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Autor: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Trabalho coletivo de mulheres quilombolas garante alimentação para famílias em Minas Gerais

É a partir do trabalho coletivo de mulheres de 31 famílias que a alimentação é garantida no Quilombo de Raiz, no município de Presidente Kubitschek, situado na porção meridional da Serra do Espinhaço – Minas Gerais. A força de vontade e o reconhecimento do valor da terra para a segurança alimentar são propulsores dos quintais produtivos da comunidade. Lá tudo que é plantado entre as famílias serve para alimentação e sustento financeiro da comunidade. 

Erci Alves tem 36 anos e conta que desde pequena aprendeu a plantar, colher e participar das feiras da região. Ela relata que  foi “ensinada a cuidar da Terra e passa isso adiante”. 

“Todas as mulheres do quilombo participam dessa prática de plantar. As plantações funcionam nos quintais das casas e na roça da comunidade. A gente produz milho, feijão, hortaliças e frutas. E só não plantamos mais porque a gente não tem muito espaço, mas com um pequeno espaço a gente planta um pouquinho de tudo”, relata a quilombola.

O trabalho intenso de garantir alimento na mesa de todos da comunidade é árduo. Vai desde o cuidado na hora de plantar até a colheita. Erci, ao relatar a experiência, mostra como é possível unir economia e sustentabilidade.

“Esses alimentos servem para troca entre as famílias, e também para a venda em feiras que garantem renda para as famílias da comunidade. E com o dinheiro que a gente ganha com essa produção de alimentos a gente compra o que a comunidade não consegue produzir, como por exemplo, arroz, macarrão e carne”, conta.

Com a pandemia de covid-19 e a necessidade de distanciamento social, a importância dos quintais produtivos tomam um valor ainda maior na comunidade. Erci conta que “a necessidade de ficar em casa para proteger a vida, e a pausa nas feiras tira a renda dessas mulheres que é a principal forma de manter suas famílias”. Mas também reforça que foi graças às plantações que o quilombo tem vencido a fome que a pandemia trouxe novamente para o país. 

“Eu tenho dois filhos e ensino para eles a importância da segurança alimentar. Em momentos como esse que estamos vivendo [pandemia] eles precisam saber de onde vem o alimento e o que eles estão comendo. A gente ensina pra eles cuidar e proteger da terra”, enfatiza a quilombola. 


Texto e foto: Assessoria de comunicação/Terra de Direitos – Especial “Mulheres que alimentam a resistência” 

Clique aqui e conheça outras histórias do Especial “Mulheres que alimentam a resistência” no site da Terra de Direitos.

 

A horta agroecológica de Emília: qualidade de vida e autonomia da mulher

Emília Alves da Silva Rodrigues vive há 46 anos na cidade de São Miguel do Tocantins, que fica na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do estado do Tocantins. Desde que chegou, em 1971, viu muita coisa mudar onde ela mora. Logo no início, era praticamente tudo mata virgem, não tinha capoeira e as famílias que por lá chegavam faziam casas e roças onde achavam melhor.

Porém, o tempo foi passando e as coisas foram se complicando, porque a área começou a ser “terra de dono”, que muitas vezes não deixava quem já estava no local antes de continuar a trabalhar e viver. Muitas famílias, inclusive a de Dona Emília, chegaram a ser expulsas da região e tiveram que passar até dois anos foram daquela terra. Mas depois de muita luta e esperança, em 1988, foi criado o Projeto de Assentamento Pontal, que hoje é local de moraria, motivo de orgulho e garantia de produção para 27 famílias.

Viúva há 3 anos e como todos os filhos e netos criados, Dona Emília vive hoje na companhia de uma de suas netas e tira o seu sustento de dentro do próprio quintal. Com muita disposição, ela trabalha dia e noite quebrando coco babaçu, criando galinhas e cuidando com carinho da sua horta. Mas a horta da Dona Emília não é uma horta qualquer. É uma horta agroecológica!

Foi com a ajuda da APA-TO (Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins) que a Emília começou a trabalhar com a agroecologia e, hoje em dia, ela não troca isso por nada. Para ela, trabalhar a terra, reconhecer sua identidade de agricultora agroecológica, é algo que traz muita dignidade.

“Agroecologia é uma escola. Cada dia que você trabalha, você aprende”, disse Dona Emília. E bota aprendizado nisso. Antes, ela costumava usar adubo químico para ajudar as hortaliças a descerem, mas foi percebendo que o efeito era muito temporário e, ainda por cima, ia transformando a terra em pó. Hoje Dona Emília sabe que é muito melhor usar adubos naturais, como o esterco de gado, galinha e de palmeira.

Com eles, as plantas crescem fortes e o solo fica escuro, fofinho o tempo inteiro, além de ter a certeza que seus alimentos não estão sendo contaminados com veneno. Sem o solo sadio, o cheiro verde, o quiabo, a abóbora, o coentro, a cebolinha, a couve, o tomate, o gengibre e a pimenta da horta da emília não conseguiriam se desenvolver bem. Por isso, além de se preocupar com o adubo que coloca nos canteiros, a Dona Emília também aproveita as folhagens das árvores que tem no quintal para fazer a cobertura da terra. Além de também ajudar o solo a ir recuperando seus nutrientes, a cobertura mantém a umidade por mais tempo.

Um exemplo disso é o cultivo da cebolinha, que antes não podia passar um dia sem ser regado que já sofria muito, e hoje em dia, com a ajuda das folhagens, pode aguentar até 3 dias com a mesma rega. E não são só esses os benefícios de fazer a cobertura dos canteiros. Dona Emília foi percebendo também que, com a folhagem na terra, o mato não cresce em volta dos cultivos e isso fez com que ela ganhasse até mais tempo para se dedicar a outras atividades, já que não precisa mais capinar os canteiros.

Sem dúvidas, a horta agroecológica da Emília trouxe muita qualidade de vida para ela e para sua família. Além de consumir um alimento sadio e de qualidade, ela ainda consegue vender seus produtos na feira da cidade, o que leva saúde também para outras famílias e garante o trocadinho do mês no bolso da Dona Emília.

E não foi só na renda e na saúde que a horta fez diferença. Trabalhar com as hortaliças trouxe também para a Emília algo que não tem preço: a autonomia! Foi com o trabalho na terra que ela foi se tornando cada vez mais livre, foi aprendendo a se virar e, com o dinheirinho que junta, não depende de ninguém. Para ela, ser mulher autônoma, que faz a sua renda, que vive a sua vida, que não precisa dar satisfação para ninguém, é bom demais. E com muita firmeza ela diz: “Depois que eu comecei a trabalhar, eu renasci”.

A horta agroecológica foi tão marcante para a vida da Dona Emília que ela sonha em desenvolver seus cultivos cada vez mais, sempre pensando no bem-estar da sua família e da sua comunidade, pela qual ela sente um carinho muito especial. E ela com certeza já está realizando esse sonho, uma vez que, a partir da sua experiência, mais 4 famílias do projeto de assentamento começaram a produzir em seus próprios quintais. E é assim, de pouco em pouco, com pessoas inspirando pessoas, sempre com muita força e esperança, que devemos seguir, buscando sempre correr atrás dos nossos sonhos e fazer do mundo um lugar melhor para todos e todas.


Texto: Clara Mabeli/APA-TO

Produção: APA-TO – Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins – Websérie Agroecologia em Rede no Bico do Papagaio

Conheça e acompanhe o trabalho da APA-TO: http://www.apato.org.br/

Sem provocar aglomerações, Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baiano protesta pelo direito à vida

Em sintonia com o mês e o dia de luta das mulheres, celebrado internacionalmente em 8 de março, o Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baiano protesta pelos direitos e pela saúde das mulheres. As manifestações acontecem desde o dia 4 de março de maneira virtual e em alguns municípios da região, como Barreiras, Coribe, Correntina, Santa Maria da Vitória e São Félix do Coribe, sem provocar aglomerações.

Pela internet foram divulgadas imagens educativas que apresentam dados alarmantes, como o aumento dos casos de violência doméstica e o crescimento do número de mortes por suicídio da população transgênera na Bahia em 2020. Também foram divulgadas alternativas para superação do cenário de crise sanitária e social que vivemos, como a importância da vacinação coletiva e da defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). Os materiais foram produzidos pelas mulheres do Coletivo de maneira colaborativa.

A luta por comida de verdade, sem agrotóxicos e produzida de maneira agroecológica, e pela defesa do Cerrado também fez parte do grito das mulheres do Cerrado baiano. A região sofre com a seca dos rios e os conflitos territoriais que ameaçam as populações geraizeiras há décadas, por isso, o grupo de mulheres também protestou contra o avanço do agronegócio na região – responsável por essa destruição e violência.

Para além da mobilização virtual, foram colados “lambe-lambes” que estamparam as reinvindicações do coletivo. Os materiais foram disponibilizados em locais estratégicos dos municípios da região, visando alcançar diferentes públicos. O processo de colagem foi realizado com distanciamento social em horários de baixa circulação de pessoas. Todas as mulheres usaram máscaras e equipamentos de segurança.

O Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baiano é composto por mulheres do campo e da cidade, que se organizam para lutar pela defesa da biodiversidade, das águas e da dignidade das populações rurais e urbanas da região. Em diálogo com a Campanha em Defesa do Cerrado, as mulheres partilharam: ”As lutas são coletivas, defender as mulheres, nossos territórios, nosso Cerrado, é defender nossa própria existência!”.


Texto: Amanda Alves e Bruno Santiago

Informações e imagens: Coletivo de Mulheres do Cerrado no Oeste baino

Manifesto das primeiras brasileiras

As originárias da terra: a mãe do Brasil é indígena

Nós, Mulheres Indígenas, estamos em muitas lutas em âmbito nacional e internacional. Somos sementes plantadas através de nossos cantos por justiça social, por demarcação de território, pela floresta em pé, pela saúde, pela educação, para conter as mudanças climáticas e pela “Cura da Terra”. Nossas vozes já romperam silêncios imputados a nós desde a invasão do nosso território. 

A população indígena do Brasil é formada por 305 Povos, falantes de 274 línguas. Somos aproximadamente 900 mil pessoas, sendo 448 mil mulheres. Nós, Mulheres Indígenas, lutamos pela demarcação das terras indígenas, contra a liberação da mineração e do arrendamento dos nossos territórios, contra a tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental, contra o financiamento do armamento no campo. Enfrentamos o desmonte das políticas indigenista e ambiental. 

Nossas lideranças estão em permanente processo de luta em defesa de direitos para a garantia da nossa existência, que são nossos corpos, espíritos e territórios. 

Reunidas no XV Acampamento Terra Livre, em abril de 2019, construímos um espaço orgânico de atuação. Levamos pautas importantes para o centro do debate da mobilização que resultou na primeira Marcha das Mulheres Indígenas com a união de 2500 mulheres de 130 povos, em Brasília, no dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto daquele ano.  

A Marcha, cujo lema seria “Território: nosso corpo, nosso espírito” foi pensada desde 2015 como um processo de formação e de fortalecimento com sustentada ação de articulação com diversos movimentos. 

Agosto de 2020. Após um ano da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, nós, Mulheres Indígenas de todo o Brasil, realizamos uma mobilização histórica! Diante do agravamento das violências aos povos indígenas durante a pandemia da Covid-19, nós decidimos demarcar as telas e realizar a maior mobilização de mulheres indígenas nas redes virtuais. Assim, nos dias 7 e 8 de agosto, acontecia a nossa grande assembleia online com o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”. 

Nós, Mulheres Indígenas, também somos a Terra, pois a Terra se faz em nós. Pela força do canto,  nos conectamos por todos os cantos, onde se fazem presente os encantos, que são nossas ancestrais. A Terra é irmã, é filha, é tia, é mãe, é avó, é útero, é alimento, é a cura do mundo.

Como calar diante de um ataque? Diante de um Genocídio que faz a Terra gritar mesmo quando estamos em silêncio? Porque a Terra tem muitos filhos e uma mãe chora quando vê, quando sente que a vida que gerou, hoje é ameaçada. Mas ainda existe a chance de mudar isso, porque nós somos a cura da Terra!

Diante da Pandemia, criamos espaços de conexão para fortalecer a potência da articulação de Mulheres Indígenas, retomando valores e memórias matriarcais para avançar em pleitos sociais relacionados aos nossos territórios, enfrentando as tentativas de extermínio dos Povos Indígenas, as tentativas de invasão e de exploração genocida dos territórios – ações que têm se aprofundado no contexto da pandemia. Dessa forma, conseguimos também fortalecer o movimento indígena, agregando conhecimentos de gênero e geracionais.

As Mulheres Indígenas assumiram um papel fundamental na articulação das redes de apoiadores nesse momento. Além de atuarem permanentemente nas barreiras sanitárias, as mulheres estiveram frente às construções estratégicas dos planos Territorial, Regional e Nacional no enfrentamento à Covid-19. Há muitas Mulheres Indígenas com atuações significativas na contribuição pela defesa dos direitos dos Povos Indígenas – muitas vezes enfrentando diversas formas de violências. 

Em virtude das constantes violações de direitos, aprofundadas no contexto da pandemia, é urgente fortalecer a contribuição dessas defensoras, qualificando e ampliando suas ações nos espaços de participação política e decisória e apoiando a participação qualificada das Mulheres Indígenas como protagonistas e multiplicadoras.

Estamos atuando não somente no enfrentamento à Covid-19, mas na linha de defesa do “Covid sistemático do Governo Federal” e de seus ataques permanentes aos direitos indígenas.

Como desdobramento, notou-se a necessidade de avançar ainda mais, fortalecer nossas capacidades organizacionais, com vias de oficializar essa articulação da ANMIGA, incluindo o planejamento estratégico e o funcionamento de nossas redes.

Somos muitas, somos múltiplas, somos mil-lheres, cacicas, parteiras, benzedeiras, pajés, agricultoras, professoras, advogadas, enfermeiras e médicas nas múltiplas ciências do Território e da universidade. Somos antropólogas, deputadas e psicólogas. Somos muitas transitando do chão da aldeia para o chão do mundo.

Mulheres terra, mulheres água, mulheres biomas, mulheres espiritualidade, mulheres árvores, mulheres raízes, mulheres sementes e não somente mulheres guerreiras da ancestralidade. 


Para saber mais sobre a ANMIGA – Articulação Nacional das Mulheres Guerreiras da Ancestralidade, acesse: https://anmiga.org/

Dia das Mulheres: “Mulheres em luta, na cidade, no campo, nas águas e nas florestas, rompendo as fronteiras da opressão”

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A Articulação das Pastorais do Campo celebra a luta das mulheres camponesas, indígenas, pescadoras, quilombolas e migrantes, na cidade, no campo, nas águas e nas florestas, rompendo com as fronteiras da opressão, patriarcado e capitalismo. Diversas ações estão sendo realizadas pelas mulheres do campo, das águas e das florestas em todo o país. Acompanhe:

Com o avanço da COVID 19 no último ano, as mulheres seguiram nas linhas de frente da resistência, enfrentando impactos e as violências doméstica, política e institucional, que assolam seus corpos e territórios. O aumento da violência de gênero se destaca durante a pandemia, somente no primeiro semestre de 2020 houve um crescimento de 22% nos registros de violência contra a mulher, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mulheres camponesas, quilombolas, indígenas e pescadoras continuam enfrentando impactos socioambientais em seus territórios, através de grandes empreendimentos, garimpo, desmatamento e  contaminação das águas, que seguiram operando em um projeto de destruição e ameaça aos modos de vida e bem viver dos povos e comunidades tradicionais, aliados às políticas instituídas no atual governo. A crise migratória também avança, com o fechamento das fronteiras, aumento do desemprego e insegurança alimentar, mulheres migrantes encontram-se em situação de vulnerabilidade social, no Brasil e no mundo.

Faz-se necessário o apoio às lutas das mulheres por mais saúde e dignidade, para que suas vidas não sejam ainda mais ameaçadas e violentadas, resistindo contra as opressões de gênero, exigimos: vacinação contra COVID19 e auxílio emergencial para todas e a defesa do impeachment de Jair Bolsonaro e suas políticas de genocídio e morte contra a população brasileira.

ACOMPANHE AS AÇÕES DAS MULHERES EM TODO O BRASIL:

– 08/03 – 12h00 – Lançamento Manifesto das Mulheres do Cerrado: Construindo (Re)Existências

– 08/03 – 14H00 – Lançamento da ANMIGA e Março das Originárias da Terra: A Mãe do Brasil Indígena

– 08/03 – 19H30 – Movimento de mulheres em Goiás realiza Super Live Feminista no 8 de março

– 11/03, 23/03, 31/03 – 17h00 – Rodas de Conversa – Mulher: Luta, Resistência e Esperança – Tucuruí (PA)


 Fonte: Articulação das Pastorais do Campo

Mulheres Indígenas lançam articulação nacional no Dia Internacional das Mulheres

A Anmiga visa fortalecer a participação, o protagonismo da mulher indígena e a luta por direitos

A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade – Anmiga é uma iniciativa que mobiliza as mulheres indígenas de todas as regiões do país na luta pela garantia dos direitos dos povos. Com o tema “As originárias da terra, a mãe do Brasil é indígena”, a Anmiga promove uma agenda de debates ao longo do mês que marca a luta por igualdade de gênero, iniciando no dia 8 de março com a participação mais de 200 mulheres em uma live que começa às 14h (horário de Brasília).

A cada semana de março, mulheres indígenas de todos os biomas brasileiros se reúnem para discutir temas como questões identitárias, sustentabilidade, violência e violações de direitos. A programação completa do mês pode ser conferida no site anmiga.org. Os encontros online serão transmitidos nas redes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Mídia Ninja e Mídia Índia.

No dia 8 de março, a Anmiga também lança o manifesto da articulação que é fruto da Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, iniciada em 2019. “A iniciativa de criar uma organização de mulheres indígenas é o caminho natural. Nós, mulheres indígenas, sempre estivemos presentes nos movimentos sociais, tanto nacional quanto localmente”, comenta Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Apib e uma das idealizadoras da Anmiga.

Programação

O evento em alusão ao Dia Internacional das Mulheres, no dia 8 de março, lança a agenda “As Originárias da Terra: A Mãe do Brasil é Índigena” e marca o início da atuação da Anmiga. A programação está dividida em blocos que contemplam cantos e rituais, debates sobre raízes e ancestralidade, mudanças climáticas, conexão entre terras e telas, entre outros temas. Ao longo do mês serão realizadas lives às segundas. Em cada live, mulheres indígenas, agrupadas por biomas (Amazônia, Cerrado, Pampas, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica), discutem assuntos de interesse dos povos originários a partir da perspectiva feminina e do território.

Apesar de criada por mulheres indígenas como espaço de organização da luta dos povos originários, a Anmiga recebe também em sua programação ao longo do mês de março mulheres não indígenas, aliadas do movimento.

As indígenas são as primeiras brasileiras, cuja participação em organizações sociais, espaços deliberativos e em cargos públicos remonta uma trajetória de luta secular. O fortalecimento da luta das indígenas foi construída ao longo dos anos em várias frentes de atuação e organizações, até que, em agosto de 2019, foi realizada a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas para denunciar o agravamento das violências aos povos indígenas.

Para Célia Xakriabá, antropóloga e liderança indígena, a articulação das mulheres agrega passado, presente e futuro dos povos: “Nós carregamos nos nossos corpos os saberes, as lutas, a cura. De parteiras a deputadas, de cacicas a pesquisadoras, ocupamos os espaços com toda nossa ancestralidade.”

Serviço:
O que: Lançamento da ANMIGA e Março das Originárias da Terra: A Mãe do Brasil Índigena.
Quando: 8 de março, 14h (horário de Brasília)
Onde: redes da Apib, Mídia Índia e Mídia Ninja
Inscrições: https://anmiga.org/


 Texto e imagem: ANMIGA/APIB

MANIFESTO DAS MULHERES DO CERRADO CONSTRUINDO (R)EXISTÊNCIAS

“Cansei de ser domesticada

Quero andar com os próprios pés

Organizar a rebeldia

E assim deixar de ser refém.”

– Canto de Marli Fagundes, Eula Martins e Maria Monte, entoado no II Encontro Nacional das Mulheres do Cerrado, realizado em novembro de 2020


Neste 8 de março de 2021, nós da Articulação das Mulheres do Cerrado, mulheres de diferentes territórios, comunidades, municípios e estados deste país chamado Brasil, viemos por meio desta nota pública, expressar nossas (re)existências e repúdio às diversas violências causadas aos nossos corpos e aos nossos territórios.

Somos muitas, lutamos pela vida, pela memória daquelas que vieram antes de nós e por aquelas que já não estão mais aqui. Carregamos no sangue a força das nossas ancestrais, pois somos resistentes, resilientes, negras, indígenas, quilombolas, feministas, camponesas, assentadas e acampadas, sem-terra, atingidas por mineração e barragens, quebradeiras de coco babaçu, sertanejas, pescadoras, vazanteiras, LGBTQI+, assalariadas rurais, de fundo e fecho de pasto, raizeiras, benzedeiras, agricultoras familiares, geraizeiras, ribeirinhas. 

Em 2020, nós mulheres cerradeiras, do campo e da cidade, fomos impactadas duramente com a chegada da pandemia de covid-19, perdemos muitas companheiras, e com elas tanta sabedoria ancestral. Com algumas delas, não tivemos tempo da despedida, de dar  tchau, um  abraço, de agradecer. Contudo, resistimos e resistiremos sempre! Além da pandemia, a sobrecarga de trabalho também nos assola, no cuidado com os afazeres domésticos, com os filhos, com os mais velhos, nas roças, na quebra do coco babaçu, nas milhares de reuniões.

Como se todo o sofrimento não fosse suficiente os dados nos alarmam. Conforme informações do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no Brasil uma mulher é agredida fisicamente a cada dois minutos, tendo sido registradas 266.310 ocorrências de lesão corporal em decorrência de violência doméstica e 1.326 registros de feminicídio, em 2019 (FBSP, 2020)[1]. Todas essas violências ocorrem principalmente no âmbito do lar, espaço que deveria ser de acolhimento, aconchego e amor; tem se tornado cada dia,  espaço de tensões, agressões e morte. Nós repudiamos qualquer ato que venha causar dor, sofrimento e violência contra as mulheres.

Denunciamos e repudiamos as violências recorrentes e crescidas na pandemia do covid-19, ocasionada pelas grilagens, pistolagens, especulação imobiliária, envenenamento das águas e dos biomas, desmatamentos, queimadas criminosas, o extermínio da fauna e da flora dos nossos territórios.

Denunciamos a não regularização dos territórios, as mudanças de leis de terras no Brasil, junto às mudanças nas legislações ambientais e mercantilização da natureza (Zoneamento Econômico Ecológico-ZEE, Cadastro Ambiental Rural-CAR e Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação- REDD, o arrendamento para plantio de monocultura, a mineração. Medidas essas que estão todas ligadas ao aumento das violências no campo.

Denunciamos as práticas machistas e patriarcais perpetuadas por empresas e pelo Estado, que tentam nos exterminar e acabar com nossas histórias, nos expulsando dos territórios. Mas gritamos que temos raízes profundas e não será fácil, sempre brotaremos, mais fortes e vivas!

Denunciamos também o governo federal, genocida, irresponsável, machista e racista. Governo que espraia por  suas mãos o sangue de mais de 250 mil mortes ocasionadas pela covid-19. Governo que mata e negligência, ao invés de cuidar das pessoas e de um dos maiores sistemas públicos de saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS salva, ele não! Governo que nega a pandemia e a vacina e deixa que o vírus se espalhe entre os mais pobres e as populações mais vulneráveis… Gritamos – Fora Bolsonaro!

Por tudo isso, continuamos resistindo e buscando formas de proteção. Criamos barreiras sanitárias por conta própria, continuamos tomando nossos chás de ervas, raízes e sementes plantadas nos nossos territórios, fortalecemos nossas práticas de produção para segurança e soberania alimentar, e para continuar nas nossas articulações. Realizamos nosso II Encontro das Mulheres do Cerrado, foram mais de 100 cerradeiras, de diferentes estados e municípios. Foi bonito de vivenciar tanta força, coragem e sabedoria.

Seguiremos firmes, derrubando cercas e muros, enfrentando o machismo, o racismo, o patriarcado, plantando sementes, colhendo frutos, flores, regando as raízes que é a veia da terra, é o que liga o de dentro com o fora, regada  com águas abundantes do Cerrado que florescem nas serras, que fazem brotar vidas e sonhos, fortalecendo nossas conexões com a Mãe Terra.

Articulação das Mulheres do Cerrado

8 de março de 2021


[1] FBSP Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2020.

Nota de Repúdio: Articulação das CPT’s do Cerrado contra o avanço da mineração nas Regiões do Cerrado

Lucro e Destruição

Articulação das CPT ‘s do Cerrado, constituída pelos regionais de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Maranhão, Piauí, Tocantins, Bahia e Minas Gerais, vem a público repudiar o avanço da mineração nas regiões do cerrado e os impactos diretos sofridos pelas comunidades nos seus territórios. Repudiamos o protocolo assinado pelo Governo de Goiás, com intenções para facilitar a expansão da extração mineral no estado. São mineradoras de outros países como Luxemburgo, Bélgica, Austrália, Belarus, Reino Unido e Canadá que irão explorar as riquezas naturais do Cerrado, deixando um rastro de destruição e insegurança para as famílias e o meio ambiente, um dano irreparável para as comunidades tradicionais e assentamentos de Reforma Agrária e agricultura familiar do estado de Goiás, que sofrem com a contaminação das águas e a devastação do bioma.

No entanto, o minério extraído não será beneficiado no Brasil, sendo levado para outros países para que depois os brasileiros comprem o produto de volta já industrializado. Ou seja, a lógica de exportação de minérios e commodities remonta a mesma política econômica colonial, em que se vende matéria prima para comprar o produto industrializado. Essa política serve apenas para enriquecer ainda mais as grandes empresas, enquanto ficamos com os danos ambientais que em muitos casos são irreversíveis.

Um dos principais argumentos a favor da mineração é a geração de emprego, e o falso discurso de progresso e desenvolvimento, assim como uma mistura de manipulação e oportunismo por parte das mineradoras. Porém, esse argumento é falacioso na medida em que não leva em consideração a degradação ambiental e as comunidades tradicionais e camponesas da agricultura familiar, pescadores e geraizeiros que tem uma história de vida nesses lugares, mas são forçados a abandonarem suas terras para dar lugar à exploração de minérios que contaminam o solo e a água com metais pesados, além de oferecer risco à população conforme vimos em Mariana em (2015) e em Brumadinho (2019). Vale lembrar que a barragem da mineradora MOSAIC, (antiga Vale do Rio Doce) em Catalão (GO) já se rompeu uma vez e a de Crixás (GO), da empresa Serra Grande, propriedade da sul-africana Anglogold Ashanti, chegou a ser interditada pelo risco que oferece.

Em outras regiões do Cerrado essa realidade também é recorrente e as comunidades e o meio ambiente já sofrem com esses projetos de morte. Um exemplo claro é no Norte de Minas Gerais. O antigo “Projeto Vale do Rio Pardo” e atual “Projeto Bloco 8”, da mineradora SAM – Sul Americana de Metais, previsto para a região do Vale das Cancelas e que se estende até o sul da Bahia, é um projeto que representa a reiteração de um sistema de exploração mineral que já deu mais do que suficientes provas de falência e caos, levando em consideração as violações sofridas por comunidades tradicionais diante da instalação de mega empreendimentos, uma vez que seus direitos a água e ao modo de vida tradicional são constantemente ignorados. Esse projeto chega até o sul da Bahia, onde serão destruídos milhares de postos de trabalho na Costa do Cacau. O mineroduto do Bloco 8, somado ao impacto da construção do Porto Sul, na Bahia, desestruturará a economia da região que tem como base o trabalho de pescadores, agricultores, pequenos empresários e trabalhadores do turismo.

É lamentável a ganância das empresas e latifundiários que avançam na destruição do Cerrado e das nascentes que alimentam os rios, que aumentam a escassez de água, envenenam a terra e favorecem para o agravamento de doenças cancerígenas e do surgimento de novas pandemias, que conseqüentemente matam milhares de pessoas. 

Concordar com a lógica do mercado que tem o lucro com fim em si mesmo, não faz sentido algum para a existência humana. Seja em uma visão antropocêntrica em que o importante é meramente garantir a perpetuação da espécie, a qual se baseia em que tudo que existe no universo, no planeta terra, assim como a natureza e a humanidade, é parte de uma criação Divina, que deve ser cuidada e respeitada. 

A vida deve ser o ponto de partida e de chegada de toda ação e condição humana. O mercado (o lucro) não deve estar acima da Vida e da Dignidade Humana! Por isso os modos de vida e direito das comunidades tradicionais e camponesas devem ser respeitados.

Enquanto a mineração for objeto de ganância e lucro das grandes empresas, ameaçando e impactando as comunidades camponesas tradicionais e quilombolas, assentamentos da reforma agrária e da agricultura familiar e todos os povos que vivem no Cerrado, a Articulação das CPT’s do Cerrado se posicionará sempre contra esse modelo de desenvolvimento que só alimenta a violência, conflitos no campo e promove injustiças. Solidarizamos-nos com as famílias impactadas que sofrem as consequências da atividade minerária. Por isso, levantamos nossas vozes para dizer: Não à Mineração! Sim a Vida e a Dignidade Humana!

Goiânia, 05 de março de 2021.

Articulação das CPT’s do Cerrado


Nota originalmente publicada no site da Comissão Pastoral da Terra.

Arte: CPT / Foto do destaque: Eternit/Divulgação

“Estamos diante de uma política de extermínio indígena no Brasil”, denuncia assessor jurídico da Apib na ONU

Essa foi a primeira incidência das organizações indígenas e indigenistas na 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas

 

Luiz Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), denunciou a situação dos povos indígenas no Brasil, durante a pandemia da covid-19, na primeira participação das organizações indígenas e indigenistas na 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, nesta segunda-feira (1).O novo coronavírus chegou aos territórios indígenas logo no início da pandemia. Vidas indígenas têm sido perdidas desde então, sejam elas de lideranças, anciões e anciãs, crianças. Por sua vez, o governo federal tem agido de maneira tardia e ineficiente.

Para completar, as motivações a invasões de terras indígenas oferecidas pela chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, aumentaram a presença de madeireiros, garimpeiros e grileiros no interior dos territórios. Com tais presenças, nesse período pandêmico, as aldeias ganharam um risco adicional.

”No Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e recentemente contatados que estão em perigo”

Conforme levantamento da Apib, até o dia 1 de março morreram 975 indígenas vítimas da covid-19. Nesta mesma data, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) contabiliza 43.685 casos confirmados, mas sem o registro de infectados entre os indígenas em contexto urbano.

De forma ainda mais grave, o risco de genocídio é levado pelo vírus aos povos livres (em situação de isolamento voluntário). “No Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e recentemente contatados que estão em perigo”, alertou o representante da Apib durante seu pronunciamento ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Em um ano de pandemia, o vírus já afetou quase 50 mil indígenas de 162 povos, sendo que quase mil indígenas perderam a batalha para a covid-19. “Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas”, aponta Eloy.

As violações aos direitos dos povos indígenas cresceram nesse período de pandemia diante da negativa do governo brasileiro em cumprir com o seu papel. Para tanto, a Apib foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) exigir como medida judicial aquilo que Bolsonaro se nega a fazer por obrigação constitucional.

”Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas”

Luiz Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Foto: Vinicius Loures/Agência Câmara

Luiz Eloy Terena, assessor jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). Foto: Vinicius Loures/Agência Câmara

Funai tenta passar a boiada

Além de não adotar medidas para barrar o avanço do vírus junto aos territórios, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem implementado Resoluções e Instruções Normativas que afrontam o Estado Democrático de Direito, avalia o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A exemplo da Instrução Normativa 09, de abril de 2020, que concede a certificação de imóveis rurais em terras indígenas não homologadas, as resoluções 04, de 22 de janeiro de 2021, que estabelece novos critérios para a “heteroidentificação” de indígenas no Brasil, e a 01/2021, que autoriza a “parceria” entre indígenas e não indígenas para a exploração econômica dos territórios.

“Essa segunda onda do coronavírus vai atingir diretamente os povos indígenas porque o governo não fez o que deveria ter feito, nem mesmo a partir de decisão do STF, ou seja, organizar barreiras de proteção, barreiras de contenção, tirar os invasores dos territórios indígenas e proteger esses territórios”, alerta Antônio Eduardo Cerqueira de Oliveira, secretário-executivo do Cimi.

“Pedimos ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil”

Para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, o representante da Apib denunciou a política de extermínio indígena no Brasil e fez um pedido à Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet: “ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil”.

Além da participação da Apib, o Cimi ainda terá outros quatro momentos de fala durante a 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que é a principal sessão do ano do organismo internacional com sede em Genebra, na Suíça.

A 46ª sessão ordinária do Conselho de Direitos Humanos teve início na segunda-feira (22) e se estende, por videoconferência, até o dia 23 de março.

Confira o discurso de Eloy Terena na íntegra:


Madame Bachelet,

Meu nome é Luiz Eloy, sou indígena do povo Terena. Sou advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Estou aqui para falar sobre a situação dos povos indígenas do Brasil neste contexto de pandemia Covid-19.

Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas.

Nossas comunidades estão sendo invadidas por madeireiros e garimpeiros. O vírus está matando nossos idosos. Na semana passada, perdemos o último indígena Juma. Essas são culturas e línguas que nunca iremos recuperar.

Aqui no Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e de recente contato que estão em perigo.

O governo brasileiro e seus agentes devem ser responsabilizados.

Estamos diante de uma política de extermínio indígena no Brasil.

Portanto, pedimos sua ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil.

Obrigada

Luiz Eloy

Advogado da APIB


Texto:  Assessoria de Comunicação do CIMI – Conselho Indigenista Missionário

 

#FiolForaDosTrilhos: Campanha denuncia irregularidades na implementação de ferrovia

Dois territórios quilombolas cortados ao meio por uma ferrovia. Mais de 200 famílias que nunca foram consultadas sobre a implementação da obra, ou informadas sobre os impactos ambientais, sociais e culturais do empreendimento. Esta é a realidade vivida pelas comunidades quilombolas de Bebedouro e Araçá-Volta, em Bom Jesus da Lapa – um dos 32 municípios baianos que estão na rota que pretende ligar o futuro Porto Sul, em Ilhéus (BA), à cidade de Figueirópolis (TO), através da Ferrovia de Integração Oeste Leste (Fiol).

“Eu estava trabalhando e chegou um pessoal colocando uns piquetes na comunidade de Capão de Areia. Quando me aproximei me falaram que seriam colocados marcos de concreto, que era pra passar uma ferrovia … A gente nem sabia do que se tratava, ninguém sabia!”, afirma Domingos Batista, morador do território quilombola de Araçá-Volta.
 
Este cenário é denunciado pela campanha #FiolForaDosTrilhos, que tem como objetivo denunciar as irregularidades presentes na construção da FIOL no Médio São Francisco. Receba informações sobre os próximos passos da campanha e apoie a luta das comunidades quilombolas de Araçá/Cariaçá, Patos, Pedras, Retiro, Coxo, Bebedouro, Capão de Areia, Lagoa do Peixe, Nova Batalhinha e Rio das Rã na defesa de seus territórios.
 
VIOLAÇÕES – Essa história se inicia ainda em 2010, quando o IBAMA concedeu a Licença Prévia para o início da construção do trecho da Fiol dentro dos territórios das comunidades sem a adoção dos procedimentos adequados para a realização da consulta, cenário que viola a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que concede aos povos indígenas e comunidades tradicionais o direito de serem consultados, de forma livre e informada, antes de serem tomadas decisões que possam afetá-los.
 
“O licenciamento está cheio de vícios, não segue a legislação. As obras da FIOL entraram sem autorização, fazendo picadas em roças e nas nossas matas, tudo sem comunicação”, relata Lucas Marcolino, Presidente da associação do território de Araçá-Volta.
 

VIOLAÇÕES – Essa história se inicia ainda em 2010, quando o IBAMA concedeu a Licença Prévia para o início da construção do trecho da Fiol dentro dos territórios das comunidades sem a adoção dos procedimentos adequados para a realização da consulta, cenário que viola a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que concede aos povos indígenas e comunidades tradicionais o direito de serem consultados, de forma livre e informada, antes de serem tomadas decisões que possam afetá-los.

“O licenciamento está cheio de vícios, não segue a legislação. As obras da FIOL entraram sem autorização, fazendo picadas em roças e nas nossas matas, tudo sem comunicação”, relata Lucas Marcolino, Presidente da associação do território de Araçá-Volta.
 
 

Em dezembro de 2017, após a VALEC buscar autorização judicial para adentrar nos territórios e seguir com as obras, mesmo com licenciamento vencido, uma decisão da Justiça Federal determinou a paralisação das atividades no trecho do território do quilombo Araçá Volta, que fica na margem direita do rio São Francisco, cuja ponte para passagem da ferrovia já se encontra praticamente concluída. Nesta decisão, tomada em audiência judicial com a presença dos quilombolas, assistidos pela AATR, o magistrado determinou que somente com a efetiva consulta prévia às comunidades, a VALEC poderia dar seguimento às obras.

Em 2018, o IBAMA renovou a Licença de Instalação mesmo sem o cumprimento do que foi acordado no Termo de Compromisso assinado entre VALEC e Fundação Cultural Palmares (FCP). Em 02 julho de 2019, dezenas de caçambas e máquinas ingressaram nos territórios quilombolas sem autorização, levando as famílias a construírem um bloqueio na estrada. Denúncias foram encaminhadas para a FCP, que informou ao IBAMA que a VALEC não havia cumprido os termos previstos no acordo, e o órgão ambiental decidiu suspender a autorização de qualquer trabalho da ferrovia nos trechos quilombolas enquanto os termos da condicionante ambiental não fossem atendidos.
 
Em 30 de setembro de 2019, foi assegurado em nova audiência judicial na Justiça Federal que as comunidades têm o direito de indicar consultorias de sua confiança para elaboração do Plano Básico Ambiental Quilombola (PBAQ), tendo em vista as reiteradas violações de direitos e não cumprimento de acordos estabelecidos. A VALEC, porém, tem sinalizado que não vai cumprir a determinação judicial, tendo informado às lideranças das comunidades que vai contrataria a empresa para elaboração dos estudos técnicos de acordo com a sua conveniência. Enquanto isso, as obras nas proximidades dos territórios quilombolas já estão avançadas, mas as famílias seguem sem informações e sem reparação pelos prejuízos já causados.
 
Os territórios quilombolas afetados, em sua maioria, encontram-se em estágio avançado no processo de demarcação de titulação. Porém, desde o início das obras, em 2010, esses procedimentos ficaram paralisados no INCRA, o que gera ainda maior insegurança diante de investidas frequentes de grileiros de terras. Parte significativa destes territórios são terras públicas da União, que são os terrenos marginais do rio São Francisco, o que torna menos complexo o processo de demarcação e titulação.
 
E O VELHO CHICO? – “Rios, lagoas e fauna não tiveram a oportunidade de serem ouvidos, uma vez que as comunidades não tiveram voz”, diz Lucas, que também explica que mesmo com as evidentes violações da VALEC e descumprimento de acordos, a suspensão da licença para a construção da ferrovia por parte do IBAMA só ocorreu após muita pressão e mobilização das comunidades.
 
Com o aterramento de um braço do Rio São Francisco, o abastecimento de água foi prejudicado e em resposta às reações da comunidade, foi construído um poço artesiano que, por sua vez, não funciona por falta de energia. A falta de transparência e de diálogo com a comunidade produz um clima de incerteza em relação ao futuro. Nossa preocupação é como se dará a passagem dos trilhos. Na saída da ponte temos o canal do riacho que abastece mais de 12 lagoas às margens do Rio São Francisco”, afirma Marcolino.
 

Moradores/as relatam que a construção da ponte sobre o Rio São Francisco afetou a agricultura e a pesca. Como resultado, muitos pescadores/as abandonaram as atividades, perdendo assim sua principal forma de sustento. Os/as quilombolas também sinalizam que o processo de reflorestamento iniciado pela FIOL, após o desmatamento, foi abandonado.

PROGRESSO PARA QUEM? – Os aproximados 1.527 quilômetros de ferrovia, com um investimento previsto de R$ 8,9 bilhões, são destinados ao escoamento de grãos e minérios, fortalecendo grandes empresas do agronegócio da fronteira agrícola do MATOPIBA, que historicamente tem se apropriado de territórios de comunidades tradicionais do cerrado por meio da grilagem de terras e do uso de empresas de segurança particular em práticas de violência física, moral e simbólica.
 
Nos últimos 20 anos a Comissão Pastoral da Terra registrou 2.338 conflitos por terra no Matopiba. Outro número que chama a atenção são os 670.653 hectares desmatados em áreas de preservação permanente, reserva legal e nascentes (Map Biomas 2019). A degradação do meio ambiente e a perda do acesso a terra têm sido fatores de aumento da pobreza das populações locais.
 
Apontado como um dos principais pontos de escoamento de commodities do MATOPIBA, o Porto Sul, destino da FIOL, iniciou em julho de 2020 sua construção pela Bahia Mineração (Bamin), empresa controlada pelo Eurasian Resources Group (ERG), do Cazaquistão. Importante destacar que a chegada da Bamim no sudoeste baiano também tem sido apontada como estopim para eclosão de conflitos em torno do acesso à terra, à água e a remoção de comunidades dos seus territórios.
 
 

Nota Pública: Homens armados ameaçam famílias na comunidade tradicional Tauá, em Barra do Ouro – TO

A Comissão Pastoral da Terra – Regional Tocantins divulga nota pública denunciando mais ameaças e violações por parte de pistoleiros contra famílias da comunidade tradicional Tauá, no município de Barra do Ouro (TO). Em típica ação de grilagem, o empresário Emílio Binotto, pretenso proprietário da área em questão, tem usado artifícios violentos para impedir as famílias tradicionais de regularizarem suas terras. Leia na íntegra

Homens armados ameaçam famílias na comunidade tradicional Tauá, em Barra do Ouro – TO 

Nesta quinta-feira (18/02/2021), mais uma vez, a comunidade de posseiros tradicionais da comunidade Tauá, localizada no município de Barra do Ouro (TO), enfrentou ameaças por parte de pistoleiros. Dessa vez, três homens armados ameaçaram e intimidaram a família da principal liderança da região, Dona Raimunda. Matriarca da comunidade, dona Raimunda é conhecida por sua resistência contra a grilagem. Ela foi mais uma vez ameaçada por homens armados que exigiram a paralisação do serviço de levantamento de campo para elaboração do georreferenciamento e do Cadastro Ambiental Rural (CAR) das famílias. 

O início do trabalho de campo para o georreferenciamento se deu no dia 10 de fevereiro e, no dia seguinte, fiscais da fazenda Binotto, do empresário Emílio Binotto, tentaram impedir o trabalho técnico, destruindo os marcos colocados na área. Não satisfeitos com a primeira pressão e intimidação, outros três homens, armados, foram nesta quinta-feira até a casa de Dona Raimunda e abordaram os moradores com tom ameaçador, exigindo que ela saísse de sua casa. Antes de irem embora, exigiram ainda a paralisação dos trabalhos do georreferenciamento e CAR, caso contrário haveria “consequências” para Dona Raimunda e sua comunidade.

As famílias registraram boletim de ocorrência e estão em contato com o Ministério Público Federal (MPF) para tomar as medidas necessárias para garantir a sua segurança e a agilidade nos processos de regularização fundiária das terras das famílias posseiras e de assentamento para as famílias ocupantes. Do outro lado, desafiando decisões judiciais, Emílio Binotto, pretenso proprietário da área em questão, em típica ação de grilagem, tem usado artifícios violentos para impedir as famílias tradicionais de regularizarem suas terras. 

Como Comissão Pastoral da Terra, Regional Araguaia-Tocantins, vimos primeiramente manifestar nosso apoio e solidariedade às famílias da comunidade Tauá. Reforçando o apelo dos moradores e moradoras, denunciamos a grilagem de terra e a violência praticada contra a comunidade e cobramos dos órgãos públicos competentes que investiguem com rigor a situação, resguardando a segurança das famílias e o seu direito à terra. 

Histórico

A Gleba Tauá, um grande território tradicional do município de Barra do Ouro (TO), é ocupada há mais de 50 anos por famílias camponesas. Corresponde à uma área matriculada como Terra Pública da União, arrecadada em 1984 pelo Grupo Executivo das Terras do Araguaia-Tocantins (GETAT), totalizando 17.735 mil hectares. Nesta ocasião, um processo de titulação de terras instaurado registrou apenas parte das áreas, deixando muitas famílias sem acesso à titulação.

Desde 1992 as famílias moradoras vêm sofrendo pressões e violências, tais como queima de casas, matança de animais, ameaças de morte, destruição de roças, despejos e cercamento pelas lavouras de soja. O desassossego das famílias não está relacionado apenas à violência física, patrimonial e moral, mas, e fundamentalmente, à violência cultural que é praticada contra seus modos de vida. Desde a chegada do grileiro Emílio Binotto na região, as famílias tiveram seus espaços sagrados destruídos e interferidos de forma violenta pela brutal implantação da soja, a exemplo dos cemitérios e dos córregos que abasteciam a comunidade. 

Em 2016, mesmo após várias ações que comprovaram a grilagem da terra, o juiz da Comarca de Goiatins expediu liminar de despejo contra as famílias de posseiros e ocupantes. Em 2019, uma decisão da Justiça Federal determinou que o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) desse prosseguimento ao processo administrativo de regularização da posse de quatro famílias posseiras, parado desde 2010. Mas, reconheceu também ao grileiro o direito de posse de uma das 14 áreas em litígio, sendo essa uma das áreas onde são estabelecidas as famílias ocupantes.

Concretamente, houve avanços em favor das comunidades nos processos administrativos e judiciais, mas tais decisões tiveram pouco efeito no sentido de garantir a segurança das famílias e de impedir a destruição ambiental do território da Tauá. Atualmente, mais de 100 famílias vivem neste território, entre camponeses posseiros, sem-terra e camponeses tradicionais que reivindicam a regularização fundiária, a reforma agrária e terras tituladas.

Araguaína, 19 de fevereiro de 2021

Comissão Pastoral da Terra – Regional Tocantins


Foto: Thomas Bauer/CPT

Vídeo: Gustavo Ohara/CPT Tocantins

Caderno Saberes e Fazeres Quilombolas: Planos de Gestão Territorial

As comunidades quilombolas do Jalapão vem há mais de um século trabalhando, cuidando e vivendo nos seus territórios. O Jalapão é uma região que possui um ecossistema muito particular, e as comunidades quilombolas que lá vivem desenvolveram saberes e fazeres em diálogo com os rios, terras, plantas e animais que possibilitaram um viver em consonância e equilíbrio com a natureza local.

Parte das comunidades quilombolas do Jalapão vivem em conflito com unidades de conservação que foram criadas sobre seus territórios, e outras em conflito com fazendeiros, que invadiram, desmatam e destroem as
relações construídas entre os quilombolas e seus territórios. As comunidades quilombolas resistem e lutam pelos seus direitos territoriais.

O caderno Saberes e Fazeres Quilombolas: Planos de Gestão Territorial foi elaborado em diálogo entre a Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins – APA-TO; Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins – COEQTO; Associação Jalapoeira das Comunidades Quilombolas do Território de Boa Esperança – AJAQUITEBE; Associação das Comunidades Quilombolas de Carrapato, Formiga, Mata e Ambrósio; Associação Quilombola dos Extrativistas, Artesões e Pequenos Produtores do Povoado do Prata; Associação Comunitária dos Quilombos de Barra da Aroeira.

O caderno teve o objetivo de sistematizar os Saberes e Fazeres Quilombolas construindo um documento referência para o Movimento Quilombola no Tocantins a gestão territorial, contribuindo assim para as trocas de saberes entre as comunidades e a sua luta pelos seus Direitos Territoriais.

Donwloads

Clique aqui para baixar o Caderno Saberes e Fazeres Quilombolas: Planos de Gestão Territorial.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Povoado Prata.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Boa Esperança.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Barra do Aroeira.

Clique aqui para baixar o Plano de Gestão da Comunidade Quilombola Carrapato, Formiga e Ambrósio.

 

Histórico

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