instagram.com/codecex/


 Imagem de divulgação: Artistas Marly wunder e Alik Wunder – Codecex

Coalizão de mais de 50 organizações da sociedade civil lança carta-compromisso com a defesa do Cerrado e seus povos para candidatos e candidatas à eleição em 2022

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Documento pode ser assinado até dia 30 de setembro e reúne propostas concretas para frear o ecocídio do Cerrado e o genocídio de seus povos

Dois meses após a realização da Audiência Final do Tribunal Permanente do Povos (TPP) que condenou Estados e empresas pelos crimes de Ecocídio do Cerrado e Genocídio de seus povos, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança a carta-compromisso com o Cerrado e seus povos nas eleições, dirigida a candidatas e candidatos do âmbito legislativo e executivo do país em 2022.

O documento foi construído coletivamente a partir de uma coalizão de mais de cinquenta organizações da sociedade civil, movimentos sociais, representantes de comunidades tradicionais e povos indígenas do Cerrado. Em sintonia com o veredito do Tribunal dos Povos do Cerrado, a Carta apresenta 6 compromissos urgentes a serem assumidos por candidatas e candidatos e reúne propostas concretas para a defesa das vidas e dos territórios do Cerrado, incorporando as recomendações gerais para frear o Ecocídio do Cerrado, documento complementar da ação de incidência política.

“A ação é fruto de um esforço para levar ao debate político questões cruciais para reverter o processo em curso de ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos, que ficou evidenciado depois da sentença do Tribunal dos Povos do Cerrado”, explica Joice Bonfim, secretária executiva da Campanha. Lançada no dia 6 de setembro, a Carta-compromisso pode ser assinada até dia 30 de setembro por qualquer candidato ou candidata ao pleito no âmbito legislativo e executivo, a nível estadual ou federal.

Como participar

O candidato ou candidata que quiser assinar a carta-compromisso com o Cerrado e seus povos pode baixar o documento e o anexo com as Recomendações Gerais para frear o Ecocídio do Cerrado clicando nos links abaixo:

CARTA-COMPROMISSO COM O CERRADO E SEUS POVOS

RECOMENDAÇÕES PARA FREAR O ECOCÍDIO DO CERRADO

A assinatura também pode ser feita de maneira digital, a partir do preenchimento de um formulário on-line disponível neste link.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado solicita aos candidatos e candidatas que assinarem – de forma digital ou impressa – enviem uma foto, vídeo ou o documento digitalizado comprovando a assinatura da carta para o e-mailcomunicacerrado@gmail.com.

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Organizações e comunidades integrantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado (Foto: Thomas Bauer/CPT/H3000)

Ecocídio em curso

Apesar da sua importância ecológica, o Cerrado agoniza com o avanço da fronteira agrícola e a conversão anual de milhares de quilômetros quadrados de vegetação nativa em pasto ou plantações de soja e outros grãos voltados para o mercado externo. Em apenas 50 anos, metade da sua cobertura original foi destruída, em velocidade e dimensão ainda maiores que a Mata Atlântica e a Amazônia, como demonstram os dados do INPE/PRODES, Instituto brasileiro que monitora por satélite o desmatamento do Cerrado e Amazônia.

Este processo, embora tenha raízes estruturais e históricas em escolhas que foram feitas por empresas e governantes no passado, aumentou significativamente durante o governo Jair Bolsonaro – somente entre 2020 e 2021 houve incremento de 20% a mais de área desmatada, conforme dados do MapBiomas, especialmente na região conhecida como Matopiba, que são as porções de Cerrado dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Tribunal Permanente dos Povos

Após quase um ano de audiências e discussões sobre 15 casos de violência contra povos e comunidades cerradeiras, o júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado condenou estados e empresas pelos crime de ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos. A divulgação pública do documento foi feita na tarde do dia 10 de julho, último dia da audiência final do TPP, realizada em Goiânia (GO).

As sentenças proferidas pelo júri do TPP não têm aplicação dentro do sistema jurídico formal do país em que é realizado. Um governante ou dirigente de uma empresa que sejam considerados culpados por um crime pelo júri do Tribunal não poderá ser preso, por exemplo. Ainda assim, as sentenças proferidas pelo TPP possuem notoriedade para os sistemas de justiça nacionais e internacionais, e para a opinião pública, uma vez que expõem os vazios e limites das legislações nacionais e do sistema internacional de proteção dos direitos humanos.


Mais informações: comunicacerrado@gmail.com

*Notícia atualizada em 09/09/22

Júri do Tribunal Permanente dos Povos condena estados e empresas por genocídio de povos do Cerrado. Estado e PM do MS estão na lista pelo massacre do povo Guarani e Kaiowá

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Veredito foi apresentado ao vivo na tarde do dia 10 de julho, e seu resumo acaba de ser divulgado

Desde maio desse ano, pelo menos três indígenas Guarani e Kaiowá foram brutalmente assassinados dentro e fora de seus territórios. O primeiro foi o jovem Alex Recarte Vasques Lopes, de 18 anos, em 21 de maio. O segundo foi Vitor Fernandes Guarani Kaiowá, de 42 anos, assassinado dia 24 de junho pela Polícia Militar (PM) a serviço de fazendeiros que invadiram terras dos povos indígenas. O episódio, que tirou a vida de Vitor e deixou dezenas de pessoas feridas, ficou conhecido como o “Massacre de Guapoy”.

O terceiro foi Márcio Moreira, liderança indígena sobrevivente do Massacre de Guapoy, assassinado em 14 de julho em uma possível emboscada.

Na base dos assassinatos e de diversos outros conflitos nos territíorios Guarani e Kaiowá estão a disputa pelas terras dos povos originários pelo agronegócio e a conivência do Estado do Mato Grosso do Sul, por meio da Polícia Militar e outros órgãos, que vêm atuando como aliados privados de invasores e grileiros.

No último dia 10 de julho, o júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado condenou estados e empresas pelo crime de ecocídio do cerrado e genocídio de seus povos. Os massacres históricos do povo Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul compuseram um dos 15 casos analisados e julgados pelo júri.

O veredito foi apresentado ao vivo na tarde do dia 10 de julho, e seu resumo acaba de ser divulgado. Clique aqui para conferir.

Condenados pelos crimes

Após quase um ano de audiências e discussões sobre 15 casos de violência e violações de direitos contra povos e comunidades cerradeiras, a audiência final do TPP foi realizada presencialmente em Goiânia (GO) entre os dias 8 e 10 de julho.

Povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais cerradeiras presentes à audiência ouviram os nomes de governos, empresas e instituições condenados pelo júri por cometerem os crimes de ecocídio do Cerrado e genocídio cultural de seus povos.

O júri presente em Goiânia, composto pela subprocuradora-geral da República aposentada Deborah Duprat, pela escritora e jornalista Eliane Brum, pela professora venezuelana da Universidade Federal do Pará (UFPA) Rosa Acevedo, pelo professor espanhol da Universidade Rovira i Virgili de Tarragona Antoni Pigrau e pelo jurista francês e presidente do TPP, Philippe Texier, apresentou, de forma contundente e explícita, sua condenação, lida na ocasião por Eliane Brum.

“O Tribunal dos Povos condena o estado brasileiro pela sua contribuição decisiva, por ação e omissão, para o crime de ecocídio do Cerrado que envolve, inevitavelmente, o processo de genocídio dos povos do Cerrado. Por elaborar e implementar políticas e programas de desenvolvimento, nos últimos 50 anos, que concorreram para o grave dano, a destruição e a perda do ecossistema do Cerrado como um todo, cujo impacto provoca perda de benefícios ambientais e sociais para as populações da região e do país, que produz a expulsão ou força o deslocamento das comunidades, produz ameaça de extermínio dos povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais e comunidades camponesas, que têm no acesso às condições metabólicas da região ecológica, na capacidade reprodutiva das terras e dos bens naturais sua condição de existência como povos de identidade diferenciada. O Tribunal Permanente dos Povos condena o estado brasileiro, o atual governo executivo federal, as unidades da federação, instituições públicas federais e estaduais, estados estrangeiros, organizações internacionais, empresas nacionais e transnacionais, de forma objetiva e compartilhada, por sua contribuição à comissão de crimes econômicos, ecológicos, qualificados como crimes de sistema, que têm gerado graves violações a direitos humanos fundamentais e ao meio ambiente, de forma a obstaculizar o acesso a direitos básicos, como à alimentação, água, medicamentos, moradia, trabalho, entre outros.”

Estados

Estados estrangeiros, como Japão, China e países que integram a União Europeia, também foram condenados por sua compra massiva de commodities que estão na base da monoculturação do Cerrado. Entre as instituições internacionais, foram condenados o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), e em particular Banco Mundial, pela promoção e legitimação de reformas neoliberais que aprofundam o ecocídio-genocídio cultural no Cerrado

Empresas

Entre os agentes privados, foram condenadas empresas transnacionais e fundos de investimento/pensão, cujas atividades econômicas estão vinculadas à violação de direitos fundamentais que causam e se beneficiam do ecocídio-genocídio cultural no Cerrado, como Amaggi & Louis Dreyfus Commodities, Bayer-Monsanto, Bunge, Cargill, ChemChina/Syngenta, China Communications Construction Company, China Molybdenum Company, Condomínio Cachoeira Estrondo, Horita Empreendimentos Agrícolas, Mitsui & Co, Mosaic Fertilizantes, SLC Agrícola, Sul Americana de Metais S.A., Suzano Papel e Celulose, TUP Porto São Luís, Vale S.A., e os fundos de investimento TIAA-CREF, Harvard e Valiance Capital.

Após o anúncio do veredito, os jurados apresentaram as recomendações prioritárias às instituições estatais brasileiras.

Importância do TPP

As sentenças proferidas pelo júri do TPP não têm aplicação dentro do sistema jurídico formal do país em que é realizado. Um governante ou dirigente de uma empresa que sejam considerados culpados por um crime pelo júri do Tribunal não poderá ser preso, por exemplo.

Ainda assim, as sentenças proferidas pelo TPP são de extrema importância para os sistemas de justiça nacionais e internacionais, e para a opinião pública de uma forma geral, uma vez que expõem os vazios e limites do sistema internacional de proteção dos Direitos Humanos e, assim, pressiona para sua evolução.

“Cada sessão do TPP é produto de uma demanda por justiça, e o TPP, em si, não é um ponto final, mas o início de um novo momento de luta dos povos que o Tribunal, por meio do veredito, pretende legitimar”, afirmou Simona Fraudatario, secretária geral do TPP.

Para conhecer todos os governos, estados, instituições e empresas condenados pelos crimes de ecocídio do cerrado e genocídio de seus povos, acesse o resumo do veredito.


Informações para imprensa:

Bruno Santiago

comunicacerrado@gmail.com

www.tribunaldocerrado.org.br

www.campanhacerrado.org.br


 Foto: Bruno Santiago/Campanha em Defesa do Cerrado

Júri do Tribunal Permanente dos Povos apresenta veredito em que condena Estado brasileiro e empresas pelos crimes de ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos

Após quase um ano de audiências e discussões sobre 15 casos de violência contra povos e comunidades cerradeiras, o júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado apresentou seu veredito. A divulgação pública do documento foi feita na tarde do dia 10 de julho, último dia da audiência final do TPP, realizada presencialmente em Goiânia (GO).

Povos e comunidades tradicionais cerradeiros presentes à audiência ouviram os nomes de governos, empresas e instituições condenados pelo júri por cometerem os crimes de ecocídio do Cerrado e genocídio cultural de seus povos.

O júri presente em Goiânia, composto pela subprocuradora-geral da República aposentada Deborah Duprat, pela escritora e jornalista Eliane Brum, pela professora venezuelana da Universidade Federal do Pará (UFPA) Rosa Acevedo, pelo professor espanhol da Universidade Rovira i Virgili de Tarragona Antoni Pigrau e pelo jurista francês e presidente do TPP, Philippe Texier, apresentou, de forma contundente e explícita, sua condenação, lida na ocasião por Eliane Brum.

“O Tribunal dos Povos condena o estado brasileiro pela sua contribuição decisiva, por ação e omissão, para o crime de ecocídio do Cerrado que envolve, inevitavelmente, o processo de genocídio dos povos do Cerrado. Por elaborar e implementar políticas e programas de desenvolvimento, nos últimos 50 anos, que concorreram para o grave dano, a destruição e a perda do ecossistema do Cerrado como um todo, cujo impacto provoca perda de benefícios ambientais e sociais para as populações da região e do país, que produz a expulsão ou força o deslocamento das comunidades, produz ameaça de extermínio dos povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais e comunidades camponesas, que têm no acesso às condições metabólicas da região ecológica, na capacidade reprodutiva das terras e dos bens naturais sua condição de existência como povos de identidade diferenciada. O Tribunal Permanente dos Povos condena o estado brasileiro, o atual governo executivo federal, as unidades da federação, instituições públicas federais e estaduais, estados estrangeiros, organizações internacionais, empresas nacionais e transnacionais, de forma objetiva e compartilhada, por sua contribuição à comissão de crimes econômicos, ecológicos, qualificados como crimes de sistema, que têm gerado graves violações a direitos humanos fundamentais e ao meio ambiente, de forma a obstaculizar o acesso a direitos básicos, como à alimentação, água, medicamentos, moradia, trabalho, entre outros.”

   LEIA A SÍNTESE DO VEREDITO CLICANDO AQUI   

Estados estrangeiros, como Japão, China e países que integram a União Europeia, também foram condenados por sua compra massiva de commodities que estão na base da monoculturação do Cerrado. Entre as instituições internacionais, foram condenados o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), e em particular Banco Mundial, pela promoção e legitimação de reformas neoliberais que aprofundam o ecocídio-genocídio cultural no Cerrado

Entre os agentes privados, foram condenadas empresas transnacionais e fundos de investimento/pensão, cujas atividades econômicas estão vinculadas à violação de direitos fundamentais que causam e se beneficiam do ecocídio-genocídio cultural no Cerrado, como Amaggi & Louis Dreyfus Commodities, Bayer-Monsanto, Bunge, Cargill, ChemChina/Syngenta, China Communications Construction Company, China Molybdenum Company, Condomínio Cachoeira Estrondo, Horita Empreendimentos Agrícolas, Mitsui & Co, Mosaic Fertilizantes, SLC Agrícola, Sul Americana de Metais S.A., Suzano Papel e Celulose, TUP Porto São Luís, Vale S.A., e os fundos de investimento TIAA-CREF, Harvard e Valiance Capital.

Após o anúncio do veredito, os jurados apresentaram as recomendações prioritárias às instituições estatais brasileiras.

As sentenças proferidas pelo júri do TPP não têm aplicação dentro do sistema jurídico formal do país em que é realizado. Um governante ou dirigente de uma empresa que sejam considerados culpados por um crime pelo júri do Tribunal não poderá ser preso, por exemplo.

Ainda assim, as sentenças proferidas pelo TPP são de extrema importância para os sistemas de justiça nacionais e internacionais, e para a opinião pública de uma forma geral, uma vez que expõem os vazios e limites do sistema internacional de proteção dos Direitos Humanos e, assim, pressiona para sua evolução.

“Cada sessão do TPP é produto de uma demanda por justiça, e o TPP, em si, não é um ponto final, mas o início de um novo momento de luta dos povos que o Tribunal, por meio do veredito, pretende legitimar”, afirmou Simona Fraudatario, secretária geral do TPP.

O anúncio do veredito aconteceu no terceiro e último dia do julgamento, quase um ano depois do lançamento do TPP do Cerrado no Brasil, em 10 de setembro de 2021, e após a realização de três audiências temáticas: Audiência das Águas, Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade e Audiência sobre Terra e Território, realizada juntamente com a Audiência Final entre os dias 8 e 10 de julho de 2022 em Goiânia (GO).

O terceiro e último dia da Audiência Final do TPP teve início com a apresentação do defensor público estadual no Tocantins Pedro Alexandre Gonçalves, que falou sobre os desafios para a efetivação dos direitos dos povos do Cerrado no âmbito do sistema de justiça brasileiro.

“Sensibilidade às causas dos povos tradicionais só se dá com presença. Não se dá à distância nem de modo virtual. O juiz, promotor, defensor, deve conhecer a realidade das partes. Os membros das nossas instituições não visitam as comunidades. Essa falta de presença do judiciário, do Ministério Público e da própria Defensoria Pública tem trazido insensibilidade. Temos um sistema de justiça que foi pensado tão somente para proteger a propriedade privada. Isso se dá pela perspectiva meramente civilista, e não há uma evolução para a Constituição como centro do sistema jurídico”, afirmou o defensor.

Para ele, a falta de sensibilidade, de presença e de conhecimento, geram decisões injustas e violências que não se coadunam com o melhor direito. “Não se enganem com a virtualização dos processos, principalmente em relação aos conflitos fundiários, isso vai prejudicar ainda mais as comunidades. Pegar relatos via vídeo é muito diferente de visitar as comunidades. Peço desculpas aos povos pela insuficiência do sistema de justiça. Preciso reconhecer que podemos avançar mais.”

A escritora e jornalista Eliane Brum destacou que a ausência de outros representantes do sistema de justiça durante todo o processo do TPP do Cerrado “é uma presença eloquente e muito representativa dos temas que estão sendo tratados aqui”.

Em seguida, o advogado Marcelo Chalréo, conselheiro do CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos), também fez uma fala manifestando a empatia do órgão às lutas dos povos e comunidades tradicionais cerradeiros. “O CNDH está aqui para reafirmar seu compromisso com os povos do Cerrado para que avancemos na construção de uma sociedade digna para que não haja, no médio prazo, explorados e exploradores”.

Três dias históricos

Os dois primeiros dias da Audiência sobre Terra e Território e da Audiência Final do TPP do Cerrado foram marcados pela emoção e indignação dos representantes dos 15 casos apreciados pelo júri do tribunal. Foram dezenas de testemunhos vivos do poder de destruição de governos e de empresas do agro e da mineração que, por meio da grilagem e outros crimes, destituem os povos de suas vidas em todas as dimensões: material, mental e espiritual.

Os processos de grilagem envolvem não apenas a falsificação de documentos, mas também o desmatamento – em geral com o uso do correntão – que “consolida” a grilagem. Também envolvem violências e perseguições dos povos com o uso de milícias privadas e mesmo com o uso de forças policiais do estado, que atuam para proteger e garantir as vontades dos grileiros. A grilagem envolve também a destruição de casas, de plantios, envenenamento com agrotóxicos, paralisação de processos de regularização fundiária – por meio de interferência dos grileiros junto a órgãos como o Incra -, pistolagem, atentados e assassinatos.

Outra estratégia comum de empresas do agronegócio que se apropriam de territórios tradicionais é a contratação de algumas poucas pessoas dos territórios invadidos como funcionários das fazendas. Com isso, geram divisões internas nas comunidades, colhem informações estratégicas e corrompem relações familiares por alguns trocados. Dividem as comunidades por dentro, e assim fica mais “fácil” a expropriação.

A naturalização das violações dos empreendimentos como condição necessária para sua implementação gera um cenário de sofrimento permanente aos povos e seus territórios, e a construção de um futuro – não tão distante – inviável para todo tipo de vida.

Apesar da dor contida nas denúncias feitas pelos representantes dos casos ao júri nos dois primeiros dias da Audiência Final, havia também muita esperança de que a escuta e o veredito do júri do TPP possam provocar uma mudança positiva nos casos, no sentido de que se encaminhem para uma resolução.

“Que o mundo ouça nosso grito de apelo. Nossa luta não é só por terra, mas pelo direito de viver nela”, disse dona Miraci Silva, do Assentamento Roseli Nunes, em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso.

“Que esse júri olhe por nós e faça um encaminhamento para o STF contra o marco temporal, porque nós precisamos da nossa terra para viver. Senão nosso cacique vai morrer, e não vamos ter nem a terra pra enterrar ele”, finalizou Davi Krahô, vice-cacique da aldeia Takaywrá, no Tocantins.


 Cobertura colaborativa: Coletivo de Comunicadores/as do Cerrado

Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000

“Nossa luta não é só por terra, mas pelo direito de viver nela”. Saiba como foi o segundo dia da Audiência Final do TPP do Cerrado

Na manhão do segundo dia (09/07) da Audiência Terra e Território e Audiência Final do TPP no Cerrado, ouvimos as angústias e enfrentamentos de povos e comunidades que lidam diariamente com a invasão de empresas e governos em seus territórios. Foram apresentados os casos de Fechos de Pasto (BA), das comunidades quilombolas de Cocalinho e Guerreiro (MA), do assentamento Viva Deus (MA), dos povos indígenas Guarani, Kaiowá e Kinikinau (MS), de ribeirinhos e brejeiros e do povo indígena Akroá-Gamella (PI).
 
Os processos de grilagem envolvem não apenas a falsificação de documentos, mas também o desmatamento – em geral com o uso do correntão – que “consolida” a grilagem. Também envolvem violências e perseguições dos povos com o uso de milícias privadas e mesmo com o uso de forças policiais do estado, que atuam para proteger e garantir as vontades dos grileiros. A grilagem envolve também a destruição de casas, de plantios, envenenamento com agrotóxicos, paralisação de processos de regularização fundiária – por meio de interferência dos grileiros junto a órgãos como o Incra -, pistolagem, atentados e assassinatos.
 
Uma estratégia também comum de empresas do agronegócio que se apropriam de territórios tradicionais é a contratação de algumas poucas pessoas dos territórios invadidos como funcionários das fazendas. Com isso, geram divisões internas nas comunidades, colhem informações estratégicas e corrompem relações familiares por alguns trocados. Dividem as comunidades por dentro, e assim fica mais “fácil” a expropriação.
 
As denúncias feitas pelos representantes dos casos ao júri na manhã de hoje estavam carregadas de emoção e sofrimento, mas também de esperança de que a escuta e o veredito do júri do TPP possam provocar uma mudança positiva nos casos, no sentido de que se encaminhem para uma resolução.
 
Mineração e monocultivo
 
A segunda parte do dia teve início com a fala do geógrafo Eduardo Barcelos, que compõe o conjunto de relatores de acusação. Barcelos apresentou dados sobre a exaustão das águas do Cerrado pelos projetos de monocultivo de soja, principalmente. Segundo ele, 92% dos pivôs centrais do Brasil estão no Cerrado, sacrificando para fins privados o bem vital que é de todos.
 
Maiana Maia, da FASE, também relatora de acusação, deu sequência às informações sobre o conteúdo das acusações, que irão subsidiar o veredito do júri. A pesquisadora deu especial enfoque às violências cometidas pelas mineradoras. De acordo com ela, mais de 30% dos processos minerários ativos no Brasil estão no Cerrado, o que corresponde a 60 milhões de hectares, uma área maior do que a França. As reiteradas tragédias com barragens de rejeitos da mineração demonstram a instrumentalização do Estado pelas empresas mineradoras, que continuam impunes e operando normalmente.
 
Em seguida, foram apresentados os casos de Vale das Cancelas (MG), de Macaúba (GO), do Assentamento Roseli Nunes (MT), dos povos indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela (TO) e dos ribeirinhos de Cachoeira do Choro (MG).
 
Todos deram testemunho das destruições causadas pelas mineração em seus territórios: desmatamentos, expulsões, processos judiciais, intimidações, contaminações, mortes e tragédias anunciadas, como as de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais. As violências e destruições reverberam sobre os corpos e mentes, e também sobre o espírito de povos e comunidades tradicionais.
 
A naturalização das violações dos empreendimentos como condição necessária para sua implementação gera um cenário de sofrimento permanente aos povos e seus territórios, e a construção de um futuro – não tão distante – inviável para todo tipo de vida.
 
“Que o mundo ouça nosso grito de apelo. Nossa luta não é só por terra, mas pelo direito de viver nela”, disse dona Miraci Silva, do Assentamento Roseli Nunes, em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso.
“Que esse júri olhe por nós e faça um encaminhamento para o STF contra o marco temporal, porque nós precisamos da nossa terra para viver. Senão nosso cacique vai morrer, e não vamos ter nem a terra pra enterrar ele”, finalizou Davi Krahô, vice-cacique da aldeia Takaywrá, no Tocantins.

Cobertura colaborativa: Coletivo de Comunicadores/as do Cerrado

Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000

Não há Cerrado sem povos, nem povos sem Cerrado: saiba como foi o primeiro dia da audiência final do TPP

Finalizamos o primeiro dia desse evento histórico que povos e comunidades tradicionais do Cerrado estão protagonizando: a audiência final do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.

O evento começou com a apresentação do contexto da denúncia de ecocídio do Cerrado e genocídio cultural de seus povos, e também da relatoria de acusação, com dados sobre os impactos das violações sobre a terra, os territórios e sobre a vida dos povos e comunidades tradicionais. Em seguida, representantes de quatro dos 15 casos apresentaram suas denúncias ao júri do TPP. Foram os casos dos Geraizeiros do Alto Rio Preto (BA), dos Retireiros e Retireiras do Araguaia (MT), de moradores da Serra do centro (TO) e do Cajueiro (MA).

O período da tarde foi dedicado às perguntas do júri aos representantes dos casos, com o objetivo de colher detalhes das denúncias para subsidiar o veredito, a ser anunciado publicamente dia 11 de julho. O anúncio será transmitido ao vivo pelas redes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado durante coletiva de imprensa.

Estratégias que se repetem

Embora os casos apresentados se deem em diferentes estados do Cerrado – Tocantins, Mato Grosso e Maranhão –, ficou evidente nas respostas dos representantes dos casos ao júri que as estratégias de governos e empresas para expropriar terras e bens naturais se repetem.

É comum, por exemplo, que empresários contratem jagunços para ameaçar e atacar os povos em seus territórios, provocando sua morte ou expulsão das terras, como é o caso dos geraizeiros do Alto Rio Preto, na Bahia, perseguidos por funcionários da fazenda Estrondo, de monocultivo de soja. Com o esvaziamento das comunidades, muitos empresários alegam, em suas ações judiciais, que os territórios que apresentam como sendo seus não são ocupados por ninguém.

Também é recorrente nos casos apresentados no primeiro dia de audiência que políticos e empresários interessados na exploração capitalista de territórios tradicionais encontrem em membros do judiciário aliados estratégicos nas expropriação das terras. São comuns as decisões judiciais ilegais, que explicitamente favorecem empresas às custas da violação dos direitos dos povos, como foi denunciado por moradoras e moradores da comunidade Cajueiro, na zona rural de Sõa Luís, capital maranhense.

“Se esses povos não podem estar nos seus territórios, não será possível a reprodução e permanência do Cerrado. Não há Cerrado sem povos, não há povos sem Cerrado”, afirmou uma das relatoras de acusação Marcela Vecchione, professora e pesquisadora no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA.

Lidiane Sales, retireira do Araguaia, afirma que a luta dos povos é física, porque seus territórios – e seus corpos – estão sendo cobiçados e cercados por toda sorte de empreendimentos. No caso da comunidade retireira de Mato Verdinho, que fica em Luciara (MT), onde vive Lidiane, até o setor hoteleiro tem invadido as terras tradicionais para instalar empreendimentos para classes abastadas.

A expansão do agronegócio tem atingido as comunidades por todos os lados, inclusive pelo céu, por meio da pulverização de veneno com o uso de aviões, como tem acontecido com a comunidade de Serra do Centro, cercada pela soja no Tocantins.

Depois de responderem às questões do júri, representantes dos casos apresentados no primeiro dia de audiência, e também de casos que se apresentarão nos próximos dias de evento, detalharam outras consequências da falta de titulação e demarcação de seus territórios tradicionais.

O segundo dia de audiência final será dedicado à apresentação de outros seis casos: Fechos de Pasto (BA), Cocalinho e Guerreiro (MA), Viva Deus (MA), Guarani, Kaiowá e Kninikinau (MS), Ribeirinhos e Brejeiros e Akroá-Gamella (PI) e Veredeiros (GO).

Acompanhe ao vivo no YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.


Cobertura colaborativa: Coletivo de Comunicadores/as do Cerrado

Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000

Em seu quarto episódio, Podcast Justiça que Brota da Terra aborda Ecocídio do Cerrado e Genocídio Cultural de seus povos

Está no ar o quarto episódio do podcast Justiça que Brota da Terra, uma produção da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, que trata de um tema que é central no Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado (TPP), e que diz respeito a cada um dos povos ligados a esta savana, e nela encontra sua identidade, força e sustento.

Nós vamos falar do ecocídio do Cerrado e da ameaça de genocídio cultural dos povos cerradeiros, elementos centrais da acusação que a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado fez ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP). Para isso, ouvimos nosso companheiro Leandro Santos, do Quilombo Cocalinho, município de Parnarama, no Maranhão, e a companheira Aliene Barbosa, dos fechos de pasto de Correntina, no oeste da Bahia.

A locução deste episódio é de Zica Pires, mulher preta quilombola, filha da Guiné Bissau e do quilombo Santa Rosa dos Pretos, em Itapecuru-Mirim, zona de transição entre a Amazônia e o Cerrado maranhense.

Saiba mais sobre a acusação do Tribunal dos Povos do Cerrado e acompanhe a Audiência Final entre os dias 8 e 10 de julho de 2022: https://bit.ly/3bIS4Sl


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Ecocídio do Cerrado e Genocídio [cultural] de seus povos: quem está sendo acusado de cometer esses crimes?

A acusação da Campanha Nacional em Defesa dos Cerrado ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) aponta como responsáveis pelos crimes Estados e entes nacionais, Estados estrangeiros, organizações internacionais e agentes privados, como empresas transnacionais e fundos de investimento. A mineração e o agronegócio – de modo especial o monocultivo da soja para exportação – figuram como principais disparadores de violências contra o Cerrado e seus povos.

O Estado brasileiro aparece como agente principal do ecocídio-genocídio cultural no Cerrado, por suas ações e omissões e pelas demais violações de direitos. O atual governo executivo federal de Jair Messias Bolsonaro, pelo desmonte de políticas e direitos.

Além disso, estados da federação brasileira e instituições públicas federais e estaduais também aparecem como responsáveis por corroborarem, a partir das suas atuações específicas, com o ecocídio-genocídio cultural no Cerrado.

Também estados Estados estrangeiros, como Japão, China e países que integram a União Europeia, aparecem como responsáveis por sua compra massiva de commodities que estão na base da monoculturação do Cerrado.

Para conhecer a lista completa de acusados, incluindo instituições públicas e empresas nacionais e estrangeiras, acesse a peça de acusação completa que servirá de subsídio ao júri do TPP:


Peça de acusação final:

PARTE 1 – Contexto justificador da acusação de Ecocídio-Genocídio [Cultural] no Cerrado

PARTE 2 – Violações sistemáticas de direitos dos povos do Cerrado no contexto dos casos representativos do processo de Ecocídio-Genocídio [Cultural] no Cerrado

PARTE 3 – Direitos violados, responsabilização e recomendações


Audiência Final e veredito do Júri

Após quase um ano de seu lançamento no Brasil, em 10 de setembro de 2021, o Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado está prestes a realizar sua terceira e última audiência, durante a qual será apresentado o veredito do júri. Entre os dias 8 e 10 de julho, na cidade de Goiânia (GO), o evento será realizado de maneira híbrida, em formato presencial e virtual, com transmissão pelas redes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

A Coletiva de imprensa para apresentação pública do veredito final do júri do Tribunal dos Povos do Cerrado acontecerá dia 11 de julho, na cidade de Goiânia (GO), das 8:30 às 10:00 (horário de Brasília), também em formato híbrido (presencial e virtual). Se você é jornalista ou comunicadora/or e quiser participar, preencha o formulário a seguir até o dia 8 de julho: https://forms.gle/kDQ8XCVDdJbr1rfS6

Saiba mais sobre a Audiência Final: https://bit.ly/3beYFU9


Contato para imprensa: comunicacerrado@gmail.com

Em nota, Tribunal Permanente dos Povos (TPP) condena ataques aos povos Guarani e Kaiowá

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No primeiro dia de julho, o Tribunal Permanente dos Povos (TPP) publicou uma nota em seu site oficial condenando os ataques aos Guarani e Kaiowá cometidos em 24 de junho por policiais militares e fazendeiros de Mato Grosso do Sul no território de Retomada Guapo’y, município de Amambai. O ataque matou o indígena Vitor Fernandes, e deixou mais de 10 pessoas feridas, muitas delas gravemente.

Em sua carta, o TPP diz que além expressar sua profunda condenação aos responsáveis materiais pelos ataques e às instituições por trás do massacre, também “examinará este acontecimento para seu veredito final com o objetivo de afirmar o reconhecimento dos direitos invioláveis dos povos de Mato Grosso do Sul e de todo o Cerrado.”

Confira, abaixo, a nota na íntegra:


La  trágica noticia de la “Masacre de Guapoy”,  cometida el 24 de junio de 2022 y documentada por testimonios e informes de la Campaña Nacional en Defensa del Territorio del Cerrado, ha llegado al Tribunal Permanente de los Pueblos en medio de la última fase de la sesión sobre los derechos humanos, ambientales y territoriales de los pueblos del Cerrado, confirmando así (más allá y por encima de las previsiones más pesimistas) la acusación sobre el proceso en curso de negación de la existencia de los miembros de las comunidades a las que pertenecen los territorios.
 

Además de expresar la profunda condena a los responsables materiales y aún más a los institucionales de la masacre, el TPP examinará para su veredicto final este acontecimiento con el fin de afirmar el reconocimiento de los derechos inviolables de los pueblos del Mato Grosso do Sul y de todo el Cerrado.

Roma, 1 de julio de 2022

Gianni Tognoni, Secretario general


O TPP julgará os crimes de ecocídio do Cerrado e genocídio cultural de seus povos cometidos por governos e empresas nacionais e estrangeiros. A audiência final do TPP no Cerrado acontecerá entre os dias 8 e 10 de julho em Goiânia (GO). Em 25 de maio, o TPP também julgou os crimes contra a Humanidade cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. O veredito do julgamento deve sair em julho.

Saiba mais sobre a audiência do TPP no Cerrado: https://tribunaldocerrado.org.br/ 


 Foto: Povo Guarani e Kaiowá

O terceiro episódio do Podcast Justiça que brota da Terra está no ar!

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O Tribunal Permanente dos Povos chegou e o que mudou nos territórios e comunidades do Cerrado?

O terceiro episódio do podcast Justiça que Brota da Terra nos convida a ouvir as vozes de Eliana Marques, Ariana Gomes e Davy Krahô. Eles são testemunhas do crime de ecocídio contra o Cerrado e da ameaça de genocídio cultural dos seus povos cometidos por Estados nacionais e internacionais e por empresas do agronegócio e da mineração. Desde o ano passado, Eliana, Ariana e Davi têm denunciado esses crimes ao Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado, e hoje eles nos contam quais mudanças têm percebido nos territórios após seus casos serem apresentados e discutidos no Tribunal.

O programa é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Este episódio foi apresentado por Zica Pires, mulher preta quilombola, filha da Guiné Bissau e do quilombo Santa Rosa dos Pretos, no Maranhão. O roteiro é de Bruno Santiago e Sabrina Duran e edição de áudio de Carlos Vinicius Santos.

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Saiba mais sobre o TPP: www.tribunaldocerrado.org.br

Em carta pública, Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá cobra justiça ao estado brasileiro diante do massacre de Guapoy

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Foto: Povo Guarani e Kaiowá

Em carta pública divulgada hoje, dia 25 de junho, a Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá – Aty Guasu cobra investigação e clama por justiça ao estado brasileiro diante dos ataques, crimes e violações de direitos que ocorreram ontem (24) no território de retomada Guapoy, no município de Amambai (MS).

De acordo com informações da Aty Guasu e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), policiais e fazendeiros invadiram o território na manhã do dia 24/06, sem ordem judicial, com o objetivo de expulsar os indígenas que haviam iniciado o processo de retomada da área no dia 23/06. Até o momento, segundo informações da Aty Guasu apuradas pelo CIMI, “há pelo menos dois mortos, podendo ser maior o número (a comunidade fala em pelo menos 04), e ao menos 10 feridos”.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado expressa seu profundo pesar e se solidariza com os povos Guarani e Kaiowá. Unimos nossas vozes aos clamores e denúncias que a Assembleia Aty Guasu manifesta neste momento de profunda dor e indignação. Divulgamos, abaixo, a carta publicada pela organização indígena:


NOSSO SANGUE CLAMA POR JUSTIÇA!

A Grande Assembleia da Aty Guasu Guarani e Kaiowa vem a público trazer sua dor e total revolta e indignação com a ação covarde da PM e do Estado do Mato Grosso do Sul contra a comunidade e território de Guapoy.

Este ataque já está sendo chamada em todos os nossos territórios de Massacre de Guapoy.

Em mais uma ação ilegal da PM que tem agido como Cão de Guarda do ruralismo e da corja política ruralista no Estado, foram atacados crianças, jovens, idosos, famílias que decidiram, depois de muito esperar sem alcançar seu direito, retomar um território que sempre foi deles e que foi roubado no passado de nosso povo.

As imagens do Massacre falam por sí e são de fazer doer a alma do mais duro dos seres humanos. Tiros em jovens desarmados, violações a pessoas rendidas, disparos de helicóptero, tudo isso inclusive com uso de munição letal, deram o tom da covardia levada a cabo por um corpo policial que atuou sem mandado de reintegração de posse.

Inclusive é preciso denunciar que são dezenas de ações de despejo ilegal realizadas no mesmo modelo contra os povos do MS, sejam eles Kaiowa, e também contra outros povos como os Kinikinau, desde 2016, apenas não sendo maior o número porque na pandemia nos deixaram para morrer por falta de iniciativa de saúde do Estado, não precisando os policiais irem fazer o serviço sujo.

Logo na sequência do Massacre, típico de quem se adianta para esconder e acobertar o próprio crime, o secretário de segurança do convocou uma coletiva de imprensa cheia de mentiras e absurdos – chavões antigos que destilam preconceito contra nós, como associação de indígenas com drogas e sendo colocados genericamente como paraguaios – que nem mesmo se sustentam frente as inúmeras imagens que já vão ganhando o mundo.

Será que a criança , caída atingida por uma bala de borracha, que consiste em uma das imagens corresponde ao tráfico de drogas? Já são dois mortos, podendo ser maior o número (a comunidade fala em pelo menos 04) e ao menos 10 feridos. Nos solidarizamos ao mesmo tempo com o ataque realizado -no mesmo dia do Massacre contra a comunidade de Kurupi\Santiago Kue, onde a PM junto com fazendeiros abriu fogo contra famílias, por pouco não causando o mesmo estrago.

Nós, da Aty Guasu, levaremos a todas as esferas esse Massacre e não desistiremos até que os responsáveis sejam punidos e responsabilizados. Exigimos a imediata prisão e responsabilização do Governador do Estado do MS, do comando da BOP/PM, e do secretário de segurança do Estado do MS.

Da mesma forma, queremos e exigimos a investigação e prisão de mais três pessoas. Do servidor Nilton da Funai de Amambai e do servidor José da funai de Ponta Porã por coparticipação e facilitação do Massacre. Neste sentido, nossa dor não termina e diante dos áudios e provas, também pedimos a investigação e prisão do Capitão da reserva de Amambai, por facilitação do massacre. Não podemos permitir que divisões internas sejam instrumentalizadas pelo Poder Público e que isso nos tire a vida.Ainda em tempo, exigimos que o MPF de Ponta Porã, que tem se mostrado lento em compreender a realidade imposta, assuma seu dever em defender nossos direitos imediatamente, sob o risco de ser conivente com todos estes atos de violência contra nosso povo.

Aty Guasu, 25 de junho de 2022.

Insegurança na posse da terra inviabiliza vida integral e plena de indígenas e quilombolas

A morosidade, disparidade de dados e outros entraves burocráticos sistemáticos de governos e suas instituições serão objeto de denúncia da Campanha ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado entre os dias 8 e 10 de julho, durante a audiência temática Terra e Território e a audiência final.

A terra e o território são realidades e dimensões imprescindíveis à vida integral e plena dos povos indígenas e quilombolas. Desde a invasão dos europeus em 1500, a luta primordial dos povos indígenas tem sido pelo direito de permanecer em suas terras ancestrais, e a luta dos povos quilombolas, aqui, é a de permanecer nas terras onde seus antepassados aprenderam a viver e a pertencer após o sequestro em África.

É por causa dessa vital importância da terra e território para a vida desses povos que, do outro lado, governos e empresas se empenham em reduzir a quantidade de terras sob seus pés: indígenas e quilombolas protegem a biodiversidade nos territórios onde estão, e por isso são vistos como entraves à voracidade expropriadora do agronegócio, da mineração e de governos aliados a esses setores econômicos.

Seja pela supressão ou não concretização de direitos, seja pelos cercamentos, incêndios, pulverização de veneno, desmatamentos, ameaças de morte e assassinatos, setores privados e governos estão há centenas de anos se apropriando de terras ancestrais – como em 1500 – para obter lucros e vantagens privadas.

Morosidade burocrática e disparidade de dados: estratégias de apropriação de territórios tradicionais

A morosidade de processos burocráticos para demarcar e titular Terras Indígenas (TIs) e territórios quilombolas, respectivamente, e a invisibilização de povos e seus territórios em estatísticas oficiais, são estratégias político-jurídicas utilizadas pelos governos para seguir privando os povos de seu direito originário à terra. Ao gerar insegurança fundiária, os poderes Executivo e legislativo da União e dos estados respaldam invasores em suas investidas sobre terras indígenas e quilombolas, viabilizando a transferência, por meio da grilagem, dessas terras às mãos dos invasores e impedindo, assim, a vida plena dos povos em seus territórios.

Dados analisados pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado mostram bem essas duas dimensões. A base de dados da Funai (Fundação Nacional do Índio) aponta a existência de 127 Terras Indígenas (TIs) no Cerrado contínuo e 93 nas zonas de transição, somando 220 TIs. Desse total, 134 estão regularizadas, ou seja, foram registradas em cartório em nome da União e na Secretaria do Patrimônio da União após o decreto de homologação. As 134 TIs regularizadas pela Funai no Cerrado e suas zonas de transição somadas chegam a aproximadamente 27 milhões de hectares, ou 25,23% dos 107 milhões de hectares de TIs regularizadas pelo órgão indigenista em todo o país.

Contudo, ao tomarmos um cruzamento das bases da Funai com as do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que considera os territórios reivindicados pelos povos indígenas independente de seu reconhecimento pelo Estado brasileiro, encontramos 156 territórios indígenas no Cerrado contínuo e 180 nas áreas de transição, totalizando 338 territórios, 53% a mais do que as indicadas pela Funai. Um problema importante da base da Funai é o fato de que não há divulgação de planilhas consolidadas com a evolução anual das estatísticas.

Demora que gera violência

De acordo com  o  Decreto Federal nº 1.775/96, a demarcação da TI envolve o processo administrativo para identificar e delimitar o território tradicionalmente ocupado pelos povos indígenas. Para que isso ocorra, primeiro o povo reivindica o processo de demarcação junto à Fundação Nacional do Índio (Funai), que registra e qualifica a demanda para alinhar encaminhamento por parte de servidores, membros do setor do órgão responsável pela delimitação e identificação. Após, é instituída a portaria que forma Grupo de Trabalho (GT) especializado, composto por equipe multidisciplinar e povos indígenas, que ficará responsável pelo processo de identificação e delimitação da TI.

Entre todas as etapas do processo de demarcação da TI, há espaço de contraditório judicial e administrativo para estados e municípios onde estejam as TIs possam se manifestar. Especificamente nesta etapa da formação e da publicação dos trabalhos do GT, manifestam-se muitos contraditórios mobilizados por proprietários rurais ou outros sujeitos, especialmente realizadores de atividades econômicas agrícolas e extrativas, interessados ou efetivamente já ocupando as áreas de ocupação tradicional indígena.

Dessa maneira, muitas vezes as terras sob o trabalho do GT ficam caracterizadas por longos períodos como terras em estudo, não apenas atrasando o processo demarcatório, mas configurando a consolidação de posses irregulares sobre o território tradicionalmente ocupado, quase sempre gerando processos violentos de renitente esbulho possessório e deslocando as pessoas das terras. O fato de as terras estarem em estudo, igualmente, atrasam a colocação e registro das informações de delimitação nas bases fundiárias, reforçando factualmente e, mais tarde juridicamente, a consolidação da posse de outros sujeitos para outros usos sobre as terras tradicionalmente ocupadas.

Assim, ficando muito tempo em estudo, as TIs não podem passar à fase onde seus limites e existência são oficialmente declarados, via a fase da portaria declaratória, impedindo a etapa administrativa posterior que é a efetiva demarcação pela União  da TI, levando posteriormente a sua homologação por ato de sanção do Poder Executivo e, por fim, ao seu registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), como terra da União, mas em posse e usufruto exclusivo do povo, ou povos indígenas, que reivindicou o processo de demarcação.  

Quilombolas

Em comparação aos povos indígenas, a insegurança da posse da terra e a invisibilidade das comunidades quilombolas é ainda mais gritante. No seu aniversário de 26 anos, comemorado no dia 13 de maio de 2022, a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq) lembrou que “atua junto a 5.972 quilombos presentes em 1.674 municípios de 24 Estados, em todas as Regiões e Biomas do Brasil”. As políticas de reconhecimento e titulação, no entanto, estão muito aquém das necessidades dessas milhares de comunidades.

A primeira fase para o processo de titulação do território quilombola é a certificação emitida pela Fundação Cultural Palmares (FCP) a partir da reivindicação das comunidades. Há 2.837 certidões de autorreconhecimento emitidas, as quais correspondem a 3.495 comunidades quilombolas identificadas no Brasil, um número cerca de 40% menor do que o total de comunidades identificadas pela Conaq (5.972).

Das certidões expedidas, 340 localizam-se no Cerrado contínuo e 454 nas zonas de transição. Essas comunidades começaram a ser certificadas a partir do Decreto Federal nº 4.887/2003, que regulamenta a titulação de territórios quilombolas, chegando a um pico de 395 certificações em 2006, com uma queda brusca da média anual a partir da posse de Jair Bolsonaro. Há atualmente 89 processos de certificação abertos no FCP para emissão de certidão para comunidades localizadas no Cerrado e zonas de transição.

A situação da titulação de territórios das comunidades quilombolas no Brasil e no Cerrado é crítica:

– No âmbito nacional, das 2.837 certificações emitidas, apenas 176 resultaram na titulação total ou parcial do território até novembro/2021, o que corresponde a 6,2% do total e 309 aguardam processos em andamento no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária);

– Das 340 certificações emitidas no Cerrado contínuo, somente 7 resultaram em titulação total ou parcial do território (2,05% do total) e outras 31 aguardam seus processos em andamento no Incra. As demais sequer tiveram seus procedimentos demarcatórios iniciados;

– Das 454 certificações emitidas nas zonas de transição do Cerrado, somente 25 resultaram em titulação total ou parcial do território (5,5% do total) e outras 41 aguardam seus processos em andamento no Incra;

– Dos 7 territórios titulados no Cerrado contínuo, 4 tiveram seus procedimentos realizados pelos órgãos estaduais de terras (Cemig em Minas Gerais, Iterma no Maranhão, Idaterra no Mato Grosso do Sul e Itertins no Tocantins). Dos 25 territórios titulados nas zonas de transição, 18 estão no Maranhão, 15 dos quais titulados pelo Iterma. Ou seja, os poucos territórios titulados puderam contar mais com os órgãos estaduais de terras do que com o órgão fundiário federal (Incra);

– A última titulação realizada pelo Incra de uma comunidade quilombola situada no Cerrado foi em maio/2018, quando foram expedidos 04 títulos referentes a imóveis que integram o Território Kalunga (GO).

A gravidade da situação das centenas de comunidades quilombolas sem título é refletida no fato de que, enquanto os 32 territórios quilombolas titulados no Cerrado e suas zonas de transição asseguraram 49.737,73 (uma média de 1.554,30 ha por território titulado), os 72 processos em andamento reivindicam 709.666,35 hectares (uma média de 9.856,48 ha) que beneficiariam 11.308 famílias. Isso mostra a disparidade média entre o que se reivindica em termos de área e o que de fato se titula. Tudo isso sem mencionar as tantas comunidades cujos processos de titulação sequer foram iniciados e a grande subnotificação que existe nestes dados, tendo em vista que das 794 certidões de comunidades quilombolas no Cerrado, apenas 89 possuem no banco de dados do Incra e/ou da FCP referência ao tamanho do território e à quantidade de família.

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Povos e comunidades tradicionais

A situação dos direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais (PCTs) é ainda mais precária e complexa. Apesar da Constituição de 1988 já estabelecer os fundamentos para o reconhecimento dos PCTs e titulação de seus territórios tradicionais – depois reafirmados pela internalização da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) (Decreto Legislativo nº 143 de 2002) e pelo Decreto Federal 6.040/2007 – nenhum desses instrumentos criou um procedimento, o que, ainda que não seja condição para a realização do direito (que é autoaplicável), abriu espaço para a inação do Estado. Não há, portanto, um levantamento confiável, em nível federal, de quantas comunidades tradicionais, dos diversos segmentos, existem no Brasil ou no Cerrado.

Foi em nível estadual, em especial em Minas Gerais, Bahia e Piauí, que as normas avançaram mais no sentido da criação de procedimentos. Como a lei piauiense é mais recente, apresentamos os dados que conseguimos obter a respeito da situação dos PCTs do Cerrado mineiro e baiano, como uma expressão da invisibilidade generalizada dessas populações no país.

Na Bahia, as comunidades tradicionais de fundos e fechos de pasto são cadastradas pela Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPROMI). Até março de 2021 o quadro do andamento destes processos era o seguinte: 118 comunidades com procedimentos abertos em tramitação na SEPROMI; 91 comunidades com procedimentos abertos aguardando apenas despacho do Governador para conclusão e 758 comunidades com a certificação expedida. Destes, 231 processos referem-se a comunidades localizadas no Cerrado (cerrado contínuo e transições), sendo:

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Dos 08 estados aos quais foram enviadas perguntas sobre a situação do autorreconhecimento e da garantia do direito ao território das comunidades tradicionais (Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Piauí, Tocantins), 03 deles enviaram respostas: Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Do ponto de vista fundiário, somente 02 comunidades tradicionais de fundos e fechos de pasto celebraram Contratos de Concessão de Direito Real de Uso com o Estado da Bahia até o momento, porém não estão localizadas no Cerrado.

Quanto aos processos de certificação no Estado de Minas Gerais, foi informada pela Comissão Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais (CEPCT) a existência de 43 processos, sendo que 29 são referentes a comunidades situadas em municípios onde predominam o Cerrado contínuo e suas transições (67,44%), assim distribuídos:

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Importa destacar que alguns dos certificados correspondem a mais de uma comunidade. As informações fornecidas revelam ainda que das 29 certificações acima indicadas, 05 referem-se a comunidades que se autoidentificam como pertencentes ao segmento das apanhadoras de flores sempre viva; 04 congendeiras; 09 geraizeiras; 02 de matriz africana e povos de terreiro; 04 vazanteiras e pescadoras; e 04 veredeiras.

Quanto à regularização dos territórios tradicionais, a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SEAPA) informou a existência de 14 comunidades tradicionais que se identificam como apanhadoras de flores, pesqueiras, vazanteiras, geraizeiras e/ou agroextrativistas[1] com processos de regularização fundiária em curso. Deste universo, 09 encontram-se no Cerrado contínuo, 01 nas transições do Cerrado e 04 em outros biomas. A Secretaria indicou que os processos estão aguardando a elaboração do RTID para que seja dado prosseguimento.

No caso do Estado de Goiás, o relatório apresentado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDS) consta uma relação de 78 povos originários e comunidades tradicionais que foram visitadas e nas quais houve coleta de dados sobre saneamento, renda, acesso à saúde e à educação, entre outros. Nesta lista havia 86 comunidades quilombolas, 04 terras indígenas, 05 comunidades de terreiro, 06 povos ribeirinhos e 01 comunidade cigana, das quais 03 se localizam nas transições do Cerrado e todas as demais estão em cidades nas quais predomina o Cerrado contínuo. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDS) estima que 14.246 famílias integram estes grupos culturalmente diferenciados em Goiás, o que corresponde a aproximadamente 57.922 pessoas.

Nos dados publicizados pelo Estado do Mato Grosso do Sul, constam 22 comunidades quilombolas e 40 terras indígenas, embora cabe ressaltar que, como esses dados são também documentados por FCP/Incra e Funai respectivamente, já constam da sistematização que fizemos aqui. Foi informado ainda que os dados sobre as comunidades ribeirinhas ainda estavam sendo estratificados. Por fim, é importante apontar a dificuldade de obtenção dos dados relacionados aos povos e comunidades tradicionais no âmbito dos estados, uma vez que não há divulgação de informações consolidadas e atualizadas nos sites, sendo necessário solicitar por e-mails aos órgãos responsáveis.

No entanto, apesar dos problemas com os dados, o cruzamento das diversas bases demonstram a sistemática não titulação dos territórios tradicionais, deixando os povos do Cerrado vulneráveis à ameaça de genocídio cultural no processo de ecocídio, provocado sobretudo pela expansão da fronteira agrícola, minerária e logística no último meio século.

Denúncia ao TPP

A morosidade, disparidade de dados e outros entraves burocráticos sistemáticos utilizados como estratégia política e jurídica por governos e suas instituições para enfraquecer e expulsar povos e comunidades tradicionais de suas terras serão objeto de denúncia da Campanha ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado entre os dias 8 e 10 de julho, durante a audiência temática Terra e Território e a audiência final.

A audiência temática apresentará denúncias centradas nos processos de desmatamento e grilagem de imensas porções de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região como processos provocadores do racismo fundiário e ambiental para os povos. Para esta audiência, serão apresentados os 15 casos analisados pelo Tribunal.

Saiba mais sobre as audiências temática e final aqui.


Foto: Bruno Santiago/Acervo CESE

Tribunal do Cerrado aproxima-se da audiência final e do veredito do júri

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Audiência final será realizada em Goiânia (GO) entre os dias 8 e 10 de julho, e deve contar com a participação de 150 pessoas.

Após quase um ano de seu lançamento no Brasil, em 10 de setembro de 2021, o Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado está prestes a realizar sua terceira e última audiência temática e a audiência final, durante a qual será apresentado o veredito do júri.

Entre os dias 8 e 10 de julho, na cidade de Goiânia (GO), a audiência temática sobre Terra e Território e a audiência final serão realizadas de maneira híbrida, presencial e virtual, com transmissão pelas redes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

A atividade presencial contará com um público de 150 pessoas, entre representantes de povos e comunidades tradicionais, membros do júri, entidades membros da Campanha, além de comunicadoras e comunicadores populares que acompanham e difundem conteúdos do Tribunal do Cerrado desde seu lançamento.

Audiência sobre Terra e Território: quatro casos emblemáticos

A terceira e última audiência do TPP apresentará denúncias centradas nos processos de desmatamento e grilagem de imensas porções de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região como processos provocadores do racismo fundiário e ambiental para os povos.

Para esta audiência, serão apresentados os 15 casos analisados pelo Tribunal. Quatro deles ainda não foram discutidos nas duas audiências anteriores. Conheça detalhes deles:

O primeiro caso é o das Comunidades Tradicionais Geraizeiras do município de Formosa do Rio Preto, na Bahia, que há décadas lutam pelo reconhecimento de seus territórios tradicionais. As comunidades enfrentam um conflito histórico com o Condomínio Cachoeira Estrondo, liderado pela família do empresário Ronald Levinsohn (falecido em 2020) e por grande sojicultores (família Horita e outros), que, utilizando da estratégia da grilagem de terras públicas, promove, em articulação com forças públicas e privadas de segurança, há pelo menos 45 anos, expulsões, apropriação ilegal de terras, desmatamentos, contaminação das águas, cerceamento do direito de ir e vir, controle territorial, roubo e morte de animais, violências físicas e psicológicas, ameaças e tentativas de assassinatos de lideranças.

O segundo caso é o das comunidades camponesas do Território Tradicional da Serra do Centro, no município de Campos Lindos, no Tocantins, que lutam pela titulação do território tradicional, enquanto enfrentam a grilagem, contaminação por agrotóxicos, ataques e ameaças pelos empreendimentos de monocultivos de soja de produtores do agronegócio e especuladores imobiliários, beneficiados pelo Projeto Agrícola Campos Lindos, que tem apoio do estado do Tocantins, e pela compra da soja pela empresa Cargill.

O terceiro caso é o da Comunidade retireira do Araguaia do território Mato Verdinho, no município de Luciara, no Mato Grosso. A comunidade luta pelo reconhecimento e titulação do seu Território Tradicional Retireiro, enquanto enfrenta crescente cercamento de suas áreas de uso comunal e coletivo nos varjões do Araguaia por especuladores imobiliários, grileiros de terra e apropriadores da água para empreendimentos de pecuária e monocultivos de soja e, mais recentemente, a ameaça do Projeto Luciara, proposto no marco do Zoneamento Econômico-Ecológico (ZEE) do Mato Grosso, um projeto de monocultivo de arroz inspirado no Projeto Rio Formoso no Araguaia tocantinense.

O quarto e último caso ainda a ser apresentado em detalhes na audiência temática sobre Terra e Território entre 8 e 10 de julho é o das Comunidades Tradicionais Pesqueiras e Agroextrativistas do Território Tradicional do Cajueiro, na zona rural do município de São Luís, capital do Maranhão. As 11 comunidades que formam o território lutam pela oficialização da Reserva Extrativista Tauá-Mirim, autodeclarada em maio de 2015, enquanto sofrem desapropriações, derrubadas de casas destruição do território pesqueiro-extrativista e ameaças provocadas pelo conflito com o projeto logístico portuário da empresa TUP Porto São Luís e da chinesa China Communications Construction Company (CCCC), que têm apoio do estado do Maranhão e prefeitura para escoamento de commodities agrícolas do Matopiba.

Audiências temáticas e depoimentos

Até agora, foram realizadas duas audiências temáticas online, em que lideranças dos territórios impactados falaram de cada uma das violações sofridas em seus corpos e territórios. A primeira audiência temática foi sobre as Águas. Realizada nos dias 30/11 e 01/12 de 2021, a audiência contou com depoimentos de representantes de seis dos 15 casos denunciados pelo TPP. Eles evidenciaram a injustiça hídrica e o racismo ambiental causados pela apropriação privada intensiva e contaminação das águas pelo agronegócio e mineração. A Campanha preparou um documento com a relatoria completa do evento disponível para download.

A segunda audiência temática foi sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade, realizada entre os dias 15 e 16 de março deste ano. Representantes de outros seis dos 15 casos analisados pelo TPP denunciaram as violações cometidas pelo agronegócio e mineração, e seus impactos sobre processos demarcatórios, grilagem de terras, queimadas, desmatamento e, de modo especial, na contaminação por agrotóxicos, utilizados como arma química por empresários do agronegócio como forma de exterminar ou inviabilizar a vida dos povos da terra.

O TPP em defesa do Cerrado e seus povos

Nos últimos anos, o Cerrado “entrou no mapa” para muitas pessoas preocupadas com as múltiplas crises e injustiças ambientais que assolam nosso planeta. A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, articulação de 50 movimentos e organizações sociais lançada em 2016, nasce dessa preocupação, e em um contexto de profundas rupturas na institucionalidade democrática no Brasil.

O lançamento do TPP do Cerrado em 2021 foi uma iniciativa engendrada pelo peticionamento da Campanha ao TPP com o objetivo julgar o crime de ecocídio em curso contra o Cerrado e a ameaça de genocídio cultural de seus povos.

A acusação da campanha aponta como responsáveis pelos crimes Estados e entes nacionais, Estados estrangeiros, organizações internacionais e agentes privados, como empresas transnacionais e fundos de investimento. A mineração e o agronegócio – de modo especial o monocultivo da soja para exportação – figuram como principais disparadores de violências contra o Cerrado e seus povos.

“Entendemos que se nada for feito para frear o que está ocorrendo no Cerrado, não se tratará apenas de históricos danos graves e vasta destruição. Estamos diante da ameaça de aprofundamento irreversível do ecocídio em curso, com a perda (extinção) do Cerrado nos próximos anos e junto com ele a base material da reprodução social dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado como povos culturalmente diferenciados, ou seja, seu genocídio cultural”, diz trecho da acusação.

O TPP do Cerrado apresenta 15 casos, distribuídos entre Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí e Tocantins, estados do Cerrado. Os casos apontam a sistematicidade geográfica e no tempo de certas violações que permitem falar em ecocídio para o conjunto do Cerrado e também em ameaça de genocídio cultural dos povos. Os casos foram selecionados a partir de um amplo processo de escuta e análise envolvendo lideranças comunitárias e organizações de assessoria membros da Campanha.

Incidência política e jurídica

Nos esforços da Campanha em incidir política e juridicamente em instituições públicas em defesa dos territórios do Cerrado e de seus povos, diversos apoios foram conquistados ao longo das atividades do TPP, incluindo a participação de membros do sistema de Justiça, como promotores e procuradores, em suas audiências temáticas.

Em 13/05/22, o Tribunal do Cerrado foi oficialmente apresentado na 58ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Joice Bonfim, advogada e secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, fez a apresentação. Marcelo Chalréo, conselheiro do CNDH, fez a leitura da proposta de Resolução de apoio institucional e legal do Conselho ao TPP do Cerrado, que foi aprovada por aclamação pelo grupo de conselheiras e conselheiros presentes. Além do apoio, o documento explicita o compromisso do Conselho com a implementação das medidas e decisões formuladas pelo TPP.

Para expor o grave cenário socioambiental provocado pelos incêndios e intenso desmatamento no Cerrado, membros de alguns dos 15 casos julgados pelo TPP participaram, no último 19 de maio, de uma audiência pública na Câmara dos deputados, em Brasília, para denunciar violações cometidas por empresas e governos à Comissão Externa de Queimadas em Biomas Brasileiros, coordenado pela Deputada Professora Rosa Neide. A convite da Articulação Agro é Fogo, Davi Krahô, vice-cacique da Aldeia Takaywrá, no Tocantins, e Leandro dos Santos, liderança do quilombo Cocalinho, no Maranhão, contaram como o agronegócio usa incêndios como arma para estabelecer domínio sobre a região e ameaçar os povos, e como, por outro lado, o fogo nas mãos das comunidades tradicionais, que é controlado e usado com a sabedoria de séculos, significa vida. A Articulação Agro é Fogo apresentou e debateu denúncias sobre como se encontra a situação de direitos humanos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais da Amazônia, Cerrado e Pantanal do Brasil.

PROGRAMAÇÃO

08/07 – Abertura e apresentação, estabelecimento do júri, contexto da acusação, apresentação de casos;

09/07 – Apresentação de casos e mesas de debates;

10/07 – Plenária final e declaração do júri;

11/07 – Coletiva de imprensa sobre para apresentação pública do veredito do júri.


 Contato para imprensa: comunicacerrado@gmail.com


Ilustração: Estúdio Massa / Foto em destaque: Ingrid Barros

Breve memória do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado

Em 10 de setembro de 2021, aconteceu no Brasil o lançamento do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado. A iniciativa, engendrada por um peticionamento da Campanha ao TPP, tem como objetivo julgar o crime de ecocídio em curso contra o Cerrado e a ameaça de genocídio cultural de seus povos. A acusação da campanha aponta como responsáveis pelos crimes Estados e entes nacionais, Estados estrangeiros, organizações internacionais e agentes privados, como empresas transnacionais e fundos de investimento. A mineração e o agronegócio – de modo especial o monocultivo da soja para exportação – figuram como principais disparadores de violências contra o Cerrado e seus povos.

A primeira audiência do TPP teve como tema as águas do Cerrado. Realizada de forma virtual nos dias 30/11 e 01/12 de 2021, a Audiência das Águas contou com depoimentos de representantes de seis dos 15 casos denunciados pelo TPP. Eles evidenciaram a injustiça hídrica e o racismo ambiental causados pela apropriação privada intensiva e contaminação das águas pelo agronegócio e mineração. A Campanha preparou um documento com a relatoria completa do evento disponível para download.
Entre os dias 15 e 16 de março desse ano foi realizada a segunda audiência temática do Tribunal, sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade. Representantes de outros seis dos 15 casos denunciaram as violações cometidas pelo agronegócio e mineração, e seus impactos sobre processos demarcatórios, grilagem de terras, queimadas, desmatamento e, de modo especial, na contaminação por agrotóxicos, utilizados como arma química por empresários do agronegócio como forma de exterminar ou inviabilizar a vida dos povos da terra.
 
Incidência política e jurídica
 
Nos esforços da Campanha em incidir política e juridicamente em instituições públicas em defesa dos territórios do Cerrado e de seus povos, diversos apoios foram conquistados ao longo das atividades do TPP, incluindo a participação de membros do sistema de Justiça, como promotores e procuradores, em suas audiências temáticas. Em 13/05/22, o Tribunal do Cerrado foi oficialmente apresentado na 58ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Joice Bonfim, advogada e secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, fez a apresentação. Marcelo Chalréo, conselheiro do CNDH, fez a leitura da proposta de Resolução de apoio institucional e legal do Conselho ao TPP do Cerrado, que foi aprovada por aclamação pelo grupo de conselheiras e conselheiros presentes. Além do apoio, o documento explicita o compromisso do Conselho com a implementação das medidas e decisões formuladas pelo TPP.
Para expor o grave cenário socioambiental provocado pelos incêndios e intenso desmatamento no Cerrado, membros de alguns dos 15 casos julgados pelo TPP participaram, no úlitmo 19 de maio, de uma audiência pública na Câmara dos deputados, em Brasília, para denunciar violações cometidas por empresas e governos à Comissão Externa de Queimadas em Biomas Brasileiros, coordenado pela Deputada Professora Rosa Neide. A convite da Articulação Agro é FogoDavi Krahô, vice-cacique da Aldeia Takawrá, no Tocantins, e Leandro dos Santos, liderança do quilombo Cocalinho, no Maranhão, contaram como o agronegócio usa incêndios como arma para estabelecer domínio sobre a região e ameaçar os povos, e como, por outro lado, o fogo nas mãos das comunidades tradicionais, que é controlado e usado com a sabedoria de séculos, significa vida. Articulação Agro é Fogo apresentou e debateu denúncias sobre como se encontra a situação de direitos humanos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais da Amazônia, Cerrado e Pantanal do Brasil.
 
Audiência final e veredito do júri
 
A terceira e última audiência temática do TPP acontecerá de forma híbrida, presencial e online, entre os dias 8 e 10 de julho deste ano. ​​O tema será Terra e Território, e o encontro apresentará denúncias centradas nos processos de desmatamento e grilagem de imensas porções de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região como processos provocadores do racismo fundiário e ambiental para os povos. No último dia da Audiência, o júri pronunciará uma primeira manifestação pública que evidencia alguns dos elementos do veredito final.

NA CÂMARA FEDERAL, ARTICULAÇÃO AGRO É FOGO DENUNCIA A VIOLÊNCIA DOS INCÊNDIOS NA AMAZÔNIA, CERRADO E PANTANAL

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Nem chegamos ao período de estiagem e os incêndios já são maiores do que o ano passado. E quem mais sofre com isso são as comunidades tradicionais.

Por Articulação Agro é Fogo

“Se ele [fazendeiro] tá pondo fogo na natureza, ele não está atingindo só mato, algumas pessoas e bicho, mas está atingindo ele no futuro”, inicia Leonida Aires, da Comunidade Pantaneira Barra de São Lourenço, de Mato Grosso do Sul, em sua fala durante a Audiência Pública na Câmara dos deputados, em Brasília. Junto a Comissão Externa de Queimadas em Biomas Brasileiros, coordenado pela Deputada Professora Rosa Neide, na quinta-feira, dia 19 de maio, a Articulação Agro é Fogo apresentou e debateu denúncias sobre como se encontra a situação de direitos humanos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais da Amazônia, Cerrado e Pantanal do Brasil

Para expor o grave cenário socioambiental provocado pelos incêndios e intenso desmatamento, em parceria com o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida (OLMA), foi entregue à Comissão uma Nota Técnica pautada nos casos apresentados no Dossiê Agro é Fogo. Além disso, representantes dos territórios e coordenadoras de organizações sociais reafirmaram a necessidade de maior orçamento e ações efetivas dos governantes em relação à prevenção e combate aos incêndios.

O fogo criminoso vem diretamente do modelo de agronegócio que atua aliado a um comboio de elementos para desmatar, grilar, expulsar as comunidades, envenenar a terra e água. Por isso, a Audiência, um momento de ouvir as denúncias dos povos que sofrem a violência, demonstrou o quanto o tal “desenvolvimento” significa passar por cima de tudo e de todos.

Os povos e comunidades tradicionais, que se organizam conservando seu território e, portanto, garantindo o futuro da humanidade, permanecem em constante ameaça. Não à toa, quando o assunto é conflitos por território, também encontramos alta incidência de focos de incêndio. As violências no campo se sobrepõem, como afirmou os dados apresentados na Audiência por Isolete Wichinieski, da Comissão Pastoral da Terra e membra da Articulação Agro é Fogo.

Segundo levantamento, os conflitos por terra envolvendo o fogo (2021) concentram 47% nas áreas do Cerrado e suas transições, na Amazônia contabilizam 25% e no Pantanal 6% do total. Somado a isso, no ano de 2021, foram 37 mil famílias afetadas pelo uso do fogo como arma nos conflitos no campo. Além disso, os incêndios destroem não só o componente material, mas, principalmente, afeta o sagrado e os saberes dos povos, isso se mostra em relação às casas de reza, violência que já envolveu quase 2.5 mil famílias no Brasil.

Cerrado, Amazônia e Pantanal estão em chamas e como documenta o Dossiê Agro é Fogo, as lideranças das comunidades tradicionais e organizações sociais durante a Audiência, os incêndios tem como carro chefe o agronegócio. Esse ano estamos chegando ao período de estiagem com uma grande quantidade de focos de incêndios.

Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), até a metade de maio deste ano mais de 5 mil focos de incêndios foram contabilizados só no Cerrado, isso significa 25% a mais do que o mesmo período ano passado; Na Amazônia, já são mais de 4 mil focos, 18% a mais e no Pantanal os focos já beiram a quantidade de todo o ano de 2021 nesta região.

4 Cláudia Pinho Coordenadora da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras do Mato Grossopng

Cláudia Pinho, coordenadora da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras (Mato Grosso)

Na Amazônia, Cerrado e Pantanal tem gente!

A sociobiodiversidade, como é respaldado pelo Dossiê Agro é Fogo, não existe sem as pessoas em seus territórios. A fragilização de tais regiões, também é a fragilização das pessoas, de sua saúde, de sua sobrevivência e permanência onde se vive a séculos. Não existe proteção da Amazônia, Cerrado e Pantanal sem reconhecer que nesses lugares tem gente em luta por suas casas e se comportam como linha de frente contra o desmonte dos modos de viver.

“Na Floresta Amazônica tem pessoas, tem a biodiversidade. O agronegócio mata sim, polui a água sim! Será que é bom beber água contaminada por mercúrio, como o povo Yanomani passa todos os dias? Será que nós, que moramos aqui na cidade, nos centros, aguentaríamos isso? O povo Yanomami está morrendo!”, denuncia ao pedir que é preciso defender o direito dos povos indígenas, pois a violência sobre eles é constante.

“Sabemos que em relação ao Pantanal, nós não podemos chamar de queimadas, mas de incêndios criminosos. É um dos biomas mais frágeis, mas rico em biodiversidade. Falar da maior área úmida é muito bonito, mas olhar valorizar quem conserva, quem produz, quem faz o Pantanal ser o que é hoje é muito difícil. É preciso restaurar o Pantanal, restaurar as conexões que existem no Pantanal”, relata Cláudia Pinho, coordenadora da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras (Mato Grosso), ao ressaltar que o Pantanal sempre foi habitado por povos indígenas e comunidades tradicionais.

Esse país não respeita as comunidades tradicionais

As falas foram pautadas pela denúncia e anúncio dos povos e comunidades tradicionais que, mesmo diante das cicatrizes do fogo do agronegócio, persistem em busca de seu direito à vida digna. Entre outros temas tratados na Audiência, também foi exposto a inconstitucionalidade do marco temporal, a ser votado em junho, pelo Supremo Tribunal Federal.

“Existe uma programação de ataque aos direitos dos povos indígenas e também aos direitos dos povos tradicionais. Existe uma programação constituída, principalmente, pelos governantes desse país que fere a Constituição de 1988. A tese do marco temporal é inconstitucional e prejudica a vida dos povos indígenas“, pontua Eliane Martins, coordenadora do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) regional Goiás/Tocantins, sobre a luta secular dos povos indígenas contra a invasão e manutenção de seus territórios.

Davi Krahô, vice-Cacique da Aldeia Takaywara, localizada em Lagoa da Confusão, no Tocantins, conta em sua fala que a maioria da população indígena do Brasil vive no Cerrado, uma das regiões mais atacadas pelo agronegócio e pelos seus incêndios, como demonstrou os dados do CEDOC-CPT.

Acabar com o Cerrado é acabar com a sabedoria indígena, é acabar com a sociobiodiversidade, com o maior aquífero do mundo e com o território mais antigo do planeta. Mas para impedir isso, é preciso criar condições para que os povos estejam em paz em seus territórios.

“O meu território não está demarcado, o governo brasileiro não dá valor ao território indígena, ele quer invadir, ele quer aprovar mineração, ele quer que faça incêndios para pastagem. Os territórios indígenas estão cercados pelos projetos de monocultura e isso atinge diretamente a nós, com indígenas morrendo de doenças crônicas. Sem água nós não vivemos, mas sem soja vivemos”.

Ainda sobre o desrespeito a quem protege não só os direitos humanos, mas o direito da sociobiodiversidade, Leandro dos Santos, liderança quilombola da comunidade de Cocalinho, Maranhão, enfatizou o quanto os incêndios prejudicam, a anos, a subsistência e a sabedoria de cura, passada de geração a geração, no quilombo.

“Falar dos incêndios não é fácil. Estou na região de fronteira agrícola, que é o MATOPIBA, que abrange boa parte do Cerrado que está sendo bastante destruído. Com isso, a gente tem muitas perdas de alimentos, hoje não temos mais pequi, não temos mais mangaba, hoje nós não temos mais as plantas medicinais”.

“Os conflitos no campo, a gente não pode dizer que é só a violência que os povos e comunidades tradicionais sofrem, mas é a resistência que a essa violência é colocada. Então, os conflitos existem porque as comunidades, elas se colocam na defesa de seu bioma”, diz Isolete Wichinieski.

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Leandro dos Santos, liderança quilombola da comunidade de Cocalinho, Maranhão

O fogo nas mãos do agronegócio provoca um desequilíbrio permanente

“Não vou falar que o fogo é ruim, que não é, mas a forma como ele é usado, as pessoas usam o fogo de má fé.  Algumas pessoas acham que são donos das coisas e não pensam na vida. Eu vejo essas pessoas como se fossem zumbi, porque sabe que tá matando a vida, sabe que tá matando o futuro, sabe que tá matando a si próprio”.

Leonida Aires, durante a Audiência, contou o quanto o perigo e terror dos incêndios não estão apenas no momento que ocorre, mas, principalmente, em suas consequências. Até os dias de hoje, quase dois anos depois de um dos maiores incêndios à comunidade, as pessoas ainda sofrem com o resultado do fogo ateado por fazendeiros da região para formar pasto e produzir monocultura. “Eles são um bando de zumbis, porque não têm a capacidade de pensar, só pensam em dinheiro”.

Depois do fogo veio a chuva de cinzas, que além de ocasionar problemas de saúde, ainda provocou a morte de uma criança. A dor que esse crime faz é para todo a vida, lembra a liderança sobre a tragédia, a luta das pessoas para apagá-lo, a falta de água potável e a morte dos alimentos. Esse desequilíbrio gerado pelos incêndios e desmatamentos ainda provoca, conforme Leonida, o aparecimento de muitos ratos, cobras e onças nas regiões e nas casas.

“Na ilha do Bananal, que é a maior ilha fluvial do mundo, no período crítico de agosto a outubro tem a renovação de pastagem onde tocam fogo para renovar o pasto. O ano passado ficaram mais de 60 dias para apagar o fogo da ilha do Bananal e só apagou porque Papã mandou uma chuva aí apagou o fogo”, relata a liderança Krahô.

Para invadir Terras Indígenas (TI) e grilar, o agronegócio incendeia, usa o fogo como arma para estabelecer domínio sobre a região e ameaçar os povos, como confirma Davi Krahô. Por outro lado, o fogo nas mãos das comunidades tradicionais, que é controlado e usado com a sabedoria de séculos, significa vida.

“O fogo causa destruição quando a pessoa usa ele para destruir. O fogo faz parte do povo Krahô, mas tem que saber como conduzir o fogo, porque o usamos no dia a dia. Nós temos o manejo do fogo, sabemos conduzir o fogo no território, por isso, temos nossa brigada, para que no período crítico o fogo não chegue na comunidade”.

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Davi Krahô, vice-Cacique da Aldeia Takaywara, no Tocantins

A defesa é pela vida e pela existência

Para o enfrentamento e reversão do quadro, Bárbara Dias, da Articulação Agro é Fogo, relatou algumas recomendações documentadas na Nota Técnica junto ao Olma, sublinhando que os governantes tomem outra postura diante dos Projetos de Lei que desrespeitam os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, ao validar o projeto agrominerador, do hidronegócio, do desmatamento e  da grilagem que são intrínsecos aos incêndios criminosos.

A Comissão Externa, pela deputada federal Rosa Neide, ressaltou que a política nacional de manejo do fogo está no senado e em trâmite. E ainda lembrou sobre o quanto a negligência sobre esses temas é constante, apesar de se ter todas as informações a respeito do “Dia do Fogo” e de quem foram os mandantes do crime, o delegado que estava à frente não tomou as devidas providências, pontuou a deputada.

“Muitas das vezes, os incêndios criminosos são provocados aqui direto de Brasília, porque os fazendeiros, os produtores de soja, de cana e de eucalipto, muito deles são deputados nas regiões e que tem apoio das assembleias legislativas e que colocam fogo criminalmente nos territórios”, contextualiza Eliane Martins, do CIMI (GO/TO).

A comissão, que também já se reuniu com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), se prontificou a divulgar os dados da Articulação Agro é Fogo e do CEDOC-CPT para fortalecer ações que respaldem as comunidades tradicionais frente ao processo de violência configurado pelos e com os incêndios.

Estar em Brasília é demarcar territórios também, demarcar territórios da nossa existência enquanto diversidade de grupo, enquanto demandantes de políticas públicas, mas, principalmente, pela visibilidade que o Estado brasileiro precisa nos enxergar enquanto sujeitos de direitos que estamos nos territórios nesse vasto país”,  finaliza Cláudia Pinho, coordenadora da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras (Mato Grosso).

 Não acompanhou a Audiência Pública? Assista agora:


 Fotos: Articulação Agro é Fogo

Mineração e o cercamento das águas do Cerrado

Por Ricardo Junior de Assis Fernandes Gonçalves*

Águas do Cerrado: a dádiva ferida

As águas do Cerrado estão feridas. Nascentes, aquíferos, rios, córregos, veredas e bacias hidrográficas estão expostas à voracidade do capital extrativo global. Consequentemente, feridas foram abertas e permanecem expostas diante do desmatamento, uso de agrotóxicos, construção de empreendimentos hidroelétricos, abertura de canais de irrigação, barragens de rejeitos, minerodutos e megaminas a céu aberto ou subterrâneas.

Mineração, agronegócio, turismo, hidronegócio energético e indústria farmacoquímica mapeiam os bens comuns naturais do Cerrado e transformam esse território em fonte de commodities. Conforme Chaveiro (2019), isso representa o avanço da “hegemonia predatória” nos territórios do Cerrado. O autor demonstra que há uma economia baseada na agro-minero-exportação que se torna hegemônica. Portanto, essa hegemonia passa a exercer o domínio econômico predatório desse Bioma-Território.

Nos territórios do Cerrado, terra, água e subsolo (minérios) estão em disputa e na centralidade dos conflitos frente às novas fronteiras de cercamento dos bens comuns naturais. Há no Cerrado o que o geógrafo David Harvey (2018) denomina “novos cercamentos”. Isso representa a transformação das dádivas gratuitas da natureza em mercadorias que movimentam o “ecossistema global do capital” (HARVEY, 2018).

Desde os anos 1970 vê-se uma escalada de crescimento da economia nos territórios de domínio do Cerrado, fomentando a concentração fundiária, a extinção de espécies, a urbanização, o surgimento de novos milionários e o hidrocídio. Para o antropólogo e pesquisador Altair Sales Barbosa (2022), a devastação sistemática da vegetação do Cerrado (cujas raízes profundas são fundamentais para o sistema hidrológico do bioma), compromete as águas subterrâneas e promove a amputação de bacias hidrográficas. “Essa amputação se inicia com a migração das nascentes até o desaparecimento total de muitos cursos d’água. Esse é o início do fim, que se conclui com a morte do rio e de todo seu entorno, incluindo a desestruturação de comunidades humanas, através da desterritorialização” (BARBOSA, 2022, p.1).

Assim, o mesmo processo que transforma o território do Cerrado em território agrário-urbano-exportador favorece as escalas de desmatamento, insere a economia no mercado internacional de commodities e fomenta a apropriação de componentes como terra, água e minérios. Por isso, a leitura crítica do cercamento das águas requer a compreensão das transformações territoriais. A multiplicação dos usos da água, inclusive virtuais, incide nas nascentes, nos aquíferos, na vazão dos canais e nas bacias hidrográficas.

Por conseguinte, pode-se enxergar uma síntese entre o crescimento econômico no território do Cerrado e a dilapidação das águas em várias escalas de intensidade e sob distintos usos. Ou seja, o modelo de desenvolvimento econômico é o modelo de predação, cercamento ou “sequestro das águas” (MORAES, 2022). Aquilo que seria uma dádiva do Cerrado – as suas bacias, os seus aquíferos e a distribuição territorial dos canais – torna-se fonte de atração e territorialização dos monopólios. A geração de riquezas e a concentração de monopólios demandam o controle e os usos das águas, como é o caso da mineração, cujos processos de extração, processamento e transporte (como por minerodutos) são hidrointensivos e estimulam conflitos ambientais nas comunidades locais impactadas.

As escalas predatórias da mineração no Cerrado

A mineração é intrínseca ao capitalismo contemporâneo. A financeirização dos recursos naturais como terra, água e minérios está no centro das novas fronteiras de acumulação global. Ademais, os minerais são essenciais às tecnologias da Quarta Revolução Industrial. Chips, naves espaciais, carros elétricos, celulares, computadores, arranha-céus, gasodutos, plataformas de petróleo, turbinas de aviões, armas, navios e todas as mercadorias que circulam nas redes globais de produção contêm minérios.

Novas fronteiras de controle e exploração de bens naturais são incorporadas ao capital extrativo global, como ocorre na Amazônia e no Cerrado. A mineração nos territórios do Cerrado se realiza em distintas escalas de extração e comercialização de minérios. Em escala local/regional, destaca-se a extração e comercialização de quartzo, areia, água mineral, argila para cerâmica vermelha, brita, cascalho, calcário para cimento e calcário agrícola. O caso de calcário agrícola é emblemático, pois representa o avanço do agro-mínero-negócio neste bioma-território. Sua extração nutre a demanda do agronegócio em regiões e municípios intensivos na produção de grãos, como o Sul e Sudeste Goiano e o Oeste da Bahia.

Em escala nacional sobressai a extração e comercialização de água mineral, mármore, fosfato e bauxita/alumínio. Nessa escala, a relação entre agronegócio e mineração destaca-se com os projetos de exploração e beneficiamento de fosfato. Com o propósito de produzir fertilizantes, complexos mineroquímicos foram territorializados no Cerrado desde os anos 1970. No contexto dos governos militares e dos Planos Nacionais de Desenvolvimento (PND’s) constitui-se a “matriz espacial dos grandes projetos” (MOREIRA, 2003) no Cerrado envolvendo a mineração e a expansão de monoculturas agrícolas. Consequentemente, esse Bioma-Território foi incorporado ao capital internacional à custa de expropriações compulsórias da população camponesa, urbanização e implicações ambientais.

Atualmente, empresas estrangeiras, como a americana Mosaic Fertilizantes e a chinesa CMOC Brasil (subsidiária da companhia China Molybdenum), possuem operações nos territórios do Cerrado – em municípios como Tapira (MG), Araxá (MG), Patrocínio (MG), Uberaba MG), Catalão (GO) e Ouvidor (GO) – na extração e beneficiamento da rocha fosfática. Em Catalão e Ouvidor, a mineração de fosfato ocorre desde os anos 1970 e por décadas agudiza conflitos por terra e água em comunidades camponesas (GONÇALVES, 2016). Nesses municípios goianos, a abertura de minas a céu aberto, a construção de pilhas de estéril e barragens de rejeitos foram responsáveis pela expropriação de dezenas de famílias camponesas e continuam ameaçando-os de expulsão (MARTINS, 2020).

Em escala internacional, a mineração no Cerrado ocorre mediante a exploração e exportação de minerais como nióbio, níquel, cobre e ouro; além de atuação das corporações estrangeiras como a Lundin Mining (canadense), CMOC Brasil (chinesa), Anglo American (britânica) e Anglogold Ashanti (sul africana). Essas empresas expandem seus negócios ampliando o controle corporativo de territórios do Cerrado.

Com relação aos bens minerais explorados, o exemplo do nióbio é ilustrativo da mineração em escala internacional no Bioma-Território Cerrado. Os megaempreendimentos de extração e produção de ligas de ferro-nióbio ocorrem em Araxá (MG), com atuação da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), e Catalão (GO) e Ouvidor (GO) pela CMOC Brasil. Em 2021, o Brasil exportou cerca de 92 mil toneladas de ferro-nióbio no valor de US$ 2,1 bilhões. Desse total, apenas Minas Gerais e Goiás participaram, respectivamente, de 82% e 13% das exportações de ferro-nióbio brasileiro (MDIC, 2022).

Sendo assim, a mineração de nióbio contribui para demonstrar a inserção do Cerrado às redes extrativas globais. Mas essa escala internacional representa impactos locais, como na Comunidade Coqueiros, Catalão (GO), que foi fraturada por uma megamina a céu aberto de nióbio.

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Fratura territorial da Comunidade Coqueiros, Catalão (GO), pela extração a céu aberto de nióbio na Mina Boa Vista. Foto: Ricardo Gonçalves (2019).

A abertura e a expansão da mina Boa Vista (foto 1), da empresa CMOC Brasil, representou a expropriação de dezenas de famílias camponesas que viviam na/da terra. A mineração na Comunidade Coqueiros exemplifica processos de “expropriação ecobiopolítica” (ARÁOZ, 2013), ao fraturar as paisagens locais, interferir na qualidade do ar e na vazão dos córregos e nascentes, expulsar famílias com seus modos de vida, saberes na relação com a terra, as sementes e os quintais. Efetiva-se, então, processos de ruptura ambiental e cultural dos lugares.

Sendo assim, considera-se a mineração como uma das principais atividades extrativistas responsáveis pelo cercamento do subsolo e das águas, o sacrifício de ecossistemas e a ameaça aos povos e comunidade nos territórios do Cerrado.

O cercamento do subsolo e das águas do Cerrado

No subsolo do Bioma-Território Cerrado, as jazidas de minerais como nióbio, cobre, terras raras, níquel, ouro, fosfato, ferro e bauxita são sistematicamente mapeadas e incorporadas às fronteiras de expansão do “imperialismo extrativo” (HARVEY, 2018), como ilustrado no mapa abaixo.

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O cercamento do subsolo do Cerrado e das áreas de transição com outros biomas-territórios. Crédito: PoEMAS

O mapa acima revela que o subsolo nos territórios do Cerrado está em disputa. Essa disputa é expressão do processo de cercamento através dos processos minerários ativos no período entre 2018 e 2021. Neste intervalo foram realizados 12.518 requerimentos e autorizações de pesquisas, e 226 requerimentos e concessões de lavra (ANM, 2022). Com foco nas áreas contínuas do Cerrado, destaca-se a apropriação do subsolo no leste de Mato Grosso; centro, norte e nordeste de Goiás; e sul e leste do Tocantins. Nas regiões de Goiás e Tocantins, ressalta-se a existência histórica de populações camponesas, ribeirinhas, quilombolas e indígenas.

No nordeste goiano, ressalta-se a presença ancestral do povo Kalunga, distribuído em cerca de 39 comunidades que ocupam um território de 261 mil hectares situado nos municípios de Cavalcante (GO), Teresina de Goiás (GO) e Monte Alegre (GO). No Território Kalunga conflitos envolvendo usos da água por empreendimentos hidroelétricos (PAIVA, 2019) e mineração (SEMAD, 2020) ameaçam a sociobiodiversidade local e os “ciclos hidrossociais” (IMBELLONE; FELIPPE, 2020) nas comunidades.

Ademais, comunidades quilombolas do sul do Tocantins também enfrentam problemas envolvendo a mineração e os usos da água. Em 2011, a construção de barragens de rejeitos pela Itafós Mineração Ltda, em Arraias (TO), agravou os efeitos ambientais (desmatamento, compactação de solo, assoreamento etc.) na bacia do rio Bezerra e comprometeu os usos locais da água pelas comunidades tradicionais (PEREIRA FILHO, 2018).

Nas áreas de transição do Cerrado com outros Biomas-Territórios constata-se que o interesse mineral está em expansão. Os pontos de maior concentração dos processos minerários estão situados na transição entre o Cerrado e a Amazônia, com foco no norte do Tocantins e sul e sudeste do Pará; e transição Cerrado-Caatinga, especialmente no norte de Minas Gerais e Oeste da Bahia. Nestas regiões, populações tradicionais e camponesas, assentados, posseiros, quebradeiras de coco, geraizeiros, vazanteiros, veredeiros e catingueiros são ameaçados por grandes projetos extrativos.

Povos que possuem relações de pertencimento com os territórios de existência e desenvolveram e desenvolvem modos ancestrais de relacionar com as águas, a terra, as matas e as sementes são ameaçados de expropriação compulsória no norte de Minas Gerais e no oeste da Bahia. No primeiro caso, pontua-se, por exemplo, os conflitos envolvendo a empresa Sul Americana Metais (SAM) que ameaçam as comunidades geraizeiras no Território Vale das Cancelas (OLIVEIRA, 2021). Quanto ao Oeste da Bahia, a ameaça representada pelo setor extrativo mineral soma-se à “pilhagem territorial” (PERPETUA, 2016) representada pelos grandes projetos do agronegócio que também são hidrointensivos e possuem focos de conflitos na região (CUNHA, 2017; PORTO-GONÇALVES; CHAGAS, 2020).

O cercamento das águas é indissociável do cercamento do subsolo do Cerrado.  Com relação às águas, a existência de centenas de barragens de rejeitos de mineração intensifica o sacrifício de nascentes, córregos e rios. Além disso, expõe populações locais a situações de “sofrimento ambiental” (SOUZA, 2019) e “terrorismo de barragens” (MANUELZÃO, 2019) diante do risco de rompimentos como ocorreram em Mariana (MG) e Brumadinho (MG). São aproximadamente 249 barragens de rejeitos neste Bioma-Território, o que representa 33% do total desse tipo de estrutura no Brasil (BARCELOS, 2021).

O cercamento das águas do Cerrado também ocorre através das outorgas para os distintos tipos de atividades econômicas, especialmente ligadas ao agronegócio, como a irrigação. O número de outorgas emitidas pela Agência Nacional das Águas (ANA) no Cerrado e áreas de transição é de 30.398, sendo 67% subterrâneas e 33% superficiais. Apenas a irrigação é responsável por 74% da vazão outorgada (BARCELOS, 2021).

À vista disso, as águas do Cerrado, assim como as terras e os minérios, transformam esse bioma em território em disputa. Mas povos e comunidades se levantam e constroem distintas formas de resistências contra a predação dos bens naturais e as ameaças à cultura e aos modos de vida locais.

As resistências: águas para a vida, não para o capital

Para as comunidades e povos que lutam em defesa dos territórios de vida, as resistências são construídas com a consciência de que proteger o Cerrado significa salvaguardar a dádiva das águas. Por isso, reconhecem que a mineração se tornou uma ameaça aos seus modos de vida e saberes-fazeres vernaculares. O modelo de mineração dependente do uso intensivo de água, que impõe a amputação das paisagens pelos ritmos de extração para exportações, e representa a antinomia da existência dos povos do Cerrado e suas formas de conceber e relacionar com os bens naturais.

A mineração interfere na autonomia hídrica dos povos do Cerrado. Impacta os usos e a fertilidade dos solos, o cultivo e a colheita de alimentos, a soberania alimentar e a sociobiodiversidade nas comunidades cerradeiras. As práticas culturais dos povos do Cerrado dependem da relação integrada com as águas. Ademais, está explícito para eles que “minério não se bebe”. Logo, denunciam a contaminação e o esgotamento das águas em seus territórios, propõem modelos alternativos como a agroecologia e se “levantam do chão” em caminhadas de resistências junto aos movimentos populares.

Para os povos do Cerrado, as águas são abundantes para a vida, não para o capital.

 

*Professor na Universidade Estadual de Goiás (UEG). Pesquisador do Grupo de Pesquisa e Extensão PoEMAS – Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade.

E-mail: ricardo.goncalves@ueg.br


REFERÊNCIAS

ANM – Agência Nacional de Mineração. Brasília/DF, 2022.

ARÁOZ, H. M. Crisis ecológica, conflictossocioambientales y orden neocolonial: lasparadojas de nuestra América en las fronteras del extractivismo. REBELA, v. 3, n. 1, out., 2013.

BARBOSA, Altair Sales. A morte silenciosa dos rios do Cerrado. Disponível em: < https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/gerais-colunas-e-blogs/a-morte-silenciosa-dos-rios-do-cerrado-387851/>. Acesso em: 08/04/2022.

BARCELOS, Eduardo. Atlas das águas do Cerrado. Instituto Federal Baiano, 2021. Mimeo.

CHAVEIRO, Eguimar F. Por uma abordagem geográfica do Cerrado: a afirmação de um território, a negação do bioma – Cartas de luta. 316f. Tese (livre docência), Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, 2019.

CUNHA, Tássio Barreto. Do Oculto ao Visível: Terra-Água-Trabalho e o Conglomerado Territorial do Agrohidronegócio no Oeste da Bahia. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da FCT/UNESP. Presidente Prudente– SP, 2017.

GONÇALVES, R. J. A. F. No horizonte, a exaustão: disputas pelo subsolo e efeitos socioespaciais dos grandes projetos de mineração em Goiás. 504f. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal de Goiás, Programa de Pós-graduação em Geografia, 2016.

HARVEY, David. A loucura da razão capitalista: Marx e o capital no século XXI. Tradução de Artur Renzo. São Paulo: Boitempo, 2018.

IMBELLONI, Ana Caroline Pinheiro.; FELIPPE, Miguel Fernandes. Ciclo Hidrossocial e o Reabastecimento Social das Águas: uma experiência na Comunidade Quilombola da Tapera (RJ). GEOgraphia, vol: 22, n. 48, 2020.

MANUELZÃO. O terrorismo das barragens. Revista Manuelzão, no 84. 03/2019, p. 22.

MARTINS, Omar. Mosaic Fertilizantes expulsa moradores de suas casas em Goiás para armazenar rejeitos. 2020. Disponível em: < https://observatoriodamineracao.com.br/mosaic-fertilizantes-expulsa-moradores-de-suas-casas-em-goias-para-armazenar-rejeitos/>. Acesso em: 12/04/2022.

MDIC. Séries históricas. Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, 2022. Disponível em: <http://www.mdic.gov.br>. Acesso em: 15/04/2022.

MORAES, Robson de S. Águas do Cerrado. Cidade de Goiás: UEG, 2022.

MOREIRA, Ruy. Modelo industrial e meio ambiente no espaço brasileiro. GEOgraphia, Rio de Janeiro, Ano V, n.9, p. 7-28, 2003.

OLIVEIRA, Bruna F. Conflitos Socioambientais e Territoriais da Mineração no Norte de Minas: Uma Análise do Projeto Bloco 8. 91 f. TCC (Graduação em Geografia), Universidade Estadual de Montes Claros, 2021.

PAIVA, P. Construção de hidrelétrica é ameaça para comunidade kalunga que vive há 300 anos no maior quilombo do Brasil. 2019. Disponível em: < https://www.geledes.org.br/construcao-de-hidreletrica-e-ameaca-para-comunidade-kalunga-que-vive-ha-300-anos-no-maior-quilombo-do-brasil/>.  Acesso em: 10/04/2020.

PEREIRA FILHO, Paulo. Apropriação e conflitos pela água: dinâmicas socioespaciais a partir da bacia do rio Bezerra no município de Arraias – TO. Dissertação (Mestrado em Geografia), Universidade Federal de Catalão, Catalão/GO, 2019.

PERPETUA, Guilherme M. Pilhagem territorial, precarização do trabalho e degradação do sujeito que trabalha: a territorialização do capital arbóreo-celulósico no Brasil contemporâneo. 307f. Tese (Doutorado em Geografia) – Programa de Pós-graduação em Geografia, UNESP, Presidente Prudente, 2016.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter; CHAGAS, Samuel Brito das. Os Pivôs da Discórdia e a Digna Raiva: uma análise dos conflitos por terra, água e território em Correntina – BA. Gráfica e Editora Bom Jesus, 2020.

SEMAD. Governo de Goiás fecha mineração sem licenciamento e apreende maquinário em Cavalcante. 2020. Disponível em: < https://www.meioambiente.go.gov.br/noticias/1947-governo-de-goi%C3%A1s-fecha-minera%C3%A7%C3%A3o-sem-licenciamento-e-apreende-maquin%C3%A1rio-em-cavalcante.html>. Acesso em: 12/04/2022.

SOUZA, M. L. Ambientes e territórios: uma introdução à ecologia política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019.

Impacto de agrotóxicos em territórios e comunidades do Cerrado é tema de discussão em festival de cinema ambiental em Goiás

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Em atividade no Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), lideranças e pesquisadores denunciaram a política de morte do atual modelo de produção do agronegócio

Por Amanda Costa/Assessoria de Comunicação da CPT Nacional

No dia 03 de junho, representantes de povos indígenas, quilombolas, de comunidades tradicionais do Cerrado, além de pesquisadores e pesquisadoras participaram da Mesa ‘Saúde e Meio Ambiente: Violações ao território e à vida dos povos tradicionais’, na Tenda Multiétnica do Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), realizado na Cidade de Goiás (GO), de 24 de maio a 05 de junho de 2022. Um filme exibido logo no início apresentou a realidade do Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena de Goiás, e introduziu a problemática da atual Guerra Química provocada pelo agronegócio, que ameaça a saúde de comunidades inteiras e coloca em risco a biodiversidade.

Para Murilo Mendonça, do Núcelo Gwatá/UEG e membro da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, que mediou o momento, o termo ‘Guerra Química’ não é econômico para expressar a realidade de violência que as populações do campo têm vivido nos últimos tempos. Para contribuir com o debate, participaram da mesa a liderança quilombola Leandro Santos, do Território Cocalinho, em Parnarama/MA, Anastácio Peralta, indígena Guarani e Kaiowá de Dourados/MS, as pesquisadoras Aline Gurgel, do Instituto Aggeu Magalhães – Fiocruz, e Karen Friedrich, do Ministério Público do Trabalho (MPT), e Leonardo Melgarejo, membro do GT Agrotóxicos da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Anastácio Peralta inaugurou a mesa expondo sobre a mentalidade de exploração dos territórios forjada no Brasil pelos colonizadores, que permanece até hoje e é responsável pelas contínuas violações de direitos dos povos. “Não mudou nada nesses 500 anos, eles nos dividiram, numa estratégia de criação de estado, de país. Fomos divididos, foram criando fronteiras para todo lado. Mas através da nossa força espiritual estamos aqui, vivos”. Em sua fala, Anastácio também trouxe a visão de meio ambiente dos povos indígenas, que não dissocia ser humano e natureza e contribui para a manutenção da saúde coletiva. “Para nós indígenas, Guarani Kaiowá, o meio ambiente começa em casa, é onde a gente vive. E a saúde também começa em casa. Se a gente se alimenta bem, se somos felizes, a gente não fica doente”, enfatizou.

Partindo do conceito de Tecnologia Espiritual, Anastácio também expôs a diferença entre os modos de se relacionar com o meio ambiente dos indígenas, especificamente no que diz respeito ao modo de produção de alimentos. “Nós somos diferentes do branco do agronegócio. Quando vamos plantar, primeiro a gente batiza a terra, depois batiza a semente, e depois que planta a gente reza pra chover.” Neste sentido, foi colocada a necessidade de “reflorestar a nossa mente”, como uma maneira de repensar as atuais formas de exploração da terra.

Imerso em um contexto de intensos conflitos no Maranhão, Leandro Santos denunciou a destruição dos territórios e da vida de pessoas na região do MATOPIBA, que incorpora os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Em sua comunidade, as famílias lutam contra a grilagem de terras, o desmatamento e as queimadas, todos estes conflitos intensificados pela expansão da fronteira agrícola. “E aí vem o uso do agrotóxico para nos matar”, relata ao dizer sobre mais uma violência que acomete o seu território. As famílias do Quilombo Cocalinho, que representam um dos casos do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado (TPP), lutam pela titulação de suas terras e enfrentam conflitos por empreendimentos de monocultivos de eucalipto da empresa Suzano Papel e Celulose e por fazendas de soja que se expandem para a região.

Após as falas das lideranças, a pesquisadora Aline Gurgel apresentou um breve panorama da dominação dos territórios do Cerrado pelo agronegócio – a região concentra cerca de 75% de área plantada com soja, milho, cana-de-açúcar e algodão. Em seguida, expôs um  recorte preliminar de uma recente pesquisa sobre agrotóxico em oito estados, realizada no âmbito do projeto ‘Dos Territórios ao Tribunal do Cerrado: agrotóxicos em pauta’, idealizado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado junto à Comissão Pastoral da Terra. “Analisamos a água em 5 estados que compõem a região do Cerrado. Encontramos agrotóxicos em todos os estados, e não somente em todos, mas em todos os pontos de coleta que nós analisamos. Não houve amostra de água que não fosse detectada a presença de pelo menos dois agrotóxicos, e isso é muito grave”, apontou. Entre os agrotóxicos já identificados destacam-se o 2,4-D, o glifosato e o Paraquat. Os três foram encontrados em todos os estados que compuseram a análise, além de outros.

Para Karen Friedrich, do Ministério Público do Trabalho, que precedeu a análise apresentada por Aline, “muitas instituições públicas que deveriam estar defendendo interesse público, estão em espaços em defesa desse modelo – do agronegócio -, e de invisibilizar as doenças, as denúncias, de desqualificar a fala de pessoas que estão sendo envenenado e que observam, há muito tempo, como esse modelo químico acaba com a terra”. Karen defendeu, ainda, a Reforma Agrária como uma questão sobretudo ecológica. “Defender a Reforma Agrária para se plantar alimento, diversidade, nutriente. Esse modelo de monocultivo, onde tem só uma espécie de planta, vai gerar desequilíbrio ecológico e aumentar a demanda de agrotóxico. A Reforma Agrária favorece o equilíbrio dos ecossistemas produzindo comida de verdade”, afirmou.

A pandemia da Covid-19 também foi contextualizada no debate, sendo apontada como mais uma doença que é resultado do processo de adoecimento do modelo do agronegócio. Pesquisadores já têm denunciado o desmatamento, as agressões contra a natureza, a perda da biodiversidade como potenciais provocadores do surgimento de pandemias. “O que acontece quando uma pessoa está contaminada por agrotóxico? Se torna ainda mais suscetível à doença da Covid-19. As pessoas do campo, das florestas, das águas, intoxicadas por venenos, ainda sofrem mais uma violência por essa política mal sucedida de combate à pandemia”, enfatizou Karen. 

Durante o debate foram resgatados os processos de tramitação de Projetos de Lei (PL) no Congresso Nacional, que são ameaçadores principalmente aos povos indígenas e comunidades tradicionais no Brasil. O PL 6299/2022, conhecido como Pacote do Veneno, foi aprovado na Câmara dos Deputados em fevereiro deste ano e tramita agora no Senado Federal com o número 1459/2022, e segue em análise em Comissão ligada apenas a setores do agronegócio. O PL prevê uma completa mudança e flexibilização na legislação referente aos agrotóxicos no país.

“Nós todos vivemos um tempo de guerra contra o modelo de destruição do amor, das sementes, dos sonhos”, afirmou Leonardo Melgarejo ao encerrar o momento resgatando a fala de Fernanda Kaingáng, feita no mesmo dia. Para Leonardo, “temos uma responsabilidade maior do que nos outros tempos de guerra onde morriam os guerreiros. Hoje o que está ameaçado é o futuro. A aliança intergeracional”, finaliza.


 Foto: Amanda Costa/CPT

Inscrições abertas: Roda de Conversa com jovens do Cerrado acontece no dia 4 de junho

O que é ser jovem no Cerrado hoje? O que as juventudes dos povos indígenas e das comunidades tradicionais e quilombolas têm a nos dizer? Quais são os clamores das juventudes rurais em um país com tantas violações de direitos?

Essas e outras perguntas vão fazer parte da Roda de Conversa com as Juventudes do Cerrado, que acontecerá no dia 4 de junho de 2022, das 09h às 12h, em formato virtual por meio da plataforma Google Meet.

Inscreva-se até dia 31 de maio preenchendo este formulário: https://forms.gle/FrUVZmo9C2j5Jx4N9 

Público: Jovens de 15 a 32 anos que vivem em comunidades tradicionais e territórios indígenas do Cerrado e/ou de biomas próximos, como Amazônia e Pantanal.

Realização: A atividade é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Piauí em parceria com a CPT Araguaia-Tocantins, CPT Bahia e CPT Maranhão. O projeto conta com o apoio da Coordenadoria Ecumênica do Serviço (CESE).

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Campanha em Defesa do Cerrado discute recomendações de combate à grilagem e garantia do direito à terra e ao território

Nesta segunda-feira, 23 de maio, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reuniu sua coordenação ampliada para construir coletivamente as recomendações sobre o tema “Medidas urgentes e necessárias para a garantia do direito à terra e território, combate à grilagem e à violência no campo e controle do desmatamento no Cerrado”. As recomendações serão encaminhadas ao júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, e servirão como subsídio para a terceira e última audiência do TPP, sobre Terra e Território, que será realizada entre os dias 8 e 10 de julho em Goiânia (GO), com transmissão pelos canais de comunicação da Campanha.

Cerca de 50 pessoas participaram da reunião em formato virtual, entre representantes de povos indígenas, comunidades tradicionais, grupos de pesquisa, movimentos e organizações integrantes da Campanha.

Expansão do agronegócio

O encontro teve início com uma breve explanação sobre o contexto atual de expansão do agronegócio no Cerrado e apropriação de terras e territórios. Foram apresentados mapas produzidos pela Campanha em que esta expansão fica visível ao longo dos anos, especialmente na ampliação do desmatamento de grandes áreas do Cerrado. Também foram apresentados os desafios para o fortalecimento do direito à terra e território e autodeterminação dos povos do Cerrado. Entre os desafios estão as dificuldades relacionadas à titulação de territórios tradicionais e à reforma agrária, além da grilagem, desmatamento e violência.

Recomendações

Em seguida, foram apresentadas propostas de recomendação divididas em cinco eixos:

– Reforma Agrária e Demarcação, Titulação e Garantia dos Territórios Indígenas, Quilombolas e de Povos e Comunidades Tradicionais;

– Autodeterminação, Autogoverno e Consulta e Consentimento Livre, Prévio e Informado dos Povos;

– Combate à Violência no Campo e Prevenção de conflitos fundiários;

– Controle do desmatamento e dos incêndios;

– Combate à grilagem.

A apresentação das recomendações foi seguida por debates entre cinco grupos de trabalho formados na ocasião. Ao final, a plenária apresentou ajustes e sugestões às propostas, garantindo o aspecto coletivo, participativo e de decisões por consenso no âmbito da construção do TPP. 

As recomendações sobre Terra e Território estarão disponíveis online após a realização da audiência final, em julho. As recomendações da Audiência das Águas e Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade podem ser acessadas na Biblioteca da página oficial do TPP do Cerrado.

URGENTE: Lideranças Guarani relatam ameaças de pistoleiros que pressionam por arrendamento de terras no Mato Grosso do Sul

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Na noite do último sábado, 21 de maio de 2022, lideranças da Comunidade da Terra Indígena de Yvy Katu, localizada no município de Japorã (MS), sofreram ameaças de homens armados que pressionam as famílias do Povo Guarani Nhandeva à ceder suas terras para arrendamento – prática criminosa incentivada pelo governo Bolsonaro e autoridades locais do Mato Grosso do Sul.

A área do iminente conflito foi retomada pela comunidade em 2013 e, desde então, é moradia de famílias que historicamente colocaram sua própria vida em risco para garantir o direito originário ao seu território. Kunha Poty é uma das lideranças que tem denunciado há tempos as invasões ao seu território por conta da pressão exercida pelos latifundiários que buscam por arrendamentos. A liderança pede insistentemente ajuda das autoridades locais por conta das ameaças sofridas.

A situação piorou depois que um conjunto de famílias da Comunidade Yvy Katu denunciou, durante a Aty Guasu, Grande Assembleia dos povos Kaiowá e Guarani e que foi realizada entre os dias 17 e 21 de maio em Guaimbé (MS), o arrendamento de terra para o plantio de monocultivos de soja.

As lideranças relatam que, enquanto estavam no evento de seu povo, a mata nativa da área foi derrubada, lavrada para o arrendamento e os insumos agrícolas foram estocados na terra em que vivem as famílias indígenas. Segundo o relato das lideranças, dezenas de caminhonetes de fazendeiros estariam circulando ao redor das casas, efetuando disparos com armas de fogo e ordenando a expulsão das famílias.

Ainda segundo as lideranças, paraguaios, entre eles um identificado como Pedro Alvorada, estariam entre o grupo armado e efetuando ameaças. Uma das ameaças verbais proferidas às família indígenas que vivem no território segundo descreveram as lideranças locais foi: “Se vocês não aceitarem o plantio serão mortos”.

O Conselho Indigenista Missionário no MS destaca que a situação é de extrema tensão e perigo, e que as autoridades têm o dever de proteger as lideranças ameaçadas e investigar as ameaças e invasões na terra indígena. O acesso à comunidade, que se dá pela rodovia MS 386 que foi recentemente asfaltada, oferece possibilidade de ataques as famílias- fato que exige ação protetiva urgente destas famílias indefesas.

Campo Grande, 21 de maio de 2022

Conselho Indigenista Missionário – Mato Grosso do Sul


 Imagem: Comunidade Yvy Katu

Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) reconhece e apoia Tribunal dos Povos do Cerrado

Nesta sexta-feira (13), o Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado foi oficialmente apresentado na 58ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Joice Bonfim, advogada e secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, fez a apresentação.

“O que o Tribunal reivindica é alertar para o processo de ecocídio do Cerrado, e para a necessidade de deter esse processo antes que ele seja irreversível, e o Cerrado seja extinto. O processo que se estabelece no tribunal também pretende contar a verdade sobre os povos e sobre sua diversidade cultural, resgatar a memória de suas lutas; parar a impunidade da que se aproveitam o agronegócio e a mineração no casos de crime de ecocídio do Cerrado; e obter justiça e reparação no marco dos conflitos”, enfatizou Joice, durante sua apresentação.

Após a apresentação do Tribunal, Marcelo Chalréo, conselheiro do CNDH, fez a leitura da proposta de Resolução de apoio institucional e legal do Conselho à Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado do TPP, que foi aprovada por aclamação pelo grupo de conselheiras e conselheiros presentes. Além do apoio, o documento explicita o compromisso do Conselho com a implementação das medidas e decisões formuladas pelo TPP.

A Resolução do CNDH destaca o caráter emergencial da conjuntura de violações de direitos e ameaças que a região e seus povos enfrentam. Ao tratar do Cerrado, o documento aponta para o fato de se tratar de um “ecossistema brasileiro brutalmente afetado pela expansão das cadeias do agronegócio, que tem por consequência o fator de ameaças contínuas, quiçá com potencial de extinção, aos grupos populacionais referidos”.

Em nome do Conselho, Marcelo Chalréo foi designado para acompanhar as atividades e a Audiência Final sobre Terra e Território do TPP, prevista para acontecer entre os dias 8 e 10 de julho, em Goiânia (GO). Para Joice Bonfim, a aproximação com o CNDH é um importante passo dado. “Um dos objetivos do Tribunal dos Povos do Cerrado é incidir politicamente e visibilizar as denúncias de violações de direitos junto aos órgãos do Sistema de Justiça brasileiro. Acreditamos que esse apoio do CNDH possa contribuir com esse processo”, finaliza a advogada.

Assista, abaixo, a apresentação do TPP na Reunião do CNDH a partir do momento 1:53:00 do vídeo:

Para saber mais sobre o TPP acesse seu site e os canais de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.


 Imagem: Reprodução Youtube CNDH

Por manter Cerrado preservado, casal é ameaçado no norte de Minas Gerais

Os ambientalistas Maria Izabel e Clailson Gonçalves resistem no Sítio Barreiro Azul em situação de vulnerabilidade e ameaças se intensificaram nos últimos meses

No último dia 28 de abril, durante a solenidade de entrega do prêmio “Mulheres Rurais – Espanha Reconhece”, quando o projeto “Sabores do Cerrado” foi premiado em Brasília, uma frase chamou atenção. Na ocasião, Marineide Santos, presidente da cooperativa localizada em Miravânia (MG) e que coordena o projeto premiado, disse ser inspirada por Izabel, “uma mulher que estava ameaçada de morte por defender seu território”.

Trata-se, na verdade, da história do casal Maria Izabel e Clailson Gonçalves, moradores há cerca de 15 anos do Sitio Barreiro Azul, localizado da zonal rural de Varzelândia, norte de Minas Gerais. Segundo Izabel, o fazendeiro José Pereira tem ameaçado ela e Claison, seu marido, de morte para que a área de Cerrado próxima à fazenda, protegida pelo casal, seja apropriada para a pecuária bovina.

“Eu sou herdeira legítima da área. No entanto, ela foi vendida sem documentação, sem que a partilha tivesse sido feita entre herdeiros e sem meu conhecimento. O fazendeiro sabia que eu residia na área e que tinha interesse em ficar nela quando procedeu esta compra. Ele cercou a área em que vivo, mesmo sem a decisão da Justiça. No outro lado, a casa sede da fazenda está abandonada; o fazendeiro não reside por lá”, explica Maria Izabel.

Ela, que também é coordenadora nacional do Movimento dos trabalhadores e trabalhadoras do Campo (MTC), registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de Varzelândia e denunciou o fazendeiro, conhecido na região por “Zé Ruim”. Por duas vezes, ainda em janeiro deste ano, segundo o BO registrado, ele levou policiais para a residência do casal, sendo uma das vezes sem que eles estivessem presentes na casa.

De acordo com relato publicado no blog Cartas Proféticas por Dom Orvandil, há testemunhas da ameaça. Euclides Lopes, um vizinho do casal, afirma que o José Pereira disse ao policial que “o filho dele quer vir resolver do jeito dele”. Segundo Lopes, o fazendeiro estava com dois policiais armados. “Eu fui e falei que não adianta brigar porque, não vai resolver nada, além do seu filho, vir aqui brigar, se ele matar alguém, ele vai preso e se alguém matar ele vai preso também. Tem que ser resolvido na justiça e não com as próprias mãos”, completou.

A área do Sítio Barreiro Azul onde Maria Izabel e Clailson residem é área de cerrado preservado. Eles mantêm hortas e plantio de ervas medicinal. No entanto, a situação é de extrema vulnerabilidade social. A casa onde reside o casal não possui energia elétrica, não possui água e o abastecimento é por caminhão pipa. Com a cerca construída, o “ir e vir” do casal também está prejudicado. Segundo Maria Izabel, a tensão é constante. “O fazendeiro segue rondando meu barraco. Às vezes vai só, às vezes com os filhos. Na última vez, já no mês de maio, ele rodeou a área com uma pessoa desconhecida”, narra.

Solidariedade

Além do próprio MTC, outras organizações têm acompanhado o caso. No dia 04 de abril, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) visitou Maria Izabel. De acordo com Irmã Etelvina Moreira de Arruda, representante da CPT, é preciso que entidades de Direitos Humanos estejam a par da situação, pois apoiam Maria Izabel “enquanto liderança na comunidade, enquanto parceira e companheira na luta, enquanto mulher”.

Casal recebe visitas do MTC, CPT e advogados que acompanham o caso. Foto: MTC

Durante a visita da CPT, o advogado Aldinei Leão, do Centro de Referência em Direitos Humanos (CDRH), localizado em Montes Claros, também esteve no local. Segundo Leão, o trabalho desenvolvido pelo Centro é de monitoramento do que já tem sido feito pela advogada do casal.

“Apesar de Maria Izabel empreender uma luta coletiva, o conflito está no âmbito do direito individual, pois se trata de um conflito que envolve herança. Nós queremos garantir que as providências sejam tomadas em relação às ameaças. Nós encaminhamos junto ao município as questões sociais envolvidas, pois há uma grande vulnerabilidade social e psicológica envolvida”, disse Leão.

De acordo com o último relatório “Conflitos no Campo” divulgado pela Pastoral da Terra, no ano de 2021 houve aumento de 75% no número de assassinatos em conflitos no campo, no Brasil. Já o número de mortes em decorrência de conflitos registrou um aumento de 1.100%.

Ainda segundo a CPT, a atuação da “pistolagem sob encomenda” e das “agromilícias”, bem como de agentes públicos, ocasionaram 35 assassinatos por conflitos no campo, no Brasil, em 2021.


Texto: Mayrá Lima (Comunicação do MTC) | Fotos: MTC

Semana da Terra e das Águas Padre Josimo 2022 inicia no sábado, 07 de maio

Entre os dias 7 e 10 de maio, as organizações e pastorais sociais do Tocantins, junto às Dioceses de Imperatriz e Tocantinópolis, realizam a Semana da Terra e das Águas, em memória do martírio do Padre Josimo Morais Tavares, assassinado em 10 de maio de 1986, em Imperatriz do Maranhão.

Neste ano, as atividades acontecerão nos formatos remoto e presencial, com a presença de romeiros e romeiras, lideranças sindicais, membros de comunidades rurais e pessoas que compõem o trabalho de base na luta em defesa da terra e da agroecologia no Tocantins. A Rede Bico Agroecológico e a ONG APA-TO são parceiras neste evento.

Desde 1988, é celebrada a Romaria da Terra e das Águas. E em 2008, aconteceu a primeira edição da Semana da Terra e das Águas Padre Josimo, com o objetivo fiel de manter vivo o sonho de Josimo, escolhendo a vida e o lado dos empobrecidos, sendo povo de Deus que não quer calar quando o direito, a dignidade e a liberdade do irmão são violadas. “Chegou a hora de levantar” é o tema desta edição de 2022.

A Semana é um espaço de memória, fé e denúncia às violências contra os pequenos do campo e da cidade, ainda sem terra, sem teto e sem trabalho, o roubo da dignidade e a exploração do trabalho escravo. Que todos possam resistir frente às violências e lutar por uma vida digna, ecoando o compromisso de Josimo: “Se eu calar, quem os defenderá?”.

Programação

– Dia 7, às 19h (online): Live “À sua descendência, darei esta terra! Ai de mim se não o falo”.

– Dia 8, às 19h (online): Live “Olinda, o teu olhar. Mãe serena vive em nós! Este é o meu filho!”.

– Dia 9, às 19h (presencial e online): Live “Ê, Josimo companheiro: tua vida em nossas vidas!” | Presencial em Buriti (TO).

– Dia 10, às 19h (presencial e online): Missa no município de Buriti (TO) | Tema: “Páscoa de Cristo, Páscoa dos Mártires – Lutamos pela vida: morro por uma causa justa”.

A transmissão das lives e da missa será ao vivo, pelos canais da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Araguaia (TO), no FacebookDiocese Tocantinópolis Oficial e Neuza – UFT Agroecologia, no Youtube.

Pode ser uma ilustração de uma ou mais pessoas, barba e texto


 Texto: Assessoria de Comunicação da APA-TO

Comissão brasileira pauta desmatamento do Cerrado no congresso espanhol

Delegação brasileira apresentou o panorama nacional sobre o desmatamento do ecossistema para plantio de soja no Congreso de los Diputados.

O Brasil foi pauta do dia mais uma vez no congresso espanhol. Dessa vez o tema foi o desmatamento no Cerrado, uma das consequências da agroindústria produtora de soja, em sessão da Comissão de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. O tema foi apresentado pelas vozes de Valéria Pereira Santos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e integrante da Coordenação Executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado; e André Campos, jornalista da Repórter Brasil.

Por cerca de uma hora Valéria e André falaram aos deputados espanhóis em um dia agitado pelo depoimento da diretora do Centro Nacional de Inteligência (CNI) sobre a espionagem realizada a pessoas ligadas ao indepedentismo catalão. A denúncia, publicada pela revista The New Yorker – chamadas “catalangate” – caíram como uma bomba no país, dificultando ainda mais a já delicada geometria parlamentária espanhola. Mas isso merece um texto à parte, voltemos à Terra Brasilis.     

O panorama apresentado, tristemente, não pinta nada bem – como qualquer coisa no país desde 2018. Há uma grande preocupação da União Europeia para que as importações tenham um “selo verde”. A soja brasileira aqui tem dois usos principais: alimentação de gado e fabricação de biocombustíveis. A troca do azeite de palma pelo de soja gera um enorme interesse no grão vindo dos trópicos, o que desencadeia mais e mais desmatamento e grilagens. Por tabela, áreas utilizadas para pecuária são também empurradas, expandindo sobre outros ecossistemas.

Diversos países visam deixar de utilizar soja e palma a curto prazo. França, Portugal ou Alemanha, por exemplo, até o ano que vem no máximo. Já a Espanha aparentemente utilizará toda margem oferecida pela UE, 2030.

“O Agro é pop, é tech, é tudo”, diz o slogan da televisão. É também invasões, conflitos e morte. A Pastoral da Terra aponta que 109 pessoas perderam a vida em decorrência de conflitos no ano passado, e em 2020, 40% dos conflitos aconteceram no Cerrado e área de transição. Copio e colo, literalmente, o que diz o informe sobre massacres no campo da CPT:

Atualmente, destaca-se a nova crescente de massacres dos últimos 20 anos, que se inicia em 2017 e se mantém com registros anuais de novos episódios de violência. Esse “novo boom” reflete um período no qual a conjuntura política e a consolidação da extrema direita nas estruturas legislativas e executivas beneficiaram diretamente o avanço do agronegócio, garimpo, desmatamento e queimadas. Neste período, 50 pessoas foram vitimadas fatalmente, em 9 massacres.  

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MATOPIBA

A sigla une os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia para além das letras: é umas das regiões mais desmatadas para plantação de soja. Em um modelo de produção nada sustentável, a produção de soja engloba o uso de água, esgotamento da terra e as vidas dos que lutam em sua defesa. É necessário mais do que um papel, ponto no qual André foi assertivo: não confiem em nada que venha do Brasil. Da mesma forma que árvores centenárias de mata nativa tornam-se legais em uma assinatura, dois carimbos e um folha de papel carbono, a soja recebe igual tratamento.

O desmatamento no atual governo aumentou quase 80% em áreas protegidas. Na Amazônia, incremento de 57%. São recordes sobre recordes. Mais da metade em terras públicas e quase todas federais. Nas terras indígenas crescimento de 150%. Da soja entregue à Europa, 2/3 sai da Amazônia ou do Cerrado. Esse, porém, não dispõe da mesma proteção daquele. E sem proteger o Cerrado, como salientou Valéria, é impossível proteger a floresta amazônica.

A la vez, territórios indígenas e quilombolas, onde a natureza é melhor preservada, são alvo de invasões – se não acobertadas pelo governo federal, ao menos ignoradas para ser delicado. É necessário e urgente que Cerrado e Pantanal sejam incluídos no acordo da União Europeia com o Mercosul. Garantir a sua demarcação e proteção é defender o meio-ambiente e atuar concretamente contra o aquecimento global – algo que os governos do velho mundo precisam ter muito claro. Defender a Amazônia é defender o Cerrado e o Pantanal.

Foto: Ecologistas en Acción

Comunidade quilombola será leiloada no Maranhão

O quilombo Mundico, que integra o território Vivo junto com outras sete comunidades localizadas no município de Santa Helena, no Maranhão, foi surpreendido com a notícia que deve ser leiloado. O leilão prevê a venda de 191 hectares de terras no Quilombo Mundico, no Território Vivo, do qual a comunidade faz parte. Previsto para ocorrer dia 5 de maio, quinta-feira, às 11 horas da manhã, o leilão será realizado como forma de pagar dívidas de um indivíduo identificado como Luiz Henrique Diniz Fonseca, ex-prefeito de Porto Rico (MA), que se diz proprietário da área.

O certame será conduzido pela empresa HastaVip, do grupo Vip Leilões. Se for efetivado, o leilão de 191 hectares vai agravar ainda mais o conflito estabelecido entre a comunidade e aqueles que se dizem donos das terras ancestrais. O quilombo possui processo de regularização fundiária aberta desde 2013 junto ao INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), sem que nenhuma etapa do processo tenha sido concluída.

As comunidades do território quilombola Vivo são vítimas da morosidade e da falta de interesse do Estado brasileiro, através do INCRA, em realizar o processo de regularização fundiária ao qual têm direito. Divulgue e denuncie esta violação!


Informações e foto enviadas pela Comunidade Mundico

CNDH recomenda que Minas Gerais revogue resolução que institucionaliza consulta em desacordo com Constituição e OIT

Recomendação do conselho afirma que consulta livre, prévia, informada e de boa fé de povos e comunidades tradicionais deve seguir parâmetros nacionais e internacionais

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) publicou recomendação destinada ao estado de Minas Gerais para que revogue resolução que regulamenta e institucionaliza consulta livre, prévia e informada a povos e comunidades tradicionais em licenciamento ambiental de empreendimentos privados com intervenção mínima e/ou auxiliar do estado.

Para o conselho, a Resolução Conjunta nº 01/2022 expedida pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) e Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) é contrária aos direitos humanos, inconstitucional e inconvencional por violar frontalmente normativas nacionais e internacionais, como a Convenção nº. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Constituição Federal de 1988, que determina competência privativa da União legislar sobre populações indígenas.

O CNDH explica que o Brasil reconhece o caráter obrigatório da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) desde 1998, quando se comprometeu a implementar as decisões do órgão decorrentes da responsabilidade internacional por violações de direitos humanos. Segundo o colegiado, os Protocolos de Consulta Prévia, associados aos padrões internacionais fixados pela Convenção nº. 169 e jurisprudência da CIDH, oferece parâmetros suficientes para aplicação concreta do direito à consulta prévia, livre, informada e de boa-fé.

Já a Resolução publicada pelo estado de Minas Gerais permite que as consultas sejam comandadas por empresas interessadas na aprovação do projeto, em claro conflito de interesse; autoriza que governos municipais conduzam os processos; vincula, necessariamente, a identificação de povos tradicionais a estudos, sem mencionar quem aplicaria tais estudos e com qual metodologia; restringe a necessidade de certificação, ferindo a autodeterminação prevista na Convenção nº. 169 da OIT; expressamente prevê que a decisão das comunidades na consulta não é vinculante; e define que protocolos não são indispensáveis para realização da consulta.

A recomendação do CNDH destina-se também a representar à 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal para que tenha ciência da manifestação e promova medidas para suspensão imediata da resolução conjunta com vistas a garantir o direito à consulta livre, prévia, informada e de boa fé dos povos e comunidades tradicionais do estado de Minas Gerais.

Leia aqui a Recomendação nº16/2022 do CNDH.


Texto: Conselho Nacional de Direitos Humanos

Foto: Ingrid Barros

O episódio #2 do Podcast ”Justiça que brota da Terra” está no ar!

No segundo episódio, o programa Justiça que Brota da Terra traz os depoimentos de Miraci Pereira, do Assentamento Roseli Nunes, no município de Mirassol d’Oeste, Mato Grosso; Marli Borges, do Quilombo Guerreiro, município de Parnarama, Maranhão; Leandro dos Santos, do Quilombo Cocalinho, também em Parnarama, Maranhão; e Félix Lima, popularmente conhecido como Gato Félix, camponês morador do Acampamento Viva Deus, em Imperatriz, Maranhão. Eles apresentam denúncias contra Estados e empresas pela contaminação por agrotóxicos de comunidades e seus territórios e pelo desmonte de políticas de segurança alimentar, da comercialização da produção camponesa e dos produtos da sociobiodiversidade.
 
As denúncias foram feitas no dia 15/03/22, durante a Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.
 
Escute o podcast no spotify:
 
 
Ou no Youtube:
 
 
O programa é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Este episódio foi apresentado por Rosalva Gomes, quebradeira de coco e artesã do babaçu do Cerrado maranhense, e contou com a parceria da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O roteiro é de Bruno Santiago e Sabrina Duran e edição de áudio da Angola Comunicação.
 
Saiba mais sobre o TPP: www.tribunaldocerrado.org.br
 

Foto em destaque: FASE
 

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reúne sua coordenação ampliada 

Nesta terça-feira, 26 de abril, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reuniu sua coordenação ampliada para discutir e avaliar as ações do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado (TPP). Cerca de 50 pessoas participaram da reunião em formato virtual, entre representantes de povos indígenas, comunidades tradicionais, grupos de pesquisa, movimentos e organizações integrantes da Campanha.

A reunião ofereceu um espaço de avaliação, articulação e construção coletiva das ações do TPP. Foram discutidos os efeitos que podem ser observados a partir da trajetória do Tribunal até o momento atual, destacando os impactos positivos e os elementos que podem ser aprimorados. A coordenação ampliada também debateu coletivamente sobre os próximos passos do Tribunal, apresentando propostas concretas e deliberando sobre as futuras atividades que serão implementadas.

Raimunda Nonata, da Comunidade Quilombola Cocalinho, situada no leste maranhense, relatou que as violações e denúncias que são feitas a respeito do caso de Cocalinho e Guerreiro ganharam mais visibilidade a partir da atuação do Tribunal. Nonata também destacou que o processo do TPP têm colaborado com a organização política interna das famílias que vivem na comunidade. 

O aumento da visibilidade também foi um ponto destacado por Davi Krahô, representante do caso do Povos Indígenas Krahô-Takaywrá, Krahô Kanela e comunidades assentadas da reforma agrária nos municípios de Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão (TO). “As pessoas em nosso estado não sabem o que a gente passa em nossa comunidade, não sabem sobre a questão dos ataques de agrotóxicos, por isso o Tribunal é muito importante, ajudando a mostrar a nossa realidade para o país e a nível internacional também”, enfatizou Davi.

WCelia Carvalho, agente do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (Miqcb) no Maranhão, relatou que as discussões do TPP junto às comunidades tem levado esperança e força de vontade às moradoras e moradores do Acampamento Viva Deus, em Imperatriz, Maranhão. “Com as audiências do Tribunal deu pra perceber que a comunidade tem esperança de ter alimentação saudável de novo, produção e também acesso à terra e ao território livres”, disse WCelia, que assessora a comunidade de Viva Deus.

Em plenária, os/as participantes partilharam sobre o fortalecimento das lutas e resistências das comunidades tradicionais e povos indígenas a partir da construção do Tribunal, que agora passa a dedicar seus esforços para a organização e mobilização da Audiência Final sobre Terra e Território, agendada para acontecer entre os dias 8 e 10 de julho, em Goiânia (GO), com transmissão pelos canais de comunicação da Campanha.

Podcast “Justiça que brota da Terra” aborda lutas e resistências dos povos do Cerrado

No primeiro episódio, o programa Justiça que Brota da Terra traz os depoimentos de Erileide Domingues, do povo Guarani e Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, Renato Krahô, da Lagoa da Confusão, no Tocantins, e de Mercês Alves, indígena do Povo Akroá-Gamella e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Piauí. Eles apresentam denúncias contra Estados e empresas pela contaminação por agrotóxicos de comunidades e seus territórios e pelo desmonte de políticas de segurança alimentar, da comercialização da produção camponesa e dos produtos da sociobiodiversidade.
 
As denúncias foram feitas no dia 15/03/22, durante a Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado. Ouça abaixo:
 
No Youtube:
 
 
No Spotify:
 
 
O programa é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Este episódio foi apresentado por Rosalva Gomes, quebradeira de coco e artesã do babaçu do Cerrado maranhense, e contou com a parceria da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O roteiro é de Bruno Santiago e Sabrina Duran e edição de áudio da Angola Comunicação.
 
Escute o Programa Justiça que brota da Terra nas plataformas Anchor, Spotify ou no Youtube.
 
Saiba mais sobre o TPP: www.tribunaldocerrado.org.br

Governo de MG viola Convenção 169 da OIT e entidades exigem revogação imediata de medida

Resolução conjunta SEMAD e SEDESE foi publicada no Diário Oficial no dia 5 de abril e regulamenta a Consulta, Livre, Prévia e Informada de povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais

Em Carta Pública de Repúdio, pelo menos 80 comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e populares denunciam inconsistências na Resolução Conjunta Sedese/Semad Nº 01, de 4 de abril de 2022 (colocar link), publicada no Diário Oficial do Governo de Minas Gerais no dia 5 de abril.

A Resolução regulamenta o Direito de Consulta previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e determina a “Consulta Livre, Prévia e Informada” promovida pelas duas secretarias “para consultar os povos interessados, mediante procedimentos apropriados, cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente”, aponta trecho do documento.

Para os signatários da Carta, a Resolução fere princípios básicos de participação e da própria Convenção 169 da OIT, que faz parte do ordenamento jurídico do país, desde 2004. A Convenção “tem por objetivo ser um instrumento de proteção e salvaguarda dos direitos de povos e comunidades tradicionais, garantindo-lhes, dentre outros, o direito à autoatribuição, o direito à consulta e de participação da tomada de decisões que possam trazer impactos ao seu modo de vida”, destaca trecho da Carta Pública.

Não por acaso, a Resolução foi publicada um dia depois da realização de uma reunião do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) com comunidades geraizeiras de Vale das Cancelas, em Montes Claros, que tratou sobre o Direito à Consulta.

Antes, no dia 22 de março, o MPMG emitiu uma recomendação para que as duas secretarias suspendessem as audiências públicas que seriam realizadas nos dias 28 e 29 de março nas cidades de Grão Mogol e Fruta de Leite, ambas localizadas no escopo do Projeto Bloco 8, da mineradora SAM. As audiências públicas foram suspensas até que as comunidades fossem consultadas, conforme determinação da Convenção 169.

“Esta resolução do governo ZEMA vem, portanto, para acelerar os grandes projetos de morte, como o projeto Bloco 8 da empresa Sul Americana de Metais (SAM), que representa a confirmação de um modelo de exploração mineral que já deu mais do que suficientes provas de falência e caos, que provocou catástrofes criminosas e impunes como as ocorridas em Mariana (2015) e Brumadinho (2019)”, denuncia trecho da Carta.

Leia a Carta completa e ASSINE AQUI

A Carta alerta ainda que a elaboração da Resolução já fere a Convenção 169, tendo em vista que não foi realizada com a participação de povos e comunidades tradicionais. “Entendemos, assim, que essa Resolução é mais uma manobra do Governo Zema, a serviço dos grandes empreendimentos, das mineradoras e empresas do setor de energia, para criar uma aparência de diálogo. A verdade é que ela é violenta e retira os direitos dos povos e comunidades tradicionais”, alerta outro trecho da Carta.

Confira outros pontos da Resolução que violam os direitos de povos e comunidades tradicionais:

– Abre brechas para mais violências empresarial e estatal contra as comunidades;

– Permite que empresas com interesses em instalar empreendimentos realizem a Consulta;

– Favorece empresas e limita, intimida a liberdade de consulta livre, prévia e informada para as populações tradicionais;

– Prevê que, não havendo consenso na Consulta junto aos Povos e Comunidades Tradicionais, a decisão final será da SEMAD, mesmo que os povos e comunidades consultados neguem a aprovação do empreendimento;

– Impõe prazos que violam o caráter livre e informado da consulta, como por exemplo o prazo de 45 dias corridos para a elaboração de Protocolos de Consultas e 120 dias para a conclusão da consulta.


 Foto: Ingrid Barros 

Júri do TPP destaca grilagem de terras e uso massivo de agrotóxicos pelo agronegócio durante pronunciamento sobre audiência

No último dia 29 de março, o júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado se manifestou publicamente sobre os casos apresentados durante a Audiência Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade, realizada de maneira virtual entre os 15 e 16 de março, sendo parte da programação oficial de atividades do TPP no Brasil.

O pronunciamento foi a primeira reação do painel de juízes do TPP sobre as denúncias relatadas durante a Audiência e sobre a acusação do crime de ecocídio contra o Cerrado e genocídio cultural de seus povos indígenas e comunidades tradicionais que tem sido  cometido de forma sistemática por Estados e empresas. Participaram do evento de transmissão da declaração as e os integrantes do júri Antoni Pigrau, Dom Valdeci Mendes, Enrique Leff, Deborah Duprat, Eliane Brum, Philippe Texier, Rosa Acevedo, Silvia Ribeiro e Teresa Cravo.

“A declaração é fruto de um trabalho coletivo, e ainda tem caráter preliminar. É um gesto de agradecimento às comunidades pelo esforço das denúncias que fizeram na audiência, e um reconhecimento da urgência dos seus testemunhos”, disse Teresa Cravo antes de iniciar a leitura da declaração.

Pronunciamento

Os seis casos da segunda e penúltima audiência temática do TPP foram apresentados ao longo do dia 15/03. Em seu pronunciamento, o júri apontou que todos eles possuem dois traços comuns que merecem destaque.

“Em primeiro lugar, a denúncia da grande concentração e grilagem de terras, da existência de enormes plantios com culturas transgênicas e do uso massivo e sem controle dos agrotóxicos que estes implicam, por parte das grandes empresas do agronegócio e fazendas. Em segundo lugar, a denúncia de que esta realidade tem efeitos diretos e indiretos muito perversos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais, como o impacto na saúde das pessoas, incluindo crianças, devido à contaminação por agrotóxicos nas áreas ligadas às práticas tradicionais de plantio e coleta, e pelo uso das águas contaminadas e resíduos nocivos na alimentação”.

Outro ponto de destaque na declaração foi a participação ativa do estado brasileiro nas violações contra povos e comunidades tradicionais, na medida em que a sua principal política econômica pressupõe e facilita esse modelo do grande monocultivo e do uso intensivo de agrotóxicos. “O Brasil é atualmente o maior usuário de agrotóxicos do mundo, e o segundo maior nas lavouras transgênicas, que implicam um aumento ainda maior do uso de agrotóxicos”, apontou a declaração.

Racismo ambiental

O racismo ambiental, que atravessou depoimentos de representantes dos casos e também de relatoras e relatores de acusação, foi outro ponto central da declaração do júri, uma vez que aparece como pilar onde se assentam as violações denunciadas. “O ‘racismo ambiental’, de forma intencional ou não, impede o Judiciário brasileiro de dar resposta adequada a essas múltiplas violações de direitos dos povos do Cerrado e à defesa de seus direitos existenciais, aos direitos coletivos das comunidades territoriais a seus bens comuns, e aos bens comuns da humanidade.”

Leia AQUI a declaração completa do júri

Os casos

Veja a seguir detalhes de cada um dos seis casos apresentados durante a audiência no dia 15/03.

Piauí

Ribeirinhos do Chupé e Indígenas Akroá-Gamella do Vão do Vico

 

Comunidade Tradicional do Território Chupé e Comunidade Indígena Akroá-Gamella da Terra Indígena Vão do Vico, no município de Santa Filomena, Piauí, lutam pela permanência e titulação de seus territórios enquanto sofrem com a expropriação ilegal e desmatamento de parte de seus territórios tradicionais nas chapadas por empreendimentos de monocultivo de soja de grileiros, também beneficiados por investimentos de fundos de pensão internacionais. As violações causam impactos ambientais com contaminação por agrotóxicos nas nascentes de água, contaminação do solo e das roças das comunidades por via aérea através do vento. 

Tocantins

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela

 

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela e comunidades assentadas da reforma agrária nos municípios de Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão, no Tocantins, resistem à apropriação ilegal das águas por meio de barragens, canais, bombas e desvio do leito do rio, à consequente seca, ao desmatamento e à contaminação por agrotóxicos na bacia dos rios Formoso e Javaés, afluentes do Araguaia, causadas pelos produtores do Projeto Rio Formoso de monocultivo irrigado de arroz, soja e outros, com apoio do estado e omissão do órgão fiscalizador. Enquanto sofrem a afetação nas águas, base da reprodução de seus modos de vida e sua saúde, os Krahô-Takaywrá lutam pela demarcação de seu território e os Krahô Kanela vivem em 7 mil hectares e lutam pela outra parte do território que está ainda em posse dos fazendeiros.

Mato Grosso do Sul

Povos Indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau

 

Indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau em Terras Indígenas e retomadas em diversos municípios do Mato Grosso do Sul lutam para seguir existindo como povos indígenas, enquanto enfrentam situações de desterritorialização, confinamento extremo, assassinatos, torturas, espancamentos, ataques com armas de fogo, agrotóxicos e insegurança alimentar extrema constituindo um processo de genocídio/etnocídio em curso, no marco de décadas de intensos conflitos com fazendeiros e grileiros do agronegócio exportador, com apoio do estado e de poderosos políticos.

 

Mato Grosso

Camponeses do Assentamento de Reforma Agrária Roseli Nunes

Camponeses do Assentamento de Reforma Agrária Roseli Nunes em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso, lutam para manter a força de sua produção e comercialização agroecológica em um contexto de destruição das políticas de reforma agrária e de incentivo à comercialização camponesa, enquanto enfrentam a ameaça de expropriação por projetos minerários de fosfato e ferro ligada aos interesses de políticos e do agronegócio do estado.

 

Maranhão

Comunidades Quilombolas de Cocalinho e Guerreiro

Comunidades Quilombolas de Cocalinho e Guerreiro, no município de Parnarama, Maranhão, lutam pela titulação do Território Quilombola, enquanto enfrentam conflito com grilagem, desmatamento, incêndios florestais e contaminação por agrotóxicos por empreendimentos de monocultivos de eucalipto de empresa fabricante de papel e celulose e por fazendas de soja que se expandem para a região.

 

Maranhão

Quebradeiras de Coco-Babaçu e agricultores familiares do Acampamento Viva Deus

Quebradeiras de Coco-Babaçu e agricultores familiares do Acampamento Viva Deus, nos municípios de Imperatriz e Cidelândia, Maranhão, lutam pela titulação de um Assentamento de Reforma Agrária e vivem em constantes conflitos, ataques, vigilância e ameaças de desapropriação por empreendimentos de monocultivos de eucalipto de empresa fabricante de papel e celulose.

Próxima audiência e veredito final

A Audiência Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade foi a segunda audiência temática da fase instrutória do júri do Tribunal. A primeira foi a Audiência das Águas, realizada nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro de 2021.

A terceira e última audiência temática será sobre Terra e Território, e será realizada junto com a audiência final deliberativa. As duas atividades acontecerão entre os dias 8 e 10 de julho de 2022, de forma híbrida – presencial e virtual.

O foco dessa audiência temática serão as denúncias sobre os processos de desmatamento e grilagem de imensas porções de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região, como processos provocadores do racismo fundiário e ambiental para os povos, contribuindo, em razão de sua sistematicidade geográfica e temporal, para o ecocídio do Cerrado e ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado.

Teremos os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as de todos os casos, articulados com a fala de relatores/as de acusação sobre a sistematização dessas denúncias em escala de Cerrado.

No último dia da Audiência Final, após a escuta dos casos, relatores de acusação e expressões culturais, o júri lerá uma primeira manifestação pública que antecipe elementos do veredito final.

Para saber mais sobre as atividades, acesse a programação oficial do TPP.


 Foto em destaque: Cimi GO-TO

Mulheres denunciam envenenamento e morte causados por agrotóxicos no Cerrado 

Audiência realizada no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado trouxe diversos depoimentos de vítimas e dados de pesquisas científicas

Uma menina, quando criança, via o avião passar com pulverização aérea e, junto com outras crianças da comunidade, saía correndo para debaixo da garoa achando que era água. Agora, aos 17 anos, teve um filho que nasceu com focomelia, uma anomalia congênita que afeta os ossos longos de braços e pernas. Este é só um dos vários casos de contaminação por agrotóxicos que afetam comunidades inteiras no Cerrado, especialmente mulheres, citados na Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado realizada nos dias 15 e 16 de março. 

O uso sistemático e normalizado de agrotóxicos no Brasil vem sendo intensificado nos últimos anos. Segundo dados do site Repórter Brasil, só entre 2019 e 2021, mais 1.411  substâncias químicas prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente foram liberadas e agora invadem os campos brasileiros. Em 2020, foram liberados quase 10 agrotóxicos por semana. E cerca de um terço dos agrotóxicos liberados no Brasil são proibidos na União Europeia. 

Não é para menos que os relatos de contaminação estejam aumentando. Raquel Rigotto, médica, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e relatora de acusação do TPP, elencou os quadros que vêm sendo causados por agrotóxicos: “São sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos, dor no estômago; irritações na pele, na garganta, nos olhos; sintomas neurológicos, como dor de cabeça; tremores, convulsões, problemas renais. Além de quadros mais graves como o desenvolvimento de leucemia, câncer de mama, próstata e muitos outros, alterações no sistema reprodutor, como infertilidade, abortos, partos prematuros, má formação congênita, depressão, distúrbios neurológicos, autismo e até suicídio”, relatou. 

Além das palavras de Raquel estarem embasadas em estudos científicos que comprovam os danos dos agrotóxicos à saúde, os presentes na audiência puderam ouvir diversos relatos de mulheres afetadas por esse tipo de contaminação. Um dos mais fortes e emocionados foi o depoimento de Marli Borges, do Quilombo Guerreiro, em Parnarama-MA. “Os nossos direitos têm sido violados, o nosso modo de vida, por causa do desmatamento e do envenenamento. A dor de cabeça minha é todos os dias, eu vivo empolada. Tem dia que eu não tenho nem coragem de levantar, com tanta dor nos ossos, nas pernas. O nariz entupido e espirrando 24h, por mais que eu faça remédio, que todo remédio do mato curava a gente e agora não cura,” relata Marli. 

“Nós temos vários casos no nosso assentamento de doenças”, relatou também Miraci SIlva, do Assentamento Roseli Nunes-MT. “Tem várias pessoas no nosso assentamento com problemas de depressão, com problemas de alergia, problema de câncer… A gente faz essa pergunta: por que que antes não tinha esses problemas? Por que que agravou? Por que aumentou?”, indaga.

A própria Miraci começou a responder essas perguntas em seu depoimento, relatando que as práticas do agronegócio do entorno estão cada dia chegando mais perto das comunidades. A multiplicação das lavouras de monocultivo traz consigo a vasta utilização de agrotóxicos, que afetam os diversos povos e comunidades do entorno. A soja, que é o grão que mais cresce em áreas plantadas no Brasil, consome sozinha 52% dos agrotóxicos do país, de acordo com a Peça de Acusação da Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado. E, ainda de acordo com o documento, o Cerrado brasileiro é especialmente afetado, só ele concentra 75% da produção de soja. Já em 2015, os dez municípios que mais consumiram agrotóxicos no Brasil se encontram no Cerrado.

Maria Emília Pacheco, assessora e pesquisadora da ong FASE e também relatora de acusação destacou na audiência o ponto importante da fome no país. “Relatório divulgado no ano passado da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional nos disse que mais da metade da população brasileira vive algum grau de insegurança alimentar. E cerca de 9% da população brasileira, 9 milhões de brasileiros e brasileiras, vive em situação de fome”, pontuou.

Esses dados, quando somados aos depoimentos de pessoas na audiência, mostram a relação dos agrotóxicos com a insegurança alimentar brasileira. Além dos efeitos nocivos à saúde diretamente, os agrotóxicos danificam e afetam cultivos próximos, o raio de alcance é grande e muitas comunidades não conseguem se defender. “A gente vem sentindo grandes transformações aqui na comunidade desde que os fazendeiros viraram nossos vizinhos, por causa do envenenamento. As nossas frutas não prestam mais, as nossas lavouras das nossas roças não são as mesmas”, disse Luciana Neles, do Território Cocalinho-MA. 

Nos depoimentos das mulheres é possível escutar a preocupação com o alimento. “Não conseguimos produzir o alimento que é para o nosso consumo por conta dos ataques das formigas, dos animais que correm dos agrotóxicos para o alimento saudável. Então por isso não conseguimos produzir”, contou Eryleide Domingues, indígena do Povo Guarani e Kaiowá, da Comunidade Guyraroka-MS.

O envenenamento e a destruição dos cultivos da agricultura dos povos camponeses e tradicionais pela contaminação de agrotóxicos são apenas dois dos principais aspectos da presença do agronegócio na vida dessas populações. “É preciso barrar essa cadeia produtiva de commodities, mas também de vulnerabilizações que o agronegócio causa, para que a gente tenha alguma chance de reverter o ecocídio e o genocídio cultural já em curso”, aponta Raquel Rigotto.

A agricultora Miraci ecoa seu apelo: “Em nome de todas as famílias assentadas, eu peço socorro. Peço socorro. Alguém há de nos ouvir e há de lutar contra esse modelo de destruição dos nossos territórios”. 


 Texto: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Foto: Mulheres do Povo Guarani e Kaiowá (Aldeira Jaguapiru, MS) | Crédito: Bruno Santiago/Acervo CESE

Sem Consulta às comunidades, Governo de Minas avança processo de licenciamento do Projeto Bloco 8

Ameaçadas pela instalação do Projeto Bloco 8, da empresa Sul Americana de Metais S.A. (SAM), comunidades do território tradicional de Vale das Cancelas, região no Norte de Minas Gerais, tiveram violado o direito à consulta livre, prévia, informada, assim como consta na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificado pelo Brasil desde 2004.

Isso porque a Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Governo de Minas Gerais realizará nos dias 29 e 30 de março, duas audiências públicas, em Grão Mogol e Fruta de Leite, para apresentar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), no âmbito do processo de licenciamento ambiental do Projeto Bloco 8, conforme publicado no Diário Oficial de Minas Gerais do dia 5 de março.

A apresentação do estudo de EIA/RIMA por meio da audiência pública representa o último passo para o início da instalação e funcionamento do empreendimento.

“A gente sabe que a audiência publica é só um procedimento formal e que quando ela acontece é porque o processo está pronto para ser licenciado. Com essa audiência pública, o Estado está dizendo que vai licenciar o projeto, mesmo sem ter realizado o procedimento de consulta às comunidades tradicionais geraizeiras”, aponta a advogada popular do Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular (CMA), Larissa Vieira.

MPMG recomenda suspensão das audiências

Na tarde do dia 22/03, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) expediu Recomendação Conjunta à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), sobre a aprovação da Licença Prévia e do Licenciamento Ambiental Trifásico, do projeto Bloco 8, em trâmite.

O MPMG argumenta que o Projeto poderá causar sérios impactos sociais, econômicos e ambientais, principalmente na região dos municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis, no Norte de Minas.

De acordo com a Recomendação, a Semad deve determinar, imediatamente, a suspensão da realização das Audiências Públicas sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e seu respectivo Rima, no âmbito do processo de licenciamento ambiental do projeto Bloco 8.

O MPMG recomenda à Sedese e à Subsecretaria de Direitos Humanos, que realizem a Consulta Prévia junto com as comunidades.

Que seja realizada, em prazo razoável, a Consulta Prévia às Comunidades Tradicionais Geraizeiras potencialmente afetadas pelo empreendimento Projeto Bloco 8, da Mineradora Sul Americana de Metais, nos termos da Convenção 169 da OIT, por meio de protocolo de consulta a ser elaborado junto às comunidades interessadas, devendo para tal ser respeitado o princípio da boa-fé e ocorrer de forma livre, prévia, informada e culturalmente adequada para que não se transforme em mera formalidade procedimental”, aponta trecho do documento.

O Ministério Público de Minas Gerais deu o prazo de cinco dias para a resposta de acatamento à Recomendação ou “para a apresentação de justificativas fundamentadas para o seu não atendimento”.

Mobilização

A Recomendação do MPFMG aconteceu depois da mobilização de moradores da região de Vale das Cancelas. No dia 17 de março foi encaminhado um ofício  para seis órgãos de âmbito federal, estadual e municipal, denunciando a violação, pelo estado de Minas Gerais na obrigação de respeitar e de proteger os direitos humanos e aponta irregularidades na realização da audiência pública.

No documento, a comunidade relata que foi surpreendida no dia 8 de março com a instalação de faixas dentro do território com informações sobre a audiência pública e pede a suspensão das duas audiências públicas, pois “deturpam o processo de devida consulta livre, prévia, informada e de boa fé às comunidades tradicionais, como determinado pela Convenção OIT 169”.

O ofício também reivindica a suspensão do licenciamento ambiental da empresa Sul Americana de Metais “até a finalização do processo de regularização fundiária do território e do procedimento de consulta, que deve ser iniciado após a finalização do protocolo de consulta que está sendo construído pelas comunidades”.

O documento foi encaminhado  6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento, Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, Defensoria Pública de Minas Gerais, Defensoria Pública da União, Ministério Público de Minas Gerais e Ministério Público Federal.

destaque site campanha VALECANCELAS BLOCO8 07

Foto: Coletivo Margarida Alves

Audiência não é consulta

A audiência pública é um requisito formal do processo de licenciamento que não se confunde com a Consulta, procedimento previsto em uma Convenção Internacional que tem caráter de norma supralegal.

“Com a convocação da audiência o Estado sinaliza mais uma vez que continuará dando prosseguimento ao processo de licenciamento e só depois consultará as comunidades. Não faz sentido liberar um empreendimento que está sobreposto a um território tradicional e depois consultar   as comunidades tradicionais  O Estado está dando continuidade a um processo de licenciamento desrespeitando a Convenção 169 da OIT”, explica Larissa Vieira.

|| O direito à Consulta Prévia garante à população tradicional o direito de participar das discussões e de ser consultada sobre qualquer medida, administrativa e legislativa, que possa atingir seu território, como no caso de grandes empreendimentos. || 
Projeto

O empreendimento Projeto Bloco 8 da SAM prevê a implementação de duas barragens, com capacidade para 845 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração, atingindo os municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis.

Marcado nos últimos seis anos por crimes ambientais que dizimaram pessoas e regiões do estado de Minas Gerais, o projeto Bloco 8 pretende abrigar a maior barragem de rejeitos da América Latina. Se instalada, a barragem 100 vezes maior do que a que rompeu em Brumadinho (Região Metropolitana de Belo Horizonte), em janeiro de 2019.(link matéria sobre Brumadinho)

Território tradicional reconhecido

A comunidade de Vale das Cancelas resiste há mais de 10 anos para que esse grande empreendimento minerário não seja instalado. O Território Geraizeiro é composto por cerca de 73 comunidades (Núcleos Tingui, Josenópolis e Lamarão). Estima-se que pelo menos 2.230 famílias tradicionais sejam atingidas pelo empreendimento da mineradora SAM.

Em 2014, a Lei Estadual 21.147 instituiu a política estadual para o desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais. Mesmo com uma legislação estadual, o processo de regularização fundiária do território ainda não foi concluído.

A violação dos direitos dos geraizeiros e geraizeiras de Vale das Cancelas pela SAM e pelo governo de Minas Gerais é um dos 15 casos denunciados ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.


Texto: Coletivo Margarida Alves de Assessoria Jurídica Popular /Com informações da Assessoria de Comunicação do MPMG

Imagem em destaque (topo da notícia): Comunidades Geraizeiras do Vale das Cancelas (MG)

Recomendações a júri do Tribunal dos Povos ajudam a conter privatização e contaminação das águas do Cerrado

Por ocasião da Audiência das Águas, realizada entre os dias 30 de novembro e 01 de dezembro de 2021 no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado elaborou uma série de 23 recomendações ao júri do tribunal para auxiliá-lo na análise dos casos.

Ao longo desta semana das águas, iniciada ontem (22/03) com a celebração do Dia Mundial da Água, a Campanha destacará as recomendações em suas redes sociais, ressaltando seu caráter urgente e necessário para a proteção das águas dos territórios, da sociobiodiversidade, da soberania e autodeterminação dos povos do Cerrado.

Princípios básicos

Cada uma das 23 recomendações foi amplamente discutida em uma oficina participativa que contou com as organizações, representantes e articuladores/as dos casos concretos denunciados ao Tribunal. Por meio das recomendações, a Campanha, além de subsidiar a atuação do júri, também propõe a ele que indique ao Estado brasileiro algumas medidas que ajudem a conter a apropriação privada e contaminação das águas (rios e aquíferos) do Cerrado, como processos provocadores de injustiça hídrica e racismo ambiental para os povos.

As recomendações estão baseadas em 6 princípios básicos também discutidos coletivamente e que ajudam a orientar as ações e políticas de gestão e proteção das águas. São eles:

1. A água é um bem comum, não passível de privatização e mercantilização, constitui direito humano fundamental, integrante do direito à alimentação básica, assim como é parte indissociável dos territórios tradicionais dos povos do Cerrado, portanto, essencial para a sua autodeterminação;

2. As águas integram os territórios tradicionais e aos povos do Cerrado devese garantir o seu acesso prioritário e uso livre;

3. Povo, território, cultura e natureza são elementos indissociáveis e a suas correlações devem orientar a construção, efetivação e promoção dos direitos dos povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e dos camponeses;

4. A prioridade de garantia e acesso às águas pelos povos indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses deve orientar a política nacional de proteção e gestão das águas;

5. Os povos indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses e seus modos de vida são os guardiões das águas do Cerrado, detém os conhecimentos sobre seus fluxos e técnicas necessárias para a sua preservação, e devem ser assim reconhecidos e protegidos como patrimônio cultural do país;

6. A efetivação dos direitos territoriais, do direito à permanência e do impedimento de deslocamentos forçados dos povos indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses é condição fundamental para a autodeterminação dos povos e proteção dos seus modos de vida.

RECOMENDAÇÕES

1. Adoção de todas as medidas necessárias para garantir e efetivar os direitos humanos (territoriais, sociais, ambientais e culturais) dos povos do Cerrado, sejam os povos indígenas, quilombolas, tradicionais ou camponeses, em cumprimento às determinações da Convenção 169 da OIT, Convenção sobre Diversidade Biológica, Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses, Camponesas e outras Pessoas que trabalham em territórios Rurais, Constituição Federal e dentre outras normas nacionais e internacionais que protegem os direitos destes povos culturalmente distintos da sociedade hegemônica;

2. O Cerrado é patrimônio nacional brasileiro e deve ser assim reconhecido constitucionalmente, mediante a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional nº 504 (PEC 504);

3. Que sejam formuladas e efetivadas, mediante o permanente direcionamento e protagonismo dos povos do Cerrado, as políticas públicas de acesso prioritário à água e ao saneamento básico como direito fundamental vinculado diretamente à vida digna de todos e de cada um, como parte integrante do direito humano à saúde, à alimentação e soberania alimentar, e do direito à autodeterminação dos povos, de modo a garantir a identidade, a cultura e a autonomia dos povos indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses;

4. Elaboração e implementação de uma Política Nacional de Proteção e Recuperação das Nascentes e outros corpos d’água do Cerrado, que deve envolver a participação efetiva e direta das comunidades e povos tradicionais e da sociedade civil organizada, e modo a prever ações de diagnóstico, preventivas e de monitoramento, com garantia de dotação orçamentária e destinação de recursos públicos;

5. Criação de um banco de dados público e de fácil acesso que agregue e disponibilize informações sobre a concessão de outorgas superficiais e subterrâneas (estaduais e federais) e autorizações de supressão de vegetação, de modo a garantir a fiscalização, controle social e transparência dos dados socioambientais quanto a quantidade e qualidade da água;

6. Realização de ações de monitoramento, controle e transparência do uso e da qualidade da água pelos estados e municípios;

7. Reconhecimento de que as ações e programas de Pagamentos de Serviços Ambientais (PSA) para conservação dos Recursos Hídricos afrontam a concepção das águas como bem comum, já que através de sua precificação e comercialização via contratos de PSA, favorece a mudança de mãos da gestão das águas para quem estiver disposto a pagar (o usuário-pagador), em despossessão dos usuários diretos nos territórios, os povos do cerrado, fragilizando sua autodeterminação;

8. Produção participativa de um mapeamento nacional descritivo das áreas de recarga, bem como das condições hídricas e ambientais atuais dos aquíferos do Cerrado;

9. Que seja ampliada a obrigatoriedade de manutenção de reserva legal em todo o Cerrado para 35%, estabelecendo-se ainda a obrigatoriedade de reserva legal em 80% (mesmo patamar da Amazônia) em áreas de recarga hídrica, sobretudo aquelas que se sobrepõem aos aquíferos Guarani, Bambuí e Urucuia;

10. Que sejam efetivadas ações para a recomposição obrigatória da vegetação nativa em áreas de APP das chapadas do Cerrado (da linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais, conforme inciso VIII, art. 4 da Lei 12.651/12), não sendo consideradas como área rural consolidada;

11. Que sejam criados mecanismos de controle que detectem e impeçam a sobreposição de áreas de Reserva Legal e APP aos territórios indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses, ainda que não estejam oficialmente demarcados, em observância à prioridade aos seus direitos territoriais e em consonância com o entendimento da Corte Interamericana e o STF que reconhecem plena compatibilidade entre proteção do ambiente e os direitos territoriais e de uso dos recursos naturais por povos indígenas e tradicionais (teoria da dupla afetação);

12. Implementação efetiva dos direitos previstos na Convenção 169 da OIT, como norma de status supralegal que suspende a eficácia de outras normas infraconstitucionais em caso de colisão, garantindo-se a autodeterminação dos povos do Cerrado por meio da garantia de seus direitos: à posse e propriedade coletiva/comunal de seus territórios (art. 13 e 14), assim como ao uso, administração e gestão dos recursos naturais neles existentes (art.15), incluindo-se necessariamente as águas; de permanência e não deslocamento forçado por meio do dever do Estado não apenas de consultar, mas aferir o consentimento prévio, livre e informado das comunidades tradicionais, quilombolas, camponesas e povos indígenas diante de empreendimentos que possam impactar seus territórios e modos de vida (art. 7.1); assim como o dever de consulta livre, prévia e informada anterior e que deve ser atualizado em todas as fases de produção de quaisquer atos administrativos (inclusive para concessão de outorgas hídricas e autorizações de supressão de vegetação) e/ou legislativos que possam afetar-lhes (art. 6.1 e enunciado nº 29 do MPF); dentre outros direitos garantidos pela Convenção;

13. Impedimento, por pelo menos 10 anos, do desmatamento ilegal e também legal, ou seja, remoção completa da cobertura vegetal primária por corte raso (conforme definição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE), em áreas de recarga ou de grande importância hídrica;

14. Criação de Zonas Livres de captação intensiva e desmatamento em larga escala, em territórios de grande importância hídrica ou em estado crítico de disponibilidade das águas (em qualidade e quantidade), preservando-se o direito de uso, administração e conservação dos recursos naturais presentes  nos territórios tradicionais por parte dos povos indígenas, quilombolas, tradicionais e camponeses do Cerrado;

15. Que, em respeito ao princípio da precaução, não sejam concedidas ou renovadas outorgas hídricas e que sejam suspensas as já concedidas nas Bacias Hidrográficas que não contem com Plano de Bacia devidamente atualizado e fundamentado em critérios seguros e atuais para concessão, em cumprimento aos princípios e diretrizes da Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei 9433/97);

16. Reconhecimento das tecnologias de captação, irrigação intensiva (sobretudo a captação por meio de poços de alta vazão e irrigação por meio de pivôs centrais) e armazenamento em larga escala (a exemplo dos grandes reservatórios artificiais de água) como inviáveis para contenção do ecocídio em curso do Cerrado, devendo haver suspensão de seu uso no tempo e/ou no espaço, conforme análise técnica de suficiência hídrica para acesso equitativa à água pelas presentes e futuras gerações;

17. Não promoção, implementação e/ou aprovação dos marcos normativos que fortaleçam a privatização e mercantilização das águas e a despossessão dos povos do cerrado do manejo das águas em seus territórios , como a Lei 14.119/2021 Lei de PSA; a Lei 14.026/2020, novo marco do saneamento básico, dentre outras;

18. Não aprovação da Nova Lei geral do Licenciamento Ambiental (PL 3729/2004);

19. Proibição da pulverização aérea de agrotóxicos em todo o Cerrado;

20. Promoção de uma ampla discussão com povos do Cerrado e sociedade civil organizada que viabilize a aprovação de um marco legal nacional que regule as medidas de segurança das barragens de água e de rejeito, o que deve envolver o fortalecimento dos órgãos de fiscalização sobre a segurança de barragens e criação de comissões participativas capazes de realizar ações de monitoramento;

21. Que na ocorrência de danos socioambientais às águas superficiais e subterrâneas do Cerrado e impacto a seus povos, lhes seja garantida a reparação integral, que deve envolver, no mínimo, aplicação do princípio da precaução e inversão do ônus da prova na investigação para que a empresa seja responsabilizada de forma objetiva pelo risco potencial ao meio ambiente de sua atividade econômica, definição e imposição das sanções pertinentes aos responsáveis; desde medidas urgentes para se evitar ou conter a realização do dano ambiental para restauração de seus status quo ante, quanto a indenização por danos morais e materiais, individuais e coletivos, dos lucros cessantes, dos danos ao projeto de vida, a ser acordada com as vítimas; a implementação de medidas efetivas de suporte emergencial e de reabilitação com critérios construídos conjuntamente com as comunidades e povos atingidos; a satisfação das vítimas; implementação de medidas que colaborem para a recuperação das áreas, ambientes e ecossistemas degradados; medidas que garantam o amplo acesso à informação acerca do processo de reparação; a implementação de medidas de caráter jurídico, político, administrativo e cultural que promovam a salvaguarda dos direitos humanos e previna para que novos eventos similares não se repitam (garantia de não-repetição), conforme dispõe a Convenção Interamericana de Direitos humanos, a Resolução 60/147 da Assembleia Geral da ONU, e a jurisprudência consolidada na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH);

22. Que seja reconhecida formalmente a imprescritibilidade dos crimes socioambientais que causem danos ambientais e aos povos do Cerrado e da sua reparação civil, garantindo-se a reparação integral das vítimas, no termos da recomendação anterior;

23. Que se garanta o reconhecimento, proteção e promoção por parte do Estado às tecnologias, técnicas e conhecimentos tradicionais de uso, gestão e preservação dos territórios e da qualidade e quantidade da água, como de fundamental importância para a própria tutela do direito humano ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, de forma que, referidas práticas, tecnologias e modos de relação com o território do Cerrado não sejam criminalizadas.


 Foto em destaque: João Zinclar/Acervo CPT

Povos e comunidades do Cerrado denunciam racismo por trás de ataques químicos feitos pelo agronegócio 

“Eles jogam veneno lá em cima, não tem mais Cerrado pra proteger, e desce para as águas nos brejos. Tá tudo contaminado”. O relato de Jovecino Pereira da Silva, do Território Ribeirinho Chupé, município de Santa Filomena (PI), foi partilhado em 15 de março durante o primeiro dos dois dias de Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, realizada pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

A fala de Jovecino se somou a depoimentos de organizações, povos e comunidades tradicionais do Cerrado impactados pela ação e influência do capital que opera nos territórios pelas mãos do agronegócio e da mineração, e que tem se refletido na paralisação e anulação de procedimentos demarcatórios, grilagem de terras, queimadas, desmatamento e, de modo especial, na contaminação por agrotóxicos, utilizados como arma química por empresários do agronegócio como forma de exterminar ou inviabilizar a vida dos povos da terra.

No próximo dia 29/03, das 14 às 15hs (horário de Brasília), o júri fará um pronunciamento ao vivo com considerações sobre esta audiência. O pronunciamento será transmitido pelo YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Até lá, assista aos dois dias de audiência.

AUDIÊNCIA DIA 15/03

AUDIÊNCIA DIA 16/03

Sintomas de intoxicação

Ainda no dia 15/03, Mercês Alves, indígena e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), contou como o povo Akroá Gamela do Vão do Vico, no Piauí, tem sido afetado. “Teve um período que por mais de dois anos não tinham como plantar. Quando iam no local, estavam lá os pistoleiros sem permitir que eles se aproximassem, e quando plantavam [o plantio] era destruído pelo trator”, conta, denunciando também o uso de agrotóxicos pulverizados através de aviões, que tem afetado as comunidades e todo ecossistema do Cerrado.

De Lagoa da Confusão, município mais afetado pelos agrotóxicos no estado do Tocantins, os indígenas Renato Krahô e Davi Krahô explicaram como os agrotóxicos têm impactado na saúde das comunidades. Davi apontou que duas das pessoas presentes no vídeo exibido instantes antes da sua fala já haviam falecido em decorrência das contaminações. Renato Krahô destacou que “muitas espécies de peixe não existem mais e muitas aves têm morrido no entorno das lavrouras”. 

Eryleide Domingues, do Território Guyraroka (MS), trouxe em seu relato que são frequentes os sintomas de intoxicação na população do território, como dor de cabeça, diarreia, coceira na pele e nos olhos. Ela destacou que até o cheiro no território é marcado pelo odor dos produtos químicos. “Não conseguimos produzir alimentos para o nosso próprio consumo por conta dos ataques de formiga, dos animais que correm dos agrotóxicos para o alimento saudável”.

Outro povo que tem tido a soberania alimentar inviabilizada são os  Kinikinau (MS), segundo Flaviana Fernandes, do povo Kinikinau. Ela explica que desde a guerra do Paraguai seu povo foi desterritorializado e atualmente vive no território do povo Terena. Para Matias Rempel, missionário do Conselho Indigenista Missionário (CIMI/MS), o contexto vivenciado pelas comunidades é de genocidio e etnocídio. “Desde os ataques paramilitares levados a cabo pelos fazendeiros e pistoleiros até os ataques que utilizam as forças de segurança do estado em face da proteção do agronegócio, do latifúndio: é um genocidio intencional e planejado”.

Sem soberania alimentar e com doenças

A situação do Assentamento Roseli Nunes, do Mato Grosso, foi um dos grandes exemplos do avanço da monocultura como responsável pela deterioração das condições de vida das comunidades. Cercadas por canaviais, 330 famílias do assentamento convivem diariamente com o veneno que é despejado pelos grandes empreendimentos. “O nosso assentamento é pantanal, é Cerrado, e estamos no meio desses biomas e também com o amazonas. Estamos vivendo com uma forte ameaça no território. Eu peço socorro e alguém há de nos ouvir”, denunciou Miraci Pereira, representante do território.

A presença de doenças ocasionadas pela convivência forçada com os agrotóxicos e a perda da qualidade do solo e dos alimentos, trazendo insegurança alimentar, foi um relato comum às comunidades. Um dos depoimentos mais contundentes e emocionados da audiência foi o de Marli Borges, do Quilombo Guerreiro, do Maranhão, que denunciou ainda o descaso da saúde pública da região e a omissão em identificar a causa das doenças. “Não querem fazer teste pra saber se é veneno no meu sangue. Eu não tenho saúde, só vivo doente, não sei se na próxima audiência estarei viva”, disse.

Leandro dos Santos, do Quilombo Cocalinho, também no Maranhão, lembrou que além do desmonte das políticas públicas em função do agronegócio, existe também a cooptação de pessoas da comunidade para trabalhar nos grandes empreendimentos. Lembrou ainda da perda da biodiversidade local, em especial das abelhas. “Estamos nos sentindo ameaçados por essa arma do agronegócio aqui na região”, comentou.

Criar poder popular

Zenilde dos Santos, do Acampamento Viva Deus, no Maranhão, relatou que são cultivados na comunidade arroz, feijão, milho, mandioca e abóbora. No entanto, esses alimentos já não têm a mesma qualidade para alimentação. “A gente planta uma melancia, nasce bonita e depois vai se acabando e eu acredito que é por causa do veneno. Nós somos desassistidos pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)”, relata. A comunidade convive com o veneno das plantações de eucalipto da Suzano Papel e Celulose. 

Félix Lima, popularmente conhecido por Gato Félix, camponês e morador do Acampamento Viva Deus, fez o seu manifesto para o júri do Tribunal Permanente dos Povos enfatizando que a busca por lucro, orquestrada pelo capital, é o que tem pressionado as comunidades e os seus modos de vida. “Eu quero dizer para o tribunal que a luta é ferrenha. Que a gente não bata só no agronegócio, porque toda essa cadeia de agrotóxico vem de um capital. A classe trabalhadora tem que se juntar contra esse ferrenho capital. Não tem salvador da pátria, temos que criar o poder popular”.

As denúncias de violações feitas no primeiro dia de audiência foram seguidas por perguntas e manifestações do júri, composto pelo espanhol Antoni Pigrau Solé, professor de direito internacional público; a jurista e ex-vice procuradora geral da República Deborah Duprat; o bispo da Diocese de Brejo (MA) Dom José Valdeci; a jornalista Eliane Brum; a socióloga venezuelana Rosa Acevedo Marin; a jornalista e pesquisadora uruguaia do Grupo ETC Silvia Ribeiro; o coordenador jurídico a da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), Eloy Terena; e a portuguesa Teresa Almeida Cravo, professora de relações internacionais. O jurista francês Philippe Texier também compõe o júri, e é o atual presidente do TPP.

“É um grito, é um clamor que está aí, que exige de nós uma tomada de posição”, apontou Dom Valdeci Mendes, bispo do Maranhão, em sua manifestação como membro do júri. Ele ressaltou ainda a necessidade de que a sociedade se sinta indignada com esses absurdos e essa cadeia de perversidade. “Temos a missão de fazer essas vozes chegarem nos lugares mais distantes”. 

Segundo dia

O segundo dia da Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do TPP, realizado dia 16/03, começou com a saudação de Olga Matos, assessora da Cese, que conduziu a facilitação da sessão. O primeiro momento foi destinado à interação entre a relatoria de acusação, representação do sistema de justiça brasileiro e o júri, com base nos casos apresentados no dia anterior e que denunciam a contaminação de seus territórios por agrotóxicos e o desmonte das políticas de segurança alimentar.

Rosalva Gomes, artesã do babaçu e assessora do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), foi quem conduziu a mística de abertura que fez ecoar as vozes das encantadeiras quebradeira de coco, em menção à força auto-organizativa das Mulheres do Cerrado: “Deixa essa cozinha e vamos cair na luta!”

No processo de interação, Raquel Rigotto, relatora de acusação do Tribunal e membra do TRAMAS – Núcleo Trabalho, Ambiente e Saúde da Universidade Federal do Ceará, apresentou dados de estudos científicos que se somam às denúncias dos povos, assim como as acusações às corporações da cadeia produtiva do agronegócio e ao estado brasileiro. “Podemos dizer que o Cerrado é hoje uma zona de sacrifício do agronegócio brasileiro. São quase 47 milhões de hectares destinados a soja, cana, milho, algodão, e 63% destinados a pastagens. São consumidos 941 mil litros de água por segundo, destruídos 52% das vegetações nativas e utilizados mais de meio milhão de agrotóxicos, que representam 75% de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil”, alertou a pesquisadora, expondo a injustiça e o racismo que compõem esse sistema.

Nesse diálogo, Marco Antonio Delfino, procurador do Ministério Público Federal no Mato Grosso do Sul, também falou sobre o desafio do racismo estrutural do atual modelo de justiça e a perpetuação de um sistema desigual. “Quando a gente fala no sistema de justiça, não há como retirá-lo desse quadro de racismo estrutural que vivemos no Brasil. Importante entender que o direito é um instrumento de manutenção do status quo, o direito não é revolucionário. O que a gente pode fazer, principalmente pelo acesso dos povos tradicionais, indígenas, comunidades periféricas ao sistema de justiça, é que uma nova visão seja levada. O status é de desigualdade, então esperar do sistema de justiça o que nós, enquanto defensores de direitos humanos e militantes esperamos, infelizmente sabemos que poucas decisões contemplarão isso”.

Manifestação das mulheres

O segundo e último dia da audiência contou, ainda, com a manifestação, ao vivo e em vídeo, de mulheres Cerradeiras, que clamam pelo direito à vida com dignidade. Trechos de uma carta-manifesto escrita pelas mulheres foi apresentado à audiência, ecoando suas vozes contra o ecocídio e o genocídio cultural no Cerrado, contra as desigualdades estruturais produzidas pelo patriarcado racista desde a era colonial. “Externamos anúncios em defesa da vida com justiça social, com igualdade, com garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada, com proteção da biodiversidade e do nosso patrimônio cultural. Por isso trazemos a este importante Tribunal Permanente dos Povos os nossos depoimentos, permeados por nossas próprias ideias e vivências”, diz um dos trechos da carta-manifesto.

Racismo que estrutura as violações

As manifestações do júri no último dia da audiência contemplaram não apenas aspectos concretos das denúncias, como também as estruturas que engendram e perpetuam as violências cometidas pelo agronegócio, pela mineração e pelo poder público contra povos e comunidades do Cerrado.

A vice-procuradora-geral da República aposentada Deborah Duprat, membro do júri, destacou que o ponto principal da audiência é o racismo estrutural e ambiental que explica as violações de direitos dos povos. “Não existe um neoextrativismo e nem um neocolonialismo. Trata-se do velho projeto colonial”, afirmou Duprat. 

No mesmo sentido, o coordenador jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Eloy Terena, também membro do júri, frisou que o racismo é um método de dominação, e como tal impõe restrições e nega acesso a direitos, como o próprio direito à natureza dos povos originários e tradicionais.

A jornalista e pesquisadora uruguaia Silvia Ribeiro afirmou, a partir dos depoimentos e apresentação de dados sobre contaminação por agrotóxicos, que existe “uma abundância de elementos para estabelecer que existe uma guerra química e ataques feitos aos territórios. “Há a violação da saúde, mas também uma invasão dos corpos, não apenas da terra. É muito brutal a presença de agrotóxicos no leite materno, na urina, no sangue, e que a chuva mantenha esse veneno”, destacou Ribeiro.

A terra como fundamento de ser e existir

Se a raiz da violência denunciada é o racismo estrutural, as raízes da resistência e permanência estão na terra e no envolvimento dos povos com ela. Lourdes Laureano, raizeira e coordenadora da Articulação Pacari, falou sobre o uso das plantas nativas e frutos do cerrado como fonte de alimento e remédio. “Nós, raizeiras, consideramos como saúde não apenas ter acesso aos medicamentos, mas também aos recursos da biodiversidade nos nossos territórios e o manejo cuidadoso das plantas e alimentos para prevenção de doenças e cuidado da saúde. Consideramos o cuidado da terra como condição para cuidar da nossa saúde.”

No mesmo sentido do pertencimento, Claudeilton dos Santos, do Movimento de Pequenos Agricultores da Via Campesina, lembrou que “quando falamos de soberania alimentar, estamos falando de um modo de ser, com capacidade para decidir sobre quem somos, como existimos.” Santos ressaltou que “a fome é uma construção social do sistema capitalista, e ela existe porque gera lucro, subalternização, controle dos corpos e dos territórios.”

Ao fim da atividade, a liderança Davi Krahô, do Tocantins, manifestou a esperança de que o júri do TPP possa endereçar as demandas e apelos dos povos e comunidades que têm seus casos analisados. “A nossa realidade é triste, mas a vida segue. Que possa valer a justiça que brota da terra”, finalizou Davi Krahô.


 Imagem em destaque: CIMI GO-TO

A potência da mulher-palavra: mulheres do Cerrado realizam rodas de conversa

Rodas de conversas entre mulheres do Cerrado tecem lutas e resistências

Pensando na potência dos processos coletivos, povos e comunidades tradicionais, assim como movimentos sociais, tecem suas estratégias numa rede que se fortalece a cada dia mais pela potência do plural. E foi a partir dessa trilha que mulheres do Cerrado brasileiro passaram a se reunir em torno das “Rodas de Conversa Mulheres do Cerrado”, atividade que se insere no âmbito do projeto Dos Territórios ao Tribunal do Cerrado: agrotóxicos em pauta, coordenado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e financiado pela Swiss Philanthropy Foundation e a Fundação Heinrich Böll. O projeto busca colaborar com a construção da Sessão Especial do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) dedicada ao Cerrado,  que vem sendo desenvolvida pela Campanha em Defesa do Cerrado desde 2021. 

As Rodas de Conversas são instrumentos potentes que permitem a elaboração de sistematizações através do intercâmbio de informações e vivências com a participação direta das principais protagonistas: mulheres de povos e comunidades tradicionais do Cerrado, desde às quebradeiras de coco babaçu, raizeiras, quilombolas, ribeirinhas, indígenas de várias etnias, assentadas da Reforma Agrária, entre outras. Nesse ano de 2022 foram realizadas três Rodas de Conversa, todas facilitadas por Cristiane Faustino, assistente social, feminista negra ambientalista, membra do Instituto Terramar. 

Em uma delas,  um momento específico foi destinado para escuta e intercâmbio entre as mulheres indígenas do Cerrado, em que  reuniu virtualmente mulheres dos povos Xerente, Krahô, Krahô Kanela, Apinajé, Krahô-Takaywra, Javaé-Karajá Xakriabá (TO), Tapuia (GO), Xavante (MT), Akraô Gamela (MA), Puruborá (RO), Guarani e Kaiowá, Terena e Kinikinau (MS). O intercâmbio entre as experiências vividas a partir da perspectiva das mulheres traz uma riqueza e profundidade mostrando as similaridades, desafios e potencialidades existentes entre os territórios e as lutas cotidianas dessas mulheres. 

“Se a gente não ajuntar, se a gente não conversar, pegar mesmo na mão pra ir em frente pra poder encaminhar as coisas nós não vamos fazer nada. (…) E nós que somos semente da terra, que somos broto dessa terra, temos direito de fazer isso. E nós, mulherzada, nós que sofre, nós que somos mãe, avó, nós que cuida das nossas panelas, das nossas roupas, dos nossos maridos, dos nossos netos, dos nossos filhos, nós tem todo o direito de falar, de correr atrás das coisas, pra poder esse presidente ou qualquer governo que entrar, respeitar nós, porque nós ainda existe. Os nossos tataravós, nossos bisavós foram, mas nós existe. Nós existe e tamo aqui com eles, com a fala deles, com as ideias dele, tamo aqui forte.”, afirma Gercília Krahô durante uma das Rodas de Conversa. 

As Rodas de Conversa têm sua metodologia baseada na educação popular e ambiental, contemplando também uma abordagem feminista e antirracista que permite que questões-chave históricas sejam trazidas pelos movimentos dos povos do Cerrado e ganhem visibilidade a partir da sistematização. Dessa maneira, as rodas de conversa são instrumentos fundamentais para fortalecer o processo na defesa dos direitos territoriais, da justiça hídrica e da soberania alimentar dos povos e comunidades do Cerrado. 

Para Tatinha, apanhadora de flores sempre viva, em Diamantina (MG), e participante das Roda de Conversa, é preciso refletir em toda uma cadeia de destruição que afeta as mulheres e seus territórios: “O primeiro ponto que afeta é a cultura, que está relacionada ao território. É uma destruição da história e da vida, e atinge as mulheres, principalmente. (…) Os povos tradicionais é que garantem soberania e segurança alimentar. Se destrói o território, destrói a segurança. São as mulheres na região que garantem a segurança alimentar. O que está destruindo o Cerrado é a monocultura de eucalipto, a mineração e as unidades de conservação. Isso coloca em risco o modo de vida tradicional e o território tradicional das apanhadoras de flores.”, explica. 

Sobre a experiência das Rodas de Conversa, Valéria Santos, coordenadora da Articulação das CPTs do Cerrado e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, afirma que: “As Rodas de Conversas foram um espaço de troca de saberes, partilha dos desafios e resistências das mulheres, que estão em constante luta em defesa de seus corpos e territórios. Suas lutas são contra os monocultivos de soja, eucalipto, cana de açúcar e mineração; lutam contra os agrotóxicos que contaminam as águas, o ar, a terra, animais e as pessoas. Elas defendem a libertação dos territórios e dos corpos que ainda são aprisionados por relações de opressão de classe, raça, etnia e gênero. As mulheres defendem a agroecologia e os seus modos de vida como forma de manter o Cerrado em pé, com disponibilidade de alimentos e bens comuns saudáveis a todas e todos”.  

As denúncias sobre a destruição do modo de vida das comunidades, seus territórios e seus habitantes – sejam de que espécie for – é também um depoimento constante que aparece com frequência na fala das mulheres e assim, mesmo de territórios diferentes, elas vão reconhecendo como o modo de vida tradicional, que garante saúde, sustentabilidade e longevidade, vai sendo minado. “A gente está sendo muito afetado pelos agrotóxicos, afetou tanto a vida das mulheres, como de crianças, adultos, como de todos os animais, né. Vou falar primeiro dos animais porque eles sumiram depois que começaram a usar esses agrotóxicos, que o agronegócio chegou perto da gente, os pássaros sumiram. Animais como veado, tatu, essas caças assim, elas sumiram. Sumiram por conta do desmatamento. Os passarinhos se alimentavam dos grãos envenenados, se intoxicavam e morriam. (…) Depois aqui na nossa região eles começaram a jogar veneno de avião, a gente fez denúncia para Defensoria Pública do município, por conta desse agrotóxico jogado de avião. Depois disso a gente perdeu a nossa safra de arroz, milho, feijão, abóbora, etc. (…) E também sobre as pessoas, depois que o agronegócio chegou para perto, ficou muito difícil. (…) Quando a gente passa de moto dentro das áreas dos campos quando pega aquela poeira de veneno, não dorme direito que os olhos ficam irritados, fica muito inflamado. Isso tudo é prejuízo para nós mulheres, para nossas crianças, nossos idosos, a gente está vivendo tempos difíceis mesmo”, conta Raimunda Nonata, do Quilombo Cocalinho (MA), também durante as Rodas de Conversa. 

A documentação gerada durante as Rodas de Conversas resultou na produção de uma carta-denúncia sobre as mulheres em contexto de Cerrado, que será apresentada na próxima audiência temática do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) – “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Cerrado” – a ser realizada nos dias 15 e 16  de março, como forma de complementar informações junto ao Júri do TPP.


 Texto: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Comissão Pastoral da Terra

Comunidades quilombolas contaminadas por agrotóxicos lutam pela preservação da ancestralidade

Por Rafael Oliveira*

(Conteúdo publicado originalmente no portal Brasil de Fato)

Há quase um ano, em março de 2021, uma estranha tempestade de poeira invadiu as comunidades quilombolas Chumbo e Jejum, em Poconé (MT), município pantaneiro localizado a 100 km da capital Cuiabá. Nos dias seguintes a esse episódio, dezenas de pessoas – entre elas crianças, mulheres grávidas e idosos – começaram a sentir alguns sintomas, como forte irritação na pele, náuseas, dor de cabeça e nos olhos. 

O que aquelas pessoas estavam sentindo, inicialmente, poderia ser confundido com enfermidades triviais, como enxaqueca ou resfriado, mas, na verdade, era intoxicação por agrotóxicos. “As famílias das comunidades Chumbo e Jejum estão cercadas pelos latifúndios de soja e pecuária, que a cada ano vão invadindo mais seus territórios. O fazendeiro aplicou o veneno na soja, passou uns três dias e foi fazer a colheita. A partir desse manejo e com a força do vento, o resíduo daquela poeira envenenada contaminou as famílias”, relata Francileia Paula, engenheira agrônoma e educadora da ONG Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) no Mato Grosso.

À época, a Secretaria de Saúde do município foi notificada e pressionada a fazer um acompanhamento àquelas pessoas atingidas. De acordo com Francileia, que também é integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o caso expôs a fragilidade dos órgãos municipais em lidar com uma questão grave como essa. “Muitas vezes nós tivemos que capacitar os agentes públicos sobre o que fazer. As equipes de vigilância e saúde abertamente se posicionaram afirmando que não tinham parâmetro para poder lidar com casos de contaminação de agrotóxicos”, afirma.

A violência ocasionada pelo uso de veneno nas práticas do agronegócio, além de envenenar água e adoecer corpos, também extermina modos de vida ancestrais, segundo Laura Ferreira da Silva, quilombola e coordenadora estadual da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) no Mato Grosso. “Hoje em dia é difícil produzir como antigamente, devido ao excesso de veneno jogado nas lavouras próximas às nossas comunidades. As famílias não conseguem mais produzir hortaliça agroecológica, em função do veneno pulverizado nas lavouras, por exemplo. Por mais que a gente faça o trabalho de resgate das sementes crioulas, essa violência tem colocado em jogo essa cultura tradicional que ainda resiste na comunidade. O pouco que conseguem produzir, ainda acaba sendo contaminado por agrotóxico”, protesta a liderança.

Mesmo diante de uma onda de ataques de diversas frentes, a luta por uma produção baseada na agroecologia, por soberania alimentar e pelo direito à vida segue pautando os trabalhos, aponta Francileia. “Junto com as famílias, nós temos incidido em espaços de combate ao agrotóxico no estado, para denunciar e cobrar dos órgãos políticas públicas de preservação da vida. Nossa pauta inclui cobrar implementação de territórios livres de agrotóxicos nas regiões do Pantanal e mostrar como isso impacta o modo de vida dessas famílias afetadas”, conclui.

Pesquisadoras/es da FASE e NEAST coletam amostras de água nas comunidades Chumbo e Jejum, em Poconé (MT). Foto: Divulgação/NEAST

Em meio a casos tão urgentes, um grupo foi formado para aprofundar o debate sobre os malefícios causados pelo uso de agrotóxicos nas atividades do agronegócio. Uma pesquisa conduzida, entre maio e junho de 2021, pela ONG Fase e pelo Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), constatou a presença de oito tipos de agrotóxicos nas águas que abastecem as comunidades Chumbo, Jejum e outras. Dos agrotóxicos identificados, cinco estão banidos em países da União Europeia, no Canadá e na Austrália por serem uma ameaça à saúde humana e ao meio ambiente.

“Encontramos os agrotóxicos em tanques de piscicultura das comunidades – que estão a menos de 10 metros do plantio de soja -, na água do poço artesiano e, até mesmo, na água da chuva. Isso demonstra uma exposição ampla a essas substâncias e uma contaminação no próprio sistema como um todo”, alerta a professora Marcia Montanari, integrante do NEAST e do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT.

A professora Marcia já realiza o monitoramento das águas do Mato Grosso há mais de 10 anos e, segundo ela, os dados têm sido cada vez mais alarmantes. “A gente sempre constatou a presença de componentes químicos, mas nunca encontramos tanto quanto agora. Todas as vezes que vamos fazer essas amostras, encontramos uma quantidade maior”, relata a pesquisadora. 

Equipe de pesquisa coletou amostras das águas de rios que banham comunidades quilombolas Chumbo e Jejum. Foto: Arquivo/FASE

Não é coincidência que casos como o das comunidades Chumbo e Jejum e o relato da professora Marcia estejam acontecendo com maior frequência. O Brasil fechou o ano de 2021 com 562 aprovações de agrotóxicos: o maior número já registrado desde o início da série histórica iniciada em 2000. Nos três anos do governo do presidente Jair Bolsonaro já foram liberados 1.529 agrotóxicos. 

Recentemente, a ofensiva do agronegócio pela liberação ainda mais ampla de veneno ganhou um novo capítulo mórbido. Em 9 de fevereiro deste ano, a Câmara dos Deputados, em caráter de urgência, aprovou o Pacote do Veneno (Projeto de Lei – PL 6.299/2002). Agora, o projeto segue para apreciação do Senado.

O que já estava fragilizado,  encaminha-se para um cenário ainda mais preocupante. Em nota oficial, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida afirma que o Pacote do Veneno “flexibiliza ainda mais o uso de agrotóxicos no país e substitui o atual marco legal (Lei 7.802), vigente desde 1989. Com violação a diversos artigos da Constituição e acordos e tratados que o Brasil ratificou, o projeto prevê a liberação de agrotóxicos cancerígenos; maior poder ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e desautorização da Anvisa e Ibama; e abre espaço para uma ‘indústria’ de Registros Temporários”. 

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), referência nacional nessa temática, lançou forte posicionamento em manifesto direcionado ao Senado Federal: “A Fiocruz atua na temática de Agrotóxicos e Saúde há muitas décadas, seja na pesquisa, na formação, na vigilância e no monitoramento laboratorial dessas substâncias na água, alimentos e nos ambientes, incluindo o do trabalho. A expertise acumulada ao longo de décadas de atuação nos permite afirmar que o PL irá impor graves retrocessos à sociedade, ampliando a contaminação ambiental e a exposição humana aos agrotóxicos, e que podem se materializar em adoecimento e morte da população, em especial daqueles em maior situação de vulnerabilidade”.


*Rafael Oliveira é comunicador popular da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

Foto em destaque: Rafael Oliveira | Edição: Vivian Virissimo

Carta das Mulheres do Cerrado: Mulheres do Cerrado clamam pelo direito à vida com dignidade

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Por ocasião da Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado, a se realizar nos dias 15 e 16 de março de 2022, nós, mulheres do Cerrado, nos reunimos[1] para fazer ecoar as nossas vozes.

Somos indígenas de vários povos, entre eles Xerente, Krahô, Krahô-Kanela, Apinajé, Krahô Takaywrá, Javaé-Karajá Xakriabá, Tapuia, Xavante, Akroá Gamella, Puruborá, Guarani e Kaiowá, Terena e Kinikinau. Pertencemos às comunidades quilombolas; da agricultura familiar e camponesa dos assentamentos da reforma agrária; às comunidades tradicionais vazanteiras, retireiras, veredeiras, pantaneiras, pescadoras artesanais que habitam as ilhas e beiras dos rios que nascem no Cerrado, como o São Francisco, o Araguaia, o Tocantins e o Paraguai. Somos também apanhadoras de flores na Serra do Espinhaço; somos do pastoreio do gado “na larga” no Pantanal; somos protetoras e defensoras do uso social dos produtos da “mãe palmeira” do babaçu; somos as raizeiras que conhecem o poder de cura das plantas; somos geraizeiras e das comunidades de fundo e fecho de pasto que trabalham o artesanato de capim dourado, fazem roças e criam pequenos animais nos quintais produtivos.  

Nossas identidades expressam modos de vida nos nossos territórios ligados ao movimento das águas, à diversidade da flora e da fauna, às roças de sequeiro, varjão ou vazante; às práticas ancestrais de armazenamento, troca, cultivo e manejo de sementes cultivadas e nativas de nossas culturas alimentares. Vivemos uma relação harmoniosa e respeitosa com a natureza em nossos sistemas agrícolas tradicionais. Praticamos a agroecologia em convivência com as características específicas dos ecossistemas segundo o princípio da diversidade. Produzimos alimentos saudáveis para o autoconsumo, comercialização e geração de renda.  

Somos as guardiãs do Cerrado e dos saberes tradicionais que herdamos das nossas ancestrais. Expressamos a sociobiodiversidade cerradeira que exige respeito aos nossos modos de vida, base da garantia da soberania e segurança alimentar e nutricional das comunidades e da sociedade. 

Ecoamos nossas vozes contra o ecocídio e o genocídio no Cerrado; contra as desigualdades estruturais produzidas pelo patriarcado racista desde a era colonial. Também externamos anúncios em defesa da vida com justiça social, com igualdade, com garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada, com proteção da biodiversidade e do nosso patrimônio cultural. Por isso trazemos a este importante Tribunal Permanente dos Povos os nossos depoimentos, permeados por nossas próprias ideias e vivências.

Tristeza, depressão e adoecimento nos corpos:  falas das mulheres indígenas 

Nas regiões de Tocantins e Goiás, nos territórios Xerente, Apinajé, Krahô-Takaywra, Krahô-Kanela e Javaé-Karajá, as monoculturas de arroz, soja e cana-de-açúcar estão nos limites das Terras Indígenas (TI), destruindo os roçados e afetando a saúde das crianças e das mulheres. Há perda de roças devido aos agrotóxicos. A luta pela terra ainda é pauta central, pois muitos territórios não estão demarcados, como os dos povos Krahô-Takaywrá (Tocantins), Puruborá (Rondônia), Gamela (Maranhão) e parte dos territórios Tapuia (Goiás) e Krahô-Kanela (Tocantins). Há muitas terras em situação de conflitos fundiários. O Estado nega que haja terra para ser demarcada, a despeito dos direitos dos povos indígenas.

A tristeza e a depressão estão muito presentes nas falas das mulheres, cujos conhecimentos, sabedorias e crenças estão vinculados à biodiversidade nos ecossistemas. Isidoria Krahô-Kanela, da Aldeia Takaywra (Tocantins), denuncia que “o desmatamento traz depressão, crise, brigas, conflitos internos, e também a falta do próprio remédio”. E acrescenta: “(…) na minha região não tem mais do que (havia) pra fazer remédio caseiro. Desmatou tudo (…) é uma tristeza. (…) os remédios que curam é o que fazemos com as árvores, as raízes, as plantas. É sagrado, é um patrimônio nosso, que guardo como um tesouro, que vem da minha avó, meu avô e vem passando pra mim. E pra mim é sagrado as plantas medicinais”. Seu povo vive em um pequeno “cercadinho”. Não usufruem do direito de caçar e plantar. Para alimentar seus filhos dependem de cestas básicas e outras ajudas externas. Com a área atualmente alagada em consequência da expansão dos monocultivos, denunciam a inação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), e de outros poderes públicos: “(…) nós estamos aqui, no meio d’água, os animais no meio d’água, os porcos, as galinhas, os jacarés comendo tudo, e a gente teme por criança. Tudo isso é consequência do impacto ambiental”.  

As indígenas Krahô da Aldeia Morro Boi (Tocantins), mesmo com sua TI demarcada, enfrentam os impactos do desmatamento ao redor de suas terras e o uso de agrotóxico dos monocultivos.  A aldeia não tem água potável para consumo doméstico e falta infraestrutura e transporte para emergências. Como relata Domingas Krahô: “Nós indígenas Krahô, que convive no Cerrado, vem começando a ser prejudicada pelo desmatamento ao redor de nossa terra que está demarcada. Às vezes as frutas não estão dando bem porque jogam veneno perto de nós, e no meio da pandemia a gente trabalha só de braço poquim, estamos sofrendo, precisando da saúde também. (…) E os parentes que moram perto do rio não podem tomar água do rio, têm que tomar das cabeceiras e dos olhos d’água”.

Na comunidade Vão do Vico (Piauí), ao relatar sobre a realidade de sua aldeia, Jaira Akroá Gamela explica sobre a centralidade de enfrentar o genocídio que afeta historicamente as mulheres de seu povo, retirando o direito à identidade e à existência social: “Minha cultura foi totalmente banida (…) porque foi morta, massacrada pelos grileiros, e até hoje eles estão aqui. Mas os encantados que ainda estão aqui, ainda estão tocando em mim. Então se eu tenho essa sensibilidade de ver que ainda há resistência na espiritualidade aqui, é porque ainda há força e coragem para eu resgatar minha cultura. Tá morta pra eles, mas pra mim, dentro da gente não”.

As denúncias incluem a precarização absoluta do sistema de saúde indígena; os riscos à saúde mental frente aos danos cada vez mais crescentes; e os maus tratos nas políticas públicas e dos poderes instituídos sobre seus corpos e comunidades. As indígenas não têm acesso aos exames preventivos ou ao pré-natal e relatam humilhações nas unidades fora das aldeias. Dificuldades também enfrentam as grávidas e suas acompanhantes nos hospitais. Nas palavras de Vanessa Karajá, da Aldeia Nova (TI Xerente, Tocantins): “Aqui muitos parentes estão falecendo, os exames também que é de rotina, exames simples, demoram meses pra poder conseguir, endoscopia, muitas pessoas estão falecendo aqui. Ultimamente os Xerente agora tem medo de ir pro hospital, porque eles acreditam que hospital não tá cuidando do indígena do jeito que é pra cuidar. Muitas pessoas voltam sem vida dos hospitais, não recebem atendimento de qualidade (…)” 

Pobreza, fome e sede:  impactos dos agrotóxicos e da mineração na produção de alimentos

São inumeráveis as denúncias sobre a mineração e o uso abusivo e indiscriminado de agrotóxicos nos monocultivos, incluindo a pulverização aérea, prática letal contra os ecossistemas e os modos de vida. São grandes os impactos na saúde, na produção de alimentos e nas águas. Em muitos lugares, desaparecem as aves e os animais de caça importantes para a alimentação; ocorre a diminuição ou destruição dos roçados do arroz, milho, feijão, abóbora; avança o desmatamento de áreas de plantas nativas como pequi, baru, babaçu, importantes nas culturas alimentares e na geração de renda. 

Roselita Silva, militante por direitos da comunidade Morro Agudo (Catalão, Goiás), testemunha e denuncia que “Comunidades foram dizimadas pela mineração, e as famílias tiveram que buscar outros lugares pra morar. Chegando na cidade é algo totalmente diferente dos modos de vida. Nós, mulheres, não temos mais os meios de renda: fazia queijo, doces, trabalhava com fruta. Agora não temos mais. Eu me sinto impotente diante do poder da mineração e das monoculturas”.

Em Cachoeira do Choro (Curvelo, Minas Gerais), o agronegócio, junto com a mineração, provoca contaminação e destruição do Rio Paraopeba. As mulheres não têm acesso à água potável e sofrem por não poderem prover com dignidade um copo d’água para saciar a sede de seus filhos, como denuncia a pescadora Eliane Marques: “Ontem desci no rio, ele está irreconhecível. Essa última chuva trouxe tanto sedimento e lama (…) Não tem mais uma árvore em pé, as casas foram derrubadas. Com a morte do nosso rio Paraopeba veio a insegurança alimentar, e a insegurança para beber a água. Eu estou coletando água de chuva, coando, fervendo, passando pelo filtro de barro. Na semana passada uma mãe de recém-nascido estava tendo que coar água na fralda para dar para os filhos”. Com a destruição do rio, lá se vão também iniciativas de autoafirmação das economias comunitárias e das experiências agroecológicas. Inviabilizou-se a geração de renda no período da alta do turismo, que favorecia a comercialização dos produtos de seus roçados e quintais produtivos como pequi, peixe, frutos, pimentas, queijos e doces. Com o empobrecimento das famílias, as mulheres se preocupam também com o surgimento da exploração sexual, o aumento da violência e do uso abusivo de álcool e outras drogas.

A comunidade Quilombola Cabaceira (Beira Rio São Francisco, Norte de Minas Gerais) que é também pesqueira e vazanteira, sofre com as tragédias das enchentes provocadas pelo assoreamento do Rio São Francisco. Nessas situações, as famílias precisam procurar outros lugares para morar até as águas baixarem, quando, então, buscam reconstruir, na medida do possível, as perdas. Contudo, as possibilidades de reconstrução se tornam cada vez menores, enquanto a comunidade se torna dependente de ajuda externa com cestas básicas que não chegam para todo mundo. Marinalva Rocha, liderança quilombola da região, conta que já agora em 2022 “os animais que a gente conseguiu trazer está na cidade passando fome, o ser humano também. Eu tenho galinha, bode, porco. Estou tentando arrumar comida pra minha família e pros meus animais. O rio tem lugar que tá muito seco, tem outros que ele transborda, e a fome acontece do mesmo jeito (…) é o português claro. Estou falando de fome. E vamos ter mais fome ainda quando voltarmos pro nosso território”.

Ainda em Minas Gerais, na Comunidade Veredeira Tamboril, o monocultivo de eucalipto vem destruindo a economia comunitária, o acesso ao alimento e à renda, especialmente com as derrubadas dos pés de pequi, dos quais a comunidade tirava seu sustento. Como fala Tamires Santos: “Hoje na nossa comunidade ainda enfrentamos as grandes empresas que chegaram com a monocultura de eucalipto. Tem uma que está derrubando os pés de pequi, e muitos dependem do lucro do pequi. Derrubar o pequi verde no pé está prejudicando bastante. Temos um viveiro de mudas nativas, estamos tentando recuperar as nascentes, fazendo as plantações com voluntários junto com a gente, pra tentar recuperar um pouco do que foi destruído no século XX”.

Na Comunidade Tradicional Raposa, situada no Território Serra do Centro (Campos Lindos, Tocantins), as mulheres também convivem com as pragas dos monocultivos de soja, inviabilizando a produção agrícola e extrativista tradicional. Como conta Marlene da Silva: “Tem os insetos que vem na soja e prejudicam as nossas roças (…) vem as pragas da lavoura e termina prejudicando as nossas plantações. Tem a mosca branca que acaba com tudo, nós plantamos feijão (…) nós plantamos a abóbora (…) a mosca branca vem e mata tudo. A melancia não dá, morre tudo, a abóbora também, o feijão. O único que ainda aguenta um pouco é o arroz, mas também prejudica ele que ao invés de ele vir melhor, ele vem menos”.

No Assentamento Roseli Nunes (Mirassol d’Oeste, Mato Grosso), as mulheres lutam para manter e fortalecer a produção agroecológica, mas suas práticas são interditadas pelas monoculturas e os agrotóxicos e sua força de destruição. Relatam doenças como depressão e alergias causadas pelos venenos jogados nas águas. O desequilíbrio ecológico acaba com os alimentos dos animais e estes procuram alimentos nas roças das famílias. Dona Miraci Silva, produtora agroecológica do território, testemunha esta realidade na prática: “Aqui no assentamento muitas mulheres sofrem com depressão e alergia causada pelo veneno. (…) Foi comprovada a contaminação de nossas águas”.

As quebradeiras de coco babaçu e agricultoras familiares do Acampamento Viva Deus (Imperatriz, Maranhão) não têm acesso à terra e nem aos babaçuais da região, tomados pelo agronegócio. Estão perdendo a produção de milho, feijão, mandioca, abóbora, melancia, e principalmente o arroz. Denunciam que nos últimos anos a pulverização aérea de agrotóxicos vem trazendo adoecimentos e mortes de seus quintais produtivos, e a produção está inviabilizada atualmente com pragas que impedem o crescimento saudável e a colheita. Como diz Zenilde dos Santos Silva: “Esse ano está mais difícil porque meu marido plantou [o arroz] e só nasceu mais capim (…). A abóbora não prestou, a melancia também não, a mandioca também não (…) e o milho também não. A gente não pode entrar no mato para pegar o babaçu, as caças nem se fala (…)”.

Também no Maranhão, nos municípios de Parnarama e Matões, a quilombola Raimunda Nonata percebe esses impactos. Ela diz que em seu Território Quilombola Cocalinho “a gente está sendo muito afetado pelos agrotóxicos, afeta tanto a vida das mulheres, como de crianças, adultos, como todos os animais (…) depois que o agronegócio chegou perto da gente, os pássaros sumiram, animais como veado, tatu, essas caças assim elas sumiram (…) Os gaviões que se alimentavam dos pequenos insetos que se alimentam dos grãos morriam também por conta dos agrotóxicos, não conseguiam mais voar”. O Quilombo vem perdendo a diversidade de sua produção de arroz, milho, feijão e abóbora. As mulheres estão lidando com o aumento de doenças e demandas por saúde: “Apareceu uma coceira, criança e idoso todo mundo manchado e a gente acredita que foi depois que foi jogado o veneno de avião. Quando a gente passa de moto dentro das áreas dos campos pega aquela poeira de veneno, não dorme direito que os olhos ficam irritados, fica muito inflamado. Isso tudo é prejuízo para nós mulheres, para nossas crianças, nossos idosos, a gente está vivendo tempos difíceis mesmo”, explica Raimunda.   

No litoral de São Luís do Maranhão, as pescadoras, marisqueiras, agricultoras familiares e quebradeiras de coco babaçu da comunidade tradicional do Cajueiro enfrentam conflitos socioambientais promovidos pela indústria portuária. O Porto Itaqui, destinado ao suporte logístico de escoamento da mineração e do agrohidronegócio, recebe boa parte das commodities produzidas no Matopiba, e vem provocando o desmatamento das áreas de manguezais, aterramento de igarapés e, junto com isso, a mortandade do pescado. Nessa região costeira, as mulheres são afetadas também com a implantação de uma termelétrica, considerada uma das formas mais degradadoras de produção de energia, gerando danos não só ao acesso às áreas de pesca, mas ao cultivo de frutos. Os babaçuais foram destruídos e vários animais sumiram com a falta do seu habitat natural. Lucilene Costa conta: “Para nós foi e é uma tristeza ver nossa comunidade sendo devastada dessa forma (…). Estamos tendo dificuldade até em adquirir alimentação porque o marisco está sumindo (…) e contaminado com óleo que derrama dos terminais (…) Estamos vivendo com dificuldade de adquirir alimento sadio”.

Apropriação da biodiversidade e conhecimentos tradicionais

No Oeste da Bahia, as comunidades geraizeiras e de fundo e fecho de pasto vivem a violência da grilagem da terra, a devastação socioambiental da monocultura da soja e algodão, as ameaças de vida contra lideranças comunitárias e da apropriação das águas, pelas empresas com apoio do Estado. O adoecimento da população é visível. Catiucia Beltrão, que faz parte do grupo de religiosas tradicionais “Encomendadeiras de Almas” (Correntina, Bahia), testemunha a indústria farmacêutica instalando-se nos territórios e vendendo a preços elevados os fármacos explorados da própria biodiversidade do Cerrado. “O agronegócio ganha tacando o veneno na lavoura pra produção e as farmácias ganham com os remédios tirados do Cerrado. Um adoece o povo e o outro ganha com os remédios caríssimos e abertura e inauguração de tanta farmácia”.

Além da produção do adoecimento da população, a apropriação da diversidade biológica e dos conhecimentos tradicionais das mulheres se materializa também na usurpação de nomes e símbolos da sociobiodiversidade destruída. Catiucia Beltrão percebe isso nos nomes dados aos produtos comercializados nos grandes supermercados: “A feira local já voltou, mas os produtos estão desaparecendo, são poucas coisas, precisa ir cedo pra conseguir. O espaço mais é pro agronegócio que além de destruir o cerrado ainda usa os nomes do cerrado nos produtos dele: café cerrado, pasta de pequi cerrado, arroz cerrado, cosméticos do cerrado e outras”.

Nossos anúncios e resistência em defesa da soberania alimentar e da sociobiodiversidade

As principais armas por meio das quais opera o processo de ecocídio contra o Cerrado (os agrotóxicos, a expropriação da terra, o desmatamento, os incêndios, a captação intensiva de água pelo agronegócio) afetam desproporcionalmente a nós mulheres, nossos corpos, nosso cotidiano. Em outras palavras, os nossos corpos são territórios onde se materializa o eco-genocídio, sobretudo em razão dos papéis sociais de cuidado e reprodução social das famílias e comunidades socialmente atribuídos a nós.

Nós, mulheres, além de atuarmos ativamente com nosso trabalho e conhecimento na conservação e proteção dos ecossistemas, sustentamos as práticas que constituem as identidades culturais dos povos do Cerrado, como no preparo dos alimentos, no cuidado das roças, hortas e quintais produtivos, na lavação coletiva de roupa, nos cantos, no preparo de medicinas tradicionais, na condução das rezas, benzimentos e nossos rituais e na feitura de artesanatos que enfeitam e são úteis nas roupas, nas casas, nos barracões comunitários, nas festas e encontros. Nossos corpos se tornam espaços de transformação do ecocídio do Cerrado em genocídio de seus povos. Em primeiro lugar porque a contaminação dos nossos corpos por agrotóxicos implica em maior incidência de abortamento e danos ao leite materno, impactando a saúde coletiva e a reprodução biológica nas nossas comunidades. Além disso, as práticas lideradas por nós são vitais para a manutenção, continuidade e transformações autônomas dos modos de vida dos povos e comunidades, especialmente as mudanças necessárias em relação aos nossos direitos como mulheres, numa sociedade patriarcal e racista. O impedimento ou obstáculos à realização dessas práticas, e da nossa própria ação política enquanto mulheres, em razão do ecocídio – que destrói e contamina nossas roças, medicinas, campos de extrativismo e águas – é a própria materialização do ecocídio em genocídio.

Não podemos aceitar que nossos corpos sejam tratados como descartáveis pelas economias da devastação que se instalam nos territórios e no seu entorno nesse processo de “desenvolvimento” que historicamente tem significado o ecocídio do Cerrado. Nesse processo, as grandes fazendas e os grandes projetos contratam os homens das nossas comunidades em trabalhos precarizados, enquanto promovem o aumento da exploração sexual e o aumento do assédio e da violência contra nós mulheres, nossas filhas, irmãs e companheiras, com a chegada de empreendimentos e suas forças privadas de segurança, com perspectivas de objetificação de corpos e sexualidades, especialmente sobre nossas meninas e jovens.

Estamos plenamente cientes de que a violência contra os ecossistemas e os povos do Cerrado não se instaurou sem as decisões dos poderes públicos. Em todos os territórios, as narrativas das mulheres expressam o descontentamento frente ao alinhamento dos agentes públicos executivos, legislativos e judiciários com este modelo de exploração econômica. O ecocídio e o genocídio no Cerrado são resultado também de ciclos de privilégios históricos contra uma sociobiodiversidade que mais longe não poderia estar do modelo do agronegócio e da mineração, suas demandas, mecanismos e temporalidades, concentrador de riquezas, produtor e espalhador de pobreza e do qual o Estado Brasileiro tem sido, historicamente, agente por ação e omissão. 

Essa realidade se agrava, porém, no contexto de destruição de políticas e direitos duramente conquistados ao longo do tempo pelo atual governo, que não esconde suas posições pautadas por misoginia, racismo e antiambientalismo. A dominação da natureza e a subordinação das mulheres, em especial negras e indígenas, são dimensões complementares de uma racionalidade que se funda no apagamento das diversidades e na produção de sistemas de violências. Se historicamente o ecocídio do Cerrado tem sido o resultado de projetos de desenvolvimento patrocinados pelo Estado brasileiro e setores privados nacionais e internacionais que colocam o lucro de poucos acima das vidas e modos de vida dos povos do Cerrado, o bolsonarismo produziu o agravamento das violências e devastação a níveis que nos levam a temer os piores cenários. Para reverter isso não basta somente mudar governos, mas transformações profundas da racionalidade ecocida e genocida que tem se instalado nas fronteiras do agro-hidro-minero-negócio.

Diante de tudo isso, nós, mulheres, temos nos mobilizado enquanto corpos-territórios de resistência ao crime sistemático de eco-genocídio contra o Cerrado e seus povos. Somos partícipes do presente e geradoras de futuros para o Cerrado, que se alimentam da nossa ancestralidade para construir caminhos social e ambientalmente justos. 

8 de março de 2022

Articulação das Mulheres do Cerrado


[1]  Documento produzido a partir de rodas de conversa com as mulheres de povos e comunidades tradicionais do Cerrado, realizadas pela plataforma Zoom nos dias 7 e 8 de fevereiro de 2022.

Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade: Tribunal dos Povos discute denúncias de contaminação por agrotóxicos e ataques aos sistemas agrícolas tradicionais no Cerrado

Nos dias 15 e 16 de março, das 13hs às 16h30 (horário de Brasília), a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado realizará, de forma virtual, a Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.

O foco da audiência serão as denúncias sobre a contaminação – especialmente por agrotóxicos – de comunidades e seus territórios, e sobre o desmonte das políticas de segurança alimentar, de comercialização da produção camponesa e dos produtos da sociobiodiversidade. As denúncias apontam que estas violações provocam a desestruturação dos sistemas agrícolas tradicionais, aumentam a fome e ameaçam a saúde coletiva. Em razão do seu caráter sistêmico no tempo e no espaço, as contaminações e desmontes contribuem para o ecocídio do Cerrado e para a ameaça de genocídio cultural dos povos que dele dependem para manter seus modos de vida.

Os membros do júri ouvirão os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as dos casos e de movimentos dos povos do Cerrado em que essas denúncias estejam mais em evidência. O júri também dialogará com as relatoras de acusação sobre a sistematização dessas denúncias, e com representantes do Sistema de Justiça Brasileiro sobre os desafios para efetivação dos direitos dos povos do Cerrado.

A audiência será transmitida ao vivo pelo canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

No dia 29 de março, das 14 às 15hs (horário de Brasília) será transmitida, no mesmo canal da Campanha, uma manifestação pública do júri com as primeiras reações em relação a esta fase do processo instrutório, que constituirá um insumo para a audiência final.

IMPACTO SOBRE MULHERES

No segundo dia de atividades, representantes da Articulação de Mulheres do Cerrado promoverão um ato político de entrega de um documento específico com denúncias de mulheres dos diversos povos do Cerrado. Raizeiras, quebradeiras de coco, geraizeiras, apanhadoras de flores, camponesas, agricultoras familiares, extrativistas, quilombolas, pescadoras, indígenas e toda a diversidade que se afirma como mulheres do Cerrado mostrarão como as violações apresentadas na audiência recaem de forma desproporcional sobre suas vidas e seus corpos em razão dos papéis social e historicamente atribuídos a elas nas famílias e comunidades.

O documento mostra, ainda, como as mulheres se organizam e se articulam para enfrentarem as violações e seus agentes, protagonizando a resistência a esse duplo crime de ecocídio-genocídio.

PL DO VENENO

A Audiência Temática Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade acontece em momento estratégico da conjuntura nacional, em que o Executivo e o Legislativo federal se empenham em colocar mais veneno no prato de brasileiras e brasileiros. No dia 9 de fevereiro, a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do Projeto de Lei 6.922/2002, que flexibiliza o uso de agrotóxicos no País. Conhecido como “PL do Veneno”, o projeto centraliza no Ministério da Agricultura – nas mãos da ruralista Tereza Cristina – a fiscalização e análise dos produtos para uso agropecuário, excluindo o Ministério do Meio Ambiente e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que atualmente participam desse processo.

O projeto também adota o registro temporário de novos produtos, que podem ser liberados para uso mesmo que outros órgãos reguladores, como a Anvisa, não tenham concluído a análise dos riscos causados pelo veneno.

“Só em 2021, 562 novos produtos foram liberados pelo presidente Jair Bolsonaro, o maior número registrado em 21 anos, segundo a série histórica feita pelo Ministério da Agricultura. A publicação no Diário Oficial da União foi realizada no findar de dezembro e os números já somam 1.552 produtos venenosos liberados só nos três anos de mandato do presidente, quase metade (43%) do total de 3.550 produtos comercializados no país, segundo o levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil”, informa reportagem publicada no Le Monde Diplomatique Brasil.

O PL do veneno segue para votação no Senado.

OS CASOS

Na Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade serão apresentados seis casos. Conheça cada um deles:

Piauí

Ribeirinhos do Chupé e Indígenas Akroá-Gamella do Vão do Vico

 

Comunidade Tradicional do Território Chupé e Comunidade Indígena Akroá-Gamella da Terra Indígena Vão do Vico, no município de Santa Filomena, Piauí, lutam pela permanência e titulação de seus territórios enquanto sofrem com a expropriação ilegal e desmatamento de parte de seus territórios tradicionais nas chapadas por empreendimentos de monocultivo de soja de grileiros, também beneficiados por investimentos de fundos de pensão internacionais. As violações causam impactos ambientais com contaminação por agrotóxicos nas nascentes de água, contaminação do solo e das roças das comunidades por via aérea através do vento. 

Tocantins

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela

 

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela e comunidades assentadas da reforma agrária nos municípios de Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão, no Tocantins, resistem à apropriação ilegal das águas por meio de barragens, canais, bombas e desvio do leito do rio, à consequente seca, ao desmatamento e à contaminação por agrotóxicos na bacia dos rios Formoso e Javaés, afluentes do Araguaia, causadas pelos produtores do Projeto Rio Formoso de monocultivo irrigado de arroz, soja e outros, com apoio do estado e omissão do órgão fiscalizador. Enquanto sofrem a afetação nas águas, base da reprodução de seus modos de vida e sua saúde, os Krahô-Takaywrá lutam pela demarcação de seu território e os Krahô Kanela vivem em 7 mil hectares e lutam pela outra parte do território que está ainda em posse dos fazendeiros.

Mato Grosso do Sul

Povos Indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau

 

Indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau em Terras Indígenas e retomadas em diversos municípios do Mato Grosso do Sul lutam para seguir existindo como povos indígenas, enquanto enfrentam situações de desterritorialização, confinamento extremo, assassinatos, torturas, espancamentos, ataques com armas de fogo, agrotóxicos e insegurança alimentar extrema constituindo um processo de genocídio/etnocídio em curso, no marco de décadas de intensos conflitos com fazendeiros e grileiros do agronegócio exportador, com apoio do estado e de poderosos políticos.

 

Mato Grosso

Camponeses do Assentamento de Reforma Agrária Roseli Nunes

Camponeses do Assentamento de Reforma Agrária Roseli Nunes em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso, lutam para manter a força de sua produção e comercialização agroecológica em um contexto de destruição das políticas de reforma agrária e de incentivo à comercialização camponesa, enquanto enfrentam a ameaça de expropriação por projetos minerários de fosfato e ferro ligada aos interesses de políticos e do agronegócio do estado.

 

Maranhão

Comunidades Quilombolas de Cocalinho e Guerreiro

Comunidades Quilombolas de Cocalinho e Guerreiro, no município de Parnarama, Maranhão, lutam pela titulação do Território Quilombola, enquanto enfrentam conflito com grilagem, desmatamento, incêndios florestais e contaminação por agrotóxicos por empreendimentos de monocultivos de eucalipto de empresa fabricante de papel e celulose e por fazendas de soja que se expandem para a região.

 

Maranhão

Quebradeiras de Coco-Babaçu e agricultores familiares do Acampamento Viva Deus

Quebradeiras de Coco-Babaçu e agricultores familiares do Acampamento Viva Deus, nos municípios de Imperatriz e Cidelândia, Maranhão, lutam pela titulação de um Assentamento de Reforma Agrária e vivem em constantes conflitos, ataques, vigilância e ameaças de desapropriação por empreendimentos de monocultivos de eucalipto de empresa fabricante de papel e celulose.

PRÓXIMA AUDIÊNCIA E VEREDITO FINAL

A Audiência Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade é a segunda audiência temática da fase instrutória do júri do Tribunal. A primeira foi a Audiência das Águas, realizada nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro de 2021.

A terceira e última audiência temática será sobre Terra e Território, e será realizada junto com a audiência final deliberativa. As duas atividades acontecerão entre os dias 8 e 10 de julho de 2022, de forma híbrida – presencial e virtual.

O foco dessa audiência temática serão as denúncias sobre os processos de desmatamento e grilagem de imensas porções de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região, como processos provocadores do racismo fundiário e ambiental para os povos, contribuindo, em razão de sua sistematicidade geográfica e temporal, para o ecocídio do Cerrado e ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado.

Teremos os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as de todos os casos, articulados com a fala de relatores/as de acusação sobre a sistematização dessas denúncias em escala de Cerrado.

No último dia da Audiência Final, após a escuta dos casos, relatores de acusação e expressões culturais, o júri lerá uma primeira manifestação pública que antecipe elementos do veredito final.

Para saber mais sobre as atividades, acesse a programação oficial do TPP.

SOBRE O TPP

O Tribunal Permanente dos Povos é uma instância de tribunal de opinião que procura reconhecer, visibilizar e ampliar as vozes dos povos vítimas de violações de direitos. O Tribunal existe para suprir a ausência de uma jurisdição internacional competente que se pronuncie sobre os casos de violações contra os povos.

O tribunal conta com um júri multidisciplinar, escolhido a cada nova sessão e de acordo com os casos apresentados. Os membros do júri são reconhecidos por sua independência e pela experiência em relação aos temas analisados. São membros da academia, juristas, jornalistas, artistas, lideranças populares e religiosas, entre outros.

SESSÃO CERRADO

“É tempo de fazer acontecer a justiça que brota da terra!” Com esse lema, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado – uma articulação de 50 movimentos e organizações sociais – peticionou ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) para a realização de uma Sessão Especial para julgar o crime de ecocídio contra o Cerrado, lançada em 10 de setembro do ano passado.

O crime é entendido como históricos e graves danos e a vasta destruição que resultaram da intensa expansão da fronteira agrícola sobre essa imensa região ecológica (cerca de 1⁄3 do território nacional) ao longo do último meio século. Esta ocupação predatória foi desenhada e dirigida pelo Estado brasileiro, em articulação com Estados estrangeiros e agentes privados nacionais e estrangeiros, com os quais compartilha a responsabilidade nesta acusação.

A Campanha propõe, na acusação, um aprofundamento da leitura sobre o crime de Ecocídio, a partir do olhar sobre o Cerrado, mas que certamente expressa a situação de outras realidades: considerando a co-constituição povos-natureza, os danos graves, a destruição ou perda de ecossistemas representa uma ameaça à própria condição de reprodução social e permanência dos povos do Cerrado como povos culturalmente diferenciadas. Neste sentido, afirma que o ecocídio do Cerrado não pode ser compreendido sem levar em consideração a real e concreta ameaça de genocídio cultural dos seus povos.

“Entendemos que se nada for feito para frear o que está ocorrendo no Cerrado, não se tratará apenas de históricos danos graves e vasta destruição. Estamos diante da ameaça de aprofundamento irreversível do Ecocídio em curso, com a perda (extinção) do Cerrado nos próximos anos e junto com ele a base material da reprodução social dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado como povos culturalmente diferenciados, ou seja, seu genocídio cultural”, diz trecho da acusação apresentada pela Campanha aos membros do TPP e ao júri em seu lançamento.

SERVIÇO

Audiência Temática Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade

Data: 15 e 16 de março, das 13hs às 16h30 (horário de Brasília)

Manifestação pública do júri

Data: 29 de março, das 14hs às 15hs (horário de Brasília)

Local: Canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Mais informações: www.tribunaldocerrado.org.br

Contato para imprensa: comunicacerrado@gmail.com


 Foto em destaque: Rosilene Miliotti/FASE

Três anos após Brumadinho, desespero em Cachoeira do Choro: famílias passam sede por causa de água imprópria para consumo. Vale e Copasa são responsáveis

A sede e o afogamento são duas faces da mesma destruição gerada pela mineração e pelo agronegócio em territórios tradicionais. Na comunidade Cachoeira do Choro, zona rural de Curvelo, Minas Gerais, cerca de 800 famílias estão sem água para beber, cozinhar, irrigar quintais produtivos e dar de beber a animais.

Há exatos três anos, a Vale S.A. matou 272 pessoas, além de outras formas de vida, incluindo o rio Paraopeba, com a lama tóxica da barragem B1, da mina Córrego do Feijão, que se rompeu em Brumadinho por negligência e omissão da mineradora. O rio Paraopeba era a principal fonte para consumo, lazer, alimentação e renda das famílias de Cachoeira do Choro, mas hoje está impróprio para qualquer tipo de uso.

Segundo Eliana Marques, moradora da comunidade, com as chuvas torrenciais que afetam Minas Gerais desde o início do mês, casas foram inundadas e destruídas, e o poço artesiano, que era outra importante fonte de abastecimento de Cachoeira do Choro, ficou embaixo de dois metros d’água, e as bombas pararam de funcionar.

A Vale, que está obrigada a fornecer água para consumo humano, das plantas e dos animais dentro da comunidade desde que matou o rio Paraopeba, não tem cumprido o acordo firmado com a Defensoria Pública do Estado (DPE), segundo Eliana. “A Vale entra na comunidade e escolhe a dedo para quem ela vai dar água. Geralmente ela cede água para os ricos, para os poderosos do lugar, e os pobres ficam sem nada. Os pobres que tiveram o direito [à água] reconhecido, logo depois ela corta esse direito também. Ela não cumpre o que está acordado, ela não fornece água para todos”.

As violências da Vale contra a comunidade de Cachoeira do Choro é um dos 15 casos denunciados ao Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado.

Água suja

Eliana Marques informou que a Copasa, Companhia de Saneamento de Minas Gerais, está levando água para Cachoeira do Choro e colocando em caixas conectadas à rede de distribuição. A água, porém, está chegando suja nas caixas. “Isso quando ela vem, porque a gente está ficando três, quatro, cinco dias sem água. O pessoal está sem água pra beber, pra fazer comida”, relata a ribeirinha. Vídeos gravados pelos moradores de Cachoeira do Choro mostram um líquido escuro saindo das torneiras.

A Copasa chegou a enviar fardos de água mineral para a comunidade. A quantidade, porém, foi suficiente para apenas um dia, informou Eliana. A moradora está se mantendo com a água da chuva que conseguiu armazenar.

Áudios de moradores da comunidade enviados por Eliana Marques à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado revelam relatos de sofrimento pela falta de água potável.

“Gente, alguém sabe me informar se vai ter água na Cachoeira do Choro hoje? Aqui em casa está sem água desde cedo. Eu já vi uns três caminhão pipa passando ali em cima, mas até agora a água não chegou”, disse um morador.
“[água] Da torneira, da Copasa, está tendo lá em casa, mas da Vale, que a gente precisa pra beber, até hoje não recebi ainda não. Diz que ia vim, ia vim, e até hoje não chegou”, respondeu uma moradora a Eliana.
“Cedo amanheceu sem água. Água nenhuma, nenhuma, nenhuma. A água que chega está durando, mal, mal, duas horas de prazo. A água tá dando um monte de cisco no fundo do copo. Eu pra dar pra menina [bebê de colo] eu tenho que coar, eu tô pegando a fralda dela e coando a água, porque não tem recurso”, relatou uma mãe de cinco filhos.
“Estamos com falta d’água, está muito difícil, a dificuldade está dura aqui, viu? Tá precisando de umas água mineral pra distribuir pro povo, tem muita gente que tá com falta de água”, desabafa outra pessoa.

Pó preto

Em fins de 2021, a Copasa abriu um segundo poço artesiano na comunidade. Ele fica bem próximo do rio Paraopeba, mas ainda não está sendo utilizado, pois a qualidade da água está sendo avaliada pela Copasa, segundo Eliana. O poço que estava em uso – e que agora está submerso –, também fica próximo ao Paraopeba, e foi construído antes do crime da Vale em Brumadinho. A água extraída do poço antes do rompimento da barragem era de excelente qualidade, garante Eliana. Mas com a contaminação do Paraopeba pela lama tóxica da mineradora, tudo mudou.

“Desde março de 2019 começamos a receber uma água escura com um pó preto brilhante em abundância, de péssima qualidade. Quando a água está muito escura e a gente reclama, a Copasa corta a água e a gente chega a ficar até cinco dias sem água na comunidade”, relata.

Morte de animais

Além das pessoas, os animais também estão sofrendo com a falta de água potável e com a água contaminada do Paraopeba. Eliana conta que nos últimos dias perdeu mais de uma centena de animais de criação, entre galinhas e patos. Antes da morte do rio causada pela mineradora, a ribeirinha extraía alimento e renda do seu quintal produtivo, onde criava galinhas, patos, porcos e cabras. Depois de 25 de janeiro de 2019, precisou contar com o fornecimento de água da Vale por meio de um caminhão pipa para manter os plantios e criações.

“A Vale servia uma água lá em casa para a plantação e os animais, mas vinha em pouca quantidade, não estava dando. Eu pedi que aumentassem essa água através de um ofício feito com levantamento feito pela assessoria técnica [independente, o Instituto Guaicuy, que assessora a comunidade]. A Vale disse que tinha que ir lá pra ver. A Vale foi, por meio do Rodrigo, que é o Relações com a Comunidade (RC) da empresa, com outras pessoas, olharam meu quintal e foram embora. Depois, me negaram o acesso [a mais água] e ainda cortaram o acesso dessa água [que já tinha]. Eu vou te mostrar o que aconteceu no meu quintal”, disse Eliana Marques, enviando, em seguida, fotos dos animais mortos. Ela não sabe dizer se morreram de sede, contaminados pela água tóxica do Paraopeba, ou pelos dois motivos.

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Enquanto concedia essa entrevista, a ribeirinha contabilizou os animais que ainda estavam vivos: três patas e seis frangos médios; a galinha que havia sobrado viva com três pintinhos estava acabando de morrer. “As últimas criações que eu tinha, galinha e pato, acabou tudo.  A Vale nega o [auxílio-]emergencial da minha família porque eu fui uma das lideranças que se levantou e lutou contra ela, ela faz isso, ela castiga a gente dessa forma.”


 Vídeo: Comunidade Cachoeira do Choro / Fotos: Eliana Marques

90 vezes maior que Brumadinho: Caso do Tribunal dos Povos do Cerrado é tema de investigação em reportagem do site The Intercept

A reportagem “Licença forçada: Canetada do Ibama destrava mina em MG com barragens 90 vezes maiores que a de Brumadinho”, publicada no dia 11 de janeiro pelo site The Intercept, mostra os bastidores do processo de licenciamento de um mega empreendimento minerário que a empresa SAM, de capital chinês, quer instalar sobre território tradicional geraizeiro no Vale das Cancelas, no Cerrado mineiro. O projeto conta com barragens 90 vezes maiores do que a que se rompeu em Brumadinho (MG) matando 272 pessoas.

A matéria revela que o processo de licenciamento do empreendimento possui irregularidades, fragilidades legais e ambientais e favorecimentos à empresa por parte do governo Romeu Zema, do atual presidente do Ibama e do próprio procurador-geral de justiça mineiro. A investigação ainda mostra que a empresa vem assediando moradores do Vale das Cancelas para conseguir apoio ao empreendimento, que foi considerado inviável por técnicos de carreira do Ibama em mais de um parecer.

O caso de Vale das Cancelas é um dos 15 denunciados ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em sua sessão sobre o Cerrado. Os casos demonstram a responsabilidade de empresas e Estados no crime de ecocídio contra o Cerrado e de genocídio cultural de seus povos.

Leia a reportagem completa clicando aqui

Saiba mais sobre o TPP aqui: https://tribunaldocerrado.org.br/


Vídeo e Imagem da introdução: Site The Intercept

 

Realidades dos Povos do Cerrado “devem ser consideradas invioláveis, respeitadas e autônomas, independentemente de planos de desenvolvimento”, afirma Júri do Tribunal Permanente dos Povos

Painel de juízes da Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado se manifestou publicamente no dia 10 de dezembro de 2021

No dia 10 de dezembro de 2021, o júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado se manifestou publicamente sobre os casos apresentados durante a Audiência das Águas do Cerrado, realizada de maneira virtual entre os dias 30 de novembro e 1º de dezembro, sendo parte da programação oficial de atividades do TPP no Brasil. 

O pronunciamento foi a primeira reação do painel de juízes do TPP sobre as denúncias relatadas durante a Audiência e sobre a acusação do crime de ecocídio contra o Cerrado e genocídio cultural de seus povos indígenas e comunidades tradicionais que tem sido  cometido de forma sistemática por Estados e empresas. Participaram do evento de transmissão da declaração as e os integrantes do júri Deborah Duprat, Teresa Cravo, Rosa Acevedo, Dom Valdeci Mendes, Antoni Pigrau e Philipe Texier.

Casos apresentados 

Durante os dois dias da Audiência Temática das Águas, representantes de seis dos 15 casos denunciados pela Campanha em Defesa do Cerrado ao TPP evidenciaram, em seus relatos, a injustiça hídrica e o racismo ambiental causados pela apropriação privada intensiva e contaminação das águas pelo agronegócio e mineração. 

No dia 30 de novembro foram apresentados os casos dos Territórios Tradicionais de Fecho de Pasto e Ribeirinhos na Bacia do Rio Corrente, no Cerrado baiano, que enfrentam o agronegócio irrigado nos gerais; os casos dos povos indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela, no Araguaia tocantinense, impactados pelo Projeto Rio Formoso de monocultivos irrigados; e o caso dos veredeiros de Januária, no norte de Minas Gerais, que enfrentam a degradação ambiental e hídrica promovida por empresas do complexo siderúrgico e florestal.

No dia 1º de dezembro, o júri ouviu depoimentos da Comunidade Ribeirinha Cachoeira do Choro, do município de Curvelo, Minas Gerais, que enfrenta a contaminação do Rio Paraopebas com rejeitos da barragem da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu em Brumadinho em janeiro de 2019; também foi apresentado o testemunho de comunidades Geraizeiras de Vale das Cancelas, norte de Minas Gerais, que estão sob ameaça de perda do território, contaminação e supressão das águas por conta da instalação de um mega empreendimento minerário da empresa Sul Americana de Metais (SAM) na região. Por fim, foram ouvidos os depoimentos da comunidade camponesa de Macaúba, do município de Catalão, Goiás, impactada pela contaminação de suas águas por empreendimentos minerários de nióbio e fosfato da Mosaic Fertilizantes e China Molybdenum Company (CMOC). 

Manifestação do Júri

A Audiência das Águas foi a primeira de 3 sessões temáticas que irão anteceder a Audiência Final do TPP, por isso, a declaração do grupo de jurados não busca antecipar qualquer juízo definitivo sobre os crimes previstos na peça de acusação do Tribunal, mas comenta, de maneira contundente, sobre as violações apresentadas pelos representantes dos seis casos.

O painel de juízes reconheceu o fato de que estes povos e comunidades do Cerrado são alvos de projetos de desenvolvimento econômico que colocam em risco a manutenção de seus modos de vida e a conservação da sociobiodiversidade de seus territórios. “O Cerrado constitui um contexto de interesse prioritário não somente para o Brasil, mas também para o espectro de situações onde os planos declarados como ‘desenvolvimento’ se traduzem em projetos que violam os direitos fundamentais, individuais ou coletivos, entre eles o direito à dignidade, o direito à autodeterminação e o direito à vida – ou tratam sua perda como ‘efeito colateral’ ou ‘sacrifícios necessários’,” destaca o documento.

Indo mais além, a declaração proferida destaca que as realidades “culturais, de trabalho e de civilização” dos Povos do Cerrado “devem ser consideradas invioláveis, respeitadas e autônomas, independentemente de planos de ‘desenvolvimento’ propostos por agentes externos, sejam eles públicos ou particulares ou resultado de alianças de conivência, que vão na direção da destruição ou marginalidade estrutural dos povos do Cerrado”.

Balizados pelos termos da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pelo artigo 3º do Decreto 6040, de 7 de fevereiro de 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, o grupo de jurados afirma que das denúncias apresentadas pelos casos possuem supostas violações protagonizadas por agentes privados com a anuência de poderes públicos e sem que o Sistema Judiciário tenha realizado respostas equivalentes.

“(…) Todos eles envolvem supostas violações que vêm sendo praticadas num longo espaço de tempo, por agentes privados, inclusive transnacionais, apoiados por segmentos públicos, sem que o Judiciário brasileiro as tenha contido ou produzido regimes de reparação integral. As condutas denunciadas, que serão devidamente investigadas mediante exercício de contraditório, têm enquadramento inicial nos artigos 5 (crimes ecológicos, muito particularmente o ecocídio previsto no art. 5.1) e 6 (crimes econômicos) do Estatuto do TPP, ambos passíveis de serem atribuídos ao Estado (art. 9) e às empresas (art. 10). O Artigo 7 do Estatuto da TPP, relativo a “crimes de sistema”, também poderá ser aplicável. (…)”

Por fim, vale destacar que o painel de juízes se comprometeu a apreciar as recomendações gerais apresentadas pelas comunidades tradicionais, povos indígenas e organizações que integram a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado a respeito das denúncias apresentadas pelos 6 casos da Audiência das Águas. Segundo a coalizão de organizações, são medidas urgentes e necessárias que devem ser consideradas para a proteção das Águas do Cerrado e para a manutenção dos modos de vida de seus povos indígenas e comunidades tradicionais.

Clique aqui para ler a declaração na íntegra

Próximos passos 

A próxima atividade pública do Tribunal Permanente dos Povos no Brasil será a realização da Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade. O foco do evento serão as denúncias sobre a invasão e contaminação – especialmente por agrotóxicos – dos territórios e pelo desmonte das políticas de reforma agrária e de comercialização da produção camponesa, como processos provocadores da desestruturação dos sistemas agrícolas tradicionais, aumento da fome e ameaças à saúde coletiva, contribuindo em razão de sua sistematicidade (geográfica e temporal) para o ecocídio do Cerrado e ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado. 

O evento acontecerá entre os dias 15 e 16 de março de 2022, de maneira virtual, pelos canais de comunicação da Campanha em Defesa do Cerrado.

Júri do Tribunal Permanente dos Povos fará pronunciamento ao vivo sobre casos de violação das águas do Cerrado pelo agronegócio e mineração

No próximo dia 10 de dezembro, às 14hs (horário de Brasília), o júri multidisciplinar do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado (TPP) fará uma manifestação pública sobre os casos apresentados durante a primeira audiência temática do tribunal, realizada nos dias 30/11 e 01/12. O objetivo do pronunciamento é evidenciar a conexão entre as denúncias relatadas durante a audiência e o crime de ecocídio contra o Cerrado e genocídio cultural de seus povos cometidos por Estados e empresas.

O pronunciamento, que será transmitido ao vivo pelo canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, faz parte dos ritos do TPP e prepara o júri e a sociedade para a sentença a ser pronunciada durante a audiência final deliberativa, no segundo semestre de 2022.

6 casos

Durante os dois dias da Audiência Temática das Águas, representantes de seis dos 15 casos denunciados pelo TPP evidenciaram, em seus relatos, a injustiça hídrica e o racismo ambiental causados pela apropriação privada intensiva e contaminação das águas pelo agronegócio e mineração.

No dia 30 de novembro foram apresentados os casos dos Territórios Tradicionais de Fecho de Pasto e Ribeirinhos na Bacia do rio Corrente, no Cerrado baiano, que enfrentam o agronegócio irrigado nos gerais; os casos dos povos indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela, no Araguaia tocantinense, impactados pelo Projeto Rio Formoso de monocultivos irrigados; e o caso dos veredeiros de Januária, norte de Minas Gerais, que enfrentam a degradação ambiental e hídrica promovida por empresas do complexo siderúrgico e florestal.

No dia 1 de dezembro, o júri ouviu depoimentos da Comunidade Ribeirinha Cachoeira do Choro, do município de Curvelo, Minas Gerais, que enfrenta a contaminação do rio com rejeitos da barragem da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu em Brumadinho em janeiro de 2019; o júri também ouvirá o testemunho de comunidades Geraizeiras de Vale das Cancelas, norte de Minas Gerais, que estão sob ameaça de perda do território, contaminação e supressão das águas por conta da instalação de um mega empreendimento minerário da empresa Sul Americana de Metais (SAM) na região. Por fim, serão ouvidos os depoimentos da comunidade camponesa de Macaúba, do município de Catalão, Goiás, impactada pela contaminação de suas águas por empreendimentos minerários de nióbio e fosfato da Mosaic Fertilizantes e China Molybdenum Company (CMOC). 

As gravações dos dias de audiência estão disponíveis nos links a seguir:

Dia 1: https://youtu.be/ohILHgXSBrA

Dia 2: https://youtu.be/sjXiDGlb1tg

Próximas audiências

A Audiência das Águas foi a primeira audiência temática da fase instrutória do júri do Tribunal. A segunda acontecerá nos dias 15 e 16 de março de 2022, e terá como tema a Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade. O foco dessa audiência serão as denúncias sobre a desestruturação dos sistemas agrícolas tradicionais, o aumento da fome e as ameaças à saúde coletiva em razão da invasão dos territórios, contaminação por agrotóxicos e desmonte das políticas de reforma agrária e de comercialização da produção camponesa.

A terceira e última audiência temática antes da audiência final terá como tema Terra e Território, e acontecerá de 7 a 9 de junho do próximo ano. O foco do evento serão as violações e ameaças ao direito à posse e propriedade da terra/território e ao direito à autodeterminação provocados por processos de desmatamento e grilagem de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região.

Para saber mais sobre as atividades, acesse a programação oficial do TPP.

O que é o Tribunal Permanente dos Povos

O TPP é uma instância de tribunal de opinião que procura reconhecer, visibilizar e ampliar as vozes dos povos vítimas de violações de direitos. O Tribunal existe para suprir a ausência de uma jurisdição internacional competente que se pronuncie sobre os casos de violações contra os povos.

O tribunal conta com um júri multidisciplinar, escolhido a cada nova sessão e de acordo com os casos apresentados. Os membros do júri são reconhecidos por sua independência e pela experiência em relação aos temas analisados. São membros da academia, juristas, jornalistas, artistas, lideranças populares e religiosas, entre outros.

Na sessão sobre o Cerrado, compõem o júri o espanhol Antoni Pigrau Solé, professor de direito internacional público; a jurista e ex-vice procuradora geral da República Deborah Duprat; o bispo da Diocese de Brejo (MA) Dom José Valdeci; a jornalista Eliane Brum; a socióloga venezuelana Rosa Acevedo Marin; a jornalista e pesquisadora uruguaia do Grupo ETC Silvia Ribeiro; e a portuguesa Teresa Almeida Cravo, professora de relações internacionais. O jurista francês Philippe Texier também compõe o júri, e é o atual presidente do TPP. A vice-presidente é a deputada federal Luiza Erundina (PSOL).

As sentenças proferidas pelo júri do TPP não têm aplicação dentro do sistema jurídico formal do país em que é realizado. Um governante ou dirigente de uma empresa que sejam considerados culpados por um crime pelo júri do Tribunal não poderá ser preso, por exemplo.

Ainda assim, as sentenças proferidas pelo TPP são de extrema importância para os sistemas de justiça nacionais e internacionais, e para a opinião pública de uma forma geral, uma vez que expõem os vazios e limites do sistema internacional de proteção dos Direitos Humanos e, assim, pressiona para sua evolução.

“O que está na base do Tribunal do Cerrado é o entendimento de que os povos têm autonomia para construir historicamente suas formas próprias de relação com a vida, suas concepções de Justiça, e por isso seus direitos não são apenas aqueles reconhecidos pelo Estado e não podem depender somente da institucionalidade para serem legítimos. Nesse sentido, o Tribunal do Cerrado afirma, ao reconhecer os povos como construtores dos seus direitos, que a justiça brota da terra”, diz Valéria Pereira Santos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade membro da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

História do Tribunal

Entre 1966 e 1967, o filósofo britânico Bertrand Russell, juntamente com o filósofo francês Jean-Paul Sartre e o jurista italiano Lelio Basso, organizaram em Estocolmo (Suécia) e em Roskilde (Dinamarca) um evento que ficou conhecido como Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, ou Tribunal Russell, e que serviu para investigar os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Vietnã. Fizeram parte do tribunal o escritor Julio Cortázar, o ex-presidente do México Lázaro Cárdenas, a escritora e filósofa Simone de Beauvoir, e outras dezenas de personalidades de diferentes países e áreas de conhecimento.

Entre 1973 e 1976 foi realizado o Tribunal Russel II, que investigou as violações de direitos humanos nas ditaduras latino americanas, entre elas a do Brasil. O segundo tribunal teve sessões em Roma (Itália) e Bruxelas (Bélgica).

O Tribunal Permanente dos Povos (TPP) nasceu em Bolonha (Itália), em 1976, para dar continuidade aos tribunais Russell I e II. O jurista Lelio Basso, que foi membro e relator dos dois primeiros tribunais, propôs a transformação do evento em uma instituição permanente que pudesse ouvir e amplificar as vozes dos povos vítimas de violações dos direitos presentes na Declaração Universal dos Direitos dos Povos – também conhecida como Carta de Argel – publicada em 1976. A Declaração, elaborada em um momento histórico de prevalência de Estados de exceção na América Latina, reconhece os povos como titulares de direitos, e como sendo estes sempre os mais marginalizados no direito internacional.

Transformações e o crime de ecocídio

Desde seu início há 45 anos, o TPP já realizou cerca de 50 sessões internacionais que representam um verdadeiro testemunho dos temas mais prementes deste último meio século, acompanhando as transformações e lutas da era pós-colonial, o avanço do neocolonialismo econômico e a globalização. Nestas sessões, foram investigadas violações trabalhistas, megaempreendimentos, mudança climática, mineração transnacional, livre comércio, violações a direitos de jovens e crianças, guerras e genocídios.

Em seu documento mais recente, o Estatuto de 2018, o TPP atualiza a Carta de Argel como consequência dessas transformações e define o crime de Ecocídio como sendo “o dano grave, a destruição ou a perda de um ou mais ecossistemas em um território determinado, seja por causas humanas ou por outras causas, cujo impacto provoca uma severa diminuição dos benefícios ambientais dos quais gozavam os habitantes do referido território.”

Serviço

Pronunciamento do júri sobre Audiência Temática das Águas do Cerrado

Data: 10/12, 14hs (horário de Brasília)

Local: Canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Mais informações: www.tribunaldocerrado.org.br

Contato para imprensa

comunicacerrado@gmail.com

Audiência das Águas revela detalhes de casos de crime de ecocídio contra o Cerrado

Aconteceu nos dias 30/11 e 01/12 a Audiência das Águas do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, primeira das três audiências temáticas do TPP que fornecem insumos e instruem o júri antes da audiência final.

Durante os dois dias de atividades, representantes de seis dos 15 casos denunciados pelo TPP evidenciaram, em seus relatos, a injustiça hídrica e o racismo ambiental causados pela apropriação privada intensiva e contaminação das águas pelo agronegócio e mineração.

No primeiro dia, o júri conheceu os casos dos povos de fecho de pasto e ribeirinhos da Bacia do Rio Corrente, na Bahia; dos povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela no Rio Araguaia, Tocantins, e dos veredeiros de Januária, no norte de Minas Gerais. 

Elia Sodré do Nascimento e Jamilton Santos Magalhães, do coletivo de Fecho de Pasto, no oeste da Bahia, relataram os conflitos surgidos a partir da chegada dos grandes projetos de irrigação para abastecer o agronegócio. “Há 30 anos que os correntões chegaram”, disse Jamilton. Do Tocantins, os Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela denunciaram a destruição das águas, da fauna e da flora provocada pelos projetos de monocultura irrigada no Rio Formoso, incentivados pelo governo estadual. A água utilizada nos projetos de irrigação vai embora e nas margens do rio ficam enormes faixas de areia. “As barragens construídas atingem a reprodução dos peixes, a navegação. As inundações são outro ponto preocupante”, afirmou Davi Krahô. No Norte de Minas, veredeiros de Januária enfrentam a degradação ambiental e hídrica promovida por empresas do complexo siderúrgico/florestal. O desmatamento foi iniciado nos anos 80 e desde então vem causando a morte das nascentes, intensificada com a chegada de empresas produtoras de eucalipto. 

Para Gianni Tognoni, secretário geral do TPP, a primeira sessão temática do Tribunal coloca em evidência a relação estreita entre a vida da terra, da água e dos povos. “O fato de unir no mesmo tema, de maneira formal, o ecocídio de um lado, e do outro o genocídio cultural dos povos, evidencia um dos desafios do direito internacional atual, que possui categorias bastante restritas e insuficientes para enfrentar as interações entre as violações entre o meio ambiente e as violações contra a própria existência das pessoas”, afirmou Tognoni.

Legitimação da violência pelo Estado

Ao final do primeiro dia de oitivas, o júri multidisciplinar apresentou suas questões aos representantes dos casos. As perguntas, em sua maioria, revelaram uma preocupação com a legitimação, pelo poder público, da violência física e institucional contra povos e comunidades tradicionais do Cerrado.

Nas suas respostas ao júri, os representantes dos casos foram contundentes em expor a relação intrínseca entre poder público e setor privado nos casos de violações que vêm sofrendo de forma sistemática. Exemplo disso é a ausência da realização, pelo Estado, da consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), antes de expedir autorizações para desmatamento ou licenças ambientais.

Outro exemplo é a grilagem de terras públicas, que se efetiva com a ação e omissão do Estado, tanto na concessão de títulos quanto na falta de fiscalização e na consolidação de empreendimentos ilegais por meio de financiamentos públicos. Incêndios criminosos, uso de agrotóxicos e expulsão com uso de pistolagem são desdobramentos dos processos de grilagem como forma de apropriação de terras pelo agronegócio.

Os representantes dos casos também denunciaram ao júri a parcela de responsabilidade específica de membros do judiciário e suas decisões arbitrárias que contrariam leis e tiram dos povos o direito à terra, ao território e às águas.

As marcas da mineração

O segundo dia da primeira sessão temática do TPP foi dedicado à apresentação dos demais três casos o júri, todos focados nas violações causadas por empreendimentos minerários.

Simona Fraudatario, secretária do TPP, aproveitou a oportunidade da abertura do segundo dia de audiência para relembrar a formação do júri que compõe o Tribunal, evidenciando que este foi constituído com o propósito de “ter competências diferentes e multidisciplinares, capaz de entender e avaliar todos os aspectos que serão debatidos ao longo das audiências desta sessão em defesa dos territórios do Cerrado”.

Quem chega à comunidade ribeirinha de Cachoeira do Choro, em Curvelo (MG), logo se depara com uma placa na beira do rio proibindo o uso da água pelas comunidades. A placa não informa quem contaminou as águas. Nesse caso, a culpa é da mineradora Vale, que em 2019, após rompimento de uma barragem de rejeito de minério em Brumadinho, contaminou todo o Rio Paraopeba.

A responsabilização de empresas de mineração pela contaminação de cursos d’água do Cerrado foi a tônica do segundo e último dia da sessão temática. Os outros dois casos foram o das comunidades geraizeiras de Vale das Cancelas, em Minas Gerais, que enfrentam a ameaça de uma barragem de rejeitos e de um mineroduto; e o da comunidade camponesa de Macaúba, Goiás, que enfrenta contaminação por empreendimentos minerários de nióbio e fosfato.

O sentimento de injustiça e falta de identificação dos culpados atravessa os três casos apresentados. Além disso, depressão, suicídio, insegurança alimentar, apagamento dos modos de vida e tradições e ataques incendiários são outras violências e violações de direitos relatados pelas comunidades que sofrem cotidianamente em nome de um suposto progresso. 

“Quando a vida seguia o curso do rio, nós vivíamos muito bem dentro da Cachoeira do Choro, tínhamos turismo, muita fartura e muita pesca”, relatou Eliana Barros, lembrando o antes e o depois do crime da Vale em Brumadinho. Em dois anos, Cachoeira do Choro foi da autossubsistência e autonomia para a doação de cestas básicas e o fornecimento de água suja para a população.

Monocultivos e megaprojetos

As comunidades geraizeiras de Vale das Cancelas, por sua vez, que já tinham como agente destruidor do território empresas de monocultivo de eucalipto, agora sofrem com a possibilidade do avanço da mineração. “Nós temos um grande projeto de mineração sobrevoando as nossas cabeças e por isso gritamos Fora Sam”. A empresa à qual Carmen Dolores Gouveia, do Movimento de Atingidos/as por Barragens (MAB) se refere é a Sul Americana de Metais (SAM), que pretende instalar um mega empreendimento minerário no Cerrado do norte de Minas Gerais.

A discrepância entre o discurso de cientistas renomados e pesquisas feitas in loco demonstram o drama da comunidade camponesa de Macaúba, do município de Catalão, Goiás, impactada pela contaminação de suas águas, conforme apontou o professor Marcelo Mendonça, da Universidade Federal de Goiás. “A avaliação empírica dá conta de que 92% das famílias da comunidade sofrem com a escassez hídrica. É comum a forma como as mineradoras agem no Brasil e mundo afora, por uma narrativa de geração de emprego e de impostos, justificando as atrocidades cometidas contra as comunidades populações camponesas”, apontou. 

Pronunciamento do júri dia 10/12

Após a escuta dos relatos das comunidades, o júri apresentou perguntas capazes de aprofundar mais nas questões que revelam o crime de ecocídio presentes nos casos. Dentre as questões levantadas, Antoni Pigrau, professor de Direito Internacional Público na Universidade Rovira i Virgili, de Tarragona, Espanha, destacou a importância de situar os casos no tempo. “É muito importante contextualizar temporalmente os casos a fim de identificar se são casos de degradação cumulativa”, apontou. 

Silvia Ribeiro, diretora para a América Latina da organização internacional Grupo de Acción sobre Erosión, Tecnología y Concentración (Grupo ETC), sintetizou o sentimento do júri sobre os casos. “Muito grata e comovida pelos testemunhos que compartilharam conosco desde as lutas, situações trágicas, difíceis e injustas. É um ecocídio que vai ainda mais longe que a própria barragem e plantações, está ligado ao genocídio de povos e camponeses tradicionais. Uma combinação de violações das regulações legais e falta de fiscalização. Falta de justiça e reparação às vítimas”, finalizou.

Ricardo Assis, professor da Universidade Estadual de Goiás e pesquisador do Grupo POEMAS – Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade, destacou que 31% dos processos minerários no Brasil estão concentrados no território do Cerrado, abrangendo 60 milhões de hectares. “São territórios de povos com seus saberes, vínculos identitários com a terra e a água que estão ameaçados diante dessa situação de disputa de um modelo neoextrativista, liberal e marginal do atual governo”, explicou. Assis, que é relator de acusação, também destacou o sequestro da água do Cerrado por meio do acesso privado concedido pela emissão de 30 mil outorgas e a evolução dos conflitos por terra e água envolvendo a mineração.

O relator encerrou sua fala apontando recomendações para a reversão deste cenário, que passa pelo fortalecimento dos órgãos de fiscalização e controle e pela garantia de assessoria técnica independente para afetados por barragens.

Gianni Tognoni, secretário geral do TPP, fez as considerações finais da audiência, informando que no dia 10/12, às 14h (horário de Brasília), será emitida uma manifestação pública do júri com as primeiras reações em relação aos temas e casos discutidos e sua relação com as violações e denúncias de ecocídio do Cerrado e ameaça de genocídio cultural dos seus povos. 

 Assista aos dois dias de audiência nos vídeos a seguir.

1º dia de Audiência das Águas do Cerrado (30/11)

2º dia de Audiência das Águas do Cerrado (01/12)


Colaboraram AATR (Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais), CPT (Comissão Pastoral da Terra) e Raízes do Cajueiro.

Articulação lança, nesta quarta-feira, a segunda fase do Dossiê Agro É Fogo: Os incêndios não terminaram – A casa de povos e comunidades tradicionais continua queimando

Nesta quarta-feira (24), às 19h (Horário de Brasília), a Articulação Agro É Fogo lançará, durante live nos canais do youtube da Mídia Ninja e da Comissão Pastoral da Terra, o Dossiê Agro É Fogo: Os incêndios não terminaram – A casa de povos e comunidades tradicionais continua queimando.

Nessa segunda fase do Dossiê Agro É Fogo, o documento ressalta, mesmo em período de pandemia, a continuidade do uso do fogo como arma para expulsão das comunidades de seus territórios, endossada pelo governo Bolsonaro. Isso sustenta o avanço da grilagem de terras, do desmatamento, da destruição dos saberes tradicionais, e do alastramento da fome, da seca e da mudança climática em todo o país.

Composta por seis artigos analíticos, o Dossiê conta com a participação de movimentos sociais, organizações e especialistas que discutem, com profundidade crítica, o que está por trás da expansão das fronteiras do agronegócio e da mineração. Além disso, sete casos de conflitos exemplificam como essas problemáticas ganham forma no chão dos territórios, interferindo não só nos meios de vidas de povos e comunidades tradicionais, como também na qualidade de vida de quem está na cidade. [Veja ao final a lista de conteúdos do dossiê]

Apesar da repercussão da destruição do Pantanal em 2020, em que se contabilizaram 22 mil focos de incêndio, o maior índice em uma década, o fogo continua elevado, totalizando mais de 8 mil focos só em 2021 nesta região. Na Amazônia, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE), já se contabilizam mais de 71 mil focos de incêndio neste ano.  No Cerrado, o índice acumulado entre janeiro e novembro já contabiliza mais de 60 mil focos.

O fogo do agro é retrocesso ao direito à vida 

Por direitos territoriais como imperativo ético de uma reforma agrária no país, o material do Dossiê Agro é Fogo – fase 2 foi composto por dados, pesquisa extensa e depoimentos de quem tem defendido as florestas e matas nativas com seus próprios corpos, e enfatiza: os incêndios não são fatos isolados e sazonais. 

O fogo do agro compõe uma estratégia de consolidação de fazendeiros e empresas multinacionais, expulsando as comunidades de suas terras, esvaziando os pratos da população brasileira, gerando o aumento dos conflitos em comunidades quilombolas, indígenas e de base camponesa.

No Pantanal, por exemplo, os ministérios Público de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso apresentaram um relatório técnico identificando que quase 60% dos focos de incêndio que afetaram a região em 2020 foram provocados por ações humanas, com ligação com atividades agropastoris.

O fogo é utilizado para incendiar a mata nativa, casas e roças de comunidades para avançar com as monoculturas, a mineração e a pecuária. Esse processo provoca a morte de nascentes, o desequilíbrio ambiental e, consequentemente, envenena a terra, a água e o ar utilizados pela população.

“Os invasores de nosso território são os madeireiros e os fazendeiros, e agem organizados da seguinte forma: primeiro entra o madeireiro e derruba as madeiras de lei para vender. No ano seguinte, no verão, eles ateiam fogo na área que foi derrubada e, quando chega o inverno, já entra o fazendeiro que utiliza avião para semear o capim. O último passo é cercar e colocar o gado. Eles agem dessa forma e dessa forma todo ano tem derrubada com roubo de madeiras, queimadas e formação de pastos e fazendas”, relata Antônio José Apurinã, cacique geral da terra indígena do povo Apurinã, Acre (AM).

Por outro lado, nos deparamos com o uso tradicional do fogo pelas comunidades para vários fins, realizado com cuidado, com a sabedoria herdada de conhecimentos ancestrais e tecnologias específicas para manuseio das florestas e da agricultura, passadas de geração a geração. Já é sabido, inclusive, que esse outro tipo de uso do fogo ajuda a produzir a sociobiodiversidade da  Amazônia, do Cerrado e do Pantanal.

A Articulação Agro É Fogo

A Articulação AGRO é FOGO é uma rede que reúne cerca de 30 movimentos, organizações e pastorais sociais que atuam há décadas na defesa da Amazônia, Cerrado e Pantanal, e seus povos e comunidades tradicionais. Ela surge como reação aos incêndios florestais que assolaram o Brasil nos últimos dois anos.

Diante do acontecimento violento do Dia do Fogo, em 2019, aos incêndios que devastaram o Pantanal em 2020, assistimos atônitos a um governo federal que mente sobre as causas e sobre a sua própria responsabilidade no ocorrido. Isso move a Articulação não somente à necessidade de qualificar o debate público, mas, sobretudo, ir além das imagens de satélite e números de desmatamento, trazendo a dimensão do que é vivido no chão das floresta e dos sertões, e da importância da sociobiodiversidade pelo direito à vida.

Para mais informações:

agroefogo@gmail.com

(65) 9 9970-1354

(62) 9 86005595


Lançamento da segunda fase do Dossiê “Agro é Fogo: Os incêndios não terminam – A casa de povos e comunidades tradicionais continua queimando”.

Dia: 24/11 (quarta-feira)

Hora: 19h

Local: Mídia NINJA – YouTube | https://www.youtube.com/watch?v=MHCATOEEkAc 

Comissão Pastoral da Terra – Facebook | https://www.facebook.com/CPTNacional/

Agro é Fogo – Facebook |https://www.facebook.com/agroefogo/


Conteúdos do dossiê Agro é Fogo

ARTIGOS

AGRO é FOME: a erosão da agrobiodiversidade e das culturas alimentares, de Sílvio Isoppo Porto e Diana Aguiar

A EXPANSÃO DA MINERAÇÃO EM TERRAS INDÍGENAS: a boiada com casco de ferro e de ouro, de Luis Ventura

FOGO NO PANTANAL: é a casa das comunidades tradicionais pantaneiras que queima, de Cláudia Sala de Pinho

ACORDO UNIÃO EUROPEIA-MERCOSUL: combustível da devastação da Amazônia, Cerrado e Pantanal, de Maureen Santos

MINERAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DO SUBDESENVOLVIMENTO: as fronteiras Minas-Bahia e Amazônia Oriental, de Tádzio Peters Coelho, Gustavo Iorio e Charles Trocate

RESISTINDO AOS INCÊNDIOS: saberes tradicionais nas brigadas indígenas no Tocantins, de Antônio Veríssimo da Conceição, Eliane Franco Martins e Jeovane Gomes Nunes

CONFLITOS:

[Amazonas | Amazônia] Apurinã de Valparaíso: sem acesso aos direitos territoriais, de Ivanilda Torres dos Santos e Antonia Silva (Cimi)

[Maranhão | Amazônia] Invasões na Terra Indígena Araribóia: violência, desmatamento e incêndios, de Gilderlan Rodrigues da Silva e Lucimar Ferreira da Silva (Cimi)

[Bahia | Cerrado-Caatinga] Avanço da fronteira agrícola, domínio das águas e os conflitos territoriais em Piatã, da Frente Socioambiental de Piatã

[Mato Grosso do Sul | Pantanal] Temporal de cinzas na Comunidade Tradicional Pantaneira Barra de São Lourenço, de Cláudia Sala de Pinho (Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira)

[Mato Grosso | Amazônia] Pré-assentamento Boa Esperança resiste contra grileiro, de Elizabete Fatima Flores e Luana Carina Bianchin (CPT)

[Maranhão | Cerrado] Território Cocalinho: quilombolas na resistência ao fogo do agronegócio , de Leandro Santos

[Maranhão | Cerrado] Território Jaqueira: comunidades camponesas contra um império do agronegócio, CPT MA

Qual a relação entre o Ecocídio do Cerrado e o racismo institucional, fundiário e ambiental que sofrem seus povos?

Em setembro de 2021 o Tribunal Permanente dos Povos (TPP) foi lançado no Brasil para julgar o crime de ecocídio do Cerrado e genocídio cultural de seus povos na Sessão Especial em Defesa dos Territórios do Cerrado. Essas acusações sistêmicas se fundamentam nos 15 casos que foram apresentados publicamente junto à denúncia e que, ao decorrer dos próximos meses, serão debatidos e analisados por seu júri multidisciplinar nas Audiências Temáticas do TPP no Brasil.

A partir da acusação central do TPP podemos tecer uma série de conexões com as mazelas e desigualdades socioeconômicas que afetam os povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado. Uma delas, sem dúvidas, é a relação direta que o processo de Ecocídio da região possui com o racismo institucional, fundiário e ambiental. A Peça de Acusação do Tribunal dos Povos do Cerrado joga luzes para essa conexão. Entenda, abaixo, um pouco desta discussão, a partir da leitura do próprio documento de acusação, construído e apresentado pela Campanha em Defesa do Cerrado:


“Neste sentido e finalmente, propomos mais um importante aprofundamento na leitura da ocorrência do crime de ecocídio a partir do caso do Cerrado como expressão do que pode ser encontrado em outras realidades: a dimensão da colonialidade e do racismo estrutural – expresso especialmente no racismo institucional, fundiário e ambiental – subjacente na própria operação do processo de ecocídio.

O processo de ecocídio do Cerrado só tem sido possível em razão da negação do outro. Esta negação guia o projeto colonial histórico e persistente, os sucessivos modos de desenvolvimento hegemônico e as formas de operar das relações de poder. Destacamos o papel do sistema de justiça do Brasil, que continua a identificar o sujeito de direito como homem, branco, proprietário; e, de forma correlata, o poder executivo e legislativo que consistentemente e em governos de diversos espectros políticos têm associado a monoculturação ou homogeneização da vida com a ideia de “desenvolvimento”. Nesse esquema, os povos do Cerrado – caracterizados por sua diversidade racial e sociocultural, por seus conhecimentos (saber-fazer) tradicionais associados à biodiversidade e por seus modos de vida entrelaçados com o Cerrado – tornam-se não-sujeitos, invisibilizados, tratados como objetos apropriáveis ou obstáculos ao “desenvolvimento”.

A construção da ideia hegemônica dos cerrados como “vazio demográfico” busca legitimar esta apropriação monocultural do Cerrado por este tipo de sujeito (branco-homem-proprietário) em um ajuste colonial da ideia de “desenvolvimento”. Limpar a terra das matas e dos povos que vivem nas matas torna-se um imperativo. Atualiza-se, assim, uma das mais perversas práticas do colonialismo, a da “guerra justa”, contra quem quer que não se identifique com este sujeito de direitos e com o projeto hegemônico de “desenvolvimento”, o que denota que a colonialidade sobreviveu ao fim do colonialismo. Esses povos significados como “não ser” são, no processo, destituídos da titularidade de direitos, privados da garantia de posse de seus territórios e do direito de exercer seus modos de ser, fazer e criar.

Finalmente, ainda que não esteja positivado o crime de ecocídio-genocídio cultural tal como acusamos aqui, os direitos que por sua violação sistemática (no tempo e no espaço) geram esse crime sim estão reconhecidos e protegidos por diversos instrumentos legais nacionais e internacionais: o direito dos povos indígenas e comunidades quilombolas e tradicionais à autodeterminação e o direito desses povos e comunidades à posse e propriedade da terra/território.

A partir dessa leitura, nós, organizações e movimentos da sociedade civil que compõem a Campanha em Defesa do Cerrado, invocamos a competência do Tribunal Permanente dos Povos, nos termos do art.  12 do Estatuto, como ferramenta de acesso à justiça dos e para os povos do Cerrado, especialmente afetados por tais retrocessos socioambientais, para identificar e determinar as distintas responsabilidades dos agentes das violações denunciadas, de modo a preencher as lacunas institucionais nacionais e internacionais para conferir as medidas de justiça e reparação devidas.”

Leia a Peça de Acusação na íntegra acessando: https://tribunaldocerrado.org.br/sessao-cerrado/


Audiência Temática das Águas do Cerrado

Entre os dias 30 de novembro e 01 de dezembro, das 8h30 às 12hs, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado realizará, de forma virtual, a Audiência Temática das Águas no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.

O foco da audiência serão as denúncias de apropriação privada das águas do Cerrado pelo agronegócio e sua contaminação pela mineração como processos provocadores de injustiça hídrica e racismo ambiental contra os povos desta savana. Em razão do seu caráter sistêmico no tempo e no espaço, as apropriações e contaminações contribuem para o ecocídio do Cerrado e para a ameaça de genocídio cultural dos povos que dele dependem para manter seus modos de vida.

A atividade será transmitida ao vivo pelo canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Nos dois dias de audiência os membros do júri ouvirão os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as dos casos em que essas denúncias estejam mais em evidência. O júri também ouvirá relatores e relatoras de acusação sobre a sistematização dessas denúncias. 

Dez dias após a Audiência Temática, no dia 10 de dezembro, será transmitida uma manifestação pública do júri com as primeiras reações em relação a esta fase do processo instrutório, que constituirá um insumo para a audiência final. O horário e o endereço virtual da transmissão será divulgado em breve.

 

Em 20 anos houve mais desmatamento do Cerrado do que nos 500 anos anteriores

Dado, revelado em estudo que será lançado nesta quinta (11/11), sinaliza a expansão da fronteira agrícola do Matopiba – composta pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – como principal vetor

Nesta quinta-feira (11/11), às 18 horas (horário de Brasília), será lançado o estudo “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba”, produzido pela Associação dos Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais da Bahia (AATR) e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado com a contribuição do IFBaiano (Campus Valença). O conteúdo, que será disponibilizado nas versões impressa e pdf, também poderá ser acessado por uma plataforma virtual exclusiva.

O evento de lançamento acontece durante uma live no canal do Youtube e Facebook da AATR com a presença de Maurício Correia Silva, advogado popular, especialista em Direitos Sociais do Campo pela UFG, membro e atual coordenador geral da AATR; Joice Bonfim, secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, advogada popular e mestra em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); Valéria Pereira Santos, articuladora da Comissão Pastoral da Terra no Cerrado e mestra em Demandas Populares e Dinâmicas Regionais pela Universidade Federal do Tocantins (UFT); e Maurício Torres, professor do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (Ineaf) da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Na ocasião, os/as convidados/as irão apresentar os resultados do estudo traçando as análises que demonstram a imbricação entre desmatamento e grilagem ( apropriação ilegal de terras ) no Matopiba. Essa relação tem impulsionado a consolidação dos processos de invasão de terras públicas e tradicionalmente ocupadas, como apontado em audiência pública realizada na última quarta (4/11) no Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que reuniu relatos de lideranças comunitárias sobre as violações enfrentadas pelos povos originários e comunidades tradicionais.

CONTEXTO

O Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e espaço de territorialidades indígenas, quilombolas, tradicionais (geraizeiras, fechos de pasto, veredeiras, quebradeiras de coco-babaçu) e comunidades assentadas ou sem-terra lutando por reforma agrária. E por isso, a expansão da fronteira agrícola sobre a região traduziu-se em intensos e violentos conflitos por terra. As dinâmicas apresentadas pela pesquisa denunciam a apropriação de territórios tradicionais desde o passado, região de genocídio dos povos indígenas e pra onde se deslocaram trabalhadores/as durante e após a abolição da escravidão, se fixando para convivência com o bioma e as repercussões no presente, onde os invasores de terras públicas são majoritariamente homens brancos oriundos do Sul do Brasil, para os quais as práticas de fraude cartorial, concessão indiscriminada de outorgas hídricas e de supressão vegetal são amplamente facilitadas institucionalmente, como já apontado na Operação Faroeste.

Os povos do Cerrado, no entanto, são invisibilizados e considerados obstáculos ao desenvolvimento da região, tratada como vazio demográfico na consolidação de um imaginário que apaga a presença e justifica o avanço da fronteira agrícola onde a relevância do bioma é desprezada por agentes públicos e privados, fatores que contribuem para a irrisória demarcação de terras tradicionalmente ocupadas e para a lentidão e/ou bloqueio de processos de regularização e titulação fundiária. A fronteira expressa o racismo ambiental sobre os corpos e territórios, ao desmatar o bioma cerrado, produzir assoreamento e poluição dos rios com agrotóxicos, ameaças, assédios, invasões, violência física e psíquica contra as populações que defendem seus territórios, ações que cooperam para interditar, alterar ou inviabilizar modos de vida tradicionais.

Como forma de ilustrar essa dinâmica, a pesquisa apresenta quatro casos representativos: o desmatamento da Travessia do Mirador, no Centro-sul do Maranhão; da Gleba Tauá, no Cerrado tocantinense; do Território Melancias, no Sul do Piauí; e dos Fechos de Pasto Capão do Modesto, Porcos-Guará-Pombas, Cupim e Vereda da Felicidade, na Bacia do Rio Corrente, Oeste da Bahia. O estudo também reúne recomendações de enfrentamento deste cenário, que serão enviadas para os órgãos do Sistema de Justiça, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, Corregedorias dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas Estaduais.

Conheça os casos apresentados no estudo:

MARANHÃO

A Travessia do Mirador é uma área de ocupação tradicional com fortes conflitos fundiários pelo menos desde a década de 70, com a chegada de produtores rurais do sul do Brasil. Desde 1978, a justiça estadual do Maranhão reconheceu a área como terra devoluta, declarando como ilegais as propriedades reivindicadas por diversos grileiros e demandando que o estado realizasse a demarcação da área, destinando-a para reforma agrária e regularização fundiária. Mais de quatro décadas depois, as comunidades tradicionais da Travessia e seus descendentes ainda esperam o cumprimento da sentença que reconhece seus direitos. O caso revela que o estado do Maranhão agiu com “dois pesos e duas medidas”. Por um lado, deixou de cumprir as suas obrigações de demarcação da área, sendo conivente com a massiva apropriação privada ilegal da Travessia e a grilagem verde, que até os dias atuais são fontes lucrativas para as empresas agrícolas e fazendeiros que promovem intenso desmatamento no seu entorno. E ao mesmo tempo, o estado promove o cerceamento das práticas tradicionais das comunidades da Travessia, violências e ameaças de expulsão por meio da gestão do parque.

TOCANTINS

A Gleba Tauá, terra pública registrada em nome da União desde 1984, é palco de graves conflitos associados à grilagem de terras e desmatamento ilegal. Uma área de 18 mil hectares, que abriga territórios tradicionais e camponeses lutando por regularização fundiária e reforma agrária, tem sido, ao longo dos últimos 30 anos apropriada de forma ilegal e violenta pela Família Binotto. A família catarinense desenvolveu, ao longo dos anos, diversas estratégias de grilagem, “atirando para todos os lados” numa guerra jurídica contra as comunidades da Gleba. Algumas foram operadas nos cartórios de registros de imóveis, outras por meio do Poder Judiciário e outras ainda contando com o apoio de órgãos como o INCRA e das legislações que legalizam a grilagem. Na Gleba Tauá, o desmatamento ilegal foi uma arma fundamental da Família Binotto para a consolidação da grilagem, tornando sua permanência na área um fato consumado, e sendo um instrumento de violência e afronta aos territórios tradicionais e camponeses. Hoje a Gleba está quase totalmente devastada e, se não fossem os territórios e a resistência popular, não haveria mais Cerrado para contar essa história.

PIAUÍ

No Piauí, as comunidades do território de Melancias enfrentam graves conflitos na luta pela demarcação e titulação do seu território tradicionalmente ocupado, que formalmente consistem em terras devolutas estaduais. Encurraladas nos vales ou “baixões”, as famílias brejeiras e ribeirinhas sofrem com os danos causados pela apropriação ilegal das chapadas do entorno, com o desmatamento acelerado, contaminação das águas por agrotóxicos e com a grilagem verde.

Historicamente, o principal operador da apropriação ilegal das chapadas e vales da região do alto Uruçuí-Preto é o próprio Estado do Piauí, especialmente por meio do Poder Executivo e Judiciário. O processo de entrega do valioso patrimônio constituído pelas terras públicas tem início no começo dos anos 70, e visou a transferência massiva de terras devolutas para indivíduos e empresas privadas, especialmente do Sul do país, a preços irrisórios e com critérios pouco transparentes.

BAHIA

A ocupação tradicional das terras do Cerrado baiano foi sendo fragmentada com a chegada dos invasores, sobretudo a partir das décadas de 1960 e 70. Os esquemas de grilagem seguiram um padrão usual de “inventar nos inventários”. Como consequência da ocupação das chapadas pelo agronegócio, diversos rios estão morrendo e o desmatamento tem se configurado como um instrumento para que a grilagem se torne um fato consumado. As comunidades tradicionais desenvolveram estratégias de defesa, constituindo os fechos de pasto sobre as áreas de uso e manejo comunitário que seguiam sob sua posse. Sobre estes, empresários, imobiliárias e banqueiros arquitetaram a invenção de “fazendas fantasmas”, visando, em um primeiro momento, a especulação fundiária, o acesso a crédito subsidiado pelo Estado brasileiro e empréstimos bancários. Em razão da resistência, é justamente nos fechos que o Cerrado segue em pé. E é por isso que, após vários anos de abandono dos esquemas de grilagem sobre estas áreas, elas passaram a ser novamente cobiçadas diante de uma nova possibilidade de lucro: a grilagem verde. Ao mesmo tempo, o processo de demarcação e titulação dos fechos caminha a passos lentos, e com isso os invasores ganham tempo para consolidar a grilagem.


SERVIÇO

Lançamento “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba”,

11/11 – 18h – Transmissão ao Vivo via Youtube e Facebook da AATR

Mais informações:

Morgana Damásio | ascom@aatr.org.br | (71) 97427646
 

Foto em destaque: Thomas Bauer – CPT /H3000
 
 

 

Audiência das Águas: tribunal discute injustiça hídrica e racismo ambiental contra os povos do Cerrado

Entre os dias 30 de novembro e 01 de dezembro, das 8h30 às 12hs, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado realizará, de forma virtual, a Audiência Temática das Águas no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.

O foco da audiência serão as denúncias de apropriação privada das águas do Cerrado pelo agronegócio e sua contaminação pela mineração como processos provocadores de injustiça hídrica e racismo ambiental contra os povos desta savana. Em razão do seu caráter sistêmico no tempo e no espaço, as apropriações e contaminações contribuem para o ecocídio do Cerrado e para a ameaça de genocídio cultural dos povos que dele dependem para manter seus modos de vida.

A atividade será transmitida ao vivo pelo canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Nos dois dias de audiência os membros do júri ouvirão os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as dos casos em que essas denúncias estejam mais em evidência. O júri também ouvirá relatores e relatoras de acusação sobre a sistematização dessas denúncias. 

Dez dias após a Audiência Temática, no dia 10 de dezembro, será transmitida uma manifestação pública do júri com as primeiras reações em relação a esta fase do processo instrutório, que constituirá um insumo para a audiência final. O horário e o endereço virtual da transmissão será divulgado em breve.

Os casos

Nos dois dias de Audiência Temática das Águas serão apresentados seis casos, três em cada encontro. 

Em 30 de novembro serão conhecidos os casos dos Territórios Tradicionais de Fecho de Pasto e Ribeirinhos na Bacia do rio Corrente, no Cerrado baiano, que enfrentam o agronegócio irrigado nos gerais; os casos dos povos indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela, no Araguaia tocantinense, impactados pelo Projeto Rio Formoso de monocultivos irrigados; e o caso dos veredeiros de Januária, norte de Minas Gerais, que enfrentam a degradação ambiental e hídrica promovida por empresas do complexo siderúrgico e florestal.

No dia 1 de dezembro, o júri ouvirá depoimentos da Comunidade Ribeirinha Cachoeira do Choro, do município de Curvelo, Minas Gerais, que enfrenta a contaminação do rio com rejeitos da barragem da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu em Brumadinho em janeiro de 2019; o júri também ouvirá o testemunho de comunidades Geraizeiras de Vale das Cancelas, norte de Minas Gerais, que estão sob ameaça de perda do território, contaminação e supressão das águas por conta da instalação de um mega empreendimento minerário da empresa Sul Americana de Metais (SAM) na região. Por fim, serão ouvidos os depoimentos da comunidade camponesa de Macaúba, do município de Catalão, Goiás, impactada pela contaminação de suas águas por empreendimentos minerários de nióbio e fosfato da Mosaic Fertilizantes e China Molybdenum Company (CMOC). 

Próximas audiências

A Audiência das Águas é a primeira audiência temática da fase instrutória do júri do Tribunal. A segunda acontecerá nos dias 15 e 16 de março de 2022, e terá como tema a Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade. O foco dessa audiência serão as denúncias sobre a desestruturação dos sistemas agrícolas tradicionais, o aumento da fome e as ameaças à saúde coletiva em razão da invasão dos territórios, contaminação por agrotóxicos e desmonte das políticas de reforma agrária e de comercialização da produção camponesa.

A terceira e última audiência temática antes da audiência final terá como tema Terra e Território, e acontecerá de 7 a 9 de junho do próximo ano. O foco do evento serão as violações e ameaças ao direito à posse e propriedade da terra/território e ao direito à autodeterminação provocados por processos de desmatamento e grilagem de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região.

Para saber mais sobre as atividades, acesse a programação oficial do TPP.

destaque release site TPP 03 03

Sobre o TPP

Lançado no último dia 10 de setembro, o Tribunal Permanente dos Povos é uma instância de tribunal de opinião que procura reconhecer, visibilizar e ampliar as vozes dos povos vítimas de violações de direitos. O Tribunal existe para suprir a ausência de uma jurisdição internacional competente que se pronuncie sobre os casos de violações contra os povos.

O tribunal conta com um júri multidisciplinar, escolhido a cada nova sessão e de acordo com os casos apresentados. Os membros do júri são reconhecidos por sua independência e pela experiência em relação aos temas analisados. São membros da academia, juristas, jornalistas, artistas, lideranças populares e religiosas, entre outros.

Sessão Cerrado

“É tempo de fazer acontecer a justiça que brota da terra!” Com esse lema, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado – uma articulação de 50 movimentos e organizações sociais – peticionou ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) para a realização de uma Sessão Especial para julgar o crime de ecocídio contra o Cerrado. 

O crime é entendido como históricos e graves danos e a vasta destruição que resultaram da intensa expansão da fronteira agrícola sobre essa imensa região ecológica (cerca de 1 ⁄ 3 do território nacional) ao longo do último meio século. Esta ocupação predatória foi desenhada e dirigida pelo Estado brasileiro, em articulação com Estados estrangeiros e agentes privados nacionais e estrangeiros, com os quais compartilha a responsabilidade nesta acusação.

“Entendemos que se nada for feito para frear o que está ocorrendo no Cerrado, não se tratará apenas de históricos danos graves e vasta destruição. Estamos diante da ameaça de aprofundamento irreversível do Ecocídio em curso, com a perda (extinção) do Cerrado nos próximos anos e junto com ele a base material da reprodução social dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado como povos culturalmente diferenciados, ou seja, seu genocídio cultural”, diz trecho da acusação apresentada pela Campanha aos membros do TPP e ao júri em seu lançamento, em setembro desse ano.


Serviço:

Audiência Temática das Águas  do Tribunal dos Povos do Cerrado

Data: 30/11 e 01/12, 8:30 às 12hs (horário de Brasília)

Local: Canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Mais informações: www.tribunaldocerrado.org.br

Contato para imprensa: 

comunicacerrado@gmail.com

MATOPIBA: Comunidades denunciam violações ao Conselho Nacional de Direitos Humanos

Composta pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a fronteira agrícola do Matopiba acumula denúncias de grilagem e violência contra comunidades e posseiros

“Se Deus e as autoridades não agirem ficaremos sem água”. Quem afirma é Dona Raimunda Pereira, matriarca das famílias posseiras do território tradicional Gleba Tauá, no Tocantins, representando o sentimento das comunidades que trouxeram os seus relatos na Audiência Pública “Grilagem, Desmatamento e Violações de Direitos Humanos no MATOPIBA”, realizada virtualmente nesta quinta-feira (05/11). A audiência foi dedicada a relatar, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e demais órgãos do sistema de justiça, as violações de direitos nos territórios indígenas e de povos e comunidades tradicionais na região do Matopiba.
 
A seção, que foi inaugurada pelo presidente do CNDH, Yuri Costa, marcou também o pré-lançamento do estudo “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba”, produzido pela AATR e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado com a contribuição do IFBaiano (Campus Valença), que será lançado no dia 11 de novembro. Na ocasião, Yuri salientou a importância da iniciativa. “A intenção aqui é que, a partir dos relatos, a CNDH possa identificar e qualificar violações para avançar na sua missão, bem como tomar conhecimento desse trabalho de pesquisa capitaneado pela AATR”.
 
Emília Oliveira, advogada popular e coordenadora de programas da AATR trouxe um panorama histórico do Matopiba enquanto fronteira agrícola. “Até 2015, o monocultivo da soja e a pastagem foram responsáveis por cerca de 80% do desmatamento na região. O Matopiba se configura como uma fronteira de violências, os povos do cerrado estão sendo invisibilizados”, sinalizou.
 
Maurício Correia, advogado popular e coordenador geral da AATR, apresentou os quatro casos representativos que integram o estudo. Por meio do trabalho cartográfico e de mapeamento geográfico, realizado pelo IFBaiano, campus Valença, abordou o avanço de desmatamento da Travessia do Mirador no Centro-sul do Maranhão; da Gleba Tauá, no Cerrado tocantinense; do Território Melancias, no Sul do Piauí; e dos Fechos de Pasto Capão do Modesto, Porcos-Guará-Pombas, Cupim e Vereda da Felicidade na Bacia do Rio Corrente, Oeste da Bahia.
 
Maurício enfatizou que os casos apresentados são de áreas de nascentes de importantíssimas bacias hidrográficas, sendo representativos do que diversas outras comunidades vivem na região. Só para se ter uma ideia da extensão da pesquisa, o que está sendo divulgado corresponde a apenas 30% dos achados. “Em 20 anos houve mais desmatamento do que nos 500 anos anteriores. Esse foi um trabalho de pesquisa criterioso feito junto aos cartórios com muita análise documental. Os achados são de situações de fraudes, violências, irregularidades envolvendo órgãos públicos, serviços cartoriais e até mesmo servidores e membros do poder judiciário e executivo”, afirmou Maurício.
 
“Onde tem comunidade tradicional, tem terra preservada”
 
O estudo também oficializa e comprova o que já se sabia. As comunidades tradicionais são protetoras dos territórios, ao preservarem seus modos de vida e costumes que se harmonizam com o meio ambiente. No entanto, essa proteção tem se caracterizado em muito sofrimento para os habitantes desses territórios. Há uma semana, a água da chuva apagou um incêndio criminoso no pasto do filho de Dona Raimunda Pereira. Para Dona Raimunda, o ataque incendiário de pistoleiros foi barrado por providência divina, uma vez que as águas da Gleba Tauá, no Tocantins, terra pública federal, estão secando progressivamente devido ao desmatamento na região.
 
Violências, desmatamento, escassez de água e muitas promessas do governo. Embora sejam de territórios diferentes, as comunidades têm muito em comum em seus relatos. Félix Carreiro, do território tradicional da Travessia do Mirador, relata que desde a criação do Parque Estadual do Mirador, sobre as terras tradicionalmente ocupadas, a comunidade já convivia com conflitos. No entanto, a criação do Parque acentuou ainda mais o problema. “A comunidade já convivia com a grilagem, mas com a ação do governo a situação piorou. Na década de 90, nós moradores fomos intimados a sair do local e estamos sempre convivendo com os conflitos, intimações e ameaças de multa e prisão”, relatou.
 
Juarez Celestino, do território tradicional de Melancias e Aliene Barbosa, do Coletivo de Comunidades Tradicionais de Fechos de Pasto, na Bahia, trouxeram nos seus relatos as mudanças promovidas pelo agronegócio na região do Cerrado ao longo do tempo e o aumento da violência. Juarez lembra saudosista de um tempo em que a comunidade tinha liberdade de ir e vir. “Nós tínhamos uma vida livre no nosso território, muita liberdade, com a chegada do agronegócio nos anos 80, o que nos restou foi preocupação”, explicou.
 
Devolutivas e compromissos
 
A audiência foi conduzida por Marcelo Chalréo, membro da Comissão Terra e Águas do CNDH e contou com falas de diversas autoridades. Entre os presentes que se manifestaram estavam Paulo Velten, presidente do Fórum de Corregedores do Matopiba; Roniclay Moraes, representante da Corregedoria Geral do Tribunal de Justiça do Tocantins; Fernando Lopes, corregedor geral do Tribunal de Justiça do Piauí e Osvaldo de Almeida Bomfim, Corregedor das Comarcas do Interior do Tribunal de Justiça da Bahia. Todos os representantes reafirmaram o compromisso de contribuir junto à CNDH na atuação frente aos casos de violações apresentados pelas comunidades.
 
O corregedor-geral da Justiça do Maranhão, Paulo Velten, destacou a importância da audiência. “São dados relevantes para todos nós, uma contribuição importante e temos que estar abertos a essas informações que são reais. Reafirmamos o compromisso das instituições republicanas. O crescimento e desenvolvimento econômico não podem vir com o sacrifício dessas comunidades tradicionais, da segurança, da justiça e da paz social”, enfatizou.
 
Participaram ainda da audiência lideranças de movimentos sociais do campo, povos indígenas e comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e universidades, conselheiros/as do CNDH e membros/as da Comissão Terra e Água, Conselho Nacional de Justiça, Fórum de Corregedores dos Tribunais de Justiça da região Matopiba e MPF – Grupo de Trabalho de Conflitos no Campo/Cerrado.
 
Finalizando o encontro, a Secretária Executiva da Campanha Cerrado e associada da AATR, Joice Bonfim, frisou que o processo de devastação do Cerrado é histórico, mas também é atual e tem sido cada vez mais acelerado. “O Matopiba é a expressão concreta, real e evidente desse processo de destruição. O que fica claro nessa audiência é que a expansão que é festejada e anunciada pelo estado brasileiro está calcada na ilegalidade. Em apenas quatro casos analisados, foi identificado que meio milhão de hectares de territórios tradicionais foram grilados, associados diretamente ao desmatamento”, apontou Joice.
 
O estudo conta com recomendações que objetivam fortalecer a reversão deste cenário. Nesse sentido, Joice apontou princípios básicos que não são efetivados. “A gente não consegue avançar no combate às inconstitucionalidades das leis de terra estaduais, de fiscalização das atividades cartoriais. É aceitável que uma ação discriminatória de 40 anos não seja cumprida? As recomendações estão falando do cumprimento de legislação, de demarcação de territórios tradicionais, de consulta e consentimento prévio, livre e informado, de articulação entre as agendas ambientais e agrárias”, finalizou.
 
Assista a audiência na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=5grITVigWdM
 

 
Texto: AATR

Coletivo de Fundo e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia protestam por demarcação de terras

Trabalhadores e trabalhadoras leram carta de repúdio em evento realizado pela prefeitura de Correntina-BA na quarta-feira (03/11)

Na manhã da última quarta-feira (03), durante um evento da prefeitura de Correntina-BA para entrega de títulos de terra, foi realizado um ato de repúdio contra a omissão do Estado diante as ações discriminatórias para demarcação de terras para os povos tradicionais do Fundo e Fecho de Pasto da região, com cartazes e leitura de carta-repúdio.

Há anos as comunidades de Fundo e Fecho de Pasto vêm sofrendo com o grande aumento de grilagem e empresas de agronegócio que provocam desmatamento sem controle e, em boa parte, com autorizações indiscriminadas e ilegais do Instituto Do Meio Ambiente E Recursos Hídricos (INEMA).

Mesmo as terras que formalmente são devolutas, de domínio do Estado, e tradicionalmente ocupadas por Fundo e Fecho de Pasto, a quem a lei garante o direito de regularização, são notórias as dificuldades dessas comunidades em formalizar a posse de terras, perdendo espaço para os mecanismos de opressão vividos rotineiramente no campo. É uma situação conhecida pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), pela Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), e pelo poder público municipal de Correntina, mas sem devida atenção ou acompanhamento.

Diante deste cenário, o Coletivo de Fundos e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia representa dezenas de grupos e comunidades divulgou hoje uma carta de repúdio. Confira a carta na íntegra abaixo:


CARTA DE REPÚDIO

Exmo. Secretário de Desenvolvimento Rural, Sr. Josias Gomes Exma. Coordenadora Executiva da CDA, Sra. Camila Batista Exmo. Prefeito Municipal de Correntina, Sr. Nilson José Rodrigues (Maguila)

O Coletivo de Fundos e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia representa dezenas de grupos e comunidades que cuidam e preservam o Cerrado na bacia do Rio Corrente, com seus brejos e veredas, tirando destas áreas de manejo comunitário o sustento de milhares de famílias. Junto com as comunidades Geraizeiras, Quilombolas, Indígenas e Ribeirinhas de outras bacias como o Rio Carinhanha e Rio Grande, somos nós os guardiões das últimas áreas de cerrado preservadas na região Oeste da Bahia. Sem os Fundos e Fechos e os Gerais, nosso modo de vida tradicional está comprometido, assim como estarão condenadas ao desaparecimento as nascentes que alimentam os principais rios da região que chegam no São Francisco, das quais cuidamos. Sem o Cerrado, não há água, e não há vida.

Ao longo dos anos, temos lutado contra a tomada do nosso Gerais por grileiros – vindos de outros Estados e regiões, empresas nacionais e estrangeiras do agronegócio. Os municípios das bacias dos rios Carinhanha, Corrente e Grande, pelo avanço da grilagem, estão sempre na lista dos que têm maior área desmatada em todo o país – em grande parte com autorizações ilegais do INEMA. Com muito dinheiro e influência, esses grupos têm acesso livre a autoridades do Poder Judiciário, como ficou demonstrado pela Operação Faroeste, e também a autoridades do Poder Executivo estadual, que de forma pública agem em nome dos interesses destes grupos.

Nós, os povos originários daqui, temos sido ignorados em nossas justas reivindicações. Com o apoio de organizações e movimentos parceiros, temos lutado pela demarcação e titulação de nossas terras há pelo menos quatro décadas. São terras que formalmente são devolutas, de domínio do Estado, embora sejam tradicionalmente ocupadas por nós, a quem a lei garante o direito de regularização. É uma situação conhecida pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), pela Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), e pelo poder público municipal de Correntina.

Nossa luta não é novidade para ninguém: em 1977 Eugênio Lyra, advogado dos trabalhadores rurais da região foi brutalmente assassinado em Santa Maria da Vitória por estar indo depor na CPI da grilagem, de lá pra cá, são inúmeros os fatos que marcam nossa caminhada. Numa memória recente, do diálogo com o governo estadual, cabe relembrar que ainda em 2014, há sete anos, foi apresentada para a SDR e CDA uma síntese sobre os graves conflitos fundiários e demandas para titulação dos territórios dos Fundos e Fechos de Pasto, em reunião da então Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo. Após a promessa de realizar uma grande ação de demarcação em nossa região, a CDA voltou atrás e cancelou a proposta, por pressão de setores do próprio governo.

Em 2018, após o levante popular do povo de Correntina contra empresas do agronegócio que vinham roubando nossas águas, novas promessas foram feitas, agora com a proposta de delimitação de 40 áreas de Fundos e Fechos de Pasto, divididas em quatro blocos. Após diversas reuniões e muitas promessas, nada foi feito, e o grupo de trabalho à época conduzido pelo então Secretário de Meio Ambiente da Bahia, Geraldo Reis, não conseguiu dar solução aos conflitos socioambientais da região, tal GT, não funcionou, foi anulado, como uma medida ludibriosa para “acalmar os ânimos” exaltados e as especulações daquela época. Em síntese, de 2018 pra cá com a omissão do Estado Baiano, os conflitos socioambientais no Oeste da Bahia explodiram como rastilho de pólvora.

Desde 2010, foram executadas cinco (05) Ações Discriminatórias Administrativas Rurais só na bacia do rio Corrente (Gleba JacurutuSalobro, Gleba Arrojelândia, Gleba Salto, Gleba Vereda do Rancho e Gleba Clemente), sendo a Gleba Porteira de Santa Cruz um imbróglio que não se sabe direito o que é, com mais três (03) na bacia do rio Grande (Gleba Baixões, Gleba Caracol, Gleba Estrondo), sem que “um palmo” de terras comunais fosse destinadas as nossas comunidades, boa parte destes processos se encontram como Ações Discriminatórias Judiciais, contudo sem horizontes e perspectivas. Apenas em fevereiro de 2021, foram abertas 03 Ações Discriminatórias Administrativas Rurais, nos territórios de Capão do Modesto; Porcos, Guará e Pombas e Vereda da Felicidade. A demanda é muito maior do que esses três territórios, e desde então nenhuma outra foi iniciada. Para completar o descaso e falta de respeito com o nosso povo, o trabalho da Comissão Especial responsável por estes processos foi interrompido sem explicações. Desde então, não respondem aos contatos das representações comunitárias, fingem que não existimos mais!

O que está acontecendo, senhor Secretário Josias Gomes? O que está acontecendo, senhora Coordenadora da CDA, Camila Batista? Quem ordenou a paralisação dos trabalhos? Porque não respondem aos contatos e não dão sequer acesso aos processos que, afinal, são do nosso interesse e dizem respeito às nossas vidas?

Não queremos crer que tudo isso se dá em razão do governador do estado ter recebido em seu gabinete fazendeiros e, neste momento, estar com eles em viagem internacional, justamente aqueles que seriam afetados pelo andamento das ações discriminatórias em Correntina, pois não tem como sustentar seus títulos grilados de forma grosseira nos cartórios da região.

Esta omissão, que gostaríamos de entender o motivo, traz consequências graves para nós, fecheiros e geraizeiros, mas também para outras comunidades tradicionais. Desde 2014, ou mesmo antes, os grileiros têm feito cadastros ilegais junto ao INCRA (SIGEF) e INEMA (CEFIR/CAR), especialmente, para grilagem verde, aproveitando que nossas áreas são conservadas por nós. Diretores das associações comunitárias são agredidos, ameaçados de morte a todo o tempo, denunciam às autoridades policiais e nada acontece; continuam as perseguições. Em outros municípios, como Formosa do Rio Preto, outros ataques contra posseiros e comunidades seguem acontecendo enquanto o órgão fundiário se silencia – a exemplo dos recentes ataques armados de milícias rurais de grileiros às comunidades Geraizeiras do Arroz e São Marcelo.

Onde vamos parar? Vai ser preciso que essas lideranças sejam assassinadas para que venha uma ação do governo? A quem este governo está realmente servindo? Onde está o governo para os trabalhadores, que tanto esperamos? A distribuição de títulos individuais, embora importantes, não vai resolver o problema fundiário nem da região Oeste. Se os fecheiros e geraizeiros deixam de cuidar das nascentes dos rios Correntina, Arrojado, Formoso, Guará, Santo Antônio e do Meio dentre outros, haverá água para os pequenos produtores que estão rio abaixo?

Nós, o povo de Correntina e região já entendemos que a resposta é NÃO, e assim ficou demonstrado com sua força nas manifestações de novembro de 2017, que desaguaram na audiência pública onde mais uma vez colocamos nossas reivindicações. Por tudo isso, senhor prefeito, senhora coordenadora e senhor secretário, estamos aqui mais uma vez para relembrar ao governo da Bahia que nós EXISTIMOS! E não seremos ignorados enquanto tivermos força e coragem para lutar.

Não assistiremos sem ação os acordos de gabinete destruírem nossos direitos. Exigimos a retomada imediata das ações discriminatórias que estão realizadas, com a demarcação de TODO o território reivindicado, incluindo as que foram ilegalmente cadastradas e registradas em cartório. Exigimos que novas ações sejam abertas, nos outros “blocos” de territórios que já estão identificados pela CDA. E por fim, exigimos que a SDR e CDA promovam ainda neste mês de novembro uma audiência com todos Fundos e Fechos de Pasto da Bacia do Corrente e Geraizeiros da Bacia do rio Grande, para que preste conta das promessas feitas e até agora não cumpridas.

Nos colocamos ainda à disposição para reunião com o Governador do Estado, para que ele ouça das próprias comunidades a verdade sobre a nossa realidade, e não apenas receba supostos empresários de fora do estado e do país, dando as costas ao seu próprio povo.

Viva a luta dos Fundos e Fechos de Pasto e Geraizeiros! Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida!

Correntina, 03 de novembro de 2021.


 Texto e imagem: CPT-BA

Audiência pública no CNDH discute grilagem, desmatamento e violações de direitos no Matopiba

Composto pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, Matopiba é marcado por conflitos por terra

audiencia matopiba

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) promove nesta quinta-feira (4/11) a audiência pública Grilagem, desmatamento e violações de direitos humanos no Matopiba. O evento, que acontece das 10h às 12h, será transmitido ao vivo nas páginas do Facebook do CNDH e da Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais no Estado da Bahia e no canal do Youtube do CNDH.

Na ocasião, serão relatadas violações de direitos nos territórios indígenas e de povos e comunidades tradicionais na região. A expectativa é de que com a identificação e qualificação das violações de direitos humanos, o CNDH avalie medidas a serem adotadas e também sejam enviadas recomendações para os órgãos do Sistema de Justiça, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, Corregedorias dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas Estaduais.
 
É esperada a presença de lideranças de movimentos sociais do campo, povos indígenas e comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e universidades dos 04 estados, conselheiros/as do CNDH e membros/as da Comissão Terra e Água, Conselho Nacional de Justiça, Fórum de Corregedores dos Tribunais de Justiça da região Matopiba e MPF – Grupo de Trabalho de Conflitos no Campo/Cerrado.
 
A audiência pública é uma iniciativa da Comissão Permanente dos Direitos dos Povos Indígenas, dos Quilombolas, dos Povos e Comunidades Tradicionais, de Populações Afetadas por Grandes Empreendimentos e dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Envolvidos em Conflitos Fundiários, em parceria com a AATR e a Articulação Matopiba, da Campanha em Defesa do Cerrado, que em 2021 vem realizando ações para frear o avanço da grilagem e dos conflitos por terra.
 
Lançamento
 
A audiência antecede o lançamento do estudo NA FRONTEIRA DA (I)LEGALIDADE: Desmatamento e grilagem no Matopiba, produzido pela AATR e a Campanha em Defesa do Cerrado, que será lançado no dia 11 de novembro, às 18h, no Youtube e Instagram da AATR. A pesquisa, que será disponibilizada virtualmente (pdf), impressa e por meio de uma plataforma online, recupera a história do Matopiba como fronteira agrícola, apontando os impactos, limites e repercussões da sua institucionalização, problematizando a questão fundiária na região, traçando padrões dos mecanismos de grilagem e desmatamento e abordando o tratamento institucional sobre a questão fundiária.
 
A publicação também faz a análise de quatro casos em processos de desmatamento e grilagem representativos dessa dinâmica na região: a Travessia do Mirador no Centro-sul do Maranhão, a Gleba Tauá no Cerrado tocantinense, o Território Melancias no Sul do Piauí e os Fechos de Pasto Capão do Modesto, Porcos-Guará-Pombas, Cupim e Vereda da Felicidade na Bacia do Rio Corrente, Oeste da Bahia. Para tanto, desenvolveu-se, junto ao IFBaiano, campus Valença, um amplo trabalho cartográfico e de mapeamento geográfico, e levantamento e sistematização de documentos jurídicos.
 

Canais de transmissão da audiência:

Texto e imagem: AATR

Vitória: O Jalapão é Quilombola

A Justiça Federal determinou nesta semana o adiamento das audiências públicas sobre o projeto para concessão do Parque Estadual do Jalapão e outras três unidades de conservação no Tocantins. O juiz Eduardo de Melo Gama atendeu a um pedido do Ministério Público Federal. 

No início de outubro a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) encaminhou um pedido de cancelamento das audiências públicas ao MPF do Tocantins. Segundo a entidade, a região incorpora sete territórios quilombolas que ainda não foram demarcados.

De acordo com a COEQTO, o projeto de concessão do Parque Estadual do Jalapão é problemático e irregular. “As comunidades já foram agredidas com a imposição burocrática das Unidades de Conservação, e agora estão sendo novamente violentadas pela tentativa de concessão do Parque e áreas adjacentes, sem respeito mínino de garantia aos protocolos de consultas que povos tradicionais fazem jus de acordo com Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, manifesta a entidade.

Vale destacar que no dia 20 de outubro a Polícia Federal realizou buscas e apreensões na casa do governador do Tocantins, Mauro Carlesse (PSL), e na sede do governo. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou seu afastamento por 6 meses, em apuração sobre suposto pagamento de propina e obstrução de investigações.

Entenda o caso

Em carta aberta à sociedade, a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e as entidades que a subscrevem, denunciam violações no processo de concessão do Parque Estadual do Jalapão. As lideranças têm recebido pressões do Governo do Estado para participarem de reuniões marcadas com prazos exíguos, sem comunicados oficiais às associações que, ao questionarem a inviabilidade de participação ampla da comunidade, os representantes do Estado começam a fazer ligações para pessoas isoladas a fim de garantir quórum nas reuniões. Leia o documento na íntegra clicando aqui.


Foto e informações: COEQTO/APA-TO

 

3° Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio (TO) acontece de forma virtual

‘Juventudes do Campo Cultivando a Vida Agroecológica’ é o tema do 3° Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico, coordenado e articulado pelo Grupo de Trabalho (GT) das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio, no Tocantins. O evento começa na quarta-feira (13) e segue até sábado (16), considerado o Dia Mundial da Soberania Alimentar.

As juventudes se prepararam durante três meses e articularam jovens de cerca de oito comunidades camponesas da região tocantinense, além dos estudantes da Escola Família Agrícola Padre Josimo (EFABIP). Juntos, vão realizar ações de forma virtual devido à pandemia do coronavírus. A programação conta com oficinas temáticas gravadas pelas juventudes das comunidades que mostram atividades do seu cotidiano em suas práticas agroecológicas.

As temáticas das oficinas abrangem as seguintes áreas: Identidade e cultura, Agroecologia e Comunicação. Cada coletivo de juventudes, distribuídas em oito comunidades da região do Bico, planejaram e organizaram ações para o ‘dia D’, que será o dia 16 (sábado), Dia Mundial da Soberania Alimentar.

“O evento dá o caráter de ação articulada das juventudes rurais do Bico do Papagaio. As imagens são registros captados pela própria juventude. Edição dos vídeos serão realizadas pelos participantes dos Jovens em ComunicAÇÃO. Serão vídeos de até 4 minutos, com divulgação no instagram do GT e da APA-TO, no facebook e no site da APA-TO”, afirma um dos jovens coordenadores da ação e membro do GT, Aldimar de Sousa, conhecido como Dimas.

O objetivo do evento é promover a motivação de processos organizativos de coletivos locais de jovens nas comunidades rurais, de modo a potencializar as ações de resistência e a luta articulada das juventudes do campo do Bico do Papagaio, assim como o fortalecimento do GT. O Encontro também objetiva valorizar e dar visibilidade às ações desenvolvidas pelas juventudes rurais, mostrando a sua forma de vida agroecológica, utilizando a comunicação popular.

Além das oficinas temáticas em forma de vídeo e o ‘dia D’, as juventudes vão realizar uma Live que vai ocorrer na plataforma zoom no dia 15 (sexta), a partir das 19h, com a seguinte pergunta: ‘Qual a importância da agroecologia para o campo e para a cidade?’, com possibilidade dos/das telespectadores/as interagirem por meio de perguntas e comentários com as juventudes que coordenam e articulam o evento.

O evento é apoiado pela CESE, que atua na promoção, defesa e garantia de direitos no Brasil, e pela MISEREOR. Realização do GT das Juventudes Rurais do Bico e da ONG Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), em parceria com a Rede Bico Agroecológico. 


Serviço:

3° Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio (TO)

Data: 13 a 16 de outubro

Locais de transmissão: Facebook da APA-TO | Instagram do GT Juventudes do Bico

Contato e informações: Daniela Souza – (99) 9 9195-6118 | dani.fotos477@gmail.com


 Foto: Divulgação/APA-TO

Solidariedade: Quilombolas do Maranhão precisam do seu apoio para permanecerem em seus territórios

Ameaçadas, famílias quilombolas vivem situação de conflito há quase um mês

Correndo risco de morte, famílias quilombolas das Comunidades Tanque da Rodagem e São João, do município de Matões (MA), resistem desde o dia 11 de setembro para proteger suas comunidades e impedir o avanço de jagunços armados em seus territórios. Os desmatadores foram contratados por dois plantadores de soja oriundos do Paraná que, fazendo uso de correntões e tratores, ameaçaram a vida das pessoas e destruíram imensas áreas de Cerrado no local.

Há quase um mês neste processo de luta em defesa de suas comunidades, as famílias quilombolas lançam nesta semana uma Campanha de Solidariedade, visando arrecadar fundos e doações de alimentos para contribuir com a defesa do território em conflito.

Os alimentos podem ser doados na capital do estado, São Luís, distante 478 km do município de Matões. A coleta está sendo feita na Rua do Sol, nº 413/417, no Centro. Há também a possibilidade de contribuir financeiramente por meio de uma transferência via depósito ou Pix.

Descaso e impunidade

Apesar das dezenas de denúncias e pedidos de apoio que foram feitos pelas comunidades e organizações que acompanham a situação das famílias, o Governo do Maranhão ainda não enviou representantes da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA), para fiscalizar o desmatamento no território, ou da Secretaria de Estadual de Segurança Pública, para agir na proteção das comunidades e na investigação sobre os tratores usados para destruir o território.

Também não houve retorno algum do INCRA, órgão responsável por questões relacionadas a regularização fundiária, acionado pela rede de apoio das comunidades.

card SOLIDARIEDADE MA v2 04


Serviço:

Campanha de Solidariedade em apoio às famílias quilombolas de Tanque da Rodagem e São João – Matões/MA

Dados para doações financeiras:

Agência 0528-2 | Conta: 55166-0 | Pix: 9998196-8853 | Banco do Brasil

Nome da titular: Emília Carla Costa Leite

Local para doação de alimentos:

Rua do Sol, nº 413/417, Centro – São Luís/MA

Informações: +55 99 8196-8853

Território Geraizeiro é alvo de incêndio criminoso em Grão Mogol (MG)

No dia 4 de outubro o acampamento localizado na Fazenda São Francisco, território tradicional Geraizeiro do núcleo de Lamarão, no município de Grão Mogol (MG), foi alvo de um incêndio criminoso, conforme relatos dos moradores da comunidade.

O incêndio ocorreu logo após a celebração do Dia de São Francisco, padroeiro do território, que tinha como objetivo arrecadar fundos para a construção de uma capela no local. Os Bombeiros e a Polícia Militar foram acionados. Apesar de ninguém ter ficado ferido, as comunidades estão indignadas com a impunidade e a desumanidade do ato criminoso, por se tratar de um ataque direto aos povos tradicionais que há gerações vivem e conservam a biodiversidade dos territórios geraizeiros.

O acampamento São Francisco completou quatro anos no último domingo (03/10), véspera do incêndio. Cerca de 46 famílias tradicionais Geraizeiras vivem por lá desde outubro de 2017.

Vale lembrar que existe uma ação discriminatória movida pelo Estado de Minas Gerais contra a Floresta Minas, empresa que explora o eucalipto e carvão na região. Segundo os Geraizeiros, o empreendimento vem ameaçando e usando parte das terras de forma ilegal, uma vez que há o decreto de interesse social no qual define a demarcação parcial do território tradicional Geraizeiro do núcleo de Lamarão.


 Texto: CPT MG

Imagem: Comunidade Geraizeira/Grão Mogol-MG

Organizações sociais discutem a implementação do Projeto Bloco 8 em audiência da Câmara dos Deputados de MG

Advogada popular que participou da audiência  questionou a delegação do licenciamento ambiental, cujo empreendimento abrange territórios do Norte de Minas ao Sul da Bahia, a pasta do Governo de Minas 

O Coletivo Margarida Alves (CMA), a Comissão Pastoral da Terra, o Movimento dos Atingidos por Barragens, a Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas (Fian, na sigla em inglês) e lideranças geraizeiras do território Vale das Cancelas participaram de audiência pública, da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, durante a última terça-feira (21/9), que discutiu os impactos socioambientais da construção do complexo minerário Bloco 8, pela empresa Sul Americana de Metais (SAM), na região do Vale das Cancelas, no Norte de Minas. O empreendimento prevê a implementação de duas barragens, com capacidade para 845 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração, atingindo os municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis.

Para a advogada popular do CMA, Lethicia Reis, fica explícito, até mesmo na apresentação da representante da mineradora SAM durante a reunião virtual, que a atividade de exploração mineral abrangeria não somente os territórios das diversas comunidades tradicionais e não tradicionais do Vale das Cancelas, em toda a sua complexidade, incluindo geraizeiras, vacarianas, quilombolas e povos indígenas. “A gente fala de um empreendimento que vai do Norte de Minas Gerais até Ilhéus, na Bahia; com o complexo minerário, o mineroduto e o porto”, explica. 

Licenciamento

A advogada popular do Coletivo Margarida Alves argumenta ser necessário questionar a delegação do licenciamento ambiental – cuja viabilidade vinha sendo negada, há pelo menos dez anos, pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad). “Como um só estado vai fiscalizar e zelar pelo meio ambiente de toda essa extensão?”, reflete. 

A delegação do licenciamento do complexo minerário e mineroduto aconteceu esse ano, em 2021, após termo de cooperação técnica firmada entre IBAMA e SEMAD. Contudo, já em 2019, por meio de despacho datado de 26 de julho, o então presidente do Ibama, Eduardo Bim, indicado ao posto pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de Jair Bolsonaro, contrariando todos os posicionamentos anteriores do instituto, se manifestou favorável à fragmentação do licenciamento ( complexo minerário e mineroduto), mesmo sendo nítida a interdependência de ambos os projetos .

Bim é o primeiro titular do Instituto a ser afastado do cargo; a determinação ocorreu, pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, devido ao agente público ser investigado na Operação Akuanduba, da Polícia Federal, por corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando no Ministério de Salles. 

Lethicia lembrou, ainda, aos parlamentares e demais presentes, de que a fragmentação do licenciamento foi contestada também em Ação Civil Pública ajuizada, no mês de dezembro de 2019, pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público de Minas Gerais. Por fim, a advogada popular solicitou aos órgãos públicos uma atuação comprometida com a Constituição Federal, ressaltando, em especial, o Artigo 225, sobre o Meio Ambiente; além do respeito a Convenção 169 da OIT e o direito a consulta prévia, livre e informada às comunidades atingidas pelo empreendimento, de Minas à Bahia, anterior à execução do projeto.

Assista à audiência completa pelo YouTube: 


 Texto e foto: Coletivo Margarida Alves

The Permanent Peoples’ Tribunal accepts accusation over Brazilian Cerrado ecocide

The Permanent Peoples’ Tribunal (TPP), an international court of opinion based in Rome, has accepted a petition brought by Campanha em Defesa do Cerrado (Campaign in Defence of the Cerrado) on the ecocide being perpetrated against the Cerrado. This ecocide is a result of the intense expansion of the agricultural border over the last half-century in this immense region, which covers almost one third of the territory of Brazil. Under the slogan “it’s time to do the justice which springs from the earth”, the more than 50 organisations which make up the campaign presented the petition, which highlights the shared responsibility of the Brazilian state, foreign states and their development banks, international organisations (particularly the World Bank), private stakeholders, transnational agricultural, water, and mining companies, and pension and investment funds for the predatory occupation of the Cerrado and the consequent cultural genocide of its peoples. The organisations emphasise the breakdown of democracy which has occurred in Brazil since 2016, and the rise of fascism, racism, and anti-environmentalism under the Bolsonaro government, leading to worsening overlapping crises and the potential threat of the current ecocide becoming irreversible.
 
The petition underlines the fact that the Cerrado is the world’s most biodiverse savannah thanks to the efforts of indigenous peoples and traditional communities, who have continuously tended the land for almost 15 thousand years. The region, which is now considered the source of some of the main rivers and aquifers in South America, is recognised as a place of connection and transit between the diverse ecosystems and species of the continent. The petition points to the concealment of this social and environmental reality, with the Cerrado being classed as a “demographic vacuum”, as part of the historical colonialism and structural racism which are intrinsic to the process of ecocide and genocide of other populations. The organisations decry the legitimisation of widespread and intensive plundering and grabbing of the Cerrado’s land, water, and resources by a handful of corporations from the agricultural and mineral commodity chains, under the pretext that the region is “nobody’s land”, without people nor biodiversity – all in the name of so-called “development”.
 
In a context of numerous environmental and climate crises – when rampant erosion of biodiversity on a global scale has led to successive outbreaks of zoonotic diseases, and deforestation has led to water scarcity and contributed to an increase in extreme weather events – the devastation of the Cerrado and the expropriation of its peoples have become serious socio-environmental issues for the whole planet.
 
The petition filed by the Campaign calls for:
  • a stop to the current ecocide against the Cerrado before it becomes extinct;
  • the truth to be told about the relevance and ecological and cultural diversity of the Cerrado and its peoples;
  • preservation of the memories of violence, expulsion, and enclosure of common areas, events which are often passed down by community elders;
  • a stop to the impunity enjoyed by land-grabbers when violating the rights of populations, and also in the continuous harassment, manipulation, humiliation, and division of communities they use as part of their strategies to manufacture social hegemony;
  • justice and reparations for the conflicts which populations still face and the right to own their land.
As one of the organisations involved in the Campaign in Defence of the Cerrado, GRAIN invites everyone to discover the Permanent Peoples’ Tribunal session on the Cerrado on the website: https://tribunaldocerrado.org.br/. The livestream of the acceptance of the petition by the President of the TPP and jurors can be viewed here: https://www.youtube.com/watch?v=ecDUgHBmgXs
 
Five centuries ago, a system emerged which globalised inequality in trade and put a price on the whole planet and on human beings. To live – to survive – it needs inequality like lungs need air […]. International law is the offspring of the right of conquest, which the President of TPP calls “its original sin” […]. We have become accustomed to forgetting what deserves remembrance, and accepting the present as our destination: but despite this, we are here with the certainty that the world can, and should, be a home for all of us, and that a different type of law, which does not legitimise injustice, is possible […]”.
– Eduardo Galeano in “500 years of solitude” on the occasion of the TPP session on the Conquest of Latin America and International Law.
 

Text originally published on the website of the Grain organization, a member of the Campaign in Defense of the Cerrado
 
Photo: Ingrid Barros

Coordenação ampliada da Campanha em Defesa do Cerrado se reúne no dia 28 de setembro

No dia 28 de setembro a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reuniu sua coordenação ampliada para mais um encontro de avaliação e articulação. Organizações, movimentos sociais e representantes de povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado participaram do espaço, que aconteceu em formato virtual por conta da pandemia.

A reunião, que contou com a presença de mais de 60 pessoas, proporcionou aos participantes momentos para rememorar e avaliar as últimas atividades da Campanha no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, bem como discutir e articular coletivamente os próximos passos da ação.

Samuel Caetano, integrante da Campanha em Defesa do Cerrado e representante do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), destacou a importância da realização dos espaços de construção coletiva do Tribunal dos Povos do Cerrado. “Apesar da devastação, de nosso país estar pegando fogo, literalmente, estar em comunhão com vocês, com tantas organizações aqui presentes, nos propicia um sentimento de esperança, que não podemos perder de vista”, ressalta.

A colaboradora do Conselho do Indigenista Missionário (Cimi) no Tocantins e também membra da Campanha, Laudovina Pereira, fez memória do lançamento e do processo de construção do Tribunal. “Foi um evento lindo, rico e de construção participativa, que incluiu as comunidades e as organizações integrantes da Campanha desde o início. O Tribunal é vida, é a vida dos povos e das comunidades, por isso precisamos prosseguir com o trabalho para proporcionar ainda mais a participação das comunidades”, finaliza Pereira.

Para saber mais sobre as ações e conferir a programação de atividades do Tribunal dos Povos do Cerrado, acesse o site: https://tribunaldocerrado.org.br/

Confira, abaixo, o vídeo que apresenta um resumo do que foi lançamento do TPP:

Campanha de financiamento vai recuperar cinco nascentes em risco no Cerrado

Iniciativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Campanha de financiamento coletivo alerta para a urgência de conservação do Cerrado e conta com cinco metas de arrecadação. Apoiadores podem receber recompensas como artes digitais, ecobags, acessórios, produtos artesanais e até vagas em oficina

Em sintonia com o Dia Nacional do Cerrado, comemorado no último 11 de setembro, a Articulação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Cerrado lança a Campanha de financiamento coletivo Salve uma Nascente, na plataforma Benfeitoria. A cada ano, 10 pequenos rios morrem no bioma. Diante deste cenário de devastação, o principal objetivo da iniciativa é recuperar cinco nascentes que correm risco de desaparecer, localizadas em comunidades camponesas acompanhadas pela CPT em cinco estados: Maranhão, Piauí, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A campanha vai trabalhar com cinco metas de arrecadação, totalizando o valor de R$110 mil reais.  A arrecadação da primeira meta é Tudo ou Nada, uma dinâmica de financiamento coletivo em que o realizador só recebe as doações caso atinja a sua primeira meta. A primeira meta da Salve uma Nascente representa o valor mínimo para arcar com os custos na Benfeitoria – entre equipe, custos com produção e envio das recompensas, além do custo para salvar uma das nascentes. Mas a pretensão é salvar cinco. A Campanha oferece uma lista de recompensas a determinados valores de doação que funcionam como incentivo, mas é possível doar sem pedir nada em troca.

Experiência junto aos povos

Há mais de 10 anos a Comissão Pastoral da Terra trabalha com a recuperação de nascentes no Cerrado. Ass primeiras experiências desenvolvidas foram nos estados de Goiás e Mato Grosso. Desde então, a CPT realiza processos de formação junto a várias comunidades de camponeses e camponesas cerratenses na luta em defesa das águas, da terra e das florestas. Nesse sentido, a Campanha Salve uma Nascente busca não só conservar essas fontes de água mas, ao mesmo tempo, abrir caminho para a multiplicação dessa ideia para outros lugares. Nosso objetivo é criar uma verdadeira rede de proteção para o Cerrado.

“Recuperar nascentes é essencial para a continuidade da vida, a água é um direito de todos. Os povos do campo e das cidades necessitam das nascentes para o abastecimento dos rios e riachos, é esta água que chega às casas das famílias para os serviços essenciais. Se as nascentes secam, falta água para todos nós, por isso a Campanha Salve uma Nascente é urgente, ela é uma convocação para o cuidado com as águas. Proteger, recuperar e conservar as nascentes é uma luta coletiva, que precisa de cada um de nós. Contamos com o apoio de todos e todas para multiplicar essa iniciativa”, enfatiza Leila Cristina Lemes, coordenadora da Campanha e da Articulação das CPT’s do Cerrado.

A Campanha conta com o apoio de organizações parceiras como a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), o Núcleo de Pesquisa em Agroecologia e Educação do Campo da Universidade Estadual de Goiás (Gwatá), o Museu do Cerrado, o Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), o coletivo de comunicação popular Pinga Pinga, entre outros. 

Riqueza ameaçada

O Cerrado e suas áreas de transição abrangem cerca de 36% do território nacional, ou seja, mais de ⅓ do território brasileiro, e é a mais importante área de recarga hídrica do país. Se conservada, a água que brota dos lençóis subterrâneos pode garantir qualidade e quantidade suficiente para atender as necessidades da rica biodiversidade brasileira, do campo e também da cidade. Conhecido como o berço das águas, o Cerrado abriga nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras, indispensáveis para o consumo e geração de energia no país e de alguns dos principais rios que percorrem o território brasileiro e o continente sul-americano: Rio Araguaia, Rio Tocantins, Rio São Francisco, Rio Paraguai, Rio Parnaíba, Rio Gurupi, Rio Jequitinhonha, Rio Paraná, entre outros.

Além disso, o Cerrado também é a savana mais biodiversa do mundo. Abriga uma diversidade enorme de povos e comunidades tradicionais que habitam a região há mais de 12 mil anos. São mais de 80 etnias indígenas – entre Xavantes, Kraô-Kanela, Tapuias, Guarani Kaiowá, Terena, Xakriabás, Apinajé -, pescadores, ribeirinhos, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, fundo e fecho de pasto, retireiros do Araguaia, vazanteiros, agricultores familiares, geraizeiros, sertanejos, barranqueiros, acampados, assentados e muitos outros. Porém, na contramão de toda essa riqueza e diversidade, o planejamento político brasileiro enxerga o Cerrado como região de expansão da fronteira agrícola.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, em 2020, o desmatamento no Cerrado brasileiro totalizou 7,3 mil km², sendo a maior destruição na região do Matopiba. Ainda de acordo com o Instituto, o Cerrado registrou, de 1º de janeiro até 31 de agosto deste ano, o maior número de focos de incêndio no período desde 2012: foram 31.566 registros de fogo. 

É no Cerrado que se abriga a maior quantidade de nascentes perenes, que vão manter os rios com suas águas durante todo o ano. Com o desmatamento, ocorre o processo de impermeabilização ou compactação do solo que, sem uma cobertura florestal, tem sua capacidade de retenção de água da chuva reduzida, dificultando o abastecimento do lençol freático. Esse processo diminui as reservas de água, colocando em risco de seca as nascentes que originam ribeirões, rios e bacias hidrográficas. 

A diminuição dessas reservas de água ocorre não pela falta de chuvas, mas se relaciona diretamente com a exploração do Cerrado nos últimos anos pelo agronegócio e influencia a seca do Pantanal, do Rio São Francisco e até do Rio Paraná. Toda essa devastação, queimadas, desmatamento e avanço das monoculturas tem provocado efeitos ao clima e ao bem viver dos povos do campo e da cidade. As nascentes estão secando, os rios estão assoreados, por isso se torna necessário colocar ações de conservação em prática e adotar medidas urgentes. Ajude a recuperar cinco nascentes e a espalhar essa ideia! 

Conheça as Nascentes que serão salvas

Piauí
Nascente no Território Vão do Vico, Município de Santa Filomena. A comunidade indígena Gamela conta com 17 famílias e vem sofrendo com a ação de grileiros e com o avanço da soja.  A mata de cobertura de proteção das nascentes foi destruída e as chuvas carregaram muita areia, soterrando muitas delas.

Maranhão 

Uma das nascentes do Rio Itapecuru, um curso d’água com 1.450 quilômetros de extensão e largura de 50 a 120 metros, que banha o Estado do Maranhão. As primeiras águas brotam no “Vão do Pinto”, no município de São Raimundo das Mangabeiras. A bacia do Itapecuru abastece 60% da população da capital São Luís, além de outras cidades no Estado.

Goiás

A nascente do Rio Caldas abastece todo o distrito do Cruzeiro do Bom Jardim, localizado no município de Silvânia. Ali vivem 40 famílias que sobrevivem da agricultura familiar. A comunidade enfrenta o problema do desmatamento e da diminuição das águas com o avanço da monocultura da soja e a pulverização de agrotóxicos. 

Mato Grosso

A nascente a ser recuperada está na comunidade Poço Azul, no município de Poxoréu. A comunidade do local é composta por 16 famílias tradicionais. A nascente está secando devido à falta de vegetação nativa, o que coloca em risco a subsistência da comunidade, já precisam da água para o plantio de hortas, quintais produtivos e pequenas roças.

Mato Grosso do Sul 

A nascente a ser recuperada está no município de Sidrolândia, dentro de uma área de reserva legal. As famílias que vivem nesse assentamento precisam da recuperação da nascente, que secou por conta da ação do gado que pisoteou as margens. Para recuperá-la, serão necessários novos arames e palanques, a fim de proteger o acesso, além de mudas de vegetação nativa do Cerrado.


Serviço: Lançamento Campanha Salve uma Nascente
Onde: Na plataforma da Benfeitoria, em https://benfeitoria.com/salveumanascente. Acompanhe a divulgação nas redes sociais da CPT Nacional:
Site: www.cptnacional.org.br
Facebook: www.facebook.com/CPTNacional
Twitter: @cptnacional
Contato: (62) 99309-6781 – Amanda Costa – Assessora de Comunicação da CPT

“Nós queremos mostrar que os camponeses estão em luta e estão produzindo”: Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul lança novo site

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Mato Grosso do Sul lança nesta semana seu novo site, um canal de comunicação que chega às redes digitais para apresentar ao público as ações, projetos e notícias do regional da CPT, bem como contribuir com a visibilização de denúncias dos conflitos agrários que ocorrem no estado sul mato-grossense. A plataforma está disponível para ser acessada no endereço www.cptms.org.br

De acordo com Anita Alves de Oliveira, agricultora que vive no Assentamento Nazareth, em Sidrolândia (MS), a chegada do site da CPT-MS é bem-vinda. “As pessoas quando pensam nos camponeses, quando pensam nos sem-terra, acham que somos vagabundos porque lutamos para conquistar o nosso pedaço de terra, mas isso não é verdade. Ter um canal de comunicação da CPT aqui no estado é uma oportunidade para mostrar realmente quem somos e o que fazemos, de mostrar o nosso trabalho duro na roça, a nossa produção que alimenta muitas famílias aqui na região”, explica a camponesa.

Quando perguntada sobre o que mais gostaria de ver no novo canal da Pastoral da Terra, Anita não hesitou em responder. “Quero que as pessoas da cidade saibam que as hortaliças e os legumes que nós vendemos na banca da feira vieram lá do Assentamento Nazareth e que nós produzimos”, enfatiza a agricultora.

O novo site da Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul nasce com o propósito de apresentar ao público as ações que são desenvolvidas atualmente pela CPT-MS, mas também de visibilizar sua história e missão. O regional atua há mais de 40 anos no estado, na luta pelos direitos, pelos territórios e pelas vidas dos povos camponeses e tradicionais na região.

“A história da CPT-MS se confunde com a história de luta dos povos do campo no Estado de Mato Grosso do Sul. Foi no seio dos conflitos agrários, tanto em âmbito nacional como estadual, que a CPT-MS é fundada no ano de 1978, em plena Ditadura Militar, que perseguiu, torturou e prendeu centenas de lideranças de camponeses que lutavam pela posse da terra” – explica o artigo que apresenta a história da Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul, já disponível na plataforma.

No espaço virtual da CPT-MS será possível encontrar textos e informações sobre os projetos da Pastoral, como suas ações em combate aos agrotóxicos, luta pelos direitos territoriais dos povos camponeses, implantação de Sistemas Agroflorestais e preservação de nascentes. Além disso, o site apresenta ao público o Arquivo Alfeo Prandel que abriga, além de documentos institucionais, uma vasta documentação sobre a história dos camponeses do MS ao longo de seus encontros e manifestações.

“O arquivo reflete a capilaridade das relações da CPT-MS e das instituições eclesiais com grupos sociais no espaço rural. Muitos destes documentos ainda têm a CPT-MS como seu fiel depositário”, destaca o texto de apresentação do Arquivo, que pode ser lido e acessado no site da entidade.

Para Roberto Carlos de Oliveira, agente da CPT-MS, o lançamento do novo canal de comunicação é uma conquista que é fruto de uma construção coletiva. “Há algum tempo estamos tentando desenvolver essa plataforma e ocupar as redes. Hoje realizamos a primeira etapa deste sonho, que foi colocar o canal no ar”, destaca. “O próximo passo será prosseguir com a gestão compartilhada e participativa do site, estamos nos organizando para este trabalho, criamos um conselho editorial, e vamos em frente com a missão de comunicar às lutas camponesas aqui do estado”, finaliza o agente da CPT. 

Acesse www.cptms.org.br e confira os conteúdos do novo site da CPT-MS.


Texto: CPT-MS / Imagem: Divulgação/CPT-MS

Jovens de comunidades rurais do território Bico do Papagaio (TO) participam de curso sobre cooperativismo

Teve início no dia 10/09 o curso ‘Juventude Cooperativista’, cujo objetivo é ensinar os princípios e valores do cooperativismo a partir das experiências vivenciadas pelas comunidades agroextrativistas, com base na vida comunitária e coletiva. O curso também propõe a reflexão sobre formas de promover a solidariedade, o comércio justo e a inclusão produtiva com autogestão, liberdade e controle social, visando o bem comum.

A metodologia do curso está dividida em três eixos: Cooperativismo (nos dias 10 e 11), Educação Financeira (17 e 18) e Eu profissional, que será realizado nos dias 24 e 25 de setembro. Durante o último encontro de encerramento, no dia 25, será feita entrega dos certificados.

Participam do curso cerca de 20 jovens estudantes da Escola Familiar Agrícola do Bico (EFABIP) e membros da Cooperativa de Produção e Comercialização dos Agricultores Familiares Agroextrativistas e Pescadores Artesanais de Esperantina, a  COOAF-Bico.

O curso acontece no Sindicato dos Trabalhadores Trabalhadoras Rurais (STTR) Regional, em Esperatina (TO). É promovido e organizado pela Escola Família Agrícola do Bico do Papagaio (EFABIP – Pe. Josimo) e Cooperativa de Produção e Comercialização (COOAF-Bico), em parceria com a entidade Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), com o apoio do Trias, Cresol, MISEREOR e PPP-ECOS.

Desenvolvimento do curso

Nos dois primeiros dias do curso, os jovens interagiram com os coordenadores do módulo Valdener, técnico da organização Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (ASSEMA), e Mayk Honnie, da APA-TO. A atividade contou ainda com a participação do Antônio Fagno Braga, um jovem que participa desde 2010 da Cooperativa de Pequenos Produtores Agroextrativistas do Lago do Junco e Lago dos Rodrigues, a  COPPALJ, no Maranhão, que atende o município e mais 46 comunidades. Braga apresentou como funciona a cooperativa e contou detalhes da experiência.

“Em Lago do Junco temos a cooperativa voltada para implantar as cantinas no município e comunidades do entorno. A principal característica das cantinas é que sua administração é independente, e alinham os preços entre moradores da comunidade, melhores condições de comercialização para sócios e não sócios – antes variava de 5 a 25%. Os supermercados visam o lucro, mas na cantina/cooperativa não é isso. É o bem comum”.

Braga contou ainda que  as cantinas são centros independentes de comercialização nas comunidades, como um mini-mercado, geridas pelos próprios cooperados. Nelas a comunidade define o que vai ser vendido. O associado tem direito de propor para as cantinas mercadorias e melhores condições de trabalho. Além do mini-mercado, a cooperativa também trabalha com a produção de óleo e azeite, sabonete e sabão artesanal, todos com o uso da matéria-prima oriunda do extrativismo do babaçu.

Ao final dos dois dias de atividade, jovem Katarina Conceição, do PA Santa Helena Araguatins e atual presidenta da COOAF-Bico, destacou os pontos positivos de participar de um curso como este. “Eu gostei muito desse primeiro módulo. Não tinha tanta noção do que era uma cooperativa de crédito, não sabia da sua importância e que pode beneficiar muita gente. Como foi falado que nos bancos convencionais tem umas taxas altas, e já a cooperativa de crédito já é menos juros, ajuda mais e o lucro é dividido. E também aprofundou meus conhecimentos.”

O jovem Erivelton Oliveira afirmou que aprender é sempre bom e aprender sobre cooperativa é melhor ainda para conseguir unidade buscar melhorias da comunidade. “Na minha comunidade não tem associação e estamos nesse processo de criação. Com esse curso, eu posso até aprender coisas sobre cooperativismo. Está sendo muito gratificante estar aqui e aprender com vocês.”


 Informações e imagens: Daniela Souza / Ascom APA-TO

Incêndios de grandes proporções tomaram o Piauí nas últimas semanas

Diversos focos de incêndio atingiram unidades de conservação no Piauí a partir da semana do dia 06/09. O Parque Nacional da Serra da Capivara e o Parque Nacional da Serras das Confusões foram duas das unidades afetadas. O fogo também se aproximou de comunidades tradicionais de povos brejeiros e indígenas do estado. Entre 6 e 11 de setembro, o Piauí ocupou o primeiro lugar no ranking de focos de incêndio do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Foram 1.438 focos registrados no estado.

Segundo Mercês Alves, da coordenação do colegiado da Comissão Pastoral da Terra do Piauí (CPT-PI), a maior parte das áreas atingidas pelo fogo é de vegetação nativa da transição entre Caatinga e Cerrado. Mercês vive em Currais (PI), um dos municípios que mais queimaram na última semana. “Aqui é uma cidade bem pequena de estilo rural e em todo o entorno há uma grande quantidade de mata preservada, de vegetação originária. Ontem (13/09) mesmo meu vizinho falou que o fogo já estava chegando lá na casa do meu padrinho, ele fica lá na roça no Veredão e eles foram fazer o aceiro”, contou Mercês. Os aceiros são uma estratégia de controle de incêndios: por meio da eliminação completa da vegetação em uma faixa, o fogo não se espalha para outras áreas de vegetação.

Incêndios criminosos

O agente da CPT Altamiran Lopes Ribeiro visitou comunidades tradicionais no Piauí e contou mais de dez focos de incêndio no caminho. Ele conta que é a primeira vez que vê queimadas dessas proporções no estado. “Antes era um foco acolá, mas agora, tudo ao mesmo tempo, é a primeira vez”. Na semana passada, Altamiran visitou as comunidades brejeiras Melancias e Brejo do Miguel, em Gilbués (PI). As comunidades sofrem com investidas do agronegócio sobre seus territórios. “Em Brejo do Miguel teve um incêndio criminoso. Descobriram que foi o fazendeiro que está querendo avançar com a tomada do território para cima da comunidade”, denuncia. O agricultor Adailton Batista conta que em Brejo do Miguel o fogo quase atingiu as casas dos moradores da comunidade. “Estamos com uma preocupação muito grande. No dia 8 de setembro desceu um fogo de lá da área dele até a nossa comunidade que só não queimou as casas porque teve ajuda dos vizinhos. Chegou pertinho, pegou as beiradas das casas, foi absurdo”.

A comunidade já vinha sendo impactada pelo uso de agrotóxicos por parte do sojeiro. “Tudo que ele joga na área dele acaba dentro do córrego”, afirma Adailton. As comunidades se organizam em brigadas populares para conter o fogo. Altamiran explica que a maior parte das brigadas são improvisadas ou contam apenas com caminhões pipa disponibilizado por cada município. Na madrugada de 14/09 o fogo atingiu a comunidade Vão do Vico, no município de Santa Filomena, onde vive o povo indígena Akroá-Gamella. Junior Akroá-Gamella mora na comunidade e conta que a população se organizou sozinha para barrar o fogo. “Foi muito fogo mesmo, saímos para combater algumas partes à noite para salvar os animais e roças de pastagem e de alimentação, mas não demos conta de tudo”. Neste link é possível ver o incêndio em Currais (PI).


Texto: Julia Dolce/Articulação Agro é Fogo

Imagem: Comunidades Tradicionais do Piauí – Currais/PI

Lideranças quilombolas do Jalapão denunciam violações de direitos no processo de concessão do Parque por parte do Governo do Tocantins

Comunidades tradicionais não são ouvidas e denunciam pressão do Estado

Em carta aberta à sociedade, a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e as entidades que a subscrevem, denunciam violações no processo de concessão do Parque Estadual do Jalapão. As lideranças têm recebido pressões do Governo do Estado para participarem de reuniões marcadas com prazos exíguos, sem comunicados oficiais às associações que, ao questionarem a inviabilidade de participação ampla da comunidade, os representantes do Estado começam a fazer ligações para pessoas isoladas a fim de garantir quórum nas reuniões.

Segundo o presidente da ASCOLOMBOLAS Rios, Joaquim Neto, a situação de desrespeito às comunidades tradicionais do Jalapão se repete como aconteceu no processo de instalação do Parque. “Assim como a gente não teve direito à voz no processo de criação do Parque, agora o processo de concessão está sendo pior”, alerta.

À medida que o Estado avança no processo de concessão dos Parques, os povos impactados são cada vez mais relegados dos espaços de discussões. “Não nos procurou no processo de criação da lei dessa concessão dos Parques. Quando nos é procurado para dar a nossa opinião, eles vêm com um cronograma de reunião em que não dá tempo para nós mobilizar todo o nosso pessoal e também não dá tempo para a gente se articular para que nós tenhamos um acompanhamento de técnicos da área jurídica que defendam os quilombolas ou até do Ministério Público que às vezes é interessante participar”, relata Joaquim Neto.

No próximo dia 16 o Governo do Tocantins por meio da ADETUC vai ao Jalapão com o BNDES para realizar uma reunião em que as associações foram comunicadas com dois (2) dias de antecedência. 

“Estamos lançando uma carta em que manifesta toda a nossa preocupação de indiferença do Estado em querer que a gente reúna em tempo muito ligeiro. Estamos muito preocupados e aflitos com as ações que o Estado está tendo conosco, nos impondo reuniões em datas não programadas e sem adiantamento da pauta. Queremos que nos envie o comunicado formalmente e que a gente aceite formalmente para que a gente não seja prejudicado”, ressalta, a liderança.

Leia a Carta na íntegra:


CARTA ABERTA À SOCIEDADE TOCANTINENSE

Palmas, 14 de setembro de 2021. 

As comunidades quilombolas do Jalapão, suas associações e as entidades de apoio subscritas abaixo, vêm expressar a imensa preocupação com a ausência de consulta e diálogo com as comunidades quilombolas e tradicionais durante o processo de aprovação e sanção da legislação que autoriza a concessão de Parques estaduais, entre eles o Jalapão, à iniciativa privada.

A vantagens financeiras da concessão não podem suplantar o bem-viver dos povos e comunidades que ali fizeram morada nos tempos de escravidão legal no Brasil. Os quilombos se formaram na Região do Jalapão bem antes da instalação do Parque Estadual que sobrepôs territórios quilombolas no início dos anos 2.000. Ao invés de demarcar os territórios e titular, o Estado do Tocantins desde a implantação do Parque, tem agido em prol de inviabilizar as vivências dos povos tradicionais no Jalapão. É preciso demarcar os territórios em respeito aos povos que convivem harmoniosamente com o Jalapão desde o final do século XIX. Os povos tradicionais não são considerados entre os índices de desenvolvimento econômico deste Estado e nisso, consiste a luta pelo acesso pleno à terra e ao território e contra políticas excludentes.

As lideranças denunciam que as comunidades estão sendo convocadas pelo Governo do Estado do Tocantins para reuniões, definidas de forma unilateral e reiteradamente, não concedendo às comunidades nem mesmo o direito de opinarem sobre datas e horários. 

Tal situação viola frontalmente o artigo 6º, 1 e 2 da Convenção n. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, e que impõe ao Estado o dever de consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais sobre as medidas administrativas e legislativas suscetíveis de afetá-las diretamente, bem como assegurando sua participação na adoção de decisões. 

Assim, considerando o delicado contexto atual e com o objetivo de assegurar os direitos das comunidades, exigimos que a partir de agora, qualquer reunião das secretarias ou outro órgão do Estado, deverão ser solicitadas junto às associações através de ofícios encaminhados em nome de seus presidentes, com o prazo mínimo de 20 (vinte) dias de antecedência para assegurar a ampla participação das comunidades impactadas. Na ocasião, também deverão apresentar as pautas a serem discutidas. 

Solicitamos ainda que o Governo do Tocantins apresente uma agenda de discussões e inicie o debate para assegurar a demarcação e titulação dos 38 territórios quilombolas do Estado. Que o Estado apresenta o estudo sobre os impactos da demarcação territorial, por ele solicitado, para a tramitação e aprovação do texto da Lei de demarcação territorial encaminhado ao Governo pelo Ministério Público Federal, há  mais de cinco (5) anos.

Ademais, com relação a solicitação de comunicados prévios das reuniões no âmbito da concessão do Parque Estadual do Jalapão, a reivindicação se faz necessária para evitar que as associações e comunidades continuem sendo surpreendidas com reuniões repentinas, sem comunicado oficial prévio, sem adiantamento de pauta, sem oferecer tempo hábil para as associações mobilizarem suas comunidades e garantir ampla participação de todos, como está acontecendo nesse exato momento, onde pessoas da comunidade estão sendo convidadas de maneira individual para reunião com ADETUC e BNDES e não se sabe para qual pauta.

Vamos falar de demarcação territorial?

Em defesa da vida, dos territórios e do Jalapão!


Assinam esta carta:

Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO)

Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)

Associação Quilombolas Carrapato, Mata, Formiga e Ambrósio – Presidente: Jussara Tavares Da Silva

Associação das Comunidades Quilombolas das Margens do Rio Novo, Rio Preto e Riachão (ASCOLOMBOLAS RIOS) – Presidente: Joaquim Neto Almeida de Souza

Associação Comunitária dos artesãos e pequenos produtores de Mateiros – Presidenta: Laudeci Ribeiro de Sousa Monteiro

Associação Comunitária dos Extrativistas Artesãos e pequenos produtores da Comunidade Quilombola do Prata – Presidente: Aulerinda dos Passos Ribeiro

Alternativa para Pequena Agricultura no Estado do Tocantins (Apa-to)

Articulação Tocantinense de Agroecologia  (ATA)

Conselho Indigenista Missionário – Regional Goiás/Tocantins (CIMI)

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)

Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)

Comissão da Pastoral da Terra (CPT)

Terra de Direitos

Central do Cerrado

Coalizão Negra Por Direitos

Articulação Rosalino e movimento Geraizeiro

Conselho Nacional das populações extrativistas – CNS Regional Tocantins

Associação das Mulheres Trabalhadoras rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP)

Centro de Trabalho Indigenista

Campanha Nacional em Defesa Cerrado

Grupo Carta de Belém

Angá – Associação para a gestão socioambiental do Triângulo Mineiro

Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE)

Associação Agroecológica Tijupa


Texto originalmente publicado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ)

Foto: Comunidades Quilombolas do Jalapão/Acervo APA-TO

Comunidades Ribeirinhas do rio Paraopeba atingidas pelo crime da Vale S/A fazem manifesto na prefeitura de Curvelo (MG)

Ontem, 13 de setembro, cerca de 50 moradoras e moradores das comunidades Cachoeira do Choro e Fazendinhas do Paraopeba realizaram protesto na prefeitura do município de Curvelo, em Minas Gerais. As comunidades, localizadas nas margens do Rio Paraopeba, foram de forma muito violenta atingidas pelo crime/tragédia da mineradora Vale S/A em conluio com o Estado. Questões como acesso à água, saúde e outros serviços públicos, estão seriamente agravados após o crime da mineradora. A contaminação do rio Paraopeba pelo rompimento da barragem de rejeitos causou danos gigantescos às comunidades, que têm seu modo de vida ligado ao rio.

Indignadas com tanto desrespeito e sofrimento, o objetivo das comunidades com a manifestação era denunciar publicamente os crimes, pedir uma audiência com o prefeito e entregar ofícios à prefeitura municipal de Curvelo, COPASA (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), Secretaria de Saúde e CEMIG. A falta de acesso à água pelas comunidades, segundo os manifestantes, é extremamente grave. São várias violações de direitos fundamentais de grupos atingidos pelo crime da Vale desconsiderados nos acordos.

Graças à manifestação que realizaram, os moradores e moradoras das comunidades foram recebidos por uma equipe da prefeitura de Curvelo, onde estava o vice-prefeito da cidade, Gustavo Nascimento, e também um membro da COPASA. Ficou decidido que no próximo dia 22/09, às 15hs, membros da comunidade vão se reunir com a prefeitura e a COPASA. Os moradores não foram recebidos pelo secretário de Saúde, mas ficou marcado para o mesmo dia 22/09, às 13:30, uma reunião para que a comunidade entregue o ofício em mãos ao secretário. De acordo com uma das moradoras presentes no protesto, o vice-prefeito e o membro da COPASA “não viam motivos para a manifestação, mas eles não estavam respondendo nem a e-mails ou ofícios.”

Ainda na tarde de ontem, os manifestantes foram acolhidos na Câmara de Vereadores, e fizeram uso da tribuna livre para expor os motivos da manifestação. 

Acordos e arranjos sem participação popular

Os acordos entre Vale e órgãos do Estado, e agora o recente acordo entre Assembleia Legislativa e Governo Zema – todos sem a participação popular –, não trouxeram nenhuma melhoria para as famílias que vivem nestas localidades. Ao contrário, mais insegurança e sentimento de desrespeito aos atingidos/as.

O governo de Minas Gerais construiu um arranjo político institucional que “legalizou” o uso de 11 bilhões de reais do valor total do acordo injusto entre Vale, Governo de Minas, MPE, MPF e DPE. Entre a Assembleia Legislativa e o Governador de MG, Romeu Zema, um acordo para “distribuir” a todos os municípios de Minas 1,5 bilhões de reais. No último dia 30 de agosto, o governador Zema assinou a ordem de pagamento da primeira parcela.

Nenhum diálogo da prefeitura para aplicar dinheiro

No caso do município de Curvelo, a prefeitura não fez nenhum tipo de diálogo com as comunidades para a aplicação do dinheiro. Nesse sentido, a população luta para garantir alguma melhora. Muitos oportunistas em Minas Gerais, liderados pelo Governador Zema, querem capitalizar eleitoralmente a partir do sofrimento dos milhares de vítimas deste cruel e brutal crime da Vale em conluio com o Estado. 

As comunidades reivindicam acesso à água de qualidade e em quantidade suficiente, melhorias na saúde, na infraestrutura de estradas e energia elétrica, transporte, coleta de lixo, regularização fundiária, obras de saneamento básico e projetos de turismo e economia solidária, além de melhorias na educação.


 Informações CPT MG e comunidades Cachoeira do Choro e Fazendinhas do Paraopeba. Imagens: Comunidades

“Frear o fogo, as motosserras e o genocídio”: saiba como foi o lançamento do Tribunal dos Povos do Cerrado

Às vésperas de comemorarmos o Dia Nacional do Cerrado, em 11 de setembro, a Sessão Especial de lançamento do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) colocou em evidência o crime de ecocídio em curso contra o Cerrado e a ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado ao tornar pública sua peça de acusação.

“O que está acontecendo no Brasil, especificamente no Cerrado, nos coloca o desafio internacional de reconhecer o ecocídio”, afirmou o secretário geral do TPP, Gianni Tognoni, durante a abertura do evento que aconteceu durante a manhã do dia 10 de setembro, em live transmitida pelo YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. 

Gianni Tognoni destacou que, no primeiro momento, o TPP efetivamente se coloca como uma tribuna de visibilidade e de tomada da palavra pelas populações que não recebem atenção da comunidade brasileira e internacional. Para ele, o primeiro ato do TPP é reconhecer as vítimas de uma repressão a longo prazo, no caso, povos e comunidades tradicionais do Cerrado, como sujeitos de sua própria história. Ele pontuou a urgência de debater a necessidade do direito internacional e brasileiro assumirem os direitos dos povos do Cerrado e voltarem a ser uma  categoria universal de justiça e democracia.

A jornalista e membra da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Maryellen Crisóstomo, conduziu o primeiro momento do lançamento e prestou solidariedade aos povos indígenas que lutam contra o Marco Temporal. “Pretendemos levar ao conhecimento da sociedade brasileira e da comunidade internacional as violações dos direitos humanos e dos povos e comunidades tradicionais que habitam o Cerrado, que têm sofrido graves impactos ao longo do tempo para a sobrevivência dos ecossistemas e da biodiversidade”, disse Maryellen ao explicar o objetivo do TPP.

Ameaça ao Cerrado e à democracia

Valéria Santos, da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, articulação de 50 entidades e movimentos que apresentou ao TPP a denúncia do crime de ecocídio, alertou que se nada for feito para frear a devastação desta savana, o Brasil estará diante de uma ameaça de aprofundamento irreversível do ecocídio, com a extinção do bioma nos próximos anos. Junto a essa ameaça, segundo Valéria, está também a ameaça do genocídio cultural dos povos e comunidades tradicionais que dependem do Cerrado para existir. “Há quase meio século o Cerrado transformou-se num campo de batalha. Estamos perdendo nossas farmácias vivas, comunidades inteiras estão cerceadas dos seus direitos territoriais, sendo cercadas, expulsas e até assassinadas, o que se intensificou nos últimos três anos com o governo Bolsonaro, apoiado pelo agronegócio”, enfatizou.

Também presente na abertura, a deputada federal Luiza Erundina relembrou Lelio Basso, fundador do TPP, e de quando a luta pela anistia se desencadeou no Brasil, ao mencionar que a defesa da democracia é antiga. “O TPP é um espaço em que as injustiças que se fazem contra nossos povos têm a oportunidade de denúncia”, disse Erundina, destacando que o TPP hoje se dá diante de uma profunda crise econômica, social e política com riscos reais contra o estado democrático de direito. “Nossa luta pela democracia é permanente. A democracia é o direito à plenitude da cidadania”, finalizou a deputada.

Fundamentos da denúncia

Na segunda parte da live de lançamento do TPP, o geógrafo e professor Carlos Walter Porto-Gonçalves, a pesquisadora e membro da Campanha em Defesa do Cerrado Diana Aguiar, e a quebradeira de coco babaçu e coordenadora da Rede Cerrado Maria do Socorro Teixeira Lima, apresentaram fatos e dados que fundamentam a denúncia de  crime de Ecocídio em curso contra o Cerrado e a ameaça de genocídio cultural dos povos que há milhares de anos se relacionam com esta savana.  

O crime de ecocídio praticado contra o Cerrado é um crime de sistema, agravado nos últimos anos devido ao fascismo, racismo e antiambientalismo do governo Bolsonaro, afirmou Diana Aguiar. “Não se trata de buscar o ecocídio em casos específicos – embora estes sejam sua expressão mais concreta –, mas de compreender, a partir dos casos representativos e das análises para o conjunto do Cerrado, a sistematicidade geográfica (em todo o Cerrado) e temporal (no último meio século) do crime de ecocídio do Cerrado”, explicou a pesquisadora. 

Todos foram unânimes em afirmar que a ameaça contra o Cerrado se fortalece com a expansão do agronegócio. “Cerca de 95% da região é plana, os grandes empreendimentos agrícolas tiram proveito disso e focam as plantações nas planícies do Cerrado. Com tecnologias estrangeiras voltadas para a exploração da terra e uso desenfreado de agrotóxicos, o solo fica compactado, o que seca os rios, agravando a questão hídrica para o país”, explicou o geógrafo.

O professor lembrou que o governo brasileiro contribuiu para a origem dessas grandes monoculturas ao aceitar investimentos estrangeiros em pesquisa para desenvolver a monocultura da soja. Em 1976, o país produzia 12 milhões de toneladas. No ano passado, a produção bateu 120 milhões de toneladas. Desse total, 75% é produzido no Cerrado  

As consequências são sentidas também na saúde da população. De acordo com Carlos Walter, “uma das hipóteses mais aceitas entre os cientistas que debatem o início da pandemia está no processo de devastação dos biomas, de áreas tradicionais abrindo espaço para as zoonoses, que encontram nos seres humanos condições para sua existência”. 

A experiência dos povos do Cerrado 

A quebradeira de coco babaçu e coordenadora da Rede Cerrado Maria do Socorro Teixeira trouxe a sabedoria dos povos que se relacionam de maneira harmoniosa com o bioma. “Não nós não defendemos, nós protegemos as águas e as florestas. Eles chamam de progresso o que fazem. Pra mim, progresso sustentável é meu pé de pequi porque todo ano dá pequi. Isso que eles chamam de progresso é devastação”, afirmou. 

Socorro falou sobre a atuação do governo federal que defende o agronegócio, fomentando a fome, a corrupção e a morte. Ela ainda denunciou que em sua comunidade, no Tocantins, estão perdendo o capim dourado por causa da grilagem e fez um alerta sobre o programa Adote um Parque, do governo federal, que entrega à iniciativa privada a administração de Unidades de Conservação, muitas das quais estão sobrepostas a territórios de povos tradicionais. “O programa vai fazer com que a gente perca essa riqueza. Com o Adote um Parque, as terras dos indígenas no Tocantins já estão sendo griladas. Vamos perder o babaçu também porque não vai resistir ao agrotóxico e às queimadas. O Cerrado é vida. O cerrado não é uma coisa que você usa e joga fora. Nós precisamos do cerrado em pé. Da onde eu vou tirar o babaçu, o pequi, os frutos do Cerrado se não tiver Cerrado? Sem o Cerrado, a Amazônia não vai existir. É caixão e vela preta”, finalizou. 

História e identidade dos povos do cerrado 

O cerrado é ocupado há milhares de anos, afirmou o professor Carlos Walter Porto-Gonçalves em sua exposição durante a live. Primeiro pelos indígenas, e depois pelos quilombolas. Ambos os povos aprenderam com o bioma a vivenciar o dia a dia e a conhecer sua diversidade. Ali construíram a sua história. “Os povos indígenas são a grande matriz de conhecimento do Cerrado, como agora querem votar o Marco Temporal?”, questionou o professor. 

Os povos e comunidades do Cerrado construíram suas histórias a partir dos elementos desta savana. A morte do cerrado é a morte desses povos. O que será da quebradeira de coco babaçu sem a ‘mãe palmeira?’. Por isso, a acusação do TPP compreende que conservar a diversidade cultural e biológica do Cerrado é um bem comum para toda a humanidade e o planeta. 

“Frear o fogo, as motosserras e o genocídio”

Em momento histórico, o encerramento do lançamento do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado foi marcado por falas contundentes e pelo aceite da peça de acusação por todos os membros do júri. 

Simona Fraudatario, Secretária Geral do TPP, abriu os trabalhos destacando a emoção de participar desse momento que começou a ser construído há dois anos. Em seguida apresentou a composição do júri e o histórico dos integrantes, destacando o critério de independência das pessoas designadas para a sua formação. Presente nas falas de todos os jurados destacou-se especialmente a consistência, a riqueza e a contextualização da peça de acusação. 

Philippe Texier, presidente do TPP, enfatizou que embora o Cerrado seja tratado como um grande espaço vazio, possui uma história de longa duração e abriga uma savana com uma biodiversidade particular juntamente com seus povos de saberes ancestrais. A ideia de uma terra vazia produz uma violência epistêmica sistemática que foi apontada também por Deborah Duprat, ex-vice-Procuradora Geral da República do Brasil. 

A degradação ambiental sistêmica ligada a crimes econômicos também esteve presente nas falas do Júri. Teresa Almeida Cravo, da Universidade de Coimbra, apontou que “a acusação do Estado brasileiro é fundamental, mas é preciso também destacar os outros atores que contribuem com esse cenário, para que todos assumam suas responsabilidades”.  

Antoni Pigrau, da Universidade de Tarragona, fez sua contribuição no sentido de elucidar a incidência do tribunal e sua relevância para a proteção do território. Destacou, portanto, os três aspectos políticos do tribunal, que se somarão à luta das comunidades. São eles: promover o empoderamento das organizações e das comunidades; ser porta-voz das denúncias para aumentar a sua visibilidade no contexto global; pressionar politicamente o comportamento dos responsáveis. 

Eliane Brum, jornalista e escritora, Dom Valdeci Mendes, bispo do Maranhão, e Sônia Guajajara, liderança indígena, trouxeram falas que salientaram a importância da solidariedade e irmandade entre os povos, uma vez que a degradação de um bioma como Cerrado repercute em cadeia. Nas palavras de Eliane Brum “o ecocídio é também um genocídio. O que estamos julgando aqui é essa possibilidade de futuro, o que estamos julgando aqui é o risco da nossa própria extinção”. 

De maneira contundente, Sônia Guajajara apresentou o horizonte que se pretende com o Tribunal dos Povos do Cerrado: “frear o fogo, as motosserras e o genocídio: essa luta é nossa”.

Após a instalação, ontem (10/09), do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado, os trabalhos serguirão até 2022. Serão realizadas audiências temáticas para análise dos casos, e a sentença do júri será proferida em novembro do ano que vem. A programação completa pode ser conferida no site oficial do Tribunal.


 Colaboraram AATR (Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais), CPT (Comissão Pastoral da Terra), FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) e Raízes do Cajueiro.

Posseiros pedem punição para fazendeiros após atentado em Formosa do Rio Preto (BA)

Geraizeiros de Formosa do Rio Preto, município do extremo oeste da Bahia, realizaram manifestação na manhã de quarta-feira (08/09), exigindo punição para fazendeiros responsáveis por atentado, atos de vandalismo, roubos, destruição de residências, árvores frutíferas e de um vasto buritizal. A ação dos pistoleiros ocorreu na última sexta-feira (03/09). Os criminosos deram prazo para os posseiros deixarem o local até ontem (08/09), e ameaçaram voltar caso não fossem obedecidos.

Os jagunços fazem rondas na região há dias. Encapuzados, impedem os posseiros de recolher as criações de animais. Há suspeitas de que o grupo atue a mando dos donos das fazendas interessados na expulsão da comunidade tradicional.

Formosa do Rio Preto está localizada há 1.019 quilômetros da capital baiana (Salvador). É o maior município do estado (15.634 km²), segundo maior produtor de soja do país e o 11º em Valor de Produção Agrícola, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e nota técnica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A ocupação da região pelo agronegócio se expandiu a partir da grilagem de terras. Nos últimos 20 anos, grandes fazendeiros investiram contra as terras em posse dos geraizeiros, normalmente alagadas e impróprias para plantações em grande escala, mas importantes para o cumprimento da lei que determina a preservação de 20% da mata nativa das propriedades.

Sem cumprir essa exigência, os latifundiários não conseguem obter empréstimos, nem outros benefícios. Para cumprir a legislação, empresários do agronegócio tentam tomar os territórios de povos tradicionais que desenvolveram a habilidade de cultivar às margens de pequenos cursos de água e sobrevivem do extrativismo, criação de animais soltos e da agricultura de subsistência. A prática é conhecida como “grilagem verde”.

“Essa história vem de muito tempo. Entre 2002 e 2004 eles [os grandes fazendeiros] quiseram tirar nós. A gente apelou à justiça com ajuda de uns órgãos aí. Chegamos a fazer um acordo pra ninguém mexer com nós” (sic) – diz uma das vítimas da ação de jagunços, que estariam a serviço dos proprietários da Canabrava Agropecuária e da fazenda Itapuã.

“Em 2012 e 2013, eles voltaram a nos atacar, queimando casas e derrubando cercas. A gente reerguia as cercas e, no outro dia, eles iam e derrubavam. Resistimos e nos sentimos seguros achando que tinham nos esquecido. Mas a trégua acabou agora. Quando foi na sexta-feira passada, ficamos espantados, foi uma coisa de repente”, relatou o posseiro vítima do crime.

O ATENTADO

Na manhã do dia 3 de setembro, quatro caminhonetes – três Hilux pretas e uma S10 ¬ invadiram as roças dos posseiros que moram na comunidade São Marcelo e plantam suas roças na beira do Rio Sapão, onde vivem cerca de 80 famílias. Nos carros estavam entre 18 e 20 homens armados e encapuzados com “tudo que é tipo de arma”, de acordo com uma das vítimas.

Primeiro entraram na área do Canto do Brejão e atiraram em direção a uma caminhonete Ford 250, fretado pelas famílias geraizeiras a caminho das suas posses na beira do Rio Sapão. No veículo estavam homens, mulheres, idosos e crianças. Oito tiros atingiram o veículo, mas ninguém foi atingido. Em seguida, os pistoleiros derrubaram cercas e atearam fogo nas estacas.

Os capangas também roubaram geradores, saquearam e atearam fogo em pelo menos cinco residências, cortaram árvores frutíferas com motosserras e incendiaram currais. No total, a área destruída chega a 15 hectares. O caso foi registrado na delegacia de polícia civil do município de Barreiras. E, segundo os moradores, os principais suspeitos são os irmãos Mário Renato e Mário Fernando Palmério Assunção, herdeiros de Fernandino José Assunção e atuais proprietários da Canabrava Agropecuária, em cuja propriedade são plantados algodão, milho e soja, e Jaci Pimentel, da Fazenda Tupã.

Sobre o protesto do dia 08/09, em frente ao fórum de Formosa do Rio Preto, uma das participantes contou que inicialmente os portões estavam fechados para impedir a entrada dos geraizeiros. “A gente falou não haver necessidade de trancar o portão, mas eles colocaram cadeado”, disse.

Após o contratempo, um grupo de posseiros e advogados foi recebido pela promotora Caroline Maronita Stange, um delegado e um juiz. Na ocasião, foram ouvidos e conseguiram tornar público o ocorrido.

HISTÓRICO

As posses na região conflagrada são antigas. No caso das existentes às margens do Rio Sapão, elas servem às famílias do povoado de São Marcelo para a criação de gado e para plantios de subsistência.

Entretanto, desde a instalação da Fazenda “Santa Maria – Gleba Tapuio” pela empresa Canabrava Agropecuária, nos anos 90, os territórios tradicionais dos geraizeiros são desrespeitados.

O latifúndio é consequência de uma fabricação de título suspeito. E remete à matrícula de uma gleba denominada “Frutuoso da Fazenda Santa Maria”, cuja extensão encontra-se quantificada como “duzentos braças”, registrada no Livro de Registro Eclesiásticos de Terras da Freguesia de Santa Rita de Cássia.

No início do ano de 1980, José Raul Alkmin Leão (que já tinha sido preso por grilagem de terras no Estado do Piauí) adquiriu a posse desta gleba. A aquisição foi registrada no Cartório de Santa Rita de Cássia. Fraudulentamente, transformou essa posse de 200 braças (290 hectares) em 382.354 hectares. Dois anos depois, desmembrou 143.000 hectares e os vendeu para o mineiro Fernandino José Assumpção, então proprietário da Canabrava Agropecuária Ltda.

A partir daí, começou um desenfreado processo de comercialização – venda ou arrendamento – de glebas desmembradas do latifúndio.

O poder público tem conhecimento da situação. Em 1999, a área da Canabrava Agropecuária entrou nos registros do “Livro Branco de Grilagem de Terras no Brasil”, no qual o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reconhece casos de grilagem e corrupção agrária.

* Atualização

Os posseiros tomaram conhecimento 08/09 que Mário Fernando Palmério Assunção, proprietário da Canabrava Agropecuária, esteve na manhã de 06/09 – três dias após o atentado no qual ele seria um dos suspeitos – na delegacia de Formosa de Rio Preto para comunicar um “fato delituoso”.


De acordo com Mário Fernando, na manhã de sábado (04/09), seus empregados promoveram a retirada de cercas e currais construídos sem autorização, na área da Fazenda Santa Maria, pertencente à empresa Canabrava. Ele acrescenta que as demolições ocorreram de forma “pacífica e ordeira”, sem a presença de pessoas estranhas ou de terceiros.

O fazendeiro não identificou os funcionários que teriam feito o serviço e acusou pessoas não identificadas de promoverem a degradação da área de preservação permanente do Rio Sapão, de onde teriam sido retiradas madeiras utilizadas nas construções irregulares.


Além da Canabrava Agropecuária, o fazendeiro é dono da Incorporadora Canabrava Empreendimentos Imobiliários, da Canabrava Participações, da MMA Guarda de Documentos e da Sociedade de Fomento Mercantil e Serviços. Três das empresas estão sediadas no mesmo prédio em que Mário Fernando Palmério Assumpção declarou como residência, no bairro de Abadia, em Uberaba (MG). A quarta fica localizado na cidade de Prata (MG).


* A reportagem foi atualizada no dia 11 de setembro de 2021, às 10h40min. Os quatro últimos parágrafos foram incluídos neste dia e hora.


 Com informações e imagens de Paulo Oliveira e Thomas Bauer / Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Tribunal Permanente dos Povos chega ao Brasil para julgar crime de ecocídio contra o Cerrado

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado – uma articulação de 50 movimentos e organizações sociais – peticionou ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) para a realização de uma Sessão Especial para julgar o crime de Ecocídio em curso contra o Cerrado e a ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado. A acusação, a ser apresentada durante o lançamento online do Tribunal no próximo dia 10 de setembro, das 9 às 12hs no horário de Brasília – confira abaixo a programação -, aponta como responsáveis pelos crimes Estados e entes nacionais, Estados estrangeiros, organizações internacionais e agentes privados, como empresas transnacionais e fundos de investimento.

“Entendemos que se nada for feito para frear o que está ocorrendo no Cerrado, não se tratará apenas de históricos danos graves e vasta destruição. Estamos diante da ameaça de aprofundamento irreversível do Ecocídio em curso, com a perda (extinção) do Cerrado nos próximos anos e junto com ele a base material da reprodução social dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado como povos culturalmente diferenciados, ou seja, seu genocídio cultural”, diz trecho da acusação que será apresentada pela Campanha em setembro.

O TPP do Cerrado apresentará 15 casos, distribuídos entre Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí e Tocantins. Os casos apontam a sistematicidade geográfica e no tempo de certas violações que permitem falar em ecocídio para o conjunto do Cerrado e também em ameaça de genocídio cultural dos povos. Os casos foram selecionados a partir de um amplo processo de escuta e análise envolvendo lideranças comunitárias e organizações de assessoria membros da Campanha. Lideranças dos territórios impactados falarão de cada uma das violações em diferentes ocasiões ao longo das atividades online do Tribunal.

Além do lançamento oficial dia 10 de setembro e do Festival dos Povos do Cerrado no dia 11, serão realizadas duas audiências temáticas. Em novembro de 2022 acontecerá a audiência final deliberativa, em que será lida a sentença dada pelo júri.

Após o lançamento oficial do TPP e ao longo das atividades do tribunal, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado apresentará, em suas redes de comunicação detalhes da peça de acusação e cada um dos 15 casos abordados.

Imagem site TPP Credito JaquelineEvangelista 04

 O que é o Tribunal Permanente dos Povos

O TPP é uma instância de tribunal de opinião que procura reconhecer, visibilizar e ampliar as vozes dos povos vítimas de violações de direitos. O Tribunal existe para suprir a ausência de uma jurisdição internacional competente que se pronuncie sobre os casos de violações contra os povos.

O tribunal conta com um júri multidisciplinar, escolhido a cada nova sessão e de acordo com os casos apresentados. Os membros do júri são reconhecidos por sua independência e pela experiência em relação aos temas analisados. São membros da academia, juristas, jornalistas, artistas, lideranças populares e religiosas, entre outros.

Na sessão a ser realizada sobre o Cerrado, estão confirmados para compor o júri o espanhol Antoni Pigrau Solé, professor de direito internacional público; a jurista e ex-vice procuradora geral da República Deborah Duprat; o bispo da Diocese de Brejo (MA) Dom José Valdeci; a jornalista Eliane Brum; a socióloga venezuelana Rosa Acevedo Marin; a jornalista e pesquisadora uruguaia do Grupo ETC Silvia Ribeiro; a liderança indígena e coordenadora executiva da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) Sônia Guajajara; e a portuguesa Teresa Almeida Cravo, professora de relações internacionais. O jurista francês Philippe Texier também compõe o júri, e é o atual presidente do TPP. A vice-presidente é a deputada federal Luiza Erundina (PSOL).

As sentenças proferidas pelo júri do TPP não têm aplicação dentro do sistema jurídico formal do país em que é realizado. Um governante ou dirigente de uma empresa que sejam considerados culpados por um crime pelo júri do Tribunal não poderá ser preso, por exemplo.

Ainda assim, as sentenças proferidas pelo TPP são de extrema importância para os sistemas de justiça nacionais e internacionais, e para a opinião pública de uma forma geral, uma vez que expõem os vazios e limites do sistema internacional de proteção dos Direitos Humanos e, assim, pressiona para sua evolução.

“O que está na base do Tribunal do Cerrado é o entendimento de que os povos têm autonomia para construir historicamente suas formas próprias de relação com a vida, suas concepções de Justiça, e por isso seus direitos não são apenas aqueles reconhecidos pelo Estado e não podem depender somente da institucionalidade para serem legítimos. Nesse sentido, o Tribunal do Cerrado afirma, ao reconhecer os povos como construtores dos seus direitos, que a justiça brota da terra”, diz Valéria Pereira Santos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade membro da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

História do Tribunal

Entre 1966 e 1967, o filósofo britânico Bertrand Russell, juntamente com o filósofo francês Jean-Paul Sartre e o jurista italiano Lelio Basso, organizaram em Estocolmo (Suécia) e em Roskilde (Dinamarca) um evento que ficou conhecido como Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, ou Tribunal Russell, e que serviu para investigar os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Vietnã. Fizeram parte do tribunal o escritor Julio Cortázar, o ex-presidente do México Lázaro Cárdenas, a escritora e filósofa Simone de Beauvoir, e outras dezenas de personalidades de diferentes países e áreas de conhecimento.

Entre 1973 e 1976 foi realizado o Tribunal Russel II, que investigou as violações de direitos humanos nas ditaduras latino americanas, entre elas a do Brasil. O segundo tribunal teve sessões em Roma (Itália) e Bruxelas (Bélgica).

O Tribunal Permanente dos Povos (TPP) nasceu em Bolonha (Itália), em 1976, para dar continuidade aos tribunais Russell I e II. O jurista Lelio Basso, que foi membro e relator dos dois primeiros tribunais, propôs a transformação do evento em uma instituição permanente que pudesse ouvir e amplificar as vozes dos povos vítimas de violações dos direitos presentes na Declaração Universal dos Direitos dos Povos – também conhecida como Carta de Argel – publicada em 1976. A Declaração, elaborada em um momento histórico de prevalência de Estados de exceção na América Latina, reconhece os povos como titulares de direitos, e como sendo estes sempre os mais marginalizados no direito internacional.

Transformações e o crime de ecocídio

Desde seu início há 45 anos, o TPP já realizou cerca de 50 sessões internacionais que representam um verdadeiro testemunho dos temas mais prementes deste último meio século, acompanhando as transformações e lutas da era pós-colonial, o avanço do neocolonialismo econômico e a globalização. Nestas sessões, foram investigadas violações trabalhistas, megaempreendimentos, mudança climática, mineração transnacional, livre comércio, violações a direitos de jovens e crianças, guerras e genocídios.

Em seu documento mais recente, o Estatuto de 2018, o TPP atualiza a Carta de Argel como consequência dessas transformações e define o crime de Ecocídio como sendo “o dano grave, a destruição ou a perda de um ou mais ecossistemas em um território determinado, seja por causas humanas ou por outras causas, cujo impacto provoca uma severa diminuição dos benefícios ambientais dos quais gozavam os habitantes do referido território.”


CONFIRA A PROGRAMAÇÃO DO LANÇAMENTO

10/09/2021 (sexta-feira) – 9h às 11h30, horário de Brasília

PARTE UM: SAUDAÇÕES E BOAS-VINDAS 

Facilitação: Maryellen Crisóstomo, Coordenação Estadual de Comunidades Quilombolas do Tocantins (Coeqto) e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)

Expressão artística de abertura: Rosalva Gomes, Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)

Boas-vindas da Campanha em Defesa do Cerrado (autores da acusação): Valéria Pereira Santos, Comissão Pastoral da Terra e Campanha em Defesa do Cerrado

O Tribunal Permanente dos Povos e sua relação histórica com o Brasil: Luiza Erundina, deputada federal, vice-presidente do TPP 

Gianni Tognoni, Secretário-Geral do TPP 

PARTE DOIS: O ATO DE ACUSAÇÃO

A. Apresentação da acusação

Facilitação: Joice Bonfim, Campanha em Defesa do Cerrado

O contexto justificador da acusação: Carlos Walter Porto-Gonçalves, Professor Catedrático de Geografia da Universidade Federal Fluminense – UFF

Ecocídio contra o Cerrado e ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado: Diana Aguiar, Campanha em Defesa do Cerrado

B.  Intervenções de respaldo à acusação:

Vídeo das comunidades que apresentam seus casos à Sessão Cerrado

Dona Socorro Teixeira, Quebradeira de Coco, MIQCB 

PARTE TRÊS: RESPOSTA DO JÚRI TPP 

Facilitação: Simona Fraudatario, Secretária Geral do TPP

Intervenções

Philippe Texier, presidente do TPP

Rosa Acevedo Marín, Universidade Federal do Pará

Teresa Almeida Cravo, Universidade de Coimbra

Eliane Brum, jornalista e escritora

Deborah Duprat, ex-vice-Procuradora Geral da República do Brasil

Dom Valdeci Mendes, bispo, Maranhão, Brasil

Antoni Pigrau Solé, Universidade de Tarragona

Sonia Guajajara, líder indígena do Brasil (em vídeo)

Expressão artística de encerramento: Rosalva Gomes, MIQCB


 Fotos: Guilherme Cavalli/Cimi (topo) e Jaqueline Evangelista

Em celebração ao Dia Nacional do Cerrado, 1º Festival dos Povos do Cerrado ecoa manifestações artísticas e culturais de territórios tradicionais

O evento, que será realizado de maneira virtual, acontece um dia após o lançamento do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado e também dará início à campanha de financiamento coletivo Salve uma Nascente, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

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Na data dedicada à comemoração do Dia Nacional do Cerrado, 11 de setembro, acontece às 19h (horário de Brasília), o 1º Festival dos Povos do Cerrado, uma iniciativa que reúne toda a luta em defesa do Cerrado, promovida pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado junto à Articulação das CPT’s do Cerrado e organizações parceiras.

O Cerrado brasileiro só existe porque possui os seus povos, da mesma forma que esses povos só existem porque existe o Cerrado, por isso, o Festival dos Povos do Cerrado pretende ser um espaço de celebração a partir das manifestações artísticas e culturais dos diversos povos que existem e resistem em seus territórios de vida e de direito. Camponeses, indígenas, quilombolas, geraizeiros, fundo e fechos de pasto, apanhadores de flores sempre vivas, vazanteiros, quebradeiras de coco, raizeiras, pescadores artesanais e tantos outros povos cerradeiros se juntam para celebrar e defender a proteção do Cerrado como forma de garantia à vida. 

“O Festival vem trazer toda a cultura, o colorido, o canto e a ancestralidade, que somam-se a uma luta maior. A cultura, o nosso modo de viver, a nossa forma de festejar e a nossa maneira de apresentar para o mundo o que é a nossa diversidade também faz parte do conjunto de ações que compõem essa luta maior, a luta em defesa do Cerrado. Então, o objetivo principal do Festival é fazer essa comunicação tanto para dentro quanto pra fora”, anuncia Rosalva Silva Gomes , quebradeira de coco integrante do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que fará a mediação do evento. Ao lado de Rosalva, a condução do Festival também será feita por Antônio Baiano, artista popular de Goiás.

É na vibração de diferentes vozes e sons de tambores que os povos se unem e também fazem chamados para ações importantes para a manutenção do Cerrado e de seus modos de vida. Como parte da programação do Tribunal Permanente dos Povos (TPP), que será lançado no dia anterior, 10 de setembro, o evento busca reafirmar a resistência contra o crime de ecocídio em curso contra o Cerrado e a ameaça de genocídio cultural dos povos. O TPP apresentará 15 casos, distribuídos entre Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Piauí e Tocantins.

Além de trazer à tona o TPP, o Festival abre espaço para o lançamento oficial da Campanha de financiamento coletivo Salve Uma Nascente, um projeto idealizado pela Articulação das CPT’s do Cerrado que estabelece metas de arrecadação para recuperar cinco nascentes, em cinco estados. O trabalho de recuperação de nascentes do Cerrado é realizado pela CPT há mais de 10 anos junto às comunidades camponesas e tradicionais. 

O Cerrado, conhecido como ” a caixa d’água do Brasil”, equivale a mais de 1/3 do território brasileiro e abriga nascentes de nove das doze bacias hidrográficas brasileiras. 78% da área da bacia do Araguaia-Tocantins, 47% da área do São Francisco e 48% do Paraná/ Paraguai estão inseridas no Cerrado. Em sintonia com o objetivo da Campanha, o Festival chama a atenção para urgência de conservação e recuperação de nascentes e rios do bioma, assim como das experiências comunitárias de recuperação da vegetação natural e solo de áreas degradadas.

Para Leila Cristina, da Comissão Pastoral da Terra e integrante da coordenação executiva da Campanha em Defesa do Cerrado, apresentar a Campanha Salve uma Nascente ao público em meio ao Festival é uma maneira de aliar a celebração dos povos e culturas do Cerrado com a luta pela proteção das águas da região e de nosso país. “A Campanha Salve Uma Nascente é imprescindível para nosso presente e nosso futuro. Não só para os povos e comunidades que vivem no Cerrado, mas para todos nós, do campo e da cidade, pois sem água, não há vida”, enfatiza.

Música popular, cantos e danças tradicionais, rituais e poesias são algumas das atrações do Festival virtual. Na programação, estão confirmadas apresentações da Orquestra de Violeiros de Goiás, vídeos das Quebradeiras de Coco Babaçu integrantes do MIQCB, e também do grupo Encantadeiras. De Minas Gerais, o festival conta com a participação de Hilário Xakriabá e Povo Xakriabá, além de Braulino Caetano, geraizeiro do norte do estado, e exibição de vídeos com expressões culturais de povos que vivem na região. Além desses, apresentações de povos do Oeste da Bahia e clamores e poesias das juventudes do Cerrado farão parte da celebração.

Diante da impossibilidade de nos reunirmos presencialmente, ainda em razão da pandemia, o Festival será realizado por meio de uma live, que será transmitida pelos canais da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da CPT no Facebook e Youtube. 


Serviço:  1º Festival dos Povos do Cerrado

Data: 11 de setembro de 2021
Horário: 19h (horário de Brasília)
Onde: Facebook e Youtube da Comissão Pastoral da Terra (CPT): https://www.facebook.com/CPTNacional e https://www.youtube.com/c/Comiss%C3%A3oPastoraldaTerraCPTNacional 

Facebook e Youtube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado: https://www.facebook.com/CampanhaCerrado e https://www.youtube.com/channel/UCrQLPxOz4c-MVTIcTCBH_Mw 


Imprensa:

Amanda Costa – Assessora de Comunicação da CPT – (62) 99309-6781
Bruno Santiago – Assessor de Comunicação da Campanha em Defesa do Cerrado – (11) 99985-0378

Organizações pedem que governo baiano revogue autorização ilegal para desmatamento de 24.732 hectares de vegetação nativa no Oeste

Cinquenta e seis organizações da sociedade civil enviaram, na última quarta-feira (1/9), uma carta aberta ao Governador do Estado da Bahia, à Secretaria de Meio Ambiente e à Coordenação de Desenvolvimento Agrário exigindo a revogação da Autorização de Supressão de Vegetação (ASV) de 24.732 hectares de vegetação nativa, requerida pela empresa Delfin Rio S/A Crédito Imobiliário para o “Condomínio Cachoeira do Estrondo”, no município de Formosa do Rio Preto (BA). O caso figura como uma das maiores supressões em curso no Brasil. Conforme imagens obtidas da Plataforma MapBiomas, até o dia 17 de agosto já haviam sido desmatados cerca de 3 mil hectares.

LEIA A CARTA

Segundo a carta aberta, a ASV foi irregularmente autorizada pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA) através da Portaria nº 18.440 do dia 22 de maio de 2019. A carta alerta para o fato de que o empreendimento nunca conseguiu demonstrar a regularidade fundiária de sua posse e sobrepõe, ilegalmente, a sua Reserva Legal obrigatória aos territórios tradicionais dos geraizeiros – descendentes de indígenas e quilombolas, que vivem de forma tradicional e sustentável no Cerrado. “A empresa comete um caso típico de grilagem verde, usurpando domínios alheios para fingir a regularidade ambiental de determinado imóvel”, diz trecho da carta. O documento destaca que foram ignoradas as decisões judiciais que definem a posse das comunidades na área objeto da ASV. As comunidades nem sequer foram consultados. Tampouco houve consultas nem ao Comitê Gestor da Unidade Estadual de Conservação da “APA Rio Preto”, nem à Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), órgão estadual responsável pela regularização fundiária. 

Os impactos da ASV em questão vêm sendo piorados por duas supressões autorizadas pelo INEMA, concedidas às glebas Agropecuária Canadá S/A e Agropecuária Fronteira S/A. As duas áreas integram o Condomínio Estrondo. Executaram o desmate de 2500 hectares nas cabeceiras do Rio Preto, onde o rio se forma. Pelas previsões das comunidades tradicionais da região, as supressões provocarão desmoronamentos das serras circundantes e o sucessivo aterramento das nascentes do rio. 

A expectativa é que o INEMA revogue imediatamente a ASV, faça uma visita in loco para registrar a denúncia e notifique a empresa a interromper imediatamente o desmatamento iniciado, sem prejuízo da determinação de reparações ambientais e aplicação de novas multas. “A execução desse desmatamento, na forma como foi autorizado, além das consequências devastadoras para conservação da biodiversidade, provisão de água e recarga de aquífero, manutenção dos meios de vida das populações geraizeiras, certamente compromete a idoneidade do processo de concessão de ASV no Estado da Bahia”, concluem as organizações.

ESTRONDO

Considerada pelo Livro Branco da Grilagem (Incra/1999) um dos maiores casos de grilagem no Brasil, o latifúndio registra em seu histórico o descumprimento de leis e decisões judiciais, autuação por desmatamento e trabalho análogo ao escravo, atentado com arma de fogo contra geraizeiros por parte de funcionários de segurança privada, além de outras violências e violações de direitos individuais e coletivos, como ameaças, agressões e sequestro relâmpago de lideranças comunitárias. O empreendimento, constituído por 22 empresas produtoras de soja, algodão e milho para exportação, possui silos das empresas Bunge e Cargill e já ocupa 315 mil hectares (área três vezes o tamanho da cidade de Nova York). As terras estão localizadas às margens do Rio Preto, na divisa entre Bahia e Tocantins, região que integra a fronteira agrícola do MATOPIBA.

Juízes do Maranhão violam decisões do STF e autorizam ações de despejo coletivo em plena pandemia

Em menos de três meses, em plena pandemia de Covid-19 e violando duas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que suspendem o cumprimento de ações de reintegração de posse coletivas durante a pandemia ou as condicionam a normas específicas, juízes de direito do Maranhão autorizaram pelo menos quatro despejos.

Decisões em São Luís contra coletividades urbanas

Duas dessas autorizações foram dadas pela 10ª. Vara Cível de São Luís. Uma delas, decisão liminar proferida pelo juiz Marcelo Elias Oka em 17.02.2021, teve mandado judicial expedido em 07.06.2021, cumprido no dia 16.08.2021 contra a comunidade Vila Balneária Jardim Paulista, formada por mais de 250 famílias em área urbana, no bairro Olho D’Água (processo no 0823016-93.2020.8.10.0001). As famílias não tinham para onde ir e não foram prontamente realocadas pelo poder público, como determina uma Medida Cautelar do Supremo Tribunal Federal na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF no 828-DF. A ADPF é uma medida utilizada para evitar o descumprimento de preceitos fundamentais da Constituição.

A Medida Cautelar na ADPF no 828 MC-DF, concedida pelo STF em 03.06.2021, determinou a suspensão por 06 (meses), renováveis, de despejos envolvendo coletividades urbanas e rurais com ocupações anteriores a 20.03.2020 (início da vigência do estado de calamidade pública no país). As ocupações posteriores a essa data só podem ser removidas se as famílias forem imediatamente transferidas para abrigos ou outras formas de moradia com garantias sanitárias. Além disso, ficaram suspensos despejos liminares individuais de locatários em situação de vulnerabilidade.

Porém, conforme informou a Defensoria Pública do Estado no processo em 17.08.2021, “NÃO houve a realocação das pessoas vulneráveis para abrigos públicos ou que de outra forma se assegure a elas moradia adequada, conforme expressamente determinado por Vossa Excelência nas decisões de ID nº 47303731 e 50640410 e, também, pelo STF na ADPF nº 828/DF. (…) Inúmeras pessoas que ocupavam o terreno tiveram que permanecer do lado de fora do imóvel reintegrado, na calçada da rua lateral, juntamente com seus móveis e eletrodomésticos, sem local para abrigo e em situação de total desamparo”.

No dia 19.08.2021, o Núcleo de Moradia e Defesa Fundiária da Defensoria Pública do Maranhão (DPE-MA) encaminhou ao presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Yuri Costa, um ofício comunicando graves violações de direitos humanos no caso do despejo das 250 famílias do Olho D’Água e também a violação de resoluções do próprio CNDH e a cautelar do STF.

O mesmo juízo da 10ª Vara Cível de São Luís determinou, em 30.06.2021, o despejo de uma dezena de famílias que ocupam desde 2019 um casarão localizado na rua Sete de Setembro, no Centro Histórico de São Luís (processo no 0802158-07.2021.8.10.0001). As famílias ainda permanecem no local pela atuação do Núcleo de Moradia da Defensoria Pública do Estado (DPE-MA).

Ambas decisões judiciais de despejo coletivo foram proferidas pelo juiz de direito, Marcelo Elias Oka, que responde pela 10ª Vara Cível da Capital.

O juiz Marcelo Elias Oka é o mesmo que determinou o cumprimento da ação de reintegração de posse contra a comunidade tradicional Cajueiro, na zona rural de São Luís, que terminou em grave violência numa operação surpresa contra os moradores do território em 12 de agosto de 2019. Diversas casas foram derrubadas sem que as famílias soubessem quando a ação aconteceria. Além disso, a Polícia Militar do Maranhão atacou os moradores com bombas de efeito moral e spray de pimenta.

Despejo em Tutóia de comunidade de pescadores

Outra autorização para cumprimento de reintegração de posse contra coletividade foi assinada pela juíza Martha Dayanne Schiemann, da Vara Única da Comarca de Tutóia em 10.06.2021 (processo no 0800511-54.2021.8.10.0137). Na manhã de 19.08.2021, um aparato militar envolvendo dezenas de policiais, tratores e até helicóptero estava pronto para despejar as mais de 100 famílias que vivem na comunidade pesqueira Arpoador, em Tutóia, há cerca de um século. Os moradores fizeram uma barreira humana para impedir a entrada da polícia no território e conseguiram evitar o despejo. A operação desrespeitou a Medida Cautelar concedida na ADPF 828 pelo STF.

Segundo informações do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), a área de 1.890 hectares ocupada tradicionalmente pelos pescadores está sendo cobiçada pelo empreendimento de energia eólica da Vita Energias Renováveis Ltda. “Em decisão liminar, a juíza da comarca de Tutóia deu reintegração de posse para a empresa. A decisão judicial alega que a empresa tem um contrato de aluguel da área por 30 anos, mas ignora a permanência secular da comunidade no local”, afirma a CPP.

Decisão contra quilombo em Cantanhede

Uma quarta decisão de despejo coletivo foi concedida em 28.05.2021, pelo juiz de direito Paulo do Nascimento Junior, da comarca de Cantanhede, contra famílias remanescentes de quilombo do povoado Oiteiro (processo no 0000118-52.2015.8.10.0080), posteriormente à Medida Cautelar ADPF 742-DF, concedida pelo STF em 24.02.2021, que determinou a suspensão de todos os despejos de comunidades quilombolas durante a pandemia.

Em 31.05.2021, o Comando da Polícia Militar daquele município recebeu comunicação do juízo para disponibilização de efetivo policial para Cumprimento Provisório de Sentença, no prazo de 15 (quinze) dias úteis. O 23º Batalhão da PMMA já havia preparado o Estudo de Situação para efetivação da operação, que ainda não foi cumprida. A Comissão Pastoral da Terra peticionou nos autos e oficiou a Corregedoria-Geral de Justiça do TJMA sobre o caso, pedindo suspensão do cumprimento da decisão.

No caso de Cantanhede, a comunidade quilombola tem processo administrativo de titulação quilombola junto ao INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). 

CPT MA acionou Corregedoria-Geral de Justiça do TJMA

Apesar das Medidas Cautelares em ADPF’s terem eficácia em todo o país, aplicando-se nos âmbitos judicial e administrativo federal e estadual, as decisões judiciais mencionadas nesse texto e assinadas pelos juízes Marcelo Elias Oka, da 10ª Vara Cível da Comarca de São Luís, Paulo do Nascimento Junior, da Vara Única da Comarca de Cantanhede, e pela juíza Martha Dayanne Schiemann, da Vara Única da Comarca de Tutóia, aconteceram com as duas medidas cautelares do STF já em vigor.

Por isso, no último dia 08.07.2021, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Maranhão enviou um ofício ao Corregedor-Geral do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), desembargador Paulo Velten Pereira, solicitando que oficiasse os juízes do Maranhão sobre o teor das ADPF’s nos 742 e 828. Em 29.07.2021, o Desembargador Corregedor informou à CPT MA que havia oficiado a Vara de Conflitos Agrários do Maranhão, recentemente implantada.

A Comissão Pastoral da Terra entende que a resposta da Corregedoria de Justiça do TJ MA contempla apenas parcialmente o pedido da entidade, pois há decisões contra comunidades quilombolas e coletividades urbanas e rurais sendo proferidas em diversas varas e outras comarcas do Estado, como os casos narrados demonstram.

“Apesar de a Vara Agrária ter sido instalada esse ano, muitas comarcas ainda não enviaram os processos para lá e estão tomando decisões de despejo sem observância das Medidas Cautelares proferidas pelo Supremo Tribunal Federal que protegem coletividades no campo e nas áreas urbanas, em razão da pandemia da Covid-19”, explica o advogado Rafael Silva, assessor jurídico da CPT Maranhão. “Além disso, os conflitos fundiários urbanos envolvendo coletividades na luta por moradia não são de competência da Vara Agrária, mas também estão previstos na suspensão determinada pela Medida Cautelar na ADPF 742 do Supremo. O Tribunal de Justiça do Maranhão precisa alertar os juízes de todo o Estado para observarem as decisões recentes do STF nas ADPF’s 742 e 828, sob pena de continuarem surgindo decisões judiciais e operações de despejo que violem a proteção de preceitos fundamentais nesse período de pandemia”, finaliza o assessor jurídico.

Agosto indígena: o futuro é originário

O mês de agosto de 2021 é crucial para o futuro do Brasil. Não um futuro distante, desses de ficção científica, mas um futuro real, tão básico e imediato quanto acordar um dia após outro e ter a certeza de que haverá oxigênio para respirar e água doce para beber.

Amanhã, dia 25 de agosto, deve acontecer o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da ação de reintegração de posse movida pelo governo de Santa Catarina contra o povo Xokleng. A ação, relativa a uma área pertencente à Terra Indígena Ibirama-Laklanõ ocupada pelos Xokleng e também pelos povos Guarani e Kaingang, leva em conta a tese do marco temporal, que está sendo discutida atualmente, em âmbito legal, a partir do Projeto de Lei (PL) 490.

O PL 490 é de 2007, de autoria do então deputado federal Homero Pereira, do PR de Mato Grosso. Homero morreu em 2013, mas seu PL foi desengavetado na gestão Bolsonaro. O texto atual é do deputado federal Arthur Maia, do DEM da Bahia.

Entre outros ataques aos direitos dos indígenas, o projeto institui o chamado marco temporal, que determina que só poderão ser consideradas terras indígenas aquelas que já estavam em posse dos povos no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. As novas demarcações, segundo o projeto, só poderão ser feitas com a comprovação da posse, o que hoje não é necessário.

O direito à terra ocupada pelos povos indígenas é um direito originário, ou seja: é anterior à própria criação do Estado e das leis pelo branco. Esses povos já estavam aqui quando os portugueses invadiram Pindorama e inventaram o que hoje se conhece por Brasil.

Além de instituir o marco temporal, o PL também flexibiliza o contato com povos isolados, proíbe a ampliação de terras já demarcadas e permite a exploração das terras indígenas por empreendimentos hídricos, energéticos, pela mineração e pelo garimpo.

O projeto foi aprovado em junho por 41 votos a 20 na Comissão de Constituição e Justiça, e segue para o plenário da Câmara dos Deputados, onde precisa ser aprovado antes de ir para o Senado.

PL 490 e o caso Xokleng

A Terra Indígena Ibirama-Laklanõ ocupada pelos Xokleng foi demarcada em 1996. Os Xokleng afirmam que foram perseguidos e mortos durante décadas pelos brancos, e por isso tiveram que sair do território que hoje tentam retomar.

Como eles, muitos outros povos originários foram e continuam sendo perseguidos. Para sobreviver, são obrigados, desde 1500, a deixar seus territórios tradicionais, a se fragmentar, a se exilar e se esconder, a deixar de falar a língua de seu povo, de praticar seus rituais espirituais, de plantar e colher, de utilizar suas pinturas corporais e mesmo de se identificar publicamente enquanto indígenas. 

A histórica expansão da fronteira pelo agronegócio expulsou e deslocou muitos povos indígenas de seus territórios para implantar monoculturas no Cerrado em diferentes estados. O marco temporal atualiza as perseguições coloniais aos indígenas, tornando-as uma sentença de não retorno aos territórios roubados em outros tempos e anistiando os crimes de esbulho cometidos contra esses povos. 

Assim tem sido, por exemplo, com o povo Avá-Canoeiro nos seus históricos trânsitos para garantir sobrevivência entre Goiás e Tocantins, e com os Guarani e Kaiowá e os Kinikinau fazendo retomadas de seus territórios ancestrais roubados no Mato Grosso do Sul.

“Em um tempo mais recente, da passagem do século XIX ao XX, e, de forma mais sistemática, desde os anos 1930 e 40, os povos indígenas das diversas paisagens do Cerrado vêm seguindo suas longas rotas de trânsito e constituição territorial de maneira a (sobre)viver diante da violenta expansão dos cercamentos das terras férteis e águas abundantes que habitavam e ajudaram a construir, como nas planícies e vales do Araguaia, ou nas imensas matas de galeria do alto rio Tocantins. Esse é também o caso das terras pretas no Mato Grosso, no Maranhão e em tantas outras áreas dessa imensa região, tida como o epicentro do agronegócio do Brasil, mas que, na verdade, é o coração pulsante de tantas culturas indígenas. Muitas áreas, que se transformaram nos latifúndios do Centro-Sul do país e, hoje, do chamado Matopiba, se interpuseram e deslocaram tantos povos indígenas, aproveitando-se da biodiversidade e da riqueza da terra que eles ajudaram a fecundar”, escrevem Marcela Vecchione, Antonio Verissimo da Conceição, Laudovina Aparecida Pereira e Roberto Antonio Liebgott no artigo “Povos Indígenas do Cerrado: caminhando e cultivando r-existências diversas”.

O êxito da tese do marco temporal tornaria as históricas violências genocidas contra os povos originários um fato consumado. E em uma região tão devastada como o Cerrado, a tese do marco temporal é especialmente perniciosa.

Em 2019, o STF deu status de repercussão geral ao processo da ação de reintegração de posse movida pelo governo de Santa Catarina contra o povo Xokleng. Isso significa que o que for definido no julgamento de 25 de agosto servirá de diretriz para o governo federal e todas as instâncias da justiça em procedimentos de demarcação de terras indígenas.

Portanto, uma decisão favorável ao povo Xokleng poderá ajudar a barrar o desmonte pretendido pelo atual governo federal com o PL 490. Até este momento, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais de 160 mil pessoas assinaram uma carta aberta ao STF manifestando sua posição contrária ao marco temporal, e pedindo que a Corte proteja os direitos constitucionais dos povos indígenas.

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Foto: Edson Prudêncio/APA-TO

O tempo como cerca

A tese do marco temporal é uma “guerra jurídica em torno do tempo”, defendem os autores do artigo “Povos Indígenas do Cerrado: caminhando e cultivando r-existências diversas”. Esta guerra reproduz as estratégias coloniais de expropriação e apagamento dos povos originários usadas pelos primeiros invasores europeus.

Em 1500, como não podiam provar sua posse sobre as terras que acabavam de tomar – pelo simples fato de que aquelas terras já estavam ocupadas pelos povos originários –, os invasores portugueses se anteciparam a registrá-las em papel, prática estranha aos habitantes daquele lugar. A primeira grilagem das terras dos povos originários está documentada na carta datada de 1º. de maio de 1500 pelo escrivão Pero Vaz de Caminha, na qual ele noticia ao rei de Portugal “o achamento desta Vossa terra nova”. Com o documento fraudulento, vieram também a escravização dos originários, os assassinatos, os estupros, os genocídios dos povos, as cercas, as leis e mais documentos escritos ao longo dos séculos dando outros nomes aos saques e violências para legitimá-los – sesmarias, expedições, aculturamento, integração, progresso, desenvolvimento.

O marco temporal, esta guerra jurídica em torno do tempo que se quer utilizar como uma nova cerca por cima das outras tantas já instaladas pelos descendentes dos primeiros invasores, parte da mesma estratégia de 521 anos atrás: escolhe-se um elemento estranho à existência dos povos originários e transforma-se esse elemento em único e verdadeiro critério a determinar quem é o dono da terra.

O tempo é uma invenção. O que existe, de fato, é o movimento. O tempo é a tentativa de domesticação e encapsulamento do movimento. E é nesta cápsula diminuta, datada de 5 de outubro de 1988, que os defensores do marco temporal querem confinar movimentos contínuos e imemoriais dos povos originários.

Uma luta do mundo

Por isso, o mês de agosto de 2021 é crucial para o futuro do Brasil, e também do mundo. Um futuro tão básico e imediato quanto acordar um dia após outro e ter a certeza de que oxigênio, água e alimento não nos faltarão. É tarefa do mundo – principalmente dos não-indígenas – defender a permanência dos povos originários em suas terras ancestrais.

E o que essa defesa tem a ver com oxigênio, água e alimento?

Tudo.

Basta dizer que há quase dois anos vivemos imersas/os na pandemia de um vírus que já matou mais de quatro milhões de pessoas em todo o mundo, e que na raiz dessa pandemia está, entre outros fatores, o desequilíbrio causado pelos desmatamentos que favorecem o agronegócio, a monocultura, a grilagem, a exploração mineral e o latifúndio. Historicamente, onde há devastação ambiental, há expulsão e morte dos povos originários e de comunidades quilombolas e tradicionais. São os modos de vida e relação de proteção e co-dependência desses povos para com os demais seres vivos que garantem, desde sempre, as matérias-primas básicas da vida humana: oxigênio, água doce e alimento.

A preservação do Cerrado pelos povos originários e tradicionais têm especial relevância para esse futuro básico e imediato. Segunda maior região ecológica da América do Sul e savana mais biodiversa do planeta, o Cerrado é o berço das águas e de muitos povos e culturas. No entanto, mais da metade de sua cobertura vegetal foi devastada para dar lugar, sobretudo, a monocultivos e pastagens para o agronegócio. Há um ecocídio em curso contra o Cerrado, e a iminência da extinção desse bioma nos próximos anos. Sem o Cerrado não há água; sem água não há vida.

E como se não fosse o bastante, ainda há a dimensão histórica que coloca sobre cada não-indígena o dever de defender os direitos dos povos originários. É preciso reconhecer que o Brasil é uma invenção colonial, assentada no saque e na violência perpetrados pelos invasores europeus – e continuados pelos seus descendentes brasileiros – contra os povos originários de Pindorama.

O mês de agosto nos abre uma oportunidade: a de que o Brasil comece a devolver a Pindorama o que vem lhe roubando há 521 anos.


 Foto do topo: Aktxawã Junior / Acampamento Luta pela Vida

Lançamento: Animação e Cartilha educativa abordam direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado

Materiais educativos podem ser baixados gratuitamente através dos canais da Campanha em Defesa do Cerrado

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Como organizar e mobilizar politicamente a nossa comunidade? Como acessar os direitos territoriais que deveriam garantir a permanência dos povos indígenas e das comunidades tradicionais em seus territórios de vida? Essas e outras questões norteiam o conteúdo da Cartilha educativa e da animação “Nosso direito de viver: Terra e território”, lançadas pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Actionaid Brasil neste mês.

“A terra não tem preço. A terra é nosso diamante, é vida, é nosso futuro e é tudo para nós!”. Este é o sentimento partilhado por Valdinez Pereira, agricultora familiar, que participou das oficinas sobre direitos territoriais e reforma agrária em outubro e novembro de 2020. O conteúdo compartilhado nestes espaços formativos, que reuniram participantes de comunidades tradicionais do Tocantins, Piauí e Maranhão, inspirou a produção dos materiais formativos.

Sistematização gráfica da segunda oficina de direitos territoriais do projeto, que inspirou a produção dos materiais educativos, realizada em novembro de 2020

A primeira animação da série nos convida a olhar para a história da luta pela terra no Brasil e nos ensina que “direitos conquistados não necessariamente são direitos garantidos”. Já o segundo episódio apresenta ferramentas concretas de organização e mobilização que podem ajudar estes povos na luta pelos seus direitos territoriais. 

Sobre o formato do material, Emmanuel Ponte, assessor da Actionaid Brasil, nos explica:

“Para enfrentar os desafios da compreensão do ‘juridiquês’ optamos pela linguagem audiovisual e gráfica, por um vídeo que nos conta uma história e apresenta de maneira didática ferramentas de organização e instrumentos legais que devem ser compreendidos não só pelas comunidades que vivem nos territórios, mas por todos nós, para colaborar com a defesa da sociobiodiversidade e dos direitos dos povos do Cerrado”, destaca o assessor.

Incidência para a garantia de direitos

Uma das ferramentas apresentadas no vídeo, mas que também foi utilizada durante as oficinas, é a “Roda da Incidência”, que apresenta um passo-a-passo que visa apoiar processos de organização comunitária e ações de incidência para a proteção e garantia de direitos territoriais. A Cartilha educativa, lançada em formato digital e que conta com a organização metodológica da Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR), detalha e apresenta de maneira infográfica esse instrumento.

Roda de incidência sistematizada graficamente durante oficina de direitos territoriais do projeto, realizada em novembro de 2020

O instrumento formativo é uma iniciativa do Projeto “Articulação em rede e participação social para a conservação do Cerrado”, realizado pela ActionAid e Campanha em Defesa do Cerrado com o apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), e parceria da Comissão Pastoral da Terra, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN) e Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR).

O material impresso será enviado para comunidades e entidades parceiras no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Você pode receber a Cartilha em formato digital caso pertença a uma comunidade tradicional, povo indígena ou trabalhe em alguma organização de assessoria deste segmento. Faça contato conosco através do e-mail comunicacerrado@gmail.com para saber mais.

Assista a animação:


 Animação e ilustração: Estúdio Animadíssimos

 

Procurador-Geral do Ministério Público sobrevoa região no Norte de Minas, onde chineses pretendem minerar

O Procurador-Geral de Minas Gerais, Sr. Jarbas Soares Júnior, cumprirá agenda na região Norte de Minas hoje, 08 de julho. A justificativa, segundo nota divulgada pelo Gabinete do procurador, é discutir o fim dos lixões na região. No entanto, a maior parte da agenda do Procurador-Geral na região será destinada a tratar de questões relacionadas ao Bloco 8, megaprojeto de mineração que a empresa Sul Americana de Metais S/A (SAM) pretende instalar dentro do território das Comunidades Tradicionais Geraizeiras dos municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho e Josenópolis (MG).

No dia 24 de maio de 2021, o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) assinou com a SAM um Termo de Compromisso, sem qualquer participação ou consulta prévia às comunidades atingidas. Termo este que as afeta diretamente na medida em que obriga a empresa a fazer reuniões com as comunidades. Após assinatura do Termo e respaldada por ele, a SAM retornou ao território e tem realizado visitas domiciliares em plena pandemia, violando flagrantemente não só os dispositivos legais e as recomendações relativas às medidas de proteção aos povos e comunidades tradicionais da COVID-19, mas o próprio isolamento social que as comunidades vêm fazendo para se protegerem da pandemia.

Após mobilização das comunidades e a publicação de nota contestando o acordo, o MP-MG se reuniu com as comunidades e propôs uma visita ao território, o que ocorreria precisamente no dia 08 de julho de 2021. A visita fatalmente acarretaria em uma grande presença de pessoas de fora no território (promotores, políticos, agentes de segurança, imprensa etc.) de forma que as comunidades, receosas em relação à pandemia que já contaminou mais de 800 pessoas no território e que está em uma das fases mais críticas, solicitaram, através de ofício enviado ao órgão, a remarcação da visita para setembro de 2021, quando o avanço da vacinação permitiria maior segurança ao povo tradicional geraizeiro.

No mesmo ofício foi solicitada atenção e celeridade à regularização fundiária do território, que está em curso no Governo Estadual, mas tem sido atropelada pelo processo de licenciamento do Projeto Bloco 8 e a suspensão das atividades da Sul Americana de Metais no território em função da flagrante violação das medidas sanitárias de enfrentamento à pandemia. Até o momento não obtiveram resposta oficial sobre essas solicitações apresentadas.

Diante do exposto, as comunidades reafirmam que desejam seu território e chão sagrado, livres de atividades minerárias e que o MP cumpra seu papel na defesa das mesmas e não se curve diante da SAM, o que extrapola sua competência. Que esse Termo, construído sem a participação das comunidades seja revogado!

As comunidades seguem mobilizadas na luta e no enfrentamento contra a Mineração.

Mineração Aqui Não!

8 de julho de 2021, Vale das Cancelas, distrito do Município de Grão Mogol, Norte de Minas Gerais.

Comunidades Tradicionais Geraizeiras do Vale das Cancelas


 Foto: Comunidades Tradicionais Geraizeiras do Vale das Cancelas

Porto São Luís não sai do papel: suspeita de grilagem de terras é um dos principais entraves ao empreendimento

Notícia publicada em 30 de junho pelo jornal Valor Econômico anunciava que o porto privado do grupo transnacional chinês CCCC (China Communications Construction Company) e da TUP São Luís – antiga WPR São Luís Gestão de Portos e Terminais S/A, do grupo WTorre –, não saiu do papel mais de três anos depois de ter sua pedra fundamental lançada. Orçada em R$ 2 bilhões há três anos e prevista para ser construída sobre o Território Tradicional Cajueiro, na zona rural de São Luís, Maranhão, a obra nunca levantou o porto, mas já colocou abaixo dezenas de casas de moradores do território, provocou deslocamentos forçados das famílias, matou centenas de árvores, animais, destruiu cursos d’água e empobreceu os moradores que viviam da pesca, da agricultura e dos frutos das árvores do Cajueiro.

Na reportagem, um dos principais motivos apresentados para a estagnação do empreendimento foi a falta de um financiamento de US$ 500 milhões pleiteado, mas não conseguido, pela CCCC, sócia majoritária do empreendimento, com 51% do negócio. O diretor-executivo da empresa no Brasil afirmou ao Valor que também estão enfrentando “uma série de questões fundiárias que atrapalham o projeto”, mas que, mesmo assim, estão avançando.

Apesar de não dar detalhes sobre as “questões fundiárias que atrapalham o projeto”, já é fato conhecido e reportado por diferentes veículos de imprensa que a suspeita de grilagem de terras do Cajueiro é um dos principais entraves à construção do porto.

Título condominial registrado pelo Estado

O território tradicional Cajueiro possui um título condominial de 600 hectares registrado em 1998 no Cartório de Registro de Imóveis pelo Iterma (Instituto de Terras do Maranhão). Os 200 hectares dos quais o TUP Porto São Luís diz ser dono estão sobrepostos a um projeto de assentamento do Governo do Estado. Há, portanto, fortes indícios de grilagem de terras públicas.

Reportagem da Agência Pública de setembro de 2019 afirma que a WTorre passou a se apresentar como proprietária de parte da área do Cajueiro em 2014, após ter comprado as terras da empresa BC3 Hub Multimodal Industrial. “No entanto, a venda é investigada por suspeitas de grilagem e outras irregularidades pelo Ministério Público do Maranhão (MPMA), em um inquérito civil e um policial”, diz o texto.

Em reportagem de fevereiro de 2020, o Intercept Brasil afirma que “a WPR – hoje TUP – tentou impedir a realização da perícia nos documentos, alegando que o Judiciário gastaria tempo com um processo ‘inútil’”. O pedido da companhia, segundo a matéria, foi negado pelo Tribunal de Justiça, e a investigação criminal está sob sigilo.

Além das suspeitas de grilagem, o empreendimento da CCCC está marcado também por uma série de episódios violentos de despejos ilegais – em 2014 e 2019 –, de ataques da polícia militar do Maranhão contra moradores, de assédio e ameaças de seguranças privados da empresa contra famílias do território, de acosso contra idosos, decretos inválidos, licenças ambientais irregulares e outras violências protagonizadas por agentes privados e públicos. É precisamente esse histórico de violações socioambientais que engessa a celeridade esperada nas grandes negociações e que afasta investidores.


Fonte / Imagens: Coletivo de Comunicação em apoio ao Cajueiro

Foto em destaque: Ingrid Barros

Lançamento da Cartilha “Mulheres do Cerrado: construindo resistências”, traz a voz e a mística das mulheres cerradeiras 

Cartilha reúne os saberes tradicionais e textos sobre o enfrentamento ao sistema capitalista, racista e patriarcal a partir das vozes de mulheres do cerrado

A cartilha “Mulheres do Cerrado: construindo resistências” é parte de um conjunto de materiais lançados como iniciativa da Articulação de Mulheres do Cerrado. Esses materiais reúnem saberes tradicionais, conteúdos formativos e místicos a partir das vozes de mulheres cerradeiras, que são múltiplas e plurais. 

Nesta semana, entre os dias 29 de junho e 02 de julho, aconteceu a “Semana das Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”, evento virtual realizado pela Articulação das Mulheres do Cerrado com o apoio de Misereor e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). No dia 29 foi lançado o vídeo-manifesto da Articulação e nos dias 01 de julho aconteceu a roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura” e hoje, 02 de julho, lançamento público da Cartilha.  

A Articulação das Mulheres do Cerrado surge em junho de 2019, com a realização do I Encontro de Mulheres do Cerrado e desde então vem se consolidando como um espaço de auto-organização das mulheres no âmbito da Campanha em Defesa do Cerrado. Nesse curto período de existência muito já foi construído, alimentado e fortalecido. 

Em novembro de 2020 foi realizado o II Encontro de Mulheres do Cerrado: construindo resistências. Com coragem e teimosia mais de 100 mulheres estiveram reunidas virtualmente, enfrentando os desafios impostos pela pandemia, entre eles o da exclusão digital.

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Esta cartilha é um dos muitos produtos desse esforço coletivo de entender a realidade vivida, buscando transformá-la.  Nela estão registradas, com força e beleza, muitas das falas das mulheres, e muitas das referências trazidas por elas, sobre o sistema capitalista, sobre o racismo e o etnocentrismo e sobre o patriarcado, mostrando como esses sistemas, operando ao mesmo tempo, atravessam nossos corpos e os territórios.

A partir desse material também é possível refletir como tudo isso se manifesta nesse momento de pandemia em que as mulheres são tão fortemente impactadas e como o sistema capitalista é responsável pelo surgimento das pandemias.

Mas, como não poderia deixar de ser, também estão grafadas nessas páginas algumas das muitas expressões de resistência das mulheres do cerrado que, mesmo em um período de tantos desmandos, tantos retrocessos promovidos pelo projeto genocida em curso, não esmorecem.

Assim, com a força das suas ancestrais, as mulheres do cerrado seguem enfrentando o sistema capitalista-racista-patriarcal a partir da vida cotidiana, da produção de conhecimento, das lutas travadas nos seus territórios. Seguem construindo resistências pois, como dito na carta do II Encontro: “Não existem territórios livres com corpos presos!”

FAÇA O DOWNLOAD DA CARTILHA “MULHERES DO CERRADO: CONSTRUINDO RESISTÊNCIAS”: 

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR


Ilustrações e imagens de divulgação: Sarah Pinheiro

Ilustração da capa: Zica Pires

“O Cerrado brasileiro tem cara de mulher”: Articulação de Mulheres do Cerrado realiza roda de conversa virtual e lança materiais educativos

Vinculada à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Articulação disponibiliza Cartilha e divulga vídeo-manifesto entre os dias 29 de junho e 02 de julho

Nesta semana, entre os dias 29 de junho e 02 de julho, acontece a “Semana das Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”, evento virtual realizado pela Articulação das Mulheres do Cerrado com o apoio de Misereor e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). No dia 29 foi lançado o vídeo-manifesto da Articulação e nos dias 01 e 02 de julho acontece a roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura” e o lançamento público da Cartilha “Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”, respectivamente.

“As mulheres do Cerrado estão em pé e em luta”. Essa afirmação, vocalizada no vídeo-manifesto das Mulheres do Cerrado, nos ajuda a começar a compreender as motivações para a realização das atividades da “Semana das Mulheres do Cerrado”. O coletivo de mulheres denuncia o avanço do agronegócio, o aumento da violência e da destruição dos territórios do Cerrado, causada pelo desmatamento, incêndios criminosos e poluição dos rios e nascentes da região. 

Com a pandemia da Covid-19, os conflitos no campo se intensificaram, oriundos de processos de grilagem de terras e da não regularização fundiária dos territórios de vida e de direito dos povos indígenas e de comunidades tradicionais da região. De acordo com a publicação Conflitos no Campo Brasil 2020, lançada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 2019 e 2020 houve um crescimento de 25,08% de conflitos por terra no Brasil.

Nos últimos dez anos (2011-2020), a CPT registrou 77 tentativas e 37 assassinatos de mulheres em conflitos fundiários e socioambientais. Eram trabalhadoras rurais sem-terra, quilombolas e das etnias originárias, em sua maioria. O número de ameaças de morte também é alarmante: neste mesmo período, de 2011 a 2020, 446 mulheres foram ameaçadas de morte, com posseiras (90), quilombolas (60) e trabalhadoras sem-terra (49), reunindo o maior contingente de ameaçadas.

Em seu manifesto lançado no dia 8 de março de 2021, a Articulação das Mulheres do Cerrado denuncia também as práticas machistas e patriarcais perpetuadas por empresas e pelo Estado brasileiro, que corroboram para o aumento do feminicídio no país. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no Brasil uma mulher é agredida fisicamente a cada dois minutos, tendo sido registradas 266.310 ocorrências de lesão corporal em decorrência de violência doméstica e 1.326 registros de feminicídio, em 2019. 

Leila Lemes, agente da Comissão Pastoral da Terra em Goiás e integrante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, explica que os materiais lançados nesta semana são frutos de um processo de construção coletiva iniciado no primeiro e no segundo encontro de Mulheres do Cerrado, realizados em 2019 e 2020. “São conteúdos que reúnem saberes dessas mulheres, que vivem nas comunidades tradicionais, e que enfrentam todos os dias o sistema capitalista, racista, machista e patriarcal, mas, com a força de suas ancestrais, elas se apoiam para lutar e conquistar a liberdade e igualdade que almejamos”, enfatiza Lemes.

Sobre a roda de conversa virtual, que será realizada nesta quinta-feira, dia 01 de julho, às 18h00 (horário de Brasília), Leila destaca que será um espaço de partilha das resistências, de união, de autonomia e de solidariedade das mulheres. “Mesmo no espaço virtual, com a fala das mulheres nos juntamos, nos identificamos e nos fortalecemos, o que é essencial nestes tempos tão desafiadores que vivemos. Sabemos que as mulheres são as mais impactadas na conjuntura atual”, finaliza a agente da Pastoral.

A Articulação das Mulheres do Cerrado surgiu como um espaço de auto-organização das mulheres no âmbito da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado em 2019, durante a realização do I Encontro Nacional das Mulheres do Cerrado. De lá para cá, o coletivo se reúne periodicamente para organização de ações coletivas e divulgação de materiais formativos e políticos sobre as lutas e resistências das mulheres cerradeiras.


Serviço:

Semana das Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências

Data: 29 de junho a 02 de julho

Roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura”

Data: 01 de julho, às 18h00 (horário de Brasília)

Lançamento da Cartilha “Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”

Data: 02 de julho

Transmissão e canais de lançamento dos materiais: 

Facebook da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Facebook e Youtube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado


Assista aqui a Roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura”:

Comunidades tradicionais do norte do Tocantins partilham seus saberes agroecológicos em programa de áudio

No dia 22 de junho foi lançado o programa “Mutirão de Saberes Agroecológicos”, exclusivamente em áudio, promovido pela Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) em parceria com a Rede Bico Agroecológico. Quase 20 pessoas que vivem no Bico do Papagaio (TO) participaram das gravações e produção dos episódios.

O programa têm como objetivo abordar a diversidade de modos de vida de povos quilombolas, quebradeiras de coco, assentados da reforma agrária, pescadores artesanais e acampados que vivem no território do Bico do Papagaio, situado ao norte do Tocantins. Os entrevistados e entrevistadas partilharam sobre o manejo que fazem em seus agroecossistemas e as suas relações comunitárias, como a alimentação e a forma de viver e de produzir em seus territórios.

De acordo com a ONG APA-TO e a Rede Bico Agroecológico, o projeto “busca valorizar os saberes agroecológicos manejados no território do Bico, que são construídos cotidianamente por jovens e adultos que vivem em comunidades rurais e convivem com a biodiversidade de maneira harmoniosa”.

Os episódios apresentarão as seguintes temáticas: “Modo de vida agroecológico no território do Bico do Papagaio”; “A produção agroecológica no território do Bico do Papagaio”; “A importância da comida de verdade na mesa”; “Consumo de alimentos regionais”; “O uso de plantas medicinais no cotidiano”; “Protagonismo da Juventude na agroecologia Bico do Papagaio”; “A importância da apicultura para a agricultura familiar camponesa”; “Sistemas agroflorestais consorciado nos babaçuais”; “Usos e diversificação do aproveitamento do babaçu e Hortas agroecológicas”.

Confira, abaixo, o primeiro episódio do Programa:


Serviço:

Programa Mutirão de Saberes Agroecológicos

Produção e realização: APA-TO e Rede Bico Agroecológico

Edição: Angola Comunicação

Divulgação: Episódios serão lançados semanalmente pelos canais da APA-TO

Canais: Canal do Youtube; Instagram (@ongapato); Facebook (/apatobico)

 

Urgente: Ameaçados de morte, moradores da Comunidade de Gostoso (MA) resistem para defender seu território

Neste momento, dia 26 de junho, moradores da Comunidade de Gostoso (MA) denunciam a presença de dois tratores e jagunços armados da Empresa Costa Pinto no território que pertence a Associação das famílias. Segundo relato das famílias, a presença dos funcionários da empresa objetiva intimidar as pessoas que vivem na comunidade e prosseguir com o processo de desmatamento no território tradicional.

“A todo momento eles mostram o cabo da arma e nos ameaçam, dizem que vão atirar se não cooperarmos”, denuncia morador do território. Cerca de 40 pessoas que vivem na comunidade, entre crianças, adultos e idosos, se posicionam em frente aos tratores para impedir a devastação do território. A Comunidade de Gostoso solicita imediato apoio das autoridades locais responsáveis e já acionou a Secretaria de Segurança Pública, de Direitos Humanos e do Meio Ambiente do Governo do Estado do Maranhão. Até agora, porém, não se obteve retorno ou qualquer tipo de apoio do estado.


26 de junho de 2021

Comissão Pastoral da Terra/MA 

Povo Indígena Akroá Gamella

Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão

MOQUIBOM – Movimento Quilombola do Maranhão

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Incêndio criminoso destrói escola e casa de medicina tradicional do povo Xakriabá

Na madrugada desta quinta-feira (24), após diversas ameaças contra vida das pessoas que vivem no território, um incêndio criminoso destruiu a escola e casa de medicina tradicional do povo Xakriabá da Aldeia Barreiro Preto, no município de São João das Missões, em Minas Gerais. A comunidade registrou boletim de ocorrência na polícia e segue lutando por justiça e respeito deste e de outros casos de violência na região.

Celia Xakriabá, liderança do território, relatou: “Com uma tristeza muito grande e coração cheio de dor que nesta madrugada recebemos a notícia e as cenas da nossa escola Xukurank e Casa da Medicina Tradicional Xakriabá queimadas. As pessoas a frente da direção da escola e toda a comunidade escolar sabem o quanto significa e estamos profudamente tristes, em clima de velório. Podem nos perguntar: mas morreu alguém? E quem disse que em partes não sentimos assim, porque o que fizeram foi colocar fogo na história e trajetória da vida de cada um.”

Com indignação e revolta, Célia continua:

“Lugar onde construi minha vida toda a trajetória escolar desde os seis anos de idade, lugar onde ainda criança vi muitas líderanças e professores, professoras reunirem, para avançar na luta pela educação, pelo direito, a escola foi um chão que levou a importante decisões e conquistas, mas como alguém pode cometer tamanha crueldade? Quem não respeita a luta pela construção coletiva investida em um passado, vai conseguir construir algum futuro melhor? Estamos vivendo em uma cortina de fumaça, os direitos Indígenas sendo saqueados, ontem acabaram de votar PL 490 que anula a Demarcação dos Territorios Indígenas. Já não basta o cenário de guerra, precisam provocar outras guerras?.”

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado manifesta profundo pesar, indignação e solidariedade ao Povo Xakriabá. Para saber mais e oferecer apoio, siga e acompanhe os canais da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e Povo Xakriabá.


Informações: Apib e Célia Xakriabá
Imagem: Reprodução/Povo Xakriabá

Afinal, o que são as nascentes?

por Amanda Costa, da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
 
 

Para entender de onde vem essa água, primeiro é preciso saber que a água existente no planeta não aumenta nem diminui. Ela se movimenta em ciclos, modificando seu estado. Este caminho percorrido é chamado de ciclo hidrológico. A água evaporada do solo, dos mares, dos lagos e rios, é transpirada pelos animais e plantas e por ação do calor e do vento, se transformam em nuvem. Essas nuvens dão origem à precipitação, popularmente conhecida como chuva. Uma parte dessa chuva se infiltra no solo, outra escorre sobre a terra retornando para os lagos, rios e mares. A água da chuva que se infiltra no solo abastece o lençol freático que se acumula em função de estar sobre uma camada impermeável.

Conhecendo os ciclos da água

A água que os seres vivos utilizam para sua subsistência, percorre um longo e complexo caminho até estar disponível a todos. Esta movimentação ou caminho que ela percorre é cientificamente conhecido como ciclo da água. O ciclo das águas possuem várias etapas e sofre influência direta das atividades humanas nas suas ações de convivência e subsistência com o meio-ambiente, podendo estes, alterá-los de forma benéfica ou prejudicial.

O banho que tomamos, a água que bebemos e que sacia a sede dos animais, até mesmo a água que irriga as plantas, se usada de maneira correta, mantém o equilíbrio da natureza. Entretanto, sendo usada de forma incorreta, causa alterações prejudiciais e às vezes irreversíveis no equilíbrio da natureza. 

A água que alimenta as nascentes vem do lençol freático, localizado abaixo do solo cultivável. Cada vez que desmatamos e promovemos a impermeabilização e compactação do solo por construção de cidades ou mesmo práticas incorretas de cultivos nas áreas rurais, estes fatores interrompem o ciclo hidrológico. Para garantir a quantidade e qualidade da água das nascentes devemos manter a vegetação natural no entorno delas, ou seja, nos cursos de água e encostas e tomar alguns cuidados no uso e preparo do solo para diminuir a velocidade das enxurradas e aumentar a infiltração no solo, garantindo a alimentação dos lençóis freáticos que suprem as nascentes.

Tipos de Nascentes

Nascente sem acúmulo inicial – quando o afloramento de água ocorre em um terreno com declínio. Este tipo de nascente geralmente tem afloramento pontual com significativo volume de água formando cursos de água.

Nascente com acúmulo inicial – quando o afloramento de água ocorre em terreno plano e impermeável formando um lago. Este tipo de nascente tem afloramento difuso, ou seja, possui um grande número de pequenas nascentes espalhadas por todo o terreno. Ocorrem principalmente nos brejos e matas localizadas em depressões.


Fonte: Cartilha da CPT Goiás – Recuperação e Preservação de Nascentes de água: Fonte de Vida. 2009.

Imagens: CPT / Foto destaque: Andressa Zumpano

Comunidade de Gostoso (MA) resiste pelo direito de continuar no território

Agricultores familiares que têm na terra o seu sustento estão impossibilitados de terem acesso as suas plantações na comunidade Pati-Gostoso, no Maranhão. 

Não há território livre em corpo preso”. A essência dessa frase, registrada no 8º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, realizado em 2018 no território da Comunidade Pati-Gostoso, município de Aldeias Altas, próximo a Caxias no cerrado Maranhense, é a realidade vivenciada novamente pelos moradores e faz com que as atenções se voltem para aquela comunidade. Atualmente jagunços ameaçam os moradores que estão impedidos de terem acesso à suas plantações, que estão sendo devastadas para o plantio da monocultura.

A Rádio Jornal Tambor, em entrevista exibida pelas redes sociais com os articuladores da Teia, Antônio Cláudio de Sousa – morador da comunidade Gostoso –  e Raimundo Moreira da Conceição, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), trouxe com detalhes, a triste situação da violência sofrida pela Comunidade Pati-Gostoso.

Algumas famílias, que há décadas são ameaçadas pela empresa ‘Costa Pinto’, a qual invade o território para o cultivo da monocultura da cana-de-açúcar, foram expulsas pela mesma empresa de outras áreas em décadas passadas. Foram relatadas pelos entrevistados situações como violência psicológica, ameaças e sabotagem no plantio, além do uso de máquinas, como tratores para destruição das plantações.

A empresa, que conta com o apoio da administração municipal, ao intimidar, ameaçar e destruir comunidades camponesas e seus territórios, alega que estaria gerando empregos para a região. Na verdade, segundo os camponeses, está empurrando as famílias para a miséria das periferias, comprometendo as atuais e futuras gerações.

Para Raimundo Moreira, agente da CPT, a situação não aparenta ser tão simples. Foi dito em entrevista que os advogados da empresa, numa tentativa de criminalização da comunidade e suas lutas, já acusaram os moradores da comunidade de montagem de táticas de guerrilha. Com isso tentam confundir e colocar a sociedade contra a comunidade que produz alimentos e protege a Natureza. O que a empresa, seus advogados e seguranças armados chamam de armas são, na verdade, instrumentos de trabalho. Raimundo afirma que a comunidade tem utilizado ferramentas como maquinas fotográficas, celulares para registrarem as ameaças e violências que sofrem e para torna-las conhecidas às pessoas, organizações e, inclusive o próprio estado.

Inoperância do Estado

“O Estado demora demais para resolver esta situação. Isso aumenta o conflito entre as partes. Primeiro porque a comunidade não vai sair do seu lar e a empresa segue dizendo que é dona do território”, afirma Raimundo. As terras reivindicadas pela Comunidade são terra públicas, portanto é dever do governo do estado, através do Instituto de Terras do Maranhão (ITERMA), realizar a arrecadação e a sua destinação às comunidades para pôr fim à violência. Além de garantir a integridade física e psicológica dos camponeses.

Atualmente, as organizações defensoras da comunidade reclamam da omissão por parte do Governo do Estado em resolver os conflitos com o devido enfrentamento à grilagem das terras públicas e a suspensão de licenças ambientais para práticas que ameacem o equilíbrio do meio ambiente, “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” conforme o artigo 225, da nossa Constituição Federal.

Foi incentivado que as entidades de apoio, como a própria CTP/MA e outras, sigam divulgando a situação da comunidade, já que esse problema vem se tornando cada vez mais comum no Maranhão.

Durante uma live pelo Youtube, a internauta, Cleonice Costa afirmou. “Nós temos esse problema com essa empresa dentro das aldeias e comunidades de Lagoa do Mato, temos um processo há mais de 15 anos”.

Apoio da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais

Em 2018, representantes dos Movimentos Sociais se reuniram no VIII Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, em Gostoso. A carta pública lançada ao término do Encontro reafirma que “o lugar dos povos e comunidades tradicionais é nas matas, nos territórios, nas águas, nas terras, nos campos e lagos, longe das prisões e da observação do Estado.Não vamos esperar pelo Estado para garantir a nossa permanência nos nossos territórios. Pois o Estado não reconhece nossas práticas e tenta nos manter sobre a sua tutela. E a segurança que eles nos oferece é militarizada e armada. Nossa autoproteção quem faz somos nós e lutaremos com as nossas armas: a força de nossos encantados e a nossa espiritualidade são as nossas garantias. Não vamos nos inscrever no projeto de violência do Estado”.

Ao final da entrevista é feito um alerta/convite para que todas as entidades defensoras das comunidades de todo Maranhão divulguem e informem a situação de risco que várias famílias de Pati-Gostoso e do Estado vem passando, de modo que isso continue ganhando ainda mais repercussão e pressione também o Governo possa tomar as medidas cabíveis para melhorar a qualidade de vida destas pessoas.

Articulação de comunidades, organizações e movimentos do Cerrado se reúne com Fórum Fundiário de Corregedores

por Bruno Santiago

No dia 14 de junho, segunda-feira, representantes de organizações, comunidades tradicionais e movimentos sociais da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado se reuniram com o Fórum Fundiário dos Corregedores-Gerais da Justiça (CGJ) da Região do Matopiba. O encontro contou com a participação de desembargadores corregedores dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, além da presença do representante do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Marcelo Chalréo.

Por parte da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, participaram representantes da Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais (AATR), dos regionais da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Tocantins, Maranhão e Piauí, da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins), de Comunidades Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto na Bahia e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Representando o Fórum de Corregedores participaram do encontro o presidente corregedor, desembargador Paulo Velten (CGJ-MA), a juíza Ticiany Gedeon (Coordenadora do Núcleo de Regularização Fundiária do MA), a desembargadora Etelvina Felipe (CGJ-TO), a juíza Liz Rezende (CGJ-BA); o desembargador Raimundo Holland Moura de Queiroz (CGJ-PI), o desembargador Osvaldo Bomfim (CGJ-BA), o juiz José Alfredo (CGJ-BA) e o juíz Fernando Lopes (CGJ-PI). 

A articulação de organizações, comunidades e movimentos da região do Matopiba, que em 2021 vem realizando ações para frear o avanço dos conflitos por terra e os processos de grilagem de terra, pleiteou a reunião com o Fórum de Corregedores para evidenciar  os processos de violações de direitos territoriais vivenciados pelos povos e comunidades tradicionais do Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, requerendo atuação e apoio do Fórum no combate à grilagem de terras. 

Após uma fala inicial de apresentação da articulação, Mauricio Correia, advogado popular e coordenador da Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR), compartilhou a preocupação que as comunidades e organizações possuem com relação às recentes alterações legislativas e o papel dos corregedores e dos núcleos de regularização fundiária. 

“Existem brechas que colaboram com a desorganização fundiária, como é o caso da previsão legal de validação de matrícula, que facilita a apropriação ilegal de terras ocupadas por povos e comunidades tradicionais, muitas vezes terras públicas, devolutas”, explica o advgado, que solicitou ao Fórum maior fiscalização e que avaliasse possibilidades de resolução para os problemas relacionados à ausência de efetivação da política de titulação dos territórios, enfrentados pelos povos do Cerrado.

Em resposta às demandas da Articulação, os juízes corregedores presentes apresentaram as ações que o Fórum e as instâncias de regularização fundiária dos Estados vem implementando na região do Matopiba. Joice Bonfim, advogada popular e secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, chamou atenção para o fato de que os povos indígenas e as comunidades tradicionais não contam com uma política efetiva que assegure de fato suas proteções no âmbito do direito à terra e aos seus territórios.

“Antes que qualquer processo de regularização fundiária em terras públicas seja implementado é preciso que seja feita uma busca ativa para garantir a titulação coletiva dos territórios destes povos”, destaca. Bonfim também questionou o Fórum de Corregedores com relação à participação dos povos indígenas e comunidades tradicionais nas ações de regularização de terras que estão sendo implementadas.

Nessa toada, Marcelo Chalréo, do CNDH, apontou para o fato de que os conflitos e violências no campo na região do Matopiba têm se agravado nos últimos anos, e que a gravidade deste cenário tem relação direta com a disputa por terras nos territórios. Durante a reunião, representantes da articulação de comunidades e organizações do Cerrado mencionaram casos de conflitos e ações discriminatórias que prosseguem sem resolução.

O recém lançado Caderno de Conflitos no Campo 2020, da CPT, divulgou dados alarmantes relacionados à região do Matopiba. De acordo com a publicação, a Bahia e o Maranhão figuram entre os três estados brasileiros com mais casos de pessoas que sofreram criminalização por estarem envolvidas em conflitos no campo brasileiro, ocupando a segunda e a terceira posição, contabilizando 21 ocorrências na Bahia e 11 no Maranhão. Vale destacar que seis pessoas envolvidas em conflitos foram assassinadas nos dois estados em 2020, sendo cinco mortes no Maranhão e uma na Bahia.

Quando se trata de conflitos por terra, o estado do Maranhão contabiliza 203 ocorrências, no Tocantins foram 55, o Piauí registrou 18 casos e na Bahia foram 127 conflitos em 2020. No total, os quatro estados do Matopiba totalizam 403 conflitos por terra registrados pela CPT em 2020. Segundo a publicação da Pastoral da Terra, entre 2019 e 2020 houve um crescimento de 25,08% de conflitos por terra no Brasil.

Compromissos e próximos passos

O Fórum Fundiário dos Corregedores-Gerais da Justiça da Região do Matopiba se mostrou aberto a receber as demandas da articulação da Campanha em Defesa do Cerrado e deixou a sugestão de que os encontros, a partir de agora, sejam periódicos, aprimorando o diálogo entre os juízes corregedores e os povos indígenas e comunidades tradicionais que resistem em seus territórios.

O desembargador corregedor Paulo Velten convidou formalmente a Articulação para participar da próxima reunião do Fórum de Corregedores do Matopiba. Marcelo Chalréo, em nome do CNDH, propôs que o Fórum de Corregedores e representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos dialoguem sobre as ações do Fórum no campo da regularização de terras.

Como resposta às demandas da Articulação, o grupo de juízes corregedores presentes se comprometeu em recepcionar e discutir os casos de grilagem sistematizados pela AATR e Articulação Matopiba e adotar mecanismos específicos de monitoramento das ações discriminatórias em suas regiões. 

Quando questionada sobre os próximos passos da Articulação da Campanha em Defesa do Cerrado no Matopiba, Joice Bonfim explica:

“A Articulação seguirá mobilizando para que a regularização fundiária no Matopiba caminhe no sentido de priorizar a titulação dos territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como dos assentamentos de reforma agrária; e ao mesmo tempo frear a legalização do ilegal, ou seja, a grilagem de terras promovida por produtores de outras regiões e fundos internacionais”, finaliza a advogada.


 Foto: Thomas Bauer

Comunidade ribeirinha Brejeira Salto conquista direito coletivo à terra no Piauí

A comunidade tradicional ribeirinha brejeira Salto, localizada na zona rural de Bom Jesus, no Piauí, teve sua titulação coletiva conquistada. A outorga de domínio coletivo pelo Instituto de Terras do Piauí é uma vitória para as comunidades que reivindicam o direito à terra na região.

“Eu espero que a partir de agora a comunidade tenha sossego, a gente possa morar em paz e ser feliz no nosso território. Que a grilagem acabe, não apareça mais ninguém para queimar nossas casas, que não apareça ninguém para nos expulsar. A gente não tem nem palavras pra explicar o tamanho dessa felicidade”, comenta Reginalda moradora da comunidade recém-titulada.

A vitória é resultado da organização do Coletivo de Comunidades Impactadas pelo Agronegócio, criado por comunidades rurais no Cerrado piauiense para resistir à grilarem de terras e ao avanço de monocultivos do agronegócio. A Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) têm denunciado esses impactos em apoio às comunidades.

Há esperança! Altamiran Ribeiro, articulador da CPT na Diocese de Bom Jesus (PI), acredita que a vitória garante proteção contra os impactos causados pela empresa SLC Agrícola, que impedia o direito à terra da comunidade. Para Ribeiro, a conquista está diretamente ligada à mobilização das mulheres da comunidade de Salto, pois, “foram as que mais se mobilizaram pela titulação coletiva”.

Fábio Pitta, pesquisador da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, observa que a região tem sido alvo da especulação de terras por empresas financeiras internacionais e por grileiros locais que se apropriam das terras das comunidades para facilitar o avanço do agronegócio. “A titulação coletiva será fundamental para que as comunidades protejam suas formas de vida e sua produção de alimentos, contra a destruição social e ambiental do agronegócio”, afirma Pitta.

Para Maurício Correia, advogado popular da equipe da AATR, a titulação coletiva do território tradicional de Salto é um passo importante para conter a devastação do Cerrado na região sul do Piauí, pois são as comunidades indígenas e tradicionais quem melhor preservam e sabem fazer o uso e conviver com o bioma. “É fundamental que outras comunidades tenham acesso a este direito, em tempo razoável, pois os processos de grilagem tem sido acelerados inclusive com sobreposição de reservas legais dos latifúndios do agronegócio nestes territórios, por meio do Cadastro Ambiental Rural”, explica o advogado.

A comunidade Salto está localizada no epicentro da região do Cerrado que compõe o Matopiba, na divisa entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Centenas de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, que vivem na região há centenas de anos, têm sofrido violência com o avanço do agronegócio, que gera grilagem de terras e destruição ambiental. As comunidades sofrem com a repressão, destruição de sua produção de alimentos, despejos, casas incendiadas, ameaças de morte, além do desmatamento, da contaminação das águas e do ar por agrotóxicos.

A vitória recente no Salto ocorre poucos meses após o reconhecimento do território Indígena do Povo Kariri de Serra Grande, no município de Queimada Nova (PI). A articulação de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas tem sido fundamental para garantir o direito à terra na região e a proteção ambiental para as gerações futuras.


Texto e imagem: CPT Piauí

As águas e a sociobiodiversidade do Cerrado

O Cerrado é a  savana mais biodiversa do mundo, chegando a abrigar cerca de 5% da diversidade biológica do planeta. Ao mesmo tempo, os primeiros habitantes dessa imensa região ecológica, os povos da Tradição Itaparica, remontam a entre 15.000 a 12.000 anos antes do presente e já transitavam e se adaptavam aos dois principais componentes da paisagem do Cerrado – as chapadas e os vales. Os povos indígenas e tradicionais, com seu saber-fazer enraizado nas paisagens cerradeiras, são herdeiros dos saberes tradicionais que guiam, há inúmeras gerações, o manejo das matas e paisagens.

São esses povos que fazem do pequi, do babaçu, do buriti e tantos outros frutos do Cerrado a base de alimentos e geração de renda. Que usam a palha do babaçual e do buritizal, o capim dourado, as flores sempre-vivas e tantos outros elementos na feitura de belos artesanatos. Que conhecem as plantas medicinais e realizam diversos ofícios de cura e benzimento. Que sabem realizar a pesca e a roça no ritmo das cheias e vazantes dos rios. Que sabem o manejo e a roça apropriada para cada agroecossistema. Que sabem manejar os pastos naturais com gado criado entre os vales e os gerais. Que cuidam dos lugares sagrados de morada dos Encantados. E é com o protagonismo desses povos que a Campanha se fortalece e se enraíza nos chãos dos sertões.

Assim, as paisagens onde a biodiversidade do Cerrado vibra patrimônios históricos e socioculturais, fruto da convivência e cuidado dos povos com o Cerrado.

Águas do Cerrado

Nas chapadas e planaltos do Brasil Central, as raízes profundas da vegetação dominante típica do Cerrado promovem a infiltração das águas das chuvas, constituindo a mais importante área de recarga hídrica do país, o que lhe valeu o apelido de “caixa d’água do Brasil”. Como resultado, sob o Cerrado se encontram os dois principais aquíferos do país – o Guarani e o Urucuia-Bambuí. Nesse Cerrado berço das águas também nascem importantes rios do Brasil e do continente sul-americano – o Paraguai e seus formadores (entre eles o Cuiabá, o São Lourenço e o Taquari); o Paraná e seus formadores (entre eles o Paranaíba); o São Francisco, o Doce, o Jequitinhonha, o Parnaíba, o Itapecuru, o Tocantins, o Araguaia, o Tapajós, o Xingu, além de vários afluentes do rio Madeira.  As duas maiores extensões de terras continentais alagadas do planeta – o Pantanal e os “varjões” do Araguaia – têm também sua dinâmica hidrológica relacionada aos Cerrados e suas chapadas.

O desmatamento das chapadas para dar lugar a monocultivos  de soja tem destruído esse sistema hidrológico, com consequências dramáticas. Ao mesmo tempo, em diversas partes do Cerrado e suas zonas de transição, os povos e comunidades enfrentam a apropriação, contaminação, exaustão, assoreamento e barramento dos rios e águas pelos grandes projetos da mineração, agronegócio, portos e outros empreendimentos logísticos, usinas hidrelétricas e aquicultura. 

Na Campanha, um importante lema  é “Sem Cerrado, sem água, sem vida”, um dizer que carrega a ideia-força de que a conservação do Cerrado é sinônimo de vida, tanto dos povos indígenas e comunidades tradicionais que ali habitam, quanto pelas conexões que permitem que as águas aí nascidas possam saciar a sede e garantir produção de alimentos livres de agrotóxicos, transgênicos e conflitos socioambientais no próprio Cerrado e em outras regiões e cidades banhadas por suas águas. Defender o Cerrado é defender suas águas, uma luta urgente e fundamental.


Fonte:

Carlos Walter Porto-Gonçalves. Dos Cerrados e de suas riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico. Rio de Janeiro e Goiânia: FASE e CPT, 2019.

Diana Aguiar e Helena Lopes (Orgs.). Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade. Rio de Janeiro: Campanha em Defesa do Cerrado e Action Aid Brasil, 2020.

Altair Sales Barbosa. Andarilhos da Claridade: os primeiros habitantes do Cerrado. Goiânia: Universidade Católica de Goiás. Instituto do Trópico Subúmido, 2002. 416 p.


 Foto do destaque: João Zinclar

Você conhece o Cerrado?

Nesta semana, em sintonia com o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho, te convidamos a conhecer mais sobre a segunda maior região ecológica da América do Sul e savana mais biodiversa do planeta, o Cerrado – considerado o berço das águas e de muitos povos e culturas. Mais da metade de sua cobertura vegetal foi devastada para dar lugar, sobretudo, a monocultivos e pastagens para o agronegócio. Precisamos parar a devastação e transformar essa realidade. Conheça mais sobre o Cerrado e seus povos para se engajar na sua defesa!

Povos do Cerrado

Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani e Kaiowá) e Arawak (como os Terena e os Kinikinau). São comunidades quilombolas, como os Kalunga, os jalapoeiros e centenas de outras pelos sertões do Cerrado. São comunidades tradicionais, tão diversas como o próprio Cerrado e que têm suas vidas entrelaçadas nas árvores e plantas, bichos, chapadas, vales e águas da região, como as quebradeiras de coco-babaçu, raizeiras, geraizeiras, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiras, pescadoras artesanais, vazanteiras e pantaneiras. São, ainda, os assentados e assentadas de reforma agrária e outras populações de base camponesa.

Se ainda há Cerrado em pé é porque esses povos estão com os pés no chão do Cerrado, lutando para permanecer em seus territórios. E é por isso que não existe defesa do Cerrado sem a defesa dos territórios do Cerrado, onde esses povos conservam e multiplicam a rica biodiversidade da savana brasileira por meio de saberes e práticas que vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação — em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultural — está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora, e para o futuro.

Para saber mais, clique aqui para acessar o livro Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade.


Fonte: Diana Aguiar e Helena Lopes (Orgs.). Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade. Rio de Janeiro: Campanha em Defesa do Cerrado e ActionAid Brasil, 2020.

Foto: Leandro Santos/Comunidade Quilombola Cocalinho (MA)

Campanhas denunciam chuva de veneno e violações de direitos no Maranhão

No dia 7 de maio, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida uniram forças para realizar um debate público sobre chuva de agrotóxicos que atingiu as famílias das comunidades tradicionais Carranca e Araçá, no município de Buriti, no Maranhão, no mês de abril de 2021.

O ataque aconteceu em plena pandemia e as famílias que vivem nas comunidades foram diretamente atingidas pela pulverização aérea de agrotóxicos. Crianças, adultos e idosos denunciam sintomas como queimaduras, coceira generalizada, febre e crises de vômito, após a chuva de veneno.

Participaram da atividade: Fabio Pacheco, da Associação Agroecológica Tijupá, da Campanha em Defesa do Cerrado e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) Amazônia, padre Chagas Pereira, do Programa de assessoria rural da Diocese de Brejo, e Diogo Cabral, advogado popular, assessor jurídico da Fetaema e da Diocese de Brejo. A transmissão também contou com depoimentos em vídeo de moradoras/es das comunidades atingidas e de Bernardo Wittlin, da Rede de Médicas e Médicos Populares. Já a mediação ficou por conta de Nieves Rodrigues, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Assista, abaixo, a atividade na íntegra:

Para saber mais sobre o caso, acesse a reportagem da Repórter Brasil sobre o ocorrido.

Lideranças quilombolas de Santa Rosa dos Pretos sofrem com criminalização em Itapecuru Mirim (MA)

 
Na última terça-feira (11/05), Anacleta Pires da Silva, Elias Pires Belfort e Joércio Pires da Silva foram surpreendidos com mais uma intimação para comparecer novamente à delegacia do município. Há três semanas eles receberam a primeira intimação. No boletim de ocorrência foram acusados de ameaçar o capataz e comprador das fazendas “Raio de Sol” e “Meu Xodó”, ambas localizadas dentro do Território Santa Rosa dos Pretos, e que estão em fase de desapropriação, e ainda assim estão sendo comercializadas e invadidas. A venda das fazendas já desapropriadas tem sido ocasionada pela morosidade e omissão do Incra em levar adiante os processos de titulação de terras quilombolas.
 
Nas três intimações enviadas às lideranças não foram apresentados os motivos que as justificavam. Só no dia 29 de abril, quando Elias e Joércio compareceram à delegacia e prestaram depoimento, é que ficaram sabendo do que se tratava a denúncia: estavam sendo acusados de destruir uma ponte que dava acesso à fazenda e de ameaçarem o suposto dono da propriedade e seu capataz. Anacleta estava em compromisso profissional, em reunião da Secretaria de Educação do Estado, e não conseguiu ir à delegacia.
 
Mesmo com os devidos depoimentos prestados, as lideranças foram novamente convocadas a prestar esclarecimentos de interesse da Justiça. O documento de intimação afirma que o não comparecimento é considerado crime de desobediência. No Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) n° 0801264-84.2021.8.10.0048 registrado contra as lideranças, não consta sequer a indicação de testemunhas que comprovem qualquer participação das lideranças nos atos dos quais estão sendo acusadas.
 
Sendo coagidas pela burocracia e violência simbólica policial, as lideranças do quilombo Santa Rosa dos Pretos estão sendo criminalizadas por construir uma história de empoderamento e dignidade na luta pela demarcação de terras ancestrais. Para os quilombolas, proteger o território não é só uma luta por terras, é uma ação para manter o bem viver, a autonomia e honrar a história de mais de três séculos de luta contra a escravidão e a colonização de seus corpos-territórios.
 
As criminalizações destas lideranças demonstram evidente intimidação contra o povo preto em seus processos de luta e resistência. Segundo o advogado popular Diogo Cabral, o povo do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, representado por essas lideranças, está “sofrendo criminalização de suas lutas, e as ameaças contra as famílias aumentou enormemente em razão da ação de invasores e da omissão do INCRA”.
 

Foto: Tiago Pereira/Divulgação

Campanha Salve Uma Nascente chama a atenção para a importância da proteção das nascentes do Cerrado

por Articulação das CPTs do Cerrado

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A Articulação da Comissão Pastoral da Terra no Cerrado, formada pelos regionais dos estados Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia, lança nesta terça-feira, 11 de maio, a primeira etapa da CAMPANHA SALVE UMA NASCENTE, que tem como objetivo evidenciar a importância da conservação e recuperação de nascentes e rios, assim como das experiências comunitárias de recuperação da vegetação natural e solo de áreas degradadas do Cerrado.

Há mais de 10 anos a Comissão Pastoral da Terra trabalha com a recuperação de nascentes no Cerrado, sendo os primeiros desenvolvidos nos estados de Goiás e Mato Grosso. Desde então, realiza processos de formação junto a várias comunidades e camponeses/as cerradeiros/as na luta em defesa das águas, da terra e das florestas. Nesse sentido, a Campanha Salve uma Nascente irá apresentar experiências feitas em diferentes territórios, abrindo caminho para a multiplicação dessa ideia para outros lugares e construindo redes de proteção.

Sabemos que o Cerrado e suas áreas de transição, as quais abrangem cerca de 36% do território nacional, ou seja, mais de 1/3 do território brasileiro, têm passado nos últimos cinquenta anos por um intenso processo de devastação pelo avanço dos monocultivos da agricultura industrial. Como nos lembra o professor Altair Sales, “o Cerrado está incluso no planejamento político brasileiro como região de expansão da fronteira agrícola orientada por práticas predatórias, causando um cenário estarrecedor”.

As consequências dessas práticas ao Cerrado que, de acordo com Carlos Walter Porto Gonçalves, se constitui como a mais importante área de recarga hídrica de todo o país, onde brotam importantes rios do Brasil e do continente sul-americano, afetam drasticamente a biodiversidade e as fontes de águas.

“O Cerrado contribui para oito das 12 regiões hidrográficas do país. 70% da água que sai na foz do rio Tocantins-Araguaia vem do cerrado, 90% do que sai na foz do rio São Francisco também vem do cerrado e 50% do que sai na foz do rio Paraná também”

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, em 2020, o desmatamento no Cerrado totalizou 7,3 mil km², sendo a maior destruição na região do Matopiba. Ainda de acordo com o Instituto, o Cerrado registrou mais de 63 mil focos de incêndio só no ano passado. Diante desse cenário devastador, Altair Sales pontua que, em média, 10 pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano.

Toda essa devastação, queimadas, desmatamento e avanço das monoculturas tem provocado efeitos ao clima e ao bem viver dos povos do campo e da cidade. As nascentes estão secando, os rios estão assoreados, é preciso adotar medidas urgentes. Seja parte desta campanha, SALVE UMA NASCENTE

SEMINÁRIO AGRO É FOGO FORTALECE DIÁLOGO COM ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS PARA ENFRENTAMENTO AOS INCÊNDIOS NA AMAZÔNIA, CERRADO E PANTANAL

Evento virtual contou com média de público de 100 pessoas, com representações dos EUA, Europa, Reino Unido e América do Sul. Dossiê Agro é Fogo foi apresentado aos participantes

por Andressa Zumpano e Elvis Marques

Entre os dias 27 e 28 de abril ocorreu o Seminário Internacional Agro é Fogo, com o tema “Diálogos para enfrentar o ciclo de grilagem, desmatamento e incêndios nas áreas de expansão do agronegócio”, uma iniciativa da Articulação Agro é Fogo

A Articulação reúne cerca de 30 movimentos, organizações e pastorais sociais que atuam há décadas na defesa da Amazônia, Cerrado e Pantanal e seus povos e comunidades. Surgiu enquanto articulação como reação aos incêndios florestais que assolaram o Brasil nos últimos dois anos.

O seminário contou com a presença de diversos/as integrantes de organizações sociais da América do Sul, EUA, Europa e Reino Unido. A partir de uma perspectiva de incidência internacional, a articulação busca a solidariedade entre as organizações participantes, como também apresentar ao público casos emblemáticos de comunidades que sofreram impactos socioambientais como a Terra Indígena Baía dos Guató, no Mato Grosso, e Quilombo Barra da Aroeira, no Tocantins

Nos últimos dois anos, 2019 e 2020, Amazônia, Cerrado e Pantanal foram impactados fortemente por incêndios criminosos, que estão diretamente conectados com a grilagem de terras e com a do desmatamento. Impactos estes que não atingem somente o Brasil, podendo ser considerados como grandes desafios globais. 

Isolete Wichinieski, coordenadora nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e representante da Articulação Agro é Fogo, destaca que é preciso olharmos para as “ações do Estado brasileiro de desmonte das políticas e legislações agrárias e agrícolas, paralisação da reforma agrária e uma regularização fundiária que vem para legitimar o desmatamento e a grilagem de terras”.

Wichinieski aponta que a Articulação busca também, além de denunciar as ações do agronegócio, o fortalecimento da produção agroecológica e recuperação de nascentes. 

Chamas

Experiências de resistência e de enfrentamento autônomo aos incêndios também foram expostos no Seminário. No ano de 2020, os impactos do fogo no Pantanal atingiram cerca de 23 mil km², segundo IBGE. 

Cláudia de Pinho, da Rede Pantaneira, enfatiza que os incêndios florestais são crimes que trazem prejuízos enormes para o povo pantaneiro. “Há indícios de que o fogo iniciou em algumas fazendas e se propagou. A catástrofe no Pantanal tem nome e sobrenome, se chama agronegócio, que foi o grande estopim para que o fogo se espalhasse. Como consequência, houve muita perda de roças e de áreas de cultivo, além da contaminação das águas dos rios por cinzas. O baixo Pantanal é a região mais afetada”, afirma.

Mesmo com o avanço dos incêndios nos últimos anos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) efetuou um grande corte orçamentário na pasta do Meio Ambiente. Para o ano atual, o orçamento teve uma redução de 31%, o que afeta diretamente órgãos ambientais de fiscalização e de combate a incêndios, como o Ibama e o ICMBio

Reflexo disso é que diversos territórios tradicionais e indígenas têm organizado brigadas autônomas para conter o avanço do fogo sob suas comunidades e reduzir os impactos socioambientais que já trazem perdas gigantescas. 

O indígena Avanilson Karajá, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), conta que a organização tem adotado um plano emergencial de combate a incêndios. “Quando encerra o período de queimadas, o Ibama recolhe todo material das brigadas indígenas de incêndio, então quando se iniciam as queimadas o apoio demora e as terras indígenas já estão todas devastadas. Pensando nisso, a COIAB criou esse plano para apoiar  financeiramente as brigadas”, explica. 

Os incêndios florestais potencializaram a devastação desenfreada na área de transição do Cerrado e Amazônia, a qual é considerada arco do desmatamento, sendo também a região com maior incidência de conflitos no campo, conforme expôs Valéria Santos, articuladora da CPT e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Santos explica ainda que “a fronteira agrícola do Matopiba foi a mais desmatada nos últimos 20 anos [dados do INPE]. Os municípios que compõem essa fronteira são os com maior índice de desmatamento e incêndio”. E é justamente essa região, acrescenta Valéria, responsável por alimentar aquíferos e bacias hidrográficas. “Rios como o Paraguai, que se alimenta do Cerrado, vem sofrendo diversas secas que ocasionam o agravamento desses incêndios criminosos, como o que aconteceu no ano passado no Pantanal”.

Carlos Walter  Porto-Gonçalves, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisa que o modelo agrário do agronegócio, que sustenta as grandes commodities, necessitam de grandes extensões de terras para poderem viabilizar a tecnologia que é empregada. “O conjunto de maquinários envolvidos necessitam de pelo menos 2 mil ha para poderem ser viáveis economicamente, ou seja, o modelo agrário de concentração de grandes porções de terras é sustentado pela necessidade de abastecimento de países da Europa e da China”. 

Nesse sentido, o professor propõe que a questão fundiária e a reforma agrária devem aparecer como algo central junto às reivindicações e denúncias internacionais. “Reforma agrária e demarcação de territórios inviabilizam o modelo internacional e commodities agrícolas”, afirma.

Publicação

No evento internacional, Diana Aguiar, que divide a coordenação editorial do Dossiê Agro é Fogo: grilagem, desmatamento e incêndios na Amazônia, Cerrado e Pantanal com Valéria Santos, apresentou a plataforma digital que abriga análises e denúncias sobre as múltiplas dimensões da devastação ambiental e dos conflitos por terra que se dão no rastro do uso criminoso do fogo pela cadeia do agronegócio. 

Aguiar aproveitou para agradecer, mais uma vez, as diversas organizações e pessoas que, num esforço conjunto, colocaram esse trabalho no ar no dia 14 de abril. “Foi e é um grande desafio”, assinala. 

Já Diana Múrcia, advogada e presidenta do Tribunal sobre Incêndios Florestais e Agronegócio aponta que em todos os casos fica evidente uma relação entre os incêndios e o avanço da fronteira agrícola. “A queimada dos territórios funciona como mecanismo propulsor da histórica expulsão de povos e territórios”. 

Zuleima Vergel, da CLOC/Via Campesina, observa que é “incrível como o mesmo padrão [de devastação e conflitos] se repete em vários territórios. É muito importante buscarmos articular internacionalmente, especialmente no Cone Sul”.

— Acesse todo o conteúdo do Dossiê Agro é Fogo e conheça a Articulação

Nota de Repúdio à tentativa de silenciamento pelo governo do Maranhão às denúncias contra despejos forçados da Comunidade Cajueiro

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) Maranhão vem por meio dessa Nota Pública manifestar seu repúdio à ação movida pelo Governo do Estado do Maranhão contra o assessor jurídico da Pastoral, em retaliação à atuação na defesa da comunidade Cajueiro / São Luís-MA contra despejos forçados e ilicitudes cometidas no projeto de implantação de projeto portuário privado e de interesse do Governo do Estado. O conflito contra a Comunidade tradicional do Cajueiro vem desde 2014: de um lado, estão os moradores e, de outro, o consórcio construtor do porto capitaneado pela TUP Porto São Luís, antiga WPR – São Luís Gestão de Portos e Terminais, que tem como acionistas a empreiteira WTorre e o conglomerado do ramo de construção e engenharia China Communications Construction Company (CCCC). Confira o documento:


Comissão Pastoral da Terra – CPT MA, vem a público manifestar o seu REPÚDIO à ação movida pelo Governo do Estado do Maranhão contra o assessor jurídico desta Pastoral, Rafael Silva, em retaliação à atuação na defesa da comunidade Cajueiro / São Luís-MA contra despejos forçados e ilicitudes cometidas no projeto de implantação de projeto portuário privado e de interesse do Governo do Estado.

Trata-se do Processo no 0843341-26.2019.8.10.0001 (PJE TJMA- 7ª Vara da Fazenda Pública de São Luís-MA), com vistas ao silenciamento do advogado, através de pedidos que configuram tentativa de censura prévia, cerceamento da liberdade de expressão, além de arbitramento de multa no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais).

É espantoso que a ação tenha sido proposta a pedido do Secretário de Estado de Direitos Humanos e Participação Popular, Francisco Gonçalves – conforme Ofício no 1.293 – GAB SEDIHPOP, de 11.10.2019 -, visando impedir a publicização da militarização da Secretaria de Direitos Humanos do Estado, pelo Gabinete Militar do Governo, durante manifestação pacífica de seis moradores do Cajueiro naquele órgão, entre 23 e 26.08.2019.

Sintomaticamente, a propositura da ação ocorreu em 21.10.2019 (dois meses após os fatos ensejadores), período em que o Conselho Nacional de Direitos Humanos – CNDH realizava MISSÃO URGENTE em São Luís (21 a 24.10.2019), na qual o caso Cajueiro integrava a pauta.

O objetivo imediato do Governo do Estado/SEDIHPOP era impedir a participação do assessor jurídico da CPT MA nas atividades do CNDH- em especial na audiência pública de 24/10/2019 – para a qual o advogado havia sido convidado, conforme documento acessível clicando aqui

Consta no processo judicial um documento acintoso da Secretaria de Estado de Comunicação e Articulação Política – SECAP contendo “MONITORAMENTO DE REDES SOCIAIS” do assessor jurídico da CPT MA, numa abusiva utilização da estrutura administrativa do Estado do MA para controle político e intimidação de lutas populares que desagradem ao Governo do Maranhão.

Entendemos que tal ação judicial serve como tentativa de intimidação à livre atuação de movimentos populares.

Por tais razões, a CPT Maranhão REPUDIA a propositura da ação judicial pelo Governo do Estado do Maranhão, exigindo que assuma posturas de respeito à liberdade de expressão e à atuação dos movimentos sociais.

A CPT Maranhão continuará sua histórica missão pastoral sem jamais permitir que o poder político ou econômico cerceie sua trajetória de mais de 40 anos de lutas em defesa dos povos do campo, das águas e das florestas.

São Luís – MA, 29 de abril de 2021.

CPT Maranhão


 Foto: Ingrid Barros

Cerrado dos Povos: Saberes e Biodiversidade #02 – Desmatamento e resistências nos territórios

O Cerrado já teve mais da metade das suas matas nativas devastada ao longo do tempo, em razão sobretudo da expansão da fronteira agrícola. O processo de modernização conservadora da agricultura na região, a partir da década de 1960, foi favorecendo essa expansão avassaladora do desmatamento. Mas não se trata de um fenômeno relegado ao passado.

Neste segundo episódio da série especial do Guilhotina, feita em parceria com a ActionAid Brasil e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Bianca Pyl e Luís Brasilino entrevistam Diana Aguiar, assessora política da Campanha; Joice Bonfim, integrante da coordenação da Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais; e Valéria Santos, da Articulação da Comissão Pastoral da Terra do Cerrado.

Conversamos sobre o quadro histórico do desmatamento no Cerrado, o desmonte das políticas ambientais e fundiárias no Brasil e o aumento de incêndios criminosos na região. Além disso, Diana, Joice e Valéria também analisam as formas de resistência das comunidades que seguem lutando para manter seus territórios de direito e assegurar a conservação das matas, da biodiversidade e das águas, base fundamental para a reprodução sociocultural de seus modos de vida. 

Clique aqui para escutar o episódio.


A produção, o roteiro e a apresentação foram de Bianca Pyl e Luís Brasilino. Apoio de Samantha Prado e edição, Débora Pill.

Povos indígenas permanecendo em aliança nas fronteiras construídas sobre o Cerrado

Por Marcela Vecchione, Antonio Verissimo da Conceição, Laudovina Aparecida Pereira e Roberto Antonio Liebgott

Em tempos de ameaças praticadas pela pressão de marcos temporais[1] criados e negociados vorazmente por setores do hidro-agro-minero-negócio, a brutalidade para limitar ou integrar os territórios de vidas indígenas a circuitos de produção e escoamento segue ocorrendo, como sempre foi no Cerrado desde o século XVIII. Estes setores, decerto, não aderiram à quarentena. Célia Xakriabá, liderança do povo Xakriabá no Norte de Minas Gerais, chama atenção a que os avanços econômicos são de “monoculturação” do território, do corpo e do espírito, adoecendo os povos, e impedindo sua diversidade de viver, o que compromete a sobrevivência do e no Cerrado. “Somos raízes, mas, principalmente somos sementes”, diz Célia, que também é da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). O impedimento de que a sobrevivência consorciada ao ‘sementear’ dos povos indígenas no Cerrado seja exercitada compromete planos de vida, impedindo que este continue a ser sociobiodiverso.    

Tocando e entoando a sociobiodiversidade do Cerrado, Elza Xerente, liderança do povo Xerente no Tocantins, denuncia o apagamento das pluralidades do existir de seu e outros povos do Brasil Central, falando forte, ao chacoalhar o espírito: “estão matando o povo, o rio, os bichos; está tudo secando (…) estão matando a gente.” Essa morte matada se repete em episódios de genocídio contínuos[2], como os esbulhos e usurpações dos territórios indígenas no Brasil Central descritos anteriormente. O processo colonizatório fez aldeamentos e estimulou guerras entre povos rivais, impondo-se aos arranjos diplomáticos já existentes entre esses povos para se espalharem, ocuparem e se relacionarem com e nas várias paisagens do Cerrado a fim de continuar convivendo. As trocas de sementes, que envolvem troca de fazeres da lida com a terra e as águas, de utensílios, e a construção de extensas redes de parentesco marcando a dominialidade vivida dessas paisagens, constituindo-as, foi e ainda é, em menor escala, marca do processo de convivência intercultural no Cerrado.

Nessa imensa região macroecológica que domina o Brasil Central, também predominam o tronco linguístico Macro Jê e os muitos povos indígenas que se relacionam, e se diferenciam, pelo diferente manejo desse tronco tão ligado aos conhecimentos da terra e às palavras-verbo que denotam a relação com ela. A colonização acabou trazendo possibilidades de aliança com os povos do tronco Macro-Tupi. O povo Xerente de Elza, autodenominado Ak’we, faz parte da grande família Jê Central, parentes próximos dos Xakriabá, povo de Célia, que habita a conexão entre o Cerrado e a Caatinga, e os Xavante, muito presentes no Nordeste do estado do Mato Grosso, onde se desenha a transição com a Amazônia.

As histórias de resistência e permanência dos povos Jê e Tupi-Guarani no Brasil Central têm uma relação muito forte com as frentes de expansão e como os “brancos” — a Coroa Portuguesa, a República e o Estado, ditatorial ou democrático de direito, e o capital transnacional — foram transformando esse espaço em sua zona de exploração, gerando espoliação e intensa acumulação, à medida que — e necessariamente porquê — desumanizavam esses povos, desqualificando seus modos de existir. A ‘fronteira’ agrícola expandiu ao passo que dividiu povos, terras e tentou forçosamente descontinuar paisagens onde as relações se davam, zoneando-as na expansão econômica e física com base em racismo e colonialidade.

De outra forma, mas, sob as mesmas bases, a fronteira se reinventa e continua secando rios e matando povos, como nos conta Celia Xakriabá: “Nós precisamos é queimar o racismo, nós precisamos é queimar o fascismo porque isso, sim, é a fronteira. A fronteira não é exatamente do Cerrado para outros biomas. A fronteira é o racismo ambiental, a fronteira é o racismo que continua amputando, arrancando nossos corpos. A fronteira é aquela que diz que os povos indígenas estão se tornando mais humanos, mas, só sabe ser humano quem sabe ser bicho, quem sabe ser semente, quem sabe ser Cerrado.

Territorialidade cercada e degradada: a r-existência dos Xerente

Essa fronteira, que seca a vida e afeta os povos, limita os Xerente desde que foram contactados nos anos 1940, uma década de intensa colonização do Cerrado, quando o Sistema de Proteção ao Índio (SPI) era o órgão do Estado brasileiro responsável por ‘integrar’ os indígenas. O objetivo era ‘marchar’ numa grande expedição rumo ao Oeste do Brasil, levando ‘progresso’ e estrutura para as antigas sesmarias serem novos latifúndios agroexportadores, e liberando áreas para planejar a modernização agrícola aliada ao ‘povoamento’ do país. Desde essa época, a terra nunca mais foi a mesma para os Ak’we Xerente que já povoavam intensamente a margem direita do rio Tocantins.

Até os anos 1980, eles sofreram com a dizimação do povo por causa de epidemias de gripe. As terras e os rios começam a ‘secar’ mais intensamente, como aponta Elza, muito por causa do que foram fazendo ao Cerrado. Em 1972, é decretada a “Área Grande” dos Xerente, pelo Estado brasileiro, embora bastante degradada. Contudo, quando em 1988, o Norte do estado do Goiás se transforma em estado do Tocantins, muitos municípios vão se formando ao redor do território Xerente, cortando a área grande, já muito prejudicada, e pressionando seus modos de vida, especialmente pela construção de estradas para integrar os novos municípios, e suas produções, à capital, Palmas. As estradas passaram a cortar a Terra Indígena e a produzir imensos problemas para as comunidades que, em 1992, tiveram outra área demarcada e reconhecida, a Terra Indígena Funil, sem ser em contiguidade à antiga área, embora fosse próxima.

Em 1999, o rio e o território, já cortados pelo município de Tocantínia e pela estrada TO-010, começam a secar e a comprometer os modos de vida indígenas ainda mais. Neste ano, é aprovada a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Lajeado, parte do programa Avança Brasil do Governo Federal de integração de eixos e polos de desenvolvimento regional no país. Como disse Elza, parecia que a UHE está “saindo fora e não está no território indígena” que, por isso, não seria afetado, mas, ainda que diferente das estradas que cortam o território, a UHE compromete a água que, por sua vez, compromete os peixes, o solo, as vazões. Tudo interligado e bloqueado pelo bloqueio do fluxo do rio que se soma ao aumento de atividades externas do fluxo da estrada, que teve a pressão aumentada pelo asfaltamento depois da hidrelétrica. Elza nos fala da TO-010 que corta a TI: “esses projetos todos são que nem o Lajeado, que acabou com a vida dos Xerente”, e acrescenta: “projetos estão acabando com Cerrado, acabando com a vida, os rios estão morrendo e pedindo socorro para defender. (…) Os povos indígenas sentem quando está triste e silencioso. Conversam com o rio, com a floresta, com o Cerrado.

Inaugurada em 2005, a UHE Lajeado[3] alterou profundamente os modos de vida Xerente, multiplicando o número de aldeias para a recepção do Programa de Compensação Ambiental Xerente (PROCAMBIX), aumentando o fluxo e quantidade de moradores em municípios vizinhos e, especialmente, a invasão das terras por grileiros em resposta à especulação fundiária na região, também estimulada pela construção de estradas. Com o início do projeto da Hidrovia Tocantins-Araguaia, há a previsão da construção de um canal a apenas 12 km da TI Xerente, para o transporte de grãos e minérios, o que vai levar ainda mais secura e perturbação da vazão do rio às comunidades.

Nós trabalha não é para mandar para fora, não. Nós quer é trabalhar para sobreviver”, destaca Elza Xerente, marcando que o povo não quer asfalto porque sabe que não tem benefício para eles. Elza diz que o que os povos indígenas querem é a terra e o rio, querem o território, para trabalhar e seguir vivendo. Elza ainda insiste que “tem que respeitar ribeirinho que não é indígena, os acampamentos” porque o “trabalho é para se alimentar, não é para transportar para outro país, não. Nós trabalha para sustentar a família. Não é para passar dos limites. Se a gente tira um pedaço aqui é para sustentar a família.” Por isso, defender o território é tão importante, porque se trata da defesa da vida indígena. Com firmeza, Elza nos reforça que os povos indígenas “nunca tiraram os direitos dos seres humanos. Não somos invasores. Somos donos do Brasil e até hoje defendemos a natureza. Nossos antepassados não nos ensinaram a tirar pedaço através do dinheiro.

“Monoculturação” da terra e da vida: colonialidade persistente

O esforço por tornar os indígenas do Cerrado mais ‘produtivos’ e integrados, ou, simplesmente, “mais humanos”, como aponta Célia Xakriabá, faz parte do apagamento de seus modos de vida pelo processo de acumulação capitalista de suas terras. Isso remete muito ao que seja uma ideia de modernização conservadora da agricultura, do agronegócio, com base em eficiência e produtivismo, necessitando de grandes extensões para o cultivo de poucas espécies. A “monoculturação” da terra e da vida, de que nos fala Célia, precisou, assim, da fronteira e do apagamento dos modos de vida e da desqualificação da diversidade produtiva e alimentar dos povos indígenas das terras baixas da América do Sul.

Classificados como caçadores e coletores e, como tal, inferiorizados como sociedades menos desenvolvidas nos estudos antropológicos colonialistas do século XIX, esses povos tiveram sua colonização assim justificada. Fazendo questão de ignorar que o hábito de habitar lugares, nem sempre de forma fixa, estava conectado a uma seleção de sementes e frutos, de caças sazonais ligadas a esses cultivos e suas coletas, que levaram ao cultivo de jardins, hortas e quintais móveis e aprimorados no território estendido que hoje conhecemos como Brasil Central, essa colonização classificou e hierarquizou a caça-coleta como atividade menor, e não agrícola. E não se trata apenas do período colonial português, mas da colonização e colonialidade persistentes em processos como a Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas e, mais tarde, a modernização conservadora da Ditadura Empresarial-Militar. Assim, abriram-se literalmente as porteiras para instalar empreendimentos monoculturais, apagando práticas de reprodução social sofisticadas, embora simples. Não há coleta e caça indefinida, sem planejamento.

A mobilidade e as migrações pelo grande território central da América do Sul implicaram em uma seleção delicada do que se comia, do como se tirava, do que se plantava e se manejava, bem como implicaram na seleção das moradas que se estabeleciam extensivamente desde esse processo e, não, o contrário. Assim, ser caçadores e coletores levou os Xerente, os Xavante, os Xakriabá, os Apinajé ou os Guarani e Kaiowá a manejar estas práticas como seus instrumentos de vida, sendo muito mais atos de fazer o território extensivamente para bem viver com ele, do que dominar, delimitar e explorar o território para mais valer dele, como faz o agronegócio.

O território se cultiva. O silêncio que se percebe quando se conversa com o Cerrado, como diz Elza Xerente, é o silêncio que mostra como sua vida está ameaçada. “A natureza tem vida que nem o ser humano e pede para nós defender. Se acabar com os frutos do Cerrado, como vamos nos alimentar? Vamos passar fome. Todo mundo tem o direito de viver. (…) Essa pulverização aérea está acabando com a vida dos povos indígenas.”


[1] O marco temporal é um argumento jurídico levantado por deputados e senadores, em sua maior parte presentes na CPI FUNAI-INCRA e nos relatórios referentes ao Projeto de Emenda Constitucional 215, de que as terras tradicionais mencionadas no Art. 231, seriam apenas aquelas onde houvesse a presença de povos indígenas até a data da promulgação da Constituição, em outubro de 1988. 

[2] Esbulho Renitente são as usurpações, deslocamentos e espoliações das terras indígenas ocorridas ao longo do processo de sobreposição e intervenção sobre as mesmas ocasionadas pelo Estado ou por entes privados, provocando assim o impedimento da realização do direito originário de tradicionalmente ocupar a terra.

[3] A UHE Lajeado é administrada pelo Consórcio EDP, liderada pela empresa de energia Investco S.A. Do consórcio, saiu o Programa de Compensação Ambiental Xerente (PROCAMBIX), que causou várias desestruturações na forma organizativa espacial no território desse povo.

Povos Indígenas do Cerrado: Territorialidades e modos de vida cercados pela fronteira permanente

Por Marcela Vecchione, Antonio Verissimo da Conceição, Laudovina Aparecida Pereira e Roberto Antonio Liebgott

Na toada do maracá, o tempo de habitar e viver não tem tempo marcado para acontecer. Acontece ao longo dos séculos, de um lugar a outro, embalado na relação entre os parentes Jê, e entre os parentes Tupi[1], no caminho à margem do rio, nas veredas vazadas em tempo de verão na planície, levando a campos e sertões, envolvidos por serras e chapadas. Caminhos que se construíram em estradas de árvores plantadas ou deixadas a crescer, sombreando e marcando o trânsito para as roças, enquanto outras foram transformadas em toco, cuidadosamente queimadas para dar força às raízes, palmeiras, frutos e arbustos para ser alimento, moradia, ritual.

São elementos essenciais para a autonomia e soberania indígena sobre suas vidas. Impressas no ritmo dos tempos estudados e praticados na troca de povo com povo — e também na briga entre povos, embora em aliança com a construção da paisagem. Ensinados e aprendidos de família a família; de geração a geração. Parentesco ativo e vocacionado nos encontros e assembleias: “Boa noite, parenta e parente (…) Resistimos e Existimos, parentas!” O chamado dos povos tem afeto e compromisso de proteção no presente com o que esteve no passado. História permanecendo no agora para ser futuro soberano e coletivo por meio de luta.    

No toque da resistência para permanecer na terra, povos indígenas que vivem e cultivam a diversidade do Cerrado mostram que os anos de existência por esse território tão rico e belo, além de serem de convivência, são práticas ativas de cultivo e cuidado com a paisagem. Ainda que, muitas vezes, estes povos estivessem em condição de exílio de seus lugares de partida e surgimento, o refúgio em outros lugares acabou cultivando culturas de insurgência para permanecer o povo, as sementes e a comida, muito embora em situações trágicas de resistência.

São muitos anos de ciência do território que contribuem para que o Cerrado, ou melhor dizendo os cerrados, existissem e se construíssem como paisagens diversas. Por isso mesmo, é difícil confinar os fazeres e os saberes dos povos indígenas e seus territórios de existência a pequenos espaços, muitas vezes, ainda nem demarcados, já que nem 40% das Terras Indígenas (TIs) autodeterminadas no Cerrado são sequer declaradas pelo poder público. Ou ainda, quando o são, encontram-se encurraladas por atividades econômicas que impedem as possibilidades diversas de existência nessas terras tradicionalmente ocupadas[2].

A revivência desse processo excludente e de apagamento remonta ao século XVIII, quando avançaram violenta e rapidamente a colonização e as chamadas entradas[3] pela grande bacia hidrográfica integrada que compõe os rios Araguaia e Tocantins. As entradas seguiram o ciclo de interiorização da colonização pelo Brasil Central, primeiro pelo rio Araguaia, navegando pelos afluentes até onde possível, depois adentrando suas espraiadas várzeas a pé, utilizando as estradas de varadouro e as picadas de terra firme dos indígenas, e os encontrando quando ali faziam morada num território de muitos trânsitos e, portanto, mais extensivo e não tão delimitado como são as Terras Indígenas atualmente.

Ainda no século XVIII, indígenas Akroá Gamela e Awá Guajá, que hoje habitam a porção mais setentrional de transição do Cerrado à Amazônia Oriental foram deslocados violentamente, sendo muitos deles escravizados. Tanto os Akroá Gamela como os Awá Guajá[4], parte do tronco Macro-Tupi, fizeram-se valer de estratégias de sobrevivência, co-habitando territórios com outros povos, inclusive de outros troncos e famílias linguísticas, para resistir nas frestas do que estava sendo o “povoamento” dos brancos no Brasil Central pelos colonizadores. Em algumas situações, como ocorreu com os Gamela, esse “povoamento” branco, eliminando outros povos para se apropriar e extrair tudo o que se podia, inclusive trabalho, dos territórios, levou à perda da língua ou ao exílio, falsamente colocado como escolhido, a que se chama hoje voluntário, causado pela negação a sucumbir às brutais frentes de atração[5]. Esconder-se se movendo para outros lugares, apagar-se deliberadamente como povo em um determinado momento, foi a forma encontrada para se manter enquanto povo ao longo dos tempos, no futuro. Neste sentido, partiu-se para continuar a ser.

Os Akroá Gamela, devido às várias violências citadas, foram criando estratégias de miscigenação com povos Jê das chapadas centrais do que hoje conhecemos como Maranhão e Tocantins, como é o caso daqueles da família Timbira, tendo misturado suas línguas a fim de resistir à escravização e a seu apagamento enquanto povo, especialmente no que hoje é o Sul do Piauí. Mais contemporaneamente, no século XX, uma parte desse povo também passou a habitar área de intenso conflito na baixada maranhense, nos municípios de Viana e Matinha. No Cerrado piauiense, buscam (re)existir no munícipio de Santa Filomena. Já os Awá Guajá permaneceram no manejo da língua Macro-Tupi, exilando-se e isolando-se, em parcerias construídas com os indígenas da família Tenetehara, tais como Guajajara e Tembé, além de que com o povo Ka’apor, habitando a leste do rio Gurupi, no Maranhão.

Com os Avá-Canoeiro, havendo hoje um subgrupo desse povo considerado como de recente contato, a dispersão do Leste do Goiás e das chapadas mais ao meio do Brasil Central, significou busca por sobrevivência. Originalmente, deslocados da cabeceira do rio Tocantins, no Goiás, rumo ao Araguaia, os Avá-Canoeiro foram acometidos por processos de aldeamentos forçados, de guerras entre povos provocadas pelos colonizadores, e de privação de suas práticas de coleta e caça ou de agricultura. Esse tipo de “exílio” se reproduziu entre muitos dos povos Tupi no Cerrado (conhecidos como parte do fluxo Tupi-Guarani Norte). Parte deles teve que se isolar para não ser (ex)terminados ou pedir refúgio nas terras de outros parentes Tupi, por vezes entrando em processos de trégua e utilização de espaços territoriais com antigos inimigos Jê. 

O triste e violento episódio continuado de extermínio dos Avá-Canoeiro retrata uma fragmentação causada no seio deste povo Tupi, começando no século XVIII, quando chegaram a se mover em busca de refúgio para vida autônoma até o Norte de Minas Gerais. O extermínio se acirrou na segunda metade do século XIX, tomando outro corpo de violência pelo Estado, e acelerando na segunda metade do século XX. A peregrinação, em seu início no século XVIII, foi marcada pela pressão sofrida pelas frentes colonizadoras do Goiás na cabeceira do rio Tocantins. Diante disso, esse povo passou a trilhar seu longo caminho de trânsito por deslocamento rio abaixo, pois preferiam a morte a serem aldeados. No final do século XIX, os “pioneiros” passaram a usar os Javaé (tronco Jê) para capturar e colocar em cativeiro os Avá-Canoeiro. Até então, esses dois povos eram inimigos, mas viviam em relativa harmonia, revezando-se na habitação e cultivo das várzeas dos rios Tocantins e Araguaia. Não havia movimento de dominação de um sobre o outro.

Neste momento, uma parte dos Avá-Canoeiro se negou ao domínio dos Javaé, em grande medida manipulados pelos bandeirantes, e voltou às cabeceiras do Tocantins. Outra parte adotou a estratégia de seguir e viver no território Javaé e Karajás, já negociado por esses povos com os bandeirantes, na Ilha do Bananal, em parte do que hoje conforma o Parque Indígena do Araguaia, e seguem lutando ao lado desses povos hoje na defesa da ilha como território tradicional compartilhado. Infelizmente, aqueles que voltaram às cabeceiras do rio Tocantins, foram atingidos na década de 1990 pela inundação de sua área ocasionada pelo complexo hidrelétrico da Serra das Mesas. Ficaram com um território (original) alagado pelo avanço da fronteira hidrelétrica. Os que foram para o Araguaia e começaram a compartilhar o território nos interstícios do rio Formoso na década de 1990, resistiram em um pequeno núcleo familiar, que se tornou trilíngue, dominando também a língua dos parente Jê – Javaé, Karajás e Kraho-Kanela –, criando estratégias de caça e coleta e de relações interétnicas para poderem sobreviver. Como acreditavam que poderiam voltar à terra original em sonhos ou em sua morte, a estratégia parecia uma forma de continuarem vivendo no presente, imaginando os futuros ao movimentar lugares sagrados por seus trânsitos de resistência e permanência, levando-os a novos lugares, na luta pelo reconhecimento de uma terra sua. Esta luta foi conquistada no processo de identificação da TI Taego Ãwa[6], na área de ocupação tradicional Mata Azul, em Formoso do Araguaia (TO). A terra, declarada em 2016, seguiu à homologação por determinação judicial, dada a situação de calamidade no que tange à soberania alimentar, enfrentada por esse povo indígena em 2018. Desde então, o processo no Supremo Tribunal Federal está suspenso.

A disputa que impede a TI Taego Ãwa de ser finalmente homologada envolve, justamente, uma das maiores áreas de planície alagada do mundo, compondo o maior

conjunto de várzeas fluviais contínuas existentes no planeta, que é a Ilha do Bananal. A área a ser homologada compreende ocupação de posseiros médios, enviados por grandes fazendeiros pecuaristas para a ilha, que hoje já tem quase 120 mil cabeças de gado nas pastagens naturalmente alagadas, comprometendo seus usos e manejo para outros fins, bem como contaminando as várzeas contínuas.

Os pecuaristas alegam que os Avá-Canoeiro[7] não são dali e que ali chegaram trazendo outros parentes do rio Tocantins, nos anos 2000. O que os pecuaristas querem ignorar é o exílio contínuo e constante desse povo por outras terras, habitando grutas, escondendo-se em cavernas — por isso, adaptaram-se às chapadas dos cerrados — e comprometendo sua alimentação pela impossibilidade da reprodução de seus modos de vida. Esse deslocamento-sobrevivência os levou, ainda na década de 1980, para o Nordeste da Ilha do Bananal, mais próximo ao Sul do Pará, ou por vezes compartilhando território com os Suruí (Aikewara) ou os Assurini do rio Tocantins também neste estado, mostrando-se exímios caminhantes e canoeiros da transição do Cerrado rumo à Amazônia. Ou seja, os Avá-Canoeiro (sobre)vivem às/nas fronteiras, enquanto se refugiaram em direção oposta ao seu avanço, ou rumo a espaços ora esquecidos, mesmo que momentaneamente, pela brutalidade que marca os deslocamentos pela fronteira[8], manejando o espaço e o tempo a seu favor sempre que possível.


[1] O Macro Jê e o Tupi são troncos linguísticos onde se inserem algumas das mais de 250 línguas indígenas que existem no Brasil.  Um tronco é como se fosse o latim para o português ou para o espanhol, ou seja, de um tronco podem sair vários ramos, que são as famílias, que agrupam as línguas indígenas. No Cerrado, os povos Jê, do tronco Macro Jê, são a predominância demográfica e linguística da região.

[2] As terras tradicionalmente ocupadas são aquelas ocupadas pelos Povos Indígenas que se autodeterminam enquanto tais e que, portanto, autodeterminam quais são as suas terras. O Art. 231 da Constituição Federal reconhece estas terras como direito originário, competindo aos órgãos responsáveis apenas a característica declaratória desse reconhecimento, não sua determinação e definição. 

[3] As entradas foram formas de colonização, aldeamentos e contatos.

[4] Parte do tronco Macro-Tupi, os Akroá Gamela e o Awá Guajá eram um dos povos mais numerosos do que passou a se chamar a Fronteira Araguaia-Tocantins nas frentes de expansão ainda no século XVIII. Historicamente, colocam-se ambos como parte da família Tupi.

[5] As frentes de atração ocorreram durante todo o século XVIII e XIX e foram imprescindíveis para as frentes de expansão se consolidarem territorialmente, usurpando o trabalho dos povos indígenas. Neste movimento, os colonizadores, pelas bandeiras, atraíam os indígenas das cabeceiras dos rios e dos interiores para descer o curso do rio (descidas), em combinação com o processo de adentrar o território (entradas), com negociações que, muitas vezes, envolviam povos rivais e a ação de catequizadores. Assim, aldeavam os indígenas e os escravizavam, quando não os assassinavam, incorporando-os à empresa colonial, seja no momento imperial ou republicano. Faziam isso, especialmente, quando impediam os trânsitos e as relações econômicas e sociais indígenas, que não eram de fixidez, impedindo, consequentemente, sua reprodução social.

[6] Para mais informações sobre a demarcação da TI Taego Ãwa, ver: Luciana Ferraz. Relatório ambiental da Terra Indígena Taego Ãwa. Brasília: Funai, 2012.

[7] Para mais informações sobre os grupos Avá-Canoeiro e seus trânsitos, ver relatório do processo de identificação da TI: Patrícia de Mendonça Rodrigues. Os Avá-Canoeiro do Araguaia e o Tempo do Cativeiro. Anuário Antropológico. 19 de fevereiro de 2018. Disponível aqui.

[8] Esse tipo de deslocamento é a marca da grande família Tupi-Guarani, que dominava a costa Atlântica quando esta foi invadida pelos portugueses. Os povos dessa família foram se refugiando desde esses contatos.

Povos Indígenas do Cerrado: Caminhando e Cultivando R-Existências Diversas

Por Marcela Vecchione, Antonio Verissimo da Conceição, Laudovina Aparecida Pereira e Roberto Antonio Liebgott

Os povos indígenas do Cerrado são herdeiros de saberes ancestrais e, ao longo de milênios, manejam e multiplicam a biodiversidade dessa região. Caminhantes de chapadas e rios, são guardiões de sementes, cuidadores de roças diversas, caçadores, pescadores e guerreiros. Combinam técnica e exímio manejo do mundo da natureza com que convivem e onde vivem, praticando o agroextrativismo de frutos nativos e plantas medicinais, bem como tantos elementos que conjugam na feitura de belos artesanatos. Muitos dos saberes que os diversos povos e comunidades tradicionais praticam na convivência com o Cerrado — como os artesanatos de capim dourado e palha de buriti, os múltiplos usos do coco-babaçu e a agricultura de cheia e vazante dos rios — foram desenvolvidos e adaptados ao longo do tempo por seus ancestrais indígenas. Os povos indígenas que habitam o Cerrado são resistentes e lutam para permanecer em seus territórios há séculos, tendo enfrentado reiterados deslocamentos forçados e tentativas de apagamento de suas existências, seja em aspectos materiais ou imateriais.

Em um tempo mais recente, da passagem do século XIX ao XX, e, de forma mais sistemática, desde os anos 1930 e 40, os povos indígenas das diversas paisagens do Cerrado vêm seguindo suas longas rotas de trânsito e constituição territorial de maneira a (sobre)viver diante da violenta expansão dos cercamentos das terras férteis e águas abundantes que habitavam e ajudaram a construir, como nas planícies e vales do Araguaia, ou nas imensas matas de galeria do alto rio Tocantins. Esse é também o caso das terras pretas no Mato Grosso, no Maranhão e em tantas outras áreas dessa imensa região, tida como o epicentro do agronegócio do Brasil, mas, que, na verdade, é o coração pulsante de tantas culturas indígenas. Muitas áreas, que se transformaram nos latifúndios do Centro-Sul do país e, hoje, do chamado Matopiba, se interpuseram e deslocaram tantos povos indígenas, aproveitando-se da biodiversidade e da riqueza da terra que eles ajudaram a fecundar. 

Transformando-se muitas vezes em povos sem terra, deixando a terra sem povos, em razão das expulsões contínuas que sofreram e sofrem, os povos indígenas do Cerrado lutam para r-existir. Lutam para (re)produzir seus modos de vida frente às ameaças constantes de destruição das terras, das águas, das matas, dos bichos, de suas culturas e lugares sagrados. Lutam para assegurar, retomar e permanecer em seus territórios de vida e de direito, afirmando que existem e continuarão existindo como povos. 


O texto acima foi extraído do artigo “Povos Indígenas do Cerrado: Caminhando e Cultivando R-Existências Diversas”, que faz parte do Livro Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade, publicado pela Campanha em Defesa do Cerrado em 2020.

O próximo texto de nossa Semana Indígena tratará das territorialidades e dos modos de vida dos povos originários do Cerrado. Vai perder? Acompanhe e siga a Campanha em Defesa do Cerrado no facebook e no instagram.


Ilustração: Estúdio Massa

Articulação divulga, nesta quarta, Dossiê Agro é Fogo: grilagem, desmatamento e incêndios na Amazônia, Cerrado e Pantanal

Plataforma agrega análises e denúncias sobre as múltiplas dimensões da devastação ambiental e dos conflitos por terra que se dão no rastro do uso criminoso do fogo pela cadeia do agronegócio

Nesta quarta-feira, dia 14 de abril, às 18 horas (horário de Brasília), será disponibilizado ao público, no endereço https://agroefogo.org.br/, o Dossiê Agro é Fogo: grilagem, desmatamento e incêndios na Amazônia, Cerrado e Pantanal, uma produção que conta com o envolvimento de representantes de movimentos, organizações e pastorais sociais que compõem a Articulação Agro é Fogo.

As análises apresentadas neste Dossiê abordam as seguintes temáticas:

A boiada está passando: desmatar para grilar; O agronegócio e o Estado brasileiro: quem lucra quando a boiada passa?; Presidência e parlamento a serviço dos grileiros: legislar para grilar; Ligações perigosas: fundos de pensão internacionais, incêndios e grilagens no Matopiba; Trabalho escravo, expropriação e degradação ambiental: uma conexão visceral; Saberes que vêm de longe: Usos tradicionais do fogo no Cerrado e Amazônia.

Além desses artigos, a plataforma apresenta também seis casos de conflitos territoriais:

A luta da comunidade quilombola Barra da Aroeira na defesa de seu território; Fogo ameaça povo indígena isolado na Ilha do Bananal; Gleba Tauá: luta pela terra no Cerrado tocantinense; Território Guató em chamas: “As árvores não têm pra onde correr!”; Território Kadiwéu e as queimadas; Tragédia anunciada na BR-319.

À medida que a estação seca se aproxima, pode-se enfrentar uma nova temporada de incêndios devastadores. E diante de um governo que apoia os grileiros, ao mesmo tempo em que desmonta os órgãos ambientais no Brasil, é fundamental a mobilização social em defesa dos direitos de povos e comunidades que enfrentam conflitos territoriais no rastro do fogo.

Defender a reforma agrária e os direitos territoriais dos povos e comunidades da Amazônia, Cerrado e Pantanal não é somente um imperativo ético, mas também ecológico. Se ainda há Pantanal, Cerrado e Amazônia em pé é porque esses povos estão com os pés em seus territórios, defendendo as matas, as águas, os bichos e a biodiversidade.

Articulação Agro é Fogo

O fogo é um elemento da natureza manejado com sabedoria e cuidado pelos povos indígenas e comunidades quilombolas, tradicionais e de base camponesa na Amazônia, Cerrado e Pantanal há milênios. Os saberes desenvolvidos ao longo de muitas gerações, adaptados a diversos ecossistemas e herdados por esses povos e comunidades permitiram a conservação e multiplicação da biodiversidade e o manejo de longo prazo da paisagem agroflorestal.

Com outras intenções e em outras escalas, a cadeia do AGRO utiliza o fogo de forma direta ou indiretamente associada a processos de desmatamento e grilagem, buscando promover e consolidar a expansão da fronteira agrícola. Os incêndios florestais provocados no caminho causam a devastação ambiental e, ao mesmo tempo, constituem uma arma para ameaçar e expulsar os povos e comunidades de seus territórios de vida.

A Articulação AGRO é FOGO reúne cerca de 30 movimentos, organizações e pastorais sociais que atuam há décadas na defesa da Amazônia, Cerrado e Pantanal e seus povos e comunidades. Surgiu enquanto articulação como reação aos incêndios florestais que assolaram o Brasil nos últimos dois anos. Do infame Dia do Fogo em 2019 aos incêndios que devastaram o Pantanal em 2020, assistimos atônitos a um governo federal que mente sobre as causas e sobre a sua própria responsabilidade no ocorrido.

O que move a Articulação é não somente a necessidade de qualificar o debate público, mas, sobretudo, ir além das imagens de satélite e números de desmatamento, trazendo a dimensão do que é vivido no chão da floresta e dos sertões.


SERVIÇO

Disponibilização do Dossiê digital Agro é Fogo na plataforma www.agroefogo.org.br
Quarta-feira, dia 14 de abril, às 18 horas (hora de Brasília)

Mais informações:
E-mail: agroefogo@gmail.com
Elvis Marques (assessoria de comunicação Articulação Agro é Fogo) +55 62 99113-8277
Bruno Santiago (GT de comunicação da Articulação Agro é Fogo) +55 11 99985-0378

Vitória Guarani Kaiowá: STF acolhe recurso e abre caminho para reverter decisão que anulou demarcação da TI Guyraroka

O Supremo Tribunal Federal decidiu por unanimidade que vai analisar a ação rescisória dos Guarani Kaiowá, que não foram ouvidos no processo que anulou a demarcação de sua terra

Por Assessoria de Comunicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

Por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu admitir o recurso do povo Guarani Kaiowá e analisar a ação rescisória, movida pelos indígenas, que busca reverter a anulação da demarcação da Terra Indígena (TI) Guyraroka, no Mato Grosso do Sul. A decisão se deu em julgamento virtual, iniciado no dia 26 de março e encerrado nesta quarta-feira (7). Os onze ministros da Corte votaram a favor da demanda da comunidade.

O caso da TI Guyraroka é simbólico na luta dos povos indígenas em defesa do direito de acesso à Justiça e contra a tese do marco temporal. Sua demarcação foi anulada pela Segunda Turma do STF em 2014, com base na tese do marco temporal e sem que a comunidade participasse do processo. Os indígenas tentaram diversas vezes recorrer da decisão, sem sucesso, e o caso transitou em julgado em meados de 2016.

Por esse motivo, em 2018, a comunidade ingressou com a atual ação rescisória, buscando reverter a decisão devido aos graves erros e violações cometidas. Ainda naquele ano, a rescisória foi negada pelo relator, o ministro Luiz Fux – que, no jargão jurídico, “não conheceu” a ação, ou seja, sequer abriu processo para analisá-la no mérito. A comunidade recorreu, apoiada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Foi esse recurso que, agora, recebeu decisão favorável da Suprema Corte. Inicialmente, Fux havia se manifestado contrariamente ao recurso, no que foi acompanhado pela ministra Carmen Lucia. Ainda em 2018, o julgamento foi suspenso após pedido de vistas do ministro Edson Fachin. Retornou agora, em março de 2021, com voto favorável do ministro.

Após o voto-vista de Fachin, o relator, Luiz Fux, reviu sua posição e votou a favor da comunidade. Foi acompanhado por todos os demais ministros e ministras, fechando um placar de onze a zero em favor da demanda Guarani Kaiowá.

“O processo que anulou a demarcação já transitou em julgado, ou seja, já acabou. O que está em jogo agora é essa outra ação, rescisória, cujo objetivo é anular aquele outro processo”, explica Rafael Modesto dos Santos, assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário – Cimi e um dos advogados da comunidade de Guyraroka.

“Se a comunidade ganhar essa ação, aí sim, tudo volta à estaca zero: a portaria declaratória de Guyraroka volta a ser validada, e tanto o processo quanto a decisão que anularam a demarcação se tornam nulos”, sintetiza Rafael.

Com a decisão desta semana, o julgamento do mérito da ação rescisória iniciará, com a participação da comunidade da TI Guyraroka, e tem chances reais de reverter a anulação da terra indígena – uma luta não só das 26 famílias que vivem nela, mas de todo o povo Guarani e Kaiowá.


“Essa decisão favorável é um passo muito importante para nós, mas sabemos que vem mais coisas por aí e estamos prontos e com a expectativa de fazer parte desse processo”


“Essa decisão favorável é um passo muito importante para nós, mas sabemos que vem mais coisas por aí e estamos prontos e com a expectativa de fazer parte desse processo”, comemora Erileide Domingues, jovem liderança Guarani Kaiowá do tekoha Guyraroka.

“Queremos que a comunidade seja ouvida, principalmente as pessoas centenárias, as lideranças, as crianças que cresceram aqui dentro, as pessoas que retomaram essa aldeia. É importante ouvir e entender qual é o motivo de recuperar nosso espaço”, reivindica a Kaiowá.


“A falta de citação da comunidade justificou a decisão de admitir a ação rescisória. Essa é a mesma questão que está no mérito do processo” 


Próximos passos

Agora, o julgamento da rescisória deve iniciar formalmente, com a citação dos réus e a abertura de prazo para as manifestações das partes. Para o assessor jurídico do Cimi, o julgamento já parte de uma perspectiva positiva para os Guarani Kaiowá.

“A falta de citação da comunidade justificou a decisão de admitir a ação rescisória. Essa é a mesma questão que está no mérito do processo”, afirma Modesto.

Outro argumento elencado pela defesa dos Guarani Kaiowá é a aplicação indevida da tese do marco temporal na decisão que anulou a TI Guyraroka – ignorando o laudo antropológico da Fundação Nacional do Índio (Funai), que detalhava a presença dos indígenas no território, inclusive na década de 1980, e o processo de violência e expulsões que atingiu a comunidade.

“Imaginamos que esses próximos passos serão rápidos, porque não haverá provas a produzir. Nossas provas já estão pré-estabelecidas, que são o laudo antropológico e a falta de citação”, analisa o assessor.

Vigília do povo Guarani Kaiowá em defesa da TI Guiraroka, em frente ao STF. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Vigília do povo Guarani Kaiowá em defesa da TI Guiraroka, em frente ao STF. Foto: Tiago Miotto/Cimi

Tutela e erro de fato

Em seu voto, o ministro Edson Fachin destaca que a negação do ingresso da comunidade indígena no processo que anulou a demarcação da TI Guyraroka pode ter violado o Código de Processo Civil e afrontado diretamente o artigo 232 da Constituição Federal, “pois representou negativa de acesso à justiça aos índios”.

A Funai, “no ordenamento constitucional vigente, não detém mais nenhuma tutela sobre os índios”, salienta Fachin. Além disso, o ministro destaca que o próprio STF já definiu, no caso Raposa Serra do Sol, que o marco temporal e as demais condicionantes daquele julgamento “não se aplicavam imediatamente, com eficácia vinculante, às demais demarcações de terras indígenas pelo País”.

Em seu novo voto, o relator Luiz Fux também reconhece que a desconsideração de fatos e documentos apresentados na ação inicial pode ter configurado “eventual erro de fato verificável do exame dos autos”.


“O julgamento da TI Guyraroka adquire uma importância grande na atual conjuntura, mas também em relação ao julgamento do recurso extraordinário com repercussão geral que também está no STF”


Caso simbólico

O caso da TI Guyraroka é considerado um caso simbólico devido ao conjunto de violações aos direitos indígenas que reúne – tendo sido, inclusive, levado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que emitiu medidas cautelares em favor da comunidade, após visita de uma comitiva à Terra Indígena, em 2018.

Além da negação de acesso à Justiça e da aplicação da tese do marco temporal, considerada inconstitucional, as famílias do tekoha Guyraroka vivem em apenas 55 dos 11,4 mil hectares identificados como parte de sua terra tradicional e sofrem com ameaças e os agrotóxicos aplicados nas lavouras que cercam a aldeia e já causaram a intoxicação de adultos, crianças e idosos.

Para Luís Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e também advogado da comunidade na ação, o caso de Guyraroka reflete uma realidade enfrentada por muitos povos indígenas em todo o país.

“Guyraroka é um caso clássico do que as comunidades indígenas enfrentam por todo o país, qual seja, a dificuldade de ter acesso à Justiça. Vários processos estão tramitando e decisões sendo tomadas sem ouvir os maiores interessados, justamente as pessoas que vão arcar com o peso de eventual decisão judicial”, destaca Eloy.

O julgamento da ação sobre a TI Guyraroka está diretamente relacionado com o caso de repercussão geral que tramita no Supremo e que deverá discutir, justamente, questões tratadas no processo sobre a terra dos Guarani Kaiowá – entre elas, a tese do marco temporal, considerada inconstitucional e oposta aos direitos originários garantidos aos povos indígenas pela Constituição Federal.

“O julgamento da TI Guyraroka adquire uma importância grande na atual conjuntura, mas também em relação ao julgamento do recurso extraordinário com repercussão geral que também está no STF”, pondera Antônio Eduardo de Oliveira, secretário executivo do Cimi.

Com a repercussão geral, o julgamento deste recurso extraordinário terá consequências para todos os povos indígenas do país e passará a ser usado como uma referência para os futuros julgamentos.

“Nós nos alegramos com o resultado desse julgamento, porque sinaliza que os ministros podem vir a ter o mesmo entendimento com relação ao caso de repercussão geral, o que seria uma grande vitória para os povos indígenas no Brasil”, avalia.


Foto (topo da notícia): Erileide Domingues, da TI Guyraroka, em vigília do povo Guarani Kaiowá em frente ao STF. Crédito: Tiago Miotto/Cimi

Carta pública: Em defesa de direitos territoriais das comunidades do Cerrado, os povos do campo merecem ser escutados!

Representantes de movimentos, organizações sociais e comunidades dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia se reuniram no dia 26 de fevereiro de 2021 para debater as ameaças aos direitos territoriais que as comunidades tradicionais do Cerrado da região vêm sofrendo e querem ecoar sua voz.

Neste ano de pandemia de Covid-19, os grileiros e desmatadores não entraram em quarentena e as comunidades se viram muitas vezes sujeitas a situações de conflito. Esses conflitos por terra acompanham a expansão da fronteira agrícola sobre a região chamada MATOPIBA. E diante do fato de que muitos processos de demarcação e titulação dos territórios não avançam, a situação de vulnerabilidade das comunidades só aumenta.
 
O Cerrado dos quatro estados contém as extensões mais preservadas de toda a savana brasileira, em especial nas porções sob ocupação tradicional indígena, quilombola, ribeirinha, geraizeira, de fundo e fecho de pasto e de quebradeiras de coco-babaçu e nos assentamentos de reforma agrária. Esse Cerrado é o berço das águas e biodiversidade, fonte de alimentos e base para a vida e geração de renda de centenas de milhares de famílias.
 
Mas essa realidade vem mudando de forma acelerada à medida que o Cerrado da região foi sendo visto como uma oportunidade de negócios. Um processo que iniciou já nas décadas de 1970 e 80, no Oeste da Bahia, e teve trajetórias diversas, mas viu uma aceleração com o chamado boom das commodities nos anos 2000 e com a consolidação do entendimento da região como destino de investimentos em terras e empreendimentos monoculturais para exportação, referendada sob a égide do MATOPIBA.
 
A não concretização, do ponto de vista institucional, do anúncio de lançamento do Plano de Desenvolvimento Agrícola (PDA) Matopiba em 2015 e a posterior revogação do Decreto em 2020 podem dar a falsa impressão de que o processo tenha sido suspenso. Mas a expansão conflitiva e devastadora da fronteira agrícola sobre a região continuou sendo realidade antes, durante e depois de sua breve vida institucional. É assim que, por exemplo, o Cerrado da região foi mais desmatado nos últimos 20 anos (12,23 milhões de hectares entre 2000 e 2019) do que nos 500 anos anteriores (10,75 milhões de hectares até o ano 2000), de acordo com dados do PRODES Cerrado do INPE.
 
Ao mesmo tempo, assistimos com preocupação enquanto importantes debates com profundas implicações sobre a vida dos povos do campo têm ocorrido a portas fechadas. Os governos e mesmo o poder judiciário dos estados da região têm firmado acordos com o Banco Mundial para financiamento de ações de regularização fundiária e mudanças nas legislações estaduais de terras que objetivam declaradamente oferecer segurança jurídica para grupos nacionais e internacionais que compraram ou pretendem comprar grandes extensões de terras na região. Trata-se, na realidade, de propostas que visam legalizar o ilegal, ou seja, validar grilagens de terras públicas e tradicionalmente ocupadas que deram origem aos latifúndios do agronegócio, assim como permitir a continuidade desse processo.
 
Por outro lado, as Corregedorias dos Tribunais de Justiça Estadual dos quatro estados têm se reunido, desde 2018, no chamado Fórum Fundiário dos Corregedores Gerais de Justiça do MATOPIBA, em eventos com participação restrita, sem participação da sociedade civil organizada, especialmente as comunidades, movimentos sociais e organizações do campo que são diretamente impactadas pelas alterações normativas e de resoluções que têm sido promovidas desde então.
 
No mesmo sentido, em 09 de junho de 2020, por meio da Portaria Conjunta do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), houve a inclusão do MATOPIBA no Observatório Nacional sobre Questões Ambientais, Econômicas e Sociais de Alta Complexidade e Grande Impacto e Repercussão do CNJ e do CNMP.
 
Nestes importantes espaços têm sido realizados debates e aprovados encaminhamentos para lidar com o chamado caos fundiário na região, mas até então os principais interessados, ou seja, todos os povos do campo em sua imensa diversidade, especialmente aqueles atingidos pelos conflitos fundiários, não têm sido chamados para participar e contribuir; em síntese, não são consultados sobre propostas que vão ter consequências diretas sobre os seus modos de vida, violando, no caso dos povos indígenas e comunidades tradicionais, o direito à Consulta Livre, Prévia e Informada, determinada pela Convenção 169 da OIT.
 
Os órgãos do sistema de Justiça, assim como os poderes executivo e legislativo, têm uma grande responsabilidade tanto no que se refere ao triste quadro atual dos conflitos agrários, como também na superação e resolução destes mesmos problemas. É neste sentido que nós, organizações e movimentos sociais, comunidades, sindicatos e grupos de pesquisa abaixo assinadas, apelamos aos governos estaduais, às assembleias legislativas, e especialmente ao Fórum Fundiário dos Corregedores Gerais de Justiça do MATOPIBA, ao Conselho Nacional de Justiça e ao Conselho Nacional do Ministério Público, para que os povos do campo sejam ouvidos e suas propostas consideradas, tendo em vista que a participação social é uma condição fundamental para o exercício da cidadania e da democracia.

Assinam:

  1. Agência 10envolvimento – Bahia

  2. Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins – APA-TO

  3. Articulação Estadual das Comunidades Tradicionais de Fundos e Fechos de Pasto

  4. Articulação Tocantinense de Agroecologia – ATA

  5. Articulação Pacari Raizeiras do Cerrado

  6. Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais no Estado da Bahia – AATR

  7. Associação Agroecológica Tijupá – Maranhão

  8. Associação Apsu de Povos Indígenas do Sangue em Uruçuí – Piauí

  9. Associação dos trabalhadores filhos e amigos de Currais – Piauí

  10. Associação União das Aldeias Apinajé – Pempxà

  11. Associação Ecológica e Meio Ambientalista – AEMA – Mato Grosso

  12. Casa de Sementes Cocalinho – Aldeia Apinajé Cocalinho – Tocantins

  13. Coletivo de Mulheres do Oeste Baiano

  14. Articulação Justiça e Direitos Humanos – JusDH

  15. ACIFORP – Associação de Combatentes de Incêndios Florestais de Formosa do Rio Preto – Bahia

  16. Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo – APOINME

  17. Associação de Preservação Ambiental Ecoterra – Tocantins

  18. Associação Boa Vista – Loreto / Maranhão

  19. Amigos da Terra Brasil

  20. Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

  21. Coletivo de Fundo e Fecho de Pasto do Oeste da Bahia

  22. Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais dos Cerrados do Piauí

  23. Comissão Pastoral da Terra – CPT Nacional

  24. Comissão Pastoral da Terra – CPT Piauí

  25. Comissão Pastoral da Terra – CPT Regional Maranhão

  26. Comissão Pastoral da Terra – CPT Araguaia-Tocantins

  27. Comissão Pastoral da Terra – CPT Bahia

  28. CPT Diocesana de Bom Jesus do Gurgueia – PI

  29. Comunidade Indígena Jenipapeiro

  30. Comunidade Quilombola Guerreiro – Maranhão

  31. Conselho Indigenista Missionário – CIMI Leste

  32. Conselho Indigenista Missionário – CIMI Goiás Tocantins

  33. Conselho Indigenista Missionário – CIMI Regional Maranhão

  34. Conselho Indigenista Missionário – CIMI Nacional

  35. Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos – CONAQ

  36. Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins – COEQTO

  37. Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE

  38. Centro Dom Helder Camara de Estudo e Ação social – CENDHEC

  39. Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos

  40. Centro de Direitos Humanos de Sapopemba – CDHS

  41. CDDH Dom Tomás Balduíno de MARAPÉ ES

  42. Federação dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Bahia (FETAG-BA)

  43. Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do estado da Bahia – FETRAF BA

  44. Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE

  45. Fórum Ecológico de Bacabal – FECOBAC

  46. Fórum da Amazônia Oriental – FAOR

  47. Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – Formad

  48. Fórum Permanente de Saúde

  49. GeografAR (A Geografia dos Assentamentos na Área Rural)

  50. Grupo de Pesquisa sobre Geografia, Territórios e Sociedades / UFMA

  51. Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte – GPEA/UFMT

  52. Instituto EcoVida

  53. Instituto Sociedade, População e Natureza – ISPN

  54. Instituto Mãos da Terra – IMATERRA

  55. Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA

  56. Instituto Caracol – MT

  57. Justiça Global

  58. Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB

  59. Movimento de Mulheres Camponesas – MMC

  60. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST

  61. Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA

  62. Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB

  63. Movimento Leste Maranhense – Cerrado

  64. Núcleo de Estudos Estudos e Pesquisas em Questões Agrárias – NERA / UFMA

  65. Observatório Socioterritorial do Baixo Sul da Bahia – OBSUL/IF Baiano, campus Valença

  66. Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA

  67. Rede Mato-grossense de Educação Ambiental – REMTEA

  68. ReExisterra – Grupo de Pesquisa Resistências e Existências dos Povos Indígenas e Povos e Comunidades Tradicionais na Terra

  69. RedeSSAN – Rede de Mulheres Negras para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional

  70. Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Desidério – Bahia

  71. Terra de Direitos

Nota de pesar e solidariedade: Fátima Barros virou semente

É com profunda tristeza e dor que a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado recebe a notícia do falecimento de Maria de Fátima Batista Barros, em decorrência da covid-19. Quilombola da Comunidade Ilha de São Vicente, situada em Araguatins, no Bico do Papagaio (TO), Fátima foi uma liderança de expressão nacional e sua contribuição para as lutas em defesa dos povos e dos territórios do Cerrado é imensurável.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado se solidariza com os familiares, amigos e moradores da Comunidade Ilha de São Vicente e aproveita a oportunidade para repudiar, mais uma vez, os desmandos do governo federal genocida, responsável pelo aprofundamento da vulnerabilização da saúde dos povos indígenas e comunidades tradicionais em nosso país. 

A contribuição de Fátima para a caminhada da Campanha em Defesa do Cerrado foi fundamental. Ela esteve presente em diversos momentos de mobilização, sempre compartilhando seus saberes e denunciando as violações de direitos dos povos do Cerrado. 

Fátima agora é semente. Seu legado e suas lutas vivem em nós.


6 de abril de 2021

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Podcast Guilhotina, do Le Monde Diplomatique Brasil, apresenta os saberes e a biodiversidade do “Cerrado dos Povos”

Especial apresentará 3 episódios sobre os saberes tradicionais e as lutas de quem está com os pés no chão do Cerrado

Nesta semana o podcast Guilhotina estreia a série especial “Cerrado dos Povos: Saberes e Biodiversidade”, produzida pelo Le Monde Diplomatique Brasil em parceria com a Actionaid Brasil e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. O primeiro episódio, que apresenta o tema “Mulheres do Cerrado”, já está disponível gratuitamente em diversas plataformas.

CLIQUE AQUI PARA OUVIR

O episódio de abertura conta com a participação de Célia Xakriabá, do povo Xakriabá e da aldeia Barreiro Preto, de Minas Gerais; Adalgisa Maria De Jesus, que vive em uma comunidade de Fundo e Fecho de Pasto, em Correntina, no Oeste baiano; e Miraci Pereira Silva, agricultora do assentamento Roseli Nunes, em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso.

O bate-papo com as mulheres cerradeiras tratou sobre as pressões que elas enfrentam em seus territórios, como o uso abusivo dos recursos hídricos por grandes fazendas, a contaminação por agrotóxicos, as lutas pela igualdade de gênero no campo e a sabedoria das mulheres do Cerrado.

Durante o podcast Dona Miraci explicou que ser mulher cerradeira é lutar para defender o território onde vive. “Ser cerradeira é ter amor pela terra, por esse bioma, pelas plantas, e buscar, de todas as formas, cuidar e defender o Cerrado. Ser cerradeira é entrar na briga para defender a terra, as águas, as plantas nativas. É não calar, não cruzar os braços e estar sempre buscando sensibilizar outras pessoas, outras mulheres, porque a destruição do Cerrado é a destruição da vida de seu povo”, enfatiza a agricultora.

O especial “Cerrado dos Povos: Saberes e Biodiversidade” conta com o apoio do Projeto “Articulação em rede e participação social para a conservação do Cerrado”, realizado pela ActionAid e Campanha em Defesa do Cerrado com o apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF).


 Texto e imagem: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Comunidade rural tocantinense cria Fundo Rotativo Solidário

A comunidade do Cento dos Calixtos, situada em São Miguel do Tocantins, na região do Bico do Papagaio (TO), criou e colocou em prática o Fundo Rotativo Solidário para beneficiar as famílias e garantir investimentos na agricultura familiar agroecológica do território. A iniciativa, inaugurada em março de 2021, partiu dos próprios camponeses e camponesas que costumam se reunir para conversar sobre as dificuldades e possíveis soluções para os problemas que aparecem.

“Com o Fundo Rotativo podemos garantir o sustento para nossas famílias; ter uma renda fixa que vai circular entre nós. Além disso, com o Fundo podemos deixar de pegar empréstimo no banco que geralmente cobram juros altos. A parte mais interessante desse projeto e do regimento interno é que todos da comunidade participaram da escrita e determinação do que pode fazer e do que não pode”, afirma Leonardo Paixão.

A construção do Fundo Rotativo Solidário Olho D’Água passou por três etapas. A primeira foi o lançamento da ideia e definição de como a comunidade imaginava, em 2020. A segunda aconteceu dia 28 de fevereiro deste ano com a elaboração das regras do regimento, tais como: objetivos, formas de gestão e empréstimo, taxas de juros e quem poderiam participar.

A terceira e última etapa definiu a comissão gestora formada por um secretário, um tesoureiro e um coordenador, equipe que fará a gestão do Fundo. Neste momento houve a leitura do regimento e foram realizados os ajustes de acordo com as necessidades da comunidade.

“Moro aqui desde 1958, tivemos uma luta muito grande para poder nos manter aqui dentro da comunidade. O Fundo significa que é uma verba paga em parcelas dentre todos da comunidade. O Rotativo é que passa por várias famílias de acordo com a situação e a vontade de cada um. E Solidário porque pode agregar mais famílias”, explica Cosmo da Paixão, o representante da comunidade.  O Fundo Rotativo Solidário Olho D´água agora passa a ser uma experiência adotada pela Comunidade do Cento dos Calixtos para que, ao caminhar juntos, possam fazer frutificar e expandir os benefícios para toda a comunidade.

A iniciativa, que nasceu a partir da doação de um tratorito da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins) para a comunidade, visa garantir verba de investimento para as famílias do Centro dos Calixtos, possibilitando, no futuro, maior autonomia e independência financeira.

A experiência inovadora é a primeira do tipo a acontecer na região do Bico do Papagaio. Ao todo dezessete famílias da Comunidade participarão do Fundo, que poderá agregar novas famílias ao decorrer dos meses. Para mais informações sobre o Fundo Rotativo Solidário do Centro dos Calixtos, acesse: www.apato.org.br


Texto e informações: APA-TO

Observação: As pessoas da foto aparecem sem máscara pois fazem parte do mesmo círculo de convivência e rotina de trabalho na Comunidade, sendo alguns inclusive da mesma família.

POLICIAIS MILITARES AGRIDEM, AMEAÇAM E DETÉM ILEGALMENTE TRABALHADORES RURAIS EM FORMOSA DO RIO PRETO

Na madrugada de quarta-feira, 24 de março, oito policiais militares invadiram sem ordem judicial as residências de várias famílias do povoado de Arroz, no município de Formosa do Rio Preto, oeste da Bahia. A invasão ocorreu após um grupo de indivíduos armados darem suporte à destruição de benfeitorias nas terras comunitárias onde criam gado, alvo frequente de grileiros na região. Após agredir fisicamente dois trabalhadores rurais, os policiais proferiram ameaças e os conduziram até a Delegacia Regional de Polícia Civil de Barreiras, onde foram liberados na manhã seguinte pela autoridade policial, após constatar a ausência de provas de que tenham cometido crimes.

A comunidade vinha legitimamente defendendo a posse de suas terras dos ataques de grileiros que atuam na região. Nesta última tentativa de ataque, dezenas de posseiros desarmaram o grupo de seguranças que davam suporte, entre eles, soube-se depois, estavam quatro policiais militares supostamente prestando serviços particulares. Desde 1984, uma decisão judicial garante a posse de terras das famílias de pequenos criadores de gado do Arroz, o principal sustento das suas vidas. Embora os trabalhadores tenham sido soltos, na noite e madrugada desta quarta feira (24/3), um pelotão da PM retornou ao povoado do Arroz, invadiu casa por casa, destruindo pertencentes dos moradores, espalhando medo e terror nas famílias do local. Deixaram ainda o recado que iriam retornar noite por noite, até “encontrar o que estavam procurando”.
 
Os fatos aconteceram na região denominada Coaceral, palco de notórios conflitos entre mega grileiros de terras, revelados no âmbito da Operação Faroeste em novembro de 2019, com uma série de desdobramentos, havendo ainda forte atuação de pistoleiros e milícias particulares a serviço de empresas e agricultores do agronegócio. Embora invisibilizadas, as comunidades rurais e tradicionais de Formosa do Rio Preto, assim como o Arroz, são as mais impactadas pela grilagem de terras e violência de pistoleiros e milícias na região.
 
As autoridades públicas devem tomar providências URGENTES para que novas agressões e prisões ilegais não aconteçam! Faça essa mensagem circular! Chega de violência contra as comunidades rurais e tradicionais em Formosa do Rio Preto e no Oeste da Bahia!
 

Associação do Desenvolvimento Solidário e Sustentável (ADES) – 10envolvimento
Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais no Estado da Bahia

AMEAÇADOS PELO AVANÇO DO CAPITAL, COMUNIDADES E MOVIMENTOS SOCIAIS LUTAM PELA PRESERVAÇÃO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL

Dia Mundial da Água, celebrado dia 22 de março, é espaço para debater a importância da garantia do acesso a água de qualidade e saneamento básico a toda população

Por Rafael Oliveira

Em uma caminhada com dona Raimunda em sua roça, na comunidade camponesa Gleba Tauá, no município de Barra do Ouro, no Tocantins, ela conta que a água em seu território já foi muito abundante. As memórias da infância, de quando bebia água diretamente do córrego cristalino ou de quando brincava nas grotas, hoje disputam espaço com uma realidade diferente.

Em tom indignado, a senhora de quase 80 anos, nascida e criada na região, é enfática ao contar que depois da chegada da monocultura da soja e da criação extensiva de gado nos arredores da comunidade, a vida se tornou mais difícil de ser vivida em diversos aspectos. Além da devastação do Cerrado e da constante violência da pistolagem para ser expulsa de suas terras, dona Raimunda e sua família convivem há cerca de 20 anos com a destruição daquilo que é sagrado para a tradição camponesa: a água!

O veneno jogado por avião e por maquinário terrestre nas imensas lavouras de soja que praticamente avançaram até o terreiro de dona Raimunda já contaminou as nascentes e rios que cortam o território da Gleba Tauá, uma área da União que, atualmente, conta com outras cerca de 90 famílias camponesas. Em 2020, o Governo Federal aprovou o registro de 493 agrotóxicos, de acordo com relatório do Ministério da Agricultura. O número supera em 4% o registrado em 2019, quando houve a liberação de 474 tipos. Até fevereiro deste ano, outros 67 agrotóxicos foram autorizados a entrar no mercado brasileiro, conforme publicação do Ministério da Agricultura no Diário Oficial.

Dona Raimunda já perdeu as contas de quantos animais de sua criação já morreram após beberem a água de algum córrego. Denúncias nos órgãos ambientais e ao Ministério Público Federal não foram, até agora, suficientes para frear essa prática que adoece a biodiversidade e as pessoas que ali habitam.  A comunidade de Tauá, devido as queimadas de 2019,  teve apoio emergencial da CESE/HEKS para reconstrução da casa de farinha

Água é um direito humano

A garantia ao direito à água é prevista mundialmente em Resolução da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2010. De acordo com o documento, reconhece-se “que a água potável limpa e o saneamento são essenciais para a concretização de todos os direitos humanos. A Resolução apela aos Estados e às organizações internacionais que providenciem os recursos financeiros, contribuam para o desenvolvimento de capacidades e transfiram tecnologias de modo a ajudar os países, nomeadamente os países em vias de desenvolvimento, a assegurarem água potável segura, limpa, acessível e a custos razoáveis e saneamento para todos”.

Na Ilha da Maré – próxima a Salvador (BA) -, onde vivem cerca de 10 mil pessoas organizadas em 11 comunidades quilombolas que têm na pesca artesanal seu principal meio de vida, a resolução da ONU nunca passou perto. “Nós sofremos um racismo ambiental e estrutural muito grande. Ficamos muito próximos à capital, mas o poder público não enxerga a gente. São diversas gerações que viveram e vivem aqui e até hoje não temos saneamento. Água e energia chegaram há pouco tempo. Eu estou com 50 anos e eu vivi isso a minha vida toda, imagine meus pais, minhas avós, minhas bisavós”, indaga Marizelha Lopes, liderança da comunidade e do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP/BA).

Apesar de estar envolta de água, a comunidade de Marizelha já não desfruta daquilo que outrora lhe garantia fartura. Desde a década de 50, a região é tomada por grandes empreendimentos que quebraram o equilíbrio natural do território. “A menos de 2 km daqui há uma refinaria e o Porto de Aratu. Nós ficamos no fundo da Baía de Todos os Santos e o vento que nos favorece em alguns momentos, em outros concentra a contaminação vinda desses empreendimentos. Muita gente na comunidade está com problemas sérios de alergias crônicas, problemas de pele e, principalmente, câncer”, relata a liderança.

Atualmente, uma nova obra de infraestrutura que já afeta diretamente a Ilha da Maré está em fase de construção, da qual é responsável a companhia Bahia Terminais S.A. Mesmo com decisão judicial suspendendo a construção de um terminal portuário na região de Ilha de Maré, a empresa mantém equipe e maquinário destruindo parte do manguezal remanescente do território.

“Em plena pandemia, em setembro do ano passado, destruíram mais de 1 hectare de manguezal. Quando soubemos, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) tinha licenciado esse projeto da empresa Bahia Terminais. Isso é fomentado pelo governo do Estado”, recorda Marizelha, que também afirma ter denunciado ao Ministério Público Estadual a continuidade das obras irregulares.

Abraço simbólico em defesa do Rio Arrojado, em Correntina/BA – Missão Ecumênica ”Pelas Águas do Oeste da Bahia”

Bem comum

A violência contra os mananciais de água, rios, córregos e nascentes vai além do envenenamento com agrotóxicos ou da construção de grandes obras de infraestrutura. Na avaliação de Andreia Neiva, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o processo de privatização das águas em curso no Congresso Nacional por meio da aprovação do Projeto de Lei (PL) 4.162/2019, chamado de “novo marco do saneamento”, é uma ameaça principalmente às famílias socialmente mais vulneráveis.

Este PL prevê entregar à iniciativa privada o controle de todo o setor de saneamento do país, além da apropriação das reservas naturais de água no território brasileiro. “Essa é uma preocupação muito grande. Se hoje já é uma grande desigualdade o acesso à água no Brasil, a tendência é piorar. [As empresas privadas] Não vão querer ampliar estrutura e redes de abastecimento e saneamento em lugares que não oferecerem lucro”, aponta Andreia. De acordo com relatório de 2019 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada no Brasil.

Na última quarta-feira (17), o Congresso manteve o veto do Governo Federal ao artigo 16 do PL, que previa a prorrogação dos contratos já existentes pelos próximos 30 anos. Se mantido este artigo, a luta contra a privatização das águas ganharia mais fôlego na tentativa de reverter o projeto, mas 292 deputados votaram a favor do veto, vencendo outros 169 votos contrários. “O que defendemos é água como um bem para o povo. Que seja gerido pelo poder público, mas que tenhamos participação, só assim é possível garantir a soberania de um povo. A água não pode e não deve ser transformada em mercadoria”, pontua a militante.

Pela preservação do sagrado

Quando não vista como uma mercadoria que pode ser dominada, explorada e comercializada como um produto qualquer, a água transborda elementos subjetivos, afetivos, espirituais, culturais e religiosos que vão além da compreensão do capital.

Tida como sagrada pelas comunidades tradicionais, a água implica diretamente na identidade e na existência de um povo.

“Essa relação, que é ancestral, profunda, com as águas e o manguezal, a gente sente quando vê sendo destruído. Não dá para desassociar a natureza da gente. Não dá para enxergar o meio ambiente sem nós, que somos os guardiões dele”, afirma Marizelha Lopes.

Nesse contexto, há ainda um importante ponto a ser considerado: o feminino e o papel fundamental da mulher, tanto no que se refere à manutenção da riqueza natural e a conexão direta das mulheres com as águas, como ao papel central que elas ainda desempenham no dia a dia das famílias.

Sobre isso, Andreia chama atenção de que “nas comunidades rurais, onde não há acesso a água encanada, a tarefa de abastecer as residências, dos cuidados diários da casa, é das mulheres. São elas que percorrem longas distâncias para pegar água para lavar roupa, fazer comida e limpar a casa. É uma carga muito pesada. São diversas violações de direitos das mulheres tanto na cidade como no meio rural, e isso tudo é invisibilizado”.

Para a quilombola Marizelha, em meio a um contexto tão desfavorável, há pouco o que comemorar no Dia Mundial da Água, celebrado nesta segunda-feira (22). “Estamos preocupadas com tanta intervenção, contaminação. A casa de Iemanjá nunca esteve tão suja. Todo ano é um crime ambiental causado por essas empresas”, protesta. Ainda que não tenha o que celebrar, ela afirma que há muita luta a se fazer. “Temos esperança em nós, tanto que no dia das águas faremos um ato contra esses empreendimentos. Nós nos pegamos na força das águas, dos orixás, dos encantados, na natureza. Eu acredito muito que a natureza vai reagir”, conclui.

Diante desse cenário de injustiças, a CESE reafirma seu compromisso pela defesa e garantia da água como direito humano fundamental e apoia iniciativas do movimento popular em defesa das águas. As falas de Dona Raimunda, Marizelha Lopes e Andreia Neiva, lutadoras populares e guardiãs desse bem tão precioso para toda a humanidade nos dão energia e alimentam nossa esperança num mundo mais justo e no Bem Viver.


Texto originalmente publicado pela CESE – Coordenação Ecumênica do Serviço

Imagens: Acervo CESE

Articulação das CPT’s do Cerrado realiza live sobre os impactos do agrotóxicos nos territórios do bioma

Na semana do Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22 de março, a Articulação das CPT’s do Cerrado, constituída pelos regionais Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia e Minas Gerais, organiza um encontro virtual para discutir os impactos dos agrotóxicos nas comunidades, nas águas, nos rios e nas nascentes e denunciar o envenenamento de famílias camponesas pelo latifúndio. A live acontece no dia 24/03 (quarta-feira), às 18 horas, e será transmitida pela página da CPT no Facebook e canal no YouTube.

O encontro também marca o lançamento online da 2ª edição da Revista Cerrados, que tem como tema “Impactos dos agrotóxicos aos territórios e modos de vida dos povos do Cerrado.” A 2ª edição da Revista Cerrados, organizada pela Articulação das CPT’s do Cerrado, com apoio da CESE e MISEREOR, aborda os impactos dos agrotóxicos no bioma e as manobras do agronegócio para flexibilizar as leis referentes ao uso dos agrotóxicos no Brasil. Além das denúncias e dados científicos, também apresenta o lado positivo a partir dos saberes e práticas agroecológicas vindas dos territórios de povos e comunidades tradicionais, como resistência a esse projeto de morte. 

LEIA: CPT lança revista com denúncias sobre os impactos do uso de agrotóxicos no Cerrado

Para falar sobre a realidade dos impactos dos agrotóxicos em seus territórios, participam Eliane Silva, moradora do Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena (GO), Maria de Fátima, do Projeto de Assentamento Nascente São Domingos, em Piranhas (GO) e Maria Zulmira e Jaira Lima, da comunidade Vão do Vico (PI). A moderação será conduzida pelo Saulo Reis, agente da CPT – Goiás e também terá a contribuição do professor Murilo Souza, membro da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Recentemente, a CPT – Goiás denunciou uma série de conflitos relacionados à utilização de venenos pelos latifundiários que contaminam a água, exterminam abelhas e intoxicam centenas de famílias no estado de Goiás.


 Texto e imagem: Comissão Pastoral da Terra

Dia das Águas, dia de lutas: Organizações realizam atividades virtuais entre 22 e 26 de março

No dia 22 de março celebra-se o Dia Mundial da Água. Para marcar a data, organizações e movimentos vinculados à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado realizam uma série de atividades. Aulas abertas, transmissões virtuais e lançamento de conteúdos especiais fazem parte da programação. Confira, abaixo, a lista completa:

22 de março

Bate-papo virtual “Comunidades de Fechos de pasto e seus modos de vida: cuidando da terra e das águas”

Realização: Campanha #TôFechadoComOsFechos, AATR e Comissão Pastoral da Terra – Bahia

Data e horário: 22/03, às 18h30 (horário de Brasília)

Onde assistir: Youtube da AATR e perfis no Facebook da AATR e Comissão Pastoral da Terra Bahia (CPT-BA)

Para celebrar o dia mundial da água(22), fecheiros/as do oeste baiano, reconhecidos como povos guardiões do Cerrado, se reúnem no bate-papo virtual “Comunidades de Fechos de pasto e seus modos de vida: cuidando da terra e das águas”. O evento acontece às 18h30 e será transmitido pelo Youtube da AATR e pelos perfis no Facebook da AATR e Comissão Pastoral da Terra Bahia (CPT-BA). Na ocasião, será lançada a campanha “TôFechadoComOsFechos fecho com os fechos”, que nasce com a proposta de fortalecer a identidade dos fechos e denunciar as violências que essas comunidades estão vivenciando.


22 de março a 26 de março

Semana das Águas: Aulas públicas e homenagens às lutas em defesa do nosso bem comum

Realização: FASE | Onde: A transmissão ao vivo acontece via Youtube da FASE. Confira os links na programação abaixo.

Programação

22/03, 10h – ÁGUA NAS ESCOLAS | DIA MUNDIAL DA ÁGUA: SEGURANÇA HÍDRICA E OS DESAFIOS DA JUVENTUDE FRENTE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A PANDEMIA COVID-19. Mediadoras: Samira Vidal, professora do Colégio Estadual Alcebíades Schwartz, e Alessandra Bichara, professora do Colégio Estadual Nilo Peçanha. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.

22/03, 15H – AOS GUARDIÕES E GUARDIÃS DAS ÁGUAS, COM AMOR| LANÇAMENTO DA ANIMAÇÃO O QUE É ÁGUA E CERIMÔNIA DE AGRADECIMENTO A POVOS E COMUNIDADES DEFENSORAS DAS ÁGUAS. Mediadoras: Maiana Maia e Sara Pereira, FASE. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui

24/03, 10h – ÁGUAS LIVRES DE PETRÓLEO E GÁS NATURAL. Mediadora: Bianca Dieile da Silva, pesquisadora na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Aruoca.  Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.

24/03, 19h30 – A LUTA PELA ÁGUA COMO UM COMUM NO RIO DE JANEIRO. Mediadora: Carol Rodrigues, educadora da FASE do Rio de Janeiro. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.

25/03, 10h – CERRADO EM FOCO: TRABALHANDO A GEOPOLÍTICA DAS ÁGUAS NAS SALAS DE AULA. Mediador: Valney Dias Riognato, doutor em Geografia pela Universidade Federal de Goiás, e professor do Curso de Geografia da Universidade Federal do Oeste da Bahia. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.

25/03, 17h – DEFESA DA ÁGUA COMO BEM COMUM PARA O ENFRENTAMENTO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS EM TEMPOS DE PANDEMIA. Mediador: Aercio Barbosa, educador da FASE do Rio de Janeiro. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.

25/03, 19h20 – CRIAÇÃO E ENSINO-APRENDIZAGEM EM ARTES: ÁGUA E JUSTIÇA AMBIENTAL. Mediador: Fernando Leão, arte-educador do Núcleo TRAMAS da Universidade Federal do Ceará e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.

26/03, 15h – NÃO SOU EU NEM VOCÊ, É A TERRA: ÁGUA QUE NOS PERMITE VIVER. Mediadora: Zica Pires, mulher preta quilombola, de Santa Rosa dos Pretos, Maranhão, pedagoga, ilustradora, educadora popular, coordenadora do coletivo jovem Agentes Agroflorestais Quilombolas. Inscreva-se para a transmissão ao vivo aqui.


24 DE MARÇO

Transmissão virtual sobre os impactos do agrotóxicos nos territórios do Cerrado e lançamento da nova edição da Revista Cerrados

Realização: Comissão Pastoral da Terra – Articulação das CPTs no Cerrado

Onde assistir: Facebook e/ou Youtube da CPT

Data e horário: 24/03 (quarta-feira), às 18 horas

Na semana do Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22 de março, a Articulação das CPT’s do Cerrado, constituída pelos regionais Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia e Minas Gerais, organiza um encontro virtual para discutir os impactos dos agrotóxicos nas comunidades, nas águas, nos rios e nas nascentes e denunciar o envenenamento de famílias camponesas pelo latifúndio. A live acontece no dia 24/03 (quarta-feira), às 18 horas, e será transmitida pela página da CPT no Facebook e canal no YouTube. Encontro também marca o lançamento virtual da 2ª edição da Revista Cerrados


 Foto destaque: Acervo João Zinclar

Trabalho coletivo de mulheres quilombolas garante alimentação para famílias em Minas Gerais

É a partir do trabalho coletivo de mulheres de 31 famílias que a alimentação é garantida no Quilombo de Raiz, no município de Presidente Kubitschek, situado na porção meridional da Serra do Espinhaço – Minas Gerais. A força de vontade e o reconhecimento do valor da terra para a segurança alimentar são propulsores dos quintais produtivos da comunidade. Lá tudo que é plantado entre as famílias serve para alimentação e sustento financeiro da comunidade. 

Erci Alves tem 36 anos e conta que desde pequena aprendeu a plantar, colher e participar das feiras da região. Ela relata que  foi “ensinada a cuidar da Terra e passa isso adiante”. 

“Todas as mulheres do quilombo participam dessa prática de plantar. As plantações funcionam nos quintais das casas e na roça da comunidade. A gente produz milho, feijão, hortaliças e frutas. E só não plantamos mais porque a gente não tem muito espaço, mas com um pequeno espaço a gente planta um pouquinho de tudo”, relata a quilombola.

O trabalho intenso de garantir alimento na mesa de todos da comunidade é árduo. Vai desde o cuidado na hora de plantar até a colheita. Erci, ao relatar a experiência, mostra como é possível unir economia e sustentabilidade.

“Esses alimentos servem para troca entre as famílias, e também para a venda em feiras que garantem renda para as famílias da comunidade. E com o dinheiro que a gente ganha com essa produção de alimentos a gente compra o que a comunidade não consegue produzir, como por exemplo, arroz, macarrão e carne”, conta.

Com a pandemia de covid-19 e a necessidade de distanciamento social, a importância dos quintais produtivos tomam um valor ainda maior na comunidade. Erci conta que “a necessidade de ficar em casa para proteger a vida, e a pausa nas feiras tira a renda dessas mulheres que é a principal forma de manter suas famílias”. Mas também reforça que foi graças às plantações que o quilombo tem vencido a fome que a pandemia trouxe novamente para o país. 

“Eu tenho dois filhos e ensino para eles a importância da segurança alimentar. Em momentos como esse que estamos vivendo [pandemia] eles precisam saber de onde vem o alimento e o que eles estão comendo. A gente ensina pra eles cuidar e proteger da terra”, enfatiza a quilombola. 


Texto e foto: Assessoria de comunicação/Terra de Direitos – Especial “Mulheres que alimentam a resistência” 

Clique aqui e conheça outras histórias do Especial “Mulheres que alimentam a resistência” no site da Terra de Direitos.

 

A horta agroecológica de Emília: qualidade de vida e autonomia da mulher

Emília Alves da Silva Rodrigues vive há 46 anos na cidade de São Miguel do Tocantins, que fica na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do estado do Tocantins. Desde que chegou, em 1971, viu muita coisa mudar onde ela mora. Logo no início, era praticamente tudo mata virgem, não tinha capoeira e as famílias que por lá chegavam faziam casas e roças onde achavam melhor.

Porém, o tempo foi passando e as coisas foram se complicando, porque a área começou a ser “terra de dono”, que muitas vezes não deixava quem já estava no local antes de continuar a trabalhar e viver. Muitas famílias, inclusive a de Dona Emília, chegaram a ser expulsas da região e tiveram que passar até dois anos foram daquela terra. Mas depois de muita luta e esperança, em 1988, foi criado o Projeto de Assentamento Pontal, que hoje é local de moraria, motivo de orgulho e garantia de produção para 27 famílias.

Viúva há 3 anos e como todos os filhos e netos criados, Dona Emília vive hoje na companhia de uma de suas netas e tira o seu sustento de dentro do próprio quintal. Com muita disposição, ela trabalha dia e noite quebrando coco babaçu, criando galinhas e cuidando com carinho da sua horta. Mas a horta da Dona Emília não é uma horta qualquer. É uma horta agroecológica!

Foi com a ajuda da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins) que a Emília começou a trabalhar com a agroecologia e, hoje em dia, ela não troca isso por nada. Para ela, trabalhar a terra, reconhecer sua identidade de agricultora agroecológica, é algo que traz muita dignidade.

“Agroecologia é uma escola. Cada dia que você trabalha, você aprende”, disse Dona Emília. E bota aprendizado nisso. Antes, ela costumava usar adubo químico para ajudar as hortaliças a descerem, mas foi percebendo que o efeito era muito temporário e, ainda por cima, ia transformando a terra em pó. Hoje Dona Emília sabe que é muito melhor usar adubos naturais, como o esterco de gado, galinha e de palmeira.

Com eles, as plantas crescem fortes e o solo fica escuro, fofinho o tempo inteiro, além de ter a certeza que seus alimentos não estão sendo contaminados com veneno. Sem o solo sadio, o cheiro verde, o quiabo, a abóbora, o coentro, a cebolinha, a couve, o tomate, o gengibre e a pimenta da horta da emília não conseguiriam se desenvolver bem. Por isso, além de se preocupar com o adubo que coloca nos canteiros, a Dona Emília também aproveita as folhagens das árvores que tem no quintal para fazer a cobertura da terra. Além de também ajudar o solo a ir recuperando seus nutrientes, a cobertura mantém a umidade por mais tempo.

Um exemplo disso é o cultivo da cebolinha, que antes não podia passar um dia sem ser regado que já sofria muito, e hoje em dia, com a ajuda das folhagens, pode aguentar até 3 dias com a mesma rega. E não são só esses os benefícios de fazer a cobertura dos canteiros. Dona Emília foi percebendo também que, com a folhagem na terra, o mato não cresce em volta dos cultivos e isso fez com que ela ganhasse até mais tempo para se dedicar a outras atividades, já que não precisa mais capinar os canteiros.

Sem dúvidas, a horta agroecológica da Emília trouxe muita qualidade de vida para ela e para sua família. Além de consumir um alimento sadio e de qualidade, ela ainda consegue vender seus produtos na feira da cidade, o que leva saúde também para outras famílias e garante o trocadinho do mês no bolso da Dona Emília.

E não foi só na renda e na saúde que a horta fez diferença. Trabalhar com as hortaliças trouxe também para a Emília algo que não tem preço: a autonomia! Foi com o trabalho na terra que ela foi se tornando cada vez mais livre, foi aprendendo a se virar e, com o dinheirinho que junta, não depende de ninguém. Para ela, ser mulher autônoma, que faz a sua renda, que vive a sua vida, que não precisa dar satisfação para ninguém, é bom demais. E com muita firmeza ela diz: “Depois que eu comecei a trabalhar, eu renasci”.

A horta agroecológica foi tão marcante para a vida da Dona Emília que ela sonha em desenvolver seus cultivos cada vez mais, sempre pensando no bem-estar da sua família e da sua comunidade, pela qual ela sente um carinho muito especial. E ela com certeza já está realizando esse sonho, uma vez que, a partir da sua experiência, mais 4 famílias do projeto de assentamento começaram a produzir em seus próprios quintais. E é assim, de pouco em pouco, com pessoas inspirando pessoas, sempre com muita força e esperança, que devemos seguir, buscando sempre correr atrás dos nossos sonhos e fazer do mundo um lugar melhor para todos e todas.


Texto: Clara Mabeli/APA-TO

Produção: APA-TO – Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins – Websérie Agroecologia em Rede no Bico do Papagaio

Conheça e acompanhe o trabalho da APA-TO: http://www.apato.org.br/

Sem provocar aglomerações, Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baiano protesta pelo direito à vida

Em sintonia com o mês e o dia de luta das mulheres, celebrado internacionalmente em 8 de março, o Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baiano protesta pelos direitos e pela saúde das mulheres. As manifestações acontecem desde o dia 4 de março de maneira virtual e em alguns municípios da região, como Barreiras, Coribe, Correntina, Santa Maria da Vitória e São Félix do Coribe, sem provocar aglomerações.

Pela internet foram divulgadas imagens educativas que apresentam dados alarmantes, como o aumento dos casos de violência doméstica e o crescimento do número de mortes por suicídio da população transgênera na Bahia em 2020. Também foram divulgadas alternativas para superação do cenário de crise sanitária e social que vivemos, como a importância da vacinação coletiva e da defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). Os materiais foram produzidos pelas mulheres do Coletivo de maneira colaborativa.

A luta por comida de verdade, sem agrotóxicos e produzida de maneira agroecológica, e pela defesa do Cerrado também fez parte do grito das mulheres do Cerrado baiano. A região sofre com a seca dos rios e os conflitos territoriais que ameaçam as populações geraizeiras há décadas, por isso, o grupo de mulheres também protestou contra o avanço do agronegócio na região – responsável por essa destruição e violência.

Para além da mobilização virtual, foram colados “lambe-lambes” que estamparam as reinvindicações do coletivo. Os materiais foram disponibilizados em locais estratégicos dos municípios da região, visando alcançar diferentes públicos. O processo de colagem foi realizado com distanciamento social em horários de baixa circulação de pessoas. Todas as mulheres usaram máscaras e equipamentos de segurança.

O Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baiano é composto por mulheres do campo e da cidade, que se organizam para lutar pela defesa da biodiversidade, das águas e da dignidade das populações rurais e urbanas da região. Em diálogo com a Campanha em Defesa do Cerrado, as mulheres partilharam: ”As lutas são coletivas, defender as mulheres, nossos territórios, nosso Cerrado, é defender nossa própria existência!”.


Texto: Amanda Alves e Bruno Santiago

Informações e imagens: Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baino

Manifesto das primeiras brasileiras

As originárias da terra: a mãe do Brasil é indígena

Nós, Mulheres Indígenas, estamos em muitas lutas em âmbito nacional e internacional. Somos sementes plantadas através de nossos cantos por justiça social, por demarcação de território, pela floresta em pé, pela saúde, pela educação, para conter as mudanças climáticas e pela “Cura da Terra”. Nossas vozes já romperam silêncios imputados a nós desde a invasão do nosso território. 

A população indígena do Brasil é formada por 305 Povos, falantes de 274 línguas. Somos aproximadamente 900 mil pessoas, sendo 448 mil mulheres. Nós, Mulheres Indígenas, lutamos pela demarcação das terras indígenas, contra a liberação da mineração e do arrendamento dos nossos territórios, contra a tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental, contra o financiamento do armamento no campo. Enfrentamos o desmonte das políticas indigenista e ambiental. 

Nossas lideranças estão em permanente processo de luta em defesa de direitos para a garantia da nossa existência, que são nossos corpos, espíritos e territórios. 

Reunidas no XV Acampamento Terra Livre, em abril de 2019, construímos um espaço orgânico de atuação. Levamos pautas importantes para o centro do debate da mobilização que resultou na primeira Marcha das Mulheres Indígenas com a união de 2500 mulheres de 130 povos, em Brasília, no dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto daquele ano.  

A Marcha, cujo lema seria “Território: nosso corpo, nosso espírito” foi pensada desde 2015 como um processo de formação e de fortalecimento com sustentada ação de articulação com diversos movimentos. 

Agosto de 2020. Após um ano da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, nós, Mulheres Indígenas de todo o Brasil, realizamos uma mobilização histórica! Diante do agravamento das violências aos povos indígenas durante a pandemia da Covid-19, nós decidimos demarcar as telas e realizar a maior mobilização de mulheres indígenas nas redes virtuais. Assim, nos dias 7 e 8 de agosto, acontecia a nossa grande assembleia online com o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”. 

Nós, Mulheres Indígenas, também somos a Terra, pois a Terra se faz em nós. Pela força do canto,  nos conectamos por todos os cantos, onde se fazem presente os encantos, que são nossas ancestrais. A Terra é irmã, é filha, é tia, é mãe, é avó, é útero, é alimento, é a cura do mundo.

Como calar diante de um ataque? Diante de um Genocídio que faz a Terra gritar mesmo quando estamos em silêncio? Porque a Terra tem muitos filhos e uma mãe chora quando vê, quando sente que a vida que gerou, hoje é ameaçada. Mas ainda existe a chance de mudar isso, porque nós somos a cura da Terra!

Diante da Pandemia, criamos espaços de conexão para fortalecer a potência da articulação de Mulheres Indígenas, retomando valores e memórias matriarcais para avançar em pleitos sociais relacionados aos nossos territórios, enfrentando as tentativas de extermínio dos Povos Indígenas, as tentativas de invasão e de exploração genocida dos territórios – ações que têm se aprofundado no contexto da pandemia. Dessa forma, conseguimos também fortalecer o movimento indígena, agregando conhecimentos de gênero e geracionais.

As Mulheres Indígenas assumiram um papel fundamental na articulação das redes de apoiadores nesse momento. Além de atuarem permanentemente nas barreiras sanitárias, as mulheres estiveram frente às construções estratégicas dos planos Territorial, Regional e Nacional no enfrentamento à Covid-19. Há muitas Mulheres Indígenas com atuações significativas na contribuição pela defesa dos direitos dos Povos Indígenas – muitas vezes enfrentando diversas formas de violências. 

Em virtude das constantes violações de direitos, aprofundadas no contexto da pandemia, é urgente fortalecer a contribuição dessas defensoras, qualificando e ampliando suas ações nos espaços de participação política e decisória e apoiando a participação qualificada das Mulheres Indígenas como protagonistas e multiplicadoras.

Estamos atuando não somente no enfrentamento à Covid-19, mas na linha de defesa do “Covid sistemático do Governo Federal” e de seus ataques permanentes aos direitos indígenas.

Como desdobramento, notou-se a necessidade de avançar ainda mais, fortalecer nossas capacidades organizacionais, com vias de oficializar essa articulação da ANMIGA, incluindo o planejamento estratégico e o funcionamento de nossas redes.

Somos muitas, somos múltiplas, somos mil-lheres, cacicas, parteiras, benzedeiras, pajés, agricultoras, professoras, advogadas, enfermeiras e médicas nas múltiplas ciências do Território e da universidade. Somos antropólogas, deputadas e psicólogas. Somos muitas transitando do chão da aldeia para o chão do mundo.

Mulheres terra, mulheres água, mulheres biomas, mulheres espiritualidade, mulheres árvores, mulheres raízes, mulheres sementes e não somente mulheres guerreiras da ancestralidade. 


Para saber mais sobre a ANMIGA – Articulação Nacional das Mulheres Guerreiras da Ancestralidade, acesse: https://anmiga.org/

Dia das Mulheres: “Mulheres em luta, na cidade, no campo, nas águas e nas florestas, rompendo as fronteiras da opressão”

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A Articulação das Pastorais do Campo celebra a luta das mulheres camponesas, indígenas, pescadoras, quilombolas e migrantes, na cidade, no campo, nas águas e nas florestas, rompendo com as fronteiras da opressão, patriarcado e capitalismo. Diversas ações estão sendo realizadas pelas mulheres do campo, das águas e das florestas em todo o país. Acompanhe:

Com o avanço da COVID 19 no último ano, as mulheres seguiram nas linhas de frente da resistência, enfrentando impactos e as violências doméstica, política e institucional, que assolam seus corpos e territórios. O aumento da violência de gênero se destaca durante a pandemia, somente no primeiro semestre de 2020 houve um crescimento de 22% nos registros de violência contra a mulher, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mulheres camponesas, quilombolas, indígenas e pescadoras continuam enfrentando impactos socioambientais em seus territórios, através de grandes empreendimentos, garimpo, desmatamento e  contaminação das águas, que seguiram operando em um projeto de destruição e ameaça aos modos de vida e bem viver dos povos e comunidades tradicionais, aliados às políticas instituídas no atual governo. A crise migratória também avança, com o fechamento das fronteiras, aumento do desemprego e insegurança alimentar, mulheres migrantes encontram-se em situação de vulnerabilidade social, no Brasil e no mundo.

Faz-se necessário o apoio às lutas das mulheres por mais saúde e dignidade, para que suas vidas não sejam ainda mais ameaçadas e violentadas, resistindo contra as opressões de gênero, exigimos: vacinação contra COVID19 e auxílio emergencial para todas e a defesa do impeachment de Jair Bolsonaro e suas políticas de genocídio e morte contra a população brasileira.

ACOMPANHE AS AÇÕES DAS MULHERES EM TODO O BRASIL:

– 08/03 – 12h00 – Lançamento Manifesto das Mulheres do Cerrado: Construindo (Re)Existências

– 08/03 – 14H00 – Lançamento da ANMIGA e Março das Originárias da Terra: A Mãe do Brasil Indígena

– 08/03 – 19H30 – Movimento de mulheres em Goiás realiza Super Live Feminista no 8 de março

– 11/03, 23/03, 31/03 – 17h00 – Rodas de Conversa – Mulher: Luta, Resistência e Esperança – Tucuruí (PA)


 Fonte: Articulação das Pastorais do Campo

Mulheres Indígenas lançam articulação nacional no Dia Internacional das Mulheres

A Anmiga visa fortalecer a participação, o protagonismo da mulher indígena e a luta por direitos

A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade – Anmiga é uma iniciativa que mobiliza as mulheres indígenas de todas as regiões do país na luta pela garantia dos direitos dos povos. Com o tema “As originárias da terra, a mãe do Brasil é indígena”, a Anmiga promove uma agenda de debates ao longo do mês que marca a luta por igualdade de gênero, iniciando no dia 8 de março com a participação mais de 200 mulheres em uma live que começa às 14h (horário de Brasília).

A cada semana de março, mulheres indígenas de todos os biomas brasileiros se reúnem para discutir temas como questões identitárias, sustentabilidade, violência e violações de direitos. A programação completa do mês pode ser conferida no site anmiga.org. Os encontros online serão transmitidos nas redes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Mídia Ninja e Mídia Índia.

No dia 8 de março, a Anmiga também lança o manifesto da articulação que é fruto da Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, iniciada em 2019. “A iniciativa de criar uma organização de mulheres indígenas é o caminho natural. Nós, mulheres indígenas, sempre estivemos presentes nos movimentos sociais, tanto nacional quanto localmente”, comenta Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib e uma das idealizadoras da Anmiga.

Programação

O evento em alusão ao Dia Internacional das Mulheres, no dia 8 de março, lança a agenda “As Originárias da Terra: A Mãe do Brasil é Índigena” e marca o início da atuação da Anmiga. A programação está dividida em blocos que contemplam cantos e rituais, debates sobre raízes e ancestralidade, mudanças climáticas, conexão entre terras e telas, entre outros temas. Ao longo do mês serão realizadas lives às segundas. Em cada live, mulheres indígenas, agrupadas por biomas (Amazônia, Cerrado, Pampas, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica), discutem assuntos de interesse dos povos originários a partir da perspectiva feminina e do território.

Apesar de criada por mulheres indígenas como espaço de organização da luta dos povos originários, a Anmiga recebe também em sua programação ao longo do mês de março mulheres não indígenas, aliadas do movimento.

As indígenas são as primeiras brasileiras, cuja participação em organizações sociais, espaços deliberativos e em cargos públicos remonta uma trajetória de luta secular. O fortalecimento da luta das indígenas foi construída ao longo dos anos em várias frentes de atuação e organizações, até que, em agosto de 2019, foi realizada a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas para denunciar o agravamento das violências aos povos indígenas.

Para Célia Xakriabá, antropóloga e liderança indígena, a articulação das mulheres agrega passado, presente e futuro dos povos: “Nós carregamos nos nossos corpos os saberes, as lutas, a cura. De parteiras a deputadas, de cacicas a pesquisadoras, ocupamos os espaços com toda nossa ancestralidade.”

Serviço:
O que: Lançamento da ANMIGA e Março das Originárias da Terra: A Mãe do Brasil Índigena.
Quando: 8 de março, 14h (horário de Brasília)
Onde: redes da Apib, Mídia Índia e Mídia Ninja
Inscrições: https://anmiga.org/


 Texto e imagem: ANMIGA/APIB

MANIFESTO DAS MULHERES DO CERRADO CONSTRUINDO (R)EXISTÊNCIAS

“Cansei de ser domesticada

Quero andar com os próprios pés

Organizar a rebeldia

E assim deixar de ser refém.”

– Canto de Marli Fagundes, Eula Martins e Maria Monte, entoado no II Encontro Nacional das Mulheres do Cerrado, realizado em novembro de 2020


Neste 8 de março de 2021, nós da Articulação das Mulheres do Cerrado, mulheres de diferentes territórios, comunidades, municípios e estados deste país chamado Brasil, viemos por meio desta nota pública, expressar nossas (re)existências e repúdio às diversas violências causadas aos nossos corpos e aos nossos territórios.

Somos muitas, lutamos pela vida, pela memória daquelas que vieram antes de nós e por aquelas que já não estão mais aqui. Carregamos no sangue a força das nossas ancestrais, pois somos resistentes, resilientes, negras, indígenas, quilombolas, feministas, camponesas, assentadas e acampadas, sem-terra, atingidas por mineração e barragens, quebradeiras de coco babaçu, sertanejas, pescadoras, vazanteiras, LGBTQI+, assalariadas rurais, de fundo e fecho de pasto, raizeiras, benzedeiras, agricultoras familiares, geraizeiras, ribeirinhas. 

Em 2020, nós mulheres cerradeiras, do campo e da cidade, fomos impactadas duramente com a chegada da pandemia de covid-19, perdemos muitas companheiras, e com elas tanta sabedoria ancestral. Com algumas delas, não tivemos tempo da despedida, de dar  tchau, um  abraço, de agradecer. Contudo, resistimos e resistiremos sempre! Além da pandemia, a sobrecarga de trabalho também nos assola, no cuidado com os afazeres domésticos, com os filhos, com os mais velhos, nas roças, na quebra do coco babaçu, nas milhares de reuniões.

Como se todo o sofrimento não fosse suficiente os dados nos alarmam. Conforme informações do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no Brasil uma mulher é agredida fisicamente a cada dois minutos, tendo sido registradas 266.310 ocorrências de lesão corporal em decorrência de violência doméstica e 1.326 registros de feminicídio, em 2019 (FBSP, 2020)[1]. Todas essas violências ocorrem principalmente no âmbito do lar, espaço que deveria ser de acolhimento, aconchego e amor; tem se tornado cada dia,  espaço de tensões, agressões e morte. Nós repudiamos qualquer ato que venha causar dor, sofrimento e violência contra as mulheres.

Denunciamos e repudiamos as violências recorrentes e crescidas na pandemia do covid-19, ocasionada pelas grilagens, pistolagens, especulação imobiliária, envenenamento das águas e dos biomas, desmatamentos, queimadas criminosas, o extermínio da fauna e da flora dos nossos territórios.

Denunciamos a não regularização dos territórios, as mudanças de leis de terras no Brasil, junto às mudanças nas legislações ambientais e mercantilização da natureza (Zoneamento Econômico Ecológico-ZEE, Cadastro Ambiental Rural-CAR e Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação- REDD, o arrendamento para plantio de monocultura, a mineração. Medidas essas que estão todas ligadas ao aumento das violências no campo.

Denunciamos as práticas machistas e patriarcais perpetuadas por empresas e pelo Estado, que tentam nos exterminar e acabar com nossas histórias, nos expulsando dos territórios. Mas gritamos que temos raízes profundas e não será fácil, sempre brotaremos, mais fortes e vivas!

Denunciamos também o governo federal, genocida, irresponsável, machista e racista. Governo que espraia por  suas mãos o sangue de mais de 250 mil mortes ocasionadas pela covid-19. Governo que mata e negligência, ao invés de cuidar das pessoas e de um dos maiores sistemas públicos de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS salva, ele não! Governo que nega a pandemia e a vacina e deixa que o vírus se espalhe entre os mais pobres e as populações mais vulneráveis… Gritamos – Fora Bolsonaro!

Por tudo isso, continuamos resistindo e buscando formas de proteção. Criamos barreiras sanitárias por conta própria, continuamos tomando nossos chás de ervas, raízes e sementes plantadas nos nossos territórios, fortalecemos nossas práticas de produção para segurança e soberania alimentar, e para continuar nas nossas articulações. Realizamos nosso II Encontro das Mulheres do Cerrado, foram mais de 100 cerradeiras, de diferentes estados e municípios. Foi bonito de vivenciar tanta força, coragem e sabedoria.

Seguiremos firmes, derrubando cercas e muros, enfrentando o machismo, o racismo, o patriarcado, plantando sementes, colhendo frutos, flores, regando as raízes que é a veia da terra, é o que liga o de dentro com o fora, regada  com águas abundantes do Cerrado que florescem nas serras, que fazem brotar vidas e sonhos, fortalecendo nossas conexões com a Mãe Terra.

Articulação das Mulheres do Cerrado

8 de março de 2021


[1] FBSP Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2020.

Nota de Repúdio: Articulação das CPT’s do Cerrado contra o avanço da mineração nas Regiões do Cerrado

Lucro e Destruição

Articulação das CPT ‘s do Cerrado, constituída pelos regionais de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia e Minas Gerais, vem a público repudiar o avanço da mineração nas regiões do cerrado e os impactos diretos sofridos pelas comunidades nos seus territórios. Repudiamos o protocolo assinado pelo Governo de Goiás, com intenções para facilitar a expansão da extração mineral no estado. São mineradoras de outros países como Luxemburgo, Bélgica, Austrália, Belarus, Reino Unido e Canadá que irão explorar as riquezas naturais do Cerrado, deixando um rastro de destruição e insegurança para as famílias e o meio ambiente, um dano irreparável para as comunidades tradicionais e assentamentos de Reforma Agrária e agricultura familiar do estado de Goiás, que sofrem com a contaminação das águas e a devastação do bioma.

No entanto, o minério extraído não será beneficiado no Brasil, sendo levado para outros países para que depois os brasileiros comprem o produto de volta já industrializado. Ou seja, a lógica de exportação de minérios e commodities remonta a mesma política econômica colonial, em que se vende matéria prima para comprar o produto industrializado. Essa política serve apenas para enriquecer ainda mais as grandes empresas, enquanto ficamos com os danos ambientais que em muitos casos são irreversíveis.

Um dos principais argumentos a favor da mineração é a geração de emprego, e o falso discurso de progresso e desenvolvimento, assim como uma mistura de manipulação e oportunismo por parte das mineradoras. Porém, esse argumento é falacioso na medida em que não leva em consideração a degradação ambiental e as comunidades tradicionais e camponesas da agricultura familiar, pescadores e geraizeiros que tem uma história de vida nesses lugares, mas são forçados a abandonarem suas terras para dar lugar à exploração de minérios que contaminam o solo e a água com metais pesados, além de oferecer risco à população conforme vimos em Mariana em (2015) e em Brumadinho (2019). Vale lembrar que a barragem da mineradora MOSAIC, (antiga Vale do Rio Doce) em Catalão (GO) já se rompeu uma vez e a de Crixás (GO), da empresa Serra Grande, propriedade da sul-africana Anglogold Ashanti, chegou a ser interditada pelo risco que oferece.

Em outras regiões do Cerrado essa realidade também é recorrente e as comunidades e o meio ambiente já sofrem com esses projetos de morte. Um exemplo claro é no Norte de Minas Gerais. O antigo “Projeto Vale do Rio Pardo” e atual “Projeto Bloco 8”, da mineradora SAM – Sul Americana de Metais, previsto para a região do Vale das Cancelas e que se estende até o sul da Bahia, é um projeto que representa a reiteração de um sistema de exploração mineral que já deu mais do que suficientes provas de falência e caos, levando em consideração as violações sofridas por comunidades tradicionais diante da instalação de mega empreendimentos, uma vez que seus direitos a água e ao modo de vida tradicional são constantemente ignorados. Esse projeto chega até o sul da Bahia, onde serão destruídos milhares de postos de trabalho na Costa do Cacau. O mineroduto do Bloco 8, somado ao impacto da construção do Porto Sul, na Bahia, desestruturará a economia da região que tem como base o trabalho de pescadores, agricultores, pequenos empresários e trabalhadores do turismo.

É lamentável a ganância das empresas e latifundiários que avançam na destruição do Cerrado e das nascentes que alimentam os rios, que aumentam a escassez de água, envenenam a terra e favorecem para o agravamento de doenças cancerígenas e do surgimento de novas pandemias, que conseqüentemente matam milhares de pessoas. 

Concordar com a lógica do mercado que tem o lucro com fim em si mesmo, não faz sentido algum para a existência humana. Seja em uma visão antropocêntrica em que o importante é meramente garantir a perpetuação da espécie, a qual se baseia em que tudo que existe no universo, no planeta terra, assim como a natureza e a humanidade, é parte de uma criação Divina, que deve ser cuidada e respeitada. 

A vida deve ser o ponto de partida e de chegada de toda ação e condição humana. O mercado (o lucro) não deve estar acima da Vida e da Dignidade Humana! Por isso os modos de vida e direito das comunidades tradicionais e camponesas devem ser respeitados.

Enquanto a mineração for objeto de ganância e lucro das grandes empresas, ameaçando e impactando as comunidades camponesas tradicionais e quilombolas, assentamentos da reforma agrária e da agricultura familiar e todos os povos que vivem no Cerrado, a Articulação das CPT’s do Cerrado se posicionará sempre contra esse modelo de desenvolvimento que só alimenta a violência, conflitos no campo e promove injustiças. Solidarizamos-nos com as famílias impactadas que sofrem as consequências da atividade minerária. Por isso, levantamos nossas vozes para dizer: Não à Mineração! Sim a Vida e a Dignidade Humana!

Goiânia, 05 de março de 2021.

Articulação das CPT’s do Cerrado


Nota originalmente publicada no site da Comissão Pastoral da Terra.

Arte: CPT / Foto do destaque: Eternit/Divulgação

“Estamos diante de uma política de extermínio indígena no Brasil”, denuncia assessor jurídico da Apib na ONU

Essa foi a primeira incidência das organizações indígenas e indigenistas na 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas

 

Luiz Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), denunciou a situação dos povos indígenas no Brasil, durante a pandemia da covid-19, na primeira participação das organizações indígenas e indigenistas na 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, nesta segunda-feira (1).O novo coronavírus chegou aos territórios indígenas logo no início da pandemia. Vidas indígenas têm sido perdidas desde então, sejam elas de lideranças, anciões e anciãs, crianças. Por sua vez, o governo federal tem agido de maneira tardia e ineficiente.

Para completar, as motivações a invasões de terras indígenas oferecidas pela chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, aumentaram a presença de madeireiros, garimpeiros e grileiros no interior dos territórios. Com tais presenças, nesse período pandêmico, as aldeias ganharam um risco adicional.

”No Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e recentemente contatados que estão em perigo”

Conforme levantamento da Apib, até o dia 1 de março morreram 975 indígenas vítimas da covid-19. Nesta mesma data, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) contabiliza 43.685 casos confirmados, mas sem o registro de infectados entre os indígenas em contexto urbano.

De forma ainda mais grave, o risco de genocídio é levado pelo vírus aos povos livres (em situação de isolamento voluntário). “No Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e recentemente contatados que estão em perigo”, alertou o representante da Apib durante seu pronunciamento ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Em um ano de pandemia, o vírus já afetou quase 50 mil indígenas de 162 povos, sendo que quase mil indígenas perderam a batalha para a covid-19. “Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas”, aponta Eloy.

As violações aos direitos dos povos indígenas cresceram nesse período de pandemia diante da negativa do governo brasileiro em cumprir com o seu papel. Para tanto, a Apib foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) exigir como medida judicial aquilo que Bolsonaro se nega a fazer por obrigação constitucional.

”Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas”

Luiz Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Foto: Vinicius Loures/Agência Câmara

Luiz Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Foto: Vinicius Loures/Agência Câmara

Funai tenta passar a boiada

Além de não adotar medidas para barrar o avanço do vírus junto aos territórios, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem implementado Resoluções e Instruções Normativas que afrontam o Estado Democrático de Direito, avalia o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A exemplo da Instrução Normativa 09, de abril de 2020, que concede a certificação de imóveis rurais em terras indígenas não homologadas, as resoluções 04, de 22 de janeiro de 2021, que estabelece novos critérios para a “heteroidentificação” de indígenas no Brasil, e a 01/2021, que autoriza a “parceria” entre indígenas e não indígenas para a exploração econômica dos territórios.

“Essa segunda onda do coronavírus vai atingir diretamente os povos indígenas porque o governo não fez o que deveria ter feito, nem mesmo a partir de decisão do STF, ou seja, organizar barreiras de proteção, barreiras de contenção, tirar os invasores dos territórios indígenas e proteger esses territórios”, alerta Antônio Eduardo Cerqueira de Oliveira, secretário-executivo do Cimi.

“Pedimos ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil”

Para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, o representante da Apib denunciou a política de extermínio indígena no Brasil e fez um pedido à Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet: “ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil”.

Além da participação da Apib, o Cimi ainda terá outros quatro momentos de fala durante a 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que é a principal sessão do ano do organismo internacional com sede em Genebra, na Suíça.

A 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos teve início na segunda-feira (22) e se estende, por videoconferência, até o dia 23 de março.

Confira o discurso de Eloy Terena na íntegra:


Madame Bachelet,

Meu nome é Luiz Eloy, sou indígena do povo Terena. Sou advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Estou aqui para falar sobre a situação dos povos indígenas do Brasil neste contexto de pandemia Covid-19.

Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas.

Nossas comunidades estão sendo invadidas por madeireiros e garimpeiros. O vírus está matando nossos idosos. Na semana passada, perdemos o último indígena Juma. Essas são culturas e línguas que nunca iremos recuperar.

Aqui no Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e de recente contato que estão em perigo.

O governo brasileiro e seus agentes devem ser responsabilizados.

Estamos diante de uma política de extermínio indígena no Brasil.

Portanto, pedimos sua ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil.

Obrigada

Luiz Eloy

Advogado da APIB


Texto:  Assessoria de Comunicação do CIMI – Conselho Indigenista Missionário

 

#FiolForaDosTrilhos: Campanha denuncia irregularidades na implementação de ferrovia

Dois territórios quilombolas cortados ao meio por uma ferrovia. Mais de 200 famílias que nunca foram consultadas sobre a implementação da obra, ou informadas sobre os impactos ambientais, sociais e culturais do empreendimento. Esta é a realidade vivida pelas comunidades quilombolas de Bebedouro e Araçá-Volta, em Bom Jesus da Lapa – um dos 32 municípios baianos que estão na rota que pretende ligar o futuro Porto Sul, em Ilhéus (BA), à cidade de Figueirópolis (TO), através da Ferrovia de Integração Oeste Leste (Fiol).

“Eu estava trabalhando e chegou um pessoal colocando uns piquetes na comunidade de Capão de Areia. Quando me aproximei me falaram que seriam colocados marcos de concreto, que era pra passar uma ferrovia … A gente nem sabia do que se tratava, ninguém sabia!”, afirma Domingos Batista, morador do território quilombola de Araçá-Volta.
 
Este cenário é denunciado pela campanha #FiolForaDosTrilhos, que tem como objetivo denunciar as irregularidades presentes na construção da FIOL no Médio São Francisco. Receba informações sobre os próximos passos da campanha e apoie a luta das comunidades quilombolas de Araçá/Cariaçá, Patos, Pedras, Retiro, Coxo, Bebedouro, Capão de Areia, Lagoa do Peixe, Nova Batalhinha e Rio das Rã na defesa de seus territórios.
 
VIOLAÇÕES – Essa história se inicia ainda em 2010, quando o IBAMA concedeu a Licença Prévia para o início da construção do trecho da Fiol dentro dos territórios das comunidades sem a adoção dos procedimentos adequados para a realização da consulta, cenário que viola a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que concede aos povos indígenas e comunidades tradicionais o direito de serem consultados, de forma livre e informada, antes de serem tomadas decisões que possam afetá-los.
 
“O licenciamento está cheio de vícios, não segue a legislação. As obras da FIOL entraram sem autorização, fazendo picadas em roças e nas nossas matas, tudo sem comunicação”, relata Lucas Marcolino, Presidente da associação do território de Araçá-Volta.
 

VIOLAÇÕES – Essa história se inicia ainda em 2010, quando o IBAMA concedeu a Licença Prévia para o início da construção do trecho da Fiol dentro dos territórios das comunidades sem a adoção dos procedimentos adequados para a realização da consulta, cenário que viola a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que concede aos povos indígenas e comunidades tradicionais o direito de serem consultados, de forma livre e informada, antes de serem tomadas decisões que possam afetá-los.

“O licenciamento está cheio de vícios, não segue a legislação. As obras da FIOL entraram sem autorização, fazendo picadas em roças e nas nossas matas, tudo sem comunicação”, relata Lucas Marcolino, Presidente da associação do território de Araçá-Volta.
 
 

Em dezembro de 2017, após a VALEC buscar autorização judicial para adentrar nos territórios e seguir com as obras, mesmo com licenciamento vencido, uma decisão da Justiça Federal determinou a paralisação das atividades no trecho do território do quilombo Araçá Volta, que fica na margem direita do rio São Francisco, cuja ponte para passagem da ferrovia já se encontra praticamente concluída. Nesta decisão, tomada em audiência judicial com a presença dos quilombolas, assistidos pela AATR, o magistrado determinou que somente com a efetiva consulta prévia às comunidades, a VALEC poderia dar seguimento às obras.

Em 2018, o IBAMA renovou a Licença de Instalação mesmo sem o cumprimento do que foi acordado no Termo de Compromisso assinado entre VALEC e Fundação Cultural Palmares (FCP). Em 02 julho de 2019, dezenas de caçambas e máquinas ingressaram nos territórios quilombolas sem autorização, levando as famílias a construírem um bloqueio na estrada. Denúncias foram encaminhadas para a FCP, que informou ao IBAMA que a VALEC não havia cumprido os termos previstos no acordo, e o órgão ambiental decidiu suspender a autorização de qualquer trabalho da ferrovia nos trechos quilombolas enquanto os termos da condicionante ambiental não fossem atendidos.
 
Em 30 de setembro de 2019, foi assegurado em nova audiência judicial na Justiça Federal que as comunidades têm o direito de indicar consultorias de sua confiança para elaboração do Plano Básico Ambiental Quilombola (PBAQ), tendo em vista as reiteradas violações de direitos e não cumprimento de acordos estabelecidos. A VALEC, porém, tem sinalizado que não vai cumprir a determinação judicial, tendo informado às lideranças das comunidades que vai contrataria a empresa para elaboração dos estudos técnicos de acordo com a sua conveniência. Enquanto isso, as obras nas proximidades dos territórios quilombolas já estão avançadas, mas as famílias seguem sem informações e sem reparação pelos prejuízos já causados.
 
Os territórios quilombolas afetados, em sua maioria, encontram-se em estágio avançado no processo de demarcação de titulação. Porém, desde o início das obras, em 2010, esses procedimentos ficaram paralisados no INCRA, o que gera ainda maior insegurança diante de investidas frequentes de grileiros de terras. Parte significativa destes territórios são terras públicas da União, que são os terrenos marginais do rio São Francisco, o que torna menos complexo o processo de demarcação e titulação.
 
E O VELHO CHICO? – “Rios, lagoas e fauna não tiveram a oportunidade de serem ouvidos, uma vez que as comunidades não tiveram voz”, diz Lucas, que também explica que mesmo com as evidentes violações da VALEC e descumprimento de acordos, a suspensão da licença para a construção da ferrovia por parte do IBAMA só ocorreu após muita pressão e mobilização das comunidades.
 
Com o aterramento de um braço do Rio São Francisco, o abastecimento de água foi prejudicado e em resposta às reações da comunidade, foi construído um poço artesiano que, por sua vez, não funciona por falta de energia. A falta de transparência e de diálogo com a comunidade produz um clima de incerteza em relação ao futuro. Nossa preocupação é como se dará a passagem dos trilhos. Na saída da ponte temos o canal do riacho que abastece mais de 12 lagoas às margens do Rio São Francisco”, afirma Marcolino.
 

Moradores/as relatam que a construção da ponte sobre o Rio São Francisco afetou a agricultura e a pesca. Como resultado, muitos pescadores/as abandonaram as atividades, perdendo assim sua principal forma de sustento. Os/as quilombolas também sinalizam que o processo de reflorestamento iniciado pela FIOL, após o desmatamento, foi abandonado.

PROGRESSO PARA QUEM? – Os aproximados 1.527 quilômetros de ferrovia, com um investimento previsto de R$ 8,9 bilhões, são destinados ao escoamento de grãos e minérios, fortalecendo grandes empresas do agronegócio da fronteira agrícola do MATOPIBA, que historicamente tem se apropriado de territórios de comunidades tradicionais do cerrado por meio da grilagem de terras e do uso de empresas de segurança particular em práticas de violência física, moral e simbólica.
 
Nos últimos 20 anos a Comissão Pastoral da Terra registrou 2.338 conflitos por terra no Matopiba. Outro número que chama a atenção são os 670.653 hectares desmatados em áreas de preservação permanente, reserva legal e nascentes (Map Biomas 2019). A degradação do meio ambiente e a perda do acesso a terra têm sido fatores de aumento da pobreza das populações locais.
 
Apontado como um dos principais pontos de escoamento de commodities do MATOPIBA, o Porto Sul, destino da FIOL, iniciou em julho de 2020 sua construção pela Bahia Mineração (Bamin), empresa controlada pelo Eurasian Resources Group (ERG), do Cazaquistão. Importante destacar que a chegada da Bamim no sudoeste baiano também tem sido apontada como estopim para eclosão de conflitos em torno do acesso à terra, à água e a remoção de comunidades dos seus territórios.
 
 

Nota Pública: Homens armados ameaçam famílias na comunidade tradicional Tauá, em Barra do Ouro – TO

A Comissão Pastoral da Terra – Regional Tocantins divulga nota pública denunciando mais ameaças e violações por parte de pistoleiros contra famílias da comunidade tradicional Tauá, no município de Barra do Ouro (TO). Em típica ação de grilagem, o empresário Emílio Binotto, pretenso proprietário da área em questão, tem usado artifícios violentos para impedir as famílias tradicionais de regularizarem suas terras. Leia na íntegra

Homens armados ameaçam famílias na comunidade tradicional Tauá, em Barra do Ouro – TO 

Nesta quinta-feira (18/02/2021), mais uma vez, a comunidade de posseiros tradicionais da comunidade Tauá, localizada no município de Barra do Ouro (TO), enfrentou ameaças por parte de pistoleiros. Dessa vez, três homens armados ameaçaram e intimidaram a família da principal liderança da região, Dona Raimunda. Matriarca da comunidade, dona Raimunda é conhecida por sua resistência contra a grilagem. Ela foi mais uma vez ameaçada por homens armados que exigiram a paralisação do serviço de levantamento de campo para elaboração do georreferenciamento e do Cadastro Ambiental Rural (CAR) das famílias. 

O início do trabalho de campo para o georreferenciamento se deu no dia 10 de fevereiro e, no dia seguinte, fiscais da fazenda Binotto, do empresário Emílio Binotto, tentaram impedir o trabalho técnico, destruindo os marcos colocados na área. Não satisfeitos com a primeira pressão e intimidação, outros três homens, armados, foram nesta quinta-feira até a casa de Dona Raimunda e abordaram os moradores com tom ameaçador, exigindo que ela saísse de sua casa. Antes de irem embora, exigiram ainda a paralisação dos trabalhos do georreferenciamento e CAR, caso contrário haveria “consequências” para Dona Raimunda e sua comunidade.

As famílias registraram boletim de ocorrência e estão em contato com o Ministério Público Federal (MPF) para tomar as medidas necessárias para garantir a sua segurança e a agilidade nos processos de regularização fundiária das terras das famílias posseiras e de assentamento para as famílias ocupantes. Do outro lado, desafiando decisões judiciais, Emílio Binotto, pretenso proprietário da área em questão, em típica ação de grilagem, tem usado artifícios violentos para impedir as famílias tradicionais de regularizarem suas terras. 

Como Comissão Pastoral da Terra, Regional Araguaia-Tocantins, vimos primeiramente manifestar nosso apoio e solidariedade às famílias da comunidade Tauá. Reforçando o apelo dos moradores e moradoras, denunciamos a grilagem de terra e a violência praticada contra a comunidade e cobramos dos órgãos públicos competentes que investiguem com rigor a situação, resguardando a segurança das famílias e o seu direito à terra. 

Histórico

A Gleba Tauá, um grande território tradicional do município de Barra do Ouro (TO), é ocupada há mais de 50 anos por famílias camponesas. Corresponde à uma área matriculada como Terra Pública da União, arrecadada em 1984 pelo Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT), totalizando 17.735 mil hectares. Nesta ocasião, um processo de titulação de terras instaurado registrou apenas parte das áreas, deixando muitas famílias sem acesso à titulação.

Desde 1992 as famílias moradoras vêm sofrendo pressões e violências, tais como queima de casas, matança de animais, ameaças de morte, destruição de roças, despejos e cercamento pelas lavouras de soja. O desassossego das famílias não está relacionado apenas à violência física, patrimonial e moral, mas, e fundamentalmente, à violência cultural que é praticada contra seus modos de vida. Desde a chegada do grileiro Emílio Binotto na região, as famílias tiveram seus espaços sagrados destruídos e interferidos de forma violenta pela brutal implantação da soja, a exemplo dos cemitérios e dos córregos que abasteciam a comunidade. 

Em 2016, mesmo após várias ações que comprovaram a grilagem da terra, o juiz da Comarca de Goiatins expediu liminar de despejo contra as famílias de posseiros e ocupantes. Em 2019, uma decisão da Justiça Federal determinou que o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) desse prosseguimento ao processo administrativo de regularização da posse de quatro famílias posseiras, parado desde 2010. Mas, reconheceu também ao grileiro o direito de posse de uma das 14 áreas em litígio, sendo essa uma das áreas onde são estabelecidas as famílias ocupantes.

Concretamente, houve avanços em favor das comunidades nos processos administrativos e judiciais, mas tais decisões tiveram pouco efeito no sentido de garantir a segurança das famílias e de impedir a destruição ambiental do território da Tauá. Atualmente, mais de 100 famílias vivem neste território, entre camponeses posseiros, sem-terra e camponeses tradicionais que reivindicam a regularização fundiária, a reforma agrária e terras tituladas.

Araguaína, 19 de fevereiro de 2021

Comissão Pastoral da Terra – Regional Tocantins


Foto: Thomas Bauer/CPT

Vídeo: Gustavo Ohara/CPT Tocantins

Caderno Saberes e Fazeres Quilombolas: Planos de Gestão Territorial

As comunidades quilombolas do Jalapão vem há mais de um século trabalhando, cuidando e vivendo nos seus territórios. O Jalapão é uma região que possui um ecossistema muito particular, e as comunidades quilombolas que lá vivem desenvolveram saberes e fazeres em diálogo com os rios, terras, plantas e animais que possibilitaram um viver em consonância e equilíbrio com a natureza local.

Parte das comunidades quilombolas do Jalapão vivem em conflito com unidades de conservação que foram criadas sobre seus territórios, e outras em conflito com fazendeiros, que invadiram, desmatam e destroem as
relações construídas entre os quilombolas e seus territórios. As comunidades quilombolas resistem e lutam pelos seus direitos territoriais.

O caderno Saberes e Fazeres Quilombolas: Planos de Gestão Territorial foi elaborado em diálogo entre a Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins – APA-TO; Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins – COEQTO; Associação Jalapoeira das Comunidades Quilombolas do Território de Boa Esperança – AJAQUITEBE; Associação das Comunidades Quilombolas de Carrapato, Formiga, Mata e Ambrósio; Associação Quilombola dos Extrativistas, Artesões e Pequenos Produtores do Povoado do Prata; Associação Comunitária dos Quilombos de Barra da Aroeira.

O caderno teve o objetivo de sistematizar os Saberes e Fazeres Quilombolas construindo um documento referência para o Movimento Quilombola no Tocantins a gestão territorial, contribuindo assim para as trocas de saberes entre as comunidades e a sua luta pelos seus Direitos Territoriais.

Donwloads

Clique aqui para baixar o Caderno Saberes e Fazeres Quilombolas: Planos de Gestão Territorial.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Povoado Prata.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Boa Esperança.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Barra do Aroeira.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Carrapato, Formiga e Ambrósio.

 

ISPN abre editais para seleção de iniciativas comunitárias no Cerrado e Amazônia legal

29º e 30º Editais do Fundo PPP-ECOS destinarão mais de R$ 7 milhões para povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares

O Fundo para a Promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais (PPP-ECOS) divulgou, no dia 3 de fevereiro, dois editais direcionados para povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares da Amazônia Legal e do Cerrado, para atividades sustentáveis alternativas à exploração predatória do meio ambiente e dos recursos naturais.

Para o 29º Edital (Amazônia Legal/Fundo Amazônia), podem se inscrever, até 3 de maio, interessados das regiões da Amazônia Legal dos estados do Maranhão, Mato Grosso e Tocantins. Já para o 30º Edital (TICCAS), estão aptas a participarem iniciativas dos estados que pertencem ao bioma Cerrado. O prazo para essa inscrição é mais curto, encerra-se em 8 de março. Alguns casos de áreas de transição podem se inscrever nas duas oportunidades (confira os editais para mais informações).

As inscrições já podem ser feitas e de maneira on-line: para o Edital Amazônia Legal, clique aqui, para o Edital TICCAs, clique aqui.  A submissão de propostas para o PPP-ECOS deve obedecer às regras estabelecidas nos editais.

Os recursos para o Edital Amazônia Legal fazem parte da parceria entre o PPP-ECOS e o Fundo Amazônia/BNDES, que está investindo, apenas nessa chamada, R$ 6,45 milhões. Já no Edital TICCAs, os recursos são advindos da cooperação alemã (BMU) viabilizados por meio do GEF-Small Grants Programme e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e somam US$ 300 mil.

Saiba mais sobre cada edital:

Para o Edital Amazônia Legal, clique aqui. 

Para o Edital TICCAS, clique aqui. 

Sobre o Fundo PPP-ECOS

A Promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais (PPP-ECOS) é a principal estratégia adotada pelo ISPN na busca por um desenvolvimento com equidade social e equilíbrio ambiental. Para viabilizar esta estratégia, o Instituto gere este Fundo independente que capta e destina recursos a projetos de organizações comunitárias que atuam pela conservação ambiental por meio do uso sustentável dos recursos naturais, gerando benefícios econômicos e sociais. Hoje, a carteira de financiadores do Fundo PPP-ECOS conta com o Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF), a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), Fundo Amazônia/BNDES, Laudes Foundation, União Europeia e Ministério do Meio Ambiente, Proteção da Natureza e Segurança Nuclear da Alemanha (BMU).

 Saiba mais clicando aqui. 


 Fonte: Instituto Sociedade População e Natureza – ISPN / Foto: Acervo ISPN/André Dib

STF inclui ADPF quilombola em pauta para julgamento em 12 de fevereiro

Por Maryellen Crisóstomo

O Superior Tribunal Federal (STF) publicou no Diário de Justiça Eletrônico (DJE) nº 21 do dia 04 de fevereiro, a pauta nº 9/2021 que assegura o julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 742 na sessão virtual do próximo dia 12. O documento, requerido pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), foi protocolado em 09 de setembro de 2020 e pede urgência nas ações do estado brasileiro para auxiliar a população quilombola no enfrentamento à COVID-19.

Na data do protocolo, a Conaq já denunciava a preocupação com o aumento de casos de contaminação entre os quilombolas pela COVID-19, a subnotificação dos casos por parte das autoridades sanitárias e também a ausência de medidas de mitigação dos impactos do coronavírus em territórios quilombolas por parte do Estado Brasileiro. 

Desde o início da pandemia o monitoramento dos casos de contaminação entre a população quilombola tem sido feito de maneira autônoma pela Conaq em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA. Além dos boletins epidemiológicos publicados pela Conaq, os dados também ficam disponíveis na plataforma virtual quilombosemcovi19.org.

O STF coloca a ADPF Quilombola em pauta em um momento cuja luta da Conaq pela proteção aos quilombolas se expande para assegurar a imunização. Pois, embora o ministério da Saúde tenha divulgado em dezembro de 2020 que os quilombolas estariam no grupo prioritário, quando se iniciou a imunização na segunda semana de janeiro a lista do grupo prioritário foi alterada e os quilombolas excluídos.

A maioria dos Estados até o momento segue as orientações do Ministério da Saúde com relação aos grupos prioritários. São Paulo, portanto, incluiu a população quilombola no plano estadual de imunização, mas, até o momento, não há comunidades que tenham sido totalmente imunizadas, apenas alguns membros. Em geral, quilombolas acima de 60 anos e que atuam na área da saúde têm sido vacinados em vários Estados.

Clique aqui para ler o texto da ADPF 742 disponível em PDF 


 Fonte: CONAQ / Foto: Walisson Braga

A cisterna de Francisca: garantia de água boa para consumo

por Clara Mabeli/APA-TO

Francisca Pereira Vieira chegou na comunidade Ouro Verde, em Araguatins, no estado do Tocantins, quando tinha 36 anos de idade. Este ano, ela completou 70 primaveras. Não é preciso nem dizer, então, que se tem alguém que conhece bem a história da região, essa pessoa é a Dona Francisca. Morando e trabalhando há 34 anos no mesmo lugar, ela já viu muita coisa mudar. E uma das mudanças mais importantes na vida dela foi a conquista da terra. Junto com a família e com outros companheiros e companheiras de luta, contando sempre com o apoio de sindicatos e movimentos sociais, Dona Francisca e seu esposo Espedito resistiu e persistiu muito até a área onde ela vive hoje ter sido demarcada e regularizada.

Porém, não foram apenas transformações alegres que a Francisca vivenciou. Mesmo estando em um lugar privilegiado, entre os rios Araguaia e Tocantins, algo que sempre foi uma dificuldade, e que vem se complicando cada vez mais, é o acesso à água. Além das alterações no curso dos rios trazidas pela construção de barragens, a distribuição da água é desigual, então grandes fazendeiros e pessoas que têm mais dinheiro, conseguem água com mais facilidade do que pequenos agricultores. E ela sabe que não é só no campo que existe esse apuro. Na cidade, a água é privatizada e custa caro ter acesso a esse recurso.

Mas como a própria Dona Francisca diz sobre sua família e comunidade, “nós somos persistentes na história”. Portanto, ela não podia ficar de braços cruzados e tinha que arranjar um jeito de melhorar a situação, porque caminhar 17km para poder buscar água sempre que precisasse estava se tornando cansativo e exigente demais.

A primeira alternativa encontrada pela Francisca foi construir um poço, que garantiu um pouco mais de água para poder regar as plantas. Mas como a água que vem do poço é salobra, a maior parte do problema ainda não tinha sido resolvida, porque não dava para consumir a água, nem lavar roupa ou dar de beber aos animais. Foi somente em 2015 que a solução chegou de verdade: uma cisterna!

Por essa fala da Dona Francisca, dá para perceber bem o valor que essa alternativa tão simples e eficaz tem para a vida dela e da família.

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Foto: Clara Mabeli/Acervo APA-TO

A cisterna foi adquirida com a ajuda da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins), através do Programa ECOFORTE. Como havia mais de uma família que iria receber a cisterna, perceberam que seria importante haver um curso que ensinasse o passo-a-passo da construção e foi na casa da Francisca que esse curso aconteceu, capacitando muitas famílias de dentro e até mesmo de fora da comunidade. Depois de uma semana limpando a área, cavando o buraco e produzindo as placas, a cisterna pôde finalmente ser usada.

Quanta coisa boa aconteceu de lá pra cá! Além da água da cisterna já ser bem limpinha, a Dona Francisca ainda faz um tratamento com cloro que tira todas as bactérias e deixa a água prontinha para ser consumida. Se antes, quando a família ia visitar, era sempre uma preocupação o abastecimento de água, hoje isso já não esquenta mais a cabeça de ninguém, porque sabem que tem água para todo mundo. E como a cisterna armazena a água que vem da chuva, não é preciso tirar nenhum dinheirinho do bolso. Agora, tem água suficiente para cozinhar os alimentos, beber, lavar as roupas, fazer tudo o que antes dava muito mais trabalho para fazer. Porém, mesmo tendo água em abundância, ela e a família sabem bem da importância de preservar esse recurso e por isso sempre usam com cuidado e nunca desperdiçam.

Os benefícios trazidos pela cisterna foram tantos que trouxeram muitos sonhos para o coração da Dona Francisca. Ela quer desenvolver um sistema de irrigação que faça a água da cisterna chegar diretamente aos pés de cana, cajá, alface, rúcula, gengibre, mamão, açaí, maxixe e pepino que ela tem na horta. Quando realizar esse sonho, ela sabe que vai ficar ainda melhor, porque não vai ser mais necessário a água no balde e vai trazer ainda mais tranquilidade para a vida dela e da família. Mas ela não sonha apenas para si ou para a própria família.

Dona Francisca também gostaria muito que outras pessoas da comunidade tivessem acesso a alternativas como a cisterna, para que pudessem viver com mais saúde e qualidade de vida, e sabe que, para esse sonho se tornar realidade, algo essencial é o compromisso dos nossos governantes com a vida do povo.  Além de tudo isso, ela ainda deixa o recado: “o que a gente tem que fazer é preservar o que a gente conquistou, multiplicar e lutar por outras coisas”. Sigamos o conselho de Dona Francisca.


Vídeo e imagens: Websérie “Agroecologia em Rede no Bico do Papagaio” / APA-TO

 

APÓS ACORDO ENTRE VALE E GOVERNO DE MINAS SOBRE BRUMADINHO, MAB IRÁ RECORRER AO STF

Movimento não aceita valores rebaixados, falta de participação nas negociações e estuda entrar com recurso no Supremo para garantir reparação integral aos atingidos da bacia do rio Paraopeba 

Por Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Na manhã da última quinta-feira (4), no TJMG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), foi assinado o acordo global entre a mineradora Vale e Estado de Minas Gerais referente ao crime do rompimento da barragem em Brumadinho, que completou dois anos neste mês.

O governador Romeu Zema (Partido Novo), de maneira mentirosa, afirmou que “todas as partes envolvidas participaram” e que esta foi “uma participação como poucas vezes se viu em Minas Gerais”.

Desde outubro de 2020, o acordo é construído sem nenhuma participação dos atingidos, representantes ou comissões na mesa de negociação. Apenas em uma das reuniões, os atingidos foram convidados a estarem presentes na sala e apenas como ouvintes, sem direito a fala, representando uma ideia falsa de participação no acordo. E os atingidos não aceitaram.

Este é o acordo dos “de cima”, envolvendo a criminosa e quem deveria fiscalizar, impedir e punir o crime.

Além da falta de participação, o acordo seguiu diversas práticas inconstitucionais, colocando sigilo sob as resoluções do acordo e violando as práticas de publicidade e transparência do processo.

Ao final das negociações, os atingidos foram golpeados com a transferência dos processos judiciais, que tramitavam em 1ª instância na 2ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias da Comarca de Belo Horizonte, conduzidos pelo juiz Elton Pupo Nogueira, para a 2ª instância, o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSC) do TJMG. Uma conduta que representa uma aberração jurídica.

Nesta quinta-feira, o que foi firmado entre as Instituições de Justiça, o Estado de Minas Gerais e a mineradora Vale S.A, é um acordo para a realização de obras para o governo do estado, apenas com uma pequena parcela de benefícios para os atingidos da bacia do rio Paraopeba, que são as vítimas e sofrem até hoje as consequências do crime.

Portanto, o Movimento dos Atingidos por Barragens ressalta que o acordo que garantiria a reparação econômica, social e ambiental dos danos morais coletivos e dos prejuízos econômicos causados ao Estado, provocados pelo rompimento da barragem da Vale, mina Córrego do Feijão, não foi feito.

Este é, em suma, um grande negócio entre a mineradora criminosa e o governo liberal de Zema, que buscam, juntos, a publicização de valores bilionários, com verniz de reparação, mas que na prática representam propaganda eleitoral e indicativo de boas condutas para o aumento das ações internacionais da mineradora.

Fica claro nas contas apresentadas que o Estado alcançou se objetivos de receber quase 27 bilhões, em troca apenas de 9 bilhões aos atingidos, descontando inclusive o pagamento emergencial ja feito nesses dois anos, o que é um absurdo.

Isso mostra claramente a intenção da proibição da participação dos atingidos nos processos de negociação, porque foram eles que sairam prejudicados com essa negociação, o que representa uma violação clara aos direitos básicos da população da bacia do rio Paraopeba, que ficou destruído após o crime.

É inaceitável que a reparação coletiva dos danos causados pelo maior crime trabalhista da história do país sejam direcionados para obras na capital, Belo Horizonte, e não para aqueles que foram soterrados ou que ainda hoje, dois anos após o crime, estão sem acesso à água potável, direito humano básico.

Ressaltamos ainda que os danos causados ao longo da bacia do rio Paraopeba são inúmeros, desde danos morais, psicológicos e da saúde do povo, até a falta de água, renda e lazer. Existem centenas de áreas que precisam ser reparadas.

A destinação de parte desse dinheiro para a continuidade do auxilio emergencial por um período de quatro anos é uma conquista, fruto das muitas lutas dos atingidos, mas é completamente pontual e insuficiente para a reparação da vida dos atingidos.

Para a justa reparação, será necessária uma outra construção, diferente deste acordo firmado entre criminosa e o Estado, onde seja definido, de fato, um plano de reparação com a ampla participação com capacidade de decisão dos atingidos.

Seguiremos em luta para que o acordo seja anulado. O MAB agora seguirá em estudo para recorrer no Supremo Tribunal Federal (STF) buscando a anulação dessa que é uma grande sacanagem com o povo atingido de Minas Gerais.


 Fonte: MAB / Foto: Nádia Nicolau / Mídia Ninja

 

 

Plantações de soja avançam no leste maranhense com rastro de violência e desrespeito ao meio ambiente

“A natureza se encaminhava de criar os animais, tamanha era a fartura”, disse o seu Vicente de Paula Costa, de 64 anos, que cresceu em Carranca, no município de Buriti, distante 400 km de São Luís. A região é disputada por grandes empreendimentos oriundos do Rio Grande do Sul para a prática do agronegócio com fins do plantio da soja no cerrado maranhense. 

O senhor acrescentou tristemente; “agora os campos da soja só faltam invadir a minha casa. Na verdade, os homens responsáveis por isso já invadiram e me ameaçaram caso eu não venda a minha terra”, desabafou, lamentando a diminuição das árvores nativas como o bacuri. “É muito difícil encontrar os bacurizeiros, tudo está acabando, sendo destruído. Sem falar que eles comprometem também as nascentes dos rios. Espero que haja justiça e nos deixem em paz nas nossas terras”, afirmou seu Vicente que mora no território desde que nasceu.  “Além da devastação ambiental, temos um conflito agrário cada dia mais intenso por conta da expansão dessa forma de economia”, afirmou, Diogo Cabral, advogado popular e Defensor dos Direitos Humanos que acompanha os processos jurídicos dos agricultores. 

No leste maranhense, o Fórum Carajás tem atuado, há mais de 10 anos, em defesa das comunidades tradicionais ameaçadas pelo agronegócio da soja e do eucalipto para produção de celulose. Estas monoculturas, que avançam e pressionam as comunidades para deixarem suas propriedades, emperram a demarcação de terras, provocam conflitos agrários e ameaçam a biodiversidade do cerrado maranhense. Para Mayron Borges, presidente do Fórum, a situação se agrava ainda mais pela conivência do poder público em incentivar a monocultura da soja na região. 

Nos últimos meses no Leste Maranhense, em comunidades como Carranca, Brejão e Bacuri uma onda de violência rural, patrocinada pelo agronegócio, promoveu diversas violações aos direitos de povos originários e de agricultores e agricultoras familiares, além das agressões ambientais ao cerrado maranhense.  Representantes de organizações não governamentais como o Fórum Carajás, o advogado popular Diogo Cabral e de movimentos sociais estiveram em várias comunidades rurais e quilombola dos municípios de São Benedito do Rio Preto, Chapadinha e Buriti, para acompanhar de perto as denúncias.

Omissão em Brejão

Os moradores estão assustados em Bacuri, município de São Benedito do Rio Preto, com a matança de mais de 40 animais, entre porcos e bodes, promovido por invasores fortemente armados.  De acordo com o presidente da Associação Bacuri dos Moisés, Francisco das Chagas Nascimento, a comunidade já é uma área desapropriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) já definida em sentença, faltando apenas a emissão de posse e o cadastro das famílias. Em dezembro de 2020, ao constatar a matança dos animais, eles se deslocaram para a Delegacia de São Benedito do Rio Preto para denunciar o fato. De acordo com o seu Francisco, o escrivão se negou a registrar a denúncia e emitir o Boletim de Ocorrência, devido residir na área da comunidade.

A denúncia foi registrada na Promotoria de Justiça da Comarca de Urbano Santos contemplando: ameaças de morte aos moradores de Brejão, matança da criação de animais (porcos e bodes) e derrubada ilegal de árvores. Para seu Franscisco, essencial é que providências legais sejam tomadas urgentes antes de “acontecer o pior com os moradores da comunidade”, alerta. 

Casas queimadas em Guarimã

Uma grande área em Guarimã, também em  São Benedito do Rio Preto, é foco de disputa entre moradores da comunidade quilombola e gaúchos recém-chegados para o plantio da soja. De janeiro até agora, duas casas foram queimada no povoado, de acordo com a comunidade, incentivada pelos empreendedores desse sistema de monocultura com o objetivo de amedrontar e enfraquecer a resistência. Entre as lideranças da região, um homem e uma mulher (cujos nomes serão preservados por questão de segurança), pela primeira vez falaram sobre o assunto para uma rádio na Web. “Não nos intimidamos! Não podem tirar o que é nosso. Vamos seguir na luta”, enfatizou Amélia (nome fictício). 

Desmatamento predatório 

Seu Vicente, aquele senhor do início da matéria, na última semana assistiu entristecido mais desmatamento predatório. Árvores frutíferas como o bacuri, o pequi, o coco-babaçu, entre outros típicos do cerrado que levaram anos pra se desenvolveram são derrubadas em questões de minutos pelos correntões amarrados em dois tratores. Os animais da região também sofrem o impacto, muitos são mortos, outros ficam desnorteados com a floresta nativa destruída. 

Na comunidade de Brejão, município de Buriti, representantes dos movimentos sociais e ONG´s ainda sentiram o calor de quase 40º graus agravado pelo fogo colocado no que restou da floresta nativa destruída, há menos de uma semana. Foram quase mil hectares de cerrado dizimados para dar lugar à monocultura da soja, destinado ao mercado internacional, deixando um rastro de destruição por onde passa. 

Maranhão campeão de desmatamento do cerrado 

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam que o Maranhão foi o estado que mais desmatou o cerrado para a agricultura, pecuária e o plantio de eucalipto entre agosto de 2019 e julho de 2020.

No Brasil, o desmatamento da soja cresceu 13% nesse período. Foram retirados mais de 7300 km² de mata nativa, o que equivale a quase cinco vezes a cidade de São Paulo. Já no Maranhão, a região sul foi a que mais perdeu área de cerrado: cerca de 1800 km².

O cerrado é o bioma brasileiro mais ameaçado e o segundo com o maior número de animais em extinção; detentor das maiores taxas proporcionais de desmatamento e queimadas irregulares no Brasil; com perda de mais da metade de sua vegetação nativa em 30 anos.


Texto: Yndara Vasques e Franci Monteles, jornalistas facilitadoras de oficinas de comunicação popular pelo Fórum Carajás

Foto: Franci Monteles

Articulação em defesa do Rio São Francisco manifesta contra acordo entre Governo de Minas e mineradora Vale

A Articulação Popular São Francisco Vivo, que envolve diversas entidades, organizações sociais e pastorais da Bacia do rio São Francisco, se manifesta contra acordo negociado entre Governo de Minas Gerais e a mineradora Vale para reparação dos danos ocorridos em decorrência do rompimento barragem Córrego do Feijão, em Brumadinho, há dois anos.

A principal crítica é a de que o acordo, que atualmente está sendo conduzido sem a participação efetiva dos atingidos pelo crime ambiental, também exclui o Rio São Francisco como região atingida e minimiza os impactos e custos de reparação social e ambiental, fazendo temer ainda mais pelo futuro. Barranqueiros e barranqueiras relatam inéditas quedas de produtividade nas áreas de vazante do rio após o rompimento.

“Sabemos que todo aquele rejeito despejado criminosamente pela empresa Vale no Rio Paraopeba está sendo transportado pelas águas mortas por esse mesmo até ser depositado dentro do Rio São Francisco, que cruelmente por várias décadas será criminosamente impactado e assim contaminando e impactando todos que do VELHO CHICO dependem. Enquanto isso, a Vale contínua impune e cometendo mais crimes contra rios, seres humanos e toda a fauna e flora, a todo meio ambiente que ela possa alcançar. Muito triste pra todos nós que continuamos a conviver com essa situação”.

Leia na íntegra:

NOTA PÚBLICA — Contra o acordão entre Vale e Governo de Minas, em defesa da Bacia do Rio São Francisco

Diante do acordo eminente, mantido sob segredo de justiça, do Governo do Estado de Minas Gerais com a mineradora Vale, mediado pelo Ministérios Públicos Estadual e Defensoria Pública, sem a participação dos atingidos, a Articulação Popular São Francisco Vivo, que representa centenas de organizações populares e entidades sociais da Bacia Hidrográfica do São Francisco, e outras redes e coletivos em apoio, vêm por meio desta protestar contra o acordo e a exclusão do Rio São Francisco como região atingida, como se este não tivesse recebido, também ele, como comprovado por mais de uma instituição respeitada, rejeitos tóxicos do rompimento criminoso da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, há dois anos. Além da morte imediata de 272 pessoas, foram impostos inúmeros transtornos para as pessoas e comunidades sobreviventes, reduzindo drasticamente suas condições de vida, na Sub Bacia do Rio Paraopeba e no São Francisco a jusante. Porém aos olhos destas autoridades, até agora parte dos 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerários lançados no rio Paraopeba não atingiram a Bacia do Rio Federal São Francisco.

Hoje, com a baixa vazão de água liberada do reservatório, de apenas 299 metros cúbicos por segundo, e já se anunciando uma seca que poderá ser mais severa que a de 2014, os efeitos da contaminação se farão sentir ainda mais gravemente. Ainda que atualmente a sensação nas barrancas do São Francisco não seja a mesma dos atingidos e atingidas do Paraopeba, barranqueiros e barranqueiras relatam inéditas quedas de produtividade nas áreas de vazante do rio após o rompimento, se agravando com a falta de chuvas no período quente. É certo que a bioacumulação dos metais pesados, seja no fundo do rio, nos peixes ou nas pessoas, estará sujeita a índices mais altos, nestas regiões nos próximos anos, resultando em mais perdas sociais, econômicas e ambientais. O maior dano acumulado, no entanto, pesará sobre as comunidades tradicionais que mais dependem do ambiente equilibrado. 

Como diz um pescador do rio São Francisco: “sabemos que todo aquele rejeito despejado criminosamente pela empresa Vale no Rio Paraopeba está sendo transportado pelas águas mortas por esse mesmo até ser depositado dentro do Rio São Francisco, que cruelmente por várias décadas será criminosamente impactado e assim contaminando e impactando todos que do VELHO CHICO dependem. Enquanto isso, a Vale contínua impune e cometendo mais crimes contra rios, seres humanos e toda a fauna e flora, a todo meio ambiente que ela possa alcançar. Muito triste pra todos nós que continuamos a conviver com essa situação”.

Acordos como este, entre o Governo de Minas Gerais e a empresa Vale, que minimiza impactos e custos de reparação social e ambiental, faz temer ainda mais pelo futuro. Também em função da flexibilização das restrições legais aos empreendimentos, da abertura ao capital estrangeiro, da regularização das terras e águas da União em detrimento dos direitos sociais e ambientais e da prática do “segredo de justiça” em processos de apuração e reparação de crimes como este da Vale. E em vista de que novas tragédias criminosas virão! Pois, de acordo com o Inventário de Barragens da Fundação Estadual do Meio Ambiente – FEAM, o último publicado em 2018, são 312 barragens de mineradoras na Bacia do São Francisco, em Minas Gerais, considerando a inclusão das sub-bacias dos rios das Velhas e Paraopeba. Destas, 103 são de classe III, ou seja, são de alto potencial de dano ambiental; no total, oito destas barragens não possuíam garantia de estabilidade por auditor. Esta nossa manifestação se soma à luta do povo de Brumadinho, do Rio Paraopeba, de Mariana, a fim de que a história não se repita. A luta pela construção de um mundo novo, com novas relações entre os humanos e com a natureza, baseadas nos princípios da Ecologia Integral, se faz presente no cotidiano dos povos e comunidades da Bacia do Velho Chico, que dela dependem e a ela defendem, como uma exigência vital. Com isso endossamos nossos compromissos junto ao Pacto dos Atingidos lançado no último dia 25 de janeiro, no qual os atingidos sonham com um novo modelo de sociedade, que coloque a vida acima do lucro. 

Estaremos juntos e juntas! Até quando? Até sempre! Do luto à luta pela reparação integral de todos os atingidos e atingidas, pela reparação integral dos ambientes contaminados, pela criminalização dos responsáveis e contra velhos e novos empreendimentos de mineração da Vale e outras empresas, os quais representam riscos eminentes para com a vida dos trabalhadores e trabalhadoras, povos do campo e da cidade e para a Mãe Terra. Essa mãe que dá e recebe gratuitamente e sempre foi cuidada pelas mãos de sua gente tradicional. 

São Francisco Vivo – Terra e Água, Rio e Povo!  

Bacia do Rio São Francisco, 29 de janeiro de 2021.

 

Articulação Popular São Francisco Vivo

Caritas Brasileira Regional MG

Conselho Pastoral dos Pescadores CPP

Coletivo Velho Chico Vive

Conselho Indigenista Missionário – Regional Leste

 Movimento de Mulheres Camponesas MMC

Marcha Mundial de Mulheres 

Comissão Pastoral da Terra CPT

Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais MPP

Sinfrajupe – Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia

Rede Igreja e Mineração

Podcast | Impactos da pandemia nos povos do Cerrado e na biodiversidade

Episódio especial do Guilhotina com a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a ActionAid Brasil discute os impactos da pandemia nos povos do Cerrado e na biodiversidade. Bianca Pyl e Luís Brasilino recebem Maria do Socorro Teixeira, Helena Lopes e Maurício Correia. Quebradeira de coco babaçu e agricultora familiar da região do Bico do Papagaio, em Tocantins, Socorro é presidenta da Rede Cerrado e da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio e integra o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. Helena é especialista em agroecologia e justiça climática da ActionAid e doutoranda no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. E Maurício é advogado popular, membro da coordenação da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) na Bahia e especialista em Direitos Sociais do Campo pela Universidade Federal de Goiás. Falamos sobre o livro “Saberes dos povos do Cerrado e biodiversidade”, publicado pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, e outras pautas importantes para os povos e comunidades tradicionais desse bioma. Em pauta, a importância do Cerrado no equilíbrio ambiental de todo o Brasil, as pressões exercidas pelo agronegócio na região, os impactos da pandemia e muito mais!

Clique aqui para ouvir.

Websérie apresenta experiências agroecológicas no Tocantins

A Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), organização integrante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, lançou o primeiro episódio da Websérie produzida sobre experiências agroecológicas do Bico do Papagaio, região situada no extremo norte do estado do Tocantins. Intitulada “Agroecologia em Rede no Bico do Papagaio”, a procução conta com 13 episódios que serão publicados nas redes sociais da entidade todas as quinta-feiras.

A iniciativa pretende compartilhar as experiências praticadas pelos agricultores camponeses, quebradeiras de coco e quilombolas que participam da Rede Bico Agroecológico na região tocantina, apresentando alternativas para a produção de alimentos, cuidado com animais, reaproveitamento e armazenamento de água, implantação de cisternas, apicultura, cuidados com as hortas e também práticas que podem facilitar o manejo de cultivos agroecológicos.

O episódio de abertura se chama “Mãe e Filha”, e apresenta a experiência de Katarina da Conceição, uma jovem formada na Escola Família Agrícola e sua mãe, Juscilene. As duas compartilham o terreno de cultivo de vida e de plantas, no Projeto de Assentamento Sete de Janeiro, em Araguatins (TO). Katarina mantém um Sistema Agroflorestal (SAF) ao lado da horta da mãe, e as duas se ajudam no cuidado com as plantas e na troca de saberes. Nada se perde na casa da família, nem as folhas, outrora queimadas, que agora servem para cobertura do solo.

Nas histórias compartilhadas, está presente o desejo por uma vida melhor e de qualidade para quem vive do e no campo. Muitos dos retratados narram a trajetória de trabalhar para outras pessoas, vivendo sujeitos às regras de patrões. Os mais jovens relatam o desejo de construir formas de viver e produzir para poderem permanecer no campo.

Vale ressaltar que, na série, cada episódio apresenta uma experiência, mostrando para os espectadores alternativas acessíveis e sustentáveis para melhorar o dia-a-dia no campo e como é possível viver em harmonia com a biodiversidade. Por exemplo, a reutilização de águas cinzas, que consiste em um sistema de escoamento da água utilizada na casa, para as plantas. Ou então, dicas que podem estar faltando para um iniciante no cultivo de hortaliças, um modelo de canteiros, como o canteiro econômico, que economiza, principalmente, água e tempo do agricultor.

É possível acompanhar a websérie no canal da APA-TO no Youtube e nos perfis do Facebook e Instagram da entidade.


 Serviço:

Websérie “Agroecologia em Rede no Bico do Papagaio”

Lançamento: 28 de janeiro de 2021

Realização: APA-TO e Rede Bico Agroecológico

Texto, imagem e informações: APA-TO

Contato: yuki@apato.org.br  

Comunidades de Fecho de Pasto em Correntina (BA) sofrem ataque de grileiros

Além de derrubarem e enterrarem uma casa de alvenaria em construção, os grileiros destruiram um histórico rancho de madeira, cercas e currais utilizados pelas comunidades geraizeiras da região

Entre os dias 22 a 24 de janeiro, as comunidades que usam o Fecho de Pasto da Vereda da Felicidade foram surpreendidas por mais um ataque de grileiros, que num ato cruel derrubaram a casa de alvenaria que os fecheiros estavam construindo para se abrigar na época do manejo do gado. Afim de não deixarem vestígios, utilizaram de uma pá carregadeira que cavou um buraco e enterrou todo o material de construção da casa que já se encontrava em ponto de madeiramento para o telhado. Além de enterrar os restos da construção, espalharam toda a brita utilizada, chegando até as margens da vereda da Onça e cavaram buracos construindo obstáculos de terra na estrada tentando impedir o acesso até o local da turbação e esbulho.

No último domingo (24), os malfeitores retornaram a área e acabaram com um rancho de madeira construído há mais de 50 anos, local de descanso dos posseiros quando do manejo do gado. E derrubaram mais de 4 km de cerca e currais comunitários usados pelos Geraizeiros. Tais crimes já foram comunicados a Delegacia de Polícia de Correntina, de quem se aguarda que as providências sejam tomadas. Contudo, merece destacar a gravidade deste ataque ao Fecho de Pasto da Vereda da Felicidade e a violência com que tudo se deu, acredita-se que quase que simultaneamente, enquanto ocorria a turbação e o esbulho da Vereda da Felicidade, em Correntina, na comunidade de Braço do Roçado, município de Barra, moradores desta comunidade eram ameaçados por homens armados, enquanto outros ameaçavam derrubar a cerca dos Ribeirinhos com um trator.

Casa de apoio em construção em ponto de madeira e telhado

Casa de apoio em construção em ponto de madeira e telhado

O Fecho de Pasto de Vereda da Felicidade, no município de Correntina-BA é utilizado por famílias Geraizeiras das comunidades de Mocambo, São Francisco de Santa Maria da Vitória, Silvânia, Jenipapo e Cobra Verde de Correntina de maneira comunal há mais de um século. A área deste Fecho possui 12.800 ha de Cerrados conservados por estas comunidades, onde encontra-se cinco veredas perenes que delimitam o território, distribuídas geograficamente da seguinte forma a Leste a Vereda do Cabresto, depois em direção ao Oeste estão a Vereda da Onça, a Vereda do Morrinho, a Vereda das Pedras e pôr fim a Vereda da Felicidade, que dá nome ao Fecho, todas estas desaguam no rio das Éguas ao sul, e ao norte há um eixo limítrofe com algumas fazendas, este território é delimitado pelas veredas e por cercas de arame históricas, conforme a tradição das comunidades Geraizeiras.

Casa de apoio após a destruição e soterramento

Esta solta possui um conhecimento tradicional extremamente adaptado ao manejo das pastagens nativas dos Cerrados, com destaque para o manejo dos capins “Agreste” este de dois tipos variando o tamanho das folhas, a “Braquiarinha”, o “Pereirão”, a “Timborna”, o “Mangulô”, a “Mandioqueira”, a “Tiririca”, a “Marmelada”, além destas pastagens nativas os animais ainda se alimentam da flor de Pequi, da fruta do Barbatimão e do Sabiú. Além do manejo das pastagens os rebanhos foram selecionados considerando que as fêmeas possuíam maior resistência aos pastos nativos, além da pecuária, pratica-se durante os ciclos das plantas do Cerrado, o extrativismo, com destaque para o Pequi, a Aroeira, o Barbatimão, o Buriti, a Favela, e uma centena de plantas com uso medicinal.

Por tudo isso, clamamos por justiça e pedimos a intervenção das autoridades competentes a fim de se evitar mais uma tragédia anunciada no Oeste da Bahia. Inclusive, com risco eminente de derramamento de sangue, visto que tais territórios são fontes de sustento das referidas comunidades.

Correntina-BA, 25 de janeiro de 2021.

Associação de Preservação de Meio Ambiente Veredas da Felicidade
Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia – AATR
Comissão Pastoral da Terra-Centro Oeste da Bahia Núcleo da Diocese de Bom Jesus da Lapa
 

Agroecologia em rede no Bico do Papagaio: integração entre mãe e filha

Conheça a horta agroecológica da Juscilene e o sistema agroflorestal da Katarina, que vivem na região do Bico do Papagaio (TO)

Jucilene da Conceição mora há 10 anos no Projeto de Assentamento Sete de Janeiro, no município de Araguatins — TO. Antes de ter o próprio pedacinho de terra, ela vivia com a família no lote de seu sogro e passou 10 meses acampada, até ter a alegria de ser sorteada para receber seu próprio lote. Junto com o marido, sempre mostrou para seus sete filhos a importância de plantar, o que ajudou a despertar no coração de Katarina, sua filha de 15 anos de idade, o gosto por cultivar a terra. Hoje em dia, a Jucilene possui uma horta agroecológica e a Katarina, um sistema agroflorestal (SAF).

São duas experiências agroecológicas que fazem com que mãe e filha aprendam muito uma com a outra. Do mesmo modo que a Katarina aprende com a experiência de vida dos pais, ela ensina para a família tudo o que descobre com os seus estudos na Escola Família Agrícola. A Jucilene, por sua vez, transmite seus conhecimentos à Katarina e conti-nua sempre a aprender com as descobertas da filha e também com a participação em movimentos sociais, sindicatos e organizações. É essa troca de conhecimentos entre mãe e filha que garante o sucesso da horta agroecológica e do SAF.

Na horta da Jucilene, os venenos não têm vez. Ela, junto com sua família, cuida com muito carinho de tudo que é plantado: cebolinha, couve, alface, quiabo, coentro, tomate, rúcula, pimenta de cheiro, pimentão, milho, pepino, cenoura. Quando aparece algum inseto que pode prejudicar a horta, ela utiliza inseticidas naturais, como é o caso da água que sobra do cozimento da mandioca, da manipueira e das folhas de ninho batidas no liquidificador. Com a agroecologia, ela aprendeu que é possível plantar mais de uma hortaliça no mesmo canteiro, pois cada planta pode ajudar a outra a se desenvolver e quando chega o tempo de colher, outra variedade pode ocupar o seu lugar. Na horta agroecológica, para melhorar o solo também é tudo natural.

Aproveitando as folhas que caem das árvores, a palha do milho ou a palha da fava, por exemplo, a Jucilene faz a cobertura do solo no próprio canteiro, perto das plantas, e nos corredores que existem entre um canteiro e outro. Além de servir como adubo, as folhas não deixam o mato crescer em volta das hortaliças, ajudam a manter uma temperatura mais agradável para as plantas e também diminuem a quantidade de água que precisa ser usada para regar, já que a cobertura mantém a umidade no solo. A cobertura do solo também é um elemento muito importante para manter a qualidade de tudo que é plantado no SAF da Katarina, que é um consórcio de várias plantas, entre hortaliças e árvores frutíferas e não frutíferas: feijão, milho, berinjela, abacaxi, mogno, laranja, açaí, limão, ingá, acerola, manga.

Aqui, também se nota que uma planta ajuda a outra. O açaí, por exemplo, pode ser plantado próximo ao pé de manga para aproveitar sua sombra e os nutrientes das folhas que caem. Comparando esse sistema agroflorestal com um plantio convencional, a Katarina garante que vale muito a pena, porque num espaço pequeno (10 m x 10 m) é possível plantar muitas variedades e ainda economizar água, já que um plantio se encontra próximo do outro e não é preciso regar grandes pedaços de terra.

Os benefícios de tanto cuidado e carinho com a terra são bem claros. A renda da família melhorou bastante, porque o alimento que antes seria comprado, agora pode ser adquirido do próprio quinta. Além disso, boa parte do que é colhido, é comercializado através da COOAF-Bico (Cooperativa de Produção e Comercialização dos Agricultores Familiares Agroextrativistas e Pescadores Artesanais de Esperantina Ltda). Mas não foi só o bolso que sentiu a diferença. As experiências da Juscilene e da Katarina também fizeram bem para a saúde, porque elas não usam veneno naquilo que plantam, então é tudo mais natural e saudável.

É importante destacar, por fim, que tanto para a horta, quanto para o SAF, mãe e flha reconhecem a importância do trabalho coletivos, não só da família, mas também de outros membros da comunidade. Através de visitas de intercambio de experências em outros projetos de assentamento, de mutirões e de troca de sementes e saberes, a Juscilene e a Katarina reconhecem que aprenderam muito e alimentam, juntas, o sonho de que suas experiências agroecológicas cresçam cada dia mais e que mais pessoas aprendam que é possível viver da terra.

Como a Juscilene deixa claro, “com consciência e sabedoria, a gente rompe barreiras”. Que a experiência desta família seja grande inspiração para acreditar nesse recado e seguir lutando pela terra.


Texto: Clara Mabeli/APA-TO

Fotos: Clara Mabeli e Gustavo Ohara/Acervo APA-TO

Vídeo: APA-TO – Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins

Brasil: O trabalho escravo pode retornar à invisibilidade?

Entre 1995, ano da criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, e o final de 2020, foram realizadas 5.602 fiscalizações de trabalho escravo, no campo ou na cidade, sendo 2.851 no período de 1995 a 2010 e 2.751 no período de 2011 a 2020. O número de estabelecimentos fiscalizados anualmente pelos grupos móveis ficou numa média anual de 178 entre 1995 e 2010, subiu para 275 entre 2011 e 2020, com um teto de 296 entre 2007 e 2015. De 2016 para cá, o número anual médio foi diminuindo um pouco, em conjuntura política de franco retrocesso. Mesmo assim ficou em 247 na média dos últimos 6 anos. Apesar de muitos contratempos (orçamentos e efetivos minguados, críticas repetidas à fiscalização), a atuação dos órgãos de combate ao trabalho escravo permaneceu, possibilitando o resgate de 53.111 mil trabalhadores desde 1995, com uma média anual de 2.040 no período de 1995 a 2020, sendo 2.450 entre 1995 e 2010, e 1.400 entre 2011 e 2020, ficando abaixo de mil por ano nos últimos 6 anos (média de 868). Neste total a parte da Amazônia tendeu a diminuir fortemente: nela aconteciam 65% das fiscalizações entre 2001 e 2010; essa percentagem caiu para 47% entre 2011 e 2017, e de novo para menos de 35% depois de 2018. 

Em 2020, 112 casos de trabalho escravo foram identificados em todo o Brasil, envolvendo 1.390 pessoas e resultando no resgate de 1.040 delas. Destas, 942 foram encontradas por Auditores Fiscais do Trabalho atuando nos grupos móveis de fiscalização (junto com policiais federais e procuradores), e 98 sem a participação de AFTs. Em 2019, o número total de casos identificados havia sido maior: 130, sendo praticamente iguais os demais números: 1.208 pessoas envolvidas, 1.050 resgatadas (mais 87 não resgatadas). A diferença é que, em 2020, por vários meses, não houve possibilidade de os fiscais irem a campo especialmente para áreas que exigissem deslocamento aéreo. As ocorrências de norte a sul do país abrangeram diversos segmentos, tais como pecuária, lavouras (especialmente café e cebola), carvoaria, mineração, confecção, construção civil, serviços diversos e, em 3 ocorrências: serviço doméstico, destacando aí  a dramática história de Madalena, uma mulher negra explorada desde seus 8 anos e durante mais 38 anos por  uma família abastada de Patos de Minas, MG. 

Desemprego, informalidade e desmonte dos direitos tendem a acentuar e invisibilizar a exploração dos trabalhadores. Embora um pouco superiores ou iguais aos de 4 dos 5 anos anteriores, os números de 2020 confirmam uma tendência de redução da visibilidade do trabalho escravo, porém desta vez com uma redução significativa do número de estabelecimentos fiscalizados. Não há como sugerir que a prática do trabalho escravo tenha diminuído. Disso nos alerta o integrante da Campanha “De olho aberto para não virar escravo!”, Hamilton Luz (CPT-BA): “Conseguir emprego se tornou uma proeza tão hipotética que, mesmo submetido a humilhações, violação de direitos, sendo tratado até pior que animal, o trabalhador resiste à ideia de denunciar. Ainda mais quando a lei que protegia seus direitos sofre desmontes sucessivos como foi acontecendo a cada ano ultimamente”, destaca. “Sem denúncia, precisa investigar bastante para localizar focos de trabalho escravo escondidos atrás da ‘normalidade’. Em contexto de gritante restrição de recursos, a fiscalização sozinha, com meios minguando faz anos, dificilmente consegue dar conta”.

O desmonte dos direitos e a precarização dos empregos têm agravado a situação do trabalho escravo no país. “Um dos grandes vilões é o desemprego (além da concentração de terra e falta da reforma agrária), a pessoa desempregada, na maioria das vezes, não pensa duas vezes antes de aceitar um emprego, e é nessas horas que os gatos, os aproveitadores da ‘miséria’ alheia dão o ‘golpe’”, comenta Luz. 

Os efeitos mais deletérios da reforma trabalhista resultaram principalmente da flexibilização sem limite do recurso à terceirização (porta de entrada para a maioria dos casos de trabalho escravo) e do rebaixamento dos padrões mínimos exigidos na organização da jornada e das condições de trabalho, junto à afirmação da primazia do negociado sobre o legislado (outra porta aberta para todo tipo de abuso, em relação de negociação geralmente desigual, especialmente no ambiente rural).  

Outro elemento fortemente dissuasivo para qualquer iniciativa de denúncia ou de resistência de um trabalhador frente à violação dos seus direitos: a eventualidade para a parte sucumbente em litígio perante a Justiça do Trabalho de ter que arcar com as despesas da defesa da outra parte.  Neste clima não é de se admirar se as denúncias de trabalho escravo acolhidas na CPT têm seguido uma linha de forte redução nos últimos anos.

DESMONTE E RETROCESSOS

As verbas destinadas à fiscalização do trabalho no Orçamento Federal do Brasil despencaram brutalmente: de uma média de R$ 65 nos anos de 2015 a 2017, o orçamento público foi para 41 em 2018, 39 em 2019, 25 em 2020 e nova redução ainda em 2021 (fonte: Federação Única dos Petroleiros). 

A falta de Auditores-Fiscais do Trabalho prejudica diretamente o combate ao trabalho escravo e as demais demandas da fiscalização. Segundo o SINAIT, a carreira da Auditoria-Fiscal do Trabalho tem 3.644 cargos criados por lei, mas apenas 2.100 Auditores-Fiscais do Trabalho estão na ativa hoje, para atuar em 27 unidades da Federação e na sede do Ministério da Economia, em Brasília. A necessidade real é avaliada em 8 mil Auditores, como apontou desde 2012 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea. Em média, todos os anos, aposentam-se 130 Auditores. O déficit é de 1.544 Auditores-Fiscais do Trabalho, o maior dos últimos 25 anos. As vagas existem, mas o governo não realiza concurso (o último foi em 2013). Uma nota pública da CONATRAE de 30 de junho de 2020 cobrou um posicionamento do Governo a esse respeito, mas não foi respondida até o momento.

TE Joao Ripper Arquivo CPT

No tocante à fiscalização específica do trabalho escravo, os efeitos desta dramática redução orçamentária são visíveis. Contudo foram em parte controlados, inclusive graças à resiliência e valentia dos agentes públicos envolvidos. Com a pandemia, os efeitos do prolongado estancamento do recrutamento para a carreira de AFT têm sido agravados e escancarados: com grande número dos seus funcionários já na faixa etária de risco, tornou-se problemática de março de 2020 para cá a operacionalização da fiscalização in loco, uma necessidade incontornável em matéria de trabalho escravo. 

De acordo com a CPT, nos últimos 25 anos – ou seja: entre 1995, ano da criação do Grupo Móvel, e final de 2020 – cerca de 55.850 pessoas em situação análoga à escravidão foram libertadas em todo o país, de um total de 58.400 pessoas encontradas nesta situação. Os números oficiais da Secretaria de Inspeção do Trabalho diferem um pouco (para menos) da estimativa da CPT, pois, diferente do cálculo da CPT, não incluem eventuais resgates realizados por outras instituições públicas (sem a participação de Auditores Fiscais do Trabalho). É considerada escravizada uma pessoa submetida a condições degradantes de trabalho, jornada exaustiva ou a alguma forma de privação de liberdade de ir e vir, inclusive, por meio de dívida ou de trabalho forçado. Segundo o art. 149 do Código Penal, reduzir alguém a esta condição é crime e a pena é de dois a oito anos de prisão, além de multa.

Os números disponíveis dão conta apenas da parte visível de um iceberg cuja dimensão real permanece fora do nosso alcance. Nem toda fiscalização resulta em flagrante de trabalho escravo: pelo contrário, a experiência mostra que apenas 45% (menos de uma em cada duas) resulta em resgate. Já foi maior essa proporção, chegando a 70% em algum ano (2003, 2005, 2007), mas, desde 2013 a proporção ficou menor: em torno de 40% em média. 

Não tem alternativa: detectar a existência da prática do trabalho escravo depende ou de denúncia por parte de vítimas ou da realização de sofisticado trabalho de inteligência. Apenas recentemente 15 a 30% das fiscalizações passaram a depender de “trabalho de inteligência”. Ou seja: a possibilidade de localizar o crime tem essencialmente dependido da decisão de trabalhadores fugirem para denunciar. 

Aí intervém o papel central assumido por todos nós, inclusive nós da CPT: nossa pastoral tem sido quase que um “porto da salvação” para milhares de peões desamparados, acolhendo e encaminhando desde o princípio dos anos 1970 a maior proporção das denúncias propostas à Secretaria de Inspeção do Trabalho.

O processo de uma denúncia por sua vez depende de diversas condições e circunstâncias: a capacidade de os trabalhadores avaliarem a sua situação como fora do “normal”; sua possibilidade concreta de optar pela resistência às condições impostas; a existência de algum caminho de fuga ou/e de denúncia acessível, sem incorrer em risco impeditivo; a capacidade de o receptor da denúncia acolher, entender, amparar o informante e, com todo o sigilo necessário, encaminhar para as autoridades competentes uma informação minimamente organizada e operacional.

Por muito tempo a CPT foi o principal canal de denúncia para os “peões” que optassem por denunciar. E as primeiras denúncias divulgadas pela CPT – já nos anos 1970-1980 (cf Pedro Casaldáliga, Ricardo Rezende, Henri des Roziers) foram à raiz da crescente mobilização em favor do combate ao trabalho escravo contemporâneo. 

Nos primeiros anos, a proporção dos casos de trabalho escravo identificados por denúncias encaminhadas pela CPT ficou em mais de dois terços do total: 69% em média no período de 1995 a 2006. Nos anos subsequentes, com a interiorização do acesso ao serviço público (a exemplo do Ministério Público do Trabalho), a multiplicação dos aplicativos (como o Disque 100 e agora o novo sistema Ipê operacionalizado em 2020 pela Secretaria de Inspeção do Trabalho: https://ipe.sit.trabalho.gov.br/) e dos telefones celulares, essa proporção foi recuando para uma média de 27% no período de 2007 a 2019. Mesmo assim, força é de constatar que nem a metade das denúncias assim encaminhadas chegava a ser fiscalizada.

Até 2006, 4 em cada 5 resgates aconteciam na Amazônia onde ocorriam 3 em cada 5 fiscalizações. A partir de 2004 o resto do território nacional passou a ser também fiscalizado, e com crescente intensidade. De 2007 para frente, a fiscalização de trabalho escravo tem atuado em média em 21 estados a cada ano. Neste último período, uma fiscalização em cada duas ocorreu fora da Amazônia, e os maiores resgates também fora deste bioma (3 em cada 5). Em 2020, menos de uma fiscalização em cada três foi na Amazônia.

Com isso o ranking dos Estados mais afetados e a proporção relativa entre trabalho escravo rural ou não rural foram mudando, como mostra o ranking dos primeiros estados pelo número de resgates:

tabela CPT TE

ACESSE AQUI acesse a tabela completa com dados detalhados do registro de trabalho escravo no Brasil até 2020.

Ao se estender ao conjunto do território nacional, a fiscalização do trabalho escravo passou a revelar a presença deste crime em um leque de atividades bem mais diversificado: quando, na Amazônia, predominavam o desmatamento, a pecuária, o extrativismo vegetal, o carvão vegetal e algumas monoculturas como soja e eucalipto, a fiscalização se deparou, além do agronegócio (soja, café, cana de açúcar, algodão, cacau, milho), com setores como construção civil, confecção, restauração, transporte e serviços diversos, na cidade como no campo.  

A ampliação territorial da fiscalização, no entanto, não permite afirmar que já estaríamos perto de enxergar o problema em sua totalidade. O tamanho real do iceberg do trabalho escravo permanece uma incógnita. É muito provável que se estenda bem além do que conseguimos enxergar até hoje.

Por isso importa não baixar a guarda, ampliar a vigilância, espalhar a informação, reforçar os instrumentos da política pública no âmbito da prevenção, da repressão e da reparação, sem a qual não se pode esperar quebrar o ciclo da escravidão. Uma boa notícia deste tão conturbado ano 2020 foi a aprovação pelas COETRAE e a CONATRAE do Fluxo Nacional de Atendimento às vítimas do trabalho escravo, doravante referência essencial para a necessária articulação das intervenções das várias instituições convocadas a contribuir neste nobre combate tanto no plano nacional, como no estadual e no municipal. 

28 de janeiro de 2021

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA – CAMPANHA NACIONAL CONTRA O TRABALHO ESCRAVO 


 Fonte: CPT 

Imagens: João Ripper

Povo Chiquitano denuncia crime ambiental em Área de Preservação Permanente

Ofício enviado ao MPF, MPE e Sema requer fiscalização no rio Tarumã e tem apoio de entidades socioambientais e de direitos humanos.

No começo de janeiro, indígenas do povo Chiquitano que residem na aldeia Acorizal, na Terra Indígena (TI) Portal do Encantado, localizada no município de Porto Esperidião (MT), notaram que a água barrenta do rio Tarumã não era resultado das chuvas e, sim, do desmatamento ilegal da margem e represamento na cabeceira, distante aproximadamente 20 km da aldeia. Além da coloração da água, a escassez já era evidente desde o ano passado, no entanto, a comunidade acreditou inicialmente que era por conta da seca, com ápice no mês de julho.

“Nós vimos a diferença bem antes, mas como não podemos ir até a área da cabeceira, para manter a nossa segurança, já que não seríamos bem recebidos, só em janeiro soubemos do represamento e da degradação, e tivemos certeza que não era efeito da chuva ou da seca”, explica o cacique.

O rio Tarumã tem extensão de 135 km e atravessa os territórios de Rondônia, Mato Grosso e da Bolívia e apresenta diversos pontos de degradação. De acordo com o cacique da aldeia Acorizal, José de Arruda Mendes, o rio já secou em algumas partes localizadas próximas à BR-265, nas comunidades Chiquitanas que estão dentro da Bolívia.

Rio Tarumã: vital para a sobrevivência

“A nossa vivência depende desse córrego. Matar um rio desse é matar um povo. É um prejuízo e uma grande perda para nós”, lamenta José. Ele afirma que o rio Tarumã era a principal fonte hídrica das quatro aldeias da TI. Portal do Encantado, especialmente a Acorizal, por estar mais próxima da margem. Além do uso para banho, consumo e irrigação das hortas e quintais, o cacique e professor dimensiona a importância do rio para os rituais da comunidade Chiquitana: “O córrego é tudo para a nossa comunidade. Nós tomamos banho durante a madrugada porque acreditamos que a água tira todo o mal do corpo e vai embora pela correnteza. Na Serra de Santa Bárbara, onde ele passa, fazemos a perfuração de orelha e nariz dentro do rio. É da beira do rio que retiramos plantas que servem para tratamento de algumas doenças. Temos diversos rituais que são de suma importância para o nosso povo”. Além disso, ele ressalta a convivência entre jovens e adultos e a realização de atividades escolares e culturais no rio Tarumã.

Após notarem as mudanças no nível do rio, na coloração da água e encontrarem sedimentos, os indígenas suspenderam o uso diário com receio de contaminação. “Nós não sabemos o que tem no rio. O Tarumã baixou demais e os peixes também acabaram. Depois veio a sujeira, o barro dentro da água, e suspeitamos. Hoje estamos buscando água de outra aldeia”, diz José. É fundamental ressaltar que a soberania alimentar da comunidade está comprometida, já que a água também era utilizada na produção de frutas, legumes e verduras cultivadas no local. Os peixes, quando existiam, serviam de alimento para o povo Chiquitano.

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Comunidade utilizava o rio para banho, consumo e irrigação das hortas. Foto: arquivo pessoal/indígena Chiquitano

Denúncia sobre desmatamento em APP

Por conta da vulnerabilidade da comunidade Chiquitana na região, que aguarda a homologação do território, a Polícia Militar de Proteção Ambiental (BPMPA), unidade de Cáceres, atendeu a primeira denúncia. Os policiais averiguaram no dia 13/1 que houve desmatamento de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente (APP) e notaram evidências de “obras com potencial poluidor”, sem licença ambiental. Na ação, foram apreendidos três tratores com grades, uma escavadeira hidráulica, um caminhão de carga, um cavalo utilizado para transporte de maquinários e 45 dúzias de lascas de madeiras. De acordo com o Boletim de Ocorrência, uma multa de R$ 20 mil reais foi aplicada. No entanto, a investigação ainda não apontou se a área desmatada faz parte da TI. Portal do Encantado.

A estrutura encontrada evidencia a exploração e degradação da margem e na cabeceira do rio Tarumã, fato que motivou a mobilização em rede de mais de 70 entidades socioambientais e de direitos humanos signatárias de um ofício enviado pelo Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennès ao Ministério Público Federal, ao Ministério Público Estadual e Secretaria de Meio Ambiente, no dia 20/1. Uma carta de autoria do povo Chiquitano foi anexada ao documento que requer uma investigação para identificar “as razões e a(s) origem(ns) das alterações nos níveis e na qualidade das águas do Rio Tarumã”; sugere ainda, dentre outros pontos, que o MPF “solicite aos órgãos competentes levantamento sobre danos a bens materiais e imateriais para que haja a punição dos responsáveis bem como as indenizações e ações reparatórias cabíveis”, além de uma análise da água para saber se existe algum componente contaminante.

De acordo com o coordenador do Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennès, Edson Mendes, que atua em rede na região Sudoeste de Mato Grosso, o documento foi encaminhado com o objetivo de cobrar uma apuração mais ampliada da situação. “Esperamos que as pessoas sejam punidas e para que a comunidade que utiliza o rio não seja prejudicada pela irresponsabilidade e ganância de quem está na parte de cima do rio. Sem água não tem como sobreviver”, afirma.

“A ocupação da terra é ancestral”

Para o secretário-executivo do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), Herman Oliveira, a ocupação da terra é ancestral, apesar do processo de homologação do território Chiquitano estar suspenso. “O que está acontecendo de maneira aparentemente pontual é um modos operandi de ir ocupando, comendo os territórios pelas beiradas, se instalando, criando um factoide. Sendo Mato Grosso um estado eminentemente rural, um grande laboratório de commodities no mundo, há uma pressão sobre os povos que representariam a última fronteira do agronegócio, desse modelo de uso e ocupação do solo e ao mesmo tempo desse cenário da geopolítica internacional. A situação do povo Chiquitano nos leva a acreditar que eles sejam, talvez, o povo mais oprimido em Mato Grosso neste momento”, explica Herman.

O cacique José e a comunidade Chiquitana lamentam a situação do rio Tarumã e exigem justiça. “Nós esperamos que a justiça seja feita e que as pessoas paguem pelo crime ambiental. Apenas essa multa é pouco pela destruição do rio Tarumã. Eles precisam reflorestar a margem, arrumar a cabeceira, estourar a represa e deixar que o rio siga seu leito natural. É o mínimo que nós esperamos da Justiça. O nosso povo fica muito triste porque nunca vimos um rio secar”, diz o cacique José.

Assinaram o ofício as seguintes entidades:

Associação Auxulium

Associação da Comunidade Negra Rural Quilombo Ribeirão da Mutuca (ACORQUIRIM)

Associação de Amigos do Centro de Formação Olga Benário Prestes (AAMOBEP)

Associação de Mulheres Agricultoras Familiares Araras do Pantanal (AMAFAP)

Associação de Pesquisa Xaraiés (XARAIÉS)

Associação dos Docentes da Universidade do Estado de Mato Grosso (ADUNEMAT)

Associação Pacto das Águas (PACTO DAS ÁGUAS)

Associação Regional das Produtoras Extrativistas do Pantanal (ARPEP)

Associação Regional dos/as Produtores/as Agroecológicos/as (ARPA)

Associação Sócio Cultural e Ambiental Fé e Vida (SOCIEDADE FÉ E VIDA)

Central Única dos Trabalhadores (CUT)

Centro Burnier de Fé e Justiça (CBFJ)

Centro de Direitos Humanos Dom Máximo Biennès (CDHDMB)

Centro de Direitos Humanos Dom Pedro Casaldaliga (CDHDPC)

Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade (CDHHT)

Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (CDHS/SP)

Centro de Referência em Direitos Humanos Profa. Lúcia Gonçalves (CRDHPLG)

Centro de Tecnologia Alternativa (CTA)

Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos (CGGDH/SP)

Coletivo de Mulheres Negras de Cáceres

Coletivo Feminista Sinop

Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF)

Comissão Pastoral da Terra – Regional Mato Grosso (CPT/MT)

Comitê da Bacia Hidrográfico do Rio Jauru

Comitê Popular do Rio Paraguai

Comunidades Eclesiais de Base/Cáceres-MT

Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana

Conselho Indigenista Missionário (CIMI)

Cooperativa de Consumo Solidário e Sustentável (COOPERSSOL)

Coordenação Nacional dos Quilombolas Seccional Mato Grosso (CONAQ/MT)

Federação das Organizações e dos Povos Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt)

Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE/MT)

Fórum de Direitos Humanos e da Terra (FDHT)

Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (FORMAD)

Fórum Nacional da Sociedade Civil para Comitês de Bacia Hidrográfica (FONASC-CBH/MT)

Gabinete da Vereadora Mazeh/PT Cáceres

Gabinete do Deputado Estadual Lúdio Cabral/PT

Grupo Arareau de Pesquisa e Educação Ambiental (GRUPO ARAREAU)

Grupo Cultural e Ambiental Raízes (GRUPO RAÍZES)

Grupo de Estudos para a Educação Étnico Racial (GEPRER)

Grupo de Solidariedade ao povo chiquitano do Intercâmbio alemão-brasileiro da igreja católica Sankt Bonifatius e do Dietrich Bonhoeffer Gymnasium Metzingen/Alemanha

Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA/UFMT)

Grupo Semente  de Chapada dos Guimarães (GRUPO SEMENTE)

Inovação, Pesquisa e Observação de Direito, Democracia e Representações da América Latina e Eixo Sul (INPODDERALES/FND/UFRJ)

Instituto Caracol (ICARACOL)

Instituto de Pesquisa e Educação Ambiental (INSTITUTO GAIA)

Instituto Samaúma

Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida

Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB/MT)

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST/MT)

Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH/BRASIL)

Mutirão para a Superação da Miséria e da Fome (MSMF)

Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST/ISC/UFMT)

Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos (NERU/UFMT)

Observatório de Políticas Públicas sobre a Covid19 para Povos e Comunidades Tradicionais – (UNEMAT/BARRA DO BUGRES)

Operação Amazônia Nativa (OPAN)

Pastoral Carcerária Regional Oeste 2

Pastoral da Educação/Cáceres-MT

Pastoral da Saúde/Cáceres-MT

Pastoral da Sobriedade/Cáceres-MT

Pastoral da Terra e das Águas/Cáceres-MT

Pastoral Indígena/Cáceres-MT

Paróquia Nossa Senhora de Fátima  de Porto Esperidião

Programa de Estudos dos Povos Indígenas (PRÓ-ÍNDIO/UERJ)

Red de Mujeres Constitucionalistas de América Latina

Rede de Atenção aos Egressos do Sistema Prisional de Mato Grosso (RAESP/MT)

Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira

Rede de Empreendimentos Econômicos Solidários e de Produtos da Sociobiodiversidade (REESOLBIO)

Rede Mato-grossense de Educação Ambiental (REMTEA)

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porto Esperidião (STR PORTO ESPERIDIÃO)

Sobrevivência Amigos de La Tierra – Py

Sociedade Educadora e Cultural de Integração Brasil/Alemanha (PROJETO GONÇALINHO)

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)

Terceira Margem (GRUPO DE PESQUISA EM FILOSOFIA, LITERATURA E DIREITOS HUMANOS/UFMT)

União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária de Mato Grosso (UNICAFES/MT)


 Mais informações: Laís Costa – comunica.formad@gmail.com – Assessora de Comunicação do Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad)

Imagens: arquivo pessoal/indígena Chiquitano

FASE doa uma tonelada de sementes para famílias atingidas pela seca e as queimadas no Mato Grosso

Programa no Mato Grosso entregou 32 variedades de sementes de 14 alimentos como arroz, feijão, banana e cará, além de 6.700 mudas de plantas nativas.

A ação de doação de sementes tradicionais promovida pelo programa da FASE no Mato Grosso (MT) iniciou em novembro de 2020 e já entregou 1 tonelada de sementes crioulas e 6.700 mudas de plantas nativas e frutíferas. A campanha está sendo feita em parceria com a Rede de Troca de Sementes Crioulas, com o apoio da MISEREOR. A previsão é que essas entregas sejam feitas até março próximo, que é o período de plantio. 

Foram disponibilizadas 32 variedades de 14 espécies regionais, entre elas arroz, feijão, mandioca, banana e algodão agroecológico. Cerca de 20 grupos foram beneficiados, dentre eles membros das comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e assentamentos da reforma agrária onde a FASE atua no MT. 

O Mato Grosso vem enfrentando uma das piores secas de sua história e, em 2020, teve que lidar com as queimadas que aconteceram no Pantanal. Diante disso, Franciléia de Paula Castro, educadora da FASE, diz que o movimento de doação de sementes crioulas possui um caráter emergencial, “considerando que várias dessas comunidades e locais tiveram suas roças atingidas pelo fogo e a seca, portanto uma baixa produtividade das áreas de produção de alimento”.

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Feijão roxinho. Crédito: Franciléia de Paula Castro / FASE

Com a expansão do agronegócio e o avanço do monocultivo, dos agrotóxicos e dos transgênicos na região, a variabilidade genética dos alimentos foi progressivamente se perdendo. “Para mim, isso [entrega de sementes tradicionais] é um resgate da nossa cultura, e isso é muito importante para nós, porque as sementes estão sumindo”, comenta Nerio Gomes de Souza, presidente da Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA). E no que depender da camponesa Miraci Silva, a ideia é avançar no uso de sementes agroecológicas, garantir a soberania e segurança alimentar dos povos locais e, futuramente, “partilhar com outros agricultores que já perderam sementes de espécies nativas da sua região”.

Para Laura Ferreira da Silva, da comunidade quilombola Ribeirão da Mutuca, no município de Nossa Senhora do Livramento, “essas sementes vem fortificar cada vez mais as famílias quilombolas aqui nos seus espaços, nos seus territórios e principalmente para que nós possamos continuar cada vez mais cultivando boas sementes”. 

Uma questão de soberania

Há anos a FASE incentiva o uso de sementes tradicionais e a produção agroecológica no MT. A campanha de doação de sementes, embora seja uma ação nova, está ligada com as ações que a organização já vinha fazendo de denúncia sobre o avanço do agronegócio e as suas graves consequências para o clima e para o solo. 

Há 10 anos a FASE participa da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, realizando debates sobre diversas questões como, por exemplo, o uso de transgênicos nas plantações junto às comunidades. No Mato Grosso, essa ação se dá através de alertas sobre os riscos de contaminação, mas também anunciando os sistemas de produção agroecológica, a partir das mesmas sementes crioulas que estão sendo doadas. Elas são cultivadas e preservadas ao longo dos anos nessas comunidades e são mais adaptáveis às condições locais, que vêm sofrendo mudanças drásticas nos últimos anos. 

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Famílias do Assentamento Roseli Nunes. Crédito: Franciléia de Paula Castro / FASE

Segundo Franciléia, no caso dos transgênicos, nos últimos anos tem sido feito o monitoramento da contaminação transgênica nas sementes de milho dessas comunidades. “Fazemos esses testes para garantir que as sementes não estão sofrendo de uma contaminação genética devido ao avanço do milho transgênico que cresceu muito no Mato Grosso, além da soja transgênica que já utiliza”.

Ela alerta também para os riscos das sementes geneticamente modificadas para a soberania de um país. “A perda de variedades centenárias, próprias de uma determinada região é uma perda que não é só genética, biológica das sementes, mas uma perda econômica, cultural e da autonomia dos países”.


Fonte: Alcindo Batista – estagiário, sob a supervisão de Claudio Nogueira / FASE

Imagens: Franciléia de Paula Castro / FASE

NOTA PÚBLICA – Famílias camponesas sofrem com a utilização de agrotóxicos em Goiás

A Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT/GO) denuncia uma série de conflitos relacionados à utilização de venenos pelos latifundiários,que contaminam a água, exterminam abelhas e intoxicam centenas de famílias no estado de Goiás.

Em Bela Vista de Goiás foram exterminadas mais de 1 milhão de abelhas de 26 colmeias localizadas nas comunidades Furado, Barro Amarelo, São Bento e circunvizinhanças, por meio de pulverização área que atingiu residências e grande parte das propriedades familiares.

O veneno utilizado não poderia ser aplicado por via aérea, já que, segundo a bula do Agrotóxico, só poderia ser utilizado por meio de pulverização terrestre.

No município de Caiapônia, dezenas de famílias do Assentamento São Domingos foram contaminadas por pulverização aérea de agrotóxico, que contaminou, inclusive, a represa que armazena a água para consumo humano de grande parte dos assentados.

As famílias do Acampamento Leonir Orback, município de Santa Helena, receberam um banho de veneno por meio de pulverização aérea. A intoxicação foi grande a tal nível que muitas famílias precisaram buscar atendimento médico em consequência da intoxicação por Agrotóxico.

Além do prejuízo à saúde humana e à biodiversidade, a pulverização aérea prejudica grande parte da produção da agricultura familiar.

A CPT Goiás vê com preocupação essa situação e está acompanhando de perto os casos, apoiando as ações das famílias atingidas por Agrotóxicos para cobrar que a fiscalização necessária seja feita e para que sejam punidos os responsáveis.

Goiânia, 21 de janeiro de 2021.

CPT regional Goiás


 Fonte: CPT Regional Goiás

Imagem: Ilustração/Arquivo – Thomas Bauer / CPT Bahia

Pandemia e Direitos Humanos: relatório anual faz balanço de 2020

Em dezembro de 2020 ocorreu o lançamento da publicação “Direitos Humanos no Brasil 2020”, a 21ª edição do relatório anual da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. As análises abordam direitos básicos e o papel e desafios de movimentos sociais na defesa da saúde pública, educação, terra, alimentação. Além disso, são discutidos amplos direitos nos setores econômicos, sociais, culturais e ambientais.

As dificuldades da pandemia são também expostas, sobretudo em relação aos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais rurais, comunidades nas periferias urbanas, pessoas negras, LGBTQI+, mulheres, crianças e idosos, populações encarceradas e imigrantes.

São alvo de denúncia, neste contexto, desigualdades e violações de direitos humanos, com base em 38 artigos que também apresentam propostas de políticas públicas. Dentre os autores e as autoras que compõem a edição, estão: Marcio Pochmann, Jurema Werneck, Eduardo Brasileiro, Célio Turino, Maria Lucia Fattorelli, Ricardo Antunes, Givânia Maria da Silva, Ladislau Dowbor e outros.

Desde 2000 o relatório é realizado em parceria com dezenas de organizações sociais de vários setores e regiões do Brasil.

A 21ª edição já está disponível gratuitamente e pode ser acessada aqui


 Fonte: Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Imagem: Capa da edição 2020 de Direitos Humanos no Brasil, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Foto de Egberto Nogueira

Justiça suspende liminar que determinava despejo do povo Gamela no Piauí

Decisão foi publicada no início da tarde desta terça-feira (19). Com suspensão de liminar, família volta a ter acesso a terra.

Na tarde desta terça-feira (19), a justiça suspendeu liminar de ordem de despejo contra as famílias indígenas Gamela no cerrado piauiense. Em decisão do Desembargador Hilo de Almeida Sousa, ficou definida a manutenção da posse em favor de Adaildo José Alves da Silva, alvo da ação de despejo na semana passada. O território em que vive a família de Adaildo e outras integra a Comunidade do Morro D’Água e é reivindicado como terra tradicionalmente ocupada pelo Povo Gamela.

Com a suspensão, fica estabelecida com urgência a reintegração de posse de Adaido José Alves da Silva e mais 11 (onze) indígenas anteriormente expulsos de suas casas de forma indevida.

Saiba mais: Nota de Repúdio: A violência e grilagem de terras no estado do Piauí

A Comissão Pastoral da Terra Regional Piauí ressalta a importância da articulação e mobilização de diversas instituições do executivo e judiciário como também de organizações da sociedade civil que ajudaram positivamente para essa decisão, devolvendo a terra a quem é de direito. Além disso, reafirma sua missão solidária junto aos povos da terra, das águas e das florestas na defesa da vida e da justiça social.

Entenda o caso

Na tarde da última quinta-feira, 14 de janeiro, o Juiz de direito da vara única da comarca de Gilbués-PI, Francisco das Chagas Ferreira, expediu e executou uma liminar com ordem de despejo em ação movida pelo Sr. Bauer Souto dos Santos contra a liderança indígena Gamela Adaildo José Alves da Silva, residente e domiciliado no território Morro D’água, do mesmo município.

Adaildo José Alves da Silva trabalhava em sua roça enquanto sua companheira fazia o jantar e por volta das 16h foram surpreendidos com a presença de um oficial de justiça, Bauer Souto e sua filha acompanhados de policiais militares e outras pessoas, que impuseram-lhe o despejo. Ainda houve a destruição de cercas e retirada dos bens da casa da família. Na mesma noite, um galpão onde a casa do filho de Adaildo seria construída foi incendiado como forma de repressão e coação da família.


 Fonte e Imagem: CPT Piauí

Nota do Cimi: a exclusão de indígenas do plano de vacinação é um contrassenso político e humanitário

Ao reduzir a vacinação prioritária apenas ao que definiu arbitrariamente como “indígenas aldeados”, o governo federal exclui grande parte da população indígena do acesso à saúde pública

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) vem se solidarizar com a população de Manaus/AM neste momento de agravamento da pandemia do coronavírus no Brasil, levando centenas de manauaras à morte por asfixia devido à falta de oxigênio hospitalar. Este fato trágico retrata a irresponsabilidade das autoridades no âmbito do município, do estado e do governo federal no trato da pandemia, ampliando uma asfixia nacional dos poderes institucionais.

Preocupa-nos também o fato de a região Norte, com seus sete estados, concentrar a maior parte da população indígena do Brasil. O estado do Amazonas e sua capital Manaus têm grande representação de povos indígenas e são os lugares onde se concentra a maioria das mortes por covid-19. Hoje, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – Apib, 923 indígenas já perderam suas vidas em função da covid, sendo que, no estado do Amazonas, o número de óbitos chega a 216, ou seja, quase um quarto de todas as mortes.

Em 2020, o movimento indígena e indigenista, os movimentos sociais, boa parte da sociedade nacional e internacional denunciaram e clamaram para que o governo federal tomasse as medidas necessárias, tendo em vista a gravidade do contágio e do alastramento da pandemia junto aos povos indígenas nas aldeias e nas moradias em área urbana. Essa mobilização provocou o poder Legislativo, que aprovou o Projeto de Lei (PL) 1142 e, posteriormente, derrubou os 16 vetos presidenciais impostos por Jair Bolsonaro. Com a derrubada dos vetos, o PL 1142 se transformou na Lei 14021 – que, apesar de estar em vigor, durante todo o ano de 2020 não foi aplicada pelo governo federal junto às populações indígenas.

Também no Supremo Tribunal Federal (STF) foi proposta uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), que foi deferida pelo pleno da Suprema Corte em agosto de 2020, mas também não foi efetivada pelo governo federal, descumprindo a decisão do STF. Todas essas decisões e medidas tinham caráter emergencial em função do agravamento do contágio e de mortes por covid-19 junto à população indígena e às populações tradicionais no Brasil.

Somente em novembro de 2020 o governo federal apresentou ao STF, cumprindo sua determinação, um Plano de Enfrentamento da Covid-19 para Povos Indígenas, através do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Neste plano, foram elencadas as providências que seriam tomadas nos territórios indígenas com propostas da APIB, Fiocruz, CNDH e CNJ, contemplando 410.348 indígenas. O plano, contudo, deixou de fora os indígenas que vivem nos centros urbanos, os quais, segundo dados do Censo do IBGE de 2010, são cerca de 46% da população indígena no Brasil.

Ao anunciar o início do plano de vacinação da população brasileira no dia 14 de janeiro, o ministro da Saúde Eduardo Pazuello, sobre os grupos prioritários, referiu-se apenas aos indígenas aldeados, que representam 410.348 pessoas, segundo o ministro. O termo usado pelo ministro, “indígenas aldeados”, nos remete ao período da ditadura militar e representa uma discriminação, onde o governo pretende definir, de forma arbitrária, quem é e quem não é índio, estabelecendo assim um conflito com a Constituição Federal, com os marcos legais nacionais e internacionais e com o movimento indígena.

Nessa situação grave de pandemia sanitária, excluir grupos indígenas do acesso à política de saúde pública é um contrassenso político e humanitário. É importante salientar que vários grupos indígenas que estão nos centros urbanos têm como um dos motivos para estarem nestes locais a expulsão dos seus territórios por invasores, portanto, um ato de violência, que não justifica sua exclusão. O fato do indígena estar fora da aldeia não faz com que ele deixe de ser indígena.

O censo populacional de 2010 indica a existência de quase 900 mil indígenas no Brasil; o Plano Nacional de Vacinação, portanto, precisa reconhecer o total desse grupo prioritário e alcançá-lo em sua totalidade

É também necessária a reflexão e a crítica à postura genocida do atual governo, que vem desestruturando toda a política indigenista com o argumento de que não existem povos indígenas no Brasil e, se existem, estes devem ser integrados à sociedade. Esta fala e atos têm como exemplo maléfico a paralisação de todo o processo de regularização dos territórios indígenas e a sua proteção, motivando o aumento das invasões, perseguição e violência contra as lideranças.

Aliás, convém ressaltar que esta postura foi antecipada pelo então candidato à presidência da república, Jair Bolsonaro, ao afirmar que “nenhum centímetro de terra indígena seria demarcado”, caso fosse eleito. E isso está sendo concretizado. A Fundação Nacional do Índio (Funai), como órgão indigenista oficial, foi totalmente descaracterizada, entregue aos interesses dos ruralistas, e passou a fazer uma política anti-indígena. A este contexto, soma-se ainda a saída dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos, que foi desencadeada pelo discurso de ódio de Bolsonaro e gerou graves consequências para o atendimento de saúde junto à população indígena.

Estes fatos contribuíram para o agravamento da pandemia nos territórios e a total insegurança, fazendo com que os indígenas buscassem no poder judiciário a manutenção dos seus direitos que, apesar de garantidos pela Constituição Federal, sempre estão ameaçados.

A asfixia a que hoje está submetida a população de Manaus é uma triste realidade da situação política, social e econômica do país, governado por pessoas despreparadas e mal intencionadas

Salientamos que o censo populacional de 2010 indica a existência de quase 900 mil indígenas no Brasil; o Plano Nacional de Vacinação, portanto, precisa reconhecer o total desse grupo prioritário e alcançá-lo, em sua totalidade, com a política de imunização. Estudo da Universidade Federal de Pelotas aponta que a prevalência do coronavírus entre a população indígena urbana, de 5,4%, é cinco vezes maior do que a encontrada na população não indígena, que é de 1,1%. Esse planejamento, portanto, tem que ser efetivado para o bem dos povos indígenas e de todo o povo brasileiro, como estabelece a nossa Constituição Federal.

A asfixia a que hoje está submetida a população de Manaus é uma triste realidade da situação política, social e econômica do país, governado por pessoas despreparadas e mal intencionadas, com consequências trágicas para toda a população.

Conclamamos a todas e todos a continuar lutando, existindo e resistindo contra toda opressão, violência e medo, e na luta pela vida e “vida em abundância” (Jo.10,10)!

Nossa solidariedade a todas famílias e amigos dos mais de 209.000 brasileiras e brasileiros mortos pela covid-19, em especial os manauaras e os povos indígenas.

Brasília, 18 de janeiro de 2021

Conselho Indigenista Missionário

Nota de Repúdio: A violência e grilagem de terras no estado do Piauí

Liderança indígena sofre despejo e tem casa queimada.

A Comissão Pastoral da Terra – Regional Piauí, ao tempo em que denuncia a grilagem de terra e a violência no campo no estado do Piauí, repudia essa prática e torna público mais um caso desumano, arbitrário e de irregularidade ao direito à terra e ao território.

Na tarde da última quinta-feira, 14 de janeiro de 2021, o MM. Juiz de direito da vara única da comarca de Gilbués (PI) Francisco das Chagas Ferreira expediu e executou uma liminar com ordem de despejo em ação movida pelo Sr. Bauer Souto dos Santos contra a liderança indígena Gamela Adaildo José Alves da Silva, residente e domiciliado no território Morro D’água do mesmo município.

Adaildo José Alves da Silva, indígena Gamela, trabalhava em sua roça enquanto sua companheira fazia o jantar e, por volta das 16h, foram surpreendidos com a presença de um oficial de justiça, Bauer Souto e sua filha, acompanhados de policiais militares e outras pessoas. Chegaram à casa de Adaildo e impuseram-lhe o despejo. Ainda houve a destruição de cercas e retirada dos bens da casa da família. Na mesma noite, um galpão, local de trabalho, foi incendiado como forma de repressão e coação da família. O desabafo de Adaildo José é um clamor às autoridades competentes para solucionar essa injustiça:

“Eu tava na roça trabalhando quando escutei minha mãe gritar, passou três caminhonetes: a polícia militar, o Bauer mais a filha, um oficial de justiça… e outros que eu não sei quem são. Eles trouxeram a ordem de despejo do juiz e eu fui obrigado a assinar. Acontece que isso foi de repente e eu não tenho como sair hoje de dentro da minha casa por causa das minhas coisas, mas eles disseram que tinha que desocupar hoje mesmo e que o oficial de justiça e a polícia ia ficar lá até sete horas e aí eu deixei meus meninos arrancando tudo lá pra levar pra casa da minha mãe, a gente já tava fazendo até a comida, já eram quatro horas, aí teve essa desordem lá. 
Eu faço um apelo às autoridades e às leis federais que tomam de conta dessa parte, os juízes, para ver qual o lado positivo… e como eu vou levar minhas coisas de uma hora pra outra se eu não tenho nem caminhonete nem caminhão? Agora eu vou perder a mandioca, o feijão, eu não entendi não. Fica meu apelo para as leis, autoridade e amigos, advogados do Brasil, pra Funai, para todo mundo”.

DEspejo Gamela PI 2021

Vale ressaltar que Adaildo José Alves da Silva é posseiro da terra, reside na mesma desde o seu nascimento e a sua mãe já era nascida na mesma localidade. A família vive na terra há quase cem anos e o território possui cerca de 1500 ha onde vivem 14 famílias. O território alvo de despejo forçado que integra a Comunidade do Morro D’Água é reivindicado como terra tradicionalmente ocupada pelo Povo Gamela e alvo de qualificação fundiária no âmbito da Fundação Nacional do Índio (Funai). Adaildo e sua família são indígenas Gamela, residem e trabalham de maneira ancestral no território.

A ordem expedida não se fundamenta visto que a região em questão é considerada terra devoluta pelo Estado e existe um processo de regularização da terra pelo Instituto de Terras do Piauí (INTERPI) onde a demarcação e georreferenciamento foram realizados, bem como um estudo antropológico que já está em fase de finalização.  

O Sr. Bauer dos Santos se apresenta como proprietário da terra, no entanto os documentos que são apresentados não possuem origem comprovada. Adaildo José em nenhum momento foi notificado sobre a ação, ou seja, os direitos à informação, ao contraditório, à ampla defesa, ao devido processo legal e à participação foram desrespeitados na ação executada, o que a torna ilegal.

Adaildo José também é defensor de direitos humanos ameaçado de morte. Isso quer dizer que o despejo forçado representa uma violação de repercussão coletiva afetando, portanto, a todo o Povo Gamela e tentando deslegitimar a sua atuação como liderança – lutar não é crime!

Solidarizamos-nos com a família de Adaildo José Alves da Silva, com o povo Indígena Gamela e a todos que lutam em defesa dos direitos humanos, que como Adaildo são vítimas dessas violações.

Exigimos das autoridades competentes uma célere investigação e responsabilização dos culpados contra esse ato de violação dos direitos humanos, o acompanhamento e a assistência à família afetada.  

Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Regional Piauí

15 de Janeiro de 2021


 Imagens: Reprodução / CPT Piauí

Retrospectiva de ações e atividades no Cerrado em 2020

Sabemos que o ano de 2020 não foi um ano fácil. Mas gostaríamos de celebrar a perseverança e a capacidade de nos reinventar enquanto coletivo que demonstramos ter. Nesse sentido queremos fazer uma retrospectiva e relembrar algumas atividades da Campanha no ano que se passou:

Bem no início da pandemia realizamos a pesquisa Primeiras reflexões sobre a situação das comunidades do Cerrado frente à pandemia do coronavírus, que também evidenciou as ações de solidariedade que estavam sendo conduzidas pelas redes e organizações no Cerrado. 

Organizamos uma série de bate-papos virtuais sobre os “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade”, com a participação de lideranças de povos indígenas e comunidades quilombolas, quebradeiras de coco, raizeiras, geraizeiras, fechos de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, retireiras, pantaneiras e pescadoras artesanais, bem como assessoras e assessores desses povos e pesquisadoras/es aliadas/os. Aprendemos muito com esses diálogos. 

Articulamos um processo de ampla colaboração na feitura de uma série de artigos no Le Monde Diplomatique Brasil a partir dos bate-papos e publicamos o livro “Saberes dos Povos dos Cerrados e Biodiversidade”. Recebemos tantas mensagens de pessoas que se encantaram com o livro.

A Campanha também tratou do tema do livro em episódio especial do Guilhotina, o podcast do Le Monde Diplomatique Brasil, e de outros assuntos importantes para os povos e comunidades tradicionais da região. 

Lançamos este novo site da Campanha! Essa era uma vontade nossa há um tempo e conseguimos concretizar esse ano. Você já navegou um pouco? Está lindo e repleto de informações sobre os povos do Cerrado, seus saberes e lutas. 

Realizamos o Encontro Virtual das Mulheres do Cerrado, com o tema “Mulheres do Cerrado construindo resistências”, no qual mais de 100 mulheres de territórios quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco, retireiras do Araguaia, geraizeiras e tantas outras debateram sobre  “Capitalismo, patriarcado e machismo, racismo e etnocentrismo como estruturante da realidade social”.

RETRO 2020 01 1

A Campanha se engajou ativamente na Articulação em defesa dos povos e territórios do Pantanal, Cerrado e Amazônia diante do desmatamento e queimadas, que realizou as ações #AgroÉfogo: uma carta pública assinada por diversas entidades, aprovação pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) resolução nº 42, de 27 de outubro de 2020, com recomendação aos governos estaduais e federal sobre as queimadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal e projetações de denúncia em diversas capitais brasileiras.

Em 2020, os grileiros e desmatadores não entraram em quarentena e os conflitos seguiram em muitos territórios, como pudemos acompanhar nas ações de resistência da comunidade tradicional pesqueira de Cajueiro e da comunidade quilombola Cocalinho, no Maranhão, com a luta dos indígenas na Bacia do rio Formoso no Araguaia tocantinense, das comunidades tradicionais no Sul do Piauí, e na resistência das comunidades quilombolas do Jalapão contra a reabertura do turismo. Seguimos acompanhando esses e outros conflitos e resistências dos povos do Cerrado a partir do chamado dos territórios.

Algumas organizações membro organizaram atividades e séries virtuais em parceria com a Campanha que trouxeram novos aprendizados:

– A ActionAid lançou em parceria com a Campanha a série Giro pelo Cerrado, que traz relatos dos territórios sobre os modos de vida e sua relação com a biodiversidade no Cerrado.

– A ActionAid organizou em parceria com a Campanha, AATR, CPT, ISPN, MPA e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, duas Oficinas virtuais sobre Direitos Territoriais: História da legislação fundiária e luta pela terra no Brasil; e Reforma Agrária no Brasil e Direitos Territoriais dos Povos Indígenas e Tradicionais.

– A CPT lançou em parceria com a Campanha a Websérie “Povos do Cerrado”, que apresenta saberes ancestrais, modos de vida, riquezas dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado, além das ameaças enfrentadas por estes. O primeiro vídeo está disponível e a série continua.

Algumas organizações da Campanha também organizaram atividades e séries virtuais nas quais a defesa do Cerrado tem/teve grande importância: a Websérie da CESE (R)Existências no Cerrado, a Semana Agroecológica da Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA), a Semana da Terra e das Águas Padre Josimo (TO), o programa de áudio do ISPN ”Canto da Coruja: Comunidade”, e o “Podcast: Aqui é o meu lugar”, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

A Campanha também organizou, em parceria com o Grupo Carta de Belém, uma cartilha que demonstra as falácias do discurso “ambiental” da ministra da Agricultura: Jogo dos 7 erros da Entrevista da Ministra Teresa Cristina

Algumas organizações da Campanha lançaram importantes publicações que vale muito à pena conhecer:

– A APA-TO lançou a pesquisa sobre Juventudes Rurais no Bico do Papagaio (TO), um diagnóstico a partir da entrevista a 245 jovens do extremo norte do estado do Tocantins, que revelou que as juventudes rurais querem ficar no campo, mas falta a efetivação de políticas públicas.

– A AATR lançou o estudo Legalizando o Ilegal que analisa a flexibilização das legislações fundiária e ambiental dos quatro estados do Matopiba, processos de que viabilizam o avanço da grilagem.

– A CPT lançou o novo número da Revista Cerrados, apresentando os diversos impactos na biodiversidade do Cerrado e nos territórios onde vivem seus povos ocasionados pelo uso intenso de agrotóxicos pelo agronegócio nas lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, entre outras monoculturas.

– A GRAIN, AATR, CPT e a ABRA lançaram o Caderno de Estudos – Mudanças atuais das Leis de Terras: do golpe político ao golpe fundiário, com o objetivo de subsidiar a atuação nos territórios acompanhados pelas organizações e movimentos de luta pela terra, para assim contribuir no enfrentamento às novas investidas legais contra as terras públicas e os assentamentos de reforma agrária, potencializadas pela edição da Lei 13.465/17.

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Para esse ano de 2021 que se inicia, reafirmamos: É tempo de esperançar!


 Imagem: Andressa Zumpano

Por que lutar contra o acordo UE-Mercosul

Em manifesto, organizações sociais alertam: em um momento de crise crescente, aprovar acordo assimétrico e colonialista vai acelerar reprimarização e devastação de biomas. O retorno será pífio para os países sul-americanos. Confira:

Frente de organizações da sociedade civil brasileira contra o Acordo Mercosul – União Européia

As organizações da sociedade civil brasileira abaixo subscritas manifestam a sua oposição à assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Convocamos o Parlamento brasileiro a promover amplo debate com a sociedade sobre os impactos que o acordo poderá trazer aos povos, aos trabalhadores e trabalhadoras e aos territórios do país.

Ainda que o acordo Mercosul-UE seja baseado em três pilares, com base no conhecimento de outros acordos assinados com o bloco europeu ao redor do mundo, o pilar comercial tem primazia e os elementos ditos de proteção aos direitos humanos e ambiental ficam em segundo plano. Consideramos que a abertura comercial, nos termos deste acordo, trará impactos socioeconômicos, trabalhistas, fundiários, territoriais, ambientais e climáticos significativos para o Brasil, e os demais países do Mercosul, tendo como maiores beneficiários as empresas transnacionais interessadas na importação de matérias primas baratas, na privatização de serviços e na ampliação de mercado para seus produtos industrializados.

Ao trocar commodities agrícolas e minerais por produtos industrializados de maior valor agregado, o acordo estimula o aprofundamento da desindustrialização, da reprimarização da economia, da evasão de divisas e a sonegação de impostos nos países do Mercosul. A abertura do setor industrial aos países do bloco europeu, aumentará a importação de produtos similares aos já produzidos no Brasil, gerando impacto para o setor e mais desemprego. Ademais, reforçará a competitividade perversa, em que os ganhos que o agronegócio possa ter, implicarão em destruição ambiental e perdas para o setor industrial e para os direitos e renda dos trabalhadores/as, além de concentrar a produção em setores intensivos em energia e água.

No setor de serviços, além de transformar o direito ao acesso a serviços essenciais como água, energia, saneamento, saúde e educação, em mercadorias, observa-se o estímulo às privatizações. São muitos os exemplos de tragédias sociais em várias cidades e/ou estados brasileiros onde serviços essenciais foram privatizados, como no caso da água e saneamento em Manaus e do escandaloso caos que viveu a população do Estado do Amapá pela crise na energia elétrica, por falta de investimento de uma empresa privada – para garantia de mais lucros. Com o acordo há risco de seguir excluindo parcela crescente da população que não poderá pagar pelo serviço, gerando endividamento familiar e piora das condições de vida, em especial, da população negra, pobre e periférica nas cidades, sendo as mulheres, idosos e crianças sempre as mais prejudicadas. A liberalização dos serviços financeiros contribui para a desregulamentação financeira, que levou à crise anterior em 2008. Num contexto de crise econômica e social aprofundado pela pandemia de Covid-19 e pelo congelamento promovido pelo teto de gastos, esse processo fica ainda mais preocupante.

Do ponto de vista ambiental e climático, o acordo contribui para a devastação do conjunto dos biomas e regiões brasileiras: Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampas, e a região do semiárido. O fim das alíquotas de exportação para variadas commodities agrícolas e minerais como o minério de ferro e a ampliação de cotas para carne, etanol e açúcar, por exemplo, vão gerar expansão da produção e dos corredores logísticos da pecuária, do complexo soja e cana-de-açúcar. O avanço do agronegócio viola os modos de vida dos povos indígenas e populações tradicionais e seus direitos territoriais. Nesse sentido, reforça os principais vetores de desmatamento e queimadas que vêm impactando os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris e as Metas de Aichi sobre proteção da biodiversidade.

O capítulo de comércio e desenvolvimento sustentável não fornece mecanismos para sua exigibilidade. A menção neste capítulo da obrigatoriedade na implementação do Acordo de Paris é insuficiente, dada a não aplicação de soluções de controvérsias nesse capítulo e a fragilidade do próprio acordo climático em relação às suas medidas vinculantes e falsas soluções como o mercado de carbono. Além disso, as questões ambientais e climáticas não entram como elementos essenciais do acordo político. Por isso, as alusões a estas questões soam como retórica, tentando disfarçar como alguma preocupação ambiental os reais objetivos do documento: aumentar o comércio das grandes empresas exportadoras de bens, serviços e capitais.

O acordo incentiva a expansão do modelo biotecnológico agrícola baseado no uso extensivo de agrotóxicos. Esses produtos afetam diretamente a saúde dos trabalhadores rurais, da população do campo e da cidade, tanto do Mercosul como da UE. O caso do Brasil é emblemático, pois nunca foram aprovados tantos agrotóxicos e ingredientes ativos como nos últimos três anos. Muitos desses são proibidos na Europa. Isso gera questionamentos sobre a ausência do Princípio da Precaução no acordo Mercosul-UE no capítulo de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias, deixando em aberto se as empresas europeias seguirão com seu duplo padrão de atuação em países do Sul onde a população é tratada como cidadãos de segunda classe ou as populações europeias irão ter seus direitos do consumidor violados por padrões mais baixos de controle.

Na área de compras governamentais, o acordo prevê que pequenas e médias empresas locais devem competir em pé de igualdade com as multinacionais europeia, como se tratar igualmente os desiguais fosse justo para se tornarem fornecedores estatais abrindo um precedente para competir em licitações estaduais e municipais, restringindo a possibilidade de promover o emprego local como política pública no Brasil que passou recentemente a fazer parte da lista de países que integram o mapa da fome. Poderá ter impacto em políticas fundamentais para a agricultura familiar e camponesa como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), com profundo impacto para as mulheres, já que a maioria das fornecedoras desses programas são agricultoras.

Consideramos preocupante que o acordo tenha sido negociado pelos governos do Mercosul sem nenhum mecanismo de transparência: não foram apresentados estudos de impacto e nenhum diálogo foi buscado com os setores afetados ou com a academia. Na Europa, existem profundos questionamentos aos estudos de impactos realizados, baseados normalmente em premissas favoráveis a conclusão dos acordos, sem analisar os impactos abrangentes de todos os capítulos sobre a saúde, os ecossistemas, o mundo do trabalho, os direitos humanos e territoriais, para as mulheres, para os agricultores e agricultoras familiares e camponeses/as, violando os modos de vidas e a dimensão sociocultural dos povos indígenas e povos e comunidades tradicionais do campo-cidade-floresta.

Os resultados esperados deste acordo são tão pouco promissores, que na Europa há um crescente questionamento por parte de governos, parlamentares e sociedade civil organizada, sobre sua aprovação. Nos países do Mercosul, porém, o apoio dos governos ao acordo parece tácito e mostra a falta de busca de alternativas reais de integração. No Brasil, em particular, o governo de Jair Bolsonaro tenta fechar o acordo para obter uma vitória no campo da política externa e reacomodar os interesses de setores empresariais pouco comprometidos com o país. O relatório “Avaliação de Impacto Sustentável” (AIS) publicado pela Comissão Europeia apresenta resultados preocupantes ao estimar que o acordo elevará em 0,1% o PIB da UE em dez anos, ao mesmo tempo em que recuará em 0,1% o PIB dos países do Mercosul.

Em um momento em que a crise e a recessão já estão instaladas no Mercosul, e ainda diante dos desafios impostos pela pandemia, aprovar um acordo assimétrico e que reproduz a lógica colonial de eternos fornecedores de matérias primas e importadores de bens industrializados seria um verdadeiro desastre. Rejeitamos que o Brasil assine esse acordo, que prevê enormes consequências negativas socioambientais ao mesmo tempo em que retrocede nos níveis econômicos e produtivos.

Brasil, 9 de dezembro de 2020

Plenária da Frente Brasileira contra o Acordo União Europeia-Mercosul e EFTA

1. ALTERNATIVAS PARA A PEQUENA AGRICULTURA NO TOCANTINS (APA TO)
2. AMIGOS DA TERRA BRASIL
3. ARTICULAÇÃO DE MULHERES BRASILEIRAS (AMB)
4. ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB)
5. ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA (ANA)
6. ARTICULAÇÃO PACARI RAIZEIRAS DO CERRADO (PACARI SE)
7. ARTICULAÇÃO ROSALINO DE POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS (AR)
8. ASSOCIAÇÃO AGROECOLÓGICA TIJUPÁ
9. ASSOCIAÇÃO ALTERNATIVA TERRA AZUL (TERRAZUL)
10. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA (ABED)
11. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ONGS NÃO GOVERNAMENTAIS (ABONG)
12. ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS (AS) DE TRABALHADORES(AS) RURAIS DA BAHIA (AATR-BA)
13. ASSOCIAÇAO DE FAVELAS DE SAO JOSÉ DOS CAMPOS (AFSJC)
14. ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS (AGB)
15. ASSOCIAÇÃO XARAIÉS (XARAIÉS)
16. ATIVISMO URBANO.(A.U)
17. BRIGADAS POPULARES (BPS)
18. CAMPANHA ANTIPETROLEIRA NEM UM POÇO A MAIS!
19. CAMPANHA NACIONAL EM DEFESA DO CERRADO
20. CAMPANHA PERMANENTE CONTRA OS AGROTÓXICOS E PELA VIDA
21. CASA 8 DE MARÇO – ORGANIZAÇÃO FEMINISTA DO TOCANTINS (ENCAMTO)
22. CENTRO DE AGRICULTURA ALTERNATIVA DO NORTE DE MINAS (CAA/NM)
23. CENTRO DE APOIO E PROMOÇÃO DA AGROECOLOGIA (CAPA)
24. CENTRO DE ASSESSORIA E APOIO A INICIATIVAS SOCIAIS (CAIS)
25. CENTRO DE DIREITOS HUMANOS E EMPRESAS (HOMA)
26. CENTRO DE TECNOLOGIAS ALTERNATIVAS DA ZONA DA MATA (CTA-ZM)
27. CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA (CTI)
28. COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT)
29. COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DE SÃO PAULO (CPI-SP)
30. COMISSÕES PASTORAIS DA CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
31. COMITÊ BELGO BRASILEIRO (CBB)
32. COMITÊ DE ENERGIA RENOVÁVEL DO SEMIÁRIDO (CERSA)
33. CONFEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NO SERVIÇO PÚBLICO MUNICIPAL – CUT (CONFETAM/CUT)
34. CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NA AGRICULTURA FAMILIAR DO BRASIL (CONTRAF BRASIL)
35. CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES EM ESTABELECIMENTOS DE ENSINO (CONTEE)
36. CONSELHO DE MISSÃO ENTRE POVOS INDÍGENAS (CIMIN)
37. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO (CIMI)
38. CONSELHO NACIONAL DE IGREJAS CRISTÃS DO BRASIL (CONIC)
39. CONSELHO PASTORAL DOS PESCADORES (CPP)
40. COORDENAÇÃO NACIONAL DE ARTICULAÇÃO DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS QUILOMBOLAS (CONAQ)
41. COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇO (CESE)
42. DEFENSORES DO PLANETA
43. FEDERAÇÃO DE ORGÃOS PARA ASSISTÊNCIA SOCIAL E EDUCACIONAL (FASE)
44. FEDERAÇÃO DOS SINDICATOS SERVIDORES PÚBLICOS NO ESTADO DE SÃO PAULO (FESSP-ESP)
45. FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA MUNICIPAL DO RIO GRANDE DO NORTE (FETAM/RN)
46. FEDERAÇÃO NACIONAL DO FISCO ESTADUAL E DISTRITAL (FENAFISCO)
47. FEDERAÇÃO NACIONAL DOS PSICÓLOGOS (FENAPSI)
48. FEDERAÇÃO NACIONAL DOS URBANITÁRIOS (FNU)
49. FÓRUM DA AMAZÔNIA ORIENTAL (FAOR)
50. FÓRUM DAS ONGS AIDS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FOAESP)
51. FÓRUM DAS ONGS AIDS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FOAESP)
52. FÓRUM ECUMÊNICO ACT BRASIL (FE ACT BRASIL)
53. FÓRUM MATO-GROSSENSE DE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (FORMAD)
54. FÓRUM MUDANÇAS CLIMÁTICAS E JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL (FMCJS)
55. FÓRUM NACIONAL DA SOCIEDADE CIVIL EM COMITÊS DE BACIAS HIDROGRÁFICAS (FONASC.CBH)
56. FUNDAÇÃO LUTERANA DE DIACONIA (FLD)
57. GESTOS – SOROPOSITIVIDADE, COMUNICAÇÃO, GÊNERO
58. GRAIN
59. GRUPO CARTA DE BELÉM (GCB)
60. GRUPO DE ESTUDOS EM EDUCAÇÃO E MEIO AMBIENTE (GEEMA)
61. GRUPO DE TRABALHO SOBRE PROPRIEDADE INTELECTUAL (GTPI)
62. GRUPO SEMENTE SEMEANDO PARA O DESENVOLVIMENTO SOCIOAMBIENTAL (GRUPO SEMENTE)
63. GT BIODIVERSIDADE DA ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA (GTBIO)
64. INICIATIVA DIREITO À MEMÓRIA E JUSTIÇA RACIAL (IDMJR/RJ)
65. INSTITUTO AMAZÔNICO DE PLANEJAMENTO, GESTÃO URBANA E AMBIENTAL (IAGUA)
66. INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS (IBASE)
67. INSTITUTO CARACOL (ICARACOL)
68. INSTITUTO EQUIT- GÊNERO, ECONOMIA E CIDADANIA GLOBAL (INSTITUTO EQUIT)
69. INSTITUTO MAIS DEMOCRACIA
70. INSTITUTO POLÍTICAS ALTERNATIVAS PARA O CONE SUL (PACS)
71. INSTITUTO REGIONAL DA PEQUENA AGRICULTURA APROPRIADA (IRPAA)
72. INSTITUTOS DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (INESC)
73. INTERNACIONAL DOS SERVIÇOS PÚBLICOS (ISP)
74. INTERNATIONAL ACCOUNTABILITY PROJECT (IAP)
75. INTERNATIONAL RIVERS BRASIL
76. JUSTIÇA NOS TRILHOS
77. KOINONIA PRESENÇA ECUMÊNICA E SERVIÇO (KOINONIA)
78. MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES (MMM)
79. MARCHA MUNDIAL DO CLIMA
80. MARCHA MUNDIAL POR JUSTIÇA CLIMÁTICA
81. MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS (MMC)
82. MOVIMENTO DE MULHERES NEGRAS DA FLORESTA – DANDARA (MMNFDANDARA)
83. MOVIMENTO DE TRABALHADORES SEM TETO (MTST)
84. MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS (MAB)
85. MOVIMENTO DOS CONSELHOS POPULARES (MCP)
86. MOVIMENTO DOS PEQUENOS AGRICULTORES (MPA)
87. MOVIMENTO DOS PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS (MPP)
88. MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA (MST)
89. MOVIMENTO NACIONAL CONTRA CORRUPÇÃO E PELA DEMOCRACIA (MNCCD)
90. MOVIMENTO PELA SOBERANIA POPULAR NA MINERAÇÃO (MAM)
91. OBSERVATÓRIO NACIONAL DOS DIREITOS A ÁGUA E AO SANEAMENTO (ONDAS)
92. OPERAÇÃO AMAZÔNICA NATIVA (OPAN)
93. ORGANIZAÇÃO PELO DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO E À NUTRIÇÃO ADEQUADAS (FIAN BRASIL)
94. PASTORAL OPERÁRIA NACIONAL
95. PROCESSO DE ARTICULACÃO E DIÁLOGO (PAD)
96. RED DE GENERO Y COMERCIO (RGYC)
97. REDE BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL (REBEA)
98. REDE BRASILEIRA PARA INTEGRAÇÃO DOS POVOS (REBRIP)
99. REDE ECONOMIA E FEMINISMO (REF)
100. REDE EMANCIPA MOVIMENTO SOCIAL DE EDUCAÇÃO POPULAR (REDE EMANCIPA)
101. REDE JUBILEU SUL
102. REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS (REDE SOCIAL)
103. SEMPREVIVA ORGANIZAÇÃO FEMINISTA (SOF)
104. SERVIÇO FRANCISCANO DE SOLIDARIEDADE (SEFRAS)
105. SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTRES (SPM)
106. SINDICATO DAS PSICÓLOGAS E DOS PSICÓLOGOS NO ESTADO DE SÃO PAULO (SINPSI-SP)
107. SINDICATO DE SAUDE DE GUARULHOS E REGIÃO (SINDSAÚDE GUARULHOS E REGIÃO)
108. SINDICATO DOS AGENTES FISCAIS DE RENDAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (SINAFRESP)
109. SINDICATO DOS EMPREGADOS DOS ESTABELECIMENTOS DE SERVIÇOS DE SAÚDE DE CURITIBA (SINDESC)
110. SINDICATO DOS ENFERMEIROS DO RIO GRANDE DO SUL (SERGS)
111. SINDICATO DOS ENFERNMEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO (SEESP)
112. SINDICATO DOS METALÚGICOS DO ABC (SMABC)
113. SINDICATO DOS TRABALHADORES EM SAÚDE NO ESTADO DO PARÁ (SINDSAÚDE/PA)
114. SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS DA PURIFICAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA E EM SERVIÇOS DE ESGOTO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (SINDIÁGUA/RS)
115. SINDICATO DOS TRABALHADORES PÚBLICOS DA SAÚDE NO ESTADO DE SÃO PAULO (SINDSAÚDE-SP)
116. SOS CORPO INSTITUTO FEMINISTA PARA A DEMOCRACIA (SOS CORPO)
117. TERRA DE DIREITOS
118. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” (UNESP)
119. VIA CAMPESINA BRASIL


 Imagem: Thomas Bauer

Sabonete de Coco Macaúba da Dona Raimunda

Raimunda Francisca Gonçalves Lopes é agricultora, mora na comunidade de Sapé, município de Jaboticatubas –MG, e participa, junto com o marido Dazinho – Dázio JoséLopes, da feira Raízes do Campo – a Feira Agroecológicade Jabó. O sabonete de dicuada do azeite do cocomacaúba, também conhecido por sabão preto, é oprincipal produto que Dona Raimunda leva para a feira.Aprendeu a fazer o sabonete com a sogra, Dona MariaBejamina, em 1992. De lá para cá, inovou a receitaacrescentando plantas medicinais que cuidam da pele edo cabelo.

Autoria de Raimunda Francisca Gonçalves Lopes e Dázio José Lopes. Belo Horizonte (MG), Novembro de 2020.

Clique aqui para acessar o arquivo.

Organizações sociais lançam Caderno de Estudos sobre Leis de Terras

“A Liberdade da Terra não é assunto de lavradores.
A Liberdade da Terra é assunto de todos quantos
se alimentam dos frutos da Terra” (A FALA DA TERRA – Pedro Tierra)

Em Live que será realizada no dia 17/12 (quinta-feira), a partir das 18h00, CPT, GRAIN, AATR e ABRA lançarão a publicação “Caderno de Estudos – Mudanças atuais das Leis de Terras: do golpe político ao golpe fundiário”. O debate, que será mediado por Isolete Wichinieski, da coordenação nacional da CPT, contará com a participação de: Larissa Packer, do Grain, que discutirá sobre a Corrida por Terras no Brasil e Principais Alterações Lei 13.465/17; Afonso Chagas, assessor Jurídico da CPT, e Mauricio Correia, da AATR, contribuirão no debate sobre as Alterações nas Leis estaduais de Terras – Amazônia e Matopiba; Acácio Leite, da ABRA, debaterá o tema dos Assentamentos e a Contra-reforma agrária. A atividade terá, ainda, a presença de Deborah Duprat, que abordará o tema da Suspensão da Reforma Agrária e o protocolo da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF – protocolada na última semana no Supremo Tribunal Federal (STF).

Card Caderno Lei Terras 01O Caderno de Estudos, organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), GRAIN, Associação de Advogada/os de Trabalhadores Rurais (AATR) e Associação Brasileira de Reforma (ABRA) tem como principal objetivo subsidiar a atuação nos territórios acompanhados pelas organizações e movimentos de luta pela terra, para assim contribuir no enfrentamento às novas investidas legais contra as terras públicas e os assentamentos de reforma agrária, potencializadas pela edição da Lei 13.465/17.

Dado o contexto de avanço do capital estrangeiro sobre as terras públicas e os territórios de vida das populações do campo, ao mesmo tempo em que ocorre o explícito desmonte das políticas públicas de reforma agrária, além de alterações legais que agravam a situação de violação de direitos humanos destes povos, este Caderno contribui no debate e resistência, ao apontar as principais alterações nas leis, as principais ilegalidades, assim como possíveis caminhos para o enfrentamento destas ameaçadas nos territórios e por toda a sociedade.


Acompanhe e participe da Live de lançamento do Caderno nos canais de Youtube e Facebook da @CPTNacional

Texto e card: Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Foto: Thomas Bauer / CPT

CPT lança revista com denúncias sobre os impactos do uso de agrotóxicos no Cerrado

A segunda edição da Revista Cerrados aponta as manobras do agronegócio junto ao Governo Federal para flexibilizar as leis referentes a agrotóxicos no Brasil

Fonte: Comissão Pastoral da Terra (CPT) | Arte capa: Estúdio Massa | Foto: Glória Sarmiento

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) lança, nesta terça-feira (15), a segunda edição da Revista Cerrados. A publicação traz os diversos impactos à biodiversidade do  Cerrado e nos territórios onde vivem seus povos ocasionados pelo uso intenso de agrotóxicos pelo agronegócio nas lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão entre outras monoculturas.

Dentre os dados preocupantes apontados pela revista, destaca-se que até agosto deste ano estava autorizada, pelo Governo Federal, a comercialização de mais de 2,8 mil produtos agrotóxicos no Brasil. Desde o início de 2019 foram autorizados 745 novos venenos pela gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Os textos ainda relacionam o aumento do uso de agrotóxicos aos casos de intoxicação de pessoas nos estados que compõem a chamada última fronteira agrícola do Matopiba (acrônimo dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), bem como destrincham as diversas manobras do governo em direção ao desmonte e flexibilização da legislação referente a agrotóxicos no país.

“O objetivo da Revista Cerrados é ser um espaço de denúncias das violências e destruição da sociobiodiversidade do Cerrado, mas também ser um instrumento de informação e formação para comunidades, organizações parceiras, pesquisadores e população em geral”, afirma Valéria Santos, membro da coordenação editorial da revista.

Capa-RevistaCerrados-BX_1.pngPor outro lado, a publicação abre espaço para as boas novas a partir de saberes e práticas agroecológicas vindas de territórios dos povos e comunidades tradicionais, como resistências a esse projeto de morte. As mulheres auto-organizadas de comunidades rurais da Baixada Cuiabana, em Mato Grosso, se reconhecem como guardiãs do Cerrado e se colocam em processo de resgate cultural e de transformação na construção de uma sociedade com relações sociais e ambientais mais saudáveis.

Também como instrumento efetivo de soberania alimentar, sem a aplicação de venenos e degradação do Cerrado, a Revista analisa experiências agroecológicas construídas a partir dos saberes centenários dos povos do Cerrado. “Para conhecimento e reconhecimento das riquezas dos modos de vida dos povos cerratenses, a Revista traz os anúncios das lutas dos povos por terra, agroecologia, soberania alimentar e territórios livres de agrotóxicos”, complementa Valéria. 

A Revista Cerrados é uma iniciativa da Comissão Pastoral da Terra através da Articulação das CPT’s do Cerrado – que reúne os seus Regionais presentes nesta região – e contou com a colaboração na produção dos textos de agentes pastorais e pesquisadoras e pesquisadores acadêmicos cerratenses e militantes na defesa dos povos e territórios do Cerrado: Aline Mialho, Cecília Amália Cunha Santos, Leomar Daroncho, Patrícia Dias Tavares, Murilo Mendonça Oliveira de Souza, Cleber Adriano Rodrigues Folgado, Sandra Procópio da Silva e Leonardo Melgarejo.

Baixe gratuitamente, no site da CPT, a 2ª Edição da Revista Cerrados. No portal da Pastoral, você também pode encontra a primeira edição da pubicação.

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR A REVISTA


Mais informações:
Amanda Costa (assessoria de comunicação da CPT Nacional): (62) 99309-6781

Rafael Oliveira (assessoria de comunicação): (63) 99101-7760

2020: o ano do fim do mundo… como o conhecemos

Pandemia, retorno da pobreza extrema e da fome ao país, injustiças, criminalização, queimadas e a boiada passando, deliberadamente, sobre os territórios, povos e biomas. Dados parciais de conflitos no campo em 2020, registrados pela CPT e divulgados agora, mostram um pouco da conjuntura agrária neste ano.

Fonte: Cristiane Passos – assessora de comunicação CPT Nacional

Imagem principal: Leandro dos Santos

EN – PARTIAL DATA “CONFLITOS NO CAMPO 2020” – 2020: the year of the end of the world… as we know it

Para além da conjuntura política desastrosa que acomete a todos e todas no Brasil, o ano de 2020 começou com um grande impacto mundial, uma pandemia de proporções ainda não vistas na contemporaneidade. O novo Coronavírus desestruturou o modelo capitalista imposto à sociedade e desgastou, ainda mais, os países que vêem atualmente sua democracia fragilizada.

Para os povos do campo, das águas e das florestas, colocados à parte desde o início desse governo genocida, este ano foi mais um desafio dentre os tantos que enfrentam, contornado com os princípios que sua ancestralidade e cuidado com a casa comum sempre os ensinaram: somos todos um e a terra, se bem cuidada, proverá. Dessa forma, veio do campo a maior demonstração de solidariedade e altruísmo frente aos desafios do coronavírus. 

Sendo assim, em 2020 o Centro de Documentação da CPT – Dom Tomás Balduino registrou diversas doações como Manifestações de Luta, entendendo que essas foram uma forma de resistência, relacionadas a reivindicações históricas, como reforma agrária, soberania alimentar entre outras. Essas novas formas de manifestações, baseadas na solidariedade, por meio da doação de alimentos, refeições e itens de higiene, em ações coordenadas principalmente pelos movimentos e organizações sociais camponesas, também contou, muitas vezes, com o apoio de sindicatos e federações. 

O Centro de Documentação registrou até o final de novembro 181 ações do tipo, somando 823,39 toneladas de alimentos doados. Os estados que mais fizeram ações de doação de alimentos foram Alagoas (28), Paraná (24), Rio Grande do Sul (24), Pernambuco (22) e Santa Catarina (18). Nessas ações, o Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST) esteve presente em 110, a CPT em 40 e o Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) em 14.

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Com aval do governo, a boiada e o fogo passaram pelos biomas

Além da pandemia, que já apontava como este ano seria desastroso em várias dimensões, no Brasil, ainda tivemos que lidar com outros problemas também devastadores. Vimos nossos biomas serem consumidos pelas chamas, enquanto os órgãos reguladores do meio ambiente eram desmontados. O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, sorrindo, assistia a tudo enquanto “deixava a boiada passar”. Metáfora muito apropriada à liberação da prática de crimes em toda a extensão natural brasileira.

O ano ainda nem acabou e o número de focos de calor na Amazônia já superou o alcançado em todo ano de 2019. Até o dia 22 de outubro, foram registrados 89.602 focos de calor no bioma, ultrapassando os 89.176 do ano anterior, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). No Cerrado foram cerca de 56 mil focos de incêndio no mesmo período. Vimos o Pantanal, um dos maiores santuários ecológicos do país, com rica fauna e flora, ser engolido pelo fogo. Voluntários e voluntárias, pessoas indignadas com a situação, corriam contra o tempo tentando salvar o que restava e os animais feridos. 

Além disso, abandonadas pela Funai, 60% das terras indígenas foram devastadas por mais de 100 mil focos de incêndio. O estado do Mato Grosso foi o mais afetado do início do ano até final do mês de outubro, com um aumento de 1.300% nas queimadas nos territórios tradicionais, em relação ao ano de 2019. Mesmo juntando esforços, indígenas reclamaram da falta de estrutura para combater o fogo, enquanto outros grupos acusaram a Funai e o governo de omissão*.

Além do estado do Mato Grosso, o Pará, mais especificamente a região do Xingu, viu o crescimento da onda de desmatamento em 2019 resultar em invasões de terras indígenas e no consequente aumento das queimadas, completando o ciclo devastador dos grupos invasores contra os territórios tradicionais. Os altos números de focos de calor nessas áreas foram registrados principalmente em setembro, pelo INPE. Aumentando sua a presença nos territórios, os invasores apostam na regularização fundiária, pois creem nas promessas do governo genocida e já estão, inclusive, loteando áreas dentro das reservas por conta própria. 

No dia 19 de novembro, uma base da Fundação Nacional do Índio (Funai) foi cercada por um grupo de invasores na Terra Indígena (TI) Apyterewa, localizada às margens do rio Xingu. A região é historicamente marcada pela presença de madeireiros, que invadem a TI para extrair madeira. Cerca de 40 agentes do Ibama e da Força Nacional estavam na área em uma operação para combater o desmatamento. A tomada da base pelos invasores foi uma reação a esse trabalho. Vídeos que circulam na internet mostram os homens queimando uma ponte e bloqueando a estrada para impedir a passagem dos agentes do Ibama. Mesmo com apoio pífio dos órgão competentes, algumas ações de fiscalização ainda tentam combater os crimes nos territórios. Porém, amparados no discurso “bolsonarista” e “sallista” contra indígenas, os invasores se sentem mais fortalecidos para agir contra a lei e, por vezes, contra os agentes da lei.

De acordo com reportagem da DW**, “das cinco Terras Indígenas (TIs) que mais queimaram em setembro no Pará, quatro estão na bacia do rio Xingu, somando 83% dos focos de calor nesse tipo de área no estado. As TIs Kayapó (do povo mebêngôkre kayapó), Apyterewa (dos parakanã), Cachoeira Seca (dos arara) e Trincheira Bacajá (dos xikrin) têm também altos índices de desmatamento: em 2019, estavam nas primeiras posições, em toda a Amazônia. O grande número de queimadas deste ano acompanha o aumento exponencial do desmatamento em 2019, quando a área de floresta derrubada nas quatro terras indígenas mais que dobrou em relação ao ano anterior. O fogo completa, assim, o ciclo do desmatamento, iniciado com a retirada da floresta. Os dados de desmatamento e queimadas nesses territórios tradicionais e os relatos dos indígenas indicam uma relação entre o aumento da presença de invasores com um aumento da retirada de mata e focos de fogo, que ameaçam os povos indígenas do Xingu”.

Violência contra a ocupação e a posse

Entre os dados parciais de conflitos divulgados hoje, o Centro de Documentação da CPT registrou, em 2020, 1.083 ocorrências de violência contra a ocupação e a posse, que atingiram 130.137 famílias. Em dados absolutos de 2019, foram registradas 1.254 ocorrências com 144.742 famílias envolvidas. 

Desses dados, os mais impressionantes são os de invasão de territórios, sendo os indígenas as maiores vítimas. Em 2020, a CPT registrou 178 ocorrências de invasão de territórios, contra 55.821 famílias. 

Em 2019, a CPT havia registrado, em números absolutos, 09 invasões envolvendo 39.697 famílias. Isso mostra um aumento de quase 1.880% no número de ocorrências, e ainda estamos falando em dados parciais. Em relação ao número de famílias vítimas desse tipo de violência, houve um aumento de cerca de 40%. 

Das categorias que sofreram essa violência em 2020, 54,5% do total foram de indígenas. 11,8% foram de famílias quilombolas e 11,2% de posseiros, conforme pode ser verificado no gráfico abaixo:

2_Conflitos_por_terra_-_2020_-_Categoria_que_sofreu_a_acao_na_violencia__Invasao__-_total_de_ocorrencias_178_-_164_das_1083_ocorrencias_registradas_ate_27_11_2020.png

Além disso, 62 ações de pistolagem contra 3.859 famílias foram registradas em 2020, quase o triplo em relação a 2019, já que no ano passado foram registrados 21 desses crimes, em números absolutos.

Violência contra a pessoa

Foram registrados pela CPT em 2020, 18 assassinatos em conflitos no campo. O Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno ainda aguarda informações sobre outras mortes, que ainda podem ser inseridas. Entre elas, um massacre que vitimou quatro pessoas, sendo 3 da mesma família, na saída de um garimpo no norte do Mato Grosso, no dia 21 de novembro. O garimpo, localizado em Aripuanã, a 976 km de Cuiabá, foi legalizado em julho de 2019. Foram mortos Elzilene Tavares Viana, de 41 anos, conhecida como Babalu; o filho dela, Luiz Felipe Viana Antônio da Silva, de 19 anos; o marido dela, Leôncio José Gomes, de 40 anos; e Jonas dos Santos, de 25 anos (que era garimpeiro). A polícia não informou o que as vítimas faziam no local. Ano passado, no final de outubro, outra chacina similar aconteceu no garimpo. Três pessoas da mesma família, pai, filho e genro, foram mortos dentro de uma caminhonete. O triplo assassinato ocorreu a 14 km da cidade e dentro do garimpo, que foi alvo de operação para desocupação menos de um mês antes do crime, acirrando ainda mais os ânimos na região. 

Entre os dados parciais registrados e apresentados pela CPT neste momento, consta o massacre no rio Abacaxis, que vitimou indígenas e ribeirinhos. No dia 7 de agosto um indígenas foi morto e, dois dias depois, no dia 9, três ribeirinhos foram assassinados. O conflito teria sido iniciado no dia 24 de julho, após o secretário executivo do Fundo de Promoção Social do Governo do Amazonas, Saulo Moysés Rezende Costa, junto a um  grupo de pessoas, ter adentrado a área do rio Abacaxis para realizar pesca esportiva, sem licença ambiental e desrespeitando o isolamento social, por conta da pandemia. O território, invadido pelo grupo, é reivindicado pelo povo indígena Maraguá. A pesca esportiva e o turismo na área requerem emissão de licença ambiental. Neste conflito o secretário acabou ferido no braço.

No dia 03 de agosto, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP-AM) enviou policiais do Comando de Operações Especiais e do Batalhão Ambiental da Polícia Militar para realizar uma operação que teria como finalidade alegada coibir o tráfico de drogas na região. Durante a ação, conforme apuração do Ministério Público Federal (MPF), os policiais não estavam fardados e abordaram vários ribeirinhos e indígenas sem se identificarem como policiais. Esses ainda teriam usado a mesma embarcação de turismo que transportou o grupo de pessoas, no qual estava o secretário, no dia 24 de julho.

Nesta operação, dois policiais morreram em uma suposta emboscada a traficantes. Por conta da morte dos policiais, a Polícia Militar organizou uma operação no rio Abacaxis que envolveu cerca de 50 policiais. Em seguida à operação, o MPF recebeu diversas denúncias por parte das populações ribeirinhas, indígenas e comunidades da região, afirmando que a PM praticou vários abusos. Entre as denúncias, foram listadas, conforme relatos locais, o uso de armas de fogo para intimidar aos moradores, crianças e idosos; a proibição de circular pelo rio; uso indevido de forças policiais para serviços particulares; tortura; cerceamento de liberdades individuais e coletivas; queima de casas e execuções.

As comunidades locais afirmam que os abusos ocorreram por retaliação ao revide da invasão do dia 24 de julho. Foram confirmadas, então, após a ação policial, a morte de um indígena Munduruku, três ribeirinhos e o desaparecimento de dois adolescentes e um indígena Munduruku, além da morte de dois policiais militares, um suposto traficante e seis pessoas feridas.

O governo criminaliza enquanto o judiciário pune e se omite

2020 foi um ano cheio de investidas contra a luta popular e os territórios dos povos do campo. Diversas ameaças de despejo e despejos pairaram sobre as comunidades. Um dos despejos mais marcantes foi o do acampamento Quilombo Campo Grande, no Sul de Minas. Esse fica para a história como o mais longo do século XXI no Brasil. Uma operação programada para começar e terminar na manhã do dia 12 de agosto tornou-se uma saga que deixou profundas marcas nas lutas sociais do estado. Por 56 horas, famílias sem-terra resistiram pacificamente à pressão da Polícia Militar, dia e noite, no meio de uma estrada, sob o sol forte e o frio da madrugada, respirando poeira e ouvindo ameaças.

Em meio à pandemia, com a recomendação de autoridades para evitar aglomerações, 150 policiais esgotaram as vagas dos hotéis nas cidades de Campo do Meio e Campos Gerais. Durante a madrugada, a tropa cercou o acampamento com helicóptero, carros, drones, balas, bombas, escudos e cassetetes. Era o 12º despejo na trajetória do Quilombo Campo Grande, uma área com 11 acampamentos, cerca de 450 famílias e mais de 2 mil pessoas.

Considerado um dos maiores acampamentos do MST em Minas Gerais, o Quilombo Campo Grande ocupa a área da antiga fazenda de Ariadnópolis, outrora pertencente à Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia). Por décadas, o local foi marcado pelo plantio de cana para a produção sucroalcooleira, como também pela presença de trabalho infantil e trabalho análogo à escravidão. No local é produzido o famoso café Guaií, cultivado sem uso de agrotóxicos e várias vezes premiado pela excelente qualidade.

O Judiciário, que poderia servir como uma barreira aos atos omissivos do Poder Público, assim não o faz. O tratamento da reforma agrária pelo governo federal é um exemplo. Desde o ano passado o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) paralisou os processos de desapropriação de imóveis para fins de reforma agrária. Por meio do Memorando-Circular nº 01/2019, o presidente da autarquia determinou às unidades regionais a suspensão das atividades de vistorias de imóveis rurais para fins de obtenção de terras. O orçamento da autarquia para o ano de 2020 reduziu a quase zero diversas funções importantes*** e relatório do governo confirma que a obtenção de terras não é uma prioridade.

Além disso, o Incra desistiu de processos administrativos de desapropriação que já estavam em andamento e também pediu a suspensão de outros processos judiciais. De acordo com dados enviados pela autarquia ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), mais de 400 processos estão paralisados, sendo que alguns deles estavam em fase final, apenas aguardando imissão na posse.****

No dia 09 de dezembro, movimentos populares, entidades do campo e partidos políticos protocolaram uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) junto ao Superior Tribunal Federal (STF), para que sejam reconhecidas e sanadas as graves lesões aos preceitos fundamentais da Constituição Brasileira praticadas por órgãos federais do Estado, decorrentes da paralisação da reforma agrária e da não destinação das terras públicas federais a essa finalidade. O texto foi estruturado em três eixos principais: Paralisação da reforma agrária, grilagem de terra no Brasil e criminalização dos movimentos e organizações populares, e cita que: “com o Presidente Jair Bolsonaro a reforma agrária passou a ser tratada como uma ‘pauta adversária’, a ser eliminada”. O governo também suspendeu a realização de vistorias em imóveis rurais, o que implica, na prática, a impossibilidade de fiscalizar o cumprimento da função social da propriedade, primeiro passo no processo de desapropriação de imóveis rurais para fins de reforma agrária.

Os dados elencados no documento mostram que aquilo que poderia ser visto como uma cautela de início do governo revelou-se uma diretriz permanente e em vigência até o presente momento. Outro ponto destacado no texto é a constitucionalidade da reforma agrária que é uma política central para a redução da desigualdade no país.

Os movimentos lembram ainda no documento que: “a paralisação da reforma agrária provoca insegurança jurídica em uma ampla gama de beneficiários, que aguardam há anos o andamento dos processos.”

Assim como as ações de controle de constitucionalidade, a ADPF tem como objetivo a prevalência da rigidez constitucional e a segurança jurídica.

O relatório “Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, da Oxfam Brasil, mostra que enquanto as grandes propriedades correspondem a 0,91% do total dos estabelecimentos rurais brasileiros e abrangem 45% de toda a área rural do país, aqueles com área inferior a 10 hectares representam mais de 47% do total de estabelecimentos e, por sua vez, ocupam menos de 2,3% da área total. Uma reforma agrária no Brasil, além de urgente, ainda se mostra necessária para combater a concentração fundiária e as desigualdades sociais que são produzidas por ela. 

A Constituição Federal ressalta o caráter fundamental da função social da propriedade rural. Dessa forma, o Estado tem o dever de identificar os imóveis que não cumprem a função social e, com isso, aplicar a lei, desapropriando as propriedades que não cumprem a Constituição e destinando-as para a reforma agrária. Desde a redemocratização, pelo menos 9.341 projetos de assentamentos foram implantados, beneficiando cerca de 1 milhão de famílias.*****

Mesmo em uma emergência sanitária conflitos pela água permanecem

Segundo o Centro de Documentação da CPT, em dados parciais de 2020, foram registrados 189 conflitos pela água envolvendo 34.525 famílias em todo o Brasil. Durante todo o ano de 2019, 489 conflitos  atingiram 69.793 famílias.

Apesar da queda no número total de ocorrências, destacamos a região Centro-Oeste que, mesmo em dados parciais, ultrapassou todo o ano de 2019 com 21 ocorrências de conflitos pela água e 2.836 famílias atingidas. Enquanto no ano anterior foram registrados 13 conflitos na região, atingindo 616 famílias, o número de famílias impactadas no Centro-Oeste por conflitos pela água em 2020 mais que quadruplicou. Além disso, das 21 ocorrências registradas, 15 foram contra indígenas,  envolvendo 2.449 famílias, o que corresponde a  86% das famílias impactadas por esses conflitos na região. 

Já no total dos conflitos pela água no Brasil, observamos que a categoria mais impactada foi a de ribeirinhos:

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A maior parte dos conflitos por água registrados foi causada por mineradoras internacionais, conforme gráfico a seguir:

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43,4% dos conflitos pela água registrados em 2020 foram causados por mineradoras internacionais. Há cinco anos, completados em novembro deste ano, assistíamos ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, de propriedade da empresa Samarco. A barragem, que continha 43,8 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, assassinou 19 pessoas e deixou, pelo menos, 1,9 milhão de pessoas atingidas ao longo da bacia do Rio Doce, de Minas Gerais ao litoral do Espírito Santo. Em Brumadinho, em 2019, a Barragem B1 da Mina do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, tinha capacidade para armazenar 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos e também se rompeu, soterrando 270 pessoas (11 ainda estão desaparecidas). 

Mesmo com as sucessivas tragédias, e com a anuência do governo, os projetos de mineração continuam a se expandir em território nacional. Uma barragem que está projetada para ter uma capacidade para suportar 845 milhões de metros cúbicos de rejeitos e que impactará diversas comunidades entre o norte de Minas Gerais e sul da Bahia, compõe o Projeto Bloco 8 da Sul Americana de Metais (SAM), empresa de capital chinês. Atualmente o empreendimento tenta, a todo custo, ser licenciado. Essa seria a segunda maior barragem de rejeitos de mineração do mundo, podendo gerar 1,5 bilhão de toneladas de rejeitos em apenas 18 anos, época de sua vida útil.

O Projeto Bloco 8 é uma ampliação de um projeto inicial da Votorantim Novos Negócios, criado em 2009, originalmente intitulado “Projeto Salinas” e depois “Projeto Vale do Rio Pardo”. Sua versão inicial prevê a construção de um complexo extrativista (mina e barragens) abrangendo quatro municípios no norte do estado de Minas Gerais, Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis, e a construção de um mineroduto de 482 km de extensão para escoamento do minério de ferro produzido. Esse mineroduto cruzaria 09 municípios de Minas Gerais e outros 12 municípios da Bahia até o Complexo Portuário e de Serviços Porto Sul, em Ilhéus (BA), outro megaempreendimento que recentemente teve suas obras autorizadas. 

Ambos trarão impactos a um corredor ecológico de remanescentes da Mata Atlântica, área onde se cultiva cacau e que é refúgio de espécies raras. É neste porto que a água poluída seria descartada e o minério exportado para o mercado siderúrgico da China.

A Covid e os povos tradicionais

Se a pandemia está destruindo populações ao redor do mundo com o seu poder mortal, em relação aos povos tradicionais ela mostra um impacto ainda mais devastador. Segundo a Coordenação da Articulação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), até o dia 11/11/2020, 4.635 quilombolas foram infectados pelo vírus e 168 perderam a vida por causa dele. Nos territórios indígenas, de acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), até o início do dia 23/11/2020, 39.826 indígenas, de 161 povos, foram infectados pelo vírus e 880 indígenas morreram em decorrência dele. 

De acordo com a APIB, entre os principais fatores de fragilização dos povos indígenas diante da pandemia, estão a falta de atendimento da SESAI aos indígenas que vivem em contexto urbano e fora de territórios que não são homologados. É recorrente hospitais registrarem indígenas que vivem em contexto urbano como pardos. 

Por conta própria e para evitar a proliferação do vírus nos territórios, muitas comunidades fizeram barreiras sanitárias, buscando impedir invasores e, a partir  disso, também, o vírus. O Centro de Documentação registrou, em dados parciais, 267 ocorrências de barreiras sanitárias no Brasil, envolvendo 48.562 famílias. Cerca de 84% do total das barreiras sanitárias foram feitas em territórios indígenas. 

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As eleições e os povos tradicionais

De acordo com dados da APIB e do Instituto Socioambiental (ISA), as eleições municipais de 2020 trouxeram boas notícias para os povos indígenas do Brasil. Foram eleitos 237 representantes de povos originários para os cargos de vereador, vice-prefeito e prefeito, 28% a mais do que na eleição municipal anterior.

O percentual de indígenas vitoriosos sobre o universo total de pessoas eleitas também cresceu. Neste ano, os indígenas foram 0,34% de todos os eleitos, contra os 0,26% de há quatro anos. O número é pequeno, mas também é pequeno o percentual de pessoas que se declaram indígenas, de acordo com o último Censo, de 2010: 0,47% da população brasileira.

Também houve alta na representatividade das mulheres indígenas. Em 2016, foram eleitas 15 mulheres de povos originários no Brasil, 8% de todos os indígenas eleitos naquele ano. Em 2020, foram 41 mulheres eleitas, que representam 17% de todos os indígenas que terão cargos eletivos municipais a partir de janeiro. A expansão também ocorreu no número de candidatos indígenas de ambos os gêneros: havia o nome de 2.216 deles nas urnas neste ano, alta de 29% em relação ao último pleito municipal. 

Entre os quilombolas houve, também, uma participação considerável no pleito eleitoral deste ano. De acordo com dados da CONAQ, 500 quilombolas concorreram e, destes, 81 foram eleitos em diferentes estados brasileiros. Para o Executivo, foram eleitos o quilombola Vilmar Kalunga, do maior quilombo do Brasil, como prefeito da cidade de Cavalcante, em Goiás. Outro quilombola foi eleito no Tocantins e outros 9 como vice-prefeitos. A maioria dos quilombolas que estarão nas câmaras municipais em 2021 foram eleitos no Maranhão, onde ocuparão 14 cadeiras. Em Goiás, 8 candidaturas quilombolas foram eleitas. Em Minas Gerais foram 7. No Tocantins, foram 8. Em Sergipe e no Piauí, foram 2 em cada estado, entre outros.

Diante de todo este panorama que já se apresenta, reforçamos que na luta por direitos é imprescindível ocupar todos os espaços. 


*https://reporterbrasil.org.br/2020/11/abandonadas-pela-funai-60-das-terras-indigenas-sao-devastadas-100-mil-focos-de-incendio/ 

**https://www.dw.com/pt-br/invas%C3%A3o-de-terras-ind%C3%ADgenas-no-xingu-paraense-impulsiona-queimadas/a-55131088 

***http://www.incra.gov.br/pt/media/docs/relatorio-gestao/INCRA-2019.pdf 

****https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/09/bolsonaro-incrementa-verba-para-ruralistas-e-reduz-quase-a-zero-a-reforma-agraria.shtml 

*****https://www.brasildefatorj.com.br/2020/11/04/direito-e-direito-reforma-agraria-da-paralisacao-a-criminalizacao-dos-sem-terra#.X6M7lvyMhTc.gmail

Seu Joca, morador mais antigo do Cajueiro, está sob ameaça de ser expulso do território

“Eu não estou ocupando a terra de ninguém, eu ocupo o que é meu. Tenho raiz aqui”. As palavras firmes e cansadas são do seu João Germano da Silva Seu (Joca de 86 anos), um dos moradores mais antigos do Cajueiro. Ainda sob as ameaças do contágio da Covid-19, adoentado com uma inflamação no pé que inviabiliza a sua locomoção, ele recebeu esta semana, a notícia sobre a imissão provisória de posse em favor da empresa Tup Porto São Luís, para a construção de complexo portuário, no território em que vive há mais de 40 anos.

Violência institucional

São inúmeras as violências praticadas contra o seu Joca. A começar pela sua condição de idoso. O Estado do Idoso, em seu artigo 37, garante que o “idoso tem direito a moradia digna, no seio da família natural…”. A Constituição Federal assegura no artigo 230 que o “…Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida”.

A decWhatsApp_Image_2020-12-11_at_12.08.45.jpegisão judicial, oficializada pelo juiz Marcelo Oka, traz o pedido de reforço policial hábil a amparar a execução da imissão na posse. “Uma violência cometida pelo Judiciário por meio de um processo tendencioso com vários vícios processuais e questionado pelo Ministério Público e com total apoio do Governo do Estado ao empreendimento chinês que atenderá ao agronegócio”, enfatizou as vozes dos apoiadores do Cajueiro.

“O que é que eu quero, eu morando aqui no Cajueiro, com todo o sossego, com toda a paz, o que é que eu quero com um porto pra atracar navio? Isso aí o governador tem interesse nisso aí, mas eu não tenho”, desabafou seu Joca em depoimento ao Raízes do Cajueiro, uma rede social de denúncias e resistência a tudo que acontece no território.

Seu Joca e mais quatro famílias foram/são alvo de ações de desapropriação movida pela empresa. Atualmente, somente ele resiste na área mais próxima do complexo portuário. O irmão Pedro Sírio, que mantinha o mesmo posicionamento em não deixar a sua história pra trás, faleceu de Covid-19 no primeiro semestre desse ano.
Eles construíram suas vidas e seus lares próximo a praia de Parnauaçu. Lembra que quando chegou descia há qualquer hora para pescar. No quintal de sua casa, conta a história de cada árvore plantada, há mais de 40 anos. “É uma luta tremenda, tão chata. Eu nunca tinha visto uma coisa dessas. Eles dizem: eu tenho muito dinheiro e eu faço o que eu quiser, aqui quem manda sou eu”, finalizou.

Histórico do Cajueiro
Agosto/2019 – Violenta reintegração de posse no território do Cajueiro
Outubro/2019 – Caso é denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos
Fevereiro/2020 – audiência tendenciosa com o aval do juiz Marcelo foi realizada e não houve acordo com seu Joca e seu Pedro
Março/2020 – Anulado decreto estadual que gerou despejos no território do Cajueiro
Junho/2020 – Revogação da anulação do Decreto pelo Tribunal de Justiça do Maranhão
Dezembro/2020 – Omissão provisória de posse em favor da empresa Tup Porto São Luís

Processo tendencioso
O MPE, por meio da Promotoria Especializada em Conflitos Agrários, coloca em cheque a validade do documento imobiliário apresentado pela empresa portuária. A suspeita é que exista uma organização criminosa que teria grilado terras na região e agido para o empreendimento avançar.


 Fonte / Imagens: Coletivo de Comunicação em apoio ao Cajueiro

Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança neste mês de dezembro o livro “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade”, fruto de um amplo processo colaborativo. O livro é uma ode aos povos do Cerrado, verdadeiros guardiões e multiplicadores das riquezas dessa imensa região.

Clique aqui para baixar o arquivo em PDF.


Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Macro-Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani e Kaiowá) e Arawak (como os Terena). São comunidades quilombolas, como os Kalunga, os jalapoeiros e centenas de outras pelos sertões do Cerrado. São comunidades tradicionais, tão diversas como o próprio Cerrado e que têm suas vidas entrelaçadas nas árvores e plantas, bichos, chapadas, vales e águas da região, como as quebradeiras de coco-babaçu, raizeiras, geraizeiras, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiras, pescadoras artesanais, vazanteiras e pantaneiras. São, ainda, as assentadas e assentados de reforma agrária e outras populações de base camponesa.

Os artigos que compõem este livro ecoam a memória ancestral de que as paisagens onde a biodiversidade do Cerrado vibra não são representações de uma natureza intocada, mas sim patrimônios históricos e socioculturais, fruto da convivência e cuidado dos povos com o Cerrado. Ao mesmo tempo, os relatos e análises mostram que esses saberes tradicionais vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação — em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultural — está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora, e para o futuro.


Diana Aguiar é assessora política da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Pesquisadora de Pós-Doutorado no CPDA/UFRRJ. Helena Lopes é especialista em Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid e Doutoranda em Ciências Sociais no CPDA/UFRRJ. Ambas coordenam esta publicação.

Ofício das quebradeiras de coco babaçu é reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional 

Ofício das quebradeiras de coco babaçu é reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional 

por Alcileia Torres

Reconhecimento fortalece a luta das mulheres quebradeiras de coco babaçu e valoriza modo de vida que cultuado ao longo de gerações

 

A Lei nº 15.431/2026, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União no dia 11 de junho de 2026, reconhece o saber tradicional das quebradeiras organizadas pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), que hoje está presente nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.

Para as mulheres quebradeiras de coco esse marco valoriza os saberes que são transmitidos de geração em geração nos territórios, as práticas de subsistência comunitária e fortalece a luta pela garantia de direitos. 

“Foi uma alegria muito grande pra gente que é quebradeira de coco saber que nossa matéria-prima foi reconhecida pelo governo federal. Porque é uma coisa que a gente vem lutando há muito tempo por reconhecimento. Porque a gente sabe que nós temos os nossos direitos, mas os nossos direitos não são respeitados.” Ressaltou Luzeny Oliveira, quebradeira de coco babaçu da comunidade São Domingos, em Cidelândia (MA), e coordenadora de base do MIQCB.

Embora o reconhecimento contemple as quebradeiras organizadas pelo MIQCB nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, o ofício também está presente em outros territórios do Cerrado brasileiro. É o caso do oeste da Bahia, onde mulheres seguem cultuando esse saber ancestral. Em São Desidério (BA), quebradeiras de coco babaçu preservam conhecimentos transmitidos entre avós, mães e filhas, fortalecendo os modos de vida do território. 

Filha e neta de quebradeiras, Nerilma Araújo conta que aprendeu o ofício ainda na adolescência .“Sou filha e neta de quebradeira de coco babaçu, sou quebradeira desde os 15 anos, tô com 38 anos. E quebrar coco babaçu complementa as nossas renda na casa, né?”. 

Nerilma reforça também, que o ofício segue presente na Bahia, mesmo sem o devido reconhecimento. “Aqui no oeste da Bahia tem várias quebradeiras. A gente só não é reconhecida ainda, mas somos quebradeiras sim.” Essa realidade está registrada no documentário “Babaçu Que Quebra Lá, Quebra Cá”, produzido para dar visibilidade às quebradeiras de coco babaçu do oeste baiano e reafirmar a re’existência desse modo de vida na região. 

Para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, reconhecer o ofício das quebradeiras de coco babaçu é também reconhecer mulheres que há gerações cuidam dos babaçuais, protegem a sociobiodiversidade e mantêm esses conhecimentos ancestrais construídos e fortalecidos nos territórios.

Cerrado ganha novo corredor ecológico e conecta áreas de preservação em cinco estados

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