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Dia Mundial da Água: lucro para poucos, escassez e contaminação para muitos

A crise hídrica no Cerrado não é parte do curso natural de nosso planeta ou natureza. É consequência de um modelo que concentra, contamina e mercantiliza um bem essencial à vida. E essa é uma preocupação constante para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. 

Neste Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, reforçamos nosso compromisso com a proteção das águas, dos territórios e das vidas dos povos indígenas e das comunidades tradicionais que habitam o Cerrado brasileiro.

Conhecido como o “berço das águas” do Brasil, o Cerrado é essencial para a sobrevivência de nossa sociedade: abastece oito das doze bacias hidrográficas do país e mantém uma profunda conexão com outros biomas. As chuvas da Amazônia, por exemplo, estão intrinsecamente ligadas à capacidade de armazenamento de água no Cerrado.

No entanto, nas últimas quatro décadas, 91% das bacias hidrográficas dessa ecorregião sofreram redução em sua superfície de água natural. Essa perda impacta diretamente a disponibilidade hídrica, agravando a escassez em mais de 300 municípios brasileiros.

É urgente reconhecer que o Cerrado vive um processo de ecogenocídio, que não apenas dizima sua sociobiodiversidade e exaure seus rios e nascentes, mas também ameaça, expulsa e vitima os povos e comunidades tradicionais que nele residem.

Quem vive com os pés no chão do Cerrado sabe que essa destruição está diretamente relacionada às mudanças climáticas e a um modelo de exploração que transforma a água em mercadoria.

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Drenos que secam brejos e plantio com maquinários - Pimenteira do Oeste (RO). Foto: Thomas Bauer/CPT-H3000

Outorgas que secam territórios

A Campanha Nacional em Defesa do Cerrado denuncia, de forma contundente, o crescente número de outorgas de uso da água concedidas a grandes empreendimentos. Na prática, esses mecanismos têm permitido que empresas invadam territórios tradicionais, perfurem o solo e se apropriem de volumes imensos de água, o que compromete nascentes, rios e aquíferos que sustentam comunidades inteiras.

Enquanto isso, povos e comunidades tradicionais enfrentam a escassez, vendo suas fontes de água secarem ou serem contaminadas. O uso intensivo de agrotóxicos pelo agronegócio agrava ainda mais esse cenário, envenenando águas superficiais e subterrâneas e colocando em risco a saúde humana, os modos de vida e a biodiversidade do Cerrado.

Os principais responsáveis por essa devastação são empresas nacionais e internacionais ligadas ao agronegócio, à mineração e à exploração de recursos naturais - além de estados estrangeiros e do próprio Estado brasileiro, que viabiliza esse modelo por meio de políticas permissivas e da concessão dessas outorgas.

Em meio à crise climática e à crescente aposta em soluções de mercado travestidas de ações ambientais, povos indígenas e comunidades tradicionais do campo, das águas e das florestas seguem sendo os menos ouvidos nos debates sobre o futuro do planeta. Paradoxalmente, são eles os mais impactados pelos grandes empreendimentos e pela devastação ambiental que avança sobre seus territórios.

Neste 22 de março, a Campanha reafirma: defender o Cerrado é defender nossas águas. E defender as águas é garantir o direito à vida, aos territórios e à existência de modos de vida tradicionais de povos que historicamente cuidam dessa ecorregião.

Sem Cerrado, não há água. Sem água, não há vida.

Povos e comunidades, Águas