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Audiência das Águas: tribunal discute injustiça hídrica e racismo ambiental contra os povos do Cerrado

Entre os dias 30 de novembro e 01 de dezembro, das 8h30 às 12hs, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado realizará, de forma virtual, a Audiência Temática das Águas no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.

O foco da audiência serão as denúncias de apropriação privada das águas do Cerrado pelo agronegócio e sua contaminação pela mineração como processos provocadores de injustiça hídrica e racismo ambiental contra os povos desta savana. Em razão do seu caráter sistêmico no tempo e no espaço, as apropriações e contaminações contribuem para o ecocídio do Cerrado e para a ameaça de genocídio cultural dos povos que dele dependem para manter seus modos de vida.

A atividade será transmitida ao vivo pelo canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Nos dois dias de audiência os membros do júri ouvirão os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as dos casos em que essas denúncias estejam mais em evidência. O júri também ouvirá relatores e relatoras de acusação sobre a sistematização dessas denúncias. 

Dez dias após a Audiência Temática, no dia 10 de dezembro, será transmitida uma manifestação pública do júri com as primeiras reações em relação a esta fase do processo instrutório, que constituirá um insumo para a audiência final. O horário e o endereço virtual da transmissão será divulgado em breve.

Os casos

Nos dois dias de Audiência Temática das Águas serão apresentados seis casos, três em cada encontro. 

Em 30 de novembro serão conhecidos os casos dos Territórios Tradicionais de Fecho de Pasto e Ribeirinhos na Bacia do rio Corrente, no Cerrado baiano, que enfrentam o agronegócio irrigado nos gerais; os casos dos povos indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela, no Araguaia tocantinense, impactados pelo Projeto Rio Formoso de monocultivos irrigados; e o caso dos veredeiros de Januária, norte de Minas Gerais, que enfrentam a degradação ambiental e hídrica promovida por empresas do complexo siderúrgico e florestal.

No dia 1 de dezembro, o júri ouvirá depoimentos da Comunidade Ribeirinha Cachoeira do Choro, do município de Curvelo, Minas Gerais, que enfrenta a contaminação do rio com rejeitos da barragem da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, que se rompeu em Brumadinho em janeiro de 2019; o júri também ouvirá o testemunho de comunidades Geraizeiras de Vale das Cancelas, norte de Minas Gerais, que estão sob ameaça de perda do território, contaminação e supressão das águas por conta da instalação de um mega empreendimento minerário da empresa Sul Americana de Metais (SAM) na região. Por fim, serão ouvidos os depoimentos da comunidade camponesa de Macaúba, do município de Catalão, Goiás, impactada pela contaminação de suas águas por empreendimentos minerários de nióbio e fosfato da Mosaic Fertilizantes e China Molybdenum Company (CMOC). 

Próximas audiências

A Audiência das Águas é a primeira audiência temática da fase instrutória do júri do Tribunal. A segunda acontecerá nos dias 15 e 16 de março de 2022, e terá como tema a Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade. O foco dessa audiência serão as denúncias sobre a desestruturação dos sistemas agrícolas tradicionais, o aumento da fome e as ameaças à saúde coletiva em razão da invasão dos territórios, contaminação por agrotóxicos e desmonte das políticas de reforma agrária e de comercialização da produção camponesa.

A terceira e última audiência temática antes da audiência final terá como tema Terra e Território, e acontecerá de 7 a 9 de junho do próximo ano. O foco do evento serão as violações e ameaças ao direito à posse e propriedade da terra/território e ao direito à autodeterminação provocados por processos de desmatamento e grilagem de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região.

Para saber mais sobre as atividades, acesse a programação oficial do TPP.

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Sobre o TPP

Lançado no último dia 10 de setembro, o Tribunal Permanente dos Povos é uma instância de tribunal de opinião que procura reconhecer, visibilizar e ampliar as vozes dos povos vítimas de violações de direitos. O Tribunal existe para suprir a ausência de uma jurisdição internacional competente que se pronuncie sobre os casos de violações contra os povos.

O tribunal conta com um júri multidisciplinar, escolhido a cada nova sessão e de acordo com os casos apresentados. Os membros do júri são reconhecidos por sua independência e pela experiência em relação aos temas analisados. São membros da academia, juristas, jornalistas, artistas, lideranças populares e religiosas, entre outros.

Sessão Cerrado

“É tempo de fazer acontecer a justiça que brota da terra!” Com esse lema, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado – uma articulação de 50 movimentos e organizações sociais – peticionou ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) para a realização de uma Sessão Especial para julgar o crime de ecocídio contra o Cerrado. 

O crime é entendido como históricos e graves danos e a vasta destruição que resultaram da intensa expansão da fronteira agrícola sobre essa imensa região ecológica (cerca de 1 ⁄ 3 do território nacional) ao longo do último meio século. Esta ocupação predatória foi desenhada e dirigida pelo Estado brasileiro, em articulação com Estados estrangeiros e agentes privados nacionais e estrangeiros, com os quais compartilha a responsabilidade nesta acusação.

“Entendemos que se nada for feito para frear o que está ocorrendo no Cerrado, não se tratará apenas de históricos danos graves e vasta destruição. Estamos diante da ameaça de aprofundamento irreversível do Ecocídio em curso, com a perda (extinção) do Cerrado nos próximos anos e junto com ele a base material da reprodução social dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais do Cerrado como povos culturalmente diferenciados, ou seja, seu genocídio cultural”, diz trecho da acusação apresentada pela Campanha aos membros do TPP e ao júri em seu lançamento, em setembro desse ano.


Serviço:

Audiência Temática das Águas  do Tribunal dos Povos do Cerrado

Data: 30/11 e 01/12, 8:30 às 12hs (horário de Brasília)

Local: Canal do YouTube da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

Mais informações: www.tribunaldocerrado.org.br

Contato para imprensa: 

comunicacerrado@gmail.com

MATOPIBA: Comunidades denunciam violações ao Conselho Nacional de Direitos Humanos

Composta pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a fronteira agrícola do Matopiba acumula denúncias de grilagem e violência contra comunidades e posseiros

“Se Deus e as autoridades não agirem ficaremos sem água”. Quem afirma é Dona Raimunda Pereira, matriarca das famílias posseiras do território tradicional Gleba Tauá, no Tocantins, representando o sentimento das comunidades que trouxeram os seus relatos na Audiência Pública “Grilagem, Desmatamento e Violações de Direitos Humanos no MATOPIBA”, realizada virtualmente nesta quinta-feira (05/11). A audiência foi dedicada a relatar, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e demais órgãos do sistema de justiça, as violações de direitos nos territórios indígenas e de povos e comunidades tradicionais na região do Matopiba.
 
A seção, que foi inaugurada pelo presidente do CNDH, Yuri Costa, marcou também o pré-lançamento do estudo “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba”, produzido pela AATR e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado com a contribuição do IFBaiano (Campus Valença), que será lançado no dia 11 de novembro. Na ocasião, Yuri salientou a importância da iniciativa. “A intenção aqui é que, a partir dos relatos, a CNDH possa identificar e qualificar violações para avançar na sua missão, bem como tomar conhecimento desse trabalho de pesquisa capitaneado pela AATR”.
 
Emília Oliveira, advogada popular e coordenadora de programas da AATR trouxe um panorama histórico do Matopiba enquanto fronteira agrícola. “Até 2015, o monocultivo da soja e a pastagem foram responsáveis por cerca de 80% do desmatamento na região. O Matopiba se configura como uma fronteira de violências, os povos do cerrado estão sendo invisibilizados”, sinalizou.
 
Maurício Correia, advogado popular e coordenador geral da AATR, apresentou os quatro casos representativos que integram o estudo. Por meio do trabalho cartográfico e de mapeamento geográfico, realizado pelo IFBaiano, campus Valença, abordou o avanço de desmatamento da Travessia do Mirador no Centro-sul do Maranhão; da Gleba Tauá, no Cerrado tocantinense; do Território Melancias, no Sul do Piauí; e dos Fechos de Pasto Capão do Modesto, Porcos-Guará-Pombas, Cupim e Vereda da Felicidade na Bacia do Rio Corrente, Oeste da Bahia.
 
Maurício enfatizou que os casos apresentados são de áreas de nascentes de importantíssimas bacias hidrográficas, sendo representativos do que diversas outras comunidades vivem na região. Só para se ter uma ideia da extensão da pesquisa, o que está sendo divulgado corresponde a apenas 30% dos achados. “Em 20 anos houve mais desmatamento do que nos 500 anos anteriores. Esse foi um trabalho de pesquisa criterioso feito junto aos cartórios com muita análise documental. Os achados são de situações de fraudes, violências, irregularidades envolvendo órgãos públicos, serviços cartoriais e até mesmo servidores e membros do poder judiciário e executivo”, afirmou Maurício.
 
“Onde tem comunidade tradicional, tem terra preservada”
 
O estudo também oficializa e comprova o que já se sabia. As comunidades tradicionais são protetoras dos territórios, ao preservarem seus modos de vida e costumes que se harmonizam com o meio ambiente. No entanto, essa proteção tem se caracterizado em muito sofrimento para os habitantes desses territórios. Há uma semana, a água da chuva apagou um incêndio criminoso no pasto do filho de Dona Raimunda Pereira. Para Dona Raimunda, o ataque incendiário de pistoleiros foi barrado por providência divina, uma vez que as águas da Gleba Tauá, no Tocantins, terra pública federal, estão secando progressivamente devido ao desmatamento na região.
 
Violências, desmatamento, escassez de água e muitas promessas do governo. Embora sejam de territórios diferentes, as comunidades têm muito em comum em seus relatos. Félix Carreiro, do território tradicional da Travessia do Mirador, relata que desde a criação do Parque Estadual do Mirador, sobre as terras tradicionalmente ocupadas, a comunidade já convivia com conflitos. No entanto, a criação do Parque acentuou ainda mais o problema. “A comunidade já convivia com a grilagem, mas com a ação do governo a situação piorou. Na década de 90, nós moradores fomos intimados a sair do local e estamos sempre convivendo com os conflitos, intimações e ameaças de multa e prisão”, relatou.
 
Juarez Celestino, do território tradicional de Melancias e Aliene Barbosa, do Coletivo de Comunidades Tradicionais de Fechos de Pasto, na Bahia, trouxeram nos seus relatos as mudanças promovidas pelo agronegócio na região do Cerrado ao longo do tempo e o aumento da violência. Juarez lembra saudosista de um tempo em que a comunidade tinha liberdade de ir e vir. “Nós tínhamos uma vida livre no nosso território, muita liberdade, com a chegada do agronegócio nos anos 80, o que nos restou foi preocupação”, explicou.
 
Devolutivas e compromissos
 
A audiência foi conduzida por Marcelo Chalréo, membro da Comissão Terra e Águas do CNDH e contou com falas de diversas autoridades. Entre os presentes que se manifestaram estavam Paulo Velten, presidente do Fórum de Corregedores do Matopiba; Roniclay Moraes, representante da Corregedoria Geral do Tribunal de Justiça do Tocantins; Fernando Lopes, corregedor geral do Tribunal de Justiça do Piauí e Osvaldo de Almeida Bomfim, Corregedor das Comarcas do Interior do Tribunal de Justiça da Bahia. Todos os representantes reafirmaram o compromisso de contribuir junto à CNDH na atuação frente aos casos de violações apresentados pelas comunidades.
 
O corregedor-geral da Justiça do Maranhão, Paulo Velten, destacou a importância da audiência. “São dados relevantes para todos nós, uma contribuição importante e temos que estar abertos a essas informações que são reais. Reafirmamos o compromisso das instituições republicanas. O crescimento e desenvolvimento econômico não podem vir com o sacrifício dessas comunidades tradicionais, da segurança, da justiça e da paz social”, enfatizou.
 
Participaram ainda da audiência lideranças de movimentos sociais do campo, povos indígenas e comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e universidades, conselheiros/as do CNDH e membros/as da Comissão Terra e Água, Conselho Nacional de Justiça, Fórum de Corregedores dos Tribunais de Justiça da região Matopiba e MPF – Grupo de Trabalho de Conflitos no Campo/Cerrado.
 
Finalizando o encontro, a Secretária Executiva da Campanha Cerrado e associada da AATR, Joice Bonfim, frisou que o processo de devastação do Cerrado é histórico, mas também é atual e tem sido cada vez mais acelerado. “O Matopiba é a expressão concreta, real e evidente desse processo de destruição. O que fica claro nessa audiência é que a expansão que é festejada e anunciada pelo estado brasileiro está calcada na ilegalidade. Em apenas quatro casos analisados, foi identificado que meio milhão de hectares de territórios tradicionais foram grilados, associados diretamente ao desmatamento”, apontou Joice.
 
O estudo conta com recomendações que objetivam fortalecer a reversão deste cenário. Nesse sentido, Joice apontou princípios básicos que não são efetivados. “A gente não consegue avançar no combate às inconstitucionalidades das leis de terra estaduais, de fiscalização das atividades cartoriais. É aceitável que uma ação discriminatória de 40 anos não seja cumprida? As recomendações estão falando do cumprimento de legislação, de demarcação de territórios tradicionais, de consulta e consentimento prévio, livre e informado, de articulação entre as agendas ambientais e agrárias”, finalizou.
 
Assista a audiência na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=5grITVigWdM
 

 
Texto: AATR

Coletivo de Fundo e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia protestam por demarcação de terras

Trabalhadores e trabalhadoras leram carta de repúdio em evento realizado pela prefeitura de Correntina-BA na quarta-feira (03/11)

Na manhã da última quarta-feira (03), durante um evento da prefeitura de Correntina-BA para entrega de títulos de terra, foi realizado um ato de repúdio contra a omissão do Estado diante as ações discriminatórias para demarcação de terras para os povos tradicionais do Fundo e Fecho de Pasto da região, com cartazes e leitura de carta-repúdio.

Há anos as comunidades de Fundo e Fecho de Pasto vêm sofrendo com o grande aumento de grilagem e empresas de agronegócio que provocam desmatamento sem controle e, em boa parte, com autorizações indiscriminadas e ilegais do Instituto Do Meio Ambiente E Recursos Hídricos (INEMA).

Mesmo as terras que formalmente são devolutas, de domínio do Estado, e tradicionalmente ocupadas por Fundo e Fecho de Pasto, a quem a lei garante o direito de regularização, são notórias as dificuldades dessas comunidades em formalizar a posse de terras, perdendo espaço para os mecanismos de opressão vividos rotineiramente no campo. É uma situação conhecida pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), pela Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), e pelo poder público municipal de Correntina, mas sem devida atenção ou acompanhamento.

Diante deste cenário, o Coletivo de Fundos e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia representa dezenas de grupos e comunidades divulgou hoje uma carta de repúdio. Confira a carta na íntegra abaixo:


CARTA DE REPÚDIO

Exmo. Secretário de Desenvolvimento Rural, Sr. Josias Gomes Exma. Coordenadora Executiva da CDA, Sra. Camila Batista Exmo. Prefeito Municipal de Correntina, Sr. Nilson José Rodrigues (Maguila)

O Coletivo de Fundos e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia representa dezenas de grupos e comunidades que cuidam e preservam o Cerrado na bacia do Rio Corrente, com seus brejos e veredas, tirando destas áreas de manejo comunitário o sustento de milhares de famílias. Junto com as comunidades Geraizeiras, Quilombolas, Indígenas e Ribeirinhas de outras bacias como o Rio Carinhanha e Rio Grande, somos nós os guardiões das últimas áreas de cerrado preservadas na região Oeste da Bahia. Sem os Fundos e Fechos e os Gerais, nosso modo de vida tradicional está comprometido, assim como estarão condenadas ao desaparecimento as nascentes que alimentam os principais rios da região que chegam no São Francisco, das quais cuidamos. Sem o Cerrado, não há água, e não há vida.

Ao longo dos anos, temos lutado contra a tomada do nosso Gerais por grileiros – vindos de outros Estados e regiões, empresas nacionais e estrangeiras do agronegócio. Os municípios das bacias dos rios Carinhanha, Corrente e Grande, pelo avanço da grilagem, estão sempre na lista dos que têm maior área desmatada em todo o país – em grande parte com autorizações ilegais do INEMA. Com muito dinheiro e influência, esses grupos têm acesso livre a autoridades do Poder Judiciário, como ficou demonstrado pela Operação Faroeste, e também a autoridades do Poder Executivo estadual, que de forma pública agem em nome dos interesses destes grupos.

Nós, os povos originários daqui, temos sido ignorados em nossas justas reivindicações. Com o apoio de organizações e movimentos parceiros, temos lutado pela demarcação e titulação de nossas terras há pelo menos quatro décadas. São terras que formalmente são devolutas, de domínio do Estado, embora sejam tradicionalmente ocupadas por nós, a quem a lei garante o direito de regularização. É uma situação conhecida pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), pela Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA), e pelo poder público municipal de Correntina.

Nossa luta não é novidade para ninguém: em 1977 Eugênio Lyra, advogado dos trabalhadores rurais da região foi brutalmente assassinado em Santa Maria da Vitória por estar indo depor na CPI da grilagem, de lá pra cá, são inúmeros os fatos que marcam nossa caminhada. Numa memória recente, do diálogo com o governo estadual, cabe relembrar que ainda em 2014, há sete anos, foi apresentada para a SDR e CDA uma síntese sobre os graves conflitos fundiários e demandas para titulação dos territórios dos Fundos e Fechos de Pasto, em reunião da então Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo. Após a promessa de realizar uma grande ação de demarcação em nossa região, a CDA voltou atrás e cancelou a proposta, por pressão de setores do próprio governo.

Em 2018, após o levante popular do povo de Correntina contra empresas do agronegócio que vinham roubando nossas águas, novas promessas foram feitas, agora com a proposta de delimitação de 40 áreas de Fundos e Fechos de Pasto, divididas em quatro blocos. Após diversas reuniões e muitas promessas, nada foi feito, e o grupo de trabalho à época conduzido pelo então Secretário de Meio Ambiente da Bahia, Geraldo Reis, não conseguiu dar solução aos conflitos socioambientais da região, tal GT, não funcionou, foi anulado, como uma medida ludibriosa para “acalmar os ânimos” exaltados e as especulações daquela época. Em síntese, de 2018 pra cá com a omissão do Estado Baiano, os conflitos socioambientais no Oeste da Bahia explodiram como rastilho de pólvora.

Desde 2010, foram executadas cinco (05) Ações Discriminatórias Administrativas Rurais só na bacia do rio Corrente (Gleba JacurutuSalobro, Gleba Arrojelândia, Gleba Salto, Gleba Vereda do Rancho e Gleba Clemente), sendo a Gleba Porteira de Santa Cruz um imbróglio que não se sabe direito o que é, com mais três (03) na bacia do rio Grande (Gleba Baixões, Gleba Caracol, Gleba Estrondo), sem que “um palmo” de terras comunais fosse destinadas as nossas comunidades, boa parte destes processos se encontram como Ações Discriminatórias Judiciais, contudo sem horizontes e perspectivas. Apenas em fevereiro de 2021, foram abertas 03 Ações Discriminatórias Administrativas Rurais, nos territórios de Capão do Modesto; Porcos, Guará e Pombas e Vereda da Felicidade. A demanda é muito maior do que esses três territórios, e desde então nenhuma outra foi iniciada. Para completar o descaso e falta de respeito com o nosso povo, o trabalho da Comissão Especial responsável por estes processos foi interrompido sem explicações. Desde então, não respondem aos contatos das representações comunitárias, fingem que não existimos mais!

O que está acontecendo, senhor Secretário Josias Gomes? O que está acontecendo, senhora Coordenadora da CDA, Camila Batista? Quem ordenou a paralisação dos trabalhos? Porque não respondem aos contatos e não dão sequer acesso aos processos que, afinal, são do nosso interesse e dizem respeito às nossas vidas?

Não queremos crer que tudo isso se dá em razão do governador do estado ter recebido em seu gabinete fazendeiros e, neste momento, estar com eles em viagem internacional, justamente aqueles que seriam afetados pelo andamento das ações discriminatórias em Correntina, pois não tem como sustentar seus títulos grilados de forma grosseira nos cartórios da região.

Esta omissão, que gostaríamos de entender o motivo, traz consequências graves para nós, fecheiros e geraizeiros, mas também para outras comunidades tradicionais. Desde 2014, ou mesmo antes, os grileiros têm feito cadastros ilegais junto ao INCRA (SIGEF) e INEMA (CEFIR/CAR), especialmente, para grilagem verde, aproveitando que nossas áreas são conservadas por nós. Diretores das associações comunitárias são agredidos, ameaçados de morte a todo o tempo, denunciam às autoridades policiais e nada acontece; continuam as perseguições. Em outros municípios, como Formosa do Rio Preto, outros ataques contra posseiros e comunidades seguem acontecendo enquanto o órgão fundiário se silencia – a exemplo dos recentes ataques armados de milícias rurais de grileiros às comunidades Geraizeiras do Arroz e São Marcelo.

Onde vamos parar? Vai ser preciso que essas lideranças sejam assassinadas para que venha uma ação do governo? A quem este governo está realmente servindo? Onde está o governo para os trabalhadores, que tanto esperamos? A distribuição de títulos individuais, embora importantes, não vai resolver o problema fundiário nem da região Oeste. Se os fecheiros e geraizeiros deixam de cuidar das nascentes dos rios Correntina, Arrojado, Formoso, Guará, Santo Antônio e do Meio dentre outros, haverá água para os pequenos produtores que estão rio abaixo?

Nós, o povo de Correntina e região já entendemos que a resposta é NÃO, e assim ficou demonstrado com sua força nas manifestações de novembro de 2017, que desaguaram na audiência pública onde mais uma vez colocamos nossas reivindicações. Por tudo isso, senhor prefeito, senhora coordenadora e senhor secretário, estamos aqui mais uma vez para relembrar ao governo da Bahia que nós EXISTIMOS! E não seremos ignorados enquanto tivermos força e coragem para lutar.

Não assistiremos sem ação os acordos de gabinete destruírem nossos direitos. Exigimos a retomada imediata das ações discriminatórias que estão realizadas, com a demarcação de TODO o território reivindicado, incluindo as que foram ilegalmente cadastradas e registradas em cartório. Exigimos que novas ações sejam abertas, nos outros “blocos” de territórios que já estão identificados pela CDA. E por fim, exigimos que a SDR e CDA promovam ainda neste mês de novembro uma audiência com todos Fundos e Fechos de Pasto da Bacia do Corrente e Geraizeiros da Bacia do rio Grande, para que preste conta das promessas feitas e até agora não cumpridas.

Nos colocamos ainda à disposição para reunião com o Governador do Estado, para que ele ouça das próprias comunidades a verdade sobre a nossa realidade, e não apenas receba supostos empresários de fora do estado e do país, dando as costas ao seu próprio povo.

Viva a luta dos Fundos e Fechos de Pasto e Geraizeiros! Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida!

Correntina, 03 de novembro de 2021.


 Texto e imagem: CPT-BA

Audiência pública no CNDH discute grilagem, desmatamento e violações de direitos no Matopiba

Composto pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, Matopiba é marcado por conflitos por terra

audiencia matopiba

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) promove nesta quinta-feira (4/11) a audiência pública Grilagem, desmatamento e violações de direitos humanos no Matopiba. O evento, que acontece das 10h às 12h, será transmitido ao vivo nas páginas do Facebook do CNDH e da Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais no Estado da Bahia e no canal do Youtube do CNDH.

Na ocasião, serão relatadas violações de direitos nos territórios indígenas e de povos e comunidades tradicionais na região. A expectativa é de que com a identificação e qualificação das violações de direitos humanos, o CNDH avalie medidas a serem adotadas e também sejam enviadas recomendações para os órgãos do Sistema de Justiça, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, Corregedorias dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas Estaduais.
 
É esperada a presença de lideranças de movimentos sociais do campo, povos indígenas e comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e universidades dos 04 estados, conselheiros/as do CNDH e membros/as da Comissão Terra e Água, Conselho Nacional de Justiça, Fórum de Corregedores dos Tribunais de Justiça da região Matopiba e MPF – Grupo de Trabalho de Conflitos no Campo/Cerrado.
 
A audiência pública é uma iniciativa da Comissão Permanente dos Direitos dos Povos Indígenas, dos Quilombolas, dos Povos e Comunidades Tradicionais, de Populações Afetadas por Grandes Empreendimentos e dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Envolvidos em Conflitos Fundiários, em parceria com a AATR e a Articulação Matopiba, da Campanha em Defesa do Cerrado, que em 2021 vem realizando ações para frear o avanço da grilagem e dos conflitos por terra.
 
Lançamento
 
A audiência antecede o lançamento do estudo NA FRONTEIRA DA (I)LEGALIDADE: Desmatamento e grilagem no Matopiba, produzido pela AATR e a Campanha em Defesa do Cerrado, que será lançado no dia 11 de novembro, às 18h, no Youtube e Instagram da AATR. A pesquisa, que será disponibilizada virtualmente (pdf), impressa e por meio de uma plataforma online, recupera a história do Matopiba como fronteira agrícola, apontando os impactos, limites e repercussões da sua institucionalização, problematizando a questão fundiária na região, traçando padrões dos mecanismos de grilagem e desmatamento e abordando o tratamento institucional sobre a questão fundiária.
 
A publicação também faz a análise de quatro casos em processos de desmatamento e grilagem representativos dessa dinâmica na região: a Travessia do Mirador no Centro-sul do Maranhão, a Gleba Tauá no Cerrado tocantinense, o Território Melancias no Sul do Piauí e os Fechos de Pasto Capão do Modesto, Porcos-Guará-Pombas, Cupim e Vereda da Felicidade na Bacia do Rio Corrente, Oeste da Bahia. Para tanto, desenvolveu-se, junto ao IFBaiano, campus Valença, um amplo trabalho cartográfico e de mapeamento geográfico, e levantamento e sistematização de documentos jurídicos.
 

Canais de transmissão da audiência:

Texto e imagem: AATR

Vitória: O Jalapão é Quilombola

A Justiça Federal determinou nesta semana o adiamento das audiências públicas sobre o projeto para concessão do Parque Estadual do Jalapão e outras três unidades de conservação no Tocantins. O juiz Eduardo de Melo Gama atendeu a um pedido do Ministério Público Federal. 

No início de outubro a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) encaminhou um pedido de cancelamento das audiências públicas ao MPF do Tocantins. Segundo a entidade, a região incorpora sete territórios quilombolas que ainda não foram demarcados.

De acordo com a COEQTO, o projeto de concessão do Parque Estadual do Jalapão é problemático e irregular. “As comunidades já foram agredidas com a imposição burocrática das Unidades de Conservação, e agora estão sendo novamente violentadas pela tentativa de concessão do Parque e áreas adjacentes, sem respeito mínino de garantia aos protocolos de consultas que povos tradicionais fazem jus de acordo com Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, manifesta a entidade.

Vale destacar que no dia 20 de outubro a Polícia Federal realizou buscas e apreensões na casa do governador do Tocantins, Mauro Carlesse (PSL), e na sede do governo. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou seu afastamento por 6 meses, em apuração sobre suposto pagamento de propina e obstrução de investigações.

Entenda o caso

Em carta aberta à sociedade, a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e as entidades que a subscrevem, denunciam violações no processo de concessão do Parque Estadual do Jalapão. As lideranças têm recebido pressões do Governo do Estado para participarem de reuniões marcadas com prazos exíguos, sem comunicados oficiais às associações que, ao questionarem a inviabilidade de participação ampla da comunidade, os representantes do Estado começam a fazer ligações para pessoas isoladas a fim de garantir quórum nas reuniões. Leia o documento na íntegra clicando aqui.


Foto e informações: COEQTO/APA-TO

 

3° Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio (TO) acontece de forma virtual

‘Juventudes do Campo Cultivando a Vida Agroecológica’ é o tema do 3° Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico, coordenado e articulado pelo Grupo de Trabalho (GT) das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio, no Tocantins. O evento começa na quarta-feira (13) e segue até sábado (16), considerado o Dia Mundial da Soberania Alimentar.

As juventudes se prepararam durante três meses e articularam jovens de cerca de oito comunidades camponesas da região tocantinense, além dos estudantes da Escola Família Agrícola Padre Josimo (EFABIP). Juntos, vão realizar ações de forma virtual devido à pandemia do coronavírus. A programação conta com oficinas temáticas gravadas pelas juventudes das comunidades que mostram atividades do seu cotidiano em suas práticas agroecológicas.

As temáticas das oficinas abrangem as seguintes áreas: Identidade e cultura, Agroecologia e Comunicação. Cada coletivo de juventudes, distribuídas em oito comunidades da região do Bico, planejaram e organizaram ações para o ‘dia D’, que será o dia 16 (sábado), Dia Mundial da Soberania Alimentar.

“O evento dá o caráter de ação articulada das juventudes rurais do Bico do Papagaio. As imagens são registros captados pela própria juventude. Edição dos vídeos serão realizadas pelos participantes dos Jovens em ComunicAÇÃO. Serão vídeos de até 4 minutos, com divulgação no instagram do GT e da APA-TO, no facebook e no site da APA-TO”, afirma um dos jovens coordenadores da ação e membro do GT, Aldimar de Sousa, conhecido como Dimas.

O objetivo do evento é promover a motivação de processos organizativos de coletivos locais de jovens nas comunidades rurais, de modo a potencializar as ações de resistência e a luta articulada das juventudes do campo do Bico do Papagaio, assim como o fortalecimento do GT. O Encontro também objetiva valorizar e dar visibilidade às ações desenvolvidas pelas juventudes rurais, mostrando a sua forma de vida agroecológica, utilizando a comunicação popular.

Além das oficinas temáticas em forma de vídeo e o ‘dia D’, as juventudes vão realizar uma Live que vai ocorrer na plataforma zoom no dia 15 (sexta), a partir das 19h, com a seguinte pergunta: ‘Qual a importância da agroecologia para o campo e para a cidade?’, com possibilidade dos/das telespectadores/as interagirem por meio de perguntas e comentários com as juventudes que coordenam e articulam o evento.

O evento é apoiado pela CESE, que atua na promoção, defesa e garantia de direitos no Brasil, e pela MISEREOR. Realização do GT das Juventudes Rurais do Bico e da ONG Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO), em parceria com a Rede Bico Agroecológico. 


Serviço:

3° Encontro Regional das Juventudes Rurais do Bico do Papagaio (TO)

Data: 13 a 16 de outubro

Locais de transmissão: Facebook da APA-TO | Instagram do GT Juventudes do Bico

Contato e informações: Daniela Souza – (99) 9 9195-6118 | dani.fotos477@gmail.com


 Foto: Divulgação/APA-TO

Solidariedade: Quilombolas do Maranhão precisam do seu apoio para permanecerem em seus territórios

Ameaçadas, famílias quilombolas vivem situação de conflito há quase um mês

Correndo risco de morte, famílias quilombolas das Comunidades Tanque da Rodagem e São João, do município de Matões (MA), resistem desde o dia 11 de setembro para proteger suas comunidades e impedir o avanço de jagunços armados em seus territórios. Os desmatadores foram contratados por dois plantadores de soja oriundos do Paraná que, fazendo uso de correntões e tratores, ameaçaram a vida das pessoas e destruíram imensas áreas de Cerrado no local.

Há quase um mês neste processo de luta em defesa de suas comunidades, as famílias quilombolas lançam nesta semana uma Campanha de Solidariedade, visando arrecadar fundos e doações de alimentos para contribuir com a defesa do território em conflito.

Os alimentos podem ser doados na capital do estado, São Luís, distante 478 km do município de Matões. A coleta está sendo feita na Rua do Sol, nº 413/417, no Centro. Há também a possibilidade de contribuir financeiramente por meio de uma transferência via depósito ou Pix.

Descaso e impunidade

Apesar das dezenas de denúncias e pedidos de apoio que foram feitos pelas comunidades e organizações que acompanham a situação das famílias, o Governo do Maranhão ainda não enviou representantes da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA), para fiscalizar o desmatamento no território, ou da Secretaria de Estadual de Segurança Pública, para agir na proteção das comunidades e na investigação sobre os tratores usados para destruir o território.

Também não houve retorno algum do INCRA, órgão responsável por questões relacionadas a regularização fundiária, acionado pela rede de apoio das comunidades.

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Serviço:

Campanha de Solidariedade em apoio às famílias quilombolas de Tanque da Rodagem e São João – Matões/MA

Dados para doações financeiras:

Agência 0528-2 | Conta: 55166-0 | Pix: 9998196-8853 | Banco do Brasil

Nome da titular: Emília Carla Costa Leite

Local para doação de alimentos:

Rua do Sol, nº 413/417, Centro – São Luís/MA

Informações: +55 99 8196-8853

Território Geraizeiro é alvo de incêndio criminoso em Grão Mogol (MG)

No dia 4 de outubro o acampamento localizado na Fazenda São Francisco, território tradicional Geraizeiro do núcleo de Lamarão, no município de Grão Mogol (MG), foi alvo de um incêndio criminoso, conforme relatos dos moradores da comunidade.

O incêndio ocorreu logo após a celebração do Dia de São Francisco, padroeiro do território, que tinha como objetivo arrecadar fundos para a construção de uma capela no local. Os Bombeiros e a Polícia Militar foram acionados. Apesar de ninguém ter ficado ferido, as comunidades estão indignadas com a impunidade e a desumanidade do ato criminoso, por se tratar de um ataque direto aos povos tradicionais que há gerações vivem e conservam a biodiversidade dos territórios geraizeiros.

O acampamento São Francisco completou quatro anos no último domingo (03/10), véspera do incêndio. Cerca de 46 famílias tradicionais Geraizeiras vivem por lá desde outubro de 2017.

Vale lembrar que existe uma ação discriminatória movida pelo Estado de Minas Gerais contra a Floresta Minas, empresa que explora o eucalipto e carvão na região. Segundo os Geraizeiros, o empreendimento vem ameaçando e usando parte das terras de forma ilegal, uma vez que há o decreto de interesse social no qual define a demarcação parcial do território tradicional Geraizeiro do núcleo de Lamarão.


 Texto: CPT MG

Imagem: Comunidade Geraizeira/Grão Mogol-MG

Nota de pesar pela morte do ícone da cultura quilombola do Jalapão (TO) Maurício do Mumbuca

Morreu no dia 02/10, em decorrência de complicações da Covid-19, o compositor, poeta e cantor quilombola Maurício do Mumbuca, do quilombo Mumbuca, município de Mateiros, Jalapão, região do cerrado tocantinense. Maurício é uma das grandes referências culturais do Tocantins, e lutou pela difusão da cultura e modos de vida quilombola, chegando a viajar pelo país apresentando sua arte.

Do avô, seu Antônio, Maurício herdou o talento para produzir e tocar a viola de buriti. Na década de 1940 seu Antônio criou o instrumento, semelhante a uma rabeca, precursora do violino. Maurício adaptou o instrumento para tocá-lo como viola.

A produção do instrumento é artesanal. Suas quatro cordas são linhas de pesca; o corpo é de buriti, palmeira encontrada em abundância nas beiras dos rios de Mateiros. A afinação é natural, como dizia Maurício.

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado presta solidariedade à família, amigos e conhecidos de Maurício do Mumbuca, e a todas as comunidades quilombolas e povos tradicionais que têm nele referências, afetos e raízes ancestrais.


Informações: Maju Cotrim, da Gazeta do Cerrado / Foto: Divulgação

Organizações sociais discutem a implementação do Projeto Bloco 8 em audiência da Câmara dos Deputados de MG

Advogada popular que participou da audiência  questionou a delegação do licenciamento ambiental, cujo empreendimento abrange territórios do Norte de Minas ao Sul da Bahia, a pasta do Governo de Minas 

O Coletivo Margarida Alves (CMA), a Comissão Pastoral da Terra, o Movimento dos Atingidos por Barragens, a Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas (Fian, na sigla em inglês) e lideranças geraizeiras do território Vale das Cancelas participaram de audiência pública, da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, durante a última terça-feira (21/9), que discutiu os impactos socioambientais da construção do complexo minerário Bloco 8, pela empresa Sul Americana de Metais (SAM), na região do Vale das Cancelas, no Norte de Minas. O empreendimento prevê a implementação de duas barragens, com capacidade para 845 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração, atingindo os municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis.

Para a advogada popular do CMA, Lethicia Reis, fica explícito, até mesmo na apresentação da representante da mineradora SAM durante a reunião virtual, que a atividade de exploração mineral abrangeria não somente os territórios das diversas comunidades tradicionais e não tradicionais do Vale das Cancelas, em toda a sua complexidade, incluindo geraizeiras, vacarianas, quilombolas e povos indígenas. “A gente fala de um empreendimento que vai do Norte de Minas Gerais até Ilhéus, na Bahia; com o complexo minerário, o mineroduto e o porto”, explica. 

Licenciamento

A advogada popular do Coletivo Margarida Alves argumenta ser necessário questionar a delegação do licenciamento ambiental – cuja viabilidade vinha sendo negada, há pelo menos dez anos, pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – para a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad). “Como um só estado vai fiscalizar e zelar pelo meio ambiente de toda essa extensão?”, reflete. 

A delegação do licenciamento do complexo minerário e mineroduto aconteceu esse ano, em 2021, após termo de cooperação técnica firmada entre IBAMA e SEMAD. Contudo, já em 2019, por meio de despacho datado de 26 de julho, o então presidente do Ibama, Eduardo Bim, indicado ao posto pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de Jair Bolsonaro, contrariando todos os posicionamentos anteriores do instituto, se manifestou favorável à fragmentação do licenciamento ( complexo minerário e mineroduto), mesmo sendo nítida a interdependência de ambos os projetos .

Bim é o primeiro titular do Instituto a ser afastado do cargo; a determinação ocorreu, pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, devido ao agente público ser investigado na Operação Akuanduba, da Polícia Federal, por corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando no Ministério de Salles. 

Lethicia lembrou, ainda, aos parlamentares e demais presentes, de que a fragmentação do licenciamento foi contestada também em Ação Civil Pública ajuizada, no mês de dezembro de 2019, pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público de Minas Gerais. Por fim, a advogada popular solicitou aos órgãos públicos uma atuação comprometida com a Constituição Federal, ressaltando, em especial, o Artigo 225, sobre o Meio Ambiente; além do respeito a Convenção 169 da OIT e o direito a consulta prévia, livre e informada às comunidades atingidas pelo empreendimento, de Minas à Bahia, anterior à execução do projeto.

Assista à audiência completa pelo YouTube: 


 Texto e foto: Coletivo Margarida Alves

The Permanent Peoples’ Tribunal accepts accusation over Brazilian Cerrado ecocide

The Permanent Peoples’ Tribunal (TPP), an international court of opinion based in Rome, has accepted a petition brought by Campanha em Defesa do Cerrado (Campaign in Defence of the Cerrado) on the ecocide being perpetrated against the Cerrado. This ecocide is a result of the intense expansion of the agricultural border over the last half-century in this immense region, which covers almost one third of the territory of Brazil. Under the slogan “it’s time to do the justice which springs from the earth”, the more than 50 organisations which make up the campaign presented the petition, which highlights the shared responsibility of the Brazilian state, foreign states and their development banks, international organisations (particularly the World Bank), private stakeholders, transnational agricultural, water, and mining companies, and pension and investment funds for the predatory occupation of the Cerrado and the consequent cultural genocide of its peoples. The organisations emphasise the breakdown of democracy which has occurred in Brazil since 2016, and the rise of fascism, racism, and anti-environmentalism under the Bolsonaro government, leading to worsening overlapping crises and the potential threat of the current ecocide becoming irreversible.
 
The petition underlines the fact that the Cerrado is the world’s most biodiverse savannah thanks to the efforts of indigenous peoples and traditional communities, who have continuously tended the land for almost 15 thousand years. The region, which is now considered the source of some of the main rivers and aquifers in South America, is recognised as a place of connection and transit between the diverse ecosystems and species of the continent. The petition points to the concealment of this social and environmental reality, with the Cerrado being classed as a “demographic vacuum”, as part of the historical colonialism and structural racism which are intrinsic to the process of ecocide and genocide of other populations. The organisations decry the legitimisation of widespread and intensive plundering and grabbing of the Cerrado’s land, water, and resources by a handful of corporations from the agricultural and mineral commodity chains, under the pretext that the region is “nobody’s land”, without people nor biodiversity – all in the name of so-called “development”.
 
In a context of numerous environmental and climate crises – when rampant erosion of biodiversity on a global scale has led to successive outbreaks of zoonotic diseases, and deforestation has led to water scarcity and contributed to an increase in extreme weather events – the devastation of the Cerrado and the expropriation of its peoples have become serious socio-environmental issues for the whole planet.
 
The petition filed by the Campaign calls for:
  • a stop to the current ecocide against the Cerrado before it becomes extinct;
  • the truth to be told about the relevance and ecological and cultural diversity of the Cerrado and its peoples;
  • preservation of the memories of violence, expulsion, and enclosure of common areas, events which are often passed down by community elders;
  • a stop to the impunity enjoyed by land-grabbers when violating the rights of populations, and also in the continuous harassment, manipulation, humiliation, and division of communities they use as part of their strategies to manufacture social hegemony;
  • justice and reparations for the conflicts which populations still face and the right to own their land.
As one of the organisations involved in the Campaign in Defence of the Cerrado, GRAIN invites everyone to discover the Permanent Peoples’ Tribunal session on the Cerrado on the website: https://tribunaldocerrado.org.br/. The livestream of the acceptance of the petition by the President of the TPP and jurors can be viewed here: https://www.youtube.com/watch?v=ecDUgHBmgXs
 
Five centuries ago, a system emerged which globalised inequality in trade and put a price on the whole planet and on human beings. To live – to survive – it needs inequality like lungs need air […]. International law is the offspring of the right of conquest, which the President of TPP calls “its original sin” […]. We have become accustomed to forgetting what deserves remembrance, and accepting the present as our destination: but despite this, we are here with the certainty that the world can, and should, be a home for all of us, and that a different type of law, which does not legitimise injustice, is possible […]”.
– Eduardo Galeano in “500 years of solitude” on the occasion of the TPP session on the Conquest of Latin America and International Law.
 

Text originally published on the website of the Grain organization, a member of the Campaign in Defense of the Cerrado
 
Photo: Ingrid Barros

Por que alguns projetos de investimento estrangeiro da China foram “embargados” na fase de avaliação de impacto ambiental?

Em dezembro de 2020, o Ministério da Ecologia e Meio Ambiente da China, com o objetivo de prevenir impactos ecológicos e ambientais relacionados aos projetos de investimento nos países da iniciativa Belt and Road, adotou um sistema de classificação de risco estilo “semáforo” [1]. O sistema “semáforo” é bastante intuitivo: as cores vermelha, amarela e verde indicam o grau de impacto ambiental, climático e à biodiversidade de cada projeto. Os projetos classificados como “verde” atendem aos padrões internacionais de avaliação de risco, enquanto os “amarelos” são passíveis de melhoria. Já nos “vermelhos” o fator de risco é tão elevado que estes projetos precisam ser interrompidos ou rigorosamente regulamentados.

À medida que se eleva a consciência coletiva acerca dos impactos ambientais e sociais de atividades de desenvolvimento, projetos extrativistas, de geração de energia e de infraestrutura tornam-se cada vez mais complexos, principalmente no tocante às tratativas com agentes externos, como órgãos regulatórios, governamentais, públicos, socioeconômicos e ambientais. Estes fatores são denominados riscos “não-técnicos”, uma definição usada pela indústria extrativista para englobar todos os riscos decorrentes das interações de uma empresa com agentes externos. De acordo com um relatório [2] de 2017, mais da metade de todos os projetos de extração no mundo, avaliados em mais de US$ 500 milhões, estão atrasados, e mais de 80% desses projetos enfrentam riscos não-técnicos.

Os projetos de investimento externo da China, concentrados nos setores de energia e infraestrutura, e também em vários ramos da mineração, não são exceção. De acordo com um relatório [3] de 2018 sobre a avaliação de impacto ambiental e de vulnerabilidade social de projetos de investimento de empresas chinesas no exterior, o descumprimento de procedimentos de salvaguarda ambientais e sociais ou a existência de fatores de risco, estão entre as razões frequentes para a suspensão de projetos de empresas chinesas no exterior por parte dos governos onde estão localizados os empreendimentos.

A classificação estilo “semáforo”, apoiada pelo Ministério da Ecologia e Meio Ambiente da China, ainda está longe de ser uma regulamentação obrigatória para os projetos de investimento externos chineses. Porém, esta classificação ainda serve como um parâmetro de políticas de investimento. Os investidores também assumem os riscos do empreendimento. A gestão de risco ambiental e de vulnerabilidade social praticada pelo setor financeiro internacional no tocante ao financiamento de projetos (como no caso do “Princípio Equatorial” [4]), também é uma referência para investidores na China. Desde que foi lançado em novembro de 2018, o programa Princípios para Investimentos Sustentáveis, da iniciativa Belt and Road (“Belt and Road Green Investment Principles” – GIP)[5], já conta com a adesão de 37 instituições financeiras, as quais afirmaram seu comprometimento com a capacitação voltada à gestão de riscos ambientais e climáticos.

Qual a dimensão do risco de possíveis impactos ambientais sobre os projetos de investimento externo da China? Quais são as semelhanças e diferenças nos processos de avaliação de impacto ambiental e vulnerabilidade social de diferentes países? Que tipo de gerenciamento e/ou monitoramento de risco a China pode praticar como investidora e empreiteira em projetos internacionais? Quais fatores de risco podem ser identificados, previstos e mitigados no momento da avaliação, antes que decisões-chave acerca do projeto sejam tomadas, de forma a prevenir a ocorrência de impactos ambientais e sociais e acidentes graves? Este artigo analisa três projetos de investimento chineses que tiveram sua viabilidade questionada durante a etapa de avaliação de impacto ambiental (“EIA”). Por que os empreendimentos foram embargados justamente nesta fase?

Caso 1: Questões “ecotoxicológicas”

O Peru tem planos para a construção de uma hidrovia que visa conectar quatro grandes rios na região Amazônica do país. Denominado Hidrovia Amazônica (“Amazon Waterway”), o projeto abrangeria por um trecho de 2.687 km e ligaria o Brasil à cidade peruana de Iquitos (sem acesso terrestre), e ao norte conectaria o porto de Paita com a fronteira. O objetivo é fazer com que os rios da região sejam navegáveis durante todo o ano. O anúncio de empreendimento [6] para a Hidrovia Amazônica afirma que o investimento na construção será de aproximadamente US$ 69 milhões, além de US$ 350 milhões que serão invertidos posteriormente em operações e manutenção; em troca, o investidor receberá a concessão da hidrovia por 20 anos.

A Hidrovia Amazônica é um dos 52 projetos de infraestrutura crítica do Peru, e desde que foi proposto, em 2014, é visto como um empreendimento de interesse nacional e recebe amplo apoio do governo peruano. Quando o então presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, visitou a China em 2016, [7] esperava atrair investimentos chineses em projetos de infraestrutura em seu país. Em 2017, o consórcio Cohidro [8], joint venture 50-50 da empresa Sinohydro e da construtora peruana Casa S/A, anunciou que havia vencido a licitação e planejava que a hidrovia estivesse operando já em 2022.

No início de 2018, o Consórcio Cohidro iniciou o processo de avaliação de impacto ambiental. No entanto, o pedido de avaliação foi rejeitado pela Agência de Licenciamento Ambiental do Peru (SENACE), uma vez que esta entendeu que a população local não havia sido consultada acerca do projeto, nem tampouco havia sido solicitado o parecer das organizações indígenas da região.

Questionamentos acerca dos impactos ambientais, sociais e econômicos da hidrovia começaram a surgir.

A construção prevê a dragagem em 13 pontos rasos em quatro dos rios. A agência de parques nacionais do Peru (SERNANP), [9] relata que três dos locais de dragagem estão próximos à zona tampão de Pacaya Samiria, a maior reserva nacional do Peru, e outro ponto de dragagem está localizado na zona de acesso do Parque Nacional Cordilheira Azul. Jorge Abad, um engenheiro ecohidrológico que estuda o ecossistema do rio Amazonas há mais de uma década, observa [10] que como a dragagem é em sua essência a remoção de sedimentos, como o lodo, os sedimentos que provêm do fundo dos rios devem ser analisados antes que os trabalhos de dragagem tenham início, de forma a se analisar possíveis efeitos deletérios. A necessidade de se entender o fluxo de sedimentos no fundo de rios e os problemas a ele relacionados não é recente. No Rio Mississippi, Estados Unidos, busca-se moldar o curso das águas há 200 anos, sem sucesso. 

De acordo com relatório [11] da Sociedade Peruana de Conservação da Vida Selvagem (WCS), a dragagem pode interromper a migração dos peixes. A remoção de detritos, como árvores encalhadas no rio, também pode afetar as populações aquáticas, já que estas árvores criam um ambiente propício para a reprodução de peixes e um habitat ideal para pássaros, mamíferos e répteis. Além dos peixes, dois mamíferos, o boto-do-rio-amazônico e a ariranha, também podem ser afetados. A estabilidade da cadeia alimentar de toda a região da Amazônica estaria sob ameaça. Existem também 424 [12] comunidades indígenas que dependem desses rios e temem que o projeto deixe suas margens sem vida.

Nem mesmo a promessa de se criar uma hidrovia nos moldes mais atuais se livrou de questionamentos da oposição. Assim que a concessão for aprovada, entende-se que o custo da passagem para travessia nos navios aumentará. A previsão é de que todos os navios de médio e grande porte que entrarem na bacia terão que pagar à concessionária um pedágio de US $1,69 por tonelada, acrescido de IVA de 18%. Uma das que se opõe ao projeto é Carmen Nuñez, gerente geral da Associação de Transporte Fluvial de Loreto. Ela estima que as taxas de frete hidroviário e, em decorrência, o custo da população local com alimentos aumentaria em 30% [13].

Em maio de 2018, o SENACE iniciou o processo de EIA depois que o Consórcio Cohidro listou duas organizações indígenas como partes interessadas. Ao mesmo tempo, duas organizações indígenas, AIDESEP e ORPIO, ajuizaram um mandado de segurança junto ao Tribunal Superior de Lima, demandando ao governo e ao Consórcio Cohidro que a EIA inclua também o seu parecer acerca do projeto. 

Em janeiro de 2020, o Consórcio Cohidro rescindiu [14] o pedido de avaliação ambiental junto ao SENACE, citando a falta de estudo ecotoxicológico que avaliaria o impacto de substâncias tóxicas presentes no leito do rio no ecossistema da região, um dos elementos necessários para a certificação ambiental. Em função das dificuldades na obtenção de parecer favorável da EIA, a Cohidro tentou estender a concessão do projeto de 20 para 23 anos, mas o Ministério dos Transportes negou [15] a proposta.

Até o momento, o Superior Tribunal de Justiça do Peru ainda está julgando o mérito da ação ajuizada pelos órgãos indígenas. O futuro do projeto é incerto.

Caso 2: Dúvidas sobre a autenticidade de EIA levam à suspensão do financiamento

Batang Toru, uma usina hidrelétrica em construção em Sumatra do Norte, Indonésia, é um projeto desenvolvido em 2012 pela North Sumatra Hydropower LLC (NEHS), com valor estimado de US $1,68 bilhão. No entanto, as tentativas de obtenção de empréstimos de instituições como a Corporação Financeira Internacional (IFC) do Banco Mundial ou o Banco Asiático de Desenvolvimento, fracassaram em função da fragilidade do ecossistema em que Batang Toru está localizada.

Em 2017, cientistas descobriram na região uma nova espécie de orangotango [16] , o orangotango Tapanuli (Pongo tapanuliensis), Com taxa de fertilidade baixa e extremamente sensível a mudanças no ecossistema, a população remanescente deste orangotango é de aproximadamente 800 indivíduos. A construção da usina hidrelétrica se daria em seu único habitat conhecido. Órgãos ambientais manifestaram receio de que a construção da usina hidrelétrica pudesse levar à extinção dessa espécie ameaçada.

No final, o empréstimo à NEHS foi concedido pelo Banco da China, com garantia da China Export and Credit Insurance Corporation, uma empresa seguradora financiada pelo governo chinês, e da estatal chinesa Sinohydro como contratante. Em 31 de janeiro de 2017, a Batan Toru recebeu a licença ambiental e deu-se início às obras. No entanto, a polêmica em torno da avaliação de impacto ambiental do projeto ainda persiste.

Onrizal Onrizal, pesquisador florestal da University of North Sumatra, disse que a NSHE contratou a empresa PT Global Inter Sistem (GIS), da Indonésia, para fazer uma avaliação de impacto ambiental. Em 2013, a GIS o contratou para analisar a biodiversidade no local do empreendimento. O parecer profissional de Onrizal foi de que, além do orangotango Banuri, espécie que chamou a atenção da população, 23 espécies ameaçadas de extinção, incluindo o tigre de Sumatra, o urso malaio e o gibão da ilha de Sumatra, também vivem no local destinado à construção. Onrizal disse que incluiu todas as espécies acima em seu relatório, mas que o número de espécies afetadas foi reduzido para 15 no relatório submetido pela GIS aos órgãos reguladores. Somente quando lhe perguntaram por que o tigre de Sumatra não havia sido incluído em seu relatório foi que Orizal se deu conta que a EIA sob análise não era a mesma que ele havia ajudado a redigir. Orizal também afirma [17] que, sem seu conhecimento ou permissão, a GIS o elencou como um dos especialistas envolvidos no projeto, bem como utilizou suas credenciais acadêmicas, além de ter falsificado sua assinatura. A empresa se manifestou dizendo que houve um equívoco na finalização do relatório entregue às autoridades. 

Walhi, a maior organização de defesa ambiental da Indonésia, atesta que o projeto hidrelétrico representa uma grande ameaça ambiental e exige a que o governo revogue a licença ambiental do empreendimento, argumentando que houve uma série de omissões administrativas durante o processo de obtenção da licença ambiental pela NSHE, e que o parecer e assinaturas falsificados de Onrizal são justificativas suficientes para a suspensão ou até mesmo o cancelamento do projeto. O advogado da Walhi, Golfrid Siregar, comunicou à mídia que se o governo local continuasse se recusando a revogar a licença ambiental, a organização tomaria em juízo o depoimento de Onrizal de que ele não havia participado da redação final da EIA submetida aos órgãos responsáveis, nem tampouco assinado o documento, como forma de auxiliar a polícia federal a construir o inquérito. 

Em 6 de outubro de 2019, o advogado Siregar sofreu um ataque que causou ferimentos em sua cabeça, e veio a falecer. A polícia diz que o falecimento de Siregar ocorreu devido a um acidente de moto ocasionado por embriaguez, mas sua família não acredita nessa versão.

Além da ameaça à biodiversidade, foram feitos questionamentos acerca da viabilidade de projetos hidrelétricos “sustentáveis”, tendo em vista os impactos sísmicos na região [18]. Um estudo descobriu que os reservatórios localizados em regiões tropicais produzem uma grande quantidade de gases de efeito estufa em seus primeiros anos de operação, fato omitido na declaração de impacto ambiental. Além disso, a região da Sumatra tem sofrido vários terremotos de alta magnitude. A Comissão Internacional de Grandes Barragens (ICOLD), recomenda que as barragens construídas na região sejam resistentes a terremotos de até 7,7 pontos na escala Richter. A NSHE reconhece que existem falhas geológicas ativas a 4 km do local da construção, mas argumenta que como a barragem não foi construída em uma dessas falhas, o empreendimento foi projetado para resistir a terremotos de até 6,7 pontos na escala Richter.

Em meio a críticas prolongadas, o Banco da China emitiu uma declaração [19] em março de 2019, afirmando que “tomou ciência das considerações expressas por algumas organizações ambientais” e se comprometeu a “revisar cuidadosamente o projeto”.

Diversas organizações ambientais, incluindo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), também questionaram a viabilidade do projeto. Em abril de 2020, a IUCN emitiu um relatório de verificação de fatos [20] que refutou detalhadamente os relatórios de EIA publicados pela NSHE.

Em junho de 2020, de acordo com Muhammad Ikhsan Asaad, chefe do projeto responsável pela Corporação Nacional de Energia da Indonésia (PLN), a usina hidrelétrica Batan Toru, programada para entrar em operação em 2022, “poderá ser adiada para 2025 [21] devido a considerações ambientais e ao impacto da COVID-19, que fizeram com que o Banco da China suspendesse o financiamento. ”

Caso 3: Uma estratégia para “burlar” a EIA

Em março de 2010, o Grupo Honbridge (Hong Bridge Capital Limited), com escritório central Hong Kong, adquiriu a Sul Americana de Metais S/A (“SAM”), uma empresa de mineração brasileira. Tendo como principais acionistas o Geely Holdings Group, uma empresa Fortune 500, e o Shagang Group, os investimentos da Honbridge se concentraram principalmente no setor de novas fontes de energia para baterias. A aquisição da SAM foi sua estréia no setor de mineração. Na época, a SAM detinha 83 licenças de exploração de minério de ferro no Brasil, incluindo a região do “Bloco 8” em Minas Gerais, um estado no sudeste do Brasil. Estima-se que o Bloco 8 contenha cerca de 2,6 bilhões de toneladas de minério bruto.

No final de 2011, a SAM acreditava que as operações da mina de ferro Bloco 8, considerada de grande porte para o estado Minas Gerais, com investimento planejado de US $3 bilhões e produção anual de 27,5 milhões de toneladas, teriam início no segundo semestre de 2014. Dez anos depois, o Projeto Bloco 8 ainda está longe de sair do papel; o pré-requisito básico para dar início à obra, o pedido de Licença Prévia de Avaliação Ambiental, foi rejeitado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

No Brasil, existem três etapas no processo de pedido de licença ambiental: licença ambiental prévia, licença de instalação e licença de operação. O Projeto Bloco 8 do Grupo Honbridge está na fase de licença ambiental prévia.

De acordo com os relatórios anuais da Honbridge, desde 2012 a SAM tem apresentado ao IBAMA o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Avaliação de Impacto Ambiental relativos ao Projeto Bloco 8. Em março de 2016, o IBAMA decidiu [23] que o projeto era “inviável sob o ponto de vista ambiental”. Após recurso da SAM e a apresentação de novo estudo de impacto ambiental, incluindo a elaboração de novos planos e mudança de escopo do projeto, o IBAMA determinou que um novo pedido de licença ambiental deveria ser protocolado. 

Por ser uma das maiores regiões produtoras de minério de ferro do Brasil, todos os olhos estão voltados para o estado de Minas Gerais. O Projeto Bloco 8 é um empreendimento que pode ter graves consequências ambientais e sociais.

De acordo com relatório detalhado emitido pelo IBAMA, os principais questionamentos acerca do projeto são em relação à disposição de resíduos e rejeitos, bem como ao impacto do empreendimento nos recursos hídricos e ecossistemas da região. Para produzir os estimados 27,5 milhões de toneladas de minério de ferro ao ano, o Projeto Bloco 8 consumiria 6,2 milhões de litros de água por hora em uma região de clima semiárido onde os recursos hídricos são escassos; seria necessária também a construção de duas barragens de rejeitos [24] com capacidade de armazenamento de aproximadamente 930 milhões e 230 milhões de metros cúbicos, respectivamente. Atualmente, a maior barragem de rejeitos do Brasil tem capacidade de armazenamento de 750 milhões de metros cúbicos. Nos últimos anos o Brasil foi palco de diversos acidentes em barragens de rejeitos que resultaram em grande número de mortos e feridos, bem como na devastação ambiental das regiões afetadas, o que gerou questionamentos acerca da segurança dessas barragens. Para transportar o minério extraído da mina, o sistema de logística do Projeto Bloco 8 inclui a construção de um mineroduto subterrâneo de 482 km até o Porto Sul de Ilhéus, passando por 21 municípios e topografias e ecossistemas complexos.

Em novembro de 2017, após o IBAMA ter considerado o empreendimento ambientalmente inviável, a SAM decidiu fragmentar os projetos relativos ao Bloco 8. Os pedidos de licenciamento relativos à extração de minérios foram encaminhados aos órgãos ambientais estaduais, enquanto que os pedidos relativos à construção do mineroduto, que passa por dois estados, bem como da estação de desidratação e filtração na área portuária foram mantidos junto às autoridades federais. Para a construção do mineroduto de 482 km, a SAM e um terceiro investidor estabeleceram [25] a empresa Lotus Brasil (Lotus Brasil Comércio e Logística Ltda), que se encarregou de solicitar as licenças ambientais necessárias. A Lotus Brasil é responsável também pela avaliação ambiental, construção e operação do sistema de logística do Projeto Bloco 8.

Em outras palavras, o Projeto Bloco 8 foi fragmentado para contornar as decisões de inviabilidade ambiental emitidas pelo IBAMA, mediante solicitação de pedidos de licença diretamente aos estados que apoiam a mineração. No início de 2017, o estado de Minas Gerais, onde está localizada a mina do Projeto Bloco 8, listou o empreendimento como prioritário [26]; em 2019, o governador de Minas Gerais assinou um protocolo de intenções [27] com a SAM afirmando o estado se comprometeria a auxiliar na obtenção de todas as licenças necessárias à consecução do projeto.

A fragmentação do projeto encontrou forte oposição na sociedade civil.

Em entrevista à Initium Media, o grupo ambiental local, Coletivo Margarida Alves, argumentou que a mudança é uma tentativa de burlar as regulamentações brasileiras e que as agências reguladoras não serão capazes de avaliar o impacto global do projeto nas populações afetadas e/ou no meio ambiente. Tádzio Coelho, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, Brasil, que tem como foco de estudo os impactos ambientais e sociais da mineração, disse ainda que a fragmentação do projeto pela SAM na tentativa de agilizar o processo de licenciamento “é uma estratégia empresarial feita em conluio com os órgãos licenciadores que dificulta a participação popular e prejudica a avaliação dos efeitos do empreendimento como um todo”. “

Em 2 de dezembro de 2019, o Ministério Público de Minas Gerais e o Ministério Público Federal ajuizaram Ação Civil Pública contra o Governo do Estado de Minas Gerais, IBAMA, Lotus Brasil e SAM, argumentando que o projeto de extração Bloco 8 da SAM e o projeto de mineroduto da Lotus Brasil são interdependentes e devem ser aprovados em conjunto pelo órgão ambiental brasileiro. Em janeiro de 2020, um juiz federal emitiu uma decisão provisória suspendendo o processo de licenciamento para ambos os projetos.

De acordo com o relatório financeiro de 2020 do Grupo Honbridge [28], já foram investidos cerca de US$ 150 milhões no projeto de extração de minério de ferro, e o grupo considera que “o atraso na obtenção de licenças para iniciar as obras da SAM é lamentável”. A nova previsão para o início das obras é para o final de 2026. Embora a licença ambiental ainda esteja pendente, a SAM já assinou um acordo de cooperação com a Huawei e planeja implantar na mina a tecnologia de mineração não tripulada de rede 5G; no porto de Ilhéus, está prevista a participação de um consórcio de capital chinês, e a SAM também manifestou interesse no investimento de capital após a obtenção das licenças.

De “avanço a qualquer custo” para “controle de risco”

O processo de EIA é parte das ações de controle de risco de investimento estrangeiro. Zhang Jingjing, um advogado que acompanha há anos o impacto ambiental dos projetos chineses no exterior, disse à Initium Media: “No tocante a investimentos estrangeiros, as tratativas comerciais preliminares e inversões significativas antecedem à conclusão do EIA; sendo assim, muitos investidores, como o Banco Mundial, exigem que auditorias de impacto ambiental e social sejam feitas no estágio inicial do empréstimo, com o intuito de identificar problemas o quanto antes e garantir a segurança do investimento”.

Embora os requisitos para investimento no exterior variem de país para país, os critérios estabelecidos pelo Banco Mundial têm valor de referência. Os Princípios do Equador, que representam 116 instituições financeiras em 37 países, são divididos em duas categorias: “países designados” (principalmente países desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos) cujos sistemas jurídicos ambientais são iguais ou mais rígidos que os padrões internacionais; os demais países são classificados como “países não designados”. Em “países não designados”, os Princípios do Equador exigem que o processo de avaliação ambiental e de vulnerabilidade social seja consistente com os padrões exigidos à época, por exemplo, pela Corporação Financeira Internacional e o Grupo Banco Mundial.

Em outras palavras, para gerenciar o risco, os Princípios do Equador exigem que os investidores sigam um padrão internacional mais rigoroso de EIA, independentemente da gestão e dos procedimentos do próprio país que recebe o investimento. No entanto, para muitas empresas chinesas, os padrões internacionais de EIA são desconhecidos.

O conceito de EIA foi introduzido na China há mais de 30 anos. Porém o sistema, construído gradualmente, ainda é muito deficiente. A lei que regula EIAs foi alterada em 2016 para remover a possibilidade de licenças prévias, ou seja, os procedimentos só podem ser iniciados após a emissão da licença. Após passar por processo de revisão, a EIA e ações relativas ao projeto são aprovadas concomitantemente, tornando o processo mais eficiente e fazendo com que a aprovação da EIA não seja tão crítica ao investimento. Essa metodologia aumenta a demanda por monitoramento, outra área de melhoria. A participação pública também é uma formalidade do processo.

Um relatório comparando os padrões do Banco Mundial com os padrões domésticos de EIA da China concluiu que “há diferenças significativas” nos critérios de avaliação, escopo e métodos. Por exemplo, o padrão internacional requer um levantamento de histórico ambiental e social, enquanto que a EIA chinesa não requer um levantamento de vulnerabilidade social. Além disso, as EIAs internacionais requerem maior participação das partes interessadas e uma análise de alternativas viáveis. Elementos corriqueiros de EIAs internacionais, como recursos hídricos e gases de efeito estufa, não fazem parte do escopo das EIAs na China.

Na prática, as empresas veem a obtenção de licenças ambientais como “obstáculos” que precisam ser superados e é difícil conter suas ações com requerimentos mais rigorosos que poderiam, por conseguinte, elevar os custos do projeto. Um especialista familiarizado com as regras de avaliação ambiental nacionais e internacionais disse à Initium Media que muitos projetos de capital chinês no exterior, vendo as dificuldades em se concluir projetos dentro da China, acreditam que o desenvolvimento e conclusão do projeto são os fatores mais importantes do processo. Disse inclusive, que “se os projetos de empresas estatais são concluídos, considera-se uma conquista política; caso negativo, a responsabilidade não recai sobre elas; as empresas privadas não têm tanta experiência com projetos de grande escala, onde é fácil arriscar.”

Teoricamente, e de acordo com a Associação Internacional de Avaliação de Impacto (IAIA) [29], a avaliação de impacto ambiental permite a identificação, previsão, avaliação e mitigação de impactos ambientais, físicos e sociais, dentre outros, antes que decisões-chave do projeto sejam tomadas. Em realidade, em muitos países o público não tem acesso a informações relativas a grandes projetos governamentais de infraestrutura e as EIAs são ocorrências raras. Mesmo assim, existem ao menos alguns materiais disponíveis às populações afetadas pelo projeto, o que possibilita que estes grupos participem das discussões sobre viabilidade.

Zhang acrescentou: “O capital, incluindo o capital da China, tem uma forte mentalidade de aposta, desde que consiga aprovação inicial – e a maioria dos projetos, mesmo que sejam prejudiciais, conseguem aprovação e se iniciam.” Contanto que o obstáculo da EIA seja superado, os lucros são vantajosos.” 

Embora o Projeto Bloco 8 esteja preso há mais de uma década na fase de licenciamento, à medida que o minério de ferro se valorizou, a avaliação de prospectos [30] da empresa aumentou, passando de US $811 milhões em 2019 para US $981 milhões em 2020.

[1]: https://green-bri.org/zh-hans/%E9%A1%B9%E7%9B%AE%E4%BB%8B%E7%BB%8D-%E4%B8%80%E5%B8%A6%E4%B8%80%E8%B7%AF%E5%80%A1%E8%AE%AE%E4%BA%A4%E9%80%9A%E7%81%AF%E9%A1%B9%E7%9B%AE%E7%AE%80%E4%BB%8B/

[2]: https://www.researchgate.net/publication/327974703_Non-technical_Risk_in_Exploration_and_Production_in_Brazil_an_Approach_to_Quantify_and_Manage_it

[3]: https://mall.cnki.net/magazine/Article/SXHS201804006.htm

[4]: https://equator-principles.com/

[5]: https://green-bri.org/zh-hans/%E4%B8%80%E5%B8%A6%E4%B8%80%E8%B7%AF-%E7%BB%BF%E8%89%B2%E6%8A%95%E8%B5%84%E5%8E%9F%E5%88%99%EF%BC%88gip%EF%BC%89/

[6]: http://www.aidesep.org.pe/sites/default/files/media/documento/brief_waterway.pdf

[7]: https://www.reuters.com/article/china-peru-railways-idUSL2N1BR1FI

[8]: http://www.cohidro.com.pe/en/vision/

[9]: https://dar.org.pe/hidrov-sernanp/

[10]: https://dialogochino.net/en/infrastructure/30190-china-backed-amazon-waterway-mired-in-murky-information/

[11]: https://peru.wcs.org/Portals/94/Publicaciones/DT_IMPACTOS_PESCA_HA-12.pdf?ver=2019-05-24-213032-867

[12]: https://waterkeeper.org/news/amazon-waterway-new-risks-for-the-river-guardians-under-the-pandemic/

[13]: https://dialogochino.net/en/infrastructure/30190-china-backed-amazon-waterway-mired-in-murky-information/

[14]: https://es.mongabay.com/2021/01/hidrovia-amazonia-peru-consulta-previa-pueblos-indigenas/

[15]: https://es.mongabay.com/2021/01/hidrovia-amazonia-peru-consulta-previa-pueblos-indigenas/

[16]: https://news.mongabay.com/2019/02/what-does-it-take-to-discover-a-new-great-ape-species/

[17]: https://news.mongabay.com/2019/02/allegation-of-forged-signature-casts-shadow-over-china-backed-dam-in-sumatra/

[18]: https://news.mongabay.com/2019/12/indonesian-dam-raises-questions-about-un-hydropower-carbon-loophole/

[19]: https://www.bankofchina.com/en/bocinfo/bi2/201903/t20190304_14882309.html?keywords=Batang%20Toru

[20]: https://www.iucn.org/news/secretariat/201904/iucn-calls-a-moratorium-projects-impacting-critically-endangered-tapanuli-orangutan

[21]: https://news.mongabay.com/2020/07/batang-toru-hydropower-dam-tapanuli-orangutan-delay-nshe/

[22]: http://www.8137.hk/assets/Uploads/reports/cn/2011-04.pdf

[23]: https://www.ibama.gov.br/noticias/58-2016/150-ibama-rejeita-projeto-de-mineracao-em-mg-que-teria-maior-barragem-do-pais

[24]: http://ftp.brandt.com.br:2100/EIA%20SAM%20BLOCO%208/EIA%20SAM%20BLOCO8%20-%20PASTAS%20DE%20ARQUIVOS/

[25]: http://www.8137.hk/assets/Uploads/cw08137-2018-Annual-report.pdf

[26]: http://www.8137.hk/assets/Uploads/Honbridge-Annual-Report-2017-C.pdf

[27]: http://www.8137.hk/assets/Uploads/Honbridge-Annual-Report-2017-C.pdf

[28]: http://www.8137.hk/assets/Uploads/CW08137-AR.pdf

[29]: https://www.iaia.org/eia-index-of-websites.php

[30]: http://www.8137.hk/assets/Uploads/CW08137-AR.pdf

 


Este artigo é uma colaboração entre a Initium Media e a Comissão Pastoral da Terra

Texto: Ning Hui e Cao Jingyi / Cards: Luiz Almeida / Parceria: CPT

Coordenação ampliada da Campanha em Defesa do Cerrado se reúne no dia 28 de setembro

No dia 28 de setembro a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reuniu sua coordenação ampliada para mais um encontro de avaliação e articulação. Organizações, movimentos sociais e representantes de povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado participaram do espaço, que aconteceu em formato virtual por conta da pandemia.

A reunião, que contou com a presença de mais de 60 pessoas, proporcionou aos participantes momentos para rememorar e avaliar as últimas atividades da Campanha no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado, bem como discutir e articular coletivamente os próximos passos da ação.

Samuel Caetano, integrante da Campanha em Defesa do Cerrado e representante do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), destacou a importância da realização dos espaços de construção coletiva do Tribunal dos Povos do Cerrado. “Apesar da devastação, de nosso país estar pegando fogo, literalmente, estar em comunhão com vocês, com tantas organizações aqui presentes, nos propicia um sentimento de esperança, que não podemos perder de vista”, ressalta.

A colaboradora do Conselho do Indigenista Missionário (Cimi) no Tocantins e também membra da Campanha, Laudovina Pereira, fez memória do lançamento e do processo de construção do Tribunal. “Foi um evento lindo, rico e de construção participativa, que incluiu as comunidades e as organizações integrantes da Campanha desde o início. O Tribunal é vida, é a vida dos povos e das comunidades, por isso precisamos prosseguir com o trabalho para proporcionar ainda mais a participação das comunidades”, finaliza Pereira.

Para saber mais sobre as ações e conferir a programação de atividades do Tribunal dos Povos do Cerrado, acesse o site: https://tribunaldocerrado.org.br/

Confira, abaixo, o vídeo que apresenta um resumo do que foi lançamento do TPP:

Campanha de financiamento vai recuperar cinco nascentes em risco no Cerrado

Iniciativa da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Campanha de financiamento coletivo alerta para a urgência de conservação do Cerrado e conta com cinco metas de arrecadação. Apoiadores podem receber recompensas como artes digitais, ecobags, acessórios, produtos artesanais e até vagas em oficina

Em sintonia com o Dia Nacional do Cerrado, comemorado no último 11 de setembro, a Articulação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Cerrado lança a Campanha de financiamento coletivo Salve uma Nascente, na plataforma Benfeitoria. A cada ano, 10 pequenos rios morrem no bioma. Diante deste cenário de devastação, o principal objetivo da iniciativa é recuperar cinco nascentes que correm risco de desaparecer, localizadas em comunidades camponesas acompanhadas pela CPT em cinco estados: Maranhão, Piauí, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A campanha vai trabalhar com cinco metas de arrecadação, totalizando o valor de R$110 mil reais.  A arrecadação da primeira meta é Tudo ou Nada, uma dinâmica de financiamento coletivo em que o realizador só recebe as doações caso atinja a sua primeira meta. A primeira meta da Salve uma Nascente representa o valor mínimo para arcar com os custos na Benfeitoria – entre equipe, custos com produção e envio das recompensas, além do custo para salvar uma das nascentes. Mas a pretensão é salvar cinco. A Campanha oferece uma lista de recompensas a determinados valores de doação que funcionam como incentivo, mas é possível doar sem pedir nada em troca.

Experiência junto aos povos

Há mais de 10 anos a Comissão Pastoral da Terra trabalha com a recuperação de nascentes no Cerrado. Ass primeiras experiências desenvolvidas foram nos estados de Goiás e Mato Grosso. Desde então, a CPT realiza processos de formação junto a várias comunidades de camponeses e camponesas cerratenses na luta em defesa das águas, da terra e das florestas. Nesse sentido, a Campanha Salve uma Nascente busca não só conservar essas fontes de água mas, ao mesmo tempo, abrir caminho para a multiplicação dessa ideia para outros lugares. Nosso objetivo é criar uma verdadeira rede de proteção para o Cerrado.

“Recuperar nascentes é essencial para a continuidade da vida, a água é um direito de todos. Os povos do campo e das cidades necessitam das nascentes para o abastecimento dos rios e riachos, é esta água que chega às casas das famílias para os serviços essenciais. Se as nascentes secam, falta água para todos nós, por isso a Campanha Salve uma Nascente é urgente, ela é uma convocação para o cuidado com as águas. Proteger, recuperar e conservar as nascentes é uma luta coletiva, que precisa de cada um de nós. Contamos com o apoio de todos e todas para multiplicar essa iniciativa”, enfatiza Leila Cristina Lemes, coordenadora da Campanha e da Articulação das CPT’s do Cerrado.

A Campanha conta com o apoio de organizações parceiras como a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), o Núcleo de Pesquisa em Agroecologia e Educação do Campo da Universidade Estadual de Goiás (Gwatá), o Museu do Cerrado, o Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), o coletivo de comunicação popular Pinga Pinga, entre outros. 

Riqueza ameaçada

O Cerrado e suas áreas de transição abrangem cerca de 36% do território nacional, ou seja, mais de ⅓ do território brasileiro, e é a mais importante área de recarga hídrica do país. Se conservada, a água que brota dos lençóis subterrâneos pode garantir qualidade e quantidade suficiente para atender as necessidades da rica biodiversidade brasileira, do campo e também da cidade. Conhecido como o berço das águas, o Cerrado abriga nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras, indispensáveis para o consumo e geração de energia no país e de alguns dos principais rios que percorrem o território brasileiro e o continente sul-americano: Rio Araguaia, Rio Tocantins, Rio São Francisco, Rio Paraguai, Rio Parnaíba, Rio Gurupi, Rio Jequitinhonha, Rio Paraná, entre outros.

Além disso, o Cerrado também é a savana mais biodiversa do mundo. Abriga uma diversidade enorme de povos e comunidades tradicionais que habitam a região há mais de 12 mil anos. São mais de 80 etnias indígenas – entre Xavantes, Kraô-Kanela, Tapuias, Guarani Kaiowá, Terena, Xakriabás, Apinajé -, pescadores, ribeirinhos, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, fundo e fecho de pasto, retireiros do Araguaia, vazanteiros, agricultores familiares, geraizeiros, sertanejos, barranqueiros, acampados, assentados e muitos outros. Porém, na contramão de toda essa riqueza e diversidade, o planejamento político brasileiro enxerga o Cerrado como região de expansão da fronteira agrícola.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que, em 2020, o desmatamento no Cerrado brasileiro totalizou 7,3 mil km², sendo a maior destruição na região do Matopiba. Ainda de acordo com o Instituto, o Cerrado registrou, de 1º de janeiro até 31 de agosto deste ano, o maior número de focos de incêndio no período desde 2012: foram 31.566 registros de fogo. 

É no Cerrado que se abriga a maior quantidade de nascentes perenes, que vão manter os rios com suas águas durante todo o ano. Com o desmatamento, ocorre o processo de impermeabilização ou compactação do solo que, sem uma cobertura florestal, tem sua capacidade de retenção de água da chuva reduzida, dificultando o abastecimento do lençol freático. Esse processo diminui as reservas de água, colocando em risco de seca as nascentes que originam ribeirões, rios e bacias hidrográficas. 

A diminuição dessas reservas de água ocorre não pela falta de chuvas, mas se relaciona diretamente com a exploração do Cerrado nos últimos anos pelo agronegócio e influencia a seca do Pantanal, do Rio São Francisco e até do Rio Paraná. Toda essa devastação, queimadas, desmatamento e avanço das monoculturas tem provocado efeitos ao clima e ao bem viver dos povos do campo e da cidade. As nascentes estão secando, os rios estão assoreados, por isso se torna necessário colocar ações de conservação em prática e adotar medidas urgentes. Ajude a recuperar cinco nascentes e a espalhar essa ideia! 

Conheça as Nascentes que serão salvas

Piauí
Nascente no Território Vão do Vico, Município de Santa Filomena. A comunidade indígena Gamela conta com 17 famílias e vem sofrendo com a ação de grileiros e com o avanço da soja.  A mata de cobertura de proteção das nascentes foi destruída e as chuvas carregaram muita areia, soterrando muitas delas.

Maranhão 

Uma das nascentes do Rio Itapecuru, um curso d’água com 1.450 quilômetros de extensão e largura de 50 a 120 metros, que banha o Estado do Maranhão. As primeiras águas brotam no “Vão do Pinto”, no município de São Raimundo das Mangabeiras. A bacia do Itapecuru abastece 60% da população da capital São Luís, além de outras cidades no Estado.

Goiás

A nascente do Rio Caldas abastece todo o distrito do Cruzeiro do Bom Jardim, localizado no município de Silvânia. Ali vivem 40 famílias que sobrevivem da agricultura familiar. A comunidade enfrenta o problema do desmatamento e da diminuição das águas com o avanço da monocultura da soja e a pulverização de agrotóxicos. 

Mato Grosso

A nascente a ser recuperada está na comunidade Poço Azul, no município de Poxoréu. A comunidade do local é composta por 16 famílias tradicionais. A nascente está secando devido à falta de vegetação nativa, o que coloca em risco a subsistência da comunidade, já precisam da água para o plantio de hortas, quintais produtivos e pequenas roças.

Mato Grosso do Sul 

A nascente a ser recuperada está no município de Sidrolândia, dentro de uma área de reserva legal. As famílias que vivem nesse assentamento precisam da recuperação da nascente, que secou por conta da ação do gado que pisoteou as margens. Para recuperá-la, serão necessários novos arames e palanques, a fim de proteger o acesso, além de mudas de vegetação nativa do Cerrado.


Serviço: Lançamento Campanha Salve uma Nascente
Onde: Na plataforma da Benfeitoria, em https://benfeitoria.com/salveumanascente. Acompanhe a divulgação nas redes sociais da CPT Nacional:
Site: www.cptnacional.org.br
Facebook: www.facebook.com/CPTNacional
Twitter: @cptnacional
Contato: (62) 99309-6781 – Amanda Costa – Assessora de Comunicação da CPT

Lançamento da Campanha Babaçu Livre: Vida, Território e Luta

O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), representado por secretarias regionais nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins, lança hoje, 24 de setembro, a campanha “Babaçu Livre: Vida, Território e Luta”, que tem como objetivo impulsionar a valorização dos modos de vida das quebradeiras, o livre acesso aos babaçuais e o direito de viver em territórios livres, além da aprovação de novas leis do babaçu livre, o fortalecimento e a fiscalização de leis já existentes. A campanha tem apoio do Instituto Clima e Sociedade, por meio do projeto Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu Preservando as Florestas, além dos parceiros Fundação Ford, ActionAid e ASW.

A data de lançamento é também marcada pelo Dia Estadual das Quebradeiras de Coco Babaçu nos estados do Maranhão e Piauí, em reconhecimento pela luta histórica das extrativistas de coco. Na mesma data, as quebradeiras piauienses entregam uma minuta de Lei do Babaçu Livre ao governo do Estado, mais uma de várias tentativas de aprovação do instrumento. “Aproveitamos o Dia da Quebradeira de Coco e o lançamento da campanha para entregar o documento da lei ao governo do estado do Piauí. Estaremos novamente fazendo essa articulação, mas a gente não se cansa. Somos resistentes e dizemos que nós existimos. A gente precisa tirar a cerca do nosso meio. Nós sempre lutamos pela liberdade, nós queremos que tudo seja livre, que os babaçuais sejam livres para as quebradeiras de coco”, enfatiza Helena Gomes, vice-coordenadora do MIQCB.
 
Ao longo dos 30 anos de história do movimento, as campanhas “Babaçu Livre” estimularam o debate entre as quebradeiras de coco, a criação e aprovação de leis que garantem o livre acesso aos babaçuais, bem como a proibição de envenenamento das palmeiras, das queimadas e das derrubadas de babaçuais, o corte dos cachos, as queimas do coco por completo e qualquer outro tipo de ação que venha prejudicar o desenvolvimento do babaçu. As quebradeiras de coco são mulheres de múltiplas identidades, como quilombolas, ribeirinhas, indígenas e agricultoras, pluralidade que reforça a luta pelo babaçu livre e pelo acesso à terra e ao território.
 
“Cada uma de nós entende essas leis como um instrumento estratégico de luta. É uma campanha do dia-a-dia, em que nós compreendemos que não existe babaçu livre sem território livre, a partir de um reconhecimento que está dentro dele. O babaçu é nossa vida e nossa essência”, declara Maria Alaídes Alves, coordenadora-geral do MIQCB. Atualmente existem 22 leis aprovadas no âmbito estadual e municipal nas regiões de atuação do movimento.
 

“Para quem não conhece o babaçu, de um cacho eu posso tirar o azeite, faço leite, da casca eu faço o carvão, com a palha nós cobrimos casas, na cozinha o tempero é o azeite de coco e lá nós aproveitamos tudo, até o mesocarpo nós aproveitamos. Então, o babaçu é uma riqueza e ela precisa ser preservada. Não sei por que destroem uma coisa tão rica”, relata Expedita Santos Pereira, quebradeira de coco e liderança da comunidade Água Preta, no município de Amarante, Maranhão, região em que a queima de coco inteiro é intensa, mas ainda se consegue barrar por conta da lei Babaçu Livre, que fortalece o aproveitamento integral da amêndoa. (Lei Municipal nº 22708/2006).

Saiba mais sobre a Lei do Babaçu Livre
 
Entre as décadas de 1980/1990, a luta dos(as) agricultores(as), quebradeiras de coco babaçu e sem-terras contra a exploração do latifúndio ganhou força na região do Médio Mearim, no Maranhão, originando novas frentes de organização e movimentos do campo. Em 1991, com o I Encontrão das Quebradeiras de Coco Babaçu, foram aprofundadas as discussões quanto ao acesso livre aos babaçuais, a preservação e a conservação das florestas de babaçu, associadas à produção, comercialização e autonomia econômica das mulheres quebradeiras de coco babaçu. A partir da atividade, foi elaborada a primeira minuta da Lei do Livre Acesso (Lei n. 05/1997), aprovada em 1997 pelo município de Lago do Junco, no Maranhão.

Por estar ainda incompleta, no ano de 2002, durante seu mandato como vereadora de Lago do Junco, a quebradeira de coco Maria Alaídes apresentou nova lei, de n. 01/2002, que trazia em seus artigos o livre acesso, a proteção e cuidado com as palmeiras, a proibição do uso de veneno, derrubadas, queimadas e outras providências contra os danos aos babaçuais. As duas primeiras leis de Lago do Junco deram sequência às demais aprovações pelo acesso livre em outros municípios do Maranhão, Pará e Tocantins. No Piauí existe uma lei estadual que proíbe a derrubada das palmeiras (Lei Estadual nº 3.888/83).
 
As quebradeiras de coco babaçu movimentam a economia de mais de 271 municípios brasileiros, incentivando a autonomia de mulheres no campo, as trocas econômicas justas, a valorização do modo de vida tradicional, a segurança alimentar e nutricional e as práticas agroecológicas como base das relações com a natureza – a mata nativa, a biodiversidade e a Palmeira Mãe. Como reflete Renata Cordeiro, advogada popular e assessora jurídica do MIQCB, “no ano em que se discute justiça climática, as leis do babaçu livre passam uma mensagem para as casas legislativas: como falar sobre o tema sem as principais protagonistas, que vivem no dia a dia a preservação e conservação do meio ambiente? Mulheres que, apesar de toda a política fundiária, ambiental e econômica voltada para a utilização predatória dos bens e recursos naturais, conseguem preservar e, inclusive, aumentar a incidência de babaçuais nas regiões onde vivem. Fazem isso por meio de prática extremamente consciente, de uma política e economia própria, e de uma ética de relação entre elas com a natureza, com o território e com a vida”.
 
 
Também intituladas Guardiãs da Floresta, as quebradeiras de coco babaçu são detentoras de direitos fundamentais, buscam o direito de acesso aos recursos naturais que compõem a base de sustentação das comunidades agroextrativistas, garantindo o bem viver dessas mulheres. Elas lutam contra as cercas eletrificadas, o uso de agrotóxicos, além das violências físicas e psicológicas e ações predatórias dos poderes políticos e econômicos da pecuária, dos madeireiros, da mineração, da sojicultura, de empresas de eucalipto, especuladores de terra e da biopirataria, que impedem as quebradeiras de realizarem todo o manejo do coco babaçu e demais saberes inerentes a seus modos de vida tradicionais.
 

Em âmbito federal já foram apresentados três projetos de lei relacionados ao Babaçu Livre. O primeiro, nº 1.428, foi apresentado em janeiro de 1996 e previa a proibição da derrubada de palmeiras de babaçu nos estados do Maranhão, Pará, Piauí, Tocantins, Goiás e Mato Grosso. Esse projeto tramitou por dois anos e foi arquivado em fevereiro de 1999. O segundo projeto de lei, de nº 747/2003, foi arquivado em 6 de março de 2008, e o terceiro, de nº 231/2007, também foi arquivado, em janeiro de 2015.

Apesar das aprovações nos âmbitos municipais e estaduais, a implementação e a fiscalização ainda são desafiantes. Para que exista um real acesso das quebradeiras de coco ao babaçu, é urgente uma revisão das leis, pois durante a tramitação algumas leis foram alteradas, prevendo limites à presença das quebradeiras de coco nos babaçuais, a exemplo da exigência de autorização dos proprietários das terras.
 
Conheça o MIQCB
 
O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) é uma organização sem fins lucrativos, iniciada há 30 anos em um processo de união de iniciativas de resistência à devastação dos babaçuais. Liderado por trabalhadoras rurais extrativistas, o MIQCB é o maior movimento de mulheres da América Latina, envolvendo quebradeiras de quatro estados brasileiros – Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins –, que lutam pelo reconhecimento identitário e político, da igualdade de gênero, acesso ao território e babaçuais livres.
 
O MIQCB tem como objetivo articular as quebradeiras na luta pela conservação e democratização do acesso aos recursos naturais, a fim de quebrar a hegemonia de empresários e latifundiários que aumentam a destruição e a ocupação ilegal de grandes áreas públicas ou devolutas, causa da concentração de terras e da privatização dos recursos, inclusive do babaçu – a Palmeira Mãe das quebradeiras.
 
O movimento também busca valorizar os produtos e subprodutos de toda a cadeia produtiva da palmeira do babaçu, a fim de evitar atravessadores indesejáveis e constituir uma linha de produtos e uma marca do movimento. Com o amadurecimento de suas atividades, foi também constituída a Cooperativa Interestadual das Quebradeiras de Coco de Babaçu (CIMQCB).
 
Guardiãs dos babaçuais em uma relação que conecta meio ambiente, ciclos e gerações, as quebradeiras também se articulam em ações e reflexões sobre as relações de gênero, na busca de eliminar os abusos e violências contra a mulher. O MIQCB busca o protagonismo feminino, inserindo as mulheres como agentes políticas, pedagógicas e econômicas, a fim de alcançar grandes conquistas na defesa das florestas de babaçu, como a Lei do Babaçu Livre – nas três esferas governamentais – bem como garantir territórios tradicionais por meio de reservas extrativistas criadas e implementadas e territórios quilombolas demarcados, contribuindo para a regularização fundiária da sua área de abrangência.
 
LIVE DE LANÇAMENTO

O lançamento da campanha “Babaçu Livre: Vida, Território e Luta” acontece durante live no 24 de setembro (sexta-feira), às 15h (horário de Brasília), com transmissão ao vivo pelo canal do MIQCB no YouTube. O encontro virtual pretende discutir as leis de livre acesso às florestas de babaçu, as formas de defesa do território e do modo de vida tradicional, e conta com a participação das quebradeiras de coco Maria Alaídes Alves (coordenadora geral do MIQCB), Helena Gomes (coordenadora da regional Piauí), Cledeneuza Bezerra (coordenadora da regional Pará) e Emília Alves (coordenadora da regional Tocantins). Os parceiros Joaquim Shiraishi, doutor em Direito, pesquisador do Observatório dos Protocolos Comunitários e professor do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFMA, e Helciane de Fátima Abreu, professora de sociologia do Departamento de Ciências Sociais da UEMA e do Programa de Pós-graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia, também integram o grupo de participantes. A mediação do encontro será de Renata Cordeiro, advogada popular e assessora jurídica do MIQCB.


 Texto: MIQCB / Fotos: Ingrid Barros (capa) e Yndara Vasques

“Nós queremos mostrar que os camponeses estão em luta e estão produzindo”: Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul lança novo site

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Mato Grosso do Sul lança nesta semana seu novo site, um canal de comunicação que chega às redes digitais para apresentar ao público as ações, projetos e notícias do regional da CPT, bem como contribuir com a visibilização de denúncias dos conflitos agrários que ocorrem no estado sul mato-grossense. A plataforma está disponível para ser acessada no endereço www.cptms.org.br

De acordo com Anita Alves de Oliveira, agricultora que vive no Assentamento Nazareth, em Sidrolândia (MS), a chegada do site da CPT-MS é bem-vinda. “As pessoas quando pensam nos camponeses, quando pensam nos sem-terra, acham que somos vagabundos porque lutamos para conquistar o nosso pedaço de terra, mas isso não é verdade. Ter um canal de comunicação da CPT aqui no estado é uma oportunidade para mostrar realmente quem somos e o que fazemos, de mostrar o nosso trabalho duro na roça, a nossa produção que alimenta muitas famílias aqui na região”, explica a camponesa.

Quando perguntada sobre o que mais gostaria de ver no novo canal da Pastoral da Terra, Anita não hesitou em responder. “Quero que as pessoas da cidade saibam que as hortaliças e os legumes que nós vendemos na banca da feira vieram lá do Assentamento Nazareth e que nós produzimos”, enfatiza a agricultora.

O novo site da Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul nasce com o propósito de apresentar ao público as ações que são desenvolvidas atualmente pela CPT-MS, mas também de visibilizar sua história e missão. O regional atua há mais de 40 anos no estado, na luta pelos direitos, pelos territórios e pelas vidas dos povos camponeses e tradicionais na região.

“A história da CPT-MS se confunde com a história de luta dos povos do campo no Estado de Mato Grosso do Sul. Foi no seio dos conflitos agrários, tanto em âmbito nacional como estadual, que a CPT-MS é fundada no ano de 1978, em plena Ditadura Militar, que perseguiu, torturou e prendeu centenas de lideranças de camponeses que lutavam pela posse da terra” – explica o artigo que apresenta a história da Pastoral da Terra no Mato Grosso do Sul, já disponível na plataforma.

No espaço virtual da CPT-MS será possível encontrar textos e informações sobre os projetos da Pastoral, como suas ações em combate aos agrotóxicos, luta pelos direitos territoriais dos povos camponeses, implantação de Sistemas Agroflorestais e preservação de nascentes. Além disso, o site apresenta ao público o Arquivo Alfeo Prandel que abriga, além de documentos institucionais, uma vasta documentação sobre a história dos camponeses do MS ao longo de seus encontros e manifestações.

“O arquivo reflete a capilaridade das relações da CPT-MS e das instituições eclesiais com grupos sociais no espaço rural. Muitos destes documentos ainda têm a CPT-MS como seu fiel depositário”, destaca o texto de apresentação do Arquivo, que pode ser lido e acessado no site da entidade.

Para Roberto Carlos de Oliveira, agente da CPT-MS, o lançamento do novo canal de comunicação é uma conquista que é fruto de uma construção coletiva. “Há algum tempo estamos tentando desenvolver essa plataforma e ocupar as redes. Hoje realizamos a primeira etapa deste sonho, que foi colocar o canal no ar”, destaca. “O próximo passo será prosseguir com a gestão compartilhada e participativa do site, estamos nos organizando para este trabalho, criamos um conselho editorial, e vamos em frente com a missão de comunicar às lutas camponesas aqui do estado”, finaliza o agente da CPT. 

Acesse www.cptms.org.br e confira os conteúdos do novo site da CPT-MS.


Texto: CPT-MS / Imagem: Divulgação/CPT-MS