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Lançamento: Animação e Cartilha educativa abordam direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado

Materiais educativos podem ser baixados gratuitamente através dos canais da Campanha em Defesa do Cerrado

capa thumb youtube ANIMACAO 2 01

Como organizar e mobilizar politicamente a nossa comunidade? Como acessar os direitos territoriais que deveriam garantir a permanência dos povos indígenas e das comunidades tradicionais em seus territórios de vida? Essas e outras questões norteiam o conteúdo da Cartilha educativa e da animação “Nosso direito de viver: Terra e território”, lançadas pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Actionaid Brasil neste mês.

“A terra não tem preço. A terra é nosso diamante, é vida, é nosso futuro e é tudo para nós!”. Este é o sentimento partilhado por Valdinez Pereira, agricultora familiar, que participou das oficinas sobre direitos territoriais e reforma agrária em outubro e novembro de 2020. O conteúdo compartilhado nestes espaços formativos, que reuniram participantes de comunidades tradicionais do Tocantins, Piauí e Maranhão, inspirou a produção dos materiais formativos.

Sistematização gráfica da segunda oficina de direitos territoriais do projeto, que inspirou a produção dos materiais educativos, realizada em novembro de 2020

A primeira animação da série nos convida a olhar para a história da luta pela terra no Brasil e nos ensina que “direitos conquistados não necessariamente são direitos garantidos”. Já o segundo episódio apresenta ferramentas concretas de organização e mobilização que podem ajudar estes povos na luta pelos seus direitos territoriais. 

Sobre o formato do material, Emmanuel Ponte, assessor da Actionaid Brasil, nos explica:

“Para enfrentar os desafios da compreensão do ‘juridiquês’ optamos pela linguagem audiovisual e gráfica, por um vídeo que nos conta uma história e apresenta de maneira didática ferramentas de organização e instrumentos legais que devem ser compreendidos não só pelas comunidades que vivem nos territórios, mas por todos nós, para colaborar com a defesa da sociobiodiversidade e dos direitos dos povos do Cerrado”, destaca o assessor.

Incidência para a garantia de direitos

Uma das ferramentas apresentadas no vídeo, mas que também foi utilizada durante as oficinas, é a “Roda da Incidência”, que apresenta um passo-a-passo que visa apoiar processos de organização comunitária e ações de incidência para a proteção e garantia de direitos territoriais. A Cartilha educativa, lançada em formato digital e que conta com a organização metodológica da Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR), detalha e apresenta de maneira infográfica esse instrumento.

Roda de incidência sistematizada graficamente durante oficina de direitos territoriais do projeto, realizada em novembro de 2020

O instrumento formativo é uma iniciativa do Projeto “Articulação em rede e participação social para a conservação do Cerrado”, realizado pela ActionAid e Campanha em Defesa do Cerrado com o apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), e parceria da Comissão Pastoral da Terra, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN) e Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR).

O material impresso será enviado para comunidades e entidades parceiras no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Você pode receber a Cartilha em formato digital caso pertença a uma comunidade tradicional, povo indígena ou trabalhe em alguma organização de assessoria deste segmento. Faça contato conosco através do e-mail comunicacerrado@gmail.com para saber mais.

Assista a animação:


 Animação e ilustração: Estúdio Animadíssimos

 

CARTA PÚBLICA DO QUILOMBO SANTA MARIA DOS MOREIRAS, JERUSALÉM E BOM JESUS, MUNICÍPIO DE CODÓ/MARANHÃO

Nosso Quilombo é centenário, com mais de cinco gerações. Hoje somos 58 famílias com 20 anciãos, 89 adultos mulheres e homens, 49 jovens, 14 adolescentes, 50 crianças, totalizando 222 pessoas com profunda relação com nossos ancestrais. Nosso povo naturalmente vai se multiplicar. Portanto, não queremos a diminuição do nosso território, chão sagrado, marcado com o sangue e suor dos nossos antepassados.

Se alguém alegar que não temos muita produção, é engano de quem achar, pois há mais de cem anos nosso povo produz e se reproduz neste chão com nosso próprio modo. Aqui nós tiramos o sustento da vida e criamos nossos filhos e filhas, netos e netas, bisnetos e bisnetas, tataranetos e tataranetas, assim por diante.

Não queremos o QUILOMBO para ser desmatado. Queremos nosso QUILOMBO para continuar existindo e cuidando da nossa MÃE TERRA, preservar e cuidar bem dele para que os nossos ancestrais e encantados continuem conosco nos protegendo. Queremos proteger e preservar o BOQUEIRÃO DO CACAU, A SERRINHA, preservar a SERRA DO VERDIANO, O CHAPADÃO DA MACAÚBA, precisamos cuidar do OLHO D’ÁGUA DO TAMBURI, preservar o CARRASCO DO PEIXE e do FINCA PÉ.

Todos esses lugares citados estão dentro do nosso território. Não podemos e não queremos viver sem eles, a existência do nosso povo depende desses lugares. Se tudo isso for tirado de nós, o ESTADO estará tirando a nossa vida, a começar pelos nossos filhos e filhas, netos e netas, bisnetos e bisnetas, tataranetos e tataranetas, porque se formos expulsos para a cidade sem condições de se manter lá, nossos filhos e filhas vão cair na marginalidade e serão ASSASSINADOS PELO TRÁFICO DE DROGAS e pela POLÍCIA DO ESTADO, cuja bala tem preferência pela juventude preta.

Nós somos todos PRETOS e PRETAS, SIM! E nos orgulhamos de sermos descendentes de um povo que jamais aceitou ser submetido, um dia sequer, dos 350 anos de escravidão e açoite. Neste país sofremos racismo de várias formas. Então queremos que as autoridades competentes nos ajude mantendo a integridade do nosso território. Não queremos terra pra vender. Queremos nosso território livre para viver.

Quilombo Santa Maria dos Moreiras, Jerusalém e Bom Jesus, Codó-MA


 Foto: QUILOMBO SANTA MARIA DOS MOREIRAS, JERUSALÉM E BOM JESUS

Procurador-Geral do Ministério Público sobrevoa região no Norte de Minas, onde chineses pretendem minerar

O Procurador-Geral de Minas Gerais, Sr. Jarbas Soares Júnior, cumprirá agenda na região Norte de Minas hoje, 08 de julho. A justificativa, segundo nota divulgada pelo Gabinete do procurador, é discutir o fim dos lixões na região. No entanto, a maior parte da agenda do Procurador-Geral na região será destinada a tratar de questões relacionadas ao Bloco 8, megaprojeto de mineração que a empresa Sul Americana de Metais S/A (SAM) pretende instalar dentro do território das Comunidades Tradicionais Geraizeiras dos municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho e Josenópolis (MG).

No dia 24 de maio de 2021, o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) assinou com a SAM um Termo de Compromisso, sem qualquer participação ou consulta prévia às comunidades atingidas. Termo este que as afeta diretamente na medida em que obriga a empresa a fazer reuniões com as comunidades. Após assinatura do Termo e respaldada por ele, a SAM retornou ao território e tem realizado visitas domiciliares em plena pandemia, violando flagrantemente não só os dispositivos legais e as recomendações relativas às medidas de proteção aos povos e comunidades tradicionais da COVID-19, mas o próprio isolamento social que as comunidades vêm fazendo para se protegerem da pandemia.

Após mobilização das comunidades e a publicação de nota contestando o acordo, o MP-MG se reuniu com as comunidades e propôs uma visita ao território, o que ocorreria precisamente no dia 08 de julho de 2021. A visita fatalmente acarretaria em uma grande presença de pessoas de fora no território (promotores, políticos, agentes de segurança, imprensa etc.) de forma que as comunidades, receosas em relação à pandemia que já contaminou mais de 800 pessoas no território e que está em uma das fases mais críticas, solicitaram, através de ofício enviado ao órgão, a remarcação da visita para setembro de 2021, quando o avanço da vacinação permitiria maior segurança ao povo tradicional geraizeiro.

No mesmo ofício foi solicitada atenção e celeridade à regularização fundiária do território, que está em curso no Governo Estadual, mas tem sido atropelada pelo processo de licenciamento do Projeto Bloco 8 e a suspensão das atividades da Sul Americana de Metais no território em função da flagrante violação das medidas sanitárias de enfrentamento à pandemia. Até o momento não obtiveram resposta oficial sobre essas solicitações apresentadas.

Diante do exposto, as comunidades reafirmam que desejam seu território e chão sagrado, livres de atividades minerárias e que o MP cumpra seu papel na defesa das mesmas e não se curve diante da SAM, o que extrapola sua competência. Que esse Termo, construído sem a participação das comunidades seja revogado!

As comunidades seguem mobilizadas na luta e no enfrentamento contra a Mineração.

Mineração Aqui Não!

8 de julho de 2021, Vale das Cancelas, distrito do Município de Grão Mogol, Norte de Minas Gerais.

Comunidades Tradicionais Geraizeiras do Vale das Cancelas


 Foto: Comunidades Tradicionais Geraizeiras do Vale das Cancelas

Porto São Luís não sai do papel: suspeita de grilagem de terras é um dos principais entraves ao empreendimento

Notícia publicada em 30 de junho pelo jornal Valor Econômico anunciava que o porto privado do grupo transnacional chinês CCCC (China Communications Construction Company) e da TUP São Luís – antiga WPR São Luís Gestão de Portos e Terminais S/A, do grupo WTorre –, não saiu do papel mais de três anos depois de ter sua pedra fundamental lançada. Orçada em R$ 2 bilhões há três anos e prevista para ser construída sobre o Território Tradicional Cajueiro, na zona rural de São Luís, Maranhão, a obra nunca levantou o porto, mas já colocou abaixo dezenas de casas de moradores do território, provocou deslocamentos forçados das famílias, matou centenas de árvores, animais, destruiu cursos d’água e empobreceu os moradores que viviam da pesca, da agricultura e dos frutos das árvores do Cajueiro.

Na reportagem, um dos principais motivos apresentados para a estagnação do empreendimento foi a falta de um financiamento de US$ 500 milhões pleiteado, mas não conseguido, pela CCCC, sócia majoritária do empreendimento, com 51% do negócio. O diretor-executivo da empresa no Brasil afirmou ao Valor que também estão enfrentando “uma série de questões fundiárias que atrapalham o projeto”, mas que, mesmo assim, estão avançando.

Apesar de não dar detalhes sobre as “questões fundiárias que atrapalham o projeto”, já é fato conhecido e reportado por diferentes veículos de imprensa que a suspeita de grilagem de terras do Cajueiro é um dos principais entraves à construção do porto.

Título condominial registrado pelo Estado

O território tradicional Cajueiro possui um título condominial de 600 hectares registrado em 1998 no Cartório de Registro de Imóveis pelo Iterma (Instituto de Terras do Maranhão). Os 200 hectares dos quais o TUP Porto São Luís diz ser dono estão sobrepostos a um projeto de assentamento do Governo do Estado. Há, portanto, fortes indícios de grilagem de terras públicas.

Reportagem da Agência Pública de setembro de 2019 afirma que a WTorre passou a se apresentar como proprietária de parte da área do Cajueiro em 2014, após ter comprado as terras da empresa BC3 Hub Multimodal Industrial. “No entanto, a venda é investigada por suspeitas de grilagem e outras irregularidades pelo Ministério Público do Maranhão (MPMA), em um inquérito civil e um policial”, diz o texto.

Em reportagem de fevereiro de 2020, o Intercept Brasil afirma que “a WPR – hoje TUP – tentou impedir a realização da perícia nos documentos, alegando que o Judiciário gastaria tempo com um processo ‘inútil’”. O pedido da companhia, segundo a matéria, foi negado pelo Tribunal de Justiça, e a investigação criminal está sob sigilo.

Além das suspeitas de grilagem, o empreendimento da CCCC está marcado também por uma série de episódios violentos de despejos ilegais – em 2014 e 2019 –, de ataques da polícia militar do Maranhão contra moradores, de assédio e ameaças de seguranças privados da empresa contra famílias do território, de acosso contra idosos, decretos inválidos, licenças ambientais irregulares e outras violências protagonizadas por agentes privados e públicos. É precisamente esse histórico de violações socioambientais que engessa a celeridade esperada nas grandes negociações e que afasta investidores.


Fonte / Imagens: Coletivo de Comunicação em apoio ao Cajueiro

Foto em destaque: Ingrid Barros

Lançamento da Cartilha “Mulheres do Cerrado: construindo resistências”, traz a voz e a mística das mulheres cerradeiras 

Cartilha reúne os saberes tradicionais e textos sobre o enfrentamento ao sistema capitalista, racista e patriarcal a partir das vozes de mulheres do cerrado

A cartilha “Mulheres do Cerrado: construindo resistências” é parte de um conjunto de materiais lançados como iniciativa da Articulação de Mulheres do Cerrado. Esses materiais reúnem saberes tradicionais, conteúdos formativos e místicos a partir das vozes de mulheres cerradeiras, que são múltiplas e plurais. 

Nesta semana, entre os dias 29 de junho e 02 de julho, aconteceu a “Semana das Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”, evento virtual realizado pela Articulação das Mulheres do Cerrado com o apoio de Misereor e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). No dia 29 foi lançado o vídeo-manifesto da Articulação e nos dias 01 de julho aconteceu a roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura” e hoje, 02 de julho, lançamento público da Cartilha.  

A Articulação das Mulheres do Cerrado surge em junho de 2019, com a realização do I Encontro de Mulheres do Cerrado e desde então vem se consolidando como um espaço de auto-organização das mulheres no âmbito da Campanha em Defesa do Cerrado. Nesse curto período de existência muito já foi construído, alimentado e fortalecido. 

Em novembro de 2020 foi realizado o II Encontro de Mulheres do Cerrado: construindo resistências. Com coragem e teimosia mais de 100 mulheres estiveram reunidas virtualmente, enfrentando os desafios impostos pela pandemia, entre eles o da exclusão digital.

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Esta cartilha é um dos muitos produtos desse esforço coletivo de entender a realidade vivida, buscando transformá-la.  Nela estão registradas, com força e beleza, muitas das falas das mulheres, e muitas das referências trazidas por elas, sobre o sistema capitalista, sobre o racismo e o etnocentrismo e sobre o patriarcado, mostrando como esses sistemas, operando ao mesmo tempo, atravessam nossos corpos e os territórios.

A partir desse material também é possível refletir como tudo isso se manifesta nesse momento de pandemia em que as mulheres são tão fortemente impactadas e como o sistema capitalista é responsável pelo surgimento das pandemias.

Mas, como não poderia deixar de ser, também estão grafadas nessas páginas algumas das muitas expressões de resistência das mulheres do cerrado que, mesmo em um período de tantos desmandos, tantos retrocessos promovidos pelo projeto genocida em curso, não esmorecem.

Assim, com a força das suas ancestrais, as mulheres do cerrado seguem enfrentando o sistema capitalista-racista-patriarcal a partir da vida cotidiana, da produção de conhecimento, das lutas travadas nos seus territórios. Seguem construindo resistências pois, como dito na carta do II Encontro: “Não existem territórios livres com corpos presos!”

FAÇA O DOWNLOAD DA CARTILHA “MULHERES DO CERRADO: CONSTRUINDO RESISTÊNCIAS”: 

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR


Ilustrações e imagens de divulgação: Sarah Pinheiro

Ilustração da capa: Zica Pires

“O Cerrado brasileiro tem cara de mulher”: Articulação de Mulheres do Cerrado realiza roda de conversa virtual e lança materiais educativos

Vinculada à Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Articulação disponibiliza Cartilha e divulga vídeo-manifesto entre os dias 29 de junho e 02 de julho

Nesta semana, entre os dias 29 de junho e 02 de julho, acontece a “Semana das Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”, evento virtual realizado pela Articulação das Mulheres do Cerrado com o apoio de Misereor e da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). No dia 29 foi lançado o vídeo-manifesto da Articulação e nos dias 01 e 02 de julho acontece a roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura” e o lançamento público da Cartilha “Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”, respectivamente.

“As mulheres do Cerrado estão em pé e em luta”. Essa afirmação, vocalizada no vídeo-manifesto das Mulheres do Cerrado, nos ajuda a começar a compreender as motivações para a realização das atividades da “Semana das Mulheres do Cerrado”. O coletivo de mulheres denuncia o avanço do agronegócio, o aumento da violência e da destruição dos territórios do Cerrado, causada pelo desmatamento, incêndios criminosos e poluição dos rios e nascentes da região. 

Com a pandemia da Covid-19, os conflitos no campo se intensificaram, oriundos de processos de grilagem de terras e da não regularização fundiária dos territórios de vida e de direito dos povos indígenas e de comunidades tradicionais da região. De acordo com a publicação Conflitos no Campo Brasil 2020, lançada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 2019 e 2020 houve um crescimento de 25,08% de conflitos por terra no Brasil.

Nos últimos dez anos (2011-2020), a CPT registrou 77 tentativas e 37 assassinatos de mulheres em conflitos fundiários e socioambientais. Eram trabalhadoras rurais sem-terra, quilombolas e das etnias originárias, em sua maioria. O número de ameaças de morte também é alarmante: neste mesmo período, de 2011 a 2020, 446 mulheres foram ameaçadas de morte, com posseiras (90), quilombolas (60) e trabalhadoras sem-terra (49), reunindo o maior contingente de ameaçadas.

Em seu manifesto lançado no dia 8 de março de 2021, a Articulação das Mulheres do Cerrado denuncia também as práticas machistas e patriarcais perpetuadas por empresas e pelo Estado brasileiro, que corroboram para o aumento do feminicídio no país. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no Brasil uma mulher é agredida fisicamente a cada dois minutos, tendo sido registradas 266.310 ocorrências de lesão corporal em decorrência de violência doméstica e 1.326 registros de feminicídio, em 2019. 

Leila Lemes, agente da Comissão Pastoral da Terra em Goiás e integrante da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, explica que os materiais lançados nesta semana são frutos de um processo de construção coletiva iniciado no primeiro e no segundo encontro de Mulheres do Cerrado, realizados em 2019 e 2020. “São conteúdos que reúnem saberes dessas mulheres, que vivem nas comunidades tradicionais, e que enfrentam todos os dias o sistema capitalista, racista, machista e patriarcal, mas, com a força de suas ancestrais, elas se apoiam para lutar e conquistar a liberdade e igualdade que almejamos”, enfatiza Lemes.

Sobre a roda de conversa virtual, que será realizada nesta quinta-feira, dia 01 de julho, às 18h00 (horário de Brasília), Leila destaca que será um espaço de partilha das resistências, de união, de autonomia e de solidariedade das mulheres. “Mesmo no espaço virtual, com a fala das mulheres nos juntamos, nos identificamos e nos fortalecemos, o que é essencial nestes tempos tão desafiadores que vivemos. Sabemos que as mulheres são as mais impactadas na conjuntura atual”, finaliza a agente da Pastoral.

A Articulação das Mulheres do Cerrado surgiu como um espaço de auto-organização das mulheres no âmbito da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado em 2019, durante a realização do I Encontro Nacional das Mulheres do Cerrado. De lá para cá, o coletivo se reúne periodicamente para organização de ações coletivas e divulgação de materiais formativos e políticos sobre as lutas e resistências das mulheres cerradeiras.


Serviço:

Semana das Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências

Data: 29 de junho a 02 de julho

Roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura”

Data: 01 de julho, às 18h00 (horário de Brasília)

Lançamento da Cartilha “Mulheres do Cerrado: Construindo Resistências”

Data: 02 de julho

Transmissão e canais de lançamento dos materiais: 

Facebook da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Facebook e Youtube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado


Assista aqui a Roda de conversa virtual “Mulheres do Cerrado: Espaço de Cura”:

Comunidades tradicionais do norte do Tocantins partilham seus saberes agroecológicos em programa de áudio

No dia 22 de junho foi lançado o programa “Mutirão de Saberes Agroecológicos”, exclusivamente em áudio, promovido pela Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) em parceria com a Rede Bico Agroecológico. Quase 20 pessoas que vivem no Bico do Papagaio (TO) participaram das gravações e produção dos episódios.

O programa têm como objetivo abordar a diversidade de modos de vida de povos quilombolas, quebradeiras de coco, assentados da reforma agrária, pescadores artesanais e acampados que vivem no território do Bico do Papagaio, situado ao norte do Tocantins. Os entrevistados e entrevistadas partilharam sobre o manejo que fazem em seus agroecossistemas e as suas relações comunitárias, como a alimentação e a forma de viver e de produzir em seus territórios.

De acordo com a ONG APA-TO e a Rede Bico Agroecológico, o projeto “busca valorizar os saberes agroecológicos manejados no território do Bico, que são construídos cotidianamente por jovens e adultos que vivem em comunidades rurais e convivem com a biodiversidade de maneira harmoniosa”.

Os episódios apresentarão as seguintes temáticas: “Modo de vida agroecológico no território do Bico do Papagaio”; “A produção agroecológica no território do Bico do Papagaio”; “A importância da comida de verdade na mesa”; “Consumo de alimentos regionais”; “O uso de plantas medicinais no cotidiano”; “Protagonismo da Juventude na agroecologia Bico do Papagaio”; “A importância da apicultura para a agricultura familiar camponesa”; “Sistemas agroflorestais consorciado nos babaçuais”; “Usos e diversificação do aproveitamento do babaçu e Hortas agroecológicas”.

Confira, abaixo, o primeiro episódio do Programa:


Serviço:

Programa Mutirão de Saberes Agroecológicos

Produção e realização: APA-TO e Rede Bico Agroecológico

Edição: Angola Comunicação

Divulgação: Episódios serão lançados semanalmente pelos canais da APA-TO

Canais: Canal do Youtube; Instagram (@ongapato); Facebook (/apatobico)

 

Urgente: Ameaçados de morte, moradores da Comunidade de Gostoso (MA) resistem para defender seu território

Neste momento, dia 26 de junho, moradores da Comunidade de Gostoso (MA) denunciam a presença de dois tratores e jagunços armados da Empresa Costa Pinto no território que pertence a Associação das famílias. Segundo relato das famílias, a presença dos funcionários da empresa objetiva intimidar as pessoas que vivem na comunidade e prosseguir com o processo de desmatamento no território tradicional.

“A todo momento eles mostram o cabo da arma e nos ameaçam, dizem que vão atirar se não cooperarmos”, denuncia morador do território. Cerca de 40 pessoas que vivem na comunidade, entre crianças, adultos e idosos, se posicionam em frente aos tratores para impedir a devastação do território. A Comunidade de Gostoso solicita imediato apoio das autoridades locais responsáveis e já acionou a Secretaria de Segurança Pública, de Direitos Humanos e do Meio Ambiente do Governo do Estado do Maranhão. Até agora, porém, não se obteve retorno ou qualquer tipo de apoio do estado.


26 de junho de 2021

Comissão Pastoral da Terra/MA 

Povo Indígena Akroá Gamella

Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão

MOQUIBOM – Movimento Quilombola do Maranhão

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Incêndio criminoso destrói escola e casa de medicina tradicional do povo Xakriabá

Na madrugada desta quinta-feira (24), após diversas ameaças contra vida das pessoas que vivem no território, um incêndio criminoso destruiu a escola e casa de medicina tradicional do povo Xakriabá da Aldeia Barreiro Preto, no município de São João das Missões, em Minas Gerais. A comunidade registrou boletim de ocorrência na polícia e segue lutando por justiça e respeito deste e de outros casos de violência na região.

Celia Xakriabá, liderança do território, relatou: “Com uma tristeza muito grande e coração cheio de dor que nesta madrugada recebemos a notícia e as cenas da nossa escola Xukurank e Casa da Medicina Tradicional Xakriabá queimadas. As pessoas a frente da direção da escola e toda a comunidade escolar sabem o quanto significa e estamos profudamente tristes, em clima de velório. Podem nos perguntar: mas morreu alguém? E quem disse que em partes não sentimos assim, porque o que fizeram foi colocar fogo na história e trajetória da vida de cada um.”

Com indignação e revolta, Célia continua:

“Lugar onde construi minha vida toda a trajetória escolar desde os seis anos de idade, lugar onde ainda criança vi muitas líderanças e professores, professoras reunirem, para avançar na luta pela educação, pelo direito, a escola foi um chão que levou a importante decisões e conquistas, mas como alguém pode cometer tamanha crueldade? Quem não respeita a luta pela construção coletiva investida em um passado, vai conseguir construir algum futuro melhor? Estamos vivendo em uma cortina de fumaça, os direitos Indígenas sendo saqueados, ontem acabaram de votar PL 490 que anula a Demarcação dos Territorios Indígenas. Já não basta o cenário de guerra, precisam provocar outras guerras?.”

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado manifesta profundo pesar, indignação e solidariedade ao Povo Xakriabá. Para saber mais e oferecer apoio, siga e acompanhe os canais da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e Povo Xakriabá.


Informações: Apib e Célia Xakriabá
Imagem: Reprodução/Povo Xakriabá

Afinal, o que são as nascentes?

por Amanda Costa, da Comissão Pastoral da Terra (CPT)
 
 

Para entender de onde vem essa água, primeiro é preciso saber que a água existente no planeta não aumenta nem diminui. Ela se movimenta em ciclos, modificando seu estado. Este caminho percorrido é chamado de ciclo hidrológico. A água evaporada do solo, dos mares, dos lagos e rios, é transpirada pelos animais e plantas e por ação do calor e do vento, se transformam em nuvem. Essas nuvens dão origem à precipitação, popularmente conhecida como chuva. Uma parte dessa chuva se infiltra no solo, outra escorre sobre a terra retornando para os lagos, rios e mares. A água da chuva que se infiltra no solo abastece o lençol freático que se acumula em função de estar sobre uma camada impermeável.

Conhecendo os ciclos da água

A água que os seres vivos utilizam para sua subsistência, percorre um longo e complexo caminho até estar disponível a todos. Esta movimentação ou caminho que ela percorre é cientificamente conhecido como ciclo da água. O ciclo das águas possuem várias etapas e sofre influência direta das atividades humanas nas suas ações de convivência e subsistência com o meio-ambiente, podendo estes, alterá-los de forma benéfica ou prejudicial.

O banho que tomamos, a água que bebemos e que sacia a sede dos animais, até mesmo a água que irriga as plantas, se usada de maneira correta, mantém o equilíbrio da natureza. Entretanto, sendo usada de forma incorreta, causa alterações prejudiciais e às vezes irreversíveis no equilíbrio da natureza. 

A água que alimenta as nascentes vem do lençol freático, localizado abaixo do solo cultivável. Cada vez que desmatamos e promovemos a impermeabilização e compactação do solo por construção de cidades ou mesmo práticas incorretas de cultivos nas áreas rurais, estes fatores interrompem o ciclo hidrológico. Para garantir a quantidade e qualidade da água das nascentes devemos manter a vegetação natural no entorno delas, ou seja, nos cursos de água e encostas e tomar alguns cuidados no uso e preparo do solo para diminuir a velocidade das enxurradas e aumentar a infiltração no solo, garantindo a alimentação dos lençóis freáticos que suprem as nascentes.

Tipos de Nascentes

Nascente sem acúmulo inicial – quando o afloramento de água ocorre em um terreno com declínio. Este tipo de nascente geralmente tem afloramento pontual com significativo volume de água formando cursos de água.

Nascente com acúmulo inicial – quando o afloramento de água ocorre em terreno plano e impermeável formando um lago. Este tipo de nascente tem afloramento difuso, ou seja, possui um grande número de pequenas nascentes espalhadas por todo o terreno. Ocorrem principalmente nos brejos e matas localizadas em depressões.


Fonte: Cartilha da CPT Goiás – Recuperação e Preservação de Nascentes de água: Fonte de Vida. 2009.

Imagens: CPT / Foto destaque: Andressa Zumpano

Comunidade de Gostoso (MA) resiste pelo direito de continuar no território

Agricultores familiares que têm na terra o seu sustento estão impossibilitados de terem acesso as suas plantações na comunidade Pati-Gostoso, no Maranhão. 

Não há território livre em corpo preso”. A essência dessa frase, registrada no 8º Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, realizado em 2018 no território da Comunidade Pati-Gostoso, município de Aldeias Altas, próximo a Caxias no cerrado Maranhense, é a realidade vivenciada novamente pelos moradores e faz com que as atenções se voltem para aquela comunidade. Atualmente jagunços ameaçam os moradores que estão impedidos de terem acesso à suas plantações, que estão sendo devastadas para o plantio da monocultura.

A Rádio Jornal Tambor, em entrevista exibida pelas redes sociais com os articuladores da Teia, Antônio Cláudio de Sousa – morador da comunidade Gostoso –  e Raimundo Moreira da Conceição, agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT/MA), trouxe com detalhes, a triste situação da violência sofrida pela Comunidade Pati-Gostoso.

Algumas famílias, que há décadas são ameaçadas pela empresa ‘Costa Pinto’, a qual invade o território para o cultivo da monocultura da cana-de-açúcar, foram expulsas pela mesma empresa de outras áreas em décadas passadas. Foram relatadas pelos entrevistados situações como violência psicológica, ameaças e sabotagem no plantio, além do uso de máquinas, como tratores para destruição das plantações.

A empresa, que conta com o apoio da administração municipal, ao intimidar, ameaçar e destruir comunidades camponesas e seus territórios, alega que estaria gerando empregos para a região. Na verdade, segundo os camponeses, está empurrando as famílias para a miséria das periferias, comprometendo as atuais e futuras gerações.

Para Raimundo Moreira, agente da CPT, a situação não aparenta ser tão simples. Foi dito em entrevista que os advogados da empresa, numa tentativa de criminalização da comunidade e suas lutas, já acusaram os moradores da comunidade de montagem de táticas de guerrilha. Com isso tentam confundir e colocar a sociedade contra a comunidade que produz alimentos e protege a Natureza. O que a empresa, seus advogados e seguranças armados chamam de armas são, na verdade, instrumentos de trabalho. Raimundo afirma que a comunidade tem utilizado ferramentas como maquinas fotográficas, celulares para registrarem as ameaças e violências que sofrem e para torna-las conhecidas às pessoas, organizações e, inclusive o próprio estado.

Inoperância do Estado

“O Estado demora demais para resolver esta situação. Isso aumenta o conflito entre as partes. Primeiro porque a comunidade não vai sair do seu lar e a empresa segue dizendo que é dona do território”, afirma Raimundo. As terras reivindicadas pela Comunidade são terra públicas, portanto é dever do governo do estado, através do Instituto de Terras do Maranhão (ITERMA), realizar a arrecadação e a sua destinação às comunidades para pôr fim à violência. Além de garantir a integridade física e psicológica dos camponeses.

Atualmente, as organizações defensoras da comunidade reclamam da omissão por parte do Governo do Estado em resolver os conflitos com o devido enfrentamento à grilagem das terras públicas e a suspensão de licenças ambientais para práticas que ameacem o equilíbrio do meio ambiente, “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” conforme o artigo 225, da nossa Constituição Federal.

Foi incentivado que as entidades de apoio, como a própria CTP/MA e outras, sigam divulgando a situação da comunidade, já que esse problema vem se tornando cada vez mais comum no Maranhão.

Durante uma live pelo Youtube, a internauta, Cleonice Costa afirmou. “Nós temos esse problema com essa empresa dentro das aldeias e comunidades de Lagoa do Mato, temos um processo há mais de 15 anos”.

Apoio da Teia dos Povos e Comunidades Tradicionais

Em 2018, representantes dos Movimentos Sociais se reuniram no VIII Encontrão da Teia de Povos e Comunidades Tradicionais do Maranhão, em Gostoso. A carta pública lançada ao término do Encontro reafirma que “o lugar dos povos e comunidades tradicionais é nas matas, nos territórios, nas águas, nas terras, nos campos e lagos, longe das prisões e da observação do Estado.Não vamos esperar pelo Estado para garantir a nossa permanência nos nossos territórios. Pois o Estado não reconhece nossas práticas e tenta nos manter sobre a sua tutela. E a segurança que eles nos oferece é militarizada e armada. Nossa autoproteção quem faz somos nós e lutaremos com as nossas armas: a força de nossos encantados e a nossa espiritualidade são as nossas garantias. Não vamos nos inscrever no projeto de violência do Estado”.

Ao final da entrevista é feito um alerta/convite para que todas as entidades defensoras das comunidades de todo Maranhão divulguem e informem a situação de risco que várias famílias de Pati-Gostoso e do Estado vem passando, de modo que isso continue ganhando ainda mais repercussão e pressione também o Governo possa tomar as medidas cabíveis para melhorar a qualidade de vida destas pessoas.

Articulação de comunidades, organizações e movimentos do Cerrado se reúne com Fórum Fundiário de Corregedores

por Bruno Santiago

No dia 14 de junho, segunda-feira, representantes de organizações, comunidades tradicionais e movimentos sociais da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado se reuniram com o Fórum Fundiário dos Corregedores-Gerais da Justiça (CGJ) da Região do Matopiba. O encontro contou com a participação de desembargadores corregedores dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, além da presença do representante do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), Marcelo Chalréo.

Por parte da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, participaram representantes da Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais (AATR), dos regionais da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Tocantins, Maranhão e Piauí, da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins), de Comunidades Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto na Bahia e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Representando o Fórum de Corregedores participaram do encontro o presidente corregedor, desembargador Paulo Velten (CGJ-MA), a juíza Ticiany Gedeon (Coordenadora do Núcleo de Regularização Fundiária do MA), a desembargadora Etelvina Felipe (CGJ-TO), a juíza Liz Rezende (CGJ-BA); o desembargador Raimundo Holland Moura de Queiroz (CGJ-PI), o desembargador Osvaldo Bomfim (CGJ-BA), o juiz José Alfredo (CGJ-BA) e o juíz Fernando Lopes (CGJ-PI). 

A articulação de organizações, comunidades e movimentos da região do Matopiba, que em 2021 vem realizando ações para frear o avanço dos conflitos por terra e os processos de grilagem de terra, pleiteou a reunião com o Fórum de Corregedores para evidenciar  os processos de violações de direitos territoriais vivenciados pelos povos e comunidades tradicionais do Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, requerendo atuação e apoio do Fórum no combate à grilagem de terras. 

Após uma fala inicial de apresentação da articulação, Mauricio Correia, advogado popular e coordenador da Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR), compartilhou a preocupação que as comunidades e organizações possuem com relação às recentes alterações legislativas e o papel dos corregedores e dos núcleos de regularização fundiária. 

“Existem brechas que colaboram com a desorganização fundiária, como é o caso da previsão legal de validação de matrícula, que facilita a apropriação ilegal de terras ocupadas por povos e comunidades tradicionais, muitas vezes terras públicas, devolutas”, explica o advgado, que solicitou ao Fórum maior fiscalização e que avaliasse possibilidades de resolução para os problemas relacionados à ausência de efetivação da política de titulação dos territórios, enfrentados pelos povos do Cerrado.

Em resposta às demandas da Articulação, os juízes corregedores presentes apresentaram as ações que o Fórum e as instâncias de regularização fundiária dos Estados vem implementando na região do Matopiba. Joice Bonfim, advogada popular e secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, chamou atenção para o fato de que os povos indígenas e as comunidades tradicionais não contam com uma política efetiva que assegure de fato suas proteções no âmbito do direito à terra e aos seus territórios.

“Antes que qualquer processo de regularização fundiária em terras públicas seja implementado é preciso que seja feita uma busca ativa para garantir a titulação coletiva dos territórios destes povos”, destaca. Bonfim também questionou o Fórum de Corregedores com relação à participação dos povos indígenas e comunidades tradicionais nas ações de regularização de terras que estão sendo implementadas.

Nessa toada, Marcelo Chalréo, do CNDH, apontou para o fato de que os conflitos e violências no campo na região do Matopiba têm se agravado nos últimos anos, e que a gravidade deste cenário tem relação direta com a disputa por terras nos territórios. Durante a reunião, representantes da articulação de comunidades e organizações do Cerrado mencionaram casos de conflitos e ações discriminatórias que prosseguem sem resolução.

O recém lançado Caderno de Conflitos no Campo 2020, da CPT, divulgou dados alarmantes relacionados à região do Matopiba. De acordo com a publicação, a Bahia e o Maranhão figuram entre os três estados brasileiros com mais casos de pessoas que sofreram criminalização por estarem envolvidas em conflitos no campo brasileiro, ocupando a segunda e a terceira posição, contabilizando 21 ocorrências na Bahia e 11 no Maranhão. Vale destacar que seis pessoas envolvidas em conflitos foram assassinadas nos dois estados em 2020, sendo cinco mortes no Maranhão e uma na Bahia.

Quando se trata de conflitos por terra, o estado do Maranhão contabiliza 203 ocorrências, no Tocantins foram 55, o Piauí registrou 18 casos e na Bahia foram 127 conflitos em 2020. No total, os quatro estados do Matopiba totalizam 403 conflitos por terra registrados pela CPT em 2020. Segundo a publicação da Pastoral da Terra, entre 2019 e 2020 houve um crescimento de 25,08% de conflitos por terra no Brasil.

Compromissos e próximos passos

O Fórum Fundiário dos Corregedores-Gerais da Justiça da Região do Matopiba se mostrou aberto a receber as demandas da articulação da Campanha em Defesa do Cerrado e deixou a sugestão de que os encontros, a partir de agora, sejam periódicos, aprimorando o diálogo entre os juízes corregedores e os povos indígenas e comunidades tradicionais que resistem em seus territórios.

O desembargador corregedor Paulo Velten convidou formalmente a Articulação para participar da próxima reunião do Fórum de Corregedores do Matopiba. Marcelo Chalréo, em nome do CNDH, propôs que o Fórum de Corregedores e representantes do Conselho Nacional de Direitos Humanos dialoguem sobre as ações do Fórum no campo da regularização de terras.

Como resposta às demandas da Articulação, o grupo de juízes corregedores presentes se comprometeu em recepcionar e discutir os casos de grilagem sistematizados pela AATR e Articulação Matopiba e adotar mecanismos específicos de monitoramento das ações discriminatórias em suas regiões. 

Quando questionada sobre os próximos passos da Articulação da Campanha em Defesa do Cerrado no Matopiba, Joice Bonfim explica:

“A Articulação seguirá mobilizando para que a regularização fundiária no Matopiba caminhe no sentido de priorizar a titulação dos territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como dos assentamentos de reforma agrária; e ao mesmo tempo frear a legalização do ilegal, ou seja, a grilagem de terras promovida por produtores de outras regiões e fundos internacionais”, finaliza a advogada.


 Foto: Thomas Bauer

Comunidade ribeirinha Brejeira Salto conquista direito coletivo à terra no Piauí

A comunidade tradicional ribeirinha brejeira Salto, localizada na zona rural de Bom Jesus, no Piauí, teve sua titulação coletiva conquistada. A outorga de domínio coletivo pelo Instituto de Terras do Piauí é uma vitória para as comunidades que reivindicam o direito à terra na região.

“Eu espero que a partir de agora a comunidade tenha sossego, a gente possa morar em paz e ser feliz no nosso território. Que a grilagem acabe, não apareça mais ninguém para queimar nossas casas, que não apareça ninguém para nos expulsar. A gente não tem nem palavras pra explicar o tamanho dessa felicidade”, comenta Reginalda moradora da comunidade recém-titulada.

A vitória é resultado da organização do Coletivo de Comunidades Impactadas pelo Agronegócio, criado por comunidades rurais no Cerrado piauiense para resistir à grilarem de terras e ao avanço de monocultivos do agronegócio. A Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) têm denunciado esses impactos em apoio às comunidades.

Há esperança! Altamiran Ribeiro, articulador da CPT na Diocese de Bom Jesus (PI), acredita que a vitória garante proteção contra os impactos causados pela empresa SLC Agrícola, que impedia o direito à terra da comunidade. Para Ribeiro, a conquista está diretamente ligada à mobilização das mulheres da comunidade de Salto, pois, “foram as que mais se mobilizaram pela titulação coletiva”.

Fábio Pitta, pesquisador da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, observa que a região tem sido alvo da especulação de terras por empresas financeiras internacionais e por grileiros locais que se apropriam das terras das comunidades para facilitar o avanço do agronegócio. “A titulação coletiva será fundamental para que as comunidades protejam suas formas de vida e sua produção de alimentos, contra a destruição social e ambiental do agronegócio”, afirma Pitta.

Para Maurício Correia, advogado popular da equipe da AATR, a titulação coletiva do território tradicional de Salto é um passo importante para conter a devastação do Cerrado na região sul do Piauí, pois são as comunidades indígenas e tradicionais quem melhor preservam e sabem fazer o uso e conviver com o bioma. “É fundamental que outras comunidades tenham acesso a este direito, em tempo razoável, pois os processos de grilagem tem sido acelerados inclusive com sobreposição de reservas legais dos latifúndios do agronegócio nestes territórios, por meio do Cadastro Ambiental Rural”, explica o advogado.

A comunidade Salto está localizada no epicentro da região do Cerrado que compõe o Matopiba, na divisa entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Centenas de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, que vivem na região há centenas de anos, têm sofrido violência com o avanço do agronegócio, que gera grilagem de terras e destruição ambiental. As comunidades sofrem com a repressão, destruição de sua produção de alimentos, despejos, casas incendiadas, ameaças de morte, além do desmatamento, da contaminação das águas e do ar por agrotóxicos.

A vitória recente no Salto ocorre poucos meses após o reconhecimento do território Indígena do Povo Kariri de Serra Grande, no município de Queimada Nova (PI). A articulação de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas tem sido fundamental para garantir o direito à terra na região e a proteção ambiental para as gerações futuras.


Texto e imagem: CPT Piauí

As águas e a sociobiodiversidade do Cerrado

O Cerrado é a  savana mais biodiversa do mundo, chegando a abrigar cerca de 5% da diversidade biológica do planeta. Ao mesmo tempo, os primeiros habitantes dessa imensa região ecológica, os povos da Tradição Itaparica, remontam a entre 15.000 a 12.000 anos antes do presente e já transitavam e se adaptavam aos dois principais componentes da paisagem do Cerrado – as chapadas e os vales. Os povos indígenas e tradicionais, com seu saber-fazer enraizado nas paisagens cerradeiras, são herdeiros dos saberes tradicionais que guiam, há inúmeras gerações, o manejo das matas e paisagens.

São esses povos que fazem do pequi, do babaçu, do buriti e tantos outros frutos do Cerrado a base de alimentos e geração de renda. Que usam a palha do babaçual e do buritizal, o capim dourado, as flores sempre-vivas e tantos outros elementos na feitura de belos artesanatos. Que conhecem as plantas medicinais e realizam diversos ofícios de cura e benzimento. Que sabem realizar a pesca e a roça no ritmo das cheias e vazantes dos rios. Que sabem o manejo e a roça apropriada para cada agroecossistema. Que sabem manejar os pastos naturais com gado criado entre os vales e os gerais. Que cuidam dos lugares sagrados de morada dos Encantados. E é com o protagonismo desses povos que a Campanha se fortalece e se enraíza nos chãos dos sertões.

Assim, as paisagens onde a biodiversidade do Cerrado vibra patrimônios históricos e socioculturais, fruto da convivência e cuidado dos povos com o Cerrado.

Águas do Cerrado

Nas chapadas e planaltos do Brasil Central, as raízes profundas da vegetação dominante típica do Cerrado promovem a infiltração das águas das chuvas, constituindo a mais importante área de recarga hídrica do país, o que lhe valeu o apelido de “caixa d’água do Brasil”. Como resultado, sob o Cerrado se encontram os dois principais aquíferos do país – o Guarani e o Urucuia-Bambuí. Nesse Cerrado berço das águas também nascem importantes rios do Brasil e do continente sul-americano – o Paraguai e seus formadores (entre eles o Cuiabá, o São Lourenço e o Taquari); o Paraná e seus formadores (entre eles o Paranaíba); o São Francisco, o Doce, o Jequitinhonha, o Parnaíba, o Itapecuru, o Tocantins, o Araguaia, o Tapajós, o Xingu, além de vários afluentes do rio Madeira.  As duas maiores extensões de terras continentais alagadas do planeta – o Pantanal e os “varjões” do Araguaia – têm também sua dinâmica hidrológica relacionada aos Cerrados e suas chapadas.

O desmatamento das chapadas para dar lugar a monocultivos  de soja tem destruído esse sistema hidrológico, com consequências dramáticas. Ao mesmo tempo, em diversas partes do Cerrado e suas zonas de transição, os povos e comunidades enfrentam a apropriação, contaminação, exaustão, assoreamento e barramento dos rios e águas pelos grandes projetos da mineração, agronegócio, portos e outros empreendimentos logísticos, usinas hidrelétricas e aquicultura. 

Na Campanha, um importante lema  é “Sem Cerrado, sem água, sem vida”, um dizer que carrega a ideia-força de que a conservação do Cerrado é sinônimo de vida, tanto dos povos indígenas e comunidades tradicionais que ali habitam, quanto pelas conexões que permitem que as águas aí nascidas possam saciar a sede e garantir produção de alimentos livres de agrotóxicos, transgênicos e conflitos socioambientais no próprio Cerrado e em outras regiões e cidades banhadas por suas águas. Defender o Cerrado é defender suas águas, uma luta urgente e fundamental.


Fonte:

Carlos Walter Porto-Gonçalves. Dos Cerrados e de suas riquezas: de saberes vernaculares e de conhecimento científico. Rio de Janeiro e Goiânia: FASE e CPT, 2019.

Diana Aguiar e Helena Lopes (Orgs.). Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade. Rio de Janeiro: Campanha em Defesa do Cerrado e Action Aid Brasil, 2020.

Altair Sales Barbosa. Andarilhos da Claridade: os primeiros habitantes do Cerrado. Goiânia: Universidade Católica de Goiás. Instituto do Trópico Subúmido, 2002. 416 p.


 Foto do destaque: João Zinclar

Você conhece o Cerrado?

Nesta semana, em sintonia com o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho, te convidamos a conhecer mais sobre a segunda maior região ecológica da América do Sul e savana mais biodiversa do planeta, o Cerrado – considerado o berço das águas e de muitos povos e culturas. Mais da metade de sua cobertura vegetal foi devastada para dar lugar, sobretudo, a monocultivos e pastagens para o agronegócio. Precisamos parar a devastação e transformar essa realidade. Conheça mais sobre o Cerrado e seus povos para se engajar na sua defesa!

Povos do Cerrado

Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani e Kaiowá) e Arawak (como os Terena e os Kinikinau). São comunidades quilombolas, como os Kalunga, os jalapoeiros e centenas de outras pelos sertões do Cerrado. São comunidades tradicionais, tão diversas como o próprio Cerrado e que têm suas vidas entrelaçadas nas árvores e plantas, bichos, chapadas, vales e águas da região, como as quebradeiras de coco-babaçu, raizeiras, geraizeiras, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiras, pescadoras artesanais, vazanteiras e pantaneiras. São, ainda, os assentados e assentadas de reforma agrária e outras populações de base camponesa.

Se ainda há Cerrado em pé é porque esses povos estão com os pés no chão do Cerrado, lutando para permanecer em seus territórios. E é por isso que não existe defesa do Cerrado sem a defesa dos territórios do Cerrado, onde esses povos conservam e multiplicam a rica biodiversidade da savana brasileira por meio de saberes e práticas que vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação — em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultural — está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora, e para o futuro.

Para saber mais, clique aqui para acessar o livro Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade.


Fonte: Diana Aguiar e Helena Lopes (Orgs.). Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade. Rio de Janeiro: Campanha em Defesa do Cerrado e ActionAid Brasil, 2020.

Foto: Leandro Santos/Comunidade Quilombola Cocalinho (MA)

Campanhas denunciam chuva de veneno e violações de direitos no Maranhão

No dia 7 de maio, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida uniram forças para realizar um debate público sobre chuva de agrotóxicos que atingiu as famílias das comunidades tradicionais Carranca e Araçá, no município de Buriti, no Maranhão, no mês de abril de 2021.

O ataque aconteceu em plena pandemia e as famílias que vivem nas comunidades foram diretamente atingidas pela pulverização aérea de agrotóxicos. Crianças, adultos e idosos denunciam sintomas como queimaduras, coceira generalizada, febre e crises de vômito, após a chuva de veneno.

Participaram da atividade: Fabio Pacheco, da Associação Agroecológica Tijupá, da Campanha em Defesa do Cerrado e da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) Amazônia, padre Chagas Pereira, do Programa de assessoria rural da Diocese de Brejo, e Diogo Cabral, advogado popular, assessor jurídico da Fetaema e da Diocese de Brejo. A transmissão também contou com depoimentos em vídeo de moradoras/es das comunidades atingidas e de Bernardo Wittlin, da Rede de Médicas e Médicos Populares. Já a mediação ficou por conta de Nieves Rodrigues, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Assista, abaixo, a atividade na íntegra:

Para saber mais sobre o caso, acesse a reportagem da Repórter Brasil sobre o ocorrido.