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Autor: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado

Nota de Repúdio: A violência e grilagem de terras no estado do Piauí

Liderança indígena sofre despejo e tem casa queimada.

A Comissão Pastoral da Terra – Regional Piauí, ao tempo em que denuncia a grilagem de terra e a violência no campo no estado do Piauí, repudia essa prática e torna público mais um caso desumano, arbitrário e de irregularidade ao direito à terra e ao território.

Na tarde da última quinta-feira, 14 de janeiro de 2021, o MM. Juiz de direito da vara única da comarca de Gilbués (PI) Francisco das Chagas Ferreira expediu e executou uma liminar com ordem de despejo em ação movida pelo Sr. Bauer Souto dos Santos contra a liderança indígena Gamela Adaildo José Alves da Silva, residente e domiciliado no território Morro D’água do mesmo município.

Adaildo José Alves da Silva, indígena Gamela, trabalhava em sua roça enquanto sua companheira fazia o jantar e, por volta das 16h, foram surpreendidos com a presença de um oficial de justiça, Bauer Souto e sua filha, acompanhados de policiais militares e outras pessoas. Chegaram à casa de Adaildo e impuseram-lhe o despejo. Ainda houve a destruição de cercas e retirada dos bens da casa da família. Na mesma noite, um galpão, local de trabalho, foi incendiado como forma de repressão e coação da família. O desabafo de Adaildo José é um clamor às autoridades competentes para solucionar essa injustiça:

“Eu tava na roça trabalhando quando escutei minha mãe gritar, passou três caminhonetes: a polícia militar, o Bauer mais a filha, um oficial de justiça… e outros que eu não sei quem são. Eles trouxeram a ordem de despejo do juiz e eu fui obrigado a assinar. Acontece que isso foi de repente e eu não tenho como sair hoje de dentro da minha casa por causa das minhas coisas, mas eles disseram que tinha que desocupar hoje mesmo e que o oficial de justiça e a polícia ia ficar lá até sete horas e aí eu deixei meus meninos arrancando tudo lá pra levar pra casa da minha mãe, a gente já tava fazendo até a comida, já eram quatro horas, aí teve essa desordem lá. 
Eu faço um apelo às autoridades e às leis federais que tomam de conta dessa parte, os juízes, para ver qual o lado positivo… e como eu vou levar minhas coisas de uma hora pra outra se eu não tenho nem caminhonete nem caminhão? Agora eu vou perder a mandioca, o feijão, eu não entendi não. Fica meu apelo para as leis, autoridade e amigos, advogados do Brasil, pra Funai, para todo mundo”.

DEspejo Gamela PI 2021

Vale ressaltar que Adaildo José Alves da Silva é posseiro da terra, reside na mesma desde o seu nascimento e a sua mãe já era nascida na mesma localidade. A família vive na terra há quase cem anos e o território possui cerca de 1500 ha onde vivem 14 famílias. O território alvo de despejo forçado que integra a Comunidade do Morro D’Água é reivindicado como terra tradicionalmente ocupada pelo Povo Gamela e alvo de qualificação fundiária no âmbito da Fundação Nacional do Índio (Funai). Adaildo e sua família são indígenas Gamela, residem e trabalham de maneira ancestral no território.

A ordem expedida não se fundamenta visto que a região em questão é considerada terra devoluta pelo Estado e existe um processo de regularização da terra pelo Instituto de Terras do Piauí (INTERPI) onde a demarcação e georreferenciamento foram realizados, bem como um estudo antropológico que já está em fase de finalização.  

O Sr. Bauer dos Santos se apresenta como proprietário da terra, no entanto os documentos que são apresentados não possuem origem comprovada. Adaildo José em nenhum momento foi notificado sobre a ação, ou seja, os direitos à informação, ao contraditório, à ampla defesa, ao devido processo legal e à participação foram desrespeitados na ação executada, o que a torna ilegal.

Adaildo José também é defensor de direitos humanos ameaçado de morte. Isso quer dizer que o despejo forçado representa uma violação de repercussão coletiva afetando, portanto, a todo o Povo Gamela e tentando deslegitimar a sua atuação como liderança – lutar não é crime!

Solidarizamos-nos com a família de Adaildo José Alves da Silva, com o povo Indígena Gamela e a todos que lutam em defesa dos direitos humanos, que como Adaildo são vítimas dessas violações.

Exigimos das autoridades competentes uma célere investigação e responsabilização dos culpados contra esse ato de violação dos direitos humanos, o acompanhamento e a assistência à família afetada.  

Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Regional Piauí

15 de Janeiro de 2021


 Imagens: Reprodução / CPT Piauí

Retrospectiva de ações e atividades no Cerrado em 2020

Sabemos que o ano de 2020 não foi um ano fácil. Mas gostaríamos de celebrar a perseverança e a capacidade de nos reinventar enquanto coletivo que demonstramos ter. Nesse sentido queremos fazer uma retrospectiva e relembrar algumas atividades da Campanha no ano que se passou:

Bem no início da pandemia realizamos a pesquisa Primeiras reflexões sobre a situação das comunidades do Cerrado frente à pandemia do coronavírus, que também evidenciou as ações de solidariedade que estavam sendo conduzidas pelas redes e organizações no Cerrado. 

Organizamos uma série de bate-papos virtuais sobre os “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade”, com a participação de lideranças de povos indígenas e comunidades quilombolas, quebradeiras de coco, raizeiras, geraizeiras, fechos de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, retireiras, pantaneiras e pescadoras artesanais, bem como assessoras e assessores desses povos e pesquisadoras/es aliadas/os. Aprendemos muito com esses diálogos. 

Articulamos um processo de ampla colaboração na feitura de uma série de artigos no Le Monde Diplomatique Brasil a partir dos bate-papos e publicamos o livro “Saberes dos Povos dos Cerrados e Biodiversidade”. Recebemos tantas mensagens de pessoas que se encantaram com o livro.

A Campanha também tratou do tema do livro em episódio especial do Guilhotina, o podcast do Le Monde Diplomatique Brasil, e de outros assuntos importantes para os povos e comunidades tradicionais da região. 

Lançamos este novo site da Campanha! Essa era uma vontade nossa há um tempo e conseguimos concretizar esse ano. Você já navegou um pouco? Está lindo e repleto de informações sobre os povos do Cerrado, seus saberes e lutas. 

Realizamos o Encontro Virtual das Mulheres do Cerrado, com o tema “Mulheres do Cerrado construindo resistências”, no qual mais de 100 mulheres de territórios quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco, retireiras do Araguaia, geraizeiras e tantas outras debateram sobre  “Capitalismo, patriarcado e machismo, racismo e etnocentrismo como estruturante da realidade social”.

RETRO 2020 01 1

A Campanha se engajou ativamente na Articulação em defesa dos povos e territórios do Pantanal, Cerrado e Amazônia diante do desmatamento e queimadas, que realizou as ações #AgroÉfogo: uma carta pública assinada por diversas entidades, aprovação pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) resolução nº 42, de 27 de outubro de 2020, com recomendação aos governos estaduais e federal sobre as queimadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal e projetações de denúncia em diversas capitais brasileiras.

Em 2020, os grileiros e desmatadores não entraram em quarentena e os conflitos seguiram em muitos territórios, como pudemos acompanhar nas ações de resistência da comunidade tradicional pesqueira de Cajueiro e da comunidade quilombola Cocalinho, no Maranhão, com a luta dos indígenas na Bacia do rio Formoso no Araguaia tocantinense, das comunidades tradicionais no Sul do Piauí, e na resistência das comunidades quilombolas do Jalapão contra a reabertura do turismo. Seguimos acompanhando esses e outros conflitos e resistências dos povos do Cerrado a partir do chamado dos territórios.

Algumas organizações membro organizaram atividades e séries virtuais em parceria com a Campanha que trouxeram novos aprendizados:

– A ActionAid lançou em parceria com a Campanha a série Giro pelo Cerrado, que traz relatos dos territórios sobre os modos de vida e sua relação com a biodiversidade no Cerrado.

– A ActionAid organizou em parceria com a Campanha, AATR, CPT, ISPN, MPA e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, duas Oficinas virtuais sobre Direitos Territoriais: História da legislação fundiária e luta pela terra no Brasil; e Reforma Agrária no Brasil e Direitos Territoriais dos Povos Indígenas e Tradicionais.

– A CPT lançou em parceria com a Campanha a Websérie “Povos do Cerrado”, que apresenta saberes ancestrais, modos de vida, riquezas dos povos e comunidades tradicionais do Cerrado, além das ameaças enfrentadas por estes. O primeiro vídeo está disponível e a série continua.

Algumas organizações da Campanha também organizaram atividades e séries virtuais nas quais a defesa do Cerrado tem/teve grande importância: a Websérie da CESE (R)Existências no Cerrado, a Semana Agroecológica da Articulação Tocantinense de Agroecologia (ATA), a Semana da Terra e das Águas Padre Josimo (TO), o programa de áudio do ISPN ”Canto da Coruja: Comunidade”, e o “Podcast: Aqui é o meu lugar”, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

A Campanha também organizou, em parceria com o Grupo Carta de Belém, uma cartilha que demonstra as falácias do discurso “ambiental” da ministra da Agricultura: Jogo dos 7 erros da Entrevista da Ministra Teresa Cristina

Algumas organizações da Campanha lançaram importantes publicações que vale muito à pena conhecer:

– A APA-TO lançou a pesquisa sobre Juventudes Rurais no Bico do Papagaio (TO), um diagnóstico a partir da entrevista a 245 jovens do extremo norte do estado do Tocantins, que revelou que as juventudes rurais querem ficar no campo, mas falta a efetivação de políticas públicas.

– A AATR lançou o estudo Legalizando o Ilegal que analisa a flexibilização das legislações fundiária e ambiental dos quatro estados do Matopiba, processos de que viabilizam o avanço da grilagem.

– A CPT lançou o novo número da Revista Cerrados, apresentando os diversos impactos na biodiversidade do Cerrado e nos territórios onde vivem seus povos ocasionados pelo uso intenso de agrotóxicos pelo agronegócio nas lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, entre outras monoculturas.

– A GRAIN, AATR, CPT e a ABRA lançaram o Caderno de Estudos – Mudanças atuais das Leis de Terras: do golpe político ao golpe fundiário, com o objetivo de subsidiar a atuação nos territórios acompanhados pelas organizações e movimentos de luta pela terra, para assim contribuir no enfrentamento às novas investidas legais contra as terras públicas e os assentamentos de reforma agrária, potencializadas pela edição da Lei 13.465/17.

***

Para esse ano de 2021 que se inicia, reafirmamos: É tempo de esperançar!


 Imagem: Andressa Zumpano

Ervanário São Francisco de Assis – Memórias, saberes e práticas de uma raizeira do Cerrado

Clique aqui para acessar o arquivo em PDF.

Este conteúdo é uma prévia da publicação de autoria de Tantinha Aparecida Arruda. A produção é uma realização do Ervanário São Francisco de Assis em parceria com a Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas (REDE) e a Articulação Pacari Raizeiras do Cerrado. Para adquirir a obra completa, faça contato com a própria escritora  (31) 9 8564-7083.

Por que lutar contra o acordo UE-Mercosul

Em manifesto, organizações sociais alertam: em um momento de crise crescente, aprovar acordo assimétrico e colonialista vai acelerar reprimarização e devastação de biomas. O retorno será pífio para os países sul-americanos. Confira:

Frente de organizações da sociedade civil brasileira contra o Acordo Mercosul – União Européia

As organizações da sociedade civil brasileira abaixo subscritas manifestam a sua oposição à assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Convocamos o Parlamento brasileiro a promover amplo debate com a sociedade sobre os impactos que o acordo poderá trazer aos povos, aos trabalhadores e trabalhadoras e aos territórios do país.

Ainda que o acordo Mercosul-UE seja baseado em três pilares, com base no conhecimento de outros acordos assinados com o bloco europeu ao redor do mundo, o pilar comercial tem primazia e os elementos ditos de proteção aos direitos humanos e ambiental ficam em segundo plano. Consideramos que a abertura comercial, nos termos deste acordo, trará impactos socioeconômicos, trabalhistas, fundiários, territoriais, ambientais e climáticos significativos para o Brasil, e os demais países do Mercosul, tendo como maiores beneficiários as empresas transnacionais interessadas na importação de matérias primas baratas, na privatização de serviços e na ampliação de mercado para seus produtos industrializados.

Ao trocar commodities agrícolas e minerais por produtos industrializados de maior valor agregado, o acordo estimula o aprofundamento da desindustrialização, da reprimarização da economia, da evasão de divisas e a sonegação de impostos nos países do Mercosul. A abertura do setor industrial aos países do bloco europeu, aumentará a importação de produtos similares aos já produzidos no Brasil, gerando impacto para o setor e mais desemprego. Ademais, reforçará a competitividade perversa, em que os ganhos que o agronegócio possa ter, implicarão em destruição ambiental e perdas para o setor industrial e para os direitos e renda dos trabalhadores/as, além de concentrar a produção em setores intensivos em energia e água.

No setor de serviços, além de transformar o direito ao acesso a serviços essenciais como água, energia, saneamento, saúde e educação, em mercadorias, observa-se o estímulo às privatizações. São muitos os exemplos de tragédias sociais em várias cidades e/ou estados brasileiros onde serviços essenciais foram privatizados, como no caso da água e saneamento em Manaus e do escandaloso caos que viveu a população do Estado do Amapá pela crise na energia elétrica, por falta de investimento de uma empresa privada – para garantia de mais lucros. Com o acordo há risco de seguir excluindo parcela crescente da população que não poderá pagar pelo serviço, gerando endividamento familiar e piora das condições de vida, em especial, da população negra, pobre e periférica nas cidades, sendo as mulheres, idosos e crianças sempre as mais prejudicadas. A liberalização dos serviços financeiros contribui para a desregulamentação financeira, que levou à crise anterior em 2008. Num contexto de crise econômica e social aprofundado pela pandemia de Covid-19 e pelo congelamento promovido pelo teto de gastos, esse processo fica ainda mais preocupante.

Do ponto de vista ambiental e climático, o acordo contribui para a devastação do conjunto dos biomas e regiões brasileiras: Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampas, e a região do semiárido. O fim das alíquotas de exportação para variadas commodities agrícolas e minerais como o minério de ferro e a ampliação de cotas para carne, etanol e açúcar, por exemplo, vão gerar expansão da produção e dos corredores logísticos da pecuária, do complexo soja e cana-de-açúcar. O avanço do agronegócio viola os modos de vida dos povos indígenas e populações tradicionais e seus direitos territoriais. Nesse sentido, reforça os principais vetores de desmatamento e queimadas que vêm impactando os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris e as Metas de Aichi sobre proteção da biodiversidade.

O capítulo de comércio e desenvolvimento sustentável não fornece mecanismos para sua exigibilidade. A menção neste capítulo da obrigatoriedade na implementação do Acordo de Paris é insuficiente, dada a não aplicação de soluções de controvérsias nesse capítulo e a fragilidade do próprio acordo climático em relação às suas medidas vinculantes e falsas soluções como o mercado de carbono. Além disso, as questões ambientais e climáticas não entram como elementos essenciais do acordo político. Por isso, as alusões a estas questões soam como retórica, tentando disfarçar como alguma preocupação ambiental os reais objetivos do documento: aumentar o comércio das grandes empresas exportadoras de bens, serviços e capitais.

O acordo incentiva a expansão do modelo biotecnológico agrícola baseado no uso extensivo de agrotóxicos. Esses produtos afetam diretamente a saúde dos trabalhadores rurais, da população do campo e da cidade, tanto do Mercosul como da UE. O caso do Brasil é emblemático, pois nunca foram aprovados tantos agrotóxicos e ingredientes ativos como nos últimos três anos. Muitos desses são proibidos na Europa. Isso gera questionamentos sobre a ausência do Princípio da Precaução no acordo Mercosul-UE no capítulo de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias, deixando em aberto se as empresas europeias seguirão com seu duplo padrão de atuação em países do Sul onde a população é tratada como cidadãos de segunda classe ou as populações europeias irão ter seus direitos do consumidor violados por padrões mais baixos de controle.

Na área de compras governamentais, o acordo prevê que pequenas e médias empresas locais devem competir em pé de igualdade com as multinacionais europeia, como se tratar igualmente os desiguais fosse justo para se tornarem fornecedores estatais abrindo um precedente para competir em licitações estaduais e municipais, restringindo a possibilidade de promover o emprego local como política pública no Brasil que passou recentemente a fazer parte da lista de países que integram o mapa da fome. Poderá ter impacto em políticas fundamentais para a agricultura familiar e camponesa como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), com profundo impacto para as mulheres, já que a maioria das fornecedoras desses programas são agricultoras.

Consideramos preocupante que o acordo tenha sido negociado pelos governos do Mercosul sem nenhum mecanismo de transparência: não foram apresentados estudos de impacto e nenhum diálogo foi buscado com os setores afetados ou com a academia. Na Europa, existem profundos questionamentos aos estudos de impactos realizados, baseados normalmente em premissas favoráveis a conclusão dos acordos, sem analisar os impactos abrangentes de todos os capítulos sobre a saúde, os ecossistemas, o mundo do trabalho, os direitos humanos e territoriais, para as mulheres, para os agricultores e agricultoras familiares e camponeses/as, violando os modos de vidas e a dimensão sociocultural dos povos indígenas e povos e comunidades tradicionais do campo-cidade-floresta.

Os resultados esperados deste acordo são tão pouco promissores, que na Europa há um crescente questionamento por parte de governos, parlamentares e sociedade civil organizada, sobre sua aprovação. Nos países do Mercosul, porém, o apoio dos governos ao acordo parece tácito e mostra a falta de busca de alternativas reais de integração. No Brasil, em particular, o governo de Jair Bolsonaro tenta fechar o acordo para obter uma vitória no campo da política externa e reacomodar os interesses de setores empresariais pouco comprometidos com o país. O relatório “Avaliação de Impacto Sustentável” (AIS) publicado pela Comissão Europeia apresenta resultados preocupantes ao estimar que o acordo elevará em 0,1% o PIB da UE em dez anos, ao mesmo tempo em que recuará em 0,1% o PIB dos países do Mercosul.

Em um momento em que a crise e a recessão já estão instaladas no Mercosul, e ainda diante dos desafios impostos pela pandemia, aprovar um acordo assimétrico e que reproduz a lógica colonial de eternos fornecedores de matérias primas e importadores de bens industrializados seria um verdadeiro desastre. Rejeitamos que o Brasil assine esse acordo, que prevê enormes consequências negativas socioambientais ao mesmo tempo em que retrocede nos níveis econômicos e produtivos.

Brasil, 9 de dezembro de 2020

Plenária da Frente Brasileira contra o Acordo União Europeia-Mercosul e EFTA

1. ALTERNATIVAS PARA A PEQUENA AGRICULTURA NO TOCANTINS (APA TO)
2. AMIGOS DA TERRA BRASIL
3. ARTICULAÇÃO DE MULHERES BRASILEIRAS (AMB)
4. ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB)
5. ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA (ANA)
6. ARTICULAÇÃO PACARI RAIZEIRAS DO CERRADO (PACARI SE)
7. ARTICULAÇÃO ROSALINO DE POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS (AR)
8. ASSOCIAÇÃO AGROECOLÓGICA TIJUPÁ
9. ASSOCIAÇÃO ALTERNATIVA TERRA AZUL (TERRAZUL)
10. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA (ABED)
11. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ONGS NÃO GOVERNAMENTAIS (ABONG)
12. ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS (AS) DE TRABALHADORES(AS) RURAIS DA BAHIA (AATR-BA)
13. ASSOCIAÇAO DE FAVELAS DE SAO JOSÉ DOS CAMPOS (AFSJC)
14. ASSOCIAÇÃO DOS GEÓGRAFOS BRASILEIROS (AGB)
15. ASSOCIAÇÃO XARAIÉS (XARAIÉS)
16. ATIVISMO URBANO.(A.U)
17. BRIGADAS POPULARES (BPS)
18. CAMPANHA ANTIPETROLEIRA NEM UM POÇO A MAIS!
19. CAMPANHA NACIONAL EM DEFESA DO CERRADO
20. CAMPANHA PERMANENTE CONTRA OS AGROTÓXICOS E PELA VIDA
21. CASA 8 DE MARÇO – ORGANIZAÇÃO FEMINISTA DO TOCANTINS (ENCAMTO)
22. CENTRO DE AGRICULTURA ALTERNATIVA DO NORTE DE MINAS (CAA/NM)
23. CENTRO DE APOIO E PROMOÇÃO DA AGROECOLOGIA (CAPA)
24. CENTRO DE ASSESSORIA E APOIO A INICIATIVAS SOCIAIS (CAIS)
25. CENTRO DE DIREITOS HUMANOS E EMPRESAS (HOMA)
26. CENTRO DE TECNOLOGIAS ALTERNATIVAS DA ZONA DA MATA (CTA-ZM)
27. CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA (CTI)
28. COMISSÃO PASTORAL DA TERRA (CPT)
29. COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DE SÃO PAULO (CPI-SP)
30. COMISSÕES PASTORAIS DA CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
31. COMITÊ BELGO BRASILEIRO (CBB)
32. COMITÊ DE ENERGIA RENOVÁVEL DO SEMIÁRIDO (CERSA)
33. CONFEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NO SERVIÇO PÚBLICO MUNICIPAL – CUT (CONFETAM/CUT)
34. CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NA AGRICULTURA FAMILIAR DO BRASIL (CONTRAF BRASIL)
35. CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES EM ESTABELECIMENTOS DE ENSINO (CONTEE)
36. CONSELHO DE MISSÃO ENTRE POVOS INDÍGENAS (CIMIN)
37. CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO (CIMI)
38. CONSELHO NACIONAL DE IGREJAS CRISTÃS DO BRASIL (CONIC)
39. CONSELHO PASTORAL DOS PESCADORES (CPP)
40. COORDENAÇÃO NACIONAL DE ARTICULAÇÃO DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS QUILOMBOLAS (CONAQ)
41. COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇO (CESE)
42. DEFENSORES DO PLANETA
43. FEDERAÇÃO DE ORGÃOS PARA ASSISTÊNCIA SOCIAL E EDUCACIONAL (FASE)
44. FEDERAÇÃO DOS SINDICATOS SERVIDORES PÚBLICOS NO ESTADO DE SÃO PAULO (FESSP-ESP)
45. FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA MUNICIPAL DO RIO GRANDE DO NORTE (FETAM/RN)
46. FEDERAÇÃO NACIONAL DO FISCO ESTADUAL E DISTRITAL (FENAFISCO)
47. FEDERAÇÃO NACIONAL DOS PSICÓLOGOS (FENAPSI)
48. FEDERAÇÃO NACIONAL DOS URBANITÁRIOS (FNU)
49. FÓRUM DA AMAZÔNIA ORIENTAL (FAOR)
50. FÓRUM DAS ONGS AIDS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FOAESP)
51. FÓRUM DAS ONGS AIDS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FOAESP)
52. FÓRUM ECUMÊNICO ACT BRASIL (FE ACT BRASIL)
53. FÓRUM MATO-GROSSENSE DE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (FORMAD)
54. FÓRUM MUDANÇAS CLIMÁTICAS E JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL (FMCJS)
55. FÓRUM NACIONAL DA SOCIEDADE CIVIL EM COMITÊS DE BACIAS HIDROGRÁFICAS (FONASC.CBH)
56. FUNDAÇÃO LUTERANA DE DIACONIA (FLD)
57. GESTOS – SOROPOSITIVIDADE, COMUNICAÇÃO, GÊNERO
58. GRAIN
59. GRUPO CARTA DE BELÉM (GCB)
60. GRUPO DE ESTUDOS EM EDUCAÇÃO E MEIO AMBIENTE (GEEMA)
61. GRUPO DE TRABALHO SOBRE PROPRIEDADE INTELECTUAL (GTPI)
62. GRUPO SEMENTE SEMEANDO PARA O DESENVOLVIMENTO SOCIOAMBIENTAL (GRUPO SEMENTE)
63. GT BIODIVERSIDADE DA ARTICULAÇÃO NACIONAL DE AGROECOLOGIA (GTBIO)
64. INICIATIVA DIREITO À MEMÓRIA E JUSTIÇA RACIAL (IDMJR/RJ)
65. INSTITUTO AMAZÔNICO DE PLANEJAMENTO, GESTÃO URBANA E AMBIENTAL (IAGUA)
66. INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS (IBASE)
67. INSTITUTO CARACOL (ICARACOL)
68. INSTITUTO EQUIT- GÊNERO, ECONOMIA E CIDADANIA GLOBAL (INSTITUTO EQUIT)
69. INSTITUTO MAIS DEMOCRACIA
70. INSTITUTO POLÍTICAS ALTERNATIVAS PARA O CONE SUL (PACS)
71. INSTITUTO REGIONAL DA PEQUENA AGRICULTURA APROPRIADA (IRPAA)
72. INSTITUTOS DE ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (INESC)
73. INTERNACIONAL DOS SERVIÇOS PÚBLICOS (ISP)
74. INTERNATIONAL ACCOUNTABILITY PROJECT (IAP)
75. INTERNATIONAL RIVERS BRASIL
76. JUSTIÇA NOS TRILHOS
77. KOINONIA PRESENÇA ECUMÊNICA E SERVIÇO (KOINONIA)
78. MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES (MMM)
79. MARCHA MUNDIAL DO CLIMA
80. MARCHA MUNDIAL POR JUSTIÇA CLIMÁTICA
81. MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS (MMC)
82. MOVIMENTO DE MULHERES NEGRAS DA FLORESTA – DANDARA (MMNFDANDARA)
83. MOVIMENTO DE TRABALHADORES SEM TETO (MTST)
84. MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS (MAB)
85. MOVIMENTO DOS CONSELHOS POPULARES (MCP)
86. MOVIMENTO DOS PEQUENOS AGRICULTORES (MPA)
87. MOVIMENTO DOS PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS (MPP)
88. MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA (MST)
89. MOVIMENTO NACIONAL CONTRA CORRUPÇÃO E PELA DEMOCRACIA (MNCCD)
90. MOVIMENTO PELA SOBERANIA POPULAR NA MINERAÇÃO (MAM)
91. OBSERVATÓRIO NACIONAL DOS DIREITOS A ÁGUA E AO SANEAMENTO (ONDAS)
92. OPERAÇÃO AMAZÔNICA NATIVA (OPAN)
93. ORGANIZAÇÃO PELO DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO E À NUTRIÇÃO ADEQUADAS (FIAN BRASIL)
94. PASTORAL OPERÁRIA NACIONAL
95. PROCESSO DE ARTICULACÃO E DIÁLOGO (PAD)
96. RED DE GENERO Y COMERCIO (RGYC)
97. REDE BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL (REBEA)
98. REDE BRASILEIRA PARA INTEGRAÇÃO DOS POVOS (REBRIP)
99. REDE ECONOMIA E FEMINISMO (REF)
100. REDE EMANCIPA MOVIMENTO SOCIAL DE EDUCAÇÃO POPULAR (REDE EMANCIPA)
101. REDE JUBILEU SUL
102. REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS (REDE SOCIAL)
103. SEMPREVIVA ORGANIZAÇÃO FEMINISTA (SOF)
104. SERVIÇO FRANCISCANO DE SOLIDARIEDADE (SEFRAS)
105. SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTRES (SPM)
106. SINDICATO DAS PSICÓLOGAS E DOS PSICÓLOGOS NO ESTADO DE SÃO PAULO (SINPSI-SP)
107. SINDICATO DE SAUDE DE GUARULHOS E REGIÃO (SINDSAÚDE GUARULHOS E REGIÃO)
108. SINDICATO DOS AGENTES FISCAIS DE RENDAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (SINAFRESP)
109. SINDICATO DOS EMPREGADOS DOS ESTABELECIMENTOS DE SERVIÇOS DE SAÚDE DE CURITIBA (SINDESC)
110. SINDICATO DOS ENFERMEIROS DO RIO GRANDE DO SUL (SERGS)
111. SINDICATO DOS ENFERNMEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO (SEESP)
112. SINDICATO DOS METALÚGICOS DO ABC (SMABC)
113. SINDICATO DOS TRABALHADORES EM SAÚDE NO ESTADO DO PARÁ (SINDSAÚDE/PA)
114. SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS DA PURIFICAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE ÁGUA E EM SERVIÇOS DE ESGOTO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL (SINDIÁGUA/RS)
115. SINDICATO DOS TRABALHADORES PÚBLICOS DA SAÚDE NO ESTADO DE SÃO PAULO (SINDSAÚDE-SP)
116. SOS CORPO INSTITUTO FEMINISTA PARA A DEMOCRACIA (SOS CORPO)
117. TERRA DE DIREITOS
118. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” (UNESP)
119. VIA CAMPESINA BRASIL


 Imagem: Thomas Bauer

Sabonete de Coco Macaúba da Dona Raimunda

Raimunda Francisca Gonçalves Lopes é agricultora, mora na comunidade de Sapé, município de Jaboticatubas –MG, e participa, junto com o marido Dazinho – Dázio JoséLopes, da feira Raízes do Campo – a Feira Agroecológicade Jabó. O sabonete de dicuada do azeite do cocomacaúba, também conhecido por sabão preto, é oprincipal produto que Dona Raimunda leva para a feira.Aprendeu a fazer o sabonete com a sogra, Dona MariaBejamina, em 1992. De lá para cá, inovou a receitaacrescentando plantas medicinais que cuidam da pele edo cabelo.

Autoria de Raimunda Francisca Gonçalves Lopes e Dázio José Lopes. Belo Horizonte (MG), Novembro de 2020.

Clique aqui para acessar o arquivo.

Animação resgata histórias e lutas pela terra no Brasil

Lançado no dia 17 de dezembro, material é uma produção da Campanha em Defesa do Cerrado e da ActionAid Brasil

“A gente já sabe, mas não custa lembrar: não foram os portugueses que descobriram o Brasil”. É com essa lembrança que começa a animação “Histórias e Lutas pela Terra no Brasil”, a primeira da websérie “Cerrado dos Povos”, produzida pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pela ActionAid Brasil. O material audiovisual foi lançado no dia 17 de dezembro de 2020 em formato digital e pode ser acessado gratuitamente.

Em 2020 os povos indígenas e as comunidades tradicionais do Cerrado enfrentaram muitos desafios. Agravados pela pandemia, os conflitos agrários, os incêndios criminosos e o crescimento do desmatamento fizeram parte da vida das pessoas que vivem na região. Apesar do cenário de destruição, os povos cerradeiros resistem.

De acordo com Emmanuel Ponte, assessor de campanhas da ActionAid Brasil, o lançamento do vídeo, neste contexto, nos ajuda a compreender que as lutas de ontem desaguam nas resistências de hoje. “Precisamos conhecer nossa história para compreender que os conflitos de hoje não surgiram este ano. As raízes são profundas e precisamos refinar nossa compreensão para melhor organizar nossos projetos de valorização e defesa dos povos e da biodiversidade do Cerrado”, destaca.

A produção do vídeo foi uma construção coletiva e balizada por uma pesquisa e levantamento de informações que contou com o apoio de diversas organizações e comunidades que compõem a Campanha em Defesa do Cerrado. “Para além do objetivo de comunicar, o material visa se tornar um instrumento formativo e que já está disponível para ser utilizado pelas comunidades tradicionais e pelas entidades, movimentos e organizações do campo socioambiental”, explica o assessor da ActionAid.

O material formativo é uma iniciativa do Projeto “Articulação em rede e participação social para a conservação do Cerrado”, realizado pela ActionAid e Campanha em Defesa do Cerrado com o apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF). A primeira exibição do vídeo aconteceu na última oficina virtual da Campanha, realizada em 27 de novembro, contando com participantes de territórios e comunidades tradicionais dos estados do Tocantins, Maranhão e Piauí.

Se você tem interesse em baixar o vídeo para utilizar com fins educacionais, entre em contato com a Campanha em Defesa do Cerrado através do e-mail contato@campanhacerrado.org.br. 


Serviço:

Lançamento do vídeo formativo “Histórias e lutas pela Terra no Brasil”

Realização: Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e ActionAid Brasil

Pesquisa e Conteúdo: Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR)

Parceria: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

Produção audiovisual: Estúdio Animadissimos


 Texto: Bruno Santiago/Campanha em Defesa do Cerrado

Imagem do destaque: Estúdio Animadissimos

Organizações sociais lançam Caderno de Estudos sobre Leis de Terras

“A Liberdade da Terra não é assunto de lavradores.
A Liberdade da Terra é assunto de todos quantos
se alimentam dos frutos da Terra” (A FALA DA TERRA – Pedro Tierra)

Em Live que será realizada no dia 17/12 (quinta-feira), a partir das 18h00, CPT, GRAIN, AATR e ABRA lançarão a publicação “Caderno de Estudos – Mudanças atuais das Leis de Terras: do golpe político ao golpe fundiário”. O debate, que será mediado por Isolete Wichinieski, da coordenação nacional da CPT, contará com a participação de: Larissa Packer, do Grain, que discutirá sobre a Corrida por Terras no Brasil e Principais Alterações Lei 13.465/17; Afonso Chagas, assessor Jurídico da CPT, e Mauricio Correia, da AATR, contribuirão no debate sobre as Alterações nas Leis estaduais de Terras – Amazônia e Matopiba; Acácio Leite, da ABRA, debaterá o tema dos Assentamentos e a Contra-reforma agrária. A atividade terá, ainda, a presença de Deborah Duprat, que abordará o tema da Suspensão da Reforma Agrária e o protocolo da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF – protocolada na última semana no Supremo Tribunal Federal (STF).

Card Caderno Lei Terras 01O Caderno de Estudos, organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), GRAIN, Associação de Advogada/os de Trabalhadores Rurais (AATR) e Associação Brasileira de Reforma (ABRA) tem como principal objetivo subsidiar a atuação nos territórios acompanhados pelas organizações e movimentos de luta pela terra, para assim contribuir no enfrentamento às novas investidas legais contra as terras públicas e os assentamentos de reforma agrária, potencializadas pela edição da Lei 13.465/17.

Dado o contexto de avanço do capital estrangeiro sobre as terras públicas e os territórios de vida das populações do campo, ao mesmo tempo em que ocorre o explícito desmonte das políticas públicas de reforma agrária, além de alterações legais que agravam a situação de violação de direitos humanos destes povos, este Caderno contribui no debate e resistência, ao apontar as principais alterações nas leis, as principais ilegalidades, assim como possíveis caminhos para o enfrentamento destas ameaçadas nos territórios e por toda a sociedade.


Acompanhe e participe da Live de lançamento do Caderno nos canais de Youtube e Facebook da @CPTNacional

Texto e card: Comissão Pastoral da Terra (CPT)

Foto: Thomas Bauer / CPT

CPT lança revista com denúncias sobre os impactos do uso de agrotóxicos no Cerrado

A segunda edição da Revista Cerrados aponta as manobras do agronegócio junto ao Governo Federal para flexibilizar as leis referentes a agrotóxicos no Brasil

Fonte: Comissão Pastoral da Terra (CPT) | Arte capa: Estúdio Massa | Foto: Glória Sarmiento

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) lança, nesta terça-feira (15), a segunda edição da Revista Cerrados. A publicação traz os diversos impactos à biodiversidade do  Cerrado e nos territórios onde vivem seus povos ocasionados pelo uso intenso de agrotóxicos pelo agronegócio nas lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão entre outras monoculturas.

Dentre os dados preocupantes apontados pela revista, destaca-se que até agosto deste ano estava autorizada, pelo Governo Federal, a comercialização de mais de 2,8 mil produtos agrotóxicos no Brasil. Desde o início de 2019 foram autorizados 745 novos venenos pela gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Os textos ainda relacionam o aumento do uso de agrotóxicos aos casos de intoxicação de pessoas nos estados que compõem a chamada última fronteira agrícola do Matopiba (acrônimo dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), bem como destrincham as diversas manobras do governo em direção ao desmonte e flexibilização da legislação referente a agrotóxicos no país.

“O objetivo da Revista Cerrados é ser um espaço de denúncias das violências e destruição da sociobiodiversidade do Cerrado, mas também ser um instrumento de informação e formação para comunidades, organizações parceiras, pesquisadores e população em geral”, afirma Valéria Santos, membro da coordenação editorial da revista.

Capa-RevistaCerrados-BX_1.pngPor outro lado, a publicação abre espaço para as boas novas a partir de saberes e práticas agroecológicas vindas de territórios dos povos e comunidades tradicionais, como resistências a esse projeto de morte. As mulheres auto-organizadas de comunidades rurais da Baixada Cuiabana, em Mato Grosso, se reconhecem como guardiãs do Cerrado e se colocam em processo de resgate cultural e de transformação na construção de uma sociedade com relações sociais e ambientais mais saudáveis.

Também como instrumento efetivo de soberania alimentar, sem a aplicação de venenos e degradação do Cerrado, a Revista analisa experiências agroecológicas construídas a partir dos saberes centenários dos povos do Cerrado. “Para conhecimento e reconhecimento das riquezas dos modos de vida dos povos cerratenses, a Revista traz os anúncios das lutas dos povos por terra, agroecologia, soberania alimentar e territórios livres de agrotóxicos”, complementa Valéria. 

A Revista Cerrados é uma iniciativa da Comissão Pastoral da Terra através da Articulação das CPT’s do Cerrado – que reúne os seus Regionais presentes nesta região – e contou com a colaboração na produção dos textos de agentes pastorais e pesquisadoras e pesquisadores acadêmicos cerratenses e militantes na defesa dos povos e territórios do Cerrado: Aline Mialho, Cecília Amália Cunha Santos, Leomar Daroncho, Patrícia Dias Tavares, Murilo Mendonça Oliveira de Souza, Cleber Adriano Rodrigues Folgado, Sandra Procópio da Silva e Leonardo Melgarejo.

Baixe gratuitamente, no site da CPT, a 2ª Edição da Revista Cerrados. No portal da Pastoral, você também pode encontra a primeira edição da pubicação.

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR A REVISTA


Mais informações:
Amanda Costa (assessoria de comunicação da CPT Nacional): (62) 99309-6781

Rafael Oliveira (assessoria de comunicação): (63) 99101-7760

2020: o ano do fim do mundo… como o conhecemos

Pandemia, retorno da pobreza extrema e da fome ao país, injustiças, criminalização, queimadas e a boiada passando, deliberadamente, sobre os territórios, povos e biomas. Dados parciais de conflitos no campo em 2020, registrados pela CPT e divulgados agora, mostram um pouco da conjuntura agrária neste ano.

Fonte: Cristiane Passos – assessora de comunicação CPT Nacional

Imagem principal: Leandro dos Santos

EN – PARTIAL DATA “CONFLITOS NO CAMPO 2020” – 2020: the year of the end of the world… as we know it

Para além da conjuntura política desastrosa que acomete a todos e todas no Brasil, o ano de 2020 começou com um grande impacto mundial, uma pandemia de proporções ainda não vistas na contemporaneidade. O novo Coronavírus desestruturou o modelo capitalista imposto à sociedade e desgastou, ainda mais, os países que vêem atualmente sua democracia fragilizada.

Para os povos do campo, das águas e das florestas, colocados à parte desde o início desse governo genocida, este ano foi mais um desafio dentre os tantos que enfrentam, contornado com os princípios que sua ancestralidade e cuidado com a casa comum sempre os ensinaram: somos todos um e a terra, se bem cuidada, proverá. Dessa forma, veio do campo a maior demonstração de solidariedade e altruísmo frente aos desafios do coronavírus. 

Sendo assim, em 2020 o Centro de Documentação da CPT – Dom Tomás Balduino registrou diversas doações como Manifestações de Luta, entendendo que essas foram uma forma de resistência, relacionadas a reivindicações históricas, como reforma agrária, soberania alimentar entre outras. Essas novas formas de manifestações, baseadas na solidariedade, por meio da doação de alimentos, refeições e itens de higiene, em ações coordenadas principalmente pelos movimentos e organizações sociais camponesas, também contou, muitas vezes, com o apoio de sindicatos e federações. 

O Centro de Documentação registrou até o final de novembro 181 ações do tipo, somando 823,39 toneladas de alimentos doados. Os estados que mais fizeram ações de doação de alimentos foram Alagoas (28), Paraná (24), Rio Grande do Sul (24), Pernambuco (22) e Santa Catarina (18). Nessas ações, o Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST) esteve presente em 110, a CPT em 40 e o Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) em 14.

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Com aval do governo, a boiada e o fogo passaram pelos biomas

Além da pandemia, que já apontava como este ano seria desastroso em várias dimensões, no Brasil, ainda tivemos que lidar com outros problemas também devastadores. Vimos nossos biomas serem consumidos pelas chamas, enquanto os órgãos reguladores do meio ambiente eram desmontados. O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, sorrindo, assistia a tudo enquanto “deixava a boiada passar”. Metáfora muito apropriada à liberação da prática de crimes em toda a extensão natural brasileira.

O ano ainda nem acabou e o número de focos de calor na Amazônia já superou o alcançado em todo ano de 2019. Até o dia 22 de outubro, foram registrados 89.602 focos de calor no bioma, ultrapassando os 89.176 do ano anterior, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). No Cerrado foram cerca de 56 mil focos de incêndio no mesmo período. Vimos o Pantanal, um dos maiores santuários ecológicos do país, com rica fauna e flora, ser engolido pelo fogo. Voluntários e voluntárias, pessoas indignadas com a situação, corriam contra o tempo tentando salvar o que restava e os animais feridos. 

Além disso, abandonadas pela Funai, 60% das terras indígenas foram devastadas por mais de 100 mil focos de incêndio. O estado do Mato Grosso foi o mais afetado do início do ano até final do mês de outubro, com um aumento de 1.300% nas queimadas nos territórios tradicionais, em relação ao ano de 2019. Mesmo juntando esforços, indígenas reclamaram da falta de estrutura para combater o fogo, enquanto outros grupos acusaram a Funai e o governo de omissão*.

Além do estado do Mato Grosso, o Pará, mais especificamente a região do Xingu, viu o crescimento da onda de desmatamento em 2019 resultar em invasões de terras indígenas e no consequente aumento das queimadas, completando o ciclo devastador dos grupos invasores contra os territórios tradicionais. Os altos números de focos de calor nessas áreas foram registrados principalmente em setembro, pelo INPE. Aumentando sua a presença nos territórios, os invasores apostam na regularização fundiária, pois creem nas promessas do governo genocida e já estão, inclusive, loteando áreas dentro das reservas por conta própria. 

No dia 19 de novembro, uma base da Fundação Nacional do Índio (Funai) foi cercada por um grupo de invasores na Terra Indígena (TI) Apyterewa, localizada às margens do rio Xingu. A região é historicamente marcada pela presença de madeireiros, que invadem a TI para extrair madeira. Cerca de 40 agentes do Ibama e da Força Nacional estavam na área em uma operação para combater o desmatamento. A tomada da base pelos invasores foi uma reação a esse trabalho. Vídeos que circulam na internet mostram os homens queimando uma ponte e bloqueando a estrada para impedir a passagem dos agentes do Ibama. Mesmo com apoio pífio dos órgão competentes, algumas ações de fiscalização ainda tentam combater os crimes nos territórios. Porém, amparados no discurso “bolsonarista” e “sallista” contra indígenas, os invasores se sentem mais fortalecidos para agir contra a lei e, por vezes, contra os agentes da lei.

De acordo com reportagem da DW**, “das cinco Terras Indígenas (TIs) que mais queimaram em setembro no Pará, quatro estão na bacia do rio Xingu, somando 83% dos focos de calor nesse tipo de área no estado. As TIs Kayapó (do povo mebêngôkre kayapó), Apyterewa (dos parakanã), Cachoeira Seca (dos arara) e Trincheira Bacajá (dos xikrin) têm também altos índices de desmatamento: em 2019, estavam nas primeiras posições, em toda a Amazônia. O grande número de queimadas deste ano acompanha o aumento exponencial do desmatamento em 2019, quando a área de floresta derrubada nas quatro terras indígenas mais que dobrou em relação ao ano anterior. O fogo completa, assim, o ciclo do desmatamento, iniciado com a retirada da floresta. Os dados de desmatamento e queimadas nesses territórios tradicionais e os relatos dos indígenas indicam uma relação entre o aumento da presença de invasores com um aumento da retirada de mata e focos de fogo, que ameaçam os povos indígenas do Xingu”.

Violência contra a ocupação e a posse

Entre os dados parciais de conflitos divulgados hoje, o Centro de Documentação da CPT registrou, em 2020, 1.083 ocorrências de violência contra a ocupação e a posse, que atingiram 130.137 famílias. Em dados absolutos de 2019, foram registradas 1.254 ocorrências com 144.742 famílias envolvidas. 

Desses dados, os mais impressionantes são os de invasão de territórios, sendo os indígenas as maiores vítimas. Em 2020, a CPT registrou 178 ocorrências de invasão de territórios, contra 55.821 famílias. 

Em 2019, a CPT havia registrado, em números absolutos, 09 invasões envolvendo 39.697 famílias. Isso mostra um aumento de quase 1.880% no número de ocorrências, e ainda estamos falando em dados parciais. Em relação ao número de famílias vítimas desse tipo de violência, houve um aumento de cerca de 40%. 

Das categorias que sofreram essa violência em 2020, 54,5% do total foram de indígenas. 11,8% foram de famílias quilombolas e 11,2% de posseiros, conforme pode ser verificado no gráfico abaixo:

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Além disso, 62 ações de pistolagem contra 3.859 famílias foram registradas em 2020, quase o triplo em relação a 2019, já que no ano passado foram registrados 21 desses crimes, em números absolutos.

Violência contra a pessoa

Foram registrados pela CPT em 2020, 18 assassinatos em conflitos no campo. O Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno ainda aguarda informações sobre outras mortes, que ainda podem ser inseridas. Entre elas, um massacre que vitimou quatro pessoas, sendo 3 da mesma família, na saída de um garimpo no norte do Mato Grosso, no dia 21 de novembro. O garimpo, localizado em Aripuanã, a 976 km de Cuiabá, foi legalizado em julho de 2019. Foram mortos Elzilene Tavares Viana, de 41 anos, conhecida como Babalu; o filho dela, Luiz Felipe Viana Antônio da Silva, de 19 anos; o marido dela, Leôncio José Gomes, de 40 anos; e Jonas dos Santos, de 25 anos (que era garimpeiro). A polícia não informou o que as vítimas faziam no local. Ano passado, no final de outubro, outra chacina similar aconteceu no garimpo. Três pessoas da mesma família, pai, filho e genro, foram mortos dentro de uma caminhonete. O triplo assassinato ocorreu a 14 km da cidade e dentro do garimpo, que foi alvo de operação para desocupação menos de um mês antes do crime, acirrando ainda mais os ânimos na região. 

Entre os dados parciais registrados e apresentados pela CPT neste momento, consta o massacre no rio Abacaxis, que vitimou indígenas e ribeirinhos. No dia 7 de agosto um indígenas foi morto e, dois dias depois, no dia 9, três ribeirinhos foram assassinados. O conflito teria sido iniciado no dia 24 de julho, após o secretário executivo do Fundo de Promoção Social do Governo do Amazonas, Saulo Moysés Rezende Costa, junto a um  grupo de pessoas, ter adentrado a área do rio Abacaxis para realizar pesca esportiva, sem licença ambiental e desrespeitando o isolamento social, por conta da pandemia. O território, invadido pelo grupo, é reivindicado pelo povo indígena Maraguá. A pesca esportiva e o turismo na área requerem emissão de licença ambiental. Neste conflito o secretário acabou ferido no braço.

No dia 03 de agosto, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP-AM) enviou policiais do Comando de Operações Especiais e do Batalhão Ambiental da Polícia Militar para realizar uma operação que teria como finalidade alegada coibir o tráfico de drogas na região. Durante a ação, conforme apuração do Ministério Público Federal (MPF), os policiais não estavam fardados e abordaram vários ribeirinhos e indígenas sem se identificarem como policiais. Esses ainda teriam usado a mesma embarcação de turismo que transportou o grupo de pessoas, no qual estava o secretário, no dia 24 de julho.

Nesta operação, dois policiais morreram em uma suposta emboscada a traficantes. Por conta da morte dos policiais, a Polícia Militar organizou uma operação no rio Abacaxis que envolveu cerca de 50 policiais. Em seguida à operação, o MPF recebeu diversas denúncias por parte das populações ribeirinhas, indígenas e comunidades da região, afirmando que a PM praticou vários abusos. Entre as denúncias, foram listadas, conforme relatos locais, o uso de armas de fogo para intimidar aos moradores, crianças e idosos; a proibição de circular pelo rio; uso indevido de forças policiais para serviços particulares; tortura; cerceamento de liberdades individuais e coletivas; queima de casas e execuções.

As comunidades locais afirmam que os abusos ocorreram por retaliação ao revide da invasão do dia 24 de julho. Foram confirmadas, então, após a ação policial, a morte de um indígena Munduruku, três ribeirinhos e o desaparecimento de dois adolescentes e um indígena Munduruku, além da morte de dois policiais militares, um suposto traficante e seis pessoas feridas.

O governo criminaliza enquanto o judiciário pune e se omite

2020 foi um ano cheio de investidas contra a luta popular e os territórios dos povos do campo. Diversas ameaças de despejo e despejos pairaram sobre as comunidades. Um dos despejos mais marcantes foi o do acampamento Quilombo Campo Grande, no Sul de Minas. Esse fica para a história como o mais longo do século XXI no Brasil. Uma operação programada para começar e terminar na manhã do dia 12 de agosto tornou-se uma saga que deixou profundas marcas nas lutas sociais do estado. Por 56 horas, famílias sem-terra resistiram pacificamente à pressão da Polícia Militar, dia e noite, no meio de uma estrada, sob o sol forte e o frio da madrugada, respirando poeira e ouvindo ameaças.

Em meio à pandemia, com a recomendação de autoridades para evitar aglomerações, 150 policiais esgotaram as vagas dos hotéis nas cidades de Campo do Meio e Campos Gerais. Durante a madrugada, a tropa cercou o acampamento com helicóptero, carros, drones, balas, bombas, escudos e cassetetes. Era o 12º despejo na trajetória do Quilombo Campo Grande, uma área com 11 acampamentos, cerca de 450 famílias e mais de 2 mil pessoas.

Considerado um dos maiores acampamentos do MST em Minas Gerais, o Quilombo Campo Grande ocupa a área da antiga fazenda de Ariadnópolis, outrora pertencente à Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia). Por décadas, o local foi marcado pelo plantio de cana para a produção sucroalcooleira, como também pela presença de trabalho infantil e trabalho análogo à escravidão. No local é produzido o famoso café Guaií, cultivado sem uso de agrotóxicos e várias vezes premiado pela excelente qualidade.

O Judiciário, que poderia servir como uma barreira aos atos omissivos do Poder Público, assim não o faz. O tratamento da reforma agrária pelo governo federal é um exemplo. Desde o ano passado o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) paralisou os processos de desapropriação de imóveis para fins de reforma agrária. Por meio do Memorando-Circular nº 01/2019, o presidente da autarquia determinou às unidades regionais a suspensão das atividades de vistorias de imóveis rurais para fins de obtenção de terras. O orçamento da autarquia para o ano de 2020 reduziu a quase zero diversas funções importantes*** e relatório do governo confirma que a obtenção de terras não é uma prioridade.

Além disso, o Incra desistiu de processos administrativos de desapropriação que já estavam em andamento e também pediu a suspensão de outros processos judiciais. De acordo com dados enviados pela autarquia ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), mais de 400 processos estão paralisados, sendo que alguns deles estavam em fase final, apenas aguardando imissão na posse.****

No dia 09 de dezembro, movimentos populares, entidades do campo e partidos políticos protocolaram uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) junto ao Superior Tribunal Federal (STF), para que sejam reconhecidas e sanadas as graves lesões aos preceitos fundamentais da Constituição Brasileira praticadas por órgãos federais do Estado, decorrentes da paralisação da reforma agrária e da não destinação das terras públicas federais a essa finalidade. O texto foi estruturado em três eixos principais: Paralisação da reforma agrária, grilagem de terra no Brasil e criminalização dos movimentos e organizações populares, e cita que: “com o Presidente Jair Bolsonaro a reforma agrária passou a ser tratada como uma ‘pauta adversária’, a ser eliminada”. O governo também suspendeu a realização de vistorias em imóveis rurais, o que implica, na prática, a impossibilidade de fiscalizar o cumprimento da função social da propriedade, primeiro passo no processo de desapropriação de imóveis rurais para fins de reforma agrária.

Os dados elencados no documento mostram que aquilo que poderia ser visto como uma cautela de início do governo revelou-se uma diretriz permanente e em vigência até o presente momento. Outro ponto destacado no texto é a constitucionalidade da reforma agrária que é uma política central para a redução da desigualdade no país.

Os movimentos lembram ainda no documento que: “a paralisação da reforma agrária provoca insegurança jurídica em uma ampla gama de beneficiários, que aguardam há anos o andamento dos processos.”

Assim como as ações de controle de constitucionalidade, a ADPF tem como objetivo a prevalência da rigidez constitucional e a segurança jurídica.

O relatório “Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, da Oxfam Brasil, mostra que enquanto as grandes propriedades correspondem a 0,91% do total dos estabelecimentos rurais brasileiros e abrangem 45% de toda a área rural do país, aqueles com área inferior a 10 hectares representam mais de 47% do total de estabelecimentos e, por sua vez, ocupam menos de 2,3% da área total. Uma reforma agrária no Brasil, além de urgente, ainda se mostra necessária para combater a concentração fundiária e as desigualdades sociais que são produzidas por ela. 

A Constituição Federal ressalta o caráter fundamental da função social da propriedade rural. Dessa forma, o Estado tem o dever de identificar os imóveis que não cumprem a função social e, com isso, aplicar a lei, desapropriando as propriedades que não cumprem a Constituição e destinando-as para a reforma agrária. Desde a redemocratização, pelo menos 9.341 projetos de assentamentos foram implantados, beneficiando cerca de 1 milhão de famílias.*****

Mesmo em uma emergência sanitária conflitos pela água permanecem

Segundo o Centro de Documentação da CPT, em dados parciais de 2020, foram registrados 189 conflitos pela água envolvendo 34.525 famílias em todo o Brasil. Durante todo o ano de 2019, 489 conflitos  atingiram 69.793 famílias.

Apesar da queda no número total de ocorrências, destacamos a região Centro-Oeste que, mesmo em dados parciais, ultrapassou todo o ano de 2019 com 21 ocorrências de conflitos pela água e 2.836 famílias atingidas. Enquanto no ano anterior foram registrados 13 conflitos na região, atingindo 616 famílias, o número de famílias impactadas no Centro-Oeste por conflitos pela água em 2020 mais que quadruplicou. Além disso, das 21 ocorrências registradas, 15 foram contra indígenas,  envolvendo 2.449 famílias, o que corresponde a  86% das famílias impactadas por esses conflitos na região. 

Já no total dos conflitos pela água no Brasil, observamos que a categoria mais impactada foi a de ribeirinhos:

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A maior parte dos conflitos por água registrados foi causada por mineradoras internacionais, conforme gráfico a seguir:

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43,4% dos conflitos pela água registrados em 2020 foram causados por mineradoras internacionais. Há cinco anos, completados em novembro deste ano, assistíamos ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, de propriedade da empresa Samarco. A barragem, que continha 43,8 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, assassinou 19 pessoas e deixou, pelo menos, 1,9 milhão de pessoas atingidas ao longo da bacia do Rio Doce, de Minas Gerais ao litoral do Espírito Santo. Em Brumadinho, em 2019, a Barragem B1 da Mina do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, tinha capacidade para armazenar 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos e também se rompeu, soterrando 270 pessoas (11 ainda estão desaparecidas). 

Mesmo com as sucessivas tragédias, e com a anuência do governo, os projetos de mineração continuam a se expandir em território nacional. Uma barragem que está projetada para ter uma capacidade para suportar 845 milhões de metros cúbicos de rejeitos e que impactará diversas comunidades entre o norte de Minas Gerais e sul da Bahia, compõe o Projeto Bloco 8 da Sul Americana de Metais (SAM), empresa de capital chinês. Atualmente o empreendimento tenta, a todo custo, ser licenciado. Essa seria a segunda maior barragem de rejeitos de mineração do mundo, podendo gerar 1,5 bilhão de toneladas de rejeitos em apenas 18 anos, época de sua vida útil.

O Projeto Bloco 8 é uma ampliação de um projeto inicial da Votorantim Novos Negócios, criado em 2009, originalmente intitulado “Projeto Salinas” e depois “Projeto Vale do Rio Pardo”. Sua versão inicial prevê a construção de um complexo extrativista (mina e barragens) abrangendo quatro municípios no norte do estado de Minas Gerais, Grão Mogol, Padre Carvalho, Fruta de Leite e Josenópolis, e a construção de um mineroduto de 482 km de extensão para escoamento do minério de ferro produzido. Esse mineroduto cruzaria 09 municípios de Minas Gerais e outros 12 municípios da Bahia até o Complexo Portuário e de Serviços Porto Sul, em Ilhéus (BA), outro megaempreendimento que recentemente teve suas obras autorizadas. 

Ambos trarão impactos a um corredor ecológico de remanescentes da Mata Atlântica, área onde se cultiva cacau e que é refúgio de espécies raras. É neste porto que a água poluída seria descartada e o minério exportado para o mercado siderúrgico da China.

A Covid e os povos tradicionais

Se a pandemia está destruindo populações ao redor do mundo com o seu poder mortal, em relação aos povos tradicionais ela mostra um impacto ainda mais devastador. Segundo a Coordenação da Articulação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), até o dia 11/11/2020, 4.635 quilombolas foram infectados pelo vírus e 168 perderam a vida por causa dele. Nos territórios indígenas, de acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), até o início do dia 23/11/2020, 39.826 indígenas, de 161 povos, foram infectados pelo vírus e 880 indígenas morreram em decorrência dele. 

De acordo com a APIB, entre os principais fatores de fragilização dos povos indígenas diante da pandemia, estão a falta de atendimento da SESAI aos indígenas que vivem em contexto urbano e fora de territórios que não são homologados. É recorrente hospitais registrarem indígenas que vivem em contexto urbano como pardos. 

Por conta própria e para evitar a proliferação do vírus nos territórios, muitas comunidades fizeram barreiras sanitárias, buscando impedir invasores e, a partir  disso, também, o vírus. O Centro de Documentação registrou, em dados parciais, 267 ocorrências de barreiras sanitárias no Brasil, envolvendo 48.562 famílias. Cerca de 84% do total das barreiras sanitárias foram feitas em territórios indígenas. 

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As eleições e os povos tradicionais

De acordo com dados da APIB e do Instituto Socioambiental (ISA), as eleições municipais de 2020 trouxeram boas notícias para os povos indígenas do Brasil. Foram eleitos 237 representantes de povos originários para os cargos de vereador, vice-prefeito e prefeito, 28% a mais do que na eleição municipal anterior.

O percentual de indígenas vitoriosos sobre o universo total de pessoas eleitas também cresceu. Neste ano, os indígenas foram 0,34% de todos os eleitos, contra os 0,26% de há quatro anos. O número é pequeno, mas também é pequeno o percentual de pessoas que se declaram indígenas, de acordo com o último Censo, de 2010: 0,47% da população brasileira.

Também houve alta na representatividade das mulheres indígenas. Em 2016, foram eleitas 15 mulheres de povos originários no Brasil, 8% de todos os indígenas eleitos naquele ano. Em 2020, foram 41 mulheres eleitas, que representam 17% de todos os indígenas que terão cargos eletivos municipais a partir de janeiro. A expansão também ocorreu no número de candidatos indígenas de ambos os gêneros: havia o nome de 2.216 deles nas urnas neste ano, alta de 29% em relação ao último pleito municipal. 

Entre os quilombolas houve, também, uma participação considerável no pleito eleitoral deste ano. De acordo com dados da CONAQ, 500 quilombolas concorreram e, destes, 81 foram eleitos em diferentes estados brasileiros. Para o Executivo, foram eleitos o quilombola Vilmar Kalunga, do maior quilombo do Brasil, como prefeito da cidade de Cavalcante, em Goiás. Outro quilombola foi eleito no Tocantins e outros 9 como vice-prefeitos. A maioria dos quilombolas que estarão nas câmaras municipais em 2021 foram eleitos no Maranhão, onde ocuparão 14 cadeiras. Em Goiás, 8 candidaturas quilombolas foram eleitas. Em Minas Gerais foram 7. No Tocantins, foram 8. Em Sergipe e no Piauí, foram 2 em cada estado, entre outros.

Diante de todo este panorama que já se apresenta, reforçamos que na luta por direitos é imprescindível ocupar todos os espaços. 


*https://reporterbrasil.org.br/2020/11/abandonadas-pela-funai-60-das-terras-indigenas-sao-devastadas-100-mil-focos-de-incendio/ 

**https://www.dw.com/pt-br/invas%C3%A3o-de-terras-ind%C3%ADgenas-no-xingu-paraense-impulsiona-queimadas/a-55131088 

***http://www.incra.gov.br/pt/media/docs/relatorio-gestao/INCRA-2019.pdf 

****https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/09/bolsonaro-incrementa-verba-para-ruralistas-e-reduz-quase-a-zero-a-reforma-agraria.shtml 

*****https://www.brasildefatorj.com.br/2020/11/04/direito-e-direito-reforma-agraria-da-paralisacao-a-criminalizacao-dos-sem-terra#.X6M7lvyMhTc.gmail

Seu Joca, morador mais antigo do Cajueiro, está sob ameaça de ser expulso do território

“Eu não estou ocupando a terra de ninguém, eu ocupo o que é meu. Tenho raiz aqui”. As palavras firmes e cansadas são do seu João Germano da Silva Seu (Joca de 86 anos), um dos moradores mais antigos do Cajueiro. Ainda sob as ameaças do contágio da Covid-19, adoentado com uma inflamação no pé que inviabiliza a sua locomoção, ele recebeu esta semana, a notícia sobre a imissão provisória de posse em favor da empresa Tup Porto São Luís, para a construção de complexo portuário, no território em que vive há mais de 40 anos.

Violência institucional

São inúmeras as violências praticadas contra o seu Joca. A começar pela sua condição de idoso. O Estado do Idoso, em seu artigo 37, garante que o “idoso tem direito a moradia digna, no seio da família natural…”. A Constituição Federal assegura no artigo 230 que o “…Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida”.

A decWhatsApp_Image_2020-12-11_at_12.08.45.jpegisão judicial, oficializada pelo juiz Marcelo Oka, traz o pedido de reforço policial hábil a amparar a execução da imissão na posse. “Uma violência cometida pelo Judiciário por meio de um processo tendencioso com vários vícios processuais e questionado pelo Ministério Público e com total apoio do Governo do Estado ao empreendimento chinês que atenderá ao agronegócio”, enfatizou as vozes dos apoiadores do Cajueiro.

“O que é que eu quero, eu morando aqui no Cajueiro, com todo o sossego, com toda a paz, o que é que eu quero com um porto pra atracar navio? Isso aí o governador tem interesse nisso aí, mas eu não tenho”, desabafou seu Joca em depoimento ao Raízes do Cajueiro, uma rede social de denúncias e resistência a tudo que acontece no território.

Seu Joca e mais quatro famílias foram/são alvo de ações de desapropriação movida pela empresa. Atualmente, somente ele resiste na área mais próxima do complexo portuário. O irmão Pedro Sírio, que mantinha o mesmo posicionamento em não deixar a sua história pra trás, faleceu de Covid-19 no primeiro semestre desse ano.
Eles construíram suas vidas e seus lares próximo a praia de Parnauaçu. Lembra que quando chegou descia há qualquer hora para pescar. No quintal de sua casa, conta a história de cada árvore plantada, há mais de 40 anos. “É uma luta tremenda, tão chata. Eu nunca tinha visto uma coisa dessas. Eles dizem: eu tenho muito dinheiro e eu faço o que eu quiser, aqui quem manda sou eu”, finalizou.

Histórico do Cajueiro
Agosto/2019 – Violenta reintegração de posse no território do Cajueiro
Outubro/2019 – Caso é denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos
Fevereiro/2020 – audiência tendenciosa com o aval do juiz Marcelo foi realizada e não houve acordo com seu Joca e seu Pedro
Março/2020 – Anulado decreto estadual que gerou despejos no território do Cajueiro
Junho/2020 – Revogação da anulação do Decreto pelo Tribunal de Justiça do Maranhão
Dezembro/2020 – Omissão provisória de posse em favor da empresa Tup Porto São Luís

Processo tendencioso
O MPE, por meio da Promotoria Especializada em Conflitos Agrários, coloca em cheque a validade do documento imobiliário apresentado pela empresa portuária. A suspeita é que exista uma organização criminosa que teria grilado terras na região e agido para o empreendimento avançar.


 Fonte / Imagens: Coletivo de Comunicação em apoio ao Cajueiro

Em ano marcado por pandemia e ofensivas ao meio ambiente, livro apresenta importância dos saberes dos povos do Cerrado

Livro “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade”, fruto de ampla colaboração, é lançado pela Campanha nesta segunda, 07 de dezembro, em seu novo portal

“Nós, seres humanos que vivemos nas matas, nós somos a biodiversidade”, afirma dona Socorro Teixeira, quebradeira de coco babaçu do Bico do Papagaio (TO). Inspirados em palavras como as da trabalhadora rural, no Dia Internacional da Biodiversidade, 22 de maio, em plena pandemia de Covid-19, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado iniciou uma série de nove bate-papos virtuais centrados nos povos que promovem a conservação da biodiversidade do Cerrado: indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, raizeiras, geraizeiros, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiros do Araguaia, pescadores artesanais, vazanteiros, pantaneiros, assentados de reforma agrária e tantos outros. 

Os encontros virtuais se desdobraram em uma série especial de artigos publicados em parceria com o Le Monde Diplomatique online. Na sequência, esses artigos, alguns com versões ampliadas, foram compilados neste livro, que também conta com a parceria do veículo de comunicação.

A publicação parte dos povos do Cerrado e de seus modos de vida tradicionais e nos leva até as suas formas de resistência diante de uma pandemia e dos desafios cotidianos. “A diversidade e a riqueza de saberes dos povos do Cerrado são um imenso patrimônio sociocultural desconhecido da maioria dos brasileiros. Esperamos que esse livro abra uma porta para quem tem aprendido a amar o Cerrado, se encantar com essa história ancestral, que segue se reinventando no presente e futuro”, explica Diana Aguiar, assessora da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e uma das organizadoras da publicação.

O livro, em suas 254 páginas, traz relatos e análises que mostram que esses saberes tradicionais vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação — em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultural — está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora, e para o futuro. 

Site 

“Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade” é lançado juntamente com o novo portal da Campanha (campanhacerrado.org.br). O site se destaca por reunir dezenas de publicações, materiais educativos e de audiovisual sobre a biodiversidade, os inúmeros povos do Cerrado e os conflitos socioambientais, que podem ser baixados gratuitamente. São produções realizadas, ao longo de anos de atuação neste território, pelas mais de 50 organizações, pastorais e movimentos populares que compõem a Campanha, além de redes e entidades parceiras. Neste espaço, além da biblioteca, a população também é incentivada a contribuir com a Campanha enviando, por exemplo, denúncias e conteúdos sobre a região.


SERVIÇO

Lançamento, na segunda-feira, 07/12, do livro “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade” e do novo portal da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado > https://campanhacerrado.org.br/saberespovoscerrado

Mais informações

Elvis Marques (assessoria da comunicação): +55 62 99113-8277

Bruno Santiago (assessoria de comunicação): +55 11 99985-0378

imprensa@campanhacerrado.org.br

Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança neste mês de dezembro o livro “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade”, fruto de um amplo processo colaborativo. O livro é uma ode aos povos do Cerrado, verdadeiros guardiões e multiplicadores das riquezas dessa imensa região.

Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Macro-Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani e Kaiowá) e Arawak (como os Terena). São comunidades quilombolas, como os Kalunga, os jalapoeiros e centenas de outras pelos sertões do Cerrado. São comunidades tradicionais, tão diversas como o próprio Cerrado e que têm suas vidas entrelaçadas nas árvores e plantas, bichos, chapadas, vales e águas da região, como as quebradeiras de coco-babaçu, raizeiras, geraizeiras, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiras, pescadoras artesanais, vazanteiras e pantaneiras. São, ainda, as assentadas e assentados de reforma agrária e outras populações de base camponesa.

Os artigos que compõem este livro ecoam a memória ancestral de que as paisagens onde a biodiversidade do Cerrado vibra não são representações de uma natureza intocada, mas sim patrimônios históricos e socioculturais, fruto da convivência e cuidado dos povos com o Cerrado. Ao mesmo tempo, os relatos e análises mostram que esses saberes tradicionais vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação — em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultural — está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora, e para o futuro.


Diana Aguiar é assessora política da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Pesquisadora de Pós-Doutorado no CPDA/UFRRJ. Helena Lopes é especialista em Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid e Doutoranda em Ciências Sociais no CPDA/UFRRJ. Ambas coordenam esta publicação.

Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado lança neste mês de dezembro o livro “Saberes dos Povos do Cerrado e Biodiversidade”, fruto de um amplo processo colaborativo. O livro é uma ode aos povos do Cerrado, verdadeiros guardiões e multiplicadores das riquezas dessa imensa região.

Clique aqui para baixar o arquivo em PDF.


Os povos do Cerrado são diversos. São indígenas de tronco Macro-Jê (como os Xerente, Xakriabá, Apinajé e Xavante), mas também Tupi-Guarani (como os Guarani e Kaiowá) e Arawak (como os Terena). São comunidades quilombolas, como os Kalunga, os jalapoeiros e centenas de outras pelos sertões do Cerrado. São comunidades tradicionais, tão diversas como o próprio Cerrado e que têm suas vidas entrelaçadas nas árvores e plantas, bichos, chapadas, vales e águas da região, como as quebradeiras de coco-babaçu, raizeiras, geraizeiras, fecho de pasto, apanhadoras de flores sempre-vivas, benzedeiras, retireiras, pescadoras artesanais, vazanteiras e pantaneiras. São, ainda, as assentadas e assentados de reforma agrária e outras populações de base camponesa.

Os artigos que compõem este livro ecoam a memória ancestral de que as paisagens onde a biodiversidade do Cerrado vibra não são representações de uma natureza intocada, mas sim patrimônios históricos e socioculturais, fruto da convivência e cuidado dos povos com o Cerrado. Ao mesmo tempo, os relatos e análises mostram que esses saberes tradicionais vão se transformando, sendo desenvolvidos e continuamente testados, adaptados e reinventados por meio do manejo consciente das paisagens, ao longo de inúmeras gerações, e por isso mesmo são resilientes, diversos e apropriados a cada lugar. Essa conexão entre tradição e inovação — em meio a uma profunda crise ecológica mundial e mesmo após décadas de devastação do Cerrado pelo agronegócio monocultural — está entre os maiores legados dos povos do Cerrado, partilhando horizontes de vida, agora, e para o futuro.


Diana Aguiar é assessora política da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e Pesquisadora de Pós-Doutorado no CPDA/UFRRJ. Helena Lopes é especialista em Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid e Doutoranda em Ciências Sociais no CPDA/UFRRJ. Ambas coordenam esta publicação.