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Câmara dos Deputados realiza audiência para discutir o impacto dos agrotóxicos em povos e comunidades tradicionais do Cerrado

Aconteceu na manhã de ontem, 01/06, na Câmara dos Deputados, em Brasília, audiência pública sobre o impacto dos agrotóxicos em povos e comunidades tradicionais do Cerrado. A audiência foi requerida pelo deputado federal Nilto Tatto (PT/SP) para ouvir povos e comunidades tradicionais, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre  os resultados da pesquisa-ação “Vivendo em territórios contaminados: um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, lançada dia 30/05.

Compondo a mesa estavam Leila Lemes, da Campanha em Defesa do Cerrado; Nonata Nepomuceno, do Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama (MA); Fran Paula, coordenadora-executiva da Campanha Contra os Agrotóxicos, Aline Gurgel, da Fiocruz, e Robson Rodrigues, da Secretaria de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde. De forma virtual, participou Mariely Daniel, secretária de vigilância em saúde ambiental, também do Ministério da Saúde.

Em sua apresentação, a pesquisadora Aline Gurgel destacou alguns dados centrais do dossiê, como a contaminação das águas em todas as comunidades onde a pequisa foi realizada, nos estados da Bahia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Glifosato, 2,4-D e Atrazina foram os agrotóxicos mais identificados nas amostras. Em alguns casos, até 9 agrotóxicos diferentes foram encontrados em amostra retirada de fonte de água que as comunidades utilizam para beber, banhar, irrigar hortas e dar de beber a animais domésticos. “Qualquer dose diferente de zero nas amostras pode significar um dano, mas os valores são muito elevados, especialmente comparáveis com legislações mais protetivas”, alertou Aline.

Casos do Tribunal do Cerrado

Leila Lemes, da Campanha em Defesa do Cerrado, lembrou que alguns dos dados apresentados no dossiê se referem a casos de comunidades apresentados ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa do Cerrado, que teve seu veredito apresentado pelo júri em julho de 2022. “Houve casos alarmantes de contaminação por agrotóxicos, e relatos do uso do veneno como arma química para atacar as comunidades, os povos do Cerrado”, alertou Leila.

Nonata Raimunda Nepomuceno, do Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama, Maranhão, reiterou a fala da representante da Campanha em Defesa do Cerrado, e contou que em sua comunidade – uma das ouvidas pelo TPP – o envenenamento tem sido constante, tanto por meio de tratores, como por meio de aviões. “As pessoas estão cheias de coceira, morrendo de câncer. Isso é alarmante para o nosso povo, a gente pede ajuda aos deputados. Beber água contaminada todo dia não é fácil, plantar na terra contaminada não é fácil. A gente precisa da ajuda de vocês pra sobreviver. Precisamos do nosso Cerrado vivo, e pra estar vivo, temos que proteger ele. Se existe Cerrado ainda, se existe água no cerrado, é porque tem povo lá que protege”, afirmou Nonata.

 foto grupo audiencia agrotoxicos

Agricultura quimicamente dependente

Para Fran Paula, da secretaria-executiva da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, os casos apresentados no dossiê não são isolados, e têm se repetido em outras regiões ecológicas, além do Cerrado. “Esse modelo de desenvolvimento de agricultura quimicamente dependente tem sido estabelecido no estado brasileiro a custa do genocídio dos indígenas, quilomobolas, dos povos tradicionais. A contaminação acontece de forma intencional, para expulsar essas populações das comunidades e assim garantir o avanço da fronteira agrícola.” 

Fran Paula ainda lembrou que há ingredientes ativos nos agrotóxicos que são banidos na Europa, mas são utilizados no Brasil. “Lutamos pelo banimento dos produtos já banidos. Essa é uma pauta que colocamos para o legislativo, pois há pesquisas e dados suficientes comprovando que esses produtos são altamente tóxicos para o ambiente e saúde das populações.” 

fran paula audiencia agrotoxicos

GT Interministerial

Entre as propostas apresentadas ao deputado federal Nilto Tatto, é que a discussão sobre os agrotóxicos seja mais ampla, e atinja outros ministérios, além da Saúde. “É preciso criar um grupo de trabalho interministerial. Não é possível continuar conversando só com o Ministério da Saúde, tem que falar com Ibama, Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Direitos Humanos e Igualdade Racial, porque é preciso falar do racismo ambiental. Não temos como falar em guerra dos agrotóxicos, pois de um lado temos a indústria química e o agronegócio produzindo mortes, e do outro, temos os povos e territórios do Cerrado produzindo vida. Então, o que temos, é um processo de Eco-Genocidio”, alertou a secretária-executiva da Campanha Contra os Agrotóxicos.


 Fotos: Letícia de Maceno

Povos e comunidades tradicionais do Cerrado discutem estratégias para barrar contaminação por agrotóxicos despejados pelo agronegócio

Na manhã do dia 31/05, representantes de povos e comunidades tradicionais do Cerrado dos estados da Bahia, Maranhão, Piauí, Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul participaram de uma oficina sobre como denunciar contaminações causadas por agrotóxicos. A oficina foi ministrada por Naiara Bittencourt, advogada da Terra de Direitos e da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Foram abordadas estratégias de registro de denúncias, produção e armazenamento de provas e canais de formalização dos registros.

Entre as situações e fatos passíveis de serem denunciados, Naiara apontou o envenenamento de pessoas e animais, alergias, coceiras, mortes de animais, contaminação de trabalhadores e o descarte inadequado de embalagens de agrotóxicos.

“É importante ter parcerias com a mídia, entidades e movimentos sociais que possam levar adiante os registros das violações. Muitas vezes os órgãos públicos não vão encaminhar as denúncias por vontade própria, seja por pressão política, econômica, seja por falta de estrutura ou por medo dos servidores. Por isso é preciso estabelecer parcerias para driblar essas dificuldades. Os agrotóxicos são o eixo do agronegócio, e o agronegócio é o eixo do capitalismo no Brasil. Então, o agrotóxico está no eixo do capitalismo no país”, afirmou Naiara. A advogada apresentou às participantes um página específica do site da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos que condensa as dicas para realizar denúncias com segurança e efetividade.

Luta a partir de resultados de dossiê

No período da tarde, os participantes discutiram ações de articulação, formação, incidência e comunicação na luta contra os agrotóxicos a partir dos resultados da publicação “Vivendo em territórios contaminados: um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, lançada dia 30/05.

Entre as estratégias de articulação apresentadas, foram sugeridas ações de fortalecimento de redes, ações de vigilância popular em saúde e parcerias com instituições de pesquisa e divulgação científica. No campo da formação, foram apontadas como estratégias a inclusão do tema agrotóxicos em escolas do campo, o fortalecimento da formação de base com professores, profissionais da saúde e sindicatos, a realização de oficinas nas comunidades e seminários estaduais para debater o assunto de maneira mais ampla.

Na comunicação, os grupos sugeriram a produção de materiais pedagógicos, panfletos, cards, divulgação de tecnologias e informações sobre produções agroecológicas e o monitoramento e denúncias sobre a contaminação por agrotóxicos. No campo da incidência, foi sugerida a realização de audiência pública para pautar a criação de projetos de lei que protejam os povos e comunidades da contaminação, que proíbam a pulverização aérea e a isenção de impostos para agrotóxicos.

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Recomendações ao poder público

No fim do dia, a atividade de encerramento focou na construção de recomendações gerais aos órgãos responsáveis e ao Congresso Nacional no sentido do combate à contaminação dos povos e comunidades pelo agrotóxico das monoculturas. 

Mariana Pontes, da secretaria executiva da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, e Juliana Acosta, representante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, expuseram e debateram as recomendações construídas ao longo de processos coletivos pelas duas campanhas. Esta última atividade teve como objetivo preparar a Audiência Pública na Câmara dos Deputados realizada na manhã de hoje.

As três atividades fizeram parte do “Seminário de Convergência: Agrotóxicos como armas químicas nos territórios do Cerrado”, realizado em Brasília entre os dias 30 e 31 de maio e 1 de junho pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).


 Fotos: Letícia de Maceno

Dossiê aponta presença de agrotóxicos na água de sete comunidades tradicionais do Cerrado

imagem lançamento dossie agrotoxico

Iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a publicação conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e já está disponível em formato digital para download

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançou hoje, 30/05, a publicação “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”. O material apresenta os resultados da “pesquisa-ação” implementada, entre 2021 e 2022, em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas e ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades. Na maioria dos casos, as amostras de águas coletadas e analisadas pela pesquisa são oriundas de nascentes, córregos e rios que abastecem as comunidades, sendo utilizadas para a irrigação de plantações, consumo animal e, em algumas situações, também para o consumo humano. As comunidades que fizeram parte da pesquisa situam-se nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em regiões do Cerrado e de zonas de transição com a Amazônia e o Pantanal.

A publicação é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz  (Fiocruz). A pesquisa em campo contou com o apoio de agentes da CPT de Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí e Mato Grosso do Sul, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e da Agência 10envolvimento, na Bahia.

BAIXE AQUI O DOSSIÊ

DESTAQUES

Os resultados da investigação foram apresentados na manhã de hoje durante evento presencial em Brasília. Participaram da atividade membros das comunidades que participaram da pesquisa, reprepresentantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, da CPT, da Fiocruz, além de representantes do sistema de Justiça, como o defensor público estadual Pedro Alexandre Gonçalves, do Tocantins, o promotor do Ministério Público Estadual (MPE) no Mato Grosso do Sul Marco Antonio Delfino, a promotora do MPE na Bahia Luciana Khoury, Marina Mignot Rocha, do GT de Garantia à Segurança Alimentar e Nutricional da DPU (Defensoria Pública da União), e Sandra Maria da Silva Andrade, representando a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos) e CNDH (Conselho Nacional dos Direitos Humanos).

 Durante a exposição dos resultados, alguns dados mereceram destaque:

  • O glifosato foi detectado em todos os estados no qual a pesquisa-ação foi realizada. Essa substância foi proibida pela Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA) devido à ausência de evidências suficientes para estabelecer limites de segurança para exposição crônica, mas segue autorizada no Brasil;

  • O metolacloro, um dos agrotóxicos encontrados na pesquisa, além de ser proibido na União Europeia, é suspeito de ser desregulador endócrino e sua exposição está associada ao aumento da incidência de tumores, em particular hepáticos, aqueles associados ao fígado, além de ser considerado perigoso para o meio ambiente;

  • O fipronil, também encontrado nas pesquisas, tem como alvos primários o sistema nervoso, a tireoide e o fígado, e foi classificado pela USEPA como um possível carcinógeno humano devido à ocorrência de tumores na tireoide. Esse Ingrediente Ativo também está associado a milhares de casos de intoxicação em humanos, incluindo graves, que evoluíram para óbito;

  • O terceiro agrotóxico mais detectado nas análises foi a atrazina, presente em todos os estados em ao menos um ciclo, à exceção do Mato Grosso. No Maranhão, os níveis de atrazina detectados na comunidade de Cocalinho foram mais de 2 vezes superiores ao valor máximo permitido segundo as normativas brasileiras.
  • Dos oito agrotóxicos identificados e quantificados durante a pesquisa-ação, quatro estão entre os 10 mais comercializados no Brasil em 2021. O glifosato ocupa a primeira posição, sendo seguido do 2,4-D (2a posição), da atrazina (5a posição) e do metolacloro (10a posição).

Mariana Pontes, assessora da Campanha e uma das organizadoras da publicação, explica que o dossiê combina diferentes movimentos metodológicos. “Foram realizadas a revisão de literatura especializada sobre agrotóxicos e as análises laboratoriais, além da contribuição dos conhecimentos tradicionais das comunidades que estão, cotidianamente, enfrentando os impactos dos agrotóxicos que poluem às suas águas e envenenam os seus roçados”, explica.

Os resultados apresentados no dossiê são alarmantes, aponta Mariana. “Mais de 10 tipos de agrotóxicos foram identificados nas análises de coleta de água, um dado que não nos surpreende, mas preocupa muito, uma vez que milhares de pessoas, das sete comunidades que participaram da construção da pesquisa, possuem suas vidas diretamente impactadas por estes produtos que são extremamente tóxicos para a saúde humana”, destaca a assessora.

Para Aline do Monte Gurgel, da Fiocruz, uma das autoras da pesquisa, é preciso desnaturalizar a ideia de que existe um nível tolerável de agrotóxicos que podemos consumir nas águas e nos alimentos. “Se eu colocar uma gota de veneno em um copo d’água, quem vai querer beber essa água? A gente precisa partir do pressuposto de que o nível aceitável de agrotóxico nas águas é zero, então qualquer número maior que zero já indica contaminação. Na Europa, há agrotóxicos cujo limite máximo permitido nas águas é 30 vezes menor do que o limite máximo permitido no Brasil. Isso significa que nosso corpo é mais forte que o do europeu? Não. Significa que nossa legislação é menos protetiva”, alertou a pesquisadora.

COMUNIDADES

As comunidades participantes da pesquisa foram definidas a partir de diálogos coletivos envolvendo as organizações participantes da Campanha Cerrado e que atuam com o tema dos agrotóxicos. Fizeram parte do estudo o Território Tradicional da Serra do Centro, em Campos Lindos, no Tocantins; Comunidades Tradicionais Geraizeiras de Formosa do Rio Preto, na Bahia; a Comunidade Barra da Lagoa, em Santa Filomena, no Piauí; o Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena, Goiás; o Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama, no Maranhão; o Assentamento El Dourado II, em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul; e a Comunidade de Cumbaru, Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso.

Os pontos de coleta foram definidos de acordo com sua importância para as comunidades, sendo em águas utilizadas para irrigação de roças e quintais, na pesca, na dessedentação animal, nas brincadeiras e recreação das comunidades, no uso doméstico, como a lavagem de roupas e louças, e na alimentação, seja para beber ou cozinhar. Foram coletadas amostras nos seguintes tipos de fonte: rio/riacho/córrego, nascente, lagoa, brejo, açude/represa, cacimba/poço e águas das residências das comunidades

Durante o lançamento, representantes das comunidades do Maranhão, Mato Grosso do Sul, Piauí e Bahia revelaram as violências sofridas diariamente pelas mãos de empresários do agronegócio que despejam agrotóxico sobre seus corpos e territórios diariamente. Foram relatos de graves alergias na pele, perda de produção da agricultura familiar, doências respiratórias crônicas, contaminação de rios e poços de água e ocorrência cada vez maior de casos de câncer – e mortes por câncer – nas comunidades. “Tive uma alergia muito forte, com bolhas na pele. Quando fui ao médico pedir pra fazer exame e ver se era por conta do agrotóxico, o médico logo disse que não era, disse que aquilo era escabiose (sarna)”, relatou uma liderança quilombola do Maranhão. O remédio receitado pelo médico não funcionu. No depoimento de outro representante de comunidades, o relato sobre o aparecimento de bolhas se repetiu, assim como o “diagnóstico” de escabiose por médico do hospital público local. “É claro que os médicos não vão falar que tem a ver com o veneno, porque eles também têm negócios no agro da nossa cidade, eles são do agronegócio também”, revelou agricultor.

VIVENDO EM TERRITÓRIOS CONTAMINADOS

Mais de 1.800 agrotóxicos foram liberados para uso nos últimos quatro anos (entre 2019 e 2022) no Brasil. Cerca de metade destes agroquímicos não são permitidos na Europa por oferecerem riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Hoje esses produtos, comumente combinados com a utilização de sementes transgênicas, são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Todos esses povos – que resistem em seus territórios há séculos – lutam para sobreviver em uma verdadeira guerra química promovida pelo agronegócio e pelos grandes latifúndios de monoculturas de produção de commodities para exportação. No Cerrado, este cenário é ainda mais violento: mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no país são consumidos na região, de acordo com o estudo “Ecocídio nos Cerrados: agronegócio, espoliação das águas e contaminação por agrotóxicos”, publicado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Dossiê aponta presença de agrotóxicos na água de sete comunidades tradicionais do Cerrado

Iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a publicação conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e já está disponível em formato digital para download

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançou hoje, 30/05, a publicação “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”. O material apresenta os resultados da “pesquisa-ação” implementada, entre 2021 e 2022, em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas e ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades. Na maioria dos casos, as amostras de águas coletadas e analisadas pela pesquisa são oriundas de nascentes, córregos e rios que abastecem as comunidades, sendo utilizadas para a irrigação de plantações, consumo animal e, em algumas situações, também para o consumo humano. As comunidades que fizeram parte da pesquisa situam-se nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em regiões do Cerrado e de zonas de transição com a Amazônia e o Pantanal.

A publicação é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz  (Fiocruz). A pesquisa em campo contou com o apoio de agentes da CPT de Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí e Mato Grosso do Sul, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e da Agência 10envolvimento, na Bahia.

BAIXE AQUI O DOSSIÊ

Destaques

Os resultados da investigação foram apresentados na manhã de hoje durante evento presencial em Brasília. Participaram da atividade membros das comunidades que participaram da pesquisa, reprepresentantes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, da CPT, da Fiocruz, além de representantes do sistema de Justiça, como o defensor público estadual Pedro Alexandre Gonçalves, do Tocantins, o defensor público da União Yuri Costa, do Maranhão, Marco Antonio (MS), e a promotora do Ministério Público Estadual da Bahia Luciana Khoury.

 Durante a exposição dos resultados, alguns dados mereceram destaque:

  • O glifosato foi detectado em todos os estados no qual a pesquisa-ação foi realizada. Essa substância foi proibida pela Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos (EFSA) devido à ausência de evidências suficientes para estabelecer limites de segurança para exposição crônica, mas segue autorizada no Brasil;

  • O metolacloro, um dos agrotóxicos encontrados na pesquisa, além de ser proibido na União Europeia, é suspeito de ser desregulador endócrino e sua exposição está associada ao aumento da incidência de tumores, em particular hepáticos, aqueles associados ao fígado, além de ser considerado perigoso para o meio ambiente;

  • O fipronil, também encontrado nas pesquisas, tem como alvos primários o sistema nervoso, a tireoide e o fígado, e foi classificado pela USEPA como um possível carcinógeno humano devido à ocorrência de tumores na tireoide. Esse Ingrediente Ativo também está associado a milhares de casos de intoxicação em humanos, incluindo graves, que evoluíram para óbito;

  • O terceiro agrotóxico mais detectado nas análises foi a atrazina, presente em todos os estados em ao menos um ciclo, à exceção do Mato Grosso. No Maranhão, os níveis de atrazina detectados na comunidade de Cocalinho foram mais de 2 vezes superiores ao valor máximo permitido segundo as normativas brasileiras.
  • Dos oito agrotóxicos identificados e quantificados durante a pesquisa-ação, quatro estão entre os 10 mais comercializados no Brasil em 2021. O glifosato ocupa a primeira posição, sendo seguido do 2,4-D (2a posição), da atrazina (5a posição) e do metolacloro (10a posição).

Mariana Pontes, assessora da Campanha e uma das organizadoras da publicação, explica que o dossiê combina diferentes movimentos metodológicos. “Foram realizadas a revisão de literatura especializada sobre agrotóxicos e as análises laboratoriais, além da contribuição dos conhecimentos tradicionais das comunidades que estão, cotidianamente, enfrentando os impactos dos agrotóxicos que poluem às suas águas e envenenam os seus roçados”, explica.

Os resultados apresentados no dossiê são alarmantes, aponta Mariana. “Mais de 10 tipos de agrotóxicos foram identificados nas análises de coleta de água, um dado que não nos surpreende, mas preocupa muito, uma vez que milhares de pessoas, das sete comunidades que participaram da construção da pesquisa, possuem suas vidas diretamente impactadas por estes produtos que são extremamente tóxicos para a saúde humana”, destaca a assessora.

FALAS DAS COMUNIDADES E OUTROS

Comunidades

As comunidades participantes da pesquisa foram definidas a partir de diálogos coletivos envolvendo as organizações participantes da Campanha Cerrado e que atuam com o tema dos agrotóxicos. Fizeram parte do estudo o Território Tradicional da Serra do Centro, em Campos Lindos, no Tocantins; Comunidades Tradicionais Geraizeiras de Formosa do Rio Preto, na Bahia; a Comunidade Barra da Lagoa, em Santa Filomena, no Piauí; o Acampamento Leonir Orback, em Santa Helena, Goiás; o Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama, no Maranhão; o Assentamento El Dourado II, em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul; e a Comunidade de Cumbaru, Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso.

Os pontos de coleta foram definidos de acordo com sua importância para as comunidades, sendo em águas utilizadas para irrigação de roças e quintais, na pesca, na dessedentação animal, nas brincadeiras e recreação das comunidades, no uso doméstico, como a lavagem de roupas e louças, e na alimentação, seja para beber ou cozinhar. Foram coletadas amostras nos seguintes tipos de fonte: rio/riacho/córrego, nascente, lagoa, brejo, açude/represa, cacimba/poço e águas das residências das comunidades

FALAS DAS COMUNIDADES

Vivendo em territórios contaminados

Mais de 1.800 agrotóxicos foram liberados para uso nos últimos quatro anos (entre 2019 e 2022) no Brasil. Cerca de metade destes agroquímicos não são permitidos na Europa por oferecerem riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Hoje esses produtos, comumente combinados com a utilização de sementes transgênicas, são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Todos esses povos – que resistem em seus territórios há séculos – lutam para sobreviver em uma verdadeira guerra química promovida pelo agronegócio e pelos grandes latifúndios de monoculturas de produção de commodities para exportação. No Cerrado, este cenário é ainda mais violento: mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no país são consumidos na região, de acordo com o estudo “Ecocídio nos Cerrados: agronegócio, espoliação das águas e contaminação por agrotóxicos”, publicado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

FALAS DAS COMUNIDADES E OUTROS

Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado

A publicação “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado” apresenta os resultados da “pesquisa-ação” implementada em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades.

O dossiê é uma produção da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Mariana Pontes, assessora da Campanha e uma das organizadoras da publicação, explica que o dossiê combina diferentes movimentos metodológicos. “Foram realizadas a revisão de literatura especializada sobre agrotóxicos e as análises laboratoriais, além da contribuição dos conhecimentos tradicionais das comunidades que estão, cotidianamente, enfrentando os impactos dos agrotóxicos que poluem às suas águas e envenenam os seus roçados”, explica.

Na maioria dos casos, as amostras de águas coletadas e analisadas pela pesquisa são oriundas de nascentes, córregos e rios que abastecem as comunidades, sendo utilizadas para a irrigação de plantações, consumo animal e, em algumas situações, também para o consumo humano. As comunidades que fizeram parte da pesquisa situam-se nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em regiões do Cerrado e de zonas de transição com a Amazônia e o Pantanal.

Os resultados apresentados no dossiê são alarmantes, aponta Mariana. “Mais de 10 tipos de agrotóxicos foram identificados nas análises de coleta de água, um dado que não nos surpreende, mas preocupa muito, uma vez que milhares de pessoas, das sete comunidades que participaram da construção da pesquisa, possuem suas vidas diretamente impactadas por estes produtos que são extremamente tóxicos para a saúde humana”, destaca a assessora.

Audiência Pública debaterá impactos dos agrotóxicos em comunidades tradicionais do Cerrado

Mais de 600 milhões de litros de agrotóxicos recaem sobre todas as vidas humanas anualmente no Brasil. Só em 2018, 73,5% destes agroquímicos consumidos no país foram aplicados no Cerrado (fonte: UFPR). Esses produtos são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Essa conjuntura de devastação será a pauta da Audiência Pública sobre os “Impactos dos Agrotóxicos em povos e comunidades tradicionais do Cerrado”, que acontecerá no dia 1º de junho, às 10h, na Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, em Brasília (DF). A atividade será recebida pela Comissão de Meio Ambiente de Desenvolvimento Sustentável, sendo requerida pelo deputado Nilto Natto (PT-SP). 

Durante a programação serão apresentados os resultados da pesquisa “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”, implementada em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades.

A Audiência é fruto de uma mobilização de entidades e comunidades que atuam pela defesa das vidas no Cerrado, dentre elas estão a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), além da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).


Foto: Bruno Santiago/CPT-MS

ONGs de 21 países pedem que União Europeia não ratifique acordo com Mercosul usando nova lei de desmatamento como álibi

Por ocasião do Dia Internacional da Biodiversidade, e enquanto os ministros do comércio da União Europeia (UE) se reúnem esta semana em Bruxelas, 50 grupos ambientalistas e de direitos humanos expressaram séria preocupação com o fato de a UE usar sua nova regulamentação para conter o desmatamento vinculado à importação de determinadas matérias-primas para ratificar o acordo comercial com o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai).

As partes concordaram com o conteúdo do acordo UE-MERCOSUL em junho de 2019, mas a ratificação foi suspensa devido a preocupações de que ele intensificaria crimes ambientais e abusos de direitos humanos.

Em uma carta aberta ao Parlamento Europeu e ao Conselho da UE, as organizações, que incluem signatários de 21 países, afirmam que o novo regulamento da UE contra o desmatamento (EUDR) não deve ser usado para legitimar o acordo UE-MERCOSUL.

“O comércio atual entre os dois blocos deve mudar radicalmente, pois é a principal causa do desmatamento, das violações dos direitos humanos e da emergência climática, e o acordo comercial só pioraria essa situação crítica, contrariando a política ambiental da UE. A atual política comercial da UE foi concebida para destruir as florestas e seus habitantes”, afirma Tom Kucharz, da Ecologistas en Acción.

Uma análise das relações comerciais entre a UE e o Mercosul revela que a UE importa commodities anualmente de países do Mercosul com uma pegada de desmatamento de 120.000 hectares, além de evidências de que os fluxos comerciais da UE estão ligados à violência contra as comunidades locais. O acordo comercial concederá cotas tarifárias preferenciais para produtos como carne, açúcar, arroz e bioetanol, e reduzirá as tarifas sobre as exportações de soja e biodiesel à base de soja. Dessa forma, o acordo perpetuaria o papel dos países do Mercosul como fornecedores de matérias-primas e commodities para a UE, ao mesmo tempo em que aumentaria o desmatamento, as emissões de gases de efeito estufa, bem como os conflitos de terra e as violações dos direitos humanos na América do Sul.

“A nova regulamentação da UE contra o desmatamento importado pode ser um marco na luta contra o desmatamento. No entanto, se as causas fundamentais do desmatamento – como a pecuária industrial ou a produção de biocombustíveis na UE – forem mantidas, a destruição de ecossistemas vitais como o Cerrado, o Chaco e o Pantanal aumentará”, enfatiza Anne-Sofie Sadolin Henningsen, da Verdens Skove (Florestas do Mundo).

“Mais comércio de commodities agrícolas e sob o controle do agronegócio – como previsto no acordo comercial UE-Mercosul – geraria mais conflitos de terra que afetariam os direitos dos Povos Indígenas e das comunidades locais, que são os melhores guardiões das florestas e da biodiversidade”, explica Valéria Santos, da Comissão Pastoral da Terra e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.


Traduzido do site Alianza Cero Deforestación

Foto em destaque:  CIMI GO-TO

“Chuva de veneno não!”: Entidades exigem defesa da lei que proíbe pulverização aérea de agrotóxicos

Será retomado entre os dias 19 e 26 de maio, no Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento sobre a constitucionalidade da Lei “Zé Maria do Tomé”, aprovada em 2018, que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará. A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 6.137/2019) é movida pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

Mais de 160 entidades da sociedade civil, além de mandatos políticos e movimentos sociais, assinaram o abaixo-assinado que exige a defesa da Lei que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará. De acordo com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o resultado do julgamento é de extrema relevância pois afetará não somente o estado cearense, mas todo o Brasil, já que pode influenciar “outros estados a proibirem legislações similares sobre agrotóxicos”. De acordo com apuração do jornal Brasil de Fato, dezoito estados hoje possuem Projetos de Lei (PL) sobre o tema que tramitam a nível estadual.

Lucro acima da vida

A CNA, órgão de defesa dos interesses políticos dos grandes produtores rurais e dos setores do agronegócio brasileiro, afirma que a proibição da pulverização aérea atrapalha os objetivos do desenvolvimento agrícola do país, além de violar a livre iniciativa. De acordo com a coalizão de entidades que se manifestam em defesa da Lei, esse argumento é falacioso e irresponsável.

“Essa decisão é de fundamental relevância, pois temos presentes as evidências científicas que comprovam os impactos nocivos da exposição das populações humanas e da contaminação do ambiente decorrentes da pulverização aérea de agrotóxicos”, explica a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). 

A Campanha Contra os Agrotóxicos ressalta que a lei é uma conquista dos movimentos ambientais e de defesa da saúde coletiva. “É importante defendê-la. Diversas instituições ligadas à saúde e à luta ambiental se manifestaram reconhecendo sua importância como instrumento de defesa do meio ambiente e da saúde pública”, destaca.

Cerrado 

Como fronteira agrícola do agronegócio brasileiro que já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa para dar lugar a latifúndios de monoculturas de commodities para exportação, o Cerrado pode ser drasticamente impactado pelo resultado do julgamento do STF. Não faltam casos de violação e contaminações com danos graves à saúde humana causados pela prática da pulverização aérea de agrotóxicos na região.

No Mato Grosso do Sul, por exemplo, famílias* de assentamentos em Sidrolândia, município localizado a cerca de uma hora da capital Campo Grande, contam que após um episódio de pulverização aérea de agrotóxicos em lotes do território, ocorrido há cerca de cinco anos, sofrem com sintomas de ardência nos olhos e rosto, inchaço na pele, dores de cabeça e vermelhidão na face.

“Um dia passou um aviãozinho amarelo aqui, eu não sei o que ele despejou, mas onde ele passou matou um monte de coisa que a gente tinha plantado. Matou mamão, matou remédio, matou as florezinhas, as frutas. O pasto ficou amarelado, perdeu força, prejudicou a criação dos animais”, relatou uma das moradoras do assentamento sobre mais um episódio de pulverização aérea, desta vez ocorrido no segundo semestre de 2022. 

O julgamento do STF começou em 2021 e ficou suspenso por dois anos após o pedido de vistas do ministro Gilmar Mendes. Para saber como participar da mobilização em defesa da Lei “Zé Maria do Tomé” acesse o site http://chuvadevenenonao.com.br/ e acompanhe as redes sociais da Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.


*A identidade das famílias que concederam seus depoimentos não será revelada por questões de segurança

Campanha lança dossiê que identificou a presença de agrotóxicos na água de sete comunidades tradicionais do Cerrado

Iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a publicação conta com a parceria da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e será disponibilizada em formato digital no dia 30 de maio de 2023

O Brasil não é mais o país do futebol, como convencionou-se dizer. Em realidade, o nosso país pode ser considerado o campeão dos agrotóxicos, do veneno e da morte da sociobiodiversidade. Essa mudança aconteceu não somente pelos recentes fracassos da seleção brasileira nas últimas copas do mundo, mas por fatores como a liberação do estrondoso número de mais de 1.800 agrotóxicos nos últimos quatro anos (entre 2019 e 2022). E não para por aí.

Cerca de metade dos agroquímicos aprovados no Brasil não são autorizados para uso na Europa por oferecerem riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Hoje esses produtos, comumente combinados com a utilização de sementes transgênicas, são utilizados ostensivamente nas lavouras do país, via pulverização terrestre e aérea, impactando não somente o ar, as plantações, as águas, a terra e a biodiversidade, mas povos indígenas, camponeses, quilombolas e comunidades tradicionais. 

Todos esses povos – que resistem em seus territórios há séculos – lutam para sobreviver em uma verdadeira guerra química promovida pelo agronegócio e pelos grandes latifúndios de monoculturas de produção de commodities para exportação. No Cerrado este cenário é ainda mais violento: mais de 70% dos agrotóxicos utilizados no país são consumidos na região, de acordo com o estudo “Ecocídio nos Cerrados: agronegócio, espoliação das águas e contaminação por agrotóxicos”, publicado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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 Coleta de água em comunidade tradicional no Mato Grosso do Sul (Crédito: Bruno Santiago/CPT-MS)

Vivendo em territórios contaminados

É com o olhar voltado para essa conjuntura que a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançará, no próximo dia 30 de maio, a publicação “Vivendo em territórios contaminados: Um dossiê sobre agrotóxicos nas águas do Cerrado”. O material apresentará os resultados da “pesquisa-ação” implementada em sete territórios do Cerrado e que realizou análises toxicológicas ambientais sobre a qualidade das águas em comunidades dessas localidades.

Mariana Pontes, assessora da Campanha e uma das organizadoras da publicação, explica que o dossiê combina diferentes movimentos metodológicos. “Foram realizadas a revisão de literatura especializada sobre agrotóxicos e as análises laboratoriais, além da contribuição dos conhecimentos tradicionais das comunidades que estão, cotidianamente, enfrentando os impactos dos agrotóxicos que poluem às suas águas e envenenam os seus roçados”, explica.

Na maioria dos casos, as amostras de águas coletadas e analisadas pela pesquisa são oriundas de nascentes, córregos e rios que abastecem as comunidades, sendo utilizadas para a irrigação de plantações, consumo animal e, em algumas situações, também para o consumo humano. As comunidades que fizeram parte da pesquisa situam-se nos estados do Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia, em regiões do Cerrado e de zonas de transição com a Amazônia e o Pantanal.

Os resultados apresentados no dossiê são alarmantes, aponta Mariana. “Mais de 10 tipos de agrotóxicos foram identificados nas análises de coleta de água, um dado que não nos surpreende, mas preocupa muito, uma vez que milhares de pessoas, das sete comunidades que participaram da construção da pesquisa, possuem suas vidas diretamente impactadas por estes produtos que são extremamente tóxicos para a saúde humana”, destaca a assessora.

O material é uma iniciativa da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz  (Fiocruz). A pesquisa em campo contou com o apoio de agentes da CPT de Tocantins, Goiás, Maranhão, Piauí e Mato Grosso do Sul, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e da Agência 10envolvimento, na Bahia.

A publicação será disponibilizada gratuitamente, em formato digital, no site da Campanha em Defesa do Cerrado a partir do dia 30 de maio.


Arte da capa do dossiê: Estúdio Massa

Latifundiários derrubaram cruzes e tornos de túmulos para plantar soja em cemitério quilombola

No úlitmo dia 7 de maio de 2023, lideranças do Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama, Maranhão, fizeram vídeos e fotos denunciando a ação de empresários do agronegócio que utilizaram tratores e correntão para retirar eucaliptos plantados pela Suzano Papel e Celulose dentro do cemitério ancestral do território. Na ação, os latifundiários destruíram tornos e cruzes de túmulos de homens e mulheres quilombolas enterrados no cemitério ancestral. Segundo Leandro dos Santos, liderança quilombola e comunicador popular do território, a derrubada aconteceu para que o monocultivo do eucalipto dê lugar ao monocultivo da soja, do milho e do sorgo que agora são explorados na região.

A violação dos túmulos do cemitério quilombola de Cocalinho não foi a primeira violência registrada pelos moradores. Segundo Leandro dos Santos, quando a Suzano Papel e Celulose, entre 2010 e 2011, implantou sobre as terras de Cocalinho mais de seis mil hectares de eucalipto, o plantio foi feito ao redor e sobre o cemitério, impedindo que a comunidade continuasse enterrando seus mortos ali. Em 2022 o site Intercept Brasil produziu um mini-documentário sobre as violações da Suzano contra os quilombolas da região. 

Outros dois cemitérios tiveram que ser construídos, mas, segundo Leandro, os quilombolas continuaram fazendo suas obrigações religiosas e de respeito aos ancestrais no cemitério antigo, levando flores e acendendo velas para seus parentes enterrados ali, conforme a tradição da comunidade. Agora, com esta nova agressão, mais uma violação se abre como uma ferida sobre a memória e o corpo dos quilombolas de Cocalinho, que se veem acossados em seu próprio território pela devastação provocada por empresários do agro – começando pela Suzano – que não respeitam direitos nem dos vivos e nem dos mortos.


 Fotos e vídeos: Leandro dos Santos

Encontro “Nós: as águas” debate preservação em tempos de crise ambiental e social

*Por Mário Manzi

O segundo dia do encontro “Nós: as águas – corpos-território em lutas por justiça ambiental”, realizado nesta quarta-feira (03/05), contemplou uma série de atividades envolvendo lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras artesanais e de movimentos sociais de todo o Brasil. Pela manhã, os participantes tiveram a oportunidade de realizar uma visita de vivência no Parque Nacional de Brasília, onde puderam entrar em contato com a riqueza e a complexidade do ecossistema local e refletir sobre o Cerrado.

Promovido pela FASE em parceria com a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), o encontro aconteceu entre os dias 2 e 4 de maio, em Brasília, e reuniu líderes, ativistas e especialistas na área ambiental para discutir estratégias e experiências de luta por justiça ambiental em torno da questão da água. Dentre as atividades, foram realizados um círculo de lideranças e um painel sobre os 25 anos da Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), sistematizando as discussões sobre o papel do Estado e das empresas na captura e contaminação das águas, além do racismo ambiental que persiste no país. Outro tema crucial abordado foi o papel da resistência ao ecocídio das águas e ao genocídio dos povos que dependem delas. Esse assunto está cada vez mais presente nas discussões sobre a gestão dos recursos hídricos no Brasil e é visto como um elemento fundamental para a promoção da justiça ambiental e social.

Outorgas e saúde dos corpos d’água

Durante a tarde do segundo dia de encontro, foram divididos quatro grupos de trabalho, a fim de abordar questões cruciais para a proteção ambiental e processos de resistência. O primeiro grupo discutiu formas de fortalecer a autonomia territorial, hídrica e alimentar das comunidades, bem como ampliar a proteção das águas. Essa discussão é de suma importância, pois as comunidades tradicionais são as principais afetadas pelas atividades predatórias de grandes empresas e/ou por grandes projetos enunciados como “desenvolvimentistas”, que comprometem o acesso a recursos naturais e ameaçam a sobrevivência desses povos.

O segundo grupo de trabalho concentrou esforços em debater a necessidade de enfrentar as outorgas concedidas para atividades econômicas que causam sérios malefícios aos corpos-territórios e comprometem o abastecimento de água, dado que as atividades do agronegócio, mineração e energia impactam diretamente as fontes de água e causam a contaminação de rios e nascentes. Como resultado, toda a população que depende desses recursos fica sob risco de doenças graves, além de terem suas vidas afetadas pela escassez de água.

A concessão de outorgas para atividades econômicas é uma problemática que afeta diretamente a população que depende dos recursos hídricos para sua subsistência. Essas outorgas restringem o acesso à água pelas comunidades, uma vez que as atividades econômicas que as utilizam consomem grandes quantidades do recurso, deixando pouco ou nenhum para as comunidades locais. Além disso, essas atividades muitas vezes são altamente poluentes, contaminando rios e nascentes e comprometendo a qualidade da água disponível para consumo.

No terceiro grupo de trabalho, lideranças indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais e movimentos sociais discutiram a promoção e restauração da saúde dos corpos-territórios, que têm sido amplamente impactados por atividades humanas que ignoram o valor e a importância desses ecossistemas. A falta de cuidado com os recursos hídricos, como a poluição dos rios, a contaminação de nascentes e o desmatamento de áreas de preservação permanente, comprometem não só a qualidade da água, mas também a saúde das comunidades que dependem desses recursos naturais.

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Injustiça hídrica e racismo ambiental

O quarto grupo, por sua vez, debateu a injustiça hídrica incluindo a perspectiva das cidades, lugares onde as pessoas também sofrem com a escassez de água potável e a poluição dos recursos hídricos. A falta de saneamento básico, o despejo de resíduos tóxicos e a má gestão dos recursos contribuem para essa problemática, que precisa ser enfrentada com políticas públicas efetivas e participação da sociedade civil. A ampliação de alianças e o fortalecimento das lutas por justiça ambiental foram colocadas como fundamentais para garantir a proteção das águas e dos corpos-territórios por todo o país.

A questão do racismo ambiental foi abordada de forma transversal por todos os grupos, permeando todas as discussões dos grupos de trabalho, considerando que a injustiça hídrica, a falta de acesso à água potável e a degradação dos ecossistemas afetam de maneira desproporcional as populações negras, indígenas e quilombolas, que muitas vezes são marginalizadas e excluídas dos processos de tomada de decisão que afetam seus territórios. Portanto, a luta por justiça ambiental também foi colocada como luta contra o racismo estrutural, posto que permeia a sociedade brasileira e que se reflete de maneira contundente na distribuição desigual dos impactos ambientais.

As atividades do dia promoveram a troca de conhecimentos e experiências, além de debates intensos e enriquecedores. O encontro – promovido pela FASE, em conjunto com a Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA) e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado – tem se constituído como uma importante oportunidade para que lideranças e movimentos sociais possam discutir e propor soluções para os desafios que afetam os territórios e as águas do Brasil.


*Especial para a FASE

Fotos: Mário Manzi

 

Comida na mesa: a retomada de políticas de segurança alimentar e nutricional

AUMENTA O SOM! Está no ar o quinto episódio do podcast Justiça que Brota da Terra, uma produção da ⁠Campanha Nacional em Defesa do Cerrado⁠.

Neste abril indígena, a Campanha em Defesa do Cerrado lançou, em formato digital, o dossiê ⁠⁠”Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado”⁠⁠. A publicação detalha, de maneira revisada e atualizada, o contexto justificador da acusação de Eco-Genocídio no Cerrado apresentado em novembro de 2019 pela Campanha ao Tribunal Permanente dos Povos, o TPP. A soberania e a segurança alimentar e nutricional são dimensões vitais na vida dos povos e comunidades tradicionais. No entanto, ao longo dos últimos quatro anos, as políticas e programas voltados a estas dimensões foram destruídos pelo governo Bolsonaro.

Com a eleição de Lula em 2022, começaram a ser retomados programas voltados à soberania e segurança alimentar e nutricional. Voltou o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, além de conselhos de participação social. Para falar sobre este assunto, nós convidamos Maria Emília Pacheco, assessora da Fase – Solidariedade e Educação, e membro dos núcleos executivos do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, e da Articulação Nacional de Agroecologia.

Este episódio foi apresentado por Rosalva Gomes, quebradeira de coco e artesã do babaçu do Cerrado maranhense. O roteiro é de Felipe Duran e edição de áudio de Carlos Vinicius Santos.

Faça download do dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado”⁠ clicando ⁠⁠aqui⁠⁠.

OUÇA AGORA O PODCAST!


 Foto em destaque: CAA NM

Série de vídeos lançada hoje fala sobre mulheres do Cerrado

A Articulação de Mulheres do Cerrado, juntamente com a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e a Articulação Agro é Fogo, lançam hoje o primeiro vídeo da série “As Mulheres do Cerrado estão em pé em em luta, em defesa da vida e dos territórios”. Neste primeiro vídeo, três mulheres, de diferentes gerações, falam sobre suas vivências no Cerrado, seus modos de vida, questões de gênero, sexualidade, identidades e resistências femininas e feministas nesta região ecológica do Brasil.

 “Somos as mulheres do Cerrado, o mais antigo território ecológico do mundo, e o que somos e fazemos diz respeito às nossas vidas e também a toda a humanidade”, diz um dos trechos do vídeo. Só a diversidade do Cerrado e de suas gentes é capaz de garantir a vida plena e farta a todas, todos e todes que dele dependem e que com ele se relacionam.

Assista ao vídeo e compartilhe!

Fotos: Ludmila Pereira de Almeida

Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lançou dia 24 de abril de 2023 o dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado”, que detalha, de maneira revisada e atualizada, o contexto justificador da acusação de Eco-Genocídio no Cerrado apresentado em novembro de 2019 pela Campanha ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP). O TPP acolheu a petição da Campanha e, após alguns obstáculos temporais impostos pela pandemia de Covid-19, o Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado foi lançado no Brasil em 10 de setembro de 2021, com o mote “É tempo de fazer acontecer a justiça que brota da terra!”. 

Lançado em formato digital, o dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado” descreve a expansão e consequências da Revolução Verde no Cerrado – especialmente a partir da década de 1970 –, identificada como o marco histórico que deflagrou o processo de devastação desta região ecológica em escala e gravidade. A partir desse contexto e em diálogo com a tipificação do crime de Ecocídio pelo TPP, a Campanha, por meio de membros de sua Equipe de Assessoria de Acusação, caracterizou o Ecocídio no Cerrado como os históricos e graves danos, e a vasta destruição promovidos pela expansão acelerada da fronteira agrícola sobre o Cerrado ao longo do último meio século.

A publicação também apresenta o entendimento formulado pela Campanha sobre a relação intrínseca entre o Ecocídio do Cerrado e o Genocídio dos seus povos, já que estes povos e o Cerrado têm se constituído mutuamente por meio da convivência contínua ao longo de séculos – e até milênios, no caso dos povos originários. 

Dividido em quatro capítulos, o dossiê faz parte da série “Eco-Genocídio no Cerrado”, produzido pela Campanha. Em 22 de março de 2023, a Campanha lançou a primeira publicação da série, uma coleção de 15 fascículos com os 15 casos de violações contra povos e comunidades tradicionais de oito estados do Brasil analisados pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado.

ABRIL INDÍGENA: Campanha em Defesa do Cerrado lança dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado”

Publicação integra a série “Eco-Genocídio no Cerrado”, e destaca luta de povos indígenas contra envenenamento provocado pelo agrotóxico dos monocultivos

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança hoje, 24 de abril, o dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado”, que detalha, de maneira revisada e atualizada, o contexto justificador da acusação de Eco-Genocídio no Cerrado apresentado em novembro de 2019 pela Campanha ao Tribunal Permanente dos Povos (TPP). O TPP acolheu a petição da Campanha e, após alguns obstáculos temporais impostos pela pandemia de Covid-19, o Tribunal Permanente dos Povos em Defesa dos Territórios do Cerrado foi lançado no Brasil em 10 de setembro de 2021, com o mote “É tempo de fazer acontecer a justiça que brota da terra!”. Ao longo de quase um ano, foram realizadas três audiências temáticas com a apresentação de 15 casos de violações contra povos e comunidades tradicionais em oitos estados – Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Tocantins e Piauí. Em 10 de julho de 2022, o júri do TPP apresentou seu veredito, condenando pelos crimes de Ecocídio do Cerrado e genocídio de seus povos o Estado Brasileiro, governos nacionais e estrangeiros, além de entidades, órgãos e empresas nacionais e internacionais. 

Lançado em formato digital, o dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado” descreve a expansão e consequências da Revolução Verde no Cerrado – especialmente a partir da década de 1970 –, identificada como o marco histórico que deflagrou o processo de devastação desta região ecológica em escala e gravidade. A partir desse contexto e em diálogo com a tipificação do crime de Ecocídio pelo TPP, a Campanha, por meio de membros de sua Equipe de Assessoria de Acusação, caracterizou o Ecocídio no Cerrado como os históricos e graves danos, e a vasta destruição promovidos pela expansão acelerada da fronteira agrícola sobre o Cerrado ao longo do último meio século.

BAIXE AQUI O DOSSIÊ

 A publicação também apresenta o entendimento formulado pela Campanha sobre a relação intrínseca entre o Ecocídio do Cerrado e o Genocídio dos seus povos, já que estes povos e o Cerrado têm se constituído mutuamente por meio da convivência contínua ao longo de séculos – e até milênios, no caso dos povos originários. Essa história de guerra na perspectiva dos povos pode ser contada por meio do termo “monoculturação”, cunhado pela liderança indígena do Cerrado mineiro e deputada federal Célia Xakriabá (PSOL/MG) para se referir ao projeto e processo de morte das terras, sementes e identidades pela expansão avassaladora de monocultivos. É uma ideia que sintetiza a relação intrínseca entre diversidade biológica e cultural e o modo como a erosão dessa sociobiodiversidade é um dos aspectos fundamentais do Eco-Genocídio no Cerrado.

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Socorro (à esquerda) e Nonata, quebradeiras de coco babaçu do Território Quilombola Cocalinho, em Parnarama, Maranhão. Foto: Leandro dos Santos

Luta indígena

A publicação apresenta denúncias sobre a contaminação – especialmente por agrotóxicos – de comunidades e seus territórios, e sobre o desmonte das políticas de segurança alimentar e nutricional, de comercialização da produção camponesa e dos produtos da sociobiodiversidade. As denúncias apontam que estas violações provocam a desestruturação dos sistemas agrícolas tradicionais, aumentam a fome e ameaçam a saúde coletiva. Em razão do seu caráter sistêmico no tempo e no espaço, as contaminações e desmontes contribuem para o ecocídio do Cerrado e para a ameaça de genocídio dos povos que dele dependem para manter seus modos de vida.

São seis denúncias de diferentes povos e comunidades do Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e Tocantins. Três dos seis casos acometem povos indígenas. Um deles refere-se à Comunidade Tradicional do Território Chupé e Comunidade Indígena Akroá-Gamella da Terra Indígena Vão do Vico, no município de Santa Filomena, no Piauí, que lutam pela permanência e titulação de seus territórios enquanto sofrem com a expropriação ilegal e desmatamento de parte de seus territórios tradicionais nas chapadas por empreendimentos de monocultivo de soja de grileiros, também beneficiados por investimentos de fundos de pensão internacionais. As violações causam impactos ambientais com contaminação por agrotóxicos nas nascentes de água, contaminação do solo e das roças das comunidades por via aérea através do vento.

O segundo caso envolvendo territórios indígenas tem lugar no Tocantins, e afeta os povos Krahô-Takaywrá e Krahô Kanela nos municípios de Formoso do Araguaia e Lagoa da Confusão. Eles resistem à apropriação ilegal das águas por meio de barragens, canais, bombas e desvio do leito do rio, à consequente seca, ao desmatamento e à contaminação por agrotóxicos na bacia dos rios Formoso e Javaés, afluentes do Araguaia, causadas pelos produtores do Projeto Rio Formoso de monocultivo irrigado de arroz, soja e outros, com apoio do estado e omissão do órgão fiscalizador. Enquanto sofrem a afetação nas águas, base da reprodução de seus modos de vida e sua saúde, os Krahô-Takaywrá lutam pela demarcação de seu território e os Krahô Kanela vivem em 7 mil hectares e lutam pela outra parte do território que está ainda em posse dos fazendeiros.

O terceiro e último caso apresentado no dossiê e que afeta povos originários no Cerrado diz respeito aos Guarani e Kaiowá e Kinikinau em Terras Indígenas e retomadas em diversos municípios do Mato Grosso do Sul. Estes povos lutam para seguir existindo como povos indígenas, enquanto enfrentam situações de desterritorialização, confinamento extremo, assassinatos, torturas, espancamentos, ataques com armas de fogo, agrotóxicos e insegurança alimentar extrema constituindo um processo de genocídio em curso, no marco de décadas de intensos conflitos com fazendeiros e grileiros do agronegócio exportador, com apoio do estado e de poderosos políticos.

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Dirani coletando cajuzinho do Cerrado no Território Quilombola Kalunga, Goiás. Crédito: Jaqueline Evangelista Dias / Articulação Pacari

Série Eco-Genocídio no Cerrado

Dividido em quatro capítulos, o dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado” faz parte da série “Eco-Genocídio no Cerrado”, produzido pela Campanha e que terá, ainda este ano, outro dossiê lançado. No último dia 22 de março, a Campanha lançou a primeira publicação da série, uma coleção de 15 fascículos com os 15 casos de violações contra povos e comunidades tradicionais de oito estados do Brasil analisados pelo Tribunal Permanente dos Povos (TPP) em Defesa dos Territórios do Cerrado. 

BAIXE AQUI OS 15 FASCÍCULOS

A série Eco-Genocídio no Cerrado é um esforço da Campanha em produzir e difundir informações sobre o Cerrado e seus povos desde a base, pelas mãos das comunidades, a partir da terra, e com apoio de entidades, movimentos, grupos de pesquisa e universidades.

Conheça a seguir os títulos e temas de cada um dos quatro capítulos do recém-lançado dossiê “Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade no Cerrado”:

Capítulo 1 – O Cerrado como zona de sacrifício do agronegócio: o papel dos agrotóxicos na monoculturação da vida

O capítulo inicial busca situar o papel dos agrotóxicos na monoculturação. Para isso, em primeiro lugar, apresenta dados sobre o uso exponencial de agrotóxicos no Brasil em geral e no Cerrado em particular, que vem provocando o adoecimento de territórios (Ecocídio) e corpos-modos de vida (Genocídio), por meio da contaminação, da perda da disponibilidade de alimentos e da erosão da agrobiodiversidade. A partir desse contexto, o capítulo analisa como a estrutura institucional do Estado brasileiro constituiu uma arquitetura da impunidade diante das violações sistemáticas de direitos promovidas pelo uso de agrotóxicos. 

Capítulo 2 – “A dimensão da soberania alimentar e da sociobiodiversidade no contexto do Eco-Genocídio no Cerrado: denúncias a partir dos territórios” 

O segundo capítulo do dossiê foi construído em torno da sistematização dos relatos comunitários que foram apresentados durante a Audiência de Soberania Alimentar e Sociobiodiversidade da Sessão em Defesa dos Territórios do Cerrado do TPP, em março de 2022, trazendo concretude para o entendimento de como o crime de Eco-Genocídio se expressa nos territórios do Cerrado.

Capítulo 3 – “A privatização dos bens comuns dos povos do Cerrado e suas lutas contra a erosão do patrimônio genético e cultural” 

O terceiro capítulo apresenta os dois lados desse conflito. Um é o lado de uma história milenar e ancestral, na qual o livre acesso, o manejo e o uso da agrobiodiversidade se baseiam no princípio do comum para a reprodução da vida, integrando um patrimônio genético e cultural dos povos a serviço da humanidade. Do outro lado, está uma história relativamente recente de motivação empresarial e geopolítica, na qual a erosão, o cercamento e o controle da agrobiodiversidade se baseiam no princípio da apropriação privada e, portanto, da exclusão de todos os não proprietários, para a reprodução do lucro, integrando o patrimônio privado de corporações e investidores. O capítulo 3 caracteriza a monoculturação do Cerrado – um dos principais vetores do Eco-Genocídio do Cerrado.

Capítulo 4 – “O desmonte bolsonarista de políticas públicas: ataques ao direito humano à alimentação saudável e adequada e à soberania alimentar” 

O quarto e último capítulo do dossiê trata de como, desde o golpe jurídico-parlamentar de 2016, e sobretudo com a ascensão do fascismo bolsonarista, diversos direitos, políticas e programas de viés emancipatório foram sendo desestruturados, contribuindo para o aumento da fome e da insegurança alimentar e nutricional e para o estrangulamento dos modos de vida dos povos do Cerrado, o que acelerou e aprofundou o processo de Eco-Genocídio. O capítulo introduz nuances importantes ao situar o lugar e o papel histórico dessas políticas. O capítulo 4 representa uma fotografia de um momento histórico, considerando-se que muitas políticas desestruturadas já estão em processo de reconstrução, com a posse do presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja trajetória tem reconhecido compromisso com políticas de segurança alimentar e nutricional.


Foto em destaque: Povo Krahô Takaywrá em seu território. Foto: Sara Vitória/CIMI GOTO

Fecheiros do oeste da Bahia sofrem dois atentados em um dia

Pistoleiro xinga fecheiro de Porcos, Guarás e Pombas antes de tentar matar outro pequeno criador, que conduzia gado para margem oposta do rio

Paulo Oliveira, do Meus Sertões, e Thomas Bauer, da H3000 e CPT-BA

Jagunços atacaram o Fecho de Pasto de Porcos, Guará e Pombas no mesmo dia (11/04) em que pequenos criadores e agricultores foram baleados no fecho do Cupim, em Correntina, oeste da Bahia, em área contígua ao local da emboscada. Três pessoas ficaram feridas no atentado no Cupim, uma delas gravemente.

Em Porcos, Guarás e Pombas, um dos fecheiros foi perseguido pelos criminosos, que abriram fogo contra ele. No entanto, a vítima conseguiu escapar a cavalo, se embrenhando na mata nativa, preservada por ele e seus vizinhos.

A ação dos atiradores ocorreu cerca de três horas antes da cilada na localidade vizinha. De acordo com fontes policiais, é possível que o grupo seja o mesmo que fez os dois atentados. Está sendo investigado também se os pistoleiros seriam “seguranças” das fazendas vizinhas.

Os locais dos atentados, de acordo com documento da Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA) da Bahia, estão situados em uma área em que há sobreposição de seis fazendas.

Em março deste ano, em função da estiagem, os integrantes da associação de Porcos, Guarás e Pombas soltaram gado no fecho com vegetação nativa. Os animais pertencem às famílias da localidade.

Como é tradicional, após a solta, os fecheiros se revezam no pastoreio de bois e vacas para evitar perdas. Esta semana, após receberem a notícia de que pistoleiros e seguranças tinham afugentado os animais para o outro lado do rio, os pequenos criadores resolveram recolher parte do rebanho.

Quatro vaqueiros recolheram, na última segunda-feira (10/4), 16 cabeças. Na terça, cinco pequenos criadores retornaram para tentar pegar o restante do gado da comunidade, mas só encontraram nove bois.

Estima-se que havia na localidade 300 bichos, pertencentes a 10 vaqueiros de um total de 60 famílias das comunidades de Jacaré, Brejo dos Aflitos, Garrote, Matão, Sucuriú, Barra do Sucuriú, Cabeceira Grande, Tabocas, Bois, Sossego e Salobro, usuárias do fecho.

O grupo atravessou o rio e um deles recebeu a missão de conduzir o gado. Os demais continuaram a busca. Nessa hora, os quatro fecheiros foram abordados. Um dos bandidos, em uma motocicleta, xingou e ameaçou os vaqueiros.

Os criminosos disseram ainda que ali não era local de criar gado por não se tratar de fecho, nem área de solta.

“Se quiser criar gado, compra terra”, vociferou o criminoso.

A atenção deles se voltou para o vaqueiro que guiava o gado para a outra margem do rio. Em seguida, abriram fogo na direção dele. O guia se embrenhou na mata e conseguiu escapar.

A previsão era recolher o gado em maio, quando o capim das posses dos pequenos criadores estaria recuperado. No entanto, devido às ameaças, a volta começou a ser antecipada a partir de hoje. Os integrantes da comunidade tradicional querem apoio do aparato policial para resgatar o gado.

Os conflitos na área recrudesceram a partir de 2018. À época, a Comissão Pastoral da Terra e a Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) divulgaram nota exigindo a retirada das empresas de segurança dos territórios de Porcos, Guará e Pombas e a prisão imediata de pistoleiros, jagunços e policiais envolvidos em ataques e ameaças às comunidades de fecho de pasto.

FERIDOS NO CUPIM

Alecsandro de Jesus Matos, 43 anos, e Vivaldo José dos Santos, 68, baleados na terça-feira (11/4) por pistoleiros no braço e na costela, respectivamente, tiveram alta hoje do hospital municipal de Correntina. Gelson Neves, 58, atingido na barriga, continua internado.


Matéria produzida pelo site Meus Sertões em parceria com a Comissão Pastoral da Terra-BA

Foto em destaque: Fecho de Porco, Guarás e Pombos costuma ser atacado por pistoleiros que queimam o que encontram. 

Crédito das fotos: Thomas Bauer – H3000/CPT-BA