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URGENTE: Lideranças Guarani relatam ameaças de pistoleiros que pressionam por arrendamento de terras no Mato Grosso do Sul

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Na noite do último sábado, 21 de maio de 2022, lideranças da Comunidade da Terra Indígena de Yvy Katu, localizada no município de Japorã (MS), sofreram ameaças de homens armados que pressionam as famílias do Povo Guarani Nhandeva à ceder suas terras para arrendamento – prática criminosa incentivada pelo governo Bolsonaro e autoridades locais do Mato Grosso do Sul.

A área do iminente conflito foi retomada pela comunidade em 2013 e, desde então, é moradia de famílias que historicamente colocaram sua própria vida em risco para garantir o direito originário ao seu território. Kunha Poty é uma das lideranças que tem denunciado há tempos as invasões ao seu território por conta da pressão exercida pelos latifundiários que buscam por arrendamentos. A liderança pede insistentemente ajuda das autoridades locais por conta das ameaças sofridas.

A situação piorou depois que um conjunto de famílias da Comunidade Yvy Katu denunciou, durante a Aty Guasu, Grande Assembleia dos povos Kaiowá e Guarani e que foi realizada entre os dias 17 e 21 de maio em Guaimbé (MS), o arrendamento de terra para o plantio de monocultivos de soja.

As lideranças relatam que, enquanto estavam no evento de seu povo, a mata nativa da área foi derrubada, lavrada para o arrendamento e os insumos agrícolas foram estocados na terra em que vivem as famílias indígenas. Segundo o relato das lideranças, dezenas de caminhonetes de fazendeiros estariam circulando ao redor das casas, efetuando disparos com armas de fogo e ordenando a expulsão das famílias.

Ainda segundo as lideranças, paraguaios, entre eles um identificado como Pedro Alvorada, estariam entre o grupo armado e efetuando ameaças. Uma das ameaças verbais proferidas às família indígenas que vivem no território segundo descreveram as lideranças locais foi: “Se vocês não aceitarem o plantio serão mortos”.

O Conselho Indigenista Missionário no MS destaca que a situação é de extrema tensão e perigo, e que as autoridades têm o dever de proteger as lideranças ameaçadas e investigar as ameaças e invasões na terra indígena. O acesso à comunidade, que se dá pela rodovia MS 386 que foi recentemente asfaltada, oferece possibilidade de ataques as famílias- fato que exige ação protetiva urgente destas famílias indefesas.

Campo Grande, 21 de maio de 2022

Conselho Indigenista Missionário – Mato Grosso do Sul


 Imagem: Comunidade Yvy Katu

Violações de direitos indígenas no MS chegam a supermercados e consumidores europeus

Uma enorme área de soja reivindicada como território tradicional da etnia Guarani Kaiowá em Juti (MS) está diretamente ligada a grandes supermercados e redes de restaurantes na Europa.

 As informações fazem parte do relatório “Sangue indígena: A dura realidade por trás do frango exportado para a Europa”, fruto de uma investigação conjunta entre a organização ambientalista britânica Earthsight e o observatório jornalístico De Olho nos Ruralistas, que monitora o agronegócio no Brasil.

O estudo adentrou as cadeias de suprimento da Lar Cooperativa Agroindustrial, uma das maiores exportadoras de frango do Brasil, e de dezenas de varejistas europeus, onde identificou compras oriundas da Fazenda Brasília do Sul. A Lar exportou à Europa grandes quantidades de frango marinado e congelado, especialmente para Reino Unido, Alemanha e Holanda, assim como ingredientes para produção de ração para pets na Alemanha. 

“Enquanto o atual governo brasileiro fez tudo que podia para obstruir a demarcação de terras indígenas, latifundiários e exportadores de alimentos se beneficiaram de áreas historicamente reivindicadas pelos povos originários”, afirma Rubens Carvalho, diretor de pesquisa em desmatamento da Earthsight. “Estas empresas alcançam mercados globais e, inadvertidamente, tornam os consumidores cúmplices dessas violações”, complementa. 

Expulsão de indígenas durante a ditadura e a agropecuária no MS 

Com 9.700 hectares, a Fazenda Brasília do Sul foi formada sobre um território ancestral da etnia Guarani Kaiowá, conhecido como Taquara, de onde os indígenas foram ilegalmente expulsos nos anos 1950 para dar espaço à monocultura. A política de remoção forçada e confinamento de comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul, implementada durante esse período, é reconhecida pela Comissão Nacional da Verdade como uma grave violação dos direitos humanos.

“O caso da Terra Indígena Taquara é um lembrete poderoso do porquê o governo brasileiro deve cumprir seu dever constitucional e avançar com o processo de demarcação das terras indígenas identificadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em vez de se opor e trabalhar para minar direitos indígenas”, acrescenta Carvalho.

“É igualmente importante que os mercados consumidores se articulem para banir importações de commodities contaminadas pelo desmatamento e violação de direitos indígenas. Este é um dos principais temas legislativos em discussão no Reino Unido e na União Europeia. Mas antes que essas leis sejam implementadas, é necessário fortalecê-las para que atendam os direitos territoriais de forma integral”. 

O barão da carne Jacintho Honório da Silva Filho, conhecido por ter ajudado nas primeiras importações de gado Nelore ao Brasil, comprou a Brasília do Sul em 1966. A transação deu início a um ciclo intenso de desmatamento da Taquara, que havia permanecido praticamente intocada até então. A prosperidade da fazenda cimentaria a influência política e econômica do clã Jacintho. 

Embora tenha feito seu nome na pecuária, na última década a Brasília do Sul passou a produzir soja em larga escala – um dos principais ingredientes de ração animal. Fontes locais confirmaram à equipe da Earthsight e De Olho nos Ruralistas que a soja da Brasília do Sul é vendida a grandes cooperativas e traders, incluindo a Lar Cooperativa Agroindustrial, uma das principais produtoras brasileiras de avicultura. 

Violações dos direitos indígenas alimentam mercado europeu

Registros comerciais mostram que a importadora britânica Westbridge importou mais de 37.000 toneladas de frango congelado e marinado da Lar entre 2018 e 2021 – cerca de um terço das exportações totais da empresa ao Reino Unido e União Europeia no período.  

A Westbridge é uma importante fornecedora de produtos à base de frango para supermercados do Reino Unido, como Iceland, Sainsbury’s, Asda, Aldi, bem como a rede de fast food KFC.

No mercado de pets, o principal cliente europeu da Lar foi a empresa alemã Paulsen Food, que importou 14.000 toneladas entre 2017 e 2021. A Paulsen Food fornece estes produtos às fabricantes Saturn Petcare e Animonda Petcare. A Saturn distribui rações a varejistas como Aldi Nord, Aldi Süd, Lidl, dm-drogerie markt, Edeka, Netto Marken-Discount, Rewe Markt e Rossmann. Já os produtos da Animonda podem ser encontrados na Fressnapf, a maior revendedora de ração animal da Europa, e em lojas online como Zooplus, Medpets e Vetsend.

Impunidade

Nesse intervalo, as tentativas dos Guarani Kaiowá de retomar seu território vem sendo brutalmente suprimidas, incluindo através de despejos violentos e do ataque judicial. Essa violência culminou em 2003 com o assassinato do líder indígena Marcos Veron, espancado até a morte quando empregados da Brasília do Sul e pistoleiros contratados atacaram o acampamento dos Guarani Kaiowá dentro da fazenda.

Três pessoas foram condenadas pelo crime, mas Jacintho Honório da Silva Filho, apontado como mandante do crime, nunca enfrentou a justiça. Ele morreu em 2019 aos 102 anos. Seus herdeiros ainda são donos da Brasília do Sul. 

Atualmente, os Guarani Kaiowá continuam sofrendo com a falta de acesso às suas terras ancestrais. Apesar da Constituição Federal proteger os direitos territoriais indígenas, sucessivos governos e o próprio sistema de Justiça vêm ignorando seus anseios, em favor de latifundiários.

Nos últimos anos, Jacintho e seus familiares apoiaram ativamente o presidente Jair Bolsonaro e políticos do agronegócio, como a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina, que promoveram a expansão agropecuária às custas dos direitos indígenas.

O Mato Grosso do Sul possui o maior número de homicídio de indígenas no Brasil, frequentemente descrita por especialistas como “genocídio” ou “extermínio”. Mesmo marginalizados, os Kaiowá mantêm sua capacidade de resistência e esperança. 

A soja produzida na Brasília do Sul está também vinculada a consumidores europeus através de outra grande cooperativa brasileira, a Coamo, que esteve implicada no episódio conhecido como “Massacre de Caarapó”. Uma das plantas da empresa no município foi o ponto de encontro de onde 70 pistoleiros contratados por fazendeiros locais saíram para atacar uma comunidade Kaiowá, resultando no assassinato do agente de saúde indígena Clodiode de Souza e em seis pessoas feridas, incluindo uma criança.

Entre 2017 e 2021, a Coamo exportou 3,9 milhões de toneladas de bagaço de soja (um produto obtido da prensagem dos grãos e usado em ração animal), para União Europeia e Reino Unido. A Alemanha foi responsável por metade dessas exportações e a Holanda por outros 36%.


Texto e imagem por Earthsight e De Olho nos Ruralistas 

Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) reconhece e apoia Tribunal dos Povos do Cerrado

Nesta sexta-feira (13), o Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado foi oficialmente apresentado na 58ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Joice Bonfim, advogada e secretária executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, fez a apresentação.

“O que o Tribunal reivindica é alertar para o processo de ecocídio do Cerrado, e para a necessidade de deter esse processo antes que ele seja irreversível, e o Cerrado seja extinto. O processo que se estabelece no tribunal também pretende contar a verdade sobre os povos e sobre sua diversidade cultural, resgatar a memória de suas lutas; parar a impunidade da que se aproveitam o agronegócio e a mineração no casos de crime de ecocídio do Cerrado; e obter justiça e reparação no marco dos conflitos”, enfatizou Joice, durante sua apresentação.

Após a apresentação do Tribunal, Marcelo Chalréo, conselheiro do CNDH, fez a leitura da proposta de Resolução de apoio institucional e legal do Conselho à Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado do TPP, que foi aprovada por aclamação pelo grupo de conselheiras e conselheiros presentes. Além do apoio, o documento explicita o compromisso do Conselho com a implementação das medidas e decisões formuladas pelo TPP.

A Resolução do CNDH destaca o caráter emergencial da conjuntura de violações de direitos e ameaças que a região e seus povos enfrentam. Ao tratar do Cerrado, o documento aponta para o fato de se tratar de um “ecossistema brasileiro brutalmente afetado pela expansão das cadeias do agronegócio, que tem por consequência o fator de ameaças contínuas, quiçá com potencial de extinção, aos grupos populacionais referidos”.

Em nome do Conselho, Marcelo Chalréo foi designado para acompanhar as atividades e a Audiência Final sobre Terra e Território do TPP, prevista para acontecer entre os dias 8 e 10 de julho, em Goiânia (GO). Para Joice Bonfim, a aproximação com o CNDH é um importante passo dado. “Um dos objetivos do Tribunal dos Povos do Cerrado é incidir politicamente e visibilizar as denúncias de violações de direitos junto aos órgãos do Sistema de Justiça brasileiro. Acreditamos que esse apoio do CNDH possa contribuir com esse processo”, finaliza a advogada.

Assista, abaixo, a apresentação do TPP na Reunião do CNDH a partir do momento 1:53:00 do vídeo:

Para saber mais sobre o TPP acesse seu site e os canais de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.


 Imagem: Reprodução Youtube CNDH

Por manter Cerrado preservado, casal é ameaçado no norte de Minas Gerais

Os ambientalistas Maria Izabel e Clailson Gonçalves resistem no Sítio Barreiro Azul em situação de vulnerabilidade e ameaças se intensificaram nos últimos meses

No último dia 28 de abril, durante a solenidade de entrega do prêmio “Mulheres Rurais – Espanha Reconhece”, quando o projeto “Sabores do Cerrado” foi premiado em Brasília, uma frase chamou atenção. Na ocasião, Marineide Santos, presidente da cooperativa localizada em Miravânia (MG) e que coordena o projeto premiado, disse ser inspirada por Izabel, “uma mulher que estava ameaçada de morte por defender seu território”.

Trata-se, na verdade, da história do casal Maria Izabel e Clailson Gonçalves, moradores há cerca de 15 anos do Sitio Barreiro Azul, localizado da zonal rural de Varzelândia, norte de Minas Gerais. Segundo Izabel, o fazendeiro José Pereira tem ameaçado ela e Claison, seu marido, de morte para que a área de Cerrado próxima à fazenda, protegida pelo casal, seja apropriada para a pecuária bovina.

“Eu sou herdeira legítima da área. No entanto, ela foi vendida sem documentação, sem que a partilha tivesse sido feita entre herdeiros e sem meu conhecimento. O fazendeiro sabia que eu residia na área e que tinha interesse em ficar nela quando procedeu esta compra. Ele cercou a área em que vivo, mesmo sem a decisão da Justiça. No outro lado, a casa sede da fazenda está abandonada; o fazendeiro não reside por lá”, explica Maria Izabel.

Ela, que também é coordenadora nacional do Movimento dos trabalhadores e trabalhadoras do Campo (MTC), registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de Varzelândia e denunciou o fazendeiro, conhecido na região por “Zé Ruim”. Por duas vezes, ainda em janeiro deste ano, segundo o BO registrado, ele levou policiais para a residência do casal, sendo uma das vezes sem que eles estivessem presentes na casa.

De acordo com relato publicado no blog Cartas Proféticas por Dom Orvandil, há testemunhas da ameaça. Euclides Lopes, um vizinho do casal, afirma que o José Pereira disse ao policial que “o filho dele quer vir resolver do jeito dele”. Segundo Lopes, o fazendeiro estava com dois policiais armados. “Eu fui e falei que não adianta brigar porque, não vai resolver nada, além do seu filho, vir aqui brigar, se ele matar alguém, ele vai preso e se alguém matar ele vai preso também. Tem que ser resolvido na justiça e não com as próprias mãos”, completou.

A área do Sítio Barreiro Azul onde Maria Izabel e Clailson residem é área de cerrado preservado. Eles mantêm hortas e plantio de ervas medicinal. No entanto, a situação é de extrema vulnerabilidade social. A casa onde reside o casal não possui energia elétrica, não possui água e o abastecimento é por caminhão pipa. Com a cerca construída, o “ir e vir” do casal também está prejudicado. Segundo Maria Izabel, a tensão é constante. “O fazendeiro segue rondando meu barraco. Às vezes vai só, às vezes com os filhos. Na última vez, já no mês de maio, ele rodeou a área com uma pessoa desconhecida”, narra.

Solidariedade

Além do próprio MTC, outras organizações têm acompanhado o caso. No dia 04 de abril, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) visitou Maria Izabel. De acordo com Irmã Etelvina Moreira de Arruda, representante da CPT, é preciso que entidades de Direitos Humanos estejam a par da situação, pois apoiam Maria Izabel “enquanto liderança na comunidade, enquanto parceira e companheira na luta, enquanto mulher”.

Casal recebe visitas do MTC, CPT e advogados que acompanham o caso. Foto: MTC

Durante a visita da CPT, o advogado Aldinei Leão, do Centro de Referência em Direitos Humanos (CDRH), localizado em Montes Claros, também esteve no local. Segundo Leão, o trabalho desenvolvido pelo Centro é de monitoramento do que já tem sido feito pela advogada do casal.

“Apesar de Maria Izabel empreender uma luta coletiva, o conflito está no âmbito do direito individual, pois se trata de um conflito que envolve herança. Nós queremos garantir que as providências sejam tomadas em relação às ameaças. Nós encaminhamos junto ao município as questões sociais envolvidas, pois há uma grande vulnerabilidade social e psicológica envolvida”, disse Leão.

De acordo com o último relatório “Conflitos no Campo” divulgado pela Pastoral da Terra, no ano de 2021 houve aumento de 75% no número de assassinatos em conflitos no campo, no Brasil. Já o número de mortes em decorrência de conflitos registrou um aumento de 1.100%.

Ainda segundo a CPT, a atuação da “pistolagem sob encomenda” e das “agromilícias”, bem como de agentes públicos, ocasionaram 35 assassinatos por conflitos no campo, no Brasil, em 2021.


Texto: Mayrá Lima (Comunicação do MTC) | Fotos: MTC

Semana da Terra e das Águas Padre Josimo 2022 inicia no sábado, 07 de maio

Entre os dias 7 e 10 de maio, as organizações e pastorais sociais do Tocantins, junto às Dioceses de Imperatriz e Tocantinópolis, realizam a Semana da Terra e das Águas, em memória do martírio do Padre Josimo Morais Tavares, assassinado em 10 de maio de 1986, em Imperatriz do Maranhão.

Neste ano, as atividades acontecerão nos formatos remoto e presencial, com a presença de romeiros e romeiras, lideranças sindicais, membros de comunidades rurais e pessoas que compõem o trabalho de base na luta em defesa da terra e da agroecologia no Tocantins. A Rede Bico Agroecológico e a ONG APA-TO são parceiras neste evento.

Desde 1988, é celebrada a Romaria da Terra e das Águas. E em 2008, aconteceu a primeira edição da Semana da Terra e das Águas Padre Josimo, com o objetivo fiel de manter vivo o sonho de Josimo, escolhendo a vida e o lado dos empobrecidos, sendo povo de Deus que não quer calar quando o direito, a dignidade e a liberdade do irmão são violadas. “Chegou a hora de levantar” é o tema desta edição de 2022.

A Semana é um espaço de memória, fé e denúncia às violências contra os pequenos do campo e da cidade, ainda sem terra, sem teto e sem trabalho, o roubo da dignidade e a exploração do trabalho escravo. Que todos possam resistir frente às violências e lutar por uma vida digna, ecoando o compromisso de Josimo: “Se eu calar, quem os defenderá?”.

Programação

– Dia 7, às 19h (online): Live “À sua descendência, darei esta terra! Ai de mim se não o falo”.

– Dia 8, às 19h (online): Live “Olinda, o teu olhar. Mãe serena vive em nós! Este é o meu filho!”.

– Dia 9, às 19h (presencial e online): Live “Ê, Josimo companheiro: tua vida em nossas vidas!” | Presencial em Buriti (TO).

– Dia 10, às 19h (presencial e online): Missa no município de Buriti (TO) | Tema: “Páscoa de Cristo, Páscoa dos Mártires – Lutamos pela vida: morro por uma causa justa”.

A transmissão das lives e da missa será ao vivo, pelos canais da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Araguaia (TO), no FacebookDiocese Tocantinópolis Oficial e Neuza – UFT Agroecologia, no Youtube.

Pode ser uma ilustração de uma ou mais pessoas, barba e texto


 Texto: Assessoria de Comunicação da APA-TO

Comissão brasileira pauta desmatamento do Cerrado no congresso espanhol

Delegação brasileira apresentou o panorama nacional sobre o desmatamento do ecossistema para plantio de soja no Congreso de los Diputados.

O Brasil foi pauta do dia mais uma vez no congresso espanhol. Dessa vez o tema foi o desmatamento no Cerrado, uma das consequências da agroindústria produtora de soja, em sessão da Comissão de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. O tema foi apresentado pelas vozes de Valéria Pereira Santos, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e integrante da Coordenação Executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado; e André Campos, jornalista da Repórter Brasil.

Por cerca de uma hora Valéria e André falaram aos deputados espanhóis em um dia agitado pelo depoimento da diretora do Centro Nacional de Inteligência (CNI) sobre a espionagem realizada a pessoas ligadas ao indepedentismo catalão. A denúncia, publicada pela revista The New Yorker – chamadas “catalangate” – caíram como uma bomba no país, dificultando ainda mais a já delicada geometria parlamentária espanhola. Mas isso merece um texto à parte, voltemos à Terra Brasilis.     

O panorama apresentado, tristemente, não pinta nada bem – como qualquer coisa no país desde 2018. Há uma grande preocupação da União Europeia para que as importações tenham um “selo verde”. A soja brasileira aqui tem dois usos principais: alimentação de gado e fabricação de biocombustíveis. A troca do azeite de palma pelo de soja gera um enorme interesse no grão vindo dos trópicos, o que desencadeia mais e mais desmatamento e grilagens. Por tabela, áreas utilizadas para pecuária são também empurradas, expandindo sobre outros ecossistemas.

Diversos países visam deixar de utilizar soja e palma a curto prazo. França, Portugal ou Alemanha, por exemplo, até o ano que vem no máximo. Já a Espanha aparentemente utilizará toda margem oferecida pela UE, 2030.

“O Agro é pop, é tech, é tudo”, diz o slogan da televisão. É também invasões, conflitos e morte. A Pastoral da Terra aponta que 109 pessoas perderam a vida em decorrência de conflitos no ano passado, e em 2020, 40% dos conflitos aconteceram no Cerrado e área de transição. Copio e colo, literalmente, o que diz o informe sobre massacres no campo da CPT:

Atualmente, destaca-se a nova crescente de massacres dos últimos 20 anos, que se inicia em 2017 e se mantém com registros anuais de novos episódios de violência. Esse “novo boom” reflete um período no qual a conjuntura política e a consolidação da extrema direita nas estruturas legislativas e executivas beneficiaram diretamente o avanço do agronegócio, garimpo, desmatamento e queimadas. Neste período, 50 pessoas foram vitimadas fatalmente, em 9 massacres.  

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MATOPIBA

A sigla une os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia para além das letras: é umas das regiões mais desmatadas para plantação de soja. Em um modelo de produção nada sustentável, a produção de soja engloba o uso de água, esgotamento da terra e as vidas dos que lutam em sua defesa. É necessário mais do que um papel, ponto no qual André foi assertivo: não confiem em nada que venha do Brasil. Da mesma forma que árvores centenárias de mata nativa tornam-se legais em uma assinatura, dois carimbos e um folha de papel carbono, a soja recebe igual tratamento.

O desmatamento no atual governo aumentou quase 80% em áreas protegidas. Na Amazônia, incremento de 57%. São recordes sobre recordes. Mais da metade em terras públicas e quase todas federais. Nas terras indígenas crescimento de 150%. Da soja entregue à Europa, 2/3 sai da Amazônia ou do Cerrado. Esse, porém, não dispõe da mesma proteção daquele. E sem proteger o Cerrado, como salientou Valéria, é impossível proteger a floresta amazônica.

A la vez, territórios indígenas e quilombolas, onde a natureza é melhor preservada, são alvo de invasões – se não acobertadas pelo governo federal, ao menos ignoradas para ser delicado. É necessário e urgente que Cerrado e Pantanal sejam incluídos no acordo da União Europeia com o Mercosul. Garantir a sua demarcação e proteção é defender o meio-ambiente e atuar concretamente contra o aquecimento global – algo que os governos do velho mundo precisam ter muito claro. Defender a Amazônia é defender o Cerrado e o Pantanal.

Foto: Ecologistas en Acción

Comunidade quilombola será leiloada no Maranhão

O quilombo Mundico, que integra o território Vivo junto com outras sete comunidades localizadas no município de Santa Helena, no Maranhão, foi surpreendido com a notícia que deve ser leiloado. O leilão prevê a venda de 191 hectares de terras no Quilombo Mundico, no Território Vivo, do qual a comunidade faz parte. Previsto para ocorrer dia 5 de maio, quinta-feira, às 11 horas da manhã, o leilão será realizado como forma de pagar dívidas de um indivíduo identificado como Luiz Henrique Diniz Fonseca, ex-prefeito de Porto Rico (MA), que se diz proprietário da área.

O certame será conduzido pela empresa HastaVip, do grupo Vip Leilões. Se for efetivado, o leilão de 191 hectares vai agravar ainda mais o conflito estabelecido entre a comunidade e aqueles que se dizem donos das terras ancestrais. O quilombo possui processo de regularização fundiária aberta desde 2013 junto ao INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), sem que nenhuma etapa do processo tenha sido concluída.

As comunidades do território quilombola Vivo são vítimas da morosidade e da falta de interesse do Estado brasileiro, através do INCRA, em realizar o processo de regularização fundiária ao qual têm direito. Divulgue e denuncie esta violação!


Informações e foto enviadas pela Comunidade Mundico

CNDH recomenda que Minas Gerais revogue resolução que institucionaliza consulta em desacordo com Constituição e OIT

Recomendação do conselho afirma que consulta livre, prévia, informada e de boa fé de povos e comunidades tradicionais deve seguir parâmetros nacionais e internacionais

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) publicou recomendação destinada ao estado de Minas Gerais para que revogue resolução que regulamenta e institucionaliza consulta livre, prévia e informada a povos e comunidades tradicionais em licenciamento ambiental de empreendimentos privados com intervenção mínima e/ou auxiliar do estado.

Para o conselho, a Resolução Conjunta nº 01/2022 expedida pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) e Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) é contrária aos direitos humanos, inconstitucional e inconvencional por violar frontalmente normativas nacionais e internacionais, como a Convenção nº. 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Constituição Federal de 1988, que determina competência privativa da União legislar sobre populações indígenas.

O CNDH explica que o Brasil reconhece o caráter obrigatório da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) desde 1998, quando se comprometeu a implementar as decisões do órgão decorrentes da responsabilidade internacional por violações de direitos humanos. Segundo o colegiado, os Protocolos de Consulta Prévia, associados aos padrões internacionais fixados pela Convenção nº. 169 e jurisprudência da CIDH, oferece parâmetros suficientes para aplicação concreta do direito à consulta prévia, livre, informada e de boa-fé.

Já a Resolução publicada pelo estado de Minas Gerais permite que as consultas sejam comandadas por empresas interessadas na aprovação do projeto, em claro conflito de interesse; autoriza que governos municipais conduzam os processos; vincula, necessariamente, a identificação de povos tradicionais a estudos, sem mencionar quem aplicaria tais estudos e com qual metodologia; restringe a necessidade de certificação, ferindo a autodeterminação prevista na Convenção nº. 169 da OIT; expressamente prevê que a decisão das comunidades na consulta não é vinculante; e define que protocolos não são indispensáveis para realização da consulta.

A recomendação do CNDH destina-se também a representar à 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal para que tenha ciência da manifestação e promova medidas para suspensão imediata da resolução conjunta com vistas a garantir o direito à consulta livre, prévia, informada e de boa fé dos povos e comunidades tradicionais do estado de Minas Gerais.

Leia aqui a Recomendação nº16/2022 do CNDH.


Texto: Conselho Nacional de Direitos Humanos

Foto: Ingrid Barros

O episódio #2 do Podcast ”Justiça que brota da Terra” está no ar!

No segundo episódio, o programa Justiça que Brota da Terra traz os depoimentos de Miraci Pereira, do Assentamento Roseli Nunes, no município de Mirassol d’Oeste, Mato Grosso; Marli Borges, do Quilombo Guerreiro, município de Parnarama, Maranhão; Leandro dos Santos, do Quilombo Cocalinho, também em Parnarama, Maranhão; e Félix Lima, popularmente conhecido como Gato Félix, camponês morador do Acampamento Viva Deus, em Imperatriz, Maranhão. Eles apresentam denúncias contra Estados e empresas pela contaminação por agrotóxicos de comunidades e seus territórios e pelo desmonte de políticas de segurança alimentar, da comercialização da produção camponesa e dos produtos da sociobiodiversidade.
 
As denúncias foram feitas no dia 15/03/22, durante a Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.
 
Escute o podcast no spotify:
 
 
Ou no Youtube:
 
 
O programa é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Este episódio foi apresentado por Rosalva Gomes, quebradeira de coco e artesã do babaçu do Cerrado maranhense, e contou com a parceria da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O roteiro é de Bruno Santiago e Sabrina Duran e edição de áudio da Angola Comunicação.
 
Saiba mais sobre o TPP: www.tribunaldocerrado.org.br
 

Foto em destaque: FASE
 

Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reúne sua coordenação ampliada 

Nesta terça-feira, 26 de abril, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado reuniu sua coordenação ampliada para discutir e avaliar as ações do Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado (TPP). Cerca de 50 pessoas participaram da reunião em formato virtual, entre representantes de povos indígenas, comunidades tradicionais, grupos de pesquisa, movimentos e organizações integrantes da Campanha.

A reunião ofereceu um espaço de avaliação, articulação e construção coletiva das ações do TPP. Foram discutidos os efeitos que podem ser observados a partir da trajetória do Tribunal até o momento atual, destacando os impactos positivos e os elementos que podem ser aprimorados. A coordenação ampliada também debateu coletivamente sobre os próximos passos do Tribunal, apresentando propostas concretas e deliberando sobre as futuras atividades que serão implementadas.

Raimunda Nonata, da Comunidade Quilombola Cocalinho, situada no leste maranhense, relatou que as violações e denúncias que são feitas a respeito do caso de Cocalinho e Guerreiro ganharam mais visibilidade a partir da atuação do Tribunal. Nonata também destacou que o processo do TPP têm colaborado com a organização política interna das famílias que vivem na comunidade. 

O aumento da visibilidade também foi um ponto destacado por Davi Krahô, representante do caso do Povos Indígenas Krahô-Takaywrá, Krahô Kanela e comunidades assentadas da reforma agrária nos municípios de Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão (TO). “As pessoas em nosso estado não sabem o que a gente passa em nossa comunidade, não sabem sobre a questão dos ataques de agrotóxicos, por isso o Tribunal é muito importante, ajudando a mostrar a nossa realidade para o país e a nível internacional também”, enfatizou Davi.

WCelia Carvalho, agente do Movimento Interestadual de Quebradeiras de Coco Babaçu (Miqcb) no Maranhão, relatou que as discussões do TPP junto às comunidades tem levado esperança e força de vontade às moradoras e moradores do Acampamento Viva Deus, em Imperatriz, Maranhão. “Com as audiências do Tribunal deu pra perceber que a comunidade tem esperança de ter alimentação saudável de novo, produção e também acesso à terra e ao território livres”, disse WCelia, que assessora a comunidade de Viva Deus.

Em plenária, os/as participantes partilharam sobre o fortalecimento das lutas e resistências das comunidades tradicionais e povos indígenas a partir da construção do Tribunal, que agora passa a dedicar seus esforços para a organização e mobilização da Audiência Final sobre Terra e Território, agendada para acontecer entre os dias 8 e 10 de julho, em Goiânia (GO), com transmissão pelos canais de comunicação da Campanha.

No dia em que se destacam as lutas indígenas, conheça os casos do TPP que afetam povos originários no Cerrado

No dia em que relembramos as lutas dos povos originários em defesa de suas terras e territórios ancestrais, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado chama a atenção para os casos apresentados ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado que incidem sobre a vida de povos originários.

Em comum, os casos apresentam a expropriação de terras e águas fundamentais à vida dos povos, seja pela contaminação por agrotóxicos, seja pelo cercamento ou pela grilagem. Como autores das violências estão Estados nacionais e estrangeiros, além de empresas de dentro e de fora do país, incluindo fundos de pensão internacionais.

A Campanha convida a todas e todos a ouvirem as vozes que denunciam as violações, e a somarem na luta, lado a lado, em defesa da permanência dos povos originários em seus territórios ancestrais com plenas condições de vida e relação com a terra.

Já é tempo de fazer a #JustiçaQueBrotaDaTerra

MATO GROSSO DO SUL

Povos indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau em Terras Indígenas e retomadas em diversos municípios do Mato Grosso do Sul lutam para seguir existindo enquanto enquanto enfrentam situações de desterritorialização, confinamento extremo, assassinatos, torturas, espancamentos, ataques com armas de fogo, agrotóxicos e insegurança alimentar extrema constituindo um processo de genocídio/etnocídio em curso, no marco de décadas de intensos conflitos com fazendeiros e grileiros do agronegócio exportador, com apoio do estado e de poderosos políticos.

PIAUÍ

Comunidade Tradicional do Território Chupé e Povo indígena Akroá Gamella, da Terra Indígena Vão do Vico, no município de Santa Filomena, lutam pela permanência e titulação de seus territórios enquanto sofrem com a expropriação ilegal e desmatamento de parte de seus territórios tradicionais nas chapadas por empreendimentos de monocultivo de soja de grileiros, políticos e fundos de pensão internacionais. São muitos os impactos ambientais sofridos com contaminação por agrotóxicos nas nascentes de água, do solo e das roças das comunidades por via área através do vento, violências e mais recentemente grilagem verde (via CAR) nos baixões, na parte dos territórios tradicionais.

TOCANTINS

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela no município de Lagoa da Confusão resistem à apropriação ilegal das águas por meio de barragens, canais, bombas e desvio do leito do rio, à consequente seca, ao desmatamento e à contaminação por agrotóxicos na bacia dos rios Formoso e Javaés, afluentes do Araguaia, causadas pelos produtores do Projeto Rio Formoso de monocultivo irrigado de arroz, soja e outros, com apoio do Estado e omissão do órgão fiscalizador (Naturatins). Enquanto sofrem a afetação nas águas, base da reprodução de seus modos de vida e sua saúde, os Krahô-Takaywrá lutam pela demarcação de seu território e os Krahô Kanela vivem em 7 mil hectares e lutam pela outra parte do território que está ainda em posse dos fazendeiros.

Saiba mais sobre o TPP: https://tribunaldocerrado.org.br/


Foto em destaque: Andressa Zumpano

Podcast “Justiça que brota da Terra” aborda lutas e resistências dos povos do Cerrado

No primeiro episódio, o programa Justiça que Brota da Terra traz os depoimentos de Erileide Domingues, do povo Guarani e Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, Renato Krahô, da Lagoa da Confusão, no Tocantins, e de Mercês Alves, indígena do Povo Akroá-Gamella e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Piauí. Eles apresentam denúncias contra Estados e empresas pela contaminação por agrotóxicos de comunidades e seus territórios e pelo desmonte de políticas de segurança alimentar, da comercialização da produção camponesa e dos produtos da sociobiodiversidade.
 
As denúncias foram feitas no dia 15/03/22, durante a Audiência sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado. Ouça abaixo:
 
No Youtube:
 
 
No Spotify:
 
 
O programa é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Este episódio foi apresentado por Rosalva Gomes, quebradeira de coco e artesã do babaçu do Cerrado maranhense, e contou com a parceria da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O roteiro é de Bruno Santiago e Sabrina Duran e edição de áudio da Angola Comunicação.
 
Escute o Programa Justiça que brota da Terra nas plataformas Anchor, Spotify ou no Youtube.
 
Saiba mais sobre o TPP: www.tribunaldocerrado.org.br

Governo de MG viola Convenção 169 da OIT e entidades exigem revogação imediata de medida

Resolução conjunta SEMAD e SEDESE foi publicada no Diário Oficial no dia 5 de abril e regulamenta a Consulta, Livre, Prévia e Informada de povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais

Em Carta Pública de Repúdio, pelo menos 80 comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e populares denunciam inconsistências na Resolução Conjunta Sedese/Semad Nº 01, de 4 de abril de 2022 (colocar link), publicada no Diário Oficial do Governo de Minas Gerais no dia 5 de abril.

A Resolução regulamenta o Direito de Consulta previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e determina a “Consulta Livre, Prévia e Informada” promovida pelas duas secretarias “para consultar os povos interessados, mediante procedimentos apropriados, cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente”, aponta trecho do documento.

Para os signatários da Carta, a Resolução fere princípios básicos de participação e da própria Convenção 169 da OIT, que faz parte do ordenamento jurídico do país, desde 2004. A Convenção “tem por objetivo ser um instrumento de proteção e salvaguarda dos direitos de povos e comunidades tradicionais, garantindo-lhes, dentre outros, o direito à autoatribuição, o direito à consulta e de participação da tomada de decisões que possam trazer impactos ao seu modo de vida”, destaca trecho da Carta Pública.

Não por acaso, a Resolução foi publicada um dia depois da realização de uma reunião do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) com comunidades geraizeiras de Vale das Cancelas, em Montes Claros, que tratou sobre o Direito à Consulta.

Antes, no dia 22 de março, o MPMG emitiu uma recomendação para que as duas secretarias suspendessem as audiências públicas que seriam realizadas nos dias 28 e 29 de março nas cidades de Grão Mogol e Fruta de Leite, ambas localizadas no escopo do Projeto Bloco 8, da mineradora SAM. As audiências públicas foram suspensas até que as comunidades fossem consultadas, conforme determinação da Convenção 169.

“Esta resolução do governo ZEMA vem, portanto, para acelerar os grandes projetos de morte, como o projeto Bloco 8 da empresa Sul Americana de Metais (SAM), que representa a confirmação de um modelo de exploração mineral que já deu mais do que suficientes provas de falência e caos, que provocou catástrofes criminosas e impunes como as ocorridas em Mariana (2015) e Brumadinho (2019)”, denuncia trecho da Carta.

Leia a Carta completa e ASSINE AQUI

A Carta alerta ainda que a elaboração da Resolução já fere a Convenção 169, tendo em vista que não foi realizada com a participação de povos e comunidades tradicionais. “Entendemos, assim, que essa Resolução é mais uma manobra do Governo Zema, a serviço dos grandes empreendimentos, das mineradoras e empresas do setor de energia, para criar uma aparência de diálogo. A verdade é que ela é violenta e retira os direitos dos povos e comunidades tradicionais”, alerta outro trecho da Carta.

Confira outros pontos da Resolução que violam os direitos de povos e comunidades tradicionais:

– Abre brechas para mais violências empresarial e estatal contra as comunidades;

– Permite que empresas com interesses em instalar empreendimentos realizem a Consulta;

– Favorece empresas e limita, intimida a liberdade de consulta livre, prévia e informada para as populações tradicionais;

– Prevê que, não havendo consenso na Consulta junto aos Povos e Comunidades Tradicionais, a decisão final será da SEMAD, mesmo que os povos e comunidades consultados neguem a aprovação do empreendimento;

– Impõe prazos que violam o caráter livre e informado da consulta, como por exemplo o prazo de 45 dias corridos para a elaboração de Protocolos de Consultas e 120 dias para a conclusão da consulta.


 Foto: Ingrid Barros 

Júri do TPP destaca grilagem de terras e uso massivo de agrotóxicos pelo agronegócio durante pronunciamento sobre audiência

No último dia 29 de março, o júri do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado se manifestou publicamente sobre os casos apresentados durante a Audiência Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade, realizada de maneira virtual entre os 15 e 16 de março, sendo parte da programação oficial de atividades do TPP no Brasil.

O pronunciamento foi a primeira reação do painel de juízes do TPP sobre as denúncias relatadas durante a Audiência e sobre a acusação do crime de ecocídio contra o Cerrado e genocídio cultural de seus povos indígenas e comunidades tradicionais que tem sido  cometido de forma sistemática por Estados e empresas. Participaram do evento de transmissão da declaração as e os integrantes do júri Antoni Pigrau, Dom Valdeci Mendes, Enrique Leff, Deborah Duprat, Eliane Brum, Philippe Texier, Rosa Acevedo, Silvia Ribeiro e Teresa Cravo.

“A declaração é fruto de um trabalho coletivo, e ainda tem caráter preliminar. É um gesto de agradecimento às comunidades pelo esforço das denúncias que fizeram na audiência, e um reconhecimento da urgência dos seus testemunhos”, disse Teresa Cravo antes de iniciar a leitura da declaração.

Pronunciamento

Os seis casos da segunda e penúltima audiência temática do TPP foram apresentados ao longo do dia 15/03. Em seu pronunciamento, o júri apontou que todos eles possuem dois traços comuns que merecem destaque.

“Em primeiro lugar, a denúncia da grande concentração e grilagem de terras, da existência de enormes plantios com culturas transgênicas e do uso massivo e sem controle dos agrotóxicos que estes implicam, por parte das grandes empresas do agronegócio e fazendas. Em segundo lugar, a denúncia de que esta realidade tem efeitos diretos e indiretos muito perversos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais, como o impacto na saúde das pessoas, incluindo crianças, devido à contaminação por agrotóxicos nas áreas ligadas às práticas tradicionais de plantio e coleta, e pelo uso das águas contaminadas e resíduos nocivos na alimentação”.

Outro ponto de destaque na declaração foi a participação ativa do estado brasileiro nas violações contra povos e comunidades tradicionais, na medida em que a sua principal política econômica pressupõe e facilita esse modelo do grande monocultivo e do uso intensivo de agrotóxicos. “O Brasil é atualmente o maior usuário de agrotóxicos do mundo, e o segundo maior nas lavouras transgênicas, que implicam um aumento ainda maior do uso de agrotóxicos”, apontou a declaração.

Racismo ambiental

O racismo ambiental, que atravessou depoimentos de representantes dos casos e também de relatoras e relatores de acusação, foi outro ponto central da declaração do júri, uma vez que aparece como pilar onde se assentam as violações denunciadas. “O ‘racismo ambiental’, de forma intencional ou não, impede o Judiciário brasileiro de dar resposta adequada a essas múltiplas violações de direitos dos povos do Cerrado e à defesa de seus direitos existenciais, aos direitos coletivos das comunidades territoriais a seus bens comuns, e aos bens comuns da humanidade.”

Leia AQUI a declaração completa do júri

Os casos

Veja a seguir detalhes de cada um dos seis casos apresentados durante a audiência no dia 15/03.

Piauí

Ribeirinhos do Chupé e Indígenas Akroá-Gamella do Vão do Vico

 

Comunidade Tradicional do Território Chupé e Comunidade Indígena Akroá-Gamella da Terra Indígena Vão do Vico, no município de Santa Filomena, Piauí, lutam pela permanência e titulação de seus territórios enquanto sofrem com a expropriação ilegal e desmatamento de parte de seus territórios tradicionais nas chapadas por empreendimentos de monocultivo de soja de grileiros, também beneficiados por investimentos de fundos de pensão internacionais. As violações causam impactos ambientais com contaminação por agrotóxicos nas nascentes de água, contaminação do solo e das roças das comunidades por via aérea através do vento. 

Tocantins

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela

 

Povos Indígenas Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela e comunidades assentadas da reforma agrária nos municípios de Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão, no Tocantins, resistem à apropriação ilegal das águas por meio de barragens, canais, bombas e desvio do leito do rio, à consequente seca, ao desmatamento e à contaminação por agrotóxicos na bacia dos rios Formoso e Javaés, afluentes do Araguaia, causadas pelos produtores do Projeto Rio Formoso de monocultivo irrigado de arroz, soja e outros, com apoio do estado e omissão do órgão fiscalizador. Enquanto sofrem a afetação nas águas, base da reprodução de seus modos de vida e sua saúde, os Krahô-Takaywrá lutam pela demarcação de seu território e os Krahô Kanela vivem em 7 mil hectares e lutam pela outra parte do território que está ainda em posse dos fazendeiros.

Mato Grosso do Sul

Povos Indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau

 

Indígenas Guarani e Kaiowá e Kinikinau em Terras Indígenas e retomadas em diversos municípios do Mato Grosso do Sul lutam para seguir existindo como povos indígenas, enquanto enfrentam situações de desterritorialização, confinamento extremo, assassinatos, torturas, espancamentos, ataques com armas de fogo, agrotóxicos e insegurança alimentar extrema constituindo um processo de genocídio/etnocídio em curso, no marco de décadas de intensos conflitos com fazendeiros e grileiros do agronegócio exportador, com apoio do estado e de poderosos políticos.

 

Mato Grosso

Camponeses do Assentamento de Reforma Agrária Roseli Nunes

Camponeses do Assentamento de Reforma Agrária Roseli Nunes em Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso, lutam para manter a força de sua produção e comercialização agroecológica em um contexto de destruição das políticas de reforma agrária e de incentivo à comercialização camponesa, enquanto enfrentam a ameaça de expropriação por projetos minerários de fosfato e ferro ligada aos interesses de políticos e do agronegócio do estado.

 

Maranhão

Comunidades Quilombolas de Cocalinho e Guerreiro

Comunidades Quilombolas de Cocalinho e Guerreiro, no município de Parnarama, Maranhão, lutam pela titulação do Território Quilombola, enquanto enfrentam conflito com grilagem, desmatamento, incêndios florestais e contaminação por agrotóxicos por empreendimentos de monocultivos de eucalipto de empresa fabricante de papel e celulose e por fazendas de soja que se expandem para a região.

 

Maranhão

Quebradeiras de Coco-Babaçu e agricultores familiares do Acampamento Viva Deus

Quebradeiras de Coco-Babaçu e agricultores familiares do Acampamento Viva Deus, nos municípios de Imperatriz e Cidelândia, Maranhão, lutam pela titulação de um Assentamento de Reforma Agrária e vivem em constantes conflitos, ataques, vigilância e ameaças de desapropriação por empreendimentos de monocultivos de eucalipto de empresa fabricante de papel e celulose.

Próxima audiência e veredito final

A Audiência Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade foi a segunda audiência temática da fase instrutória do júri do Tribunal. A primeira foi a Audiência das Águas, realizada nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro de 2021.

A terceira e última audiência temática será sobre Terra e Território, e será realizada junto com a audiência final deliberativa. As duas atividades acontecerão entre os dias 8 e 10 de julho de 2022, de forma híbrida – presencial e virtual.

O foco dessa audiência temática serão as denúncias sobre os processos de desmatamento e grilagem de imensas porções de terras públicas e a imposição de grandes projetos de “desenvolvimento”, ao mesmo tempo em que não avançam processos de titulação de terras indígenas e territórios quilombolas e tradicionais da região, como processos provocadores do racismo fundiário e ambiental para os povos, contribuindo, em razão de sua sistematicidade geográfica e temporal, para o ecocídio do Cerrado e ameaça de genocídio cultural dos povos do Cerrado.

Teremos os depoimentos e testemunhos de representantes e assessores/as de todos os casos, articulados com a fala de relatores/as de acusação sobre a sistematização dessas denúncias em escala de Cerrado.

No último dia da Audiência Final, após a escuta dos casos, relatores de acusação e expressões culturais, o júri lerá uma primeira manifestação pública que antecipe elementos do veredito final.

Para saber mais sobre as atividades, acesse a programação oficial do TPP.


 Foto em destaque: Cimi GO-TO

Mulheres denunciam envenenamento e morte causados por agrotóxicos no Cerrado 

Audiência realizada no âmbito do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado trouxe diversos depoimentos de vítimas e dados de pesquisas científicas

Uma menina, quando criança, via o avião passar com pulverização aérea e, junto com outras crianças da comunidade, saía correndo para debaixo da garoa achando que era água. Agora, aos 17 anos, teve um filho que nasceu com focomelia, uma anomalia congênita que afeta os ossos longos de braços e pernas. Este é só um dos vários casos de contaminação por agrotóxicos que afetam comunidades inteiras no Cerrado, especialmente mulheres, citados na Audiência Temática sobre Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade do Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado realizada nos dias 15 e 16 de março. 

O uso sistemático e normalizado de agrotóxicos no Brasil vem sendo intensificado nos últimos anos. Segundo dados do site Repórter Brasil, só entre 2019 e 2021, mais 1.411  substâncias químicas prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente foram liberadas e agora invadem os campos brasileiros. Em 2020, foram liberados quase 10 agrotóxicos por semana. E cerca de um terço dos agrotóxicos liberados no Brasil são proibidos na União Europeia. 

Não é para menos que os relatos de contaminação estejam aumentando. Raquel Rigotto, médica, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará e relatora de acusação do TPP, elencou os quadros que vêm sendo causados por agrotóxicos: “São sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos, dor no estômago; irritações na pele, na garganta, nos olhos; sintomas neurológicos, como dor de cabeça; tremores, convulsões, problemas renais. Além de quadros mais graves como o desenvolvimento de leucemia, câncer de mama, próstata e muitos outros, alterações no sistema reprodutor, como infertilidade, abortos, partos prematuros, má formação congênita, depressão, distúrbios neurológicos, autismo e até suicídio”, relatou. 

Além das palavras de Raquel estarem embasadas em estudos científicos que comprovam os danos dos agrotóxicos à saúde, os presentes na audiência puderam ouvir diversos relatos de mulheres afetadas por esse tipo de contaminação. Um dos mais fortes e emocionados foi o depoimento de Marli Borges, do Quilombo Guerreiro, em Parnarama-MA. “Os nossos direitos têm sido violados, o nosso modo de vida, por causa do desmatamento e do envenenamento. A dor de cabeça minha é todos os dias, eu vivo empolada. Tem dia que eu não tenho nem coragem de levantar, com tanta dor nos ossos, nas pernas. O nariz entupido e espirrando 24h, por mais que eu faça remédio, que todo remédio do mato curava a gente e agora não cura,” relata Marli. 

“Nós temos vários casos no nosso assentamento de doenças”, relatou também Miraci SIlva, do Assentamento Roseli Nunes-MT. “Tem várias pessoas no nosso assentamento com problemas de depressão, com problemas de alergia, problema de câncer… A gente faz essa pergunta: por que que antes não tinha esses problemas? Por que que agravou? Por que aumentou?”, indaga.

A própria Miraci começou a responder essas perguntas em seu depoimento, relatando que as práticas do agronegócio do entorno estão cada dia chegando mais perto das comunidades. A multiplicação das lavouras de monocultivo traz consigo a vasta utilização de agrotóxicos, que afetam os diversos povos e comunidades do entorno. A soja, que é o grão que mais cresce em áreas plantadas no Brasil, consome sozinha 52% dos agrotóxicos do país, de acordo com a Peça de Acusação da Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado. E, ainda de acordo com o documento, o Cerrado brasileiro é especialmente afetado, só ele concentra 75% da produção de soja. Já em 2015, os dez municípios que mais consumiram agrotóxicos no Brasil se encontram no Cerrado.

Maria Emília Pacheco, assessora e pesquisadora da ong FASE e também relatora de acusação destacou na audiência o ponto importante da fome no país. “Relatório divulgado no ano passado da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional nos disse que mais da metade da população brasileira vive algum grau de insegurança alimentar. E cerca de 9% da população brasileira, 9 milhões de brasileiros e brasileiras, vive em situação de fome”, pontuou.

Esses dados, quando somados aos depoimentos de pessoas na audiência, mostram a relação dos agrotóxicos com a insegurança alimentar brasileira. Além dos efeitos nocivos à saúde diretamente, os agrotóxicos danificam e afetam cultivos próximos, o raio de alcance é grande e muitas comunidades não conseguem se defender. “A gente vem sentindo grandes transformações aqui na comunidade desde que os fazendeiros viraram nossos vizinhos, por causa do envenenamento. As nossas frutas não prestam mais, as nossas lavouras das nossas roças não são as mesmas”, disse Luciana Neles, do Território Cocalinho-MA. 

Nos depoimentos das mulheres é possível escutar a preocupação com o alimento. “Não conseguimos produzir o alimento que é para o nosso consumo por conta dos ataques das formigas, dos animais que correm dos agrotóxicos para o alimento saudável. Então por isso não conseguimos produzir”, contou Eryleide Domingues, indígena do Povo Guarani e Kaiowá, da Comunidade Guyraroka-MS.

O envenenamento e a destruição dos cultivos da agricultura dos povos camponeses e tradicionais pela contaminação de agrotóxicos são apenas dois dos principais aspectos da presença do agronegócio na vida dessas populações. “É preciso barrar essa cadeia produtiva de commodities, mas também de vulnerabilizações que o agronegócio causa, para que a gente tenha alguma chance de reverter o ecocídio e o genocídio cultural já em curso”, aponta Raquel Rigotto.

A agricultora Miraci ecoa seu apelo: “Em nome de todas as famílias assentadas, eu peço socorro. Peço socorro. Alguém há de nos ouvir e há de lutar contra esse modelo de destruição dos nossos territórios”. 


 Texto: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Foto: Mulheres do Povo Guarani e Kaiowá (Aldeira Jaguapiru, MS) | Crédito: Bruno Santiago/Acervo CESE

Sem Consulta às comunidades, Governo de Minas avança processo de licenciamento do Projeto Bloco 8

Ameaçadas pela instalação do Projeto Bloco 8, da empresa Sul Americana de Metais S.A. (SAM), comunidades do território tradicional de Vale das Cancelas, região no Norte de Minas Gerais, tiveram violado o direito à consulta livre, prévia, informada, assim como consta na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificado pelo Brasil desde 2004.

Isso porque a Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Governo de Minas Gerais realizará nos dias 29 e 30 de março, duas audiências públicas, em Grão Mogol e Fruta de Leite, para apresentar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), no âmbito do processo de licenciamento ambiental do Projeto Bloco 8, conforme publicado no Diário Oficial de Minas Gerais do dia 5 de março.

A apresentação do estudo de EIA/RIMA por meio da audiência pública representa o último passo para o início da instalação e funcionamento do empreendimento.

“A gente sabe que a audiência publica é só um procedimento formal e que quando ela acontece é porque o processo está pronto para ser licenciado. Com essa audiência pública, o Estado está dizendo que vai licenciar o projeto, mesmo sem ter realizado o procedimento de consulta às comunidades tradicionais geraizeiras”, aponta a advogada popular do Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular (CMA), Larissa Vieira.

MPMG recomenda suspensão das audiências

Na tarde do dia 22/03, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) expediu Recomendação Conjunta à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), sobre a aprovação da Licença Prévia e do Licenciamento Ambiental Trifásico, do projeto Bloco 8, em trâmite.

O MPMG argumenta que o Projeto poderá causar sérios impactos sociais, econômicos e ambientais, principalmente na região dos municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis, no Norte de Minas.

De acordo com a Recomendação, a Semad deve determinar, imediatamente, a suspensão da realização das Audiências Públicas sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e seu respectivo Rima, no âmbito do processo de licenciamento ambiental do projeto Bloco 8.

O MPMG recomenda à Sedese e à Subsecretaria de Direitos Humanos, que realizem a Consulta Prévia junto com as comunidades.

Que seja realizada, em prazo razoável, a Consulta Prévia às Comunidades Tradicionais Geraizeiras potencialmente afetadas pelo empreendimento Projeto Bloco 8, da Mineradora Sul Americana de Metais, nos termos da Convenção 169 da OIT, por meio de protocolo de consulta a ser elaborado junto às comunidades interessadas, devendo para tal ser respeitado o princípio da boa-fé e ocorrer de forma livre, prévia, informada e culturalmente adequada para que não se transforme em mera formalidade procedimental”, aponta trecho do documento.

O Ministério Público de Minas Gerais deu o prazo de cinco dias para a resposta de acatamento à Recomendação ou “para a apresentação de justificativas fundamentadas para o seu não atendimento”.

Mobilização

A Recomendação do MPFMG aconteceu depois da mobilização de moradores da região de Vale das Cancelas. No dia 17 de março foi encaminhado um ofício  para seis órgãos de âmbito federal, estadual e municipal, denunciando a violação, pelo estado de Minas Gerais na obrigação de respeitar e de proteger os direitos humanos e aponta irregularidades na realização da audiência pública.

No documento, a comunidade relata que foi surpreendida no dia 8 de março com a instalação de faixas dentro do território com informações sobre a audiência pública e pede a suspensão das duas audiências públicas, pois “deturpam o processo de devida consulta livre, prévia, informada e de boa fé às comunidades tradicionais, como determinado pela Convenção OIT 169”.

O ofício também reivindica a suspensão do licenciamento ambiental da empresa Sul Americana de Metais “até a finalização do processo de regularização fundiária do território e do procedimento de consulta, que deve ser iniciado após a finalização do protocolo de consulta que está sendo construído pelas comunidades”.

O documento foi encaminhado  6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Desenvolvimento, Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, Defensoria Pública de Minas Gerais, Defensoria Pública da União, Ministério Público de Minas Gerais e Ministério Público Federal.

destaque site campanha VALECANCELAS BLOCO8 07

Foto: Coletivo Margarida Alves

Audiência não é consulta

A audiência pública é um requisito formal do processo de licenciamento que não se confunde com a Consulta, procedimento previsto em uma Convenção Internacional que tem caráter de norma supralegal.

“Com a convocação da audiência o Estado sinaliza mais uma vez que continuará dando prosseguimento ao processo de licenciamento e só depois consultará as comunidades. Não faz sentido liberar um empreendimento que está sobreposto a um território tradicional e depois consultar   as comunidades tradicionais  O Estado está dando continuidade a um processo de licenciamento desrespeitando a Convenção 169 da OIT”, explica Larissa Vieira.

|| O direito à Consulta Prévia garante à população tradicional o direito de participar das discussões e de ser consultada sobre qualquer medida, administrativa e legislativa, que possa atingir seu território, como no caso de grandes empreendimentos. || 
Projeto

O empreendimento Projeto Bloco 8 da SAM prevê a implementação de duas barragens, com capacidade para 845 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração, atingindo os municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis.

Marcado nos últimos seis anos por crimes ambientais que dizimaram pessoas e regiões do estado de Minas Gerais, o projeto Bloco 8 pretende abrigar a maior barragem de rejeitos da América Latina. Se instalada, a barragem 100 vezes maior do que a que rompeu em Brumadinho (Região Metropolitana de Belo Horizonte), em janeiro de 2019.(link matéria sobre Brumadinho)

Território tradicional reconhecido

A comunidade de Vale das Cancelas resiste há mais de 10 anos para que esse grande empreendimento minerário não seja instalado. O Território Geraizeiro é composto por cerca de 73 comunidades (Núcleos Tingui, Josenópolis e Lamarão). Estima-se que pelo menos 2.230 famílias tradicionais sejam atingidas pelo empreendimento da mineradora SAM.

Em 2014, a Lei Estadual 21.147 instituiu a política estadual para o desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais. Mesmo com uma legislação estadual, o processo de regularização fundiária do território ainda não foi concluído.

A violação dos direitos dos geraizeiros e geraizeiras de Vale das Cancelas pela SAM e pelo governo de Minas Gerais é um dos 15 casos denunciados ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.


Texto: Coletivo Margarida Alves de Assessoria Jurídica Popular /Com informações da Assessoria de Comunicação do MPMG

Imagem em destaque (topo da notícia): Comunidades Geraizeiras do Vale das Cancelas (MG)